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31.03.09
Depois de Jogo de Cena, Eduardo Coutinho aprofunda sua pesquisa sobre as relações entre o real e o imaginário. O título agora é Moscou, que pode, à primeira vista, ser descrito como relato dos ensaios do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, da peça As Três Irmãs, de Chekhov. O diretor (da peça) é Enrique Diaz e, nesse nível de leitura, Moscou pode ser entendido como um filme de bastidores. A peça atrás da peça, ou seja, o pequeno teatro montado entre as pessoas para que o teatro de verdade aconteça.
Tudo, no entanto, é muito mais sutil e profundo. O texto de Chekhov é longo. Por isso, o diretor Enrique Diaz e o elenco (e o próprio Coutinho, que aparece em cena) concordam que terão de trabalhar com excertos, com um extrato da peça, reunindo as três irmãs, alguns homens que as rodeiam, e uma profunda nostalgia. De quê? Em primeiro lugar, da capital. Eles estão numa província distante e esperam voltar para Moscou. Mas, mais profundamente, nostalgia de alguns momentos, saudades de si mesmas. Bem à maneira de Chekhov, há mais sensações, climas, do que "acontecimentos" em si.
Mas, além disso, o diretor pede alguns exercícios para sensibilizar os atores, flexões emocionais para que se disponham melhor à atuação. O que pede? Que relatem algo de seus conflitos na atualidade. Pode ser o medo, ou a relação com os filhos que não vai bem. Pode ser, no fundo, qualquer coisa, desde que se dê como ponto pacífico que o ser humano é conflitado com os outros e consigo mesmo por definição. Mas quem está falando? Os personagens de Chekhov, através do texto, ou são os atores que falam de si mesmos? Onde a verdade? Onde a ficção? Claro, estamos aqui de novo no ambiente de Jogo de Cena - as atrizes interpretam os casos reais que escutaram ou falam de si? O que não quer dizer que um filme seja a continuação de outro; apenas refletem um mesmo momento do artista.
No fim, por intermédio da estrutura da representação, Coutinho repropõe uma velha máxima do imaginário artístico. Conforme a frase latina - "de te fabula narratur", de Horácio: a história que está sendo contada fala de você. É o que, no fundo, justifica o nosso envolvimento com algo que, em aparência, nada tem a ver conosco. Por que nos importaríamos com três irmãs nostálgicas, numa província russa, diálogos de uma velha peça de teatro escrita em 1900? Simples: porque as irmãs criadas por Chekhov falam de nós. Falam de sentimentos, esperanças, dores e mesquinharias que pertencem a todos nós, ao nosso patrimônio simbólico comum.
Coutinho cria um espaço cênico de pura indeterminação. A fotografia, muito expressiva, facilita o vai e vem entre os (pelo menos) dois planos da narrativa. E a relação intersubjetiva, por ser sempre ambivalente, facilita a entrada do espectador no jogo. Afinal, ele, como os atores, é parte daquilo. Mas, ao mesmo tempo em que nos seduz, o filme nos afasta com técnicas anti-ilusionistas. Se desejamos nos deixar seduzir e fascinar por aquilo que vemos, logo nos é mostrada a equipe técnica, a filmar, com os microfones suspensos para captar as vozes dos atores.
Somos lembrados de que tudo é encenação. E nos emocionamos assim mesmo. Ou, melhor: nos emocionamos porque sabemos que se trata de uma encenação. No interior desse acervo comum das emoções humanas somos, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos. Moscou é mais um filme excepcional de Eduardo Coutinho. E não nos peçam para dizer se é documentário ou ficção. A pergunta já não cabe.
(Caderno 2, 31/3/09)
Essa pergunta foi feita um dia por minha mulher: "Mas, que diabos vocês tanto exigem da seleção?" Não me lembro direito do contexto. Suspeito que tenha sido durante a Copa de 2006, num daqueles jogos que a seleção venceu sem convencer e avançou... rumo ao desastre. O "vocês" que ela me jogava na cara se referia tanto a "nós", da crônica esportiva, como a "nós", gênero masculino em sua totalidade, a tal torcida brasileira, conhecida pela intransigência com a seleção. A certa altura da partida, em que a canarinho jogava particularmente mal, e era cada vez mais criticada pelo comentarista do canal em que assistíamos ao jogo, ela, em desespero, pediu, ou antes, ordenou: "Muda para o Galvão, pelo amor de Deus!" Garantia de ufanismo, torcida incondicional. Mas diante de certas exibições da seleção brasileira, nem todo o ufanismo do mundo parece capaz de tapar o sol com a peneira.
Domingo foi um desses dias. Foi tão ruim que, em tema controvertido como o futebol, chegamos a raro consenso: não fossem a falta de pontaria dos equatorianos e a grande atuação de Julio Cesar, a seleção teria sido humilhada com uma goleada histórica. Jogar mal é da vida. Agora, jogar de maneira covarde, como time pequeno, é outra. Claro que é uma questão tática e também técnica: o que fazem certos jogadores com a camisa da seleção brasileira? E de que adianta colocar Ronaldinho no meio de campo, se ele se esgueira durante o jogo como uma sombra de si mesmo? Há tudo isso. Mas há também uma questão de atitude, de orgulho próprio, de mínimo compromisso com o passado daquele time.
De modo que volto à pergunta: o que esperamos da seleção? Durante um bom período, esperamos muita coisa: títulos e bom futebol. Afinal, no Brasil, tínhamos certeza, jogávamos o melhor futebol do mundo. E, escolhendo os melhores entre os melhores, não havia como dar errado. Tivemos algumas desilusões, é claro (1966, 1982) que atribuímos a fatores vários - má administração, salto alto, o peso do destino, etc.
Depois o futebol mundial mudou e, com ele, a seleção. Tornou-se cada vez mais distante, os jogadores passaram a ser estranhos com quem convivíamos (pela TV) durante as Copas. Mesmo assim, houve uma sequência memorável: campeões em 1994, vices em 98, campeões de novo em 2002. Depois veio 2006 e estabeleceu-se um patamar mais baixo de expectativa. De tudo o que aconteceu na Copa da Alemanha, dos preparativos aos jogos em si, ficou uma imagem de desleixo, de descompromisso, de predomínio da filosofia do "não estou nem aí". Dunga, em tese, veio para corrigir esse rumo. Tornar o time pelo menos aguerrido, brigador, orgulhoso de si. Não conseguiu. Como, aliás, seria de se prever, pois esse tipo de atitude mental não está disponível no mercado, não chega por decreto e nem se compra com cartão de crédito. É fruto de determinadas circunstâncias, históricas talvez. Em síntese: ou se tem, ou não se tem. E ponto.
Já quisemos muito da seleção: show de bola, com jogadas geniais, criativas, de encantar o mundo. Já quisemos títulos, grandes conquistas, partidas memoráveis, daquelas que entram para a história do esporte. Hoje, diminuímos muito nosso nível de exigência. Queremos talvez um pouco de vergonha na cara. Por exemplo, jogar de igual para igual contra uma "potência" como o Equador. E nem isso estamos obtendo. Melhor desistir de vez.
(Coluna Boleiros, 31/3/09)
30.03.09
Como contar a história de uma cidade, ou mesmo de um país? Pelas imagens oficiais ou por meio daqueles que povoam e trazem vivacidade às ruas, com todas as suas contradições? Esta última é a opção de O Esquecimento,de Heddy Honigmann, belo documentário sobre o Peru e sua capital, Lima, em particular. É a Lima vista pelos anônimos, a começar pelo barman de um dos restaurantes mais famosos da capital. Mas também saem bem na fita os pequenos malabaristas dos sinais de trânsito, pessoas que moram na periferia, gente comum que anda pela rua, alfaiates, e migrantes que vieram do interior do país procurar algum refúgio em Lima.
Refúgio de quê? Da guerra entre forças do governo e a guerrilha do Sendero Luminoso. Em geral, essas pessoas ficavam espremidas entre as duas forças em combate e sofriam todas as consequências da insanidade. Um deles diz que perdeu uma irmã num desses conflitos e, até hoje, não sabe se quem a matou foram soldados do Exército ou guerrilheiros do Sendero.
O tom, no entanto, não é de desespero. Pelo contrário. Em meio ao sofrimento e mesmo ao patético, veem-se pontos de luz. As pequenas malabaristas de semáforo desejam se tornar ginastas olímpicas. O barman, que leva a diretora à sua casa, apresenta sua mulher que nunca pôde sentar-se numa das mesas do restaurante de luxo onde ele trabalha. Não tem importância, ele diz. Cozinha para ela as mesmas comidas sofisticadas que se servem no restaurante. Exímio preparador do pisco sour (o aperitivo oficial do Peru), ele conta que certa vez serviu um suco com vodca a um presidente abstêmio. “Ele tropeçou na cerimônia oficial, e essa foi minha pequena vingança pessoal”, diz, rindo.
É dessa maneira que aparece a história oficial do país, com suas personagens conhecidas, Belaúnde Terry, Alan García, Fujimori filtrados pela ironia popular. Esse é o riso salutar que permite aos fracos a sua sobrevivência mental. O filme, singelo e encantador, é sobre um país culturalmente muito rico. E, claro, essa riqueza vem mesmo é das pessoas em aparência mais simples.
Escrevi esse texto para o caderno sobre o lançamento de Leite Derramado, o novo romance de Chico Buarque de Holanda. Ao livro, em si,volto depois.
Chico Buarque não pode se queixar de falta de sorte na adaptação dos seus romances ao cinema. O primeiro deles – Estorvo – tornou-se um dos filmes mais radicais na fase recente do cinema brasileiro, sob direção de Ruy Guerra. Benjamim não está no mesmo patamar, mas não faz feio. Dirigido por Monique Gardenberg, parece às vezes um tanto artificial, mas o romance talvez a tenha levado a esse resultado. Budapeste ainda não entrou em cartaz – tem estreia prevista para 22 de maio. Seu trailer pode ser visto nos cinemas e parece animador. A versão é assinada por Walter Carvalho, fotógrafo de ponta e ótimo diretor. Logo, logo saberemos quem se habilita a colocar em imagens, e sons, a prosa fragmentária de Leite Derramado, o romance que está hoje chegando às livrarias. Ele é tão “cinematográfico” quanto os outros, embora se possa prever uma adaptação trabalhosa.
Aliás, a opção da literatura de Chico pela prosa fragmentária, rarefeita, com idas e vindas no tempo, tem sido mesmo um desafio para os adaptadores. Essas alterações na linearidade da linguagem costumam ser mais bem absorvidas sob forma de texto, embora tais procedimentos há muito não sejam novidade no cinema, basta pensar em Godard, para ficar no nome mais óbvio. Mas o cinema, na qualidade de arte “popular” costuma ser esteticamente mais conservador que a literatura.
Mas boa parte do êxito (estético, não comercial) de Estorvo deve ser creditada à coragem com que Ruy Guerra enfrentou o texto do seu amigo e parceiro.
