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31.01.10

Acho que foi Arthur Xexéo quem escreveu outro dia que o calor infernal que está assolando o Rio de Janeiro deve-se à ausência de brisas. Está certo. Não há mais como o vento circular por entre aqueles paredões imobiliários erguidos na outrora Cidade Maravilhosa. Há um pouco disso em toda parte, e nem é preciso falar em São Paulo, um exemplo patológico e terminal de pseudo-desenvolvimento urbano.
Vamos a paragens até aqui mais amenas. Por exemplo, gosto de caminhar à beira-mar em Santos e, desse ângulo, constato a existência de edifícios que destoam dos padrões antigamente aceitos para a orla. A maior parte dos prédios lá existentes tem uns 12 andares, mas já se vêem, aqui e ali, espigões de 25, 30 ou mais andares. Outro dia li no jornal local, A Tribuna, que já existe projeto aprovado para um edifício de 38 andares, que, construído, será o mais alto de Santos.
O bairro do Gonzaga está sendo devastado pela especulação imobiliária e a Ponta da Praia, onde moro parte do tempo e onde pretendo viver de vez no futuro, vai pelo mesmo caminho. Perto das balsas para o Guarujá existe um monstruoso conjunto de torres de 30 andares, cujo cartão de visitas é um polvo em cimento armado que causa espanto a quem por ali passa. Outras torres, igualmente ameaçadoras, estão sendo construídas mais adiante, na direção da zona portuária. Há poucas semanas, as partes dos fundos dos terrenos dos tradicionais clubes da Ponta da Praia foram vendidas e o incorporador prometeu para lá um novo conjunto de torres. Pode-se imaginar o que virá.
Caso essa tendência continue, trata-se de nada mais nada menos que a destruição de uma linda e aprazível cidade o que se anuncia. Edifícios agressivos, pomposos em seu absurdo gigantismo, menos vento, mais calor, mais carros, mais tensão. Outro dia fui pagar uma conta no banco e ouvi uma senhora de idade dizendo a uma amiga: “Nossa, Santos era uma cidade tão calma, agora está um estresse danado...” Pelo que pude deduzir do pedaço de conversa ouvido, ela havia presenciado uma briga de trânsito e estava espantada com a agressividade das pessoas.
Tudo isso é sintoma de um problema crônico: no Brasil, as cidades não sabem crescer de forma sadia. As desculpas para esse inchaço desordenado são as de sempre: a construção civil gera empregos, as cidades têm déficit habitacional, etc. Como se, para crescer, criar empregos e dar moradia às pessoas, fosse preciso passar carta branca à especulação imobiliária. Ora, que inocência...O capital não quer nenhum entrave para a sua expansão e não se preocupa com as conseqüências. Quer multiplicar-se, e só. É da sua natureza, como naquela fábula da tartaruga e do escorpião. Cabe ao Estado impor limites e discipliná-lo. E cabe à sociedade civil pressionar os governos para que as cidades não sejam destruídas...em nome do progresso.
Recentemente esteve em Santos o extraordinário arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que vai fazer o projeto de um anexo para a Pinacoteca Benedito Calixto, instalada numa bela casa antiga à beira-mar. Em entrevista, Mendes da Rocha criticou essa tendência de prédios altos (super lucrativos para os incorporadores), lembrando de Lúcio Costa, urbanista de Brasília. Quando lhe perguntavam por que limitava os blocos do Plano Piloto a seis andares, Lúcio dizia que era a altura máxima em que a mãe podia chegar à janela e chamar para o almoço o filho que estava brincando lá embaixo.
Isso num tempo em que a arquitetura era uma arte humanística, que se preocupava com a qualidade de vida das pessoas e não com o lucro acima de qualquer outra consideração.
27.11.09
Há muitos anos, lá pela década de 1980, eu morava no Guarujá e trabalhava em São Paulo. Às vezes vinha e voltava de carro, mas a estrada cansa e comecei a usar o serviço de ônibus, ótimo, aliás. Aproveitava o tempo para ler um pouco, e dormir. De vez em quando conversava um tanto com quem o acaso colocava na poltrona ao lado. Mas preferia mesmo ficar na minha. A estrada te dá uma espécie de intimidade consigo mesmo, de liberdade, de disponibilidade total daquele tempo meio morto, sensações que não devem ser negligenciadas. Mesmo que esse tempo seja pouco mais que hora e meia.
