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24.03.09

por Luiz Zanin, Seção: Cinema 19:27:15.

Bastante explosivo o conteúdo de Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, que está no É Tudo Verdade deste ano. Fui vê-lo na sessão de imprensa e recomendo, em especial a quem se interessa pelo período da ditadura militar brasileira.

O filme aborda um tema-tabu do período: a participação de empresários paulistas na repressão aos grupos de esquerda. Henning Albert Boilensen foi uma figura exemplar desse tipo de colaboração. Dinamarquês, imigrou para o Brasil e aqui fez fortuna. Tornou-se presidente do grupo Ultragás, no auge da carreira. Anticomunista ferrenho, organizou e participou ativamente na "caixinha" dos empresários para arrecadar fundos para a Oban - a famigerada Operação Bandeirantes.

Amigo pessoal do delegado Fleury, Boilesen ficou famoso por acompanhar pessoalmente as sessões de tortura. Dizem que sentia imenso prazer em ver presos pendurados no pau de arara, apanhando e tomando choques elétricos. Em 1971, Boilesen foi executado por um grupo de esquerda, por estranha coincidência na mesma Alameda Casa Branca onde havia morrido Carlos Marighella dois anos antes.

O filme traz depoimentos importantes de ex-guerrilheiros, historiadores do período, políticos como Fernando Henrique Cardoso e religiosos como Dom Paulo Evaristo Arns, policiais e até de um dos filhos do empresário. Quem o conheceu, diz que Boilesen era boa gente, afável, alegre e mulherengo. Mas houve também quem tivesse testemunhado seu lado obscuro e este nada tinha de agradável.

boi

Enfim, um personagem-símbolo de um período triste, ainda por ser devidamente esclarecido. Com frequência se fala em golpe militar mas se esquece de que houve participação de setores civis tanto no golpe como na manutenção do regime, inclusive financiando a repressão e o desrespeito aos direitos humanos. O filme fala de duas notáveis exceções, a serem registradas: Antonio Ermírio de Morais e José Mindlin foram dois empresários que se recusaram a contribuir para a "caixinha da tortura". Engrandeceram suas biografias.

 

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Comentários:

Comentário de: Jair Fonseca [Visitante]
24.03.09 @ 23:31
Pois é, Zanin, o doc vem em boa hora para que se lembre que a ditadura não foi branda, nem apenas militar...
Comentário de: Ediloy Antonio Carlos Ferraro [Visitante]
24.03.09 @ 23:40
Tens razão ao levantar a bola de que muitos fatos ainda sejam tabus no que se refere à história recente da repressão militar no Brasil. Tema contundente que raramente é visto sem isenção ideológica de quem comenta, provocando polêmicas e desgastantes posições de a favor e contra... Melhor para a história do Brasil que não exista mistérios, que os fatos engrandeçam o entendimento das turbulências políticas de nossa acidentada trajetória de interrupções na vida democrática, isso desde o período Getulista.

Melhor os acidentes de percurso da vida republicana que as intervenções cirúrgicas a ferro e fogo das aberrações aos direitos civis e às Instituições democráticas... irei assistir ao filme, espero termos esses temas sempre em voga.


Comentário de: Joseph Nair [Visitante]
25.03.09 @ 00:51

Pois é: O dono da Folha da Tarde, do Grupo Folhas, segundo historiadores da época, emprestava peruas Veraneio do jornal para transportar presos de forma clandestina. Há támbém relatos de que a Folha da Tarde noticiou a morte de um preso, antes que ela tivesse se consumado nos porões da Dops.
Realamente, dá arrepio.
Comentário de: Mariana Bonfim [Visitante] · http://www.movieyou.com.br
25.03.09 @ 01:53
Olá Merten.

O documentário de Litewski é realmente muito instigante. Nos faz refletir o quanto esta realidade tão recente na história brasileira é extremamente obscura e ao mesmo tempo obscurecida. Figuras diretas e indiretamente ligada aos fatos ainda vivas e passíveis de serem punidas. Mas os arquivos estão queimados e o sistema lava o cérebro provocando o esquecimento geral. O que dizer de uma jovem nação democrática de cerca de 25 anos que permite que um presidente corrupto deposto por impeachment ainda ronde de mandeira fantasmagórica o Congresso Nacional. Se nem os moradores da Rua Hemming Boilesen sabem quem foi este famigerado cidadão, quem o saberá a ponto de expor as verdades? Ficam as questões.