Chico deseja expressar o grau de alienação a que chegou uma sociedade sem qualquer expectativa que não seja contábil – sucesso, fama, mera sobrevivência. Os limites entre o crime e a lei se diluem. O narrador move-se em sua cidade como se ela lhe fosse alheia. Ruy deixou-se levar pela proposta do escritor e radicalizou-a. Leu e compreendeu profundamente o que Chico havia escrito e traduziu aquele material em imagens e sons. Diminuiu a saturação da fotografia em cores até que ela quase se transformasse em preto e branco. A câmera promove deformações. O narrador, Eu (Jorge Perrugorría, ator cubano), perambula como se não tivesse vontade própria. Tem a casa invadida, vai procurar o sítio da família e constata que ele se transformou em abrigo de marginais. Erra pela vida sem destino. A narração em off (do próprio Ruy, com seu sotaque lusitano) e a música de Egberto Gismonti contribuem para aumentar a sensação de estranheza. Talvez não haja filme que melhor expresse aquilo em que se transformou a sociedade contemporânea, brasileira e mundial. Vaga distopia transnacional, sem referências, sem pontos de conforto ou oásis à vista.
Já a adaptação de Benjamim é um tanto mais tímida. Embora se trate de um bom filme, parece precaver-se contra alguma possível falta de entendimento do público médio. As passagens de tempo – alternâncias entre a narrativa no presente e no passado – são assinaladas de maneira mais didática. A história coloca o protagonista Benjamim Zambraia em dois tempos diferentes (interpretados por Paulo José e Danton Melo). Uma paixão de juventude de Benjamim (Cléo Pires) reaparece, como reencarnada, 30 anos depois. Esse caso de amor em dois tempos leva o personagem a reavaliar o passado e tentar acertar contas com ele. Não se trata de uma simples história de amor, mas envolve também uma questão política não resolvida, como se o autor precisasse reelaborar um período traumático da história brasileira.
27.03.09
Chega aos cinemas a primeira parte da cinebiografia Che, de Steven Soderbergh.
Na primeira parte da saga sobre a trajetória de Ernesto Guevara há uma cena significativa. Ernesto e Fidel conversam no México, às vésperas de embarcar no Granma para tentar a derrubada de Batista. Ernesto ouve que serão 82 pessoas num iate que comporta uns dez passageiros - apertados -, e Fidel (Demian Bichir) observa que, para fazer uma revolução, é preciso ser "un poco loco". Mais tarde, no relato, Ernesto observa que, por paradoxal que pareça, uma revolução é um ato de amor. Segundo o crítico Eugenio Renzi, dos Cahiers du Cinéma, esses dois polos definem a ideia central de Soderbergh - a revolução depende tanto da paixão quanto de um pingo de loucura, e que a aliança de Fidel e Che só deu certo porque foram capazes de levar essa premissa às últimas consequências.
Pode-se, ou não, concordar com essa tese, mas ela ilumina tanto esta primeira parte de Che que entra agora em cartaz (O Argentino) como, em especial, a segunda (A Guerrilha, ainda sem data para estreia). Este segundo filme se passa anos depois da vitória da revolução. Quando Guevara lhe anuncia que vai deixar os seus encargos no governo para tentar a guerrilha na Bolívia, Fidel lhe responde: "Você que é o louco." Há, nessa afirmação, um contraponto entre um filme e outro e que impede a leitura superficial do segundo como história de um fracasso. Pelo contrário, para ser coerente com sua opção de revolucionário, o Che teria de tentar exportar a revolução pelo continente. Mesmo contra toda expectativa de vitória e contra a opinião de Fidel, já solidamente instalado no conforto do poder. O Che era de outro estofo. E, novamente, goste-se ou não, se quisermos entender o personagem, temos de levar em consideração esse seu traço, digamos, quixotesco e mesmo sacrificial.
Em termos de cinema, essa primeira parte é de assimilação mais fácil, por ser o relato épico de uma vitória. Passando pelo encontro no México com os irmãos Castro, pela campanha na Sierra Maestra e a entrada em Havana, o relato é fluido, justo, com muito rigor histórico e cinematográfico. A busca do filme é pela credibilidade factual e pela verossimilhança artística. Contribui muito para o resultado a direção sólida de Soderbergh e um Benicio del Toro que se entrega ao papel com amor. E um grão de loucura.
(Caderno 2, 27/3/09)
26.03.09
Isso aqui não é bem uma queixa, mas uma advertência ao consumidor. Cheguei ontem em casa querendo ver TV e a Net estava fora do ar. Liguei para a Central de Atendimento. A máquina respondeu que meu telefone já estava cadastrado e que ela (ele?) havia identificado que a minha área tinha problemas e que não seriam solucionados antes de 2h30 da manhã. Se eu tivesse outro assunto a tratar, que esperasse pelo atendente. Mas, quanto à falta de sinal, a resposta do atendente seria a mesma.Eu que ficasse na minha e não perturbasse mais .
Meia hora depois liguei a TV... e nada. Aliás, a internet também estava fora do ar. Tentei um estratagema. Como havia feito a ligação pelo celular, desta vez chamei pelo fixo. Na esperança de que não estivesse no cadastro. Aparentemente estava. E sabe o que máquina "disse"? Que o problema continuava e que ela havia percebido que eu já havia ligado antes...Ou seja, que eu não chateasse mais.
Certo, é um direito da máquina zelar pelo seu sossego. Agora, como eu pago mais de 300 reais por mês para a NET (por TV e internet), acho que pelo menos a máquina da central de atendimento poderia ter um pouco mais de paciência comigo, né?
O jogo que eu queria ver eu já perdi mesmo. Tinha alguns e-mails para responder e não pude. Sabe o que eu proponho? Que pelo menos as horas em que a NET permaneceu fora do ar sejam descontadas da conta seguinte. Não seria justo?
25.03.09
Basta uma olhada rápida no perfil do É Tudo Verdade deste ano para concluir que a aposta da curadoria foi na radicalidade dos participantes. Por exemplo, no filme de abertura, Cartas ao Presidente, Petr Lom revela de maneira incisiva os mecanismos do populismo no Irã contemporâneo. No caso, o presidente Ahmadinejad estimula a população a escrever-lhe cartas, contando seus problemas, como se fosse lê-las pessoalmente. O filme acompanha o processo, em que as cartas são classificadas, lidas e respondidas por estudantes lotados no palácio presidencial. Vale essa ilusão do "contato pessoal", da democracia direta, que constitui a característica por excelência do populismo. O filme se constrói a partir de entrevistas feitas com iranianos - uma opção que exclui as explicações em off e leva à abertura de interpretações.
Outro exemplo é O Equilibrista, de James March, vencedor do Oscar de documentário de 2009. O filme, realizado com imagens captadas em várias épocas, reconstrói a trajetória de Philippe Petit, um mestre da corda bamba, que se notabilizou em seu país por ter andado entre as torres da Catedral de Notre-Dame. Mas esse feito parece café pequeno comparado ao que viria depois: Petit conseguiu estender sua corda entre os dois prédios do World Trade Center e percorreu o caminho do vão livre oito vezes, para pasmo dos nova-iorquinos.
A façanha teve caráter de uma operação de guerra, com o prédio sendo invadido à noite para que o equipamento fosse montado. Petit gosta dos desafios radicais. Estranha quando lhe perguntam "por que você faz isso?", pois a resposta lhe parece óbvia: é para provar-se. Lembra a do alpinista que primeiro escalou o Everest. Por que arriscou-se tanto? "Ora, porque a montanha estava lá", respondeu. Há, nesse francês, alguma coisa de Werner Herzog, o cineasta de Aguirre, a Cólera dos Deuses e Fitzcarraldo. Esse impulso em direção à proeza, o risco que flerta com a morte. O filme todo se desenvolve como um thriller, envolvente ao extremo.
Entre os participantes nacionais, o recorte provocativo também se impõe. É o caso de Corumbiara, de Vincent Carelli, relato pouco convencional do massacre dos índios numa gleba em Rondônia, nos anos 1980. Carelli e sua equipe saíram atrás de índios remanescentes, registrando a busca com sua câmera, inclusive o encontro com alguns raros sobreviventes, que falavam uma linguagem desconhecida. As imagens eram para registro próprio e ele nem havia pensado em delas fazer um documentário. Este surge a posteriori. E tem o tom da história se fazendo à vista do espectador, com fluência, montando o quebra-cabeças de etnias perdidas - e que escapam da extinção por milagre. Junto com Terra Vermelha, de Marco Bechis, e Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, este Corumbiara coloca a questão indígena em patamar diferente, sem as ilusões do bom-mocismo rousseauniano ou o facilitário das narrativas lineares.
Em outra chave, não menos contundente, aparece Garapa, o esperado documentário de José Padilha. Rodado inteiramente em preto-e-branco, o filme baseia-se numa frase de Josué de Castro, autor do clássico Geografia da Fome. Existem, segundo Josué, duas maneiras de uma pessoa morrer de fome: ou não comer nada, ou alimentar-se de maneira constante com nutrientes inadequados. A partir dessa premissa, Padilha segue o cotidiano de três famílias cearenses, à beira da desnutrição apesar dos programas como o Fome Zero. Sobrevivem, mas no limite. As imagens são incômodas ao extremo. No preto-e-branco granulado, vê-se gente lutando pela vida no dia a dia, em condições precárias, mulheres tentando criar fieiras de filhos em meio à falta absoluta de saneamento básico e ainda tendo de enfrentar o alcoolismo dos maridos. Segundo dados da ONU, nada menos de 11 milhões de brasileiros vivem nessas condições. Esse é o drama atual.
Já Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, volta aos anos 70 para tocar em tema complicado - a colaboração de empresários paulistas com a polícia e o exército na repressão aos contestadores do regime. A figura exemplar é o dinamarquês Henning Albert Boilesen (1916- 1971), que imigrou para o Brasil, tornou-se presidente do grupo Ultragás e foi executado por militantes de esquerda por sua participação na Operação Bandeirantes. O personagem é flagrado em sua complexidade e toda uma época de violência e radicalismo político lhe serve como moldura. Um dos mais contundentes documentários sobre os chamados anos de chumbo no Brasil.
(Caderno 2, 25/3/09)
O mal-estar social e psicológico dá o tom a este
O centro da trama se coloca na família de Paulo (Felipe Duarte), um empregado da construção civil que acaba de perder o emprego. Sua mulher, Lúcia (Isabel Abreu) não aceita a deterioração econômica da família e culpa o marido pelas dificuldades. Ele responsabiliza a crise, mas isso em nada ameniza o péssimo clima do lar. Em linha paralela, a irmã de Paulo, enfermeira, atende a um paciente terminal e o conforta em seus últimos dias.