Um dia, no entanto, sentou na poltrona ao lado um velhinho, e fomos tagarelando de São Paulo ao Guarujá, sem parar. Ele falou muito mais do que eu. Me contou parte da sua vida. Era catalão e havia participado da Guerra Civil Espanhola. Anarquista até a sola dos sapatos, depois da vitória de Franco atravessou o Atlântico e veio dar neste país, que percorreu também de norte a sul. Fazia alguns anos havia se estabelecido no Guarujá, onde ganhava a vida como caseiro de um condomínio de luxo. Rimos dessa ironia da história: um anarquista que toma conta das casas da burguesia. Ele não se importou. Ganhava a vida, isso era tudo.
Chegamos à rodoviária do Guarujá, nos despedimos e pedi para que nos encontrássemos de novo, tão encantado ficara com a conversa. O velhinho me olhou nos olhos e sorriu: “Si, pero sin compromisos”. Esse era o verdadeiro anarquista. Gostara de me conhecer por acaso e teria prazer em continuar a conversa se a sorte nos reunisse outra vez. Não precisávamos nos prender a datas, horários e cadernetas de anotações. Lembrei-me na hora da história daquele outro militante anarquista respondendo ao comunista que lhe propunha fundar uma organização: “Nosotros nos encontramos en la calle”. Nos encontramos na rua.
Inútil dizer que nunca mais vi o velho catalão, mas dele me ficou a lembrança. E uso essa memória para dizer que estou entrando em férias a partir de hoje. Vão me fazer bem, pois tive um ano extenuante, de muito trabalho e viagens. Nada disso mata. O que mata são as outras coisas que acontecem com a gente e sobre as quais não exercemos o menor controle. Acidentes de percurso na carreira e perdas familiares irreparáveis. Enfim, preciso de uma pausa e vou aproveitá-la para estar mais com minha mulher, nadar, andar na praia, ler e ver o que for possível. Levo umas matérias para fazer e ainda vou escrever duas colunas de futebol para o jornal, pois acho sacanagem abandonar o Campeonato Brasileiro nesta reta final. Depois, chega.
De todo modo, estarei com meu computadorzinho ao lado e, se der vontade, posso colocar um post ou outro durante o mês, se quiser dizer alguma coisa ou ao sabor do desejo despertado por um filme ou alguma leitura.
Mas, como dizia o meu amigo anarquista, “sin compromisos”.
Bom final de ano a todos e ótimo 2010 para nós, que bem o merecemos.
28.12.07
Amigos, voltei ontem do Guarujá e mergulhei num ritmo meio frenético de trabalho. Tanto que nem pude abrir o blog nem ler os comentários. Aliás, nem havia lido enquanto estava no litoral pois levei um lap-top da idade da pedra, quer dizer, de uns 4 ou 5 anos atrás. Serve para mandar e receber e-mails e postar uma coisinha ou outra. Mas, com sua vaga memória, ele não navega na internet - naufraga. Assim, não havia lido os comentários durante o recesso de Natal. Fi-lo (como diria o Jânio Quadros) apenas hoje.
E, ao fazê-lo, várias coisas me vieram ao espírito. Por exemplo, ao ler os comentários do post anterior, sobre o filme A Culpa É do Fidel, me assaltaram (êpa!) idéias soturnas sobre a utilidade de um blog. Qual o benefício prestado por alguns dos comentários a esse post, a mim ou às pessoas que fazem o favor de acessar esse blog? Nenhum. E, fiquei pensando assim: será que pelo fato de um blog estar na rede, ele é como a casa da Maria Joana? Quer dizer, qualquer um entra, faz e deposita o que bem entende? Se é assim...
Mas continuei a ler os comentários de outros posts e encontrei vários de grande valia e interesse. Um deles, que gostaria de destacar, é o de Josafá. Ele nota, com toda a razão, que nós, jornalistas, damos tanta atenção às efemérides, e deixamos escapar uma, que seria das mais importantes – os 30 anos da morte de Charles Chaplin. Caiu a ficha e me perguntei: por que não prestamos mais tanta atenção a esse gênio do cinema, a ponto de nos esquecermos de um aniversário redondo da sua morte? É caso para pensar.
