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15.05.09
E não é que uma história que pareceria boba até que funciona quando é bem contada? É o caso deste A Garota Ideal, de Craig Gilespie. O caso é o de um rapaz tímido, Lars (Ryan Gosling), que recusa qualquer tipo de relacionamento e sente um toque físico feminino como ameaça à sua integridade. Ele não aceita sequer o convite para um café da manhã com o irmão e a esposa deste. E, claro, resiste bravamente aos avanços de uma colega de trabalho.
O destino de Lars poderia ser a solidão, mas um belo dia ele aparece acompanhado... de uma boneca de silicone, que acredita ser uma mulher de carne e osso. Como todos o estimam na cidadezinha do Meio-Oeste onde vive, resolvem, aconselhados por uma psicóloga (Patricia Clarkson), que talvez seja importante participar do seu delírio. E passam a tratar a "moça", que ele diz ser meio brasileira meio dinamarquesa, como uma pessoa real.
Como filme, A Garota Ideal não tem nada de mais. Gilespie faz cinema com simplicidade e eficiência e não apresenta nada que pareça inesquecível. Apóia-se num elenco afiado e, sobretudo, em Gosling, que compõe seu amável maluquinho com sensibilidade e empatia. Tanto que acaba fazendo com que todos (espectador incluído) entrem em sua trip. Na base do sentimento poético que, como dizia Fernando Pessoa, não conhece o limite entre a verdade e a invenção. Se é que esse limite existe. Enfim, toda a comunidade passa a pensar que, se Lars de fato ama a sua boneca, quem são eles para desmenti-lo? E, no fundo, pensam, alguma coisa a boneca, que atende pelo nome Bianca, deve ter...
Do ambiente meio teen do início, A Garota Ideal passa para o caminho de drama psicológico em tom menor. É um modesto, mas não por isso menos tocante, ensaio sobre a solidão humana. E, não fosse pela opção edificante que toma no fim, poderia ser ainda melhor do que é.
Mas não sejamos tão exigentes. Afinal, o que salva o filme é exatamente essa modéstia. Sentimos que não estão querendo nos impingir nenhuma grande moral ou ensinamento profundo. Apenas isso: que seres humanos (alguns mais do que outros) são sós e carentes. E sofrem com essa condição. A ponto de buscarem objetos substitutivos que os ajudem a viver que, como se sabe, não é tarefa das mais amenas. Deve-se dizer que o tom baixo, a discrição, a falta de pretensão salvam o filme do ridículo nos momentos em que parece mais exposto a esse risco. Soa como uma pequena fábula, que convida o público a distanciar-se da necessidade do realismo a qualquer preço. Cria a sua própria verossimilhança.
(Caderno 2, 15/5/09)
Comentários:
Comentário de: Cláudia [Visitante]
16.05.09 @ 12:50O Ryan Gosling é um daqueles atores que vale a pena acompanhar. Ele faz uns filmes que à primeira vista parecem estranhos ou pelos quais se dá muito pouco mas que acabam surpreendendo pela capacidade dele em passar humanidade aos personagens, caso de O Mundo de Leland ou mesmo do pesado Tolerância Zero.
Comentário de: Elis [Visitante]
07.08.09 @ 12:53Me poupe, o filme é perfeito! Não precisa ser melhor do que é, pois se trata de uma junção perfeita de roteiro e interpretação. Acreditar que algo absurdamente real como a solidão e meios de se escapar dela sejam eles quais forem possam se tornar fábulas ou ridículos é dar uma dimensão menor à capacidade humana de (RE)criação!
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Crítico de cinema, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo
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