A intenção dos diretores parece clara – associar a moléstia física de um personagem à doença crônica da sociedade. Esta não tem mais como absorver os problemas causados pelo desemprego. A fragilização do Estado do bem-estar social europeu entrou em refluxo com as políticas liberalizantes dos anos 80. Por isso, Paulo não tem mais os amortecedores sociais que suavizavam o desemprego e tornavam mais tranquila a busca por nova colocação. Paulo não está totalmente desamparado mas se torna uma espécie de “não-pessoa” enquanto frequenta esse limbo social.
Essa condição aparece de maneira bem explícita em uma cena marcante do filme, com o pai de Paulo insultando-o e dizendo que não pode ser considerado um homem aquele que não consegue colocar comida na mesa de sua família. É um momento de rara densidade, em que o clima depressivo de fato se justifica e consegue ligar a angústia do personagem não apenas à situação econômica do país como às suas tradições patriarcais.
A cena do almoço com o pai
De fato, existe aí um descompasso entre a tradição – o homem lusitano provedor – e aquilo em que a sociedade foi transformada pela competição desenfreada e por um sistema que pode deixar sem sustento mesmo um bom trabalhador. Essa condição é cruel, e torna-se ainda mais dramática porque culpabiliza a vítima. O desempregado, aos olhos de sua mulher e do seu próprio pai, é um fracassado. Ou ainda pior: um ocioso, alguém que não se importa com os outros ou consigo mesmo, além de não ter fibra na luta pela vida.
Essa internalização da culpa é que dá tônus ao filme. E representa também sua relativa fraqueza, já que a situação do protagonista parece precariamente ligada ao seu entorno social, ou seja, àquilo que lhe dá sentido. Meio histérico às vezes, pesado e cinzento, o filme tira bom proveito da qualidade do elenco. Nenhum dos atores é destoante. E a câmera tenta aplicar alguma leveza, movendo-se e enquadrando de modo a evitar o tom acadêmico. Com sucesso, mas o filme poderia respirar um pouco melhor se, ao tema pesado, acrescentasse alguns toques de leveza.
(Caderno 2, 25/3/09)

Pedro Almodóvar é, num primeiro momento, o cineasta do pós-franquismo, da Espanha moderna, que se desrecalca depois de uma longa e moralista ditadura. É, como já se disse, o cineasta da "movida", da farra da Madri liberada, mas, de maneira mais profunda, da abertura do país a toda a sorte de influências, antes filtradas pela alfândega censória do generalíssimo.
Anárquico e libertário, Almodóvar pôde ser moderno sem jamais deixar de ser profundamente espanhol. Divulgou uma Espanha colorida, fortemente melodramática e picaresca em filmes como Pepi Luci Bom (1980), Labirinto de Paixões (1982) e Maus Hábitos (1983), para citar alguns dos títulos mais conhecidos dessa primeira fase. Nela, o anticlericalismo radical (só acessível a quem foi criado em ambiente puritano) une-se à questão urgente do sexo. E, posteriormente, do desejo, tratado de maneira mais ampla em Matador (1986), A Lei do Desejo (1987) e Ata-me (1990). Interessa a Almodóvar esse impulso paradoxal do desejo humano, que força os limites do socialmente conveniente e é própria afirmação de vida, mas também do seu contrário, a morte, a extinção do ser. Eros e Tânatos, segundo o jargão da psicanálise.
Nesse universo ambivalente, não faltam personagens homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais e mesmo heteros. A pulsão humana não se resume aos interesses da reprodução e da continuação darwinista da espécie, e Almodóvar coloca no centro da sua cinematografia esse caótico Eros humano que explode em todas as direções e em todas as formas, até mesmo na sua inversão mais radical, a morte. Seus filmes se desenrolam nesse universo multissexual, colorido, vibrante, nas cores da paixão e das variações possíveis em torno da ciranda amorosa.
Mas, fora isso, como numa espécie de círculo concêntrico, Almodóvar revela-se extraordinário conhecedor da alma feminina, e apologista de um tipo particular, a mulher latina. Suas atrizes favoritas logo passaram a usar o adjetivo de "almodovarianas", tamanha a identificação com o projeto artístico e existencial do cineasta - Carmen Maura, Victoria Abril, Rossy de Palma, Marisa Paredes, e, agora, Penélope Cruz que, com ele em Volver (2006), desabrochou, perdeu aquele ar de chatinha e assumiu-se exuberante.
O interessante é que o Almodóvar anárquico dos primeiros filmes e, em especial, do grande sucesso Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), sofre mutação sutil em sua fase mais madura. Sem nunca perder o gume crítico e a alma libertária, passa a imprimir tom mais terno a seus filmes. Como esquecer, por exemplo, o final de A Flor do Meu Segredo, com a música de Tonada de Luna Llena (cantada por Caetano Veloso), que acompanha o espectador como se o embalasse em doce conforto depois de tudo que lhe fora servido ao longo da trama? Ou o tom caloroso de Fale com Ela, um dos seus mais belos títulos recentes?
Neste, em meio a uma história como de hábito conturbada, o personagem Benigno (Javier Câmara) insiste que se deve conversar com as pessoas, mesmo com pacientes em coma profundo. É um patético apelo à comunicação neste mundo de balbúrdia em que as pessoas, por paradoxo, tendem a se isolar umas das outras. O cinema de Almodóvar, terno, caloroso, vibrante, ensaia um movimento em sentido contrário. Sem nunca ser diretamente político, ainda assim ele o é, ao se abrigar no vital universo feminino, refúgio para um mundo masculino e árido - mesmo que nesse mundo real as mulheres tenham participação cada vez maior, desempenhando seus novos papéis de maneira máscula.
É desse mundo ainda falocêntrico que Almodóvar faz a crítica mais consistente do cinema atual. A cumplicidade entre as suas mulheres, a maneira prática e ao mesmo tempo suave como enfrentam as contingências da vida, da doença e da morte, apontam, no pós-socialismo real, para um outro tipo de utopia contemporânea.
(Cultura, 22/3/09)
Leia entrevista com o cineasta, publicada no mesmo número do Cultura
24.03.09
Bastante explosivo o conteúdo de Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, que está no É Tudo Verdade deste ano. Fui vê-lo na sessão de imprensa e recomendo, em especial a quem se interessa pelo período da ditadura militar brasileira.
O filme aborda um tema-tabu do período: a participação de empresários paulistas na repressão aos grupos de esquerda. Henning Albert Boilensen foi uma figura exemplar desse tipo de colaboração. Dinamarquês, imigrou para o Brasil e aqui fez fortuna. Tornou-se presidente do grupo Ultragás, no auge da carreira. Anticomunista ferrenho, organizou e participou ativamente na "caixinha" dos empresários para arrecadar fundos para a Oban - a famigerada Operação Bandeirantes.
Amigo pessoal do delegado Fleury, Boilesen ficou famoso por acompanhar pessoalmente as sessões de tortura. Dizem que sentia imenso prazer em ver presos pendurados no pau de arara, apanhando e tomando choques elétricos. Em 1971, Boilesen foi executado por um grupo de esquerda, por estranha coincidência na mesma Alameda Casa Branca onde havia morrido Carlos Marighella dois anos antes.
O filme traz depoimentos importantes de ex-guerrilheiros, historiadores do período, políticos como Fernando Henrique Cardoso e religiosos como Dom Paulo Evaristo Arns, policiais e até de um dos filhos do empresário. Quem o conheceu, diz que Boilesen era boa gente, afável, alegre e mulherengo. Mas houve também quem tivesse testemunhado seu lado obscuro e este nada tinha de agradável.

Enfim, um personagem-símbolo de um período triste, ainda por ser devidamente esclarecido. Com frequência se fala em golpe militar mas se esquece de que houve participação de setores civis tanto no golpe como na manutenção do regime, inclusive financiando a repressão e o desrespeito aos direitos humanos. O filme fala de duas notáveis exceções, a serem registradas: Antonio Ermírio de Morais e José Mindlin foram dois empresários que se recusaram a contribuir para a "caixinha da tortura". Engrandeceram suas biografias.
Falemos de cinema e tênis antes de chegar ao que interessa. Woody Allen tem um filme genial chamado Match Point. As imagens iniciais mostram a bolinha que bate na fita da rede, sobe e...para que lado ela vai cair no último ponto da partida? No filme, o tênis é usado para discutir a força do acaso na vida das pessoas. Um assassino ambicioso pode se dar bem ou ser preso dependendo de um pequeno detalhe, fora do seu controle ou da polícia. Conclusão: podemos fazer de tudo para que as coisas deem certo, mas se não contarmos com um deus irônico e muitas vezes cruel a nosso favor, tudo será inútil. Sem um pouco de sorte ninguém consegue nem atravesssar a rua para chupar um Chica-Bom, dizia Nelson Rodrigues.
Agora, o futebol: imagine se Neymar tivesse feito aquele gol, na melhor chance do Santos durante o clássico de domingo com o Corinthians. Não é uma hipótese de ficção científica e nem tem nada de absurda. Era um gol para ser feito e só não aconteceu porque o garoto estava meio desequilibrado, ou porque tenha sentido o peso do momento, ou talvez devêssemos dar o devido crédito ao goleiro Felipe, que saiu muito bem na bola. Ou tudo isso ao mesmo tempo, pois um fato é feito de muitas razões. Mas, se o gol tivesse acontecido, será que eu teria ouvido em toda parte explicações táticas que faziam da vitória corintiana algo de inexorável, necessário como se estivesse escrito nas estrelas? Acho que não.
Estaríamos justificando o empate como o resultado mais "justo" (essa palavra...) de um jogo equilibrado. O Corinthians teve seus momentos, o Santos teve os dele. Dentinho botou a bola para dentro e, em oportunidade mais clara do que a do Corinthians, Neymar deixou de marcar o seu. Simples assim. E por que ficamos procurando tanta "lógica" no resultado de uma partida de futebol? Por que, depois que ela acabou, insistimos em construir um jogo mental, uma espécie de modelo abstrato do jogo real, que justifique aquilo que ficou inscrito no placar de forma definitiva?
Talvez tudo isso faça parte da nossa necessidade de ter explicações lógicas para essa desordem às vezes absurda chamada vida. Precisamos nos convencer de que compreendemos muito bem as coisas e podemos montar com facilidade um esquema de causa e efeito que tudo compreende e engloba. Dar uma certa racionalidade às coisas. Além disso, como decorrência, precisamos nos convencer de que os resultados são "justos", isto é, premiam quem trabalha melhor e faz por merecer o placar obtido. É mais ou menos como se nos reassegurássemos de que fazendo tudo direitinho em nossas vidas terminaremos contemplados com o sucesso, a fama, a felicidade, ou simplesmente a sobrevivência - dependendo de qual seja o nosso objetivo.