Por sorte, voltei ontem ao trabalho e ainda deu tempo para alterar a pauta do Cultura, que circula neste domingo. E pudemos, Merten e eu, escrever alguma coisa sobre o mestre que nos deixou há 30 anos. Ao escrever, pensei também: todo mundo tem o seu Chaplin favorito e o meu é Tempos Modernos, extraordinária síntese de comédia e crítica ao capitalismo. Em certo ponto do meu texto digo que Tempos Modernos é mais ou menos como “O Capital”, só que dotado de senso de humor. Depois coloco o texto no blog.
Enfim, ficamos devendo esta a Josafá.
E chego a uma conclusão sobre minhas dúvidas anteriores. Um blog depende tanto do blogueiro quanto da boa (ou da má) qualidade dos comentadores que ele consegue atrair para o seu espaço. Fazemos esta coisa juntos.
24.12.07
Amigos, estou no Guarujá tentando recarregar um pouco as baterias. Eu dou uma paradinha mas o cinema não pára. Quem está em São Paulo tem, a partir de amanhã, dois filmes novos para ver e ambos muito interessantes: A Culpa é Do Fidel e Conversas com Meu Jardineiro. Ambos franceses, bem-humorados, humanos, delicados. O primeiro sobre uma menina, filha de pais de esquerda, e o que isso significa como experiência de vida. Dirigido por Julie Gavras, filha de Costa-Gavras. O segundo é de Jean Becker e trata do reencontro de dois amigos de infância já no limiar da velhice. Um tornou-se pintor famoso, outro é um ex-ferroviário, que faz bico como jardineiro. Comovente. Humano, sem ser piegas. Oportunamente, coloco as críticas desses dois filmes aqui no blog.
Até lá, um feliz Natal a todos e todas. Abração.
12.03.07
Não é engraçado que, durante as férias, eu me dedique mais a escrever sobre livros do que sobre filmes, que afinal são o meu foco principal de trabalho? Pois bem, cheguei de volta à Serra do Japi depois de passar o fim de semana no Guarujá. A viagem foi cansativa, principalmente porque tive de passar por São Paulo para trocar uma estrada por outra. Trânsito infernal, ou eu que já estou desacostumado dele? Seja como for, cheguei exausto, e estava disposto a falhar com o blog, pelo menos por hoje. Deu preguiça.
Mas não é que ligo a Globo para ver o Jornal Nacional e sou lembrado de que se completam os 50 anos da publicação de O Encontro Marcado, de Fernando Sabino? Deu vontade de escrever e abri o computador. Para dizer que, bem, eu jamais sonharia em colocar esse livro entre os meus “formadores”, da lista anterior. Pelo menos, ele não me veio à cabeça. Mas, pensando bem, por que não? Nunca mais o reli, e não tenho idéia de como suportaria uma nova visita. Talvez o releia, como andou sugerindo um leitor, lembrando-se, talvez, de Borges: “é melhor reler do que ler”.
Enfim, foi um livro que li na adolescência ou começo da juventude, e tenho impressão de que é a fase da vida em que deve ser lido mesmo, embora, talvez, por falta de experiência, se perca alguma coisa. Mas nunca esqueci da figura de Marciano, o alter ego de Fernando Sabino, com suas dúvidas, suas hesitações, a sua dificuldade em definir uma vocação. O Encontro Marcado é, claro, um romance de formação e estes sempre mantêm um encanto secreto, pois apanham o escritor no processo mesmo de enfrentar seus fantasmas e jogar-se no abismo da criação. Pronto, está decidido: vou reler O Encontro Marcado, mas não sei quando, pois está em casa, nas Obras Completas de Sabino.
À guisa de história pessoal. Conversei com Fernando Sabino uma única vez e queria entrevistá-lo sobre literatura. Perguntei se queria bater um papo e tomar um uísque. Ele me respondeu: “Um, não; agora, se forem vários...” Grande sujeito. Por isso me senti mal quando, anos depois, houve aquela história da biografia da Zélia Cardoso de Mello e que acabou ficando como uma mancha na trajetória de Sabino. Agora, o tempo já passou e fica dele o cronista magnífico, o grande conversador, e talvez o romancista de O Encontro Marcado. A conferir.
