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22.04.08
Havia prometido a mim mesmo não entrar nesse caso tétrico da garota Isabella. Mas peguei o elevador com um colega fotógrafo e ele me contou o que observara diante da casa onde está o casal Nardoni. "Fica todo mundo quietinho; quando a TV liga os refletores, começam a gritar, pedir justiça e linchamento". Bem, eu não deveria me espantar com esse espetáculo do horror, mas ainda me espanto.
Sei que não começou hoje e revi ainda outro dia o grande filme de Billy Wilder, A Montanha dos Sete Abutres. Se vocês não conhecem, passem depressa pela locadora mais próxima e assistam. De 1951, o filme ainda é muito contemporâneo em sua denúncia não apenas da imprensa sensacionalista, mas da morbidez das pessoas. Onde o limite entre o dever de noticiar e o oportunismo? Onde o limite entre a compaixão humana e o sadismo? Ficam as perguntas, difíceis de responder.
E não deveria mesmo me surpreender com o circo, já que vivemos em pleno regime da sociedade do espetáculo, como havia detectado Guy Debord já em 1967. Acho que nem ele poderia imaginar o que viria depois. Tudo é show. Do Big Brother ao crime. E por que não seria show o assassinato de uma garotinha de cinco anos?
Não é exclusividade nossa, claro. Por acaso, eu estava na Europa quando estourou o caso Madeleine. Não sei se vocês acompanharam essa história, até hoje não resolvida, da menina inglesa que desapareceu durante as férias em Portugal. Depois de algum tempo os pais começaram a ser incriminados. Eu estava na Itália e via na TV e lia nos jornais insinuações sórdidas culpabilizando o casal pelo bom e simples fato de que a mãe mantinha o controle e não chorava durante as entrevistas. Sem lágrimas ou histeria ,tornava-se culpada, pois não assumia o papel que dela se esperava, a de mãe desesperada.
Imediatamente me lembrei de Camus e do personagem Merseault, de O Estrangeiro, que acabou condenado à guilhotina menos por seu crime do que pela suposta indiferença durante o enterro da mãe.
Tudo é aparência e superfície. Outro dia vi na TV a mãe de Isabella. A mãe, não a madrasta. A repórter disse que "como toda celebridade, ela também estava sendo muito assediada". Tudo é imagem e por isso nós, que nos interessamos pelo estudo da dimensão social da imagem, deveríamos observar com cuidado esses casos. Eles são muito reveladores.
Mas o caso em questão exigiria talvez um pouco mais de discrição. Por compaixão humana. Por pudor, se é que essa palavra não se tornou obsoleta.
Comentários:
Comentário de: xlucas [Visitante]
22.04.08 @ 22:46Ok, tem lixo que somente deseja aparecer, que pouco se importa com O assassinato da criança. Rebotalhos humanos que pouco se importam com outrem, somente com suas proprias fezes. E sempre existirão em todas a epocas e paises (imbecis não são uma exclusividade brasileira). Porém qual o objetivo de quem protesta/se manifesta? Ser ouvido/visto. E qual é atualmente a melhor forma de se obter visibilidade? A TV. De que adiantaria protestar em um beco escuro e deserto de madrugada??
Comentário de: Daniel [Visitante] · http://indecenciaverdeamarela.blogspot.com/
22.04.08 @ 23:08Sugiro ler o artigo "No caso Isabella, não há nada de errado com o povo".
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2008_04_20_reinaldo_azevedo_arquivo.html
Comentário de: Maria Luiza [Visitante] · http://8592fe2
23.04.08 @ 01:50Sr. Luiz Zanin,
Mais de 2000 anos e ainda doidos por um apedrejamento! Culpado ou não, o suspeito casal melhor se protege em celas isoladas, tamanha é a sanha do povo. Se culpado o medo da rua deve ser maior que o arrependimento.
"A montanha dos sete abutres" é filme de cabeceira dos "Clássicos da Band", reprisado e rerreprisado e poucos se veem.
Mas eu encotrei o seu blog qdo procurava pelo A.Jabor, por favor passe pois meu recado,é um pedido:
P/ que providencie ,de autoria , 2 filmes biografia do Glauber (Marcos Palmeira?) e do N.Rodrigues(?).
O cineasta Jabor sabe muito deles e eles sabem tudo do Jabor. É urgente, antes que o mundo acabe! Obrigada, Maria Luiza
Comentário de: Nelson Rodrigues de Souza [Visitante] · http://www.montblaat.com.br
23.04.08 @ 09:35Zanin,
Independentemente da inocência ou não do casal vale lembrar aqui ainda de dois filmes:
1- "Fúria" de Fritz Lang com Spencer Tracy sofrendo uma espécie de linchamento físico e moral mesmo sendo inocente, desvendando-se os mecanismos perversos de histeria de massas nestas situações.
2- Outro filme do qual me lembro é "Um Grito no Escuro" de Fred Schepsi, onde um pai e uma mãe por terem uma religião distinta de uma comunidade são acusados injustamente de terem sacrificado um filho que desaparece, num suposto ritual satânico.
Se o casal em tela no Brasil é inocente ou não, o linchamento é um horror, qualquer que seja a resposta da Justiça que é quem deve realmente agir e decidir, com a opinão pública e a mída acompanhando tudo com moderação, sem açodamento.
As pessoas parecem que não aprenderam nada com o caso da Escola Base onde seus donos tiveram a carreira destruida por acusações falsas de pedofilia, onde as crianças estavam fantasiando tudo.