Acontece que o futebol é o lugar do detalhe que nem sempre pode ser controlado, do acidente, do acaso, feliz ou infeliz. O pé um pouco para lá ou um pouco para cá, um efeito mínimo na bola, o morrinho artilheiro, e pronto - lá está uma vitória transformada em derrota. Ou vice-versa. Mas eu sei que é duro admitir isso. Mesmo porque a melhor forma de dar com os burros n?água é deixar tudo por conta do acaso. Então ficamos assim: precisamos planejar tudo, e nos mínimos detalhes. Mas às vezes é o detalhe imprevisto, a grande força do acaso que diz a palavra final.
Essa fragilidade das coisas (do jogo, da vida...) é bastante incômoda. Por isso mesmo precisamos jogá-la para debaixo do tapete das grandes explicações lógicas e definitivas. Somos excelentes profetas daquilo que já aconteceu.
(Coluna Boleiros, 24/3/09)
23.03.09
Não é de hoje que o cinema encontra na escola não apenas um bom tema mas um "ambiente" para representar a sociedade em seu todo. Uma espécie de microcosmo ideal, já que, em tese, todos passam pelos bancos escolares durante largo período da vida e, justamente, naqueles chamados anos de formação, em que se definem contornos e os limites de cada personalidade individual.
Na França, em particular, a escola, como cenário, está inscrita na própria história do cinema moderno, já na figura de um dos seus pais tutelares, Jean Vigo. Seu Zéro de Conduite (Zero de Comportamento), média-metragem de longuíssima influência, põe em xeque exatamente o relacionamento entre crianças rebeldes e seus autoritários mestres e diretores. Vigo era um libertário, não fosse ele filho do anarquista Almereyda - pai e filho, aliás, objetos de estudo de Paulo Emilio Salles Gomes que, sobre eles, escreveu livros fundamentais.
Zero de Comportamento se rebate no primeiro filme de Truffaut, obra inaugural da nouvelle vague, o autobiográfico Os Incompreendidos. Nele, Truffaut, usando seu alterego Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) fala de sua juventude problemática, com graves problemas familiares e, também, claro, escolares. De certa forma, foi o cinema que salvou Truffaut, foi sua "escola" de vida. Uma escola em todo contrária àquela instituição repressora que aparece na vida do jovem Doinel.
Um mestre benigno, mas muito mais ligado à realidade que à fantasia, aparece em Ser e Ter, o documentário de Nicolas Philibert sobre crianças que vivem longe do mundo urbano e têm a sorte de encontrar um professor de extraordinária dedicação para abrir-lhes o caminho do aprendizado e da socialização. Aqui não há sombra de idealização da figura do mestre, mas retrato de idealismo.
No Brasil também a escola andou figurando como tema de filmes recentes, como é o caso do ótimo documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. Através da escola, o diretor procura retratar as disparidades sociais do País. Opera pelo contraste, ouvindo alunos de classe média alta em São Paulo e estudantes de estabelecimentos carentes do Nordeste. Há contraste, mas também pontos de convergência entre eles.
O tema reaparece no recente Verônica, de Maurício Farias, com Andréa Beltrão no papel-título. Ela é uma professora exausta, que tenta salvar um aluno cuja família foi massacrada por traficantes. O garoto (Matheus de Sá) corre perigo, pois carrega um pen drive com informações comprometedoras para os bandidos. Na superfície, a trama é policial; o pano de fundo é composto por uma escola problemática, com alunos assustados e professores cansados. Um retrato bastante realista da escola pública brasileira. E reafirmação do papel do professor como sucedâneo do protetor e das figuras paternas.
Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet
Se a escola continua hoje a funcionar como microcosmo das condições sociais, o papel do professor parece se deslocar um pouco. De figura exclusivamente repressora ou redentora, torna-se um protagonista necessariamente ambíguo em uma época conturbada. Como em Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, ele vive impasses semelhantes aos de seus alunos. É parte do problema. E também da solução possível.
(Caderno 223/3/09)
O artigo acima faz parte de uma série de matérias que têm por centro Entre os Muros da Escola, o belo filme de Laurent Cantet. Se quiser ler o que Merten escreveu, clique aqui.
20.03.09
Interessante o caminho pessoal e artístico de Clint Eastwood (ambos se confundem, claro) - dos durões Dirty Harry e dos western spaghetti dos anos 60 a uma filmografia que tende a suavizar seus personagens no contato com o outro. O que é o outro? Por definição, aquele que é diferente de nós. Ele pode representar uma ameaça; pode também ser fonte de desequilíbrio e portanto de crescimento pessoal.
Essa incorporação do outro na dimensão da experiência está no centro da filmografia recente de Clint, em especial Cartas de Iwo Jima e agora neste Gran Torino. Em um, ele tem a ousadia de filmar um episódio crucial da 2ª Guerra pelo ponto de vista do inimigo japonês. Em outro, chega a vez de tratar da reação de um intolerante fundamentalista (ele próprio) diante de levas de imigrantes que chegam aos Estados Unidos.
O próprio Clint, naquela que ele diz ser sua última participação como ator, vive Walt Kowalski, perfeito exemplar do homo americanus. Metalúrgico aposentado, conserva na garagem um Gran Torino 1972, um daqueles carrões que foram a glória da indústria automobilística dos EUA pré-crise do petróleo. Hasteia a bandeira do país na varanda e hostiliza a vizinhança oriental que veio se instalar por ali. Walt acabou de ficar viúvo e não se dá com os filhos - em especial com um deles, que vende carros japoneses. Há aí toda uma simbologia meio óbvia, mas funcional. Walt é branco, intolerante e nacionalista. Também é católico, não praticante, e não dá trégua ao jovem padre que prometeu à mulher de Walt levá-lo ao confessionário depois que ela morresse.
Se dissermos que Gran Torino é um filme de conversão (não necessariamente religiosa), não estaremos fazendo jus a ele. O que ele indica é um alargamento de consciência do personagem. A princípio, Walt apenas vê o outro, mas não o enxerga. Depois que é forçado a fazê-lo, passa a distinguir nuances, inclusive as mais evidentes, que dizem respeito a diferenças de caráter e comportamento entre pessoas do mesmo grupo étnico e cultural. Cada pessoa é uma pessoa, independentemente de qualquer outra consideração. Essa poderia ser a conclusão de Kowalski, a sua renúncia a um certo nacionalismo estreito e seu progresso em direção a um sentimento mais universal. Que não fosse por outro motivo porque também os Estados Unidos são um país de imigrantes, onde mora gente como o próprio Kowalski, de raízes talvez polonesas, e seu amigo, um barbeiro ítalo-americano com quem ele troca gentilezas típicas de dois machões.
A outra questão pendente é a do lugar da violência na vida social. Kowalski sabe que não pode ser omisso se quiser proteger seu bairro e as pessoas que agora nele moram. Mas também aprendeu que um saneador social do tipo de Dirty Harry talvez já esteja superado. A maneira sacrificial como resolve esse problema pode ser o que há de mais emocionante em Gran Torino. É como se toda uma cultura da Lei de Talião estivesse sendo enterrada e abrisse caminho para outra civilidade. É um filme de esperança e reconciliação, apesar de roído pela morte em várias de suas pontas.
(Caderno 2, 20/3/09)
19.03.09
Em O Sal da Terra, o diretor paranaense Eloi Pires Ferreira pretende fazer um filme religioso – talvez no sentido amplo do termo, apesar da referência católica ser a mais forte. É uma ideia em princípio boa, a do padre caminhoneiro e sua igreja ambulante, perambulando pelas estradas e levando conforto aos profissionais do volante.
As ações concentram-se em dois personagens, o padre Miguel (Edson Rocha) e o caminhoneiro Romeu (Enéas Lour). Cabe a Romeu encarnar os dramas da profissão – a ausência prolongada de casa, os perigos da estrada, as tentações do caminho, um perigo espreitando a cada curva. Miguel, ele próprio, vive um drama pessoal mas procura levar a palavra ao seu rebanho.
Tudo é apegado à realidade, pois de fato existe uma Pastoral Rodoviária, a vida dos caminhoneiros é aquela mesma e a estética segue o caminho realista. Um elemento intrigante, um andarilho, coloca nota dissonante nessa trama. E o todo é construído sob a forma ritual de uma missa. Essas propostas superpostas não parecem se articular muito bem.
Pelo menos é a impressão que se tem desse filme correto, mas que poderia ter ousado mais. Um padre mais tocado pelo desacerto do mundo e pelo desconcerto diante de si mesmo traria uma força que, aí sim, poderia ser iluminadora. Ambicionando voar pela transcendência, O Sal da Terra é apenas edificante e não chega a tirar os pés do chão.
(Caderno 2, 19/3/09)
Minha amiga Ivonete Pinto, crítica atuante no Rio Grande do Sul e editora da revista Teorema, me enviou e-mail dizendo que vai fazer uma comunicação em simpósio sobre "a intuição do crítico", segundo ela inspirada numa observação minha a respeito de Antonio Moniz Vianna. Ela me perguntou se eu havia me referido a algum texto em especial para defender essa ideia e eu não soube dizer de imediato. Depois me lembrei de haver escrito alguma coisa sobre o crítico literário Wilson Martins, no qual falo da tal "intuição", meio en passant. Procurei esse artiguinho nos arquivos aqui do jornal e o encontrei. Se quiserem, deem uma lida. Acho que ainda vale por algumas ideias que contém. Referem-se à crítica literária, mas são observações que entendo possam ser generalizadas para a crítica de arte em geral, incluindo a cinematográfica. Abaixo, o artigo, publicado no Cultura em dezembro de 2001:
Mestre da Crítica é o volume lançado pela Top Books em homenagem aos 80 anos de Wilson Martins. A edição traz ensaios de Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Edson Nery da Fonseca, Antonio Candido e outros, tendo por tema a carreira do crítico Wilson Martins, ou assuntos literários em geral.
Por maior que seja a importância desses estudos, e por mais ilustres que
sejam os nomes que os assinam, nenhum deles ultrapassa em interesse aquele que abre o livro, O Crítico por Ele Mesmo, do punho do próprio homenageado. É uma espécie de suma de uma vida profissional, escrita com despojamento, clareza e elegância. Alguns dos seus trechos deveriam servir para meditação dos críticos militantes no País. E não apenas dos críticos literários, mas de qualquer modalidade artística.
Formação: Martins se diz educado pelo “sistema antigo, de rigor, disciplina e obediência, sem excessos de complacência”. Essa base cultural, hoje negligenciada, prepara o caminho do crítico. Mas sua formação específica se dá por autoditatismo. Martins era viciado em leitura e comentar os livros alheios pareceu-lhe natural como andar e respirar. Seu primeiro emprego como crítico literário foi no Estado, onde sucedeu a ninguém menos que Sérgio Milliet.
Cânone: ninguém decreta quais são as obras canônicas de uma literatura. Os textos fundamentais ganham lugar no cânone por um longo processo de consenso. Ou seja, foi preciso recuo histórico para que hoje ninguém perdesse tempo discutindo se Shakespeare ou Proust são ou não autores importantes. Basta lembrar que André Gide, que era leitor profissional da Gallimmard, recusou o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido. A onda do politicamente correto e do multiculturalismo procura colocar o cânone em xeque. Termina por excluir autores importantes e coloca outros em seu lugar. Cria um cânone paralelo.