11.03.07
Amigos, hoje durmo no Guarujá, amanhã se der praia eu faço uma caminhada e depois volto para meu retiro na Serra do Japi. Para me recuperar dos excessos cometidos no fim de semana. Purgar pecados. E voltar aos meus livros. Falando neles, uma leitora-comentarista me pergunta por que não falo dos sebos, que estão desaparecendo. Ora, por que não? Primeiro, não sei se estão desaparecendo. Alguns dos sebos tradicionais, aqueles do centro de São Paulo ainda existem, que eu saiba. Deixei de freqüentá-los há muito, mas sei, por amigos bibliófilos, que eles continuam lá. E outro dia fui apresentado a uma modalidade que desconhecia – o sebo virtual. Procurei pela internet um livro de que precisava e estava esgotado. Encontrei na pesquisa, mas depois me mandaram um e-mail dizendo que não estava mais disponível. Em todo caso, esse recurso de busca me parece dos mais interessantes.
Agora, o problema dos livros é muito grave no Brasil. Qualquer autor sabe disso: quando ele pensa que venceu a luta ao conseguir ser publicado, percebe que o desafio agora passou a ser a distribuição. A rede de livrarias simplesmente é muito reduzida neste país. E as grandes lojas dão destaque aos lançamentos mais badalados. Quem for pequeno que se vire. Tenho um pouco de experiência nessa área, pois lancei uns livrinhos por aí e constatei que tiveram carreira menor do que poderiam. Em alguns casos, dei uma de camelô. Enfiava os livros na mala e eu mesmo os levava aos locais de lançamentos, várias cidades do Nordeste ou do Centro-Oeste, por exemplo. Enfim, como livro não dá dinheiro mesmo, o mínimo que podemos desejar é que sejam lidos.
São problemas que todos vocês conhecem, sem dúvida. As tiragens são mínimas (3 mil exemplares é o padrão) e, também por isso, o preço é alto. Dessa maneira se elitiza a leitura, o que é uma pena. Por paradoxo, dezenas e dezenas de títulos são lançados a cada mês, sem que eu consiga entender como encontram mercado. As grandes editoras dominam esse mercado, mas curiosamente têm surgido várias pequenas editoras, constituídas com capital modesto. Às vezes lançam obras importantes e então se encontram diante do desafio de sempre – a distribuição. Porque não adianta publicar bons livros se você não tem pontos de vendas para eles. E dessa maneira o círculo se fecha.
Por isso que tudo que pudermos fazer pelos livros no Brasil – nós que acreditamos na função civilizadora da leitura – ainda será pouco.
10.03.07
Aviso aos amigos que troquei temporariamente o campo pelo mar e vim para o litoral paulista, Guarujá para ser mais exato. Amanhã vejo um jogo de futebol em Santos e, na segunda, regresso à Serra do Japi, onde, acomodados em um umidor, deixei preciosos havanas me esperando. Sim, querido leitor, eu sei que o melhor fumo do mundo é cultivado em Pinar del Rio, mas o esplêndido Cohiba que fumei contemplando o pôr-do-sol na serra foi adquirido em uma tienda em Havana, com os impostos devidamente pagos à República de Cuba.
Outro leitor me pergunta por que não fumo um charuto nacional. Fumo, com muito gosto, e encontro grande prazer num Dona Flor, por exemplo. Aliás, o tabaco brasileiro tem boa reputação. Freud, dizem, ocasionamente fumava charutos baianos. E há um trecho de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, em que um dos personagens oferece a outro um “brasil”. Creio que era um diálogo entre o protagonista Hans Castorp e seu primo, mas não tenho como verificar. Vale lembrar, também, que a mãe de Thomas Mann era brasileira, o que pode explicar um pouco a menção à procedência do charuto. Júlia da Silva Bruhns, ela se chamava, antes de se casar com o senador Mann e dar à luz meninos como Thomas e Heinrich Mann.
Mas divago. O que é preciso dizer é que, para o aficionado, o “puro” cubano é insubstituível, incomparável. Eu mesmo não tinha idéia disso, até fumar um deles pela primeira vez. Conto a história. Fomos, um grupo de amigos, almoçar na Bodeguita del Medio (comida medíocre, para turistas, mas o mojito é de antologia). Conosco estava o grande ator cubano Carlos Cruz, que chamávamos de Carlitos. Terminada a refeição, passa o garçom oferecendo charutos a quem quisesse (pagando, é claro). Agradeço e digo que não fumo. (E, de fato, tinha abandonado o cigarro havia muitos anos e, quando queria fazer alguma fumaça, lançava mão do meu fiel cachimbo Savinelli, que até hoje me acompanha). Carlitos insistiu. “Tente, é uma experiência e tanto para quem nunca fumou”.
