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17.04.09
Charlie Kaufman é o queridinho dos alternativos, autor de roteiros badalados como o de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças. Em Sinédoque, Nova York ele escreve e dirige. E então o filme pode ilustrar a distância que existe entre colocar uma ideia em palavras e transpô-la em seguida para outra linguagem; no caso, a do cinema.
Não que Sinédoque, Nova York não tenha interesse. Pelo contrário. Em ambiente tão medíocre quanto o do cinema contemporâneo, até destoa pela originalidade. Falta-lhe, no entanto, pulso para manter um argumento de fato fora dos padrões esperados de modo a torná-lo estimulante para o destinatário. Quer dizer, equilibrar a recusa da redundância com a virtude da inteligibilidade.
A figura central é a do dramaturgo Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), cujo processo criativo implica a própria vida na obra de arte. Dito assim, parece a maior banalidade do mundo. Afinal, todo artista coloca sua vida na obra que produz (do contrário não é artista). Cotard o faz literalmente, a ponto de habitar com seu elenco um teatro por longos anos. É o sentido da figura de linguagem, a sinédoque, que ocupa o título. O que era uma maneira de dizer passa, na figuração, a sê-lo de modo concreto.
Dessa forma, Kaufman procura investigar a dinâmica da criação, com quais elementos é feita uma ficção e como ela se relaciona com a realidade, com a verdade da existência do criador. A trama rola entre o casamento do dramaturgo com uma artista plástica (Catherine Keener) e o seu relacionamento por fora com a bilheteira do teatro (Samanta Morton). O filme tem momentos estimulantes para quem gosta de uma trama psicológica intrincada, digamos à maneira de David Lynch. Não agrada tanto a quem prefere enredos mais lineares.
(Caderno 2, 17/4/09)
Comentários:
Comentário de: Peter Schiling [Visitante] · http://www.sportstwo.com
17.04.09 @ 18:30Quem são os alternativos? Rótulos vagos, crítica vazia.
Para que, então, comentar?
Comentário de: Xokito Cunha [Visitante]
21.04.09 @ 10:30O louco, no bom sentido, roteirista e agora diretor Kaufman, fez os roteiros como "Quero Ser John Malkovich" (1999) e "Adaptação" (2002), ambos dirigidos por Spike Jonze -- que agora é produtor de produção aqui, roteirista também de Brilho eterno de uma mente sem lembranças - imerge na cabeça dos personagens e a forma como esses pensamentos, desejos, frustrações se materializam. Uma viagem psicologiamente interessante.
Em Sinédoque, Nova York, o ponto é Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), o dramaturgo neurótico, casado com uma mulher tão atormentada quanto ele (Catherine Keener, de "Na Natureza Selvagem"), e cuja filha pequena é a soma exata das neuroses dos pais. As pessoas que cercam o protagonista também parecem sofrer de males emocionais, como a psiquiatra egoísta (Hope Davis, de "Confidencial"), que só pensa em transformar seu novo livro em best seller. É um recheio de complexidade / conflitos da classe média americana, com um roteiro que nos faz pensar em nossas angústias, seja qual for a classe social.
Comentário de: dieguito [Visitante]
09.06.09 @ 23:15O que o Xokito Cunha escreveu, em seus comentários, está parecendo muito mais com uma crítica jornalística do filme do que o colunista deste blog escreveu.
Comentário de: Wanderson Mosco [Visitante] · http://www.revistaladoa.com.br/website/artigo.asp?id_categoria=648&cod=1592&idi=1&xmoe=84&moe=84
04.08.09 @ 11:19Gostei muito do formato da sua crítica. Não me interessa ser conduzido pelo critico segundo seu ponto de vista para uma idéia pré formatada da obra a que me proponho assistir. Você consegue ser imparcial e dessa forma apenas desenhar um esboço permitindo a liberdade da opinião própria de seus leitores; sem, claro, deixar-nos recomendações bem construtivas...
Comentário de: Julio [Visitante]
27.08.09 @ 19:40Sempre é válido quando trata-se do eterno questionamento, nascimento/amor/vida/morte.
Mesmo com toda a piração do Kaufma, já vista em oytros filmes me fez muito bem vê-lo, apesar se ser nas sessão das 14:00 de um dia totalmente ensolarado.
Eu estava atormentado aquele dia, por isto a identificação.
Comentário de: julio [Visitante]
27.08.09 @ 19:46O pessoal aqui confunde a intenção do BLOG, não é para questionar a opinião do crítico, é para talvez argumentar e ajudar na compreensão do filme, a crítica é a crítica, por que será que a expressão foi jogada p/ o pejorativo? Todo o artista do circuíto ou do underground precisa da crítica, é o termômetro, força amigos, é o que temos...
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Crítico de cinema, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo
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