Qualidade literária: é o que deve guiar a crítica, o seu critério mais
importante. Mas o que é a qualidade? Ninguém consegue definir. Santo
Agostinho dizia isso do tempo. Todo mundo sabe o que é. Quando se procura defini-lo, ninguém sabe mais. Única solução: o consenso, mais uma vez. Para esperar que o consenso se estabeleça, é preciso dar tempo ao tempo. E a qualidade do crítico? Sujeita-se à mesma condição. Há críticos que pareceram brilhantes em sua época e depois são esquecidos. Outros ficam.
História da Inteligência: é a obra mais famosa de Martins e parte, segundo ele mesmo, de uma idéia “um tanto infantil”. Se um país tem um bom dentista, deve ter também um bom romancista. Bem, essa idéia tanto infantil quanto óbvia parte do pressuposto de que a literatura é apenas um aspecto da vida inteligente de um país. No fundo, tudo deve estar interligado na vida intelectual. Essa observação é de grande interesse para o Brasil, país onde cada qual se julga cercado de incompetentes, com a honrosa exceção dele mesmo ou da corporação a que pertence.
Polêmica: segundo Martins, a crítica não deve se render à polêmica, embora tenha sempre um fundo polêmico. Ou seja, é bobagem bancar o bufão da imprensa, assumindo o papel de polemista profissional e discutindo o sexo dos anjos. Mas também não se pode fugir da briga, quando a ocasião exige. A polêmica deve se restringir às idéias, e não envolver pessoas. Ser polêmico, ou potencialmente polêmico, faz parte do métier, porque o crítico não se coloca passivamente diante de uma obra. Faz dela uma leitura ativa e avalia até que ponto ela chega a realizar aquilo a que se propõe.
Crítica jornalística: muitas vezes esnobada pela crítica universitária. Sem motivo, diz Martins. Na universidade não se faz crítica, faz-se ensaio. Você não pode escrever uma crítica sobre Machado de Assis; pode escrever um ensaio sobre ele. O ensaísta só vem depois do crítico e trabalha justamente sobre o longo assentimento forjado por gerações de críticos, que tiveram o topete de dar sua opinião sobre as obras no momento em que elas estavam saindo do forno. “Ele (o ensaísta) só escreve um longo ensaio sobre José de Alencar depois que a crítica disse que José de Alencar é um autor que merece um longo ensaio.” O ensaísmo aparece depois que a crítica já disse o que tinha a dizer. A crítica é trabalho de desbravadores e se faz no calor da hora.
O leitor: quem lê a crítica no jornal? Certamente o leitor instruído, “aquele que tem tanto interesse na literatura quanto na construção intelectual tal como o próprio crítico”. Esse destinatário da crítica é alguém que gosta realmente de ler, sem o que não existe propriamente vida intelectual. Ninguém pensa abstratamente se essa atividade não lhe dá prazer. Por isso, a boa qualidade da crítica depende (também) da boa qualidade do leitor que se tem. E que, por ser inteligente, nem por isso precisa concordar com aquilo que lê. Uma crítica não é feita para gerar assentimentos, mas para estimular o desenvolvimento de idéias. “Mesmo o crítico com quem não se concorda é um crítico útil, ele justamente obriga o leitor a pensar sozinho”, diz.
Crítica “científica": o crítico é importante para estimular esse debate de idéias. Esse debate continua porque não existe uma crítica “científica”, exata, dogmática, que diga a última palavra sobre determinada obra. A atividade crítica como ciência exata é, segundo Martins, uma indestrutível quimera do pensamento literário. Refere-se à utopia da opinião que não pode ser contraditada por outra opinião. O que não implica no extremo oposto, o relativismo selvagem, o vale-tudo opinativo. A crítica é o desenvolvimento de uma opinião, assinada por alguém que realmente conheça o assunto e tenha a embasá-lo uma cultura geral tão vasta quanto possível. Isso implica, também, a recusa da especialização – “quem sabe só literatura não sabe nem literatura”, diz. Mas a erudição de nada vale sem a intuição, e vice-versa.
Enfim, num momento em que a atividade crítica parece tão em baixa, faz muito bem ler o sereno relato de uma vida dedicada a esse ofício.
Comecei a assistir às sessões de imprensa dos filmes que participarão do festival de documentários É Tudo Verdade (começa semana que vem, dia 24, em São Paulo). E já posso fazer uma recomendação: não deixem de ver Corumbiara, de Vincent Carelli. Filme sobre a questão indígena mas passando longe dos clichês “bon sauvage”, em geral tão inócuos quanto bem intencionados. Carelli, que há muito trabalha com o tema, vai em busca do que resta de uma etnia que, supõe-se, tenha sido dizimada por fazendeiros, num dos inúmeros conflitos de terra do Brasil. O filme tem o tom de uma investigação, e de um mergulho na cultura alheia. Acho que forma um belo conjunto com Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, e, talvez, com Terra Vermelha, de Marco Bechis. São filmes que colocam a questão indígena em outro patamar. Beneficiam-se de olhares diferenciados dos diretores que, por sua vez, usam recursos de linguagem cinematográfica também inovadores para tratar do tema.
18.03.09
Leio Budapeste, o romance de Chico Buarque, por razões profissionais e com considerável atraso. Mas, afinal, os livros não morrem, não é? E me penintencio por não tê-lo lido antes porque é de fato muito bom e já estou no aguardo da adaptação para o cinema, feita por Walter Carvalho, da qual já vi o (promissor) trailer.
Mas não é sobre isso que quero falar agora. É que, lá pelas tantas, um trecho do livro me chamou a atenção de maneira particular:
“Dispondo de largo tempo ocioso, Puskás Sándor passara a frequentar a biblioteca, onde gozava de crescente prestígio. E nas sessões públicas de sábado, se sentava a mesa entre celebridades como o prosador Hidegkuti e o poeta Kocsis Ferenc, nos bastidores era cumprimentado mesmo pelo esquivo Sr....”
Qualquer um que conheça a história do futebol mundial tem familiaridade com os nomes de Puskas, Hidegkuti e Kocsis – os três da mitológica seleção húngara que, favorita na Copa de 1954, acabou perdendo da Alemanha no jogo final. Isso, depois de despachar a seleção brasileira. Chico adora futebol, como se sabe. Tem um time, o Politheama, e promove sempre jogos. Torce para o Fluminense e tem como ídolo Pagão, centroavante que jogou em vários clubes, mas tornou-se lenda no Santos Futebol Clube.
Esse trecho é a piscadela do autor/narrador para o leitor. E vice-versa.
17.03.09
O Corinthians foi medíocre no empate com o Santo André e já há quem diga que o problema foi a falta de Ronaldo. Como se o Corinthians tivesse Ronaldo há tanto tempo e pudesse contar com ele em todos os jogos. Nessa partida chinfrim, de certa forma, o que havia de interessante jogava do outro lado: Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians, hoje envergando a camisa azul do Santo André. No jogo chato, os momentos dignos de nota surgiam quando Marcelinho botava o pé na bola e ela então tomava trajetórias inesperadas. Um escanteio ameaçador, uma falta cobrada com arte e malícia - era o que havia para ver.
Em outro jogo, Santos x Mogi Mirim, eram pelo menos duas as atrações em campo - a estreia de Neymar como profissional e o reencontro de Giovanni com o time no qual viveu sua melhor fase. Um astro em fim de carreira; um jovem candidato a ídolo. Neymar fez seu primeiro gol no time de cima e comemorou à Pelé, socando o ar. Giovanni recebeu as homenagens merecidas da torcida do Santos e teve atuação discreta pelo Mogi. Mas, quando tocava na bola, era como Marcelinho. Via-se então um trato diferente com ela, amoroso, uma lucidez maior de movimentos. Em certo momento, Giovanni fez um lançamento de uns 40 metros, no pé do companheiro, que desperdiçou. Nessa hora, uma máquina do tempo pode ter passado por ali e levado o torcedor santista a uma tarde de 10 de dezembro de 1995, naquele mesmo Pacaembu, quando o então jovem Giovanni comandou o Santos num improvável 5 a 2 contra o Fluminense e levou o time para a final do Campeonato Brasileiro daquele ano.
O que se passará na cabeça desses velhos craques em final de carreira, jogando por times menos expressivos e recebendo homenagem dos grandes clubes nos quais se consagraram? Não sei, ninguém sabe, mas só pode ser uma coisa boa, junto a certa melancolia. À certeza de que o tempo passou e a época de glória não volta mais, vem a compensação de que não foram esquecidos e continuam amados pelas torcidas. Marcelinho, hoje no Santo André, é para sempre um jogador corintiano. Giovanni, camisa 10 do candidato ao rebaixamento Mogi Mirim, será pela eternidade aquele guerreiro com cabeça pintada de vermelho que fez a maior partida de sua vida pelo Santos contra o Fluminense. Ambos conquistaram o reconhecimento da torcida. E isso não tem preço. O desejo de ser reconhecido é a grande fraqueza humana, e nada se pode fazer. Essa carência faz parte da nossa natureza mais profunda.
Talvez esse fator humano seja o que ainda possa introduzir alguma dissonância na lógica mercantil do futebol e salvá-lo da esterilidade prematura. Por exemplo, o que pode querer alguém, como Ronaldo, que já tem tudo, dinheiro a rodo, títulos, troféus, fama internacional? Questão complexa, que leva a outra. Ronaldo só se tornou unanimidade no Brasil quando veio jogar pelo Corinthians. Até há pouco, era jogador idolatrado por uns e contestado por muitos. Cansei de ouvir que suas atuações pela seleção foram oscilantes, para dizer o mínimo: catastrófica em 1998, decisiva em 2002, desleixada em 2006. Por que Ronaldo veio para cá, se poderia ter ido para outra parte? E por que abdicamos do espírito crítico ao recebê-lo? Suspeito de que algo tenha a ver com a nossa imensa carência de ídolos e com o desejo de Ronaldo de ser reconhecido em seu próprio país. Suposições...
(Coluna Boleiros, 17/3/09)
16.03.09
Ontem à noite, depois do futebol, fui ao Cinesesc rever Roma de Fellini. Duas boas surpresas: o cinema, que continua o mais simpático de São Paulo, repaginado sem perder sua personalidade. No hall, pufes espalhados pelo chão, um vídeo rodando permanentemente uma entrevista com Mimmo Cattarinich (que ganha exposição de fotos), e lá dentro o barzinho envidraçado de onde se pode ver o filme. E as poltronas felizmente ainda sem apoio para a Coca-Cola e a pipoca. A segunda surpresa foi o grande número de espectadores que saiu da sessão anterior (Satyricon) e do número igualmente expressivo de pessoas que esperava por Roma, apesar do horário tardio do domingo, segunda-feira pela frente, etc. Fellini é sempre Fellini.