Aceitei, escolhi um exemplar não muito longo, o garçom o acendeu para mim e comecei a fumá-lo. Deixei-me envolver pela fumaça, inalando com calma (tragar, jamais!), inebriando-me aos poucos. Um pensamento me cruzou a cabeça: “Como pude me privar deste prazer até hoje?” E, imediatamente, me converti à seita dos charuteiros. No dia seguinte, lá estava eu à caça de puros em Havana, na companhia dos outros membros da nossa confraria, Sérgio Sanz e Esdras Rubim, em especial. Nunca esqueci aquele primeiro puro, um Montecristo nº 4. Gosto de outras marcas, aprecio variar, sei reconhecer o valor do Cohiba, mas é ao Montecristo que retorno sempre e com prazer renovado.
Essa religião do havana gerou incontáveis histórias. Uma delas se deve, creio, a William Styron (se eu estiver errado, me corrijam, porque escrevo de memória). Styron fora convidado, com um grupo de jornalistas, para um jantar na Casa Branca com John Kennedy. Bem, é preciso lembrar que Kennedy era um apreciador de havanas e conta-se que, antes de decretar o embargo comercial a Cuba, estocou grande quantidade de puros para garantir o consumo futuro. H.Upmann era sua marca preferida e, no fim da refeição, ofereceu-os aos jornalistas. Discretamente, Styron acendeu um dos seus próprio charutos e guardou como lembrança aquele que Kennedy lhe dera. Era um souvenir e tanto e não merecia ser reduzido a cinzas. Afinal, ao oferecer charutos cubanos aos seus convivas, o presidente cometera um ato ilícito, violando um decreto que ele próprio havia assinado.
Quando Kennedy foi assassinado, em 22 de novembro de 1963, Styron achou que era hora de exumar aquele charuto guardado como relíquia. Acendeu-o e fumou-o em honra do presidente morto. Acho essa história linda.
09.03.07
Chove sobre a Serra do Japi. Assumo (temporariamente) a sugestão do nosso Jakob a respeito dos “Diários do Japi”. Como não sei quanto tempo ainda vou ficar pela serra, também não sei quanto durarão esses “diários”. No sábado pretendo interromper por dois dias minha estada por aqui. Devo ir à Baixada Santista, ao Guarujá e, no domingo, ver o jogo entre Santos e São Paulo na Vila Belmiro. Na segunda, volto para cá e fico pelo menos mais uma semaninha. No sossego.
Pensei muito a respeito dos comentários aos posts sobre leitura. É um tema que interessa e muito a este blog escrito por um crítico de cinema que também acredita na força da palavra. Longe de mim fazer a apologia do intelectual de gabinete, aquele que só conhece o mundo através da leitura. Acredito muito no poder da rua, no contato direto entre as pessoas, na conversa de botequim. Mas, devo admitir, boa parte da minha visão de mundo se deve à leitura de certos livros. Quase ao acaso, sem forçar muito a memória, eis alguns deles:
Na infância, aprendi com Monteiro Lobato como a leitura pode ser prazerosa. Fico às vezes pensando na satisfação que tive ao ler Reinações de Narizinho, O Poço do Visconde, A Chave do Tamanho, livros assim. Lia à noite, escondido, com um abajur coberto por um pano para que minha mãe não percebesse e me mandasse dormir.
Na adolescência forma-se a base de um pensamento romântico, quer dizer, baseado na generosidade. Assim, lendo Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo, pensei no valor do desprendimento. Com Os Miseráveis, pensei na solidariedade. Com o mesmo Erico embarquei na Saga de O Tempo e o Vento e me apaixonei pelo Rio Grande do Sul. E pela política. Formação completada com o Jorge Amado de País do Carnaval, Cacau, Suor, Capitães da Areia. Jorge depois me ensinou a amar a Bahia com Gabriela e Dona Flor e seus Dois Maridos. Aprendizagem completada com Os Velhos Marinheiros.
A descoberta de Machado de Assis foi fundamental. Surpresa e prazer intelectual quando li pela primeira vez Dom Casmurro, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Um amor para toda a vida. Comprei, faz muitos anos, a obra completa de Machado e vivo relendo o nosso maior autor. Leio Machado, em especial quando acho que já aprendi a escrever.
