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14.05.09

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Críticas 09:10:37.

É evidente que, num documentário sobre Wilson Simonal, a questão sobre se foi ou não informante da polícia política acabe ficando em primeiro plano. Mas é bom dizer, desde logo, que Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Cavito Leal, vai além desse julgamento da posteridade.

É, antes de tudo, um filme bem pensado e bem montado. Traz trechos das apresentações ao vivo de Simonal, úteis para quem não o conheceu, emocionantes para quem viveu aquele tempo. Vendo as imagens, não há mistificação possível: Simonal foi um entertainer sem igual. Acompanhado pelo trio Som 3, comandava a galera do jeito que bem entendia. Seu ápice foi reger o Maracanãzinho lotado, 30 mil pessoas que obedeciam ao seu comando e faziam coro com ele. É brilhante.

Mas - e isso também o filme mostra - essa facilidade de comunicação talvez tenha sido uma armadilha. Simonal era muito talentoso e dotado, do ponto de vista musical. Dizem que tinha ouvido absoluto, pegava as melodias no ar e dispunha, em seu arsenal de cantor, de um sentido de divisão rítmica impecável. Tinha bela voz. Cantou - sem passar vergonha, ao contrário - em dueto com a diva norte-americana Sarah Vaughan. Um The Shadow of Your Smile de antologia. Com seus dotes, poderia ter optado por um caminho artístico de alto nível. Escolheu embalar auditórios ao som de canções ingênuas como Meu Limão, Meu Limoeiro, ou maliciosas como Mamãe Passou Açúcar em Mim. Ganhou, claro, muito dinheiro com isso. E também desafetos. Tinha três Mercedes-Benz na garagem, saía com loiras e mantinha o nariz em pé. Isso não se perdoa em país que disfarça a discriminação sob o engodo da democracia racial.

Há que balançar todos esses fatores. E, mesmo assim, como saber do caráter de um biografado? Pelas imagens, mas também pelos depoimentos. O filme ouve vários personagens: os dois filhos, Max de Castro e Simoninha; Nelson Motta, Jaguar, Ricardo Cravo Albim, Chico Anysio, Sérgio Cabral, Pelé, entre outros. Entrevista também Raphael Viviani, o contador que acusa Simonal de haver se utilizado de sua amizade com policiais para prendê-lo e torturá-lo. A acusação, grave em qualquer época, o é, e, ainda mais, durante uma ditadura.

Sobra, dessas vozes e imagens, ambiguidade suficiente para que o espectador tire suas conclusões. E esse talvez seja o maior mérito do filme.

(Caderno 2, 15/5/09)

 

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Comentários:

Comentário de: GUILHERME CIMINO [Visitante]
16.05.09 @ 00:17
Simonal foi o maior cantor brasileiro e um dos maiores do mundo, em todos os tempos! Dispensa comentários. Gravou de Luiz Gonzaga a Wilson Batista, de Tom Jobim a Pelé.
Diante do apuro artístico de suas gravações, a tal polêmica envolvendo DOPS torna-se um assunto insignificante que presta apenas para mostrar o quanto a classe artística era manipulável à época da ditadura.
Espero ver o filme amanhã.
Comentário de: Cláudia [Visitante]
16.05.09 @ 12:59
Eu achava que esse filme iria gerar mais polêmica, isto é, que apareceria alguma voz para confirmar que Simonal foi, sim, informante. A única coisa que li nesse sentido foi essa matéria do Leandro Fortes.
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/simonal-dedoduro/
Comentário de: Cláudia [Visitante]
16.05.09 @ 15:01
Só corrigindo, creio ter atribuído a Leandro Fortes a matéria que, na verdade, é de Urariano Mota.
Comentário de: GUILHERME CIMINO [Visitante]
17.05.09 @ 10:42
Vi o doumentário.
Minha conclusão: a imprensa e a classe artística da época, que não conseguiam sequer triscar na Ditadura, resolveram queimar o Simonal porque ele não era engajado e desviava a atenção do povo; uma vergonha.
O Jaguar é deprimente, um inútil que sumiu na história.
O contador roubou, mesmo. O Simonal foi omisso e deixou os caras do DOPS darem um sacode no pilantra (mas até o Vandré tinha amigos no exército).

Espero que lancem outro documentário mais musical e menos policial. Simonal foi o maior cantor brasileiro de todos os tempos!
Comentário de: Gisela Cafalli [Visitante]
22.05.09 @ 17:05
Os comentários dessa Cláudia exalam preconceito.

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Crítico de cinema, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo





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