Quanto ao filme, continua intacto em sua força e inventividade. Quanta liberdade ao fazer esse mix de documentário e memorialismo! Um filme em camadas, geológico, ou melhor, arqueológico, que se lê também como um mosaico,compondo suas partes num todo que só a nós, espectadores, cabe concluir. Outro aspecto: Fellini, dos anos 70 em diante, se aproximava cada vez mais da grande tradição pictórica do seu país. Seus filmes são como pinturas - e portanto só ganham sua real dimensão na tela grande, para a qual foram pensados. Uma noite recompensadora. Em especial para quem, por dever de ofício, é obrigado a ver tantos filmes ruins.
15.03.09
"Uma sequência de episódios reforça a impressão de que a corrupção sempre esteve entre nós. No século 19, os republicanos acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Em 1930, a Primeira República e seus políticos foram chamados de carcomidos. Getúlio Vargas foi derrubado em 1954 sob acusação de ter criado um mar de lama no Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a corrupção..." Assim começa o artigo Escola de Transgressão, de José Murilo de Carvalho, primeiro de um dossiê sobre Corrupção - Crime ou Costume?, da Revista de História da Biblioteca Nacional.
Historiadores são seres chatos e imprescindíveis, porque vivem a nos lembrar que a vida não começou ontem e nem no momento em que nascemos. Entramos e saímos do mundo de maneira discreta e ele continua a girar, produzindo a série de eventos que, em nossa passagem por este vale de lágrimas, chamamos de História. Assim, se quisermos entender um fenômeno tão familiar como a corrupção, teremos de ir às suas raízes, e elas não se encontram em nosso passado recente. Pelo contrário. Perdem-se na poeira dos anos.
Além do mais, como lembra o historiador, o sentido do termo muda com o tempo. Durante o Império e a Primeira República, quando se falava em corrupção era para designar a forma de governo e não os indivíduos. Somente a partir de 1945, com a entrada em cena da UDN (União Democrática Nacional), passou-se a centrar as baterias contra a corrupção individual. "Foram também indivíduos que serviram de justificativa para o golpe de 1964 e mais tarde inspiraram o grito de guerra de Collor, personificados na figura dos marajás a serem caçados", escreve.
Tudo para dizer que o termo "corrupção" é ambíguo e talvez seja melhor trabalhar com o conceito de transgressão à lei. O problema do respeito às leis no Brasil é a sua profusão. O furor legiferante tem sua origem na composição bacharelesca da elite política. Como diz Carvalho, no Brasil o legislador é um demiurgo, um reformador da natureza. Feita a lei, ele pensa que o problema está resolvido, por isso a legislação deve ser pensada em seus mínimos detalhes. Na Common Law anglo-saxônica, pelo contrário, a lei regula o comportamento costumeiro. Aqui, o cipoal de leis convida à transgressão.
Desse modo, a expansão incontrolada da lei teria sido em parte responsável pelas revoltas populares do século 19. O episódio de Canudos seria o mais trágico entre os confrontos dessa legalidade com os valores tradicionais. Já no Brasil atual existem parcelas da população que seriam estranhas à lei, enquanto outras, os poderosos do campo e da cidade, se esmeram em fazer as leis em seu proveito. Nos interstícios entre uma lei tão abrangente que não pode ser aplicada e a ausência de lei, insinua-se o "jeitinho", a pequena transgressão, já transformada em dado cultural.
A História mostra como é complicado o estudo de algo em aparência tão evidente como a corrupção.
(Cultura, 15/3/09)
13.03.09
A diretora Helena Solberg diz que gosta de trabalhar com conceitos. Quer dizer, "pensa" os filmes que faz, procura dar-lhes estrutura e um eixo de progressão. Esse cuidado está em Carmen Miranda - Bananas Is My Business e Vida de Menina. No primeiro, em relevo, discute a ambiguidade da imagem de Carmen para os brasileiros - glória ou vergonha nacional? Ou ambos? Em Vida de Menina, tirado das memórias de Helena Morley, o foco repousa na percepção aguda de um olhar jovem sobre uma sociedade velha, escravocrata e provinciana, no interior de Minas durante o século 19.
Também em Palavra (En)Cantada nota-se essa preocupação. Neste caso, discutir a relação entre som e verbo, esse enlace fundamental que dá corpo - e alma - à canção. Por isso, a tentativa, embora não exaustiva, de explicitar a linha trovadoresca que vai dos provençais a Chico Buarque e Lenine. Corre um debate interno ao filme - letra de música, isolada, é poesia ou não? Paulo César Pinheiro, grande letrista, opina que sim, pelo menos às vezes. "Quem dirá que alguns versos de Chico Buarque não são poesia?", lança, como desafio. Mas o próprio Chico, na entrevista, confessa que se sente incomodado quando o chamam de poeta. Ele mesmo não se considera como tal. Nessa conversa entre artistas, o também músico, e teórico, Luiz Tatit opina: "Poeta, no sentido estrito, ele não é mesmo; não senta na mesa, com papel e lápis, para escrever um texto poético. Ele pensa o verso já na relação com a música."
Chico, em casa, com o livro Passagens, de Benjamin, sobre o piano
Esse é o debate, que corre às vezes mais aparente, outras em surdina, ao longo do filme. Que, exatamente por não se ater a ele de maneira pétrea, torna-se extremamente agradável. Apesar de manter o eixo em vista, Helena deixa o documentário fluir, à vontade. Mescla depoimentos com material de arquivo e propõe um painel bastante amplo do seu assunto. Através da canção - quem sabe a manifestação cultural mais forte no Brasil -, "lê" um país. O Brasil de Cartola é, ao mesmo tempo, o mesmo e muito diferente, do país do rap, o som da periferia de São Paulo, comentado por Ferréz . O país pode ser interpretado à luz da música - e essa discussão, de certa forma, transcende o debate teórico sobre a "poesia" ou não das letras.
Por exemplo, na maneira como o tropicalismo, à sua maneira, se opõe e complementa a bossa nova existe toda uma dialética do País atravessando de vez um certo isolamento nacional e se abrindo ao diálogo com o exterior. A bossa já era isso, uma conversa inteligente entre o samba e o que de melhor havia na música norte-americana. O tropicalismo dá outro passo: flerta com o pop e também com a obra considerada de mau gosto, o kitsch. Era o Brasil ingressando na geleia geral contemporânea, e sob uma forma profética. Esses passos, que não são apenas musicais, mas da cultura em seu todo, podem ser lidos nesse belo (e sonoro) documentário.
(Caderno 2, 13/3/09)
12.03.09
Vitus é um garoto superdotado. Faz contas como um Malba Tahan e toca piano como um pequeno Glenn Gould. Mais tarde se mostrará capaz de especular na bolsa como um George Soros. Mas o que ele deseja mesmo é brincar com o avô meio maluco (Bruno Ganz), um marceneiro fixado em aviação. Vitus pode também tentar ser um Ícaro e isso será sua desgraça, ou a sua salvação. Interessante, esse filme suíço sobre o menino prodígio. O diretor Fredi M. Murer opta pela simplicidade, faz um trabalho simpático e tenta contrariar alguns estereótipos em relação a essas crianças especiais.
Vitus (Fabrizio Borsani, depois Teo Gheorguiu) tem todos esses talentos, mas no fundo é apenas um garotinho, com desejos bastante simples. Vive oprimido pelo excesso de expectativas que os pais, em especial a mãe, depositam sobre ele . Tudo o que almeja é um pouco de paz, e de sonho. Na família, apenas o avô tem o equilíbrio suficiente para dar ao menino aquilo que ele necessita.
Como trama paralela, corre uma certa crítica à sociedade contemporânea, cujos valores supremos são o lucro e o sucesso. Sim, sempre iremos encontrar quem os defenda e acuse os críticos de passadistas, "românticos" ou coisa que o valha. Em especial quando a história se ambienta em país tão desenvolvido, com um índice de bem-estar capaz de causar inveja aos vizinhos europeus. Essa trama fala do pai, que trabalha numa grande empresa mal das pernas e vê seu emprego ameaçado por outro executivo ambicioso. Coisa de adultos.
O outro estereótipo que o filme procura desfazer é o que considera essas crianças como seres insuportáveis. Millôr Fernandes dizia que não existe nada mais chato do que criança precoce e velhinho assanhado. O superdotado seria um precoce levado à enésima potência. Mas nem por isso Vitus é um chato. Pelo contrário. Apesar dos seus problemas, parece uma criança adorável. Chato mesmo é o mundo ao seu redor.
O filme não tem nada de mais; mas talvez nada de menos. Murer filma de maneira ok, talvez um tanto limpinha a mais para certo gosto. É um cinema sem erros, mas que também passa ao largo dos acertos, pois estes se fazem sempre em zona de risco, de turbulência. E o que Murer não faz é se arriscar. Tudo é luminoso, higiênico, sem deixar de ser agradável. Bom filme, mas não deixa lá muito resíduo no espectador.
(Caderno 2, 12/3/09)
Deliciosa crônica de Cony hoje na Folha. Ele diz reconhecer humildemente a gravidade da crise mundial, mas discorda do tom apocalítico dos colegas. O mundo não vai se acabar, como não acabou naquele samba cantado por Carmen Miranda. Acontece que a imprensa, no mais das vezes, vive da sinistrose. Cony conta que Mario Filho (que, além de irmão de Nelson Rodrigues, deu nome ao Maracanã), quando diretor do Jornal dos Sports, mandou parar a edição que estampava a manchete “Vasco destroçado”. O argumento de Mario era que um time como o Vasco podia perder um jogo ou o campeonato, mas jamais ser destroçado.
Dificuldades existem, mas dificilmente significam o fim do mundo, como se proclama a cada dia. Vícios da profissão: se o cachorro morde o homem, isso não é notícia. Mas se o homem morde o cachorro, temos uma manchete. Ou, na frase imortal de Kirk Douglas em A Montanha de Sete Abutres, quando o diretor lhe pede uma matéria sobre a abundância da safra daquele ano: “Good news is no news”. Tradução livre: boa notícia não vende jornal.
Desembarquei em Cuba durante o chamado “período especial” e cheguei preparado para enfrentar o inferno na Terra pelo que lia na imprensa brasileira. Na van que veio nos buscar no aeroporto encontrei um clima inesperado. O motorista e os dois carregadores de bagagens riam tanto, uns brincando com os outros, que pensei: “se a crise é assim tão grande como dizem, do que tanto riem esses caras, como se divertem tanto?” E, de fato, nos dias seguintes não foi difícil encontrar muitos sinais visíveis de que a ilha passava por grandes dificuldades. Todas incapazes de derrotar o invencível bom humor cubano.
Assim é a vida - a cores e com muitas nuances entre elas. Mas, quando abrimos os jornais de manhã, ou ouvimos o rádio com seus especialistas e a TV com seus palpiteiros temos a impressão de que a humanidade está com seus dias contados.