Outra paixão é Graciliano Ramos, que, nesse sentido, só rivaliza em meu coração com Guimarães Rosa e Machado. Tive a mesma impressão ao ler Angústia e Grande Sertão: Veredas. Pasmo total. Como era possível levar a literatura tão longe? Lê-los, me vacinou, para sempre de qualquer complexo de inferioridade. Um país que tem autores desse porte nada fica a dever aos outros. Ponho também, no mesmo patamar, Carlos Drummond e João Cabral de Melo Neto. Drummond foi uma verdadeira fixação de adolescente, quando eu ainda pensava que poderia algum dia escrever versos. Melhor ler versos bons que cometer versos maus.
Uma descoberta de juventude que (acho) mudou minha vida foi Julio Cortazar. Comecei, a conselho de um amigo de faculdade, por O Jogo da Amarelinha, que então acabava de ser traduzido. Fiquei fascinado. E fui lendo tudo, tudo, tudo de Cortazar. Bestiário e Octaedro me deixaram de quatro. Atrás dele vieram Borges, Rulfo, García Márquez. Acho que houve uma fase na minha vida que só lia literatura latino-americana. Mas acho que é impressão: sempre li de tudo e sempre misturando gêneros, autores, ficção e teoria, prosa e poesia.
Há livros que devem esperar uma certa maturidade. Tentei ler A Montanha Mágica, de Thomas Mann, quando era adolescente, mas fiquei entediado. Voltei a ele anos depois e se transformou em um dos livros da minha vida, junto com Doutor Fausto, também de Mann. A mesma coisa se passou com Em Busca do Tempo Perdido, que tentei ler ainda muito moço em tradução de Mário Quintana, que verteu a maioria dos sete volumes de Proust para a antiga edição da Globo. Não agüentei. Já morando na França, comecei a ler no original. Em épocas de lazer, gostava de comparar original e tradução. Proust virou um parceiro para a vida toda. Volta-se a ele, sempre.
E a mesma coisa se pode dizer de Ulisses, de Joyce, que me causou uma funda impressão. Fui lendo aos poucos, na trabalhosa tradução de Antonio Houaiss. Depois, em Paris, li a de Gilbert (se não me engano) e achei mais acessível. Há um ano saiu a tradução de Bernardina Pinheiro e, graças a ela, voltei a Joyce. Ler o Ulisses é um exercício de liberdade mental.
Enfim, poderia escrever horas e horas sobre esses livros formadores. E olhe que tratei só dos de ficção, hein? Felizmente, nenhuma formação está completa e esses livros que mudam a cabeça da gente continuam a aparecer. Por exemplo, li, há uns dois anos, Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato, e fiquei estupefato. Estou agora mesmo lendo, e com muito vagar, um livro que estou adorando, Os Detetives Selvagens, do chileno Roberto Bolaño. Quero terminá-lo para escrever sobre ele. Mas uma coisa já sei: é estupendo, inovador, surpreendente.
Cada um de nós pode montar com facilidade essa lista amorosa de leituras. Escrevi aqui, distraidamente, deitado na cama enquanto a chuva bate lá fora. Devo ter esquecido um monte de livros que fizeram a minha cabeça, com certeza. Mas todos esses que citei são um pouco responsáveis por aquilo que sou. É bom lembrar deles. E os livros de vocês? Estou esperando a lista de cada um, aqui no Japi.
02.01.07
Não queria me transformar em porta-voz de nenhuma causa ecológica, mas várias pessoas me telefonaram e outras tantas me mandaram e-mails para se queixar do estado das praias do Guarujá, em especial da Enseada. O abandono daquela praia foi registrado até na coluna Persona, do César Giobbi, pois o calçadão destruído pela ressaca não foi reparado e a praia, em plena temporada, continua ao deus-dará. As pessoas se queixam em especial da invasão dos quiosques, que privatizaram a areia, sem deixar espaço para ninguém. Dizem que não conseguem mais ficar na praia e pretendem buscar alternativas, se existirem. Sentem-se lesadas, pois pagam impostos ao município e o “retorno” vem na forma da degradação do meio ambiente e da ocupação urbana. O que fazer? Não sei. Apenas registro essas broncas e as assino embaixo, solidário. A decadência do balneário é explícita para quem tem olhos para ver.
26.12.06
Vai aí uma foto para ilustrar o que está acontecendo na praia da Enseada, no Guarujá. Não sou nostálgico e nem quero um Guarujá parado no tempo, dos anos 50 ou 60, ou exclusivo da elite. Pelo contrário. Agora, se isso que está na imagem não é depredar o meio ambiente, privatizar o espaço público e ferir o direito de todos ao uso da praia, não sei o que seja. Aliás, as praias brasileiras são de propriedade da União, portanto de todos nós. Como é que esses caras constroem nelas? Quem autoriza? Essas edificações são legais? Perguntas que não querem calar.