Abs a todos
Comentário de: Sergio Pinheiro Lopes [Visitante] · http://sergiopinheirolopes.blogspot.com
25.03.09 @ 06:01
Prezado Luiz,

Não sei se no documentário, pois ainda não o assisti, ou no seu texto, há um erro factual. O Boilesen foi assassinado na rua Barão de Capanema, a uns 30 metros da Al. Casa Branca. Eu estava lá, na banca de jornais que havia quase em frente a Barão de Capanema. Era uma quinta-feira, dia de feira, e por causa dela ele, ao invés de subir a Peixoto Gomide como fazia todos os dias, pois morava na rua Estados Unidos, teve que desviar pela rua Professor Azevedo Amaral para subir a Al. Casa Branca. Foi emboscado entre esta e a feira. Quando percebeu a situação, saiu do carro e correu em direção a feira e foi abatido a tiros.

Provavelmente o erro é meu. abs.
Comentário de: Aurélio Santos [Visitante]
25.03.09 @ 06:52
Duvido muito que o Sr Chaim tenha mencionado a participação da FOLHA DE SAO PAULO na Operação Bandeirantes, cedendo caminhonetes de entrega de jornais para o transporte ilegal de presos mortos e torturados. Mas vou comprar o livro para conferir.

O caso está mencionado. É filme e não livro. abs.
Comentário de: DIDI [Visitante]
25.03.09 @ 07:01
A história se faz com a versão dos que estão no poder. Ontem, dizia-se uma coisa, hoje, outra. Onde está a verdade? Tudo isso serve para iludir as pessoas. Vivemos um período de escancarada corrupção e ostracismo cultural. Onde vamos parar? Ontem, não se precisava morar em condomínios fechados, não era preciso pagar colégio particular para os filhos, nem termos planos de saúde. A carga tributária era muito menor e tínhamos melhores serviços. Que grande regime temos hoje...
Comentário de: Mário Latino [Visitante]
25.03.09 @ 12:34
Não sei não, Didi. Tinhamos melhores serviços? Só se vc se estiver referindo a alguns privilegiados, porque nem na melhor época do Brasil todos os que pagavam impostos tinham bons serviços. Agora se vc falar do pessoal que mora em Higienópolis ou nas travessas da Cidade Jardim, eu posso te levar para comprovar que, sim, alguns continuam tendo os melhores serviços.
Comentário de: Cláudia [Visitante]
25.03.09 @ 13:19
De forma muito mais lenta do que seria o ideal a história vêm sendo recuperada. Essa veia heróica do Antonio Ermírio de Morais, por exemplo, eu não conhecia, a do Mindlin sim. Muito legal você os ter citado, Zanin.
Comentário de: Maria [Visitante]
26.03.09 @ 11:27
Zanin,

Em Mindlin, eu acredito. Em Antonio Ermírio, sei não!
Em 1976, trabalhei na Beneficiencia Portuguesa, ali, na Maestro Cardim. A coisa era bem militar. Uma vez, um homem, me entrevistou com uma arma em cima da mesa. Disse ele que era um coronel.

Me limitei a transcrever o que está dito lá no filme. abs
Comentário de: Rosane [Visitante]
17.05.09 @ 08:45
Eu tinha cinco anos quando o tio Boilesen morreu.
Fiquei super triste porque às vezes ia a casa linda que ele tinha,brincava com seu filho naqueles gramadões e avistava uma jaguatirica, que era o animal de estimacão da família.Num Natal ele me trouxe uma boneca Barbie.Meu pai trabalhava na Ultragás e anos depois, fiquei chocada ao saber que aquele gringo simpático, assassinado a tiros pelos "terroristas "era acusado de ser um sádico.
Questionei a natureza da relação do meu pai com os mecanismos da repressão.Como ele esta morto faz 30 anos, não posso questioná-lo. Imagino que ele estivesse à margem disso, pois vi ele sendo muito abraçado pelo Hélio Bicudo.Contudo, adoraria entender mais essa história toda. Infelizmente, perdi o festival. Como eu faço para assistir seu documentário ?
Comentário de: Marcos Orantas [Visitante]
23.11.09 @ 17:27
Rosane e amigos,

Hoje 23/11 as 21:00 horas na Reserva Cultural, Av. Paulista, 900, será a Pré-Estreia e logo após terá um debate sobre o Filme Cidadão Boilesen.
Um abraço a todos.

Marcos Orantas
Comentário de: Marli [Visitante]
11.12.09 @ 11:40
Finalmente estreia em Campinas o famoso documentário. Vou vê-lo neste fim de semana. Tudo que se relaciona ao período da Ditadura deve interessar a todos os brasileiros. Como escreveu Mário de Andrade: "O passado é lição para se meditar, não para se reproduzir." Que as novas gerações se inteirem do assunto e zelem para que não haja mais violação dos direitos humanos entre nós.
Comentário de: Armando do Prado [Visitante]
14.01.10 @ 09:51
Todos que vivemos esses tempos tenebrosos não podemos tolerar ou minorar o papel desses covardes. Na época, eu tinha 17 anos e já tinha estado preso num quartel do exército em Itu. Como todos os conscientes, vibrei com a morte desse oportunista e sádico.

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Crítico de cinema, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo





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