Como Cony, eu não subestimo a crise. Apenas pergunto, também com humildade, se essa é a primeira vez que usamos essa pequena palavra. Eu, pelo menos, convivo com ela desde pequenininho. E aqui estou. Vivo, e mais ou menos são.
11.03.09
Acabei de ver Gran Torino, novo Clint Eastwood, que estreia mais adiante – acho que dia 20. Alguns amigos já haviam me dito que não era um grande Clint, que tinha problemas de roteiro, etc. Uma questão de safra.
Ok, mas gostei. De fato recheado de clichês, Gran Torino tem lá sua grandeza. Clint é Walt Kowalski, que começa o filme enterrando a mulher depois de um longo casamento. Ele não se dá com os filhos e muito menos com as noras. Mora num bairro agora habitado por imigrantes. Ele próprio é um americanão violento, meio racista, hasteia a bandeira na porta da casa, foi à guerra da Coréia, trabalhou para a Ford durante 50 anos e condena o filho por vender carros japoneses. No entanto, a convivência forçada com orientais irá ensinar algumas coisas a esse velho intolerante. Tudo, se você for pensar bem, já visto em dezenas de filmes anteriores.
Mesmo a interpretação de Clint não é isenta de lugares-comuns, um esgar às vezes perturbador naquela tão expressiva máscara de rugas. Mas, mesmo assim...Estamos diante de algo que não é cinematograficamente neutro. Algumas coisas fundamentais estão ali, e de maneira pungente, como a consciência sofrida de que o mundo não é mais o mesmo e de que ele próprio, o personagem, mudou, envelheceu e parece próximo dos atos finais dessa tragicomédia chamada vida.
Então, o filme é sobre as coisas que mudam, e de maneira inevitável. E é também sobre algumas (poucas) coisas que não mudam, ou pelo menos não mudam tão rápido, como certos valores sólidos, a ética, tudo isso. É filme de um humanista. E essa condição o coloca acima de alguns possíveis defeitos. Conduzindo com a sobriedade de sempre, Clint parece querer chegar aos valores simples e isso pede uma mise-en-scène depurada.
10.03.09
Assisti hoje de manhã a Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet. Palma de Ouro em Cannes, mix ficção/documentário muito, muito bom. História de um professor e sua classe-problema, um microcosmo da França contemporânea, multiétnica e cheia de contradições. Do filme eu falo depois, mas já adianto que é um anti-Ao Mestre com Carinho.
Falo agora é do alívio que senti na saída por não ser mais professor. Que trabalho insalubre, meu Deus! Na minha opinião, professor deveria ter salário maior do que presidente de multinacional. Já pensaram? Enfrentar alunos completamente desmotivados e agressivos pelas perifas da vida? E com esse salário que ousam pagar...!?
Eu pouco lecionei na vida. Um tempo na USP, como auxiliar de ensino, depois alguns anos na FMU e outros na PUC. Sempre ensino universitário. E mesmo assim...Me lembro de um dos meus últimos dias na PUC, quando pedi um texto aos alunos, já não me lembro bem sobre o quê, e apenas avisei que podia ser curto, de no máximo umas duas laudas. Um aluno olhou bem para mim e perguntou: “O quê? Niki Lauda?” Pensei que confundir página com o nome do então famoso corredor de Fórmula 1 fosse um gracejo, uma gozação. Olhei para ele e vi que não. Era só ignorância mesmo. Inocente ignorância. Nesse momento perguntei a mim mesmo: “O que estou fazendo aqui?” E, como vocês sabem, toda vez que nos fazemos esse tipo de pergunta é que já estamos de saída.
E, no entanto, se eu fosse pagar tudo o que devo aos meus professores, trabalharia a vida inteira em débito e ainda continuaria no vermelho. Houve um, não me lembro seu nome, que usava uma maneira criativa para incentivar os alunos a escrever. Se você apresentasse, num caderno, um texto novo por dia (que ele corrigia e dava sugestões) ia acumulando pontos e poderia passar de ano numa boa, sem fazer tanto esforço na gramática. Com esse incentivo, eu que já tinha uma certa tendência para escrevinhar, passei a colocar ideias no papel de maneira sistemática. Virou hábito. Pensar sob a forma escrita. Bem ou mal, escrever virou a minha profissão de adulto. Meu ganha-pão.
Tantos outros nomes importantes...Ruy Coelho, um dos fundadores da revista Clima (mas na época eu ignorava isso) era professor de antropologia. Mas falava de todos os assuntos, e os articulava entre si. Criava pontes e tratava o saber como um sistema de vasos comunicantes. Lembro dele, falando, sempre com um sorriso nos lábios, de suas viagens, entremeando o relato com referências literárias, musicais, psicológicas, enquanto fazia piadas e contava casos. Era um mestre na digressão organizada. Enquanto falava, deixando-se levar pelo fluxo dos próprios pensamentos, ficava brincando com um cigarro, que acendia apenas no final da aula. Talvez estivesse tentando parar de fumar. Ou diminuindo. Mais tarde, já na pós-gradução, fiz com ele um excelente curso sobre Literatura Fantástica, da qual ele era fã – e eu também. Ruy era um craque do saber com sabor, de que falava Barthes.
Lembro também de Marilena Chaui na Filosofia. Ao contrário de Ruy, Marilena é a disciplina intelectual em pessoa. Com ela estudei Descartes, logo no primeiro ano. Lemos as Meditações Metafísicas e, ao longo do curso, aprendi como se raciocina com rigor, passo a passo, encadeando ideias com método. Acho que foi no curso de Filosofia Moderna que ela nos pediu para trazer um plano de pesquisa e desenvolvê-lo. Eu já tinha um, esboço de tema da minha dissertação na Psicologia Clínica. Marilena, generosamente, me deu uma orientação completa, com ótima indicação bibliográfica, que muito me valeu na ocasião e talvez valha ainda hoje. Fazer uma pesquisa rigorosa em qualquer tema pode te preparar para a vida. Grande mestra, que é a entrevistada do mês na revista Cult. Eu não deixaria de ler. Afinal, o país não tem tantas pessoas assim, tão preparadas e éticas como ela. Aliás, tem bem poucas.
Enfim, essas pessoas são heróis e heroínas, militantes da trincheira que vai do ensino elementar ao universitário. Se cada um de nós olhar para dentro de si, verá que se tornou o que é graças à intervenção oportuna de mestres e mestras em alguns momentos decisivos da vida.
Vejam também o filme quando entrar em cartaz.
Como vocês sabem (não dá para não saber), Ronaldo foi alvo de uma avalanche de mídia desde que sua transferência para o Corinthians foi noticiada. A chegada, o primeiro treino, a primeira balada, a primeira vez em que entrou em campo, o primeiro gol – tudo acompanhado de fogos de artifício, som e fúria, noticiado, analisado, debatido, discutido ad nauseam...
O que fazer? Ronaldo é uma celebridade. Como Madonna ou Michael Jackson. Celebridades são seres à parte no mundo contemporâneo. Não por acaso. Elas fazem alguma coisa bem, às vezes muito bem. Cantam, dançam, jogam futebol. Depois, a publicidade e o marketing fazem com que a imagem delas de certa forma se descole da pessoa, e se torne independente dessa atividade primária. Não importa muito se Michael Jackson é isto ou aquilo ou se Madonna já não é a mesma. Madonna é Madonna, Michael Jackson é Michael Jackson. E Ronaldo é Ronaldo. Desculpem as redundâncias, mas o que justamente define a celebridade... é o fato de ser célebre.
A celebridade é depositária de uma série de expectativas, às vezes desencontradas, o que a leva além da sua atividade primária. É o que explica Ronaldo ser admirado mesmo por gente que não curte futebol. É também o que explica (em parte) o seu gol de domingo ter sido comemorado não apenas por corintianos, mas por torcedores de outros times. Até mesmo por palmeirenses. O célebre transcende. Vai além das fronteiras da sua atividade. Expande limites e invade o imaginário de um imenso número de pessoas. Por isso é tão valioso do ponto de vista comercial.
Ronaldo desde cedo mostrou talento para esse exercício da celebridade. Seu ar falsamente frágil – dentes separados, cara de bebê ou de criança carente – mostrou-se capaz de comover corações femininos em comerciais de laticínios. Freud explica, é claro. A partir do impulso inicial, a celebridade ganha dinâmica própria, alimenta-se de si mesma e só faz crescer. Não importa, como no caso dele, que a atividade principal se desenvolva quase exclusivamente no exterior, seja interrompida por contusões, ou que seu comportamento posterior desminta a imagem de bom moço ou de criança inocente. Não é apenas que à celebridade tudo se perdoa – é que mesmo ações destoantes da moral média se incorporam à mitologia e a realimentam. Afinal, elas fazem o que muitos gostaríamos de fazer, mesmo que não possamos admiti-lo nem a nós mesmos.
Acresce, no caso Ronaldo, uma trajetória esportiva que parece tirada de um mau roteiro de filme, de tão inverossímil. Suas participações oscilantes nas Copas, três vezes melhor do mundo, as contusões graves, prognósticos sombrios e os retornos. Uma, duas, três vezes. Parece enredo de faroeste simplório. História de vitorioso, de lutador, que dá a volta por cima. Todo mundo gosta.
Por isso tudo, costumamos prestar muita atenção na aura que cerca a celebridade e nos esquecemos do que ela tem de melhor, a sua arte. Para voltar à essência: Ronaldo fez muita coisa neste domingo. Toques de classe, uma bola imprevista no travessão, um drible e um centro certeiro. E o gol de cabeça, produto mais da ótima colocação do que domínio do fundamento do cabeceio. Só podemos saudar tudo isso. Ronaldo chegou, teve seu primeiro treino, sua primeira balada, sua estreia, seu primeiro gol. Breve será figura familiar em campo e receberá marcação menos amistosa de adversários tietes. Tudo entrará na normalidade. E poderemos aplaudir aquilo que resta do seu futebol excepcional. Assim esperamos, nós que gostamos é de bola na rede e não damos a mínima para badalações e outras frescuras.
(Coluna Boleiros, 10/3/09)
09.03.09
O crítico Jean-Michel Frodon é diretor de redação da Cahiers du Cinéma, a revista de cinema mais influente do mundo. Os Cahiers tiveram enorme impacto sobre várias gerações de cinéfilos e serviram como plataforma de lançamento da nouvelle vague, movimento que está completando 50 anos de existência em 2009.
Cronologias desse tipo são sempre complicadas porque movimentos estéticos, em geral, não começam do dia para a noite, com a assinatura de um manifesto ou um ato de fundação. No mais das vezes iniciam com vagos antecedentes, até que certas tendências começam a ficar mais claras, se definem e se cristalizam num determinado momento. Ou melhor: numa determinada obra. Foi o que aconteceu com o cinema novo brasileiro, que começou a nascer com os dois filmes neorrealistas de Nelson Pereira dos Santos - Rio 40 Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957) - até se tornar nítido com as grandes obras posteriores de Glauber Rocha, do próprio Nelson, de Ruy Guerra, de Cacá Diegues e outros.