Quiosques em alvenaria, construídos lado a lado, deixando uma estreita passagem de acesso à praia. As mesas e cadeiras em vermelho, ao fundo, sobre a areia, pertencem aos quiosques. Só senta quem consome. Onde há espaço para os usuários da praia? Foto tirada do calçadão da Enseada
25.12.06
Tenho grande estima por esta cidade, e venho a ela desde criança, quando meu pai trazia a família para a Colônia de Férias dos Funcionários Públicos, situada até hoje na praia de Astúrias. Cheguei a morar aqui durante três anos, na década de 80, num apartamento na Praia de Pitangueiras. O Guarujá é um belo pedaço de natureza, que infelizmente vem sendo devastado pela especulação imobiliária, ano após ano. Morando aqui, vi morros sendo cortados ao meio para dar lugar a espigões e vi demais as leis do zoneamento sendo infringidas para edificações fora do gabarito. Enfim, desde a década de 70 promove-se aqui um massacre ambiental, consentido pelas diversas administrações, e sempre com o mesmo pretexto: “há muito desemprego, não se pode desestimular a construção civil, etc. “ Capitalismo selvagem, para definir em duas palavras.
Outra característica do Guarujá é a tentativa, em geral bem sucedida, de privatização de bens comuns. Por exemplo, o acesso a uma das mais belas praias do Guarujá, a praia de Iporanga, é hoje limitado, pois o populacho pode atrapalhar os cidadãos de alto coturno que lá mantêm as suas belas casas de veraneio. Nessa praia, eu costumava acampar na minha juventude. Agora nem posso entrar nela para conferir como está. Posso em tese, claro, mas tudo é dificultado, os seguranças pedem documentos na entrada e o número de automóveis é limitado de acordo com as vagas no estacionamento. Não há como controlar essas informações, e tudo é feito no sentido de desestimular as visitas.
Outro exemplo de privatização do público é dado por um belíssimo hotel na praia da Enseada, que, na prática, conseguiu incorporar a rua vizinha (!) ao seu patrimônio, transformando a via pública numa espécie de corredor que leva à sua entrada. De resto, o hotel expande-se em todas as direções, como um polvo com seus tentáculos. Da rua incorporada aos terrenos vizinhos, onde construiu uma discoteca, até a praia, onde tinha um restaurante que agora está sendo reconstruído, pois levado por uma violenta ressaca que se abateu sobre o Guarujá faz alguns meses.
A praga dos quiosques: a arraia mais miúda também se expande e apropria-se do bem comum, como é o caso dos quiosques que infestam a mesma praia da Enseada onde fica tal hotel (não digo o nome para não fazer propaganda). No trecho da Enseada mais próximo ao centro, os quiosques se amontoam uns sobre os outros e avançam sobre a areia. No começo eram construções toscas, bucólicas, até românticas, e de aparência inofensiva. Cresceram e multiplicaram-se, como manda a Bíblia. Agora acham-se solidamente fincados sobre concreto armado, alguns sobre pilotis para melhor enfrentar as marés. Os donos dos quiosques encontraram uma maneira bastante prática para expandir seu campo de atuação, deslocando mesas, cadeiras e guarda-sóis em direção ao mar. Ocupam assim toda a faixa de areia disponível, deixando os outros usuários a ver navios, quando estes existem no horizonte. Para completar seu campo de atuação, os quiosques costumam tocar música (de péssima qualidade) em alto volume, para atrair a atenção da freguesia.
Quem anda pelo calçadão da Enseada só consegue ver o mar pelas frestas entre um quiosque e outro. Quem tem a sorte de encontrar um pedaço de areia para acomodar-se, não ouve o mar, pois os quiosques, para garantir a “alegria” dos clientes, bota seus alto-falantes à toda. E o usuário da praia da Enseada também não sente o cheiro da maresia, pois o que há no ar é o odor nauseabundo das frituras dos quiosques. É assim, privado em todos os sentidos da experiência, antes apaziguadora, de estar numa praia, diante do oceano. Acabou-se. Só o que não acabou foi o IPTU cobrado aos moradores da Enseada, e reajustado a cada ano.
Eis como se transforma um pedaço de paraíso numa sucursal do inferno. O Guarujá continua lindo, mas alguns de seus pontos já estão inabitáveis. A praia da Enseada é o melhor exemplo dessa decadência.