Lembremos de Caetano Veloso em seu "O Cu do Mundo":
"A mais triste nação, na sua época mais podre, compõe-se de um grupo de linchadores"
Abraços,
Nelson
Ps. Não é nada surpreendente que Reinaldo Azevedo defenda a reação das massas,conforme indicação de leitura de alguém acima. Eu nem me dou ao trabalho de lê-lo mais. É um caso perdido para as causas da extrema direita com espaço na desprezível "Veja",com honrosas exceções de alguns que trabalham lá para ganhar alguns trocados....
Comentário de: sérgio galli [Visitante]
23.04.08 @ 09:54Enquanto esse circo de horrores não tem fim, a cada 19 segundos uma criança morre de "caganeira" (desculpe o termo chulo) ou seja, diarréia, por falta de saneamento básico. Isso em pleno século XXI. Globalização. Internt. TV diigital. Mas isso não é notícia. Não é espetáculo. Apenas um dado estatístico da ONU. Quantas crianças já morreram enquanto escrevi estas linhas?
cordialmente,
sérgio galli
Comentário de: Eli [Visitante]
23.04.08 @ 11:51Muito bem, Zanin, penso igualmente.
As pessoas têm necessidade de extravazar suas emoções,mas há casos em que vão longe demais.
Não parecem respeitar a memória da pequena Isabella,procuram fazer um "carnaval" e aparecer como se estivessem num palco.Não é sério.
Acho normal que protestem e peçam justiça (como se não acreditassem no trabalho da polícia),com cartazes e faixas,mas levar bolo confeitado e cantar "parabéns" é triste.
É.
Comentário de: Nildo Marques [Visitante]
23.04.08 @ 12:58Caso tétrico, espetáculo de horror, sadismo, circo, sociedade do espetáculo, show... E as raízes da questão? Seria muito legal se cada um de nós conseguíssemos nos perguntar: Porque ainda permitimos que os veículos de comunicação não sejam democratizados? Porque ainda permitimos que a população menos favorecida continue sem educação pública de qualidade? Porque ainda permitimos que a justiça em nosso país seja tão lenta? Porque ainda permitimos que os políticos corruptos não sejam punidos de verdade? Porque ainda permitimos que a elite brasileira seja tão cruel? Sim, somos todos nós que permitimos tudo isso, somos uma sociedade doente. Enquanto essas e outras questões continuarem virtuais, enquanto a sociedade civil não se organizar de verdade, enquanto continuarmos preocupados com nosso próprio umbigo, “o espetáculo de horror” vai continuar sim, ao lado das publicidades de carrões e condomínios de luxo. O “circo” começa em qualquer ponto da cidade, mas avança, e sempre chega nos bairros caros, nas avenidas famosas, nos salões sofisticados, não tem como fugir. O pior de tudo é que além de muito doente, a sociedade está cega. Não consegue ver a causa, não consegue ver a dimensão, e claro, não consegue ver a solução. O menino arrastado pelas ruas e a menina jogada pela janela, amanhã serão substituídos por um novo “show”, na mídia nossa de cada dia. Nildo Marques
Comentário de: Dinho [Visitante]
23.04.08 @ 16:57E o quê dizer das "celebridades", Pe.Marcelo Rossi misturando-se como gente como Ivete Sangalo, Xuxa & Cia., e todos utilizando-se da dor alheia para fazer média com a população e ficar sob os holofotes da própria mídia aqui execrada, e agindo como se fossem pessoas pudicas e imaculadas.
Isso sim é um circo incomparável de horror e terror.
Comentário de: Mau...Á ética do PT é roubar... [Visitante] · http://sponholz.arq.br/pictures/desenho_dia/desenho_dia.jpg
23.04.08 @ 17:34...e...a Festa da menina morta...vai para Cannes...
Comentário de: Edu Heinz [Visitante]
23.04.08 @ 19:26A própria polícia desestimula completamente esse tipo de exposição, isso municai os criminosos, praticamente elimina o fator suspresa, e a questão fundamental aí é a absoluta falta de escrúpulos dos veículos de comunicação, que passam por cima de qualquer átomo de civilidade ou compaixão em troca de maior venda de exemplares ou mais pontos no Ibope.
Os "papagaios de pirata" querem os seus 15 segundos de fama, para terem histórias para contar aos amigos no boteco, conforme o testemunho do seu amigo fotógrafo.
Todo esse comportamento é fruto dos atuais conceitos torpes da sociedade: fama - não impiorta como - , consumismo e superficialidade.
Comentário de: Andrômeda [Visitante]
24.04.08 @ 11:06Este acontecimento ao meu ver é apenas um bom motivo para se ter o que falar, as pessoas cuidam demais da vida dos outros, portanto tanto alarde em torno desse crime, mas é claro que não podemos eximir da culpa esse casal, que a tudo leva a crer que são crimininosos.
No entanto, as pessoas são tão cruéis, que chegam a ser tanto ou tão igual aos assassinos que adoram uma desgraça, portanto não respeitando o luto da mãe, que é vítima de tudo isso e muito menos resguardando a memória da menina.
Bom, como bom exemplo de circo de horrores temos as lutas nas arenas, em Roma, onde o povo se deliciava com sangue e horror, o que não nos diferencia em nada daquele povo ignorante da época de Cristo.
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Crítico de cinema, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo
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