22.12.06
Este blog está em semi-recesso de Natal, mas mesmo assim não resisto à tentação de postar alguma coisa, de vez em quando. Como estou no Guarujá, e sob chuva, ajuda a passar o tempo. Bem, essa discussão aí dos posts anteriores sobre o excesso de filmes me fez pensar em algumas coisas. Primeiro, que se fosse só um problema corporativo da crítica, eu nem perderia meu tempo, e nem encheria a paciência de vocês, com um assunto desses. Detesto a egolatria e se ponho alguma coisa em discussão é porque acho, de maneira insensata ou não, que possa também interessar a outros. Portanto, acho que pode dizer respeito a quem gosta de cinema, cultura & afins, que é o nome deste blog, criado por mim em tarde pouco inspirada.
O problema, acho, é que esse excesso está prejudicando a, por assim dizer, biodiversidade no mundo do cinema. É como você ter um ecossistema superpovoado por uma espécie voraz e que tende, portanto, a se tornar hegemônica nessa ambiente. De certa forma, e mal comparando, é o que está acontecendo no mundo todo, com algumas raras exceções, como a França, Índia, Coréia e poucos outros países. No nosso, como em outros, a produção hollywoodiana é hegemônica, ou quase, deixando pouco espaço para outros filmes. Tudo cresce, mas a produção que se impõe no mercado é uma só. Isso é um perigo para a diversidade,para quem ama o cinema para valer e não apenas uma de suas vertentes.
Segundo, é que os poucos filmes de exceção, mesmo que cheguem ao circuito, acabam não tendo a repercussão que merecem. Não há tempo para assimilá-los, discuti-los, eles acabam sendo uma gota num oceano, tragados pela vertigem da produção.
Como disse um amigo do blog, isso não acontece só no cinema – é um dado geral da nossa sociedade contemporânea, opinião com a qual concordo sem nenhuma ressalva. Como mexo com livros também, constato o mesmo fenômeno no mercado editorial. Amigos me dizem que isso se passa de forma igual no mercado fonográfico e vai por aí. Nada repercute, porque nada se destaca da imensa geléia geral em que estamos mergulhados.
Voltando ao cinema. Tudo isso está acontecendo justo no momento em que as novas tecnologias permitem uma grande democratização na produção de filmes. Diferentemente do que acontecia poucos anos atrás, hoje ficou muito mais barato fazer cinema. Se você tem uma miniDV e um programa de edição como o Final Cut, pode fazer um filme em casa. Uma produção de “fundo de quintal”, por assim dizer, no melhor sentido do termo, quer dizer: artesanal. Realiza-se, pouco a pouco, a utopia sonhada pelo diretor Carlos Reichenbach, de um cinema “antiindustrial”. Fora da linha de montagem. O cinema, quase tão acessível quanto a caneta e o papel com os quais você escreve um conto ou um romance.
Num artigo do ano passado (O Globo, 12/09/05), Cacá Diegues saudava esse novo tempo dizendo que gente como ele, rapazes de classe média do Cinema Novo, havia começado a fazer filmes para falar em nome dos desfavorecidos. Cacá entende que chegou a hora desses desfavorecidos começarem a fazer seus próprios filmes. Falar em seu próprio nome. E a existência de grupos como Nós do Cinema, o Cinemaneiro, o Filmagens Periféricas, as Oficinas Kinoforum e outros fala em favor dessa tese. Sem as novas tecnologias eles existiriam, pois o processo industrial do antigo cinemão os inviabilizaria.
Então o processo começa a democratizar-se na ponta da produção, da feitura dos filmes. Mas o gargalo continua apertado na outra ponta – a da exibição. Os filmes baratos, artesanais, antiindustriais, começam a ser feitos com mais facilidade. Mas quem os vê? E a pressão do mercado, a overdose produtiva dos estúdios, aperta mais ainda esse gargalo. Esse é o nó da questão, a meu ver, e seu aspecto mais grave: nesse espaço que tende ao gigantismo, há pouco espaço para o alternativo.
Se os críticos estão trabalhando mais, isso é problema deles e que resolvam o desafio como puderem. Mas penso que há nessa questão aspectos que dizem respeito a todos os que gostam de cinema e acham que ele ocupa uma posição importante nas nossas vidas.
Abraços a todos.
Crítico de cinema, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo
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