O mesmo aconteceu com a nouvelle vague. Frodon cita como pertencente ao movimento La Pointe Courte, filme de Agnés Varda de 1954. No entanto, a nouvelle vague só tomaria forma definitiva com o primeiro longa-metragem de Claude Chabrol, Le Beau Serge (no Brasil, Nas Garras do Vício), rodado em 1958 e estreado em janeiro de 1959. E, principalmente com a apresentação de duas obras-primas no Festival de Cannes de 1959 - Os Incompreendidos e Hiroshima, Meu Amor, primeiros longas de François Truffaut e Alain Resnais. Ambos estão entre os favoritos de Frodon, como se lê na entrevista abaixo.
Na sua opinião, o que resta da nouvelle vague hoje no presente?
A nouvelle vague é um acontecimento na história da arte, que marca tudo o que a ela se seguiu, incluindo a reação contra ela - como o impressionismo marca a história da pintura ou Joyce marca a história da literatura. O cinema mudou radicalmente com ela, mesmo se ela própria se inscreva em um movimento mais amplo. A nouvelle vague permanece um "princípio ativo" hoje em dia, naquilo em que ela valorizou a ideia da juventude na direção de cinema, de liberdade e ruptura. Podemos dizer que Lisandro Alonso, Apichatpong Weerasethakul ou Jia Zhang-Ke (por exemplo) devem alguma coisa à nouvelle vague, não porque seus filmes se assemelhem aos de Truffaut, Godard, Chabrol ou Rohmer (que aliás não se parecem nem entre si mesmos) mas porque eles ganharam, graças à nouvelle vague, mais legitimidade para inventar seus próprios cinemas.
Na França ela se tornou apenas referência histórica ou tem herdeiros, como Garrel, Honoré e outros?
Para muitos jovens realizadores, a nouvelle vague permanece uma "reserva energética". A maneira menos interessante de recorrer a ela seria fazer filmes imitando a nouvelle vague do início dos anos 60.
Quais são os seus filmes preferidos do período da nouvelle vague?
La Pointe Courte, Os Incompreendidos, Hiroshima Meu Amor, Acossado, La Jetée, Les Bonnes Femmes, Le Signe du Lion, Paris Nous Appartient, Adieu Philippine, Jules e Jim, O Pequeno Soldado, Lola, Le Combat Dans l?Ile, Cléo de 5 à 7, Le Bonheur, Os Carabineiros, Uma Mulher É Uma Mulher, Atire no Pianista, Um Só Pecado, La Collectionneuse, Duas Garotas Românticas, Muriel, Minha Noite com Maud, Le Joli Mai, L?Amour Existe, Viver a Vida, O Desprezo, Bande à Part, Pierrot le fou (O Demônio das Onze Horas), A Religiosa, todos os outros filmes de Jacques Rozier (que permaneceu cineasta da nouvelle vague), Nicht Versöhnt (Não Reconciliados), Les Idoles, L?Amour c?est Gai, l?Amour c?est Triste, Paris Visto por... Poderia citar muitos outros filmes, mas certamente não menos.
Segundo você, a nouvelle vague seria verdadeira escola (como o neorrealismo italiano) ou apenas um movimento, um grupo de amigos que amavam o cinema e resolveram fazer filmes juntos?
Nem uma coisa nem outra. Ela foi um "espírito", que resultou em filmes muito diferentes (o que não foi o caso do neorrealismo italiano) com posições estéticas muito pessoais. E é exatamente por isso que ela continua presente, de maneira subliminar - e sobretudo não pelas citações - em inumeráveis filmes posteriores.
Em sua opinião existe alguma relação entre a nouvelle vague francesa e o cinema novo brasileiro?
Com certeza, em contexto bem diferente, o cinema novo é também uma explosão do desejo pessoal de cinema em sintonia com o mundo real, que deve uma parte de suas fontes ao neorrealismo e outra parte àquilo que a sua cultura (parisiense para a nouvelle vague e carioca para o cinema novo) tem de particular. O cinema novo foi capaz de ampliar sua relação ao território nacional, em particular se aclimatando ao Nordeste, o que muito o engrandece.
Conceituação
HERDEIROS: Frodon trabalha com um conceito "ampliado" de nouvelle vague. Por considerá-la antes como "estado de espírito" do que como escola, estética ou poética, pode associá-la a autores fora do núcleo duro da nouvelle vague, formado em geral por Chabrol, Rohmer, Godard, Truffaut e Rivette. Inclui a precursora Agnês Varda (La Pointe Courte) e os "independentes" Alain Resnais (Hiroshima), Chris Marker (La Jetée) e Jacques Demy (Duas Garotas Românticas). Além disso, estende sua influência libertária sobre contemporâneos como o chinês Jia Zhang-Ke, o malaio Apichatpong Weerasethakul e o argentino Lisandro Alonso.L.Z.O.
(Cultura, 8/3/09)
06.03.09
O mundo anda tão violento e absurdo que vai até nos deixando meio embrutecidos. Mas o caso desse arcebispo de Olinda, que excomunga o médico que praticou o aborto na menina de nove anos, e reserva sua compreensão para com o estuprador, me deixou indignado como havia muito não me sentia. Que intolerância! Que equívoco de valores! Quanto dogmatismo estéril! Que falta de compaixão humana!
O que essa religião tem ainda a nos dizer em nosso desamparo?
O que pensaria dessa gente um homem como João XXIII?
O diretor Jeremias Moreira Filho não esconde de ninguém que o estímulo para a refilmagem de O Menino da Porteira veio do grande sucesso popular de 2 Filhos de Francisco, até esta semana o recordista desde a retomada do cinema brasileiro, com 5,3 milhões de espectadores (acaba de ser superado por Se Eu Fosse Você 2). "O êxito do filme de Breno Silveira, baseado na história da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano, mostrou que havia um vácuo no mercado brasileiro", diz. Um "nicho", segundo os mercadólogos e, no caso, muito específico - o dos filmes ambientados no interior, na zona rural, com sua cultura própria e atrativos contrastantes com valores e imagens do universo urbano.
Jeremias tem prática na coisa. É do ramo. Ele é o mesmo diretor da primeira versão de O Menino da Porteira, de 1976, visto por 4,5 milhões de espectadores, em cifras oficiais. Mas Jeremias precisa: "Muitos pagantes não entraram na contabilidade final da Embrafilme (na verdade, o órgão que apurava os números era o Concine). Acredito que tenha ultrapassado 7 milhões de espectadores, mas não há como provar."
O fato é que a primeira versão do filme foi um grande sucesso, um daqueles êxitos do interior que, se acreditava, fossem coisas do passado até surgir 2 Filhos de Francisco. Na primeira versão de O Menino da Porteira o mocinho, o boiadeiro Diogo, era vivido por Sérgio Reis. Agora, revive na pele do cantor Daniel. Já seu oponente, o truculento Major, era Joffre Soares, e agora é interpretado por José de Abreu. O papel da mocinha, Maria José Viana na primeira versão, agora é de Vanessa Giácomo.
Esses personagens articulam uma trama simples ambientada no Brasil rural dos anos 50. Diogo é o vaqueiro caladão que conduz boiadas pelo interior. Em Ouro Fino reina o despótico Major Batista, que impõe seu preço ao gado dos pequenos criadores. Estes tentam uma aliança para negociar seus bois diretamente e assim escapar ao controle do Major. O enredo romântico corre por conta da paixão entre Diogo e Juliana (Vanessa Giácomo), enteada do Major. O fio narrativo passa pela figura do menino da porteira, Rodrigo, filho de pequenos criadores locais e título da música-tema do filme, o clássico sertanejo de Luizinho e Teddy Vieira.
Essa a história bastante esquemática que entra em cartaz em 270 salas do País e tenta repetir o sucesso de 30 anos atrás. O filme é bem produzido e conta com fotografia de um bamba no assunto, Pedro Farkas, que busca a paleta interiorana de um artista como Almeida Júnior para compor algumas cenas como se fossem pinturas. O produtor Moracy do Val (que também produziu o primeiro filme) entusiasma-se com o visual: "Eu queria isso mesmo, pradarias imensas, como as de John Ford, que imortalizou Monument Valley com seus filmes."
Claro, é bom parar por aqui com comparações, mas é verdade que o visual de Menino da Porteira muitas vezes surpreende pela beleza e impacto, em especial em cenas de boiada - "E como é difícil dirigir boi...", suspira Jeremias Moreira. Só que ninguém vai ao cinema para ver fotografia bonita ou bois em disparada. Para atrair público, o galã é fundamental. Por isso, conta Jeremias, a escolha recaiu sobre Daniel desde que o projeto começou a ficar em pé. A falta de experiência não intimidou o cantor: "Tive um bom treinamento de ator e, afinal, tudo isso que vocês veem no filme é o meu mundo e nele estão todas as minhas referências, gado, cavalo, campo."
(Caderno 2, 6/3/09)
Como o diretor é Zack Snyder (o mesmo de 300) já se antevia que provavelmente Watchmen teria grande impacto visual. E, nesse quesito, a adaptação para a tela da história em quadrinhos de Alan Moore não decepciona. Há mesmo sequências de tirar o fôlego, a começar pela primeira, que abre o filme com impacto e autoridade. Vejam e confiram.
Watchmen se desenvolve numa distopia (e de que outra maneira imaginar Nixon no poder por cinco mandatos consecutivos?), na qual permanece a ameaça da guerra nuclear e os ponteiros do tal relógio da meia-noite se aproximam de maneira alarmante. Nesse ambiente, um dos super-heróis, o Comediante (Jeffrey Dean Morgan) é assassinado e seus colegas resolvem deixar a aposentadoria para investigar o crime.
É curioso observar como, em Snyder, se cruzam as necessidades de produzir um bom blockbuster e as de veicular algumas ideias que tem em mente. Duas exigências em nada incompatíveis, por mais que se diga que o grande público não quer pensar enquanto come pipocas e delira com o que vê na tela. De modo que o visual de forte impacto não encobre aquilo que o filme teria de mais pretensioso, no bom sentido do termo: levar a uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, ainda que a história se passe em meados dos anos 80.
Entre essas boas ideias, que vêm da própria graphic novel, diga-se, está a de super-heróis decaídos, viciosos, dos quais o lúbrico Comediante é apenas a versão mais caricata. De certa maneira, eles fazem lembrar os semideuses da mitologia grega. Seres poderosos, mas nunca perfeitos, sucumbem à vaidade, à ambição, à luta pelo poder, ao vício. São humanos, demasiado humanos, para pensar no Nietzsche popular e meio simplório que deve habitar a cabeça de Snyder.
Esse ideário parece um bocado confuso, se formos analisar o filme a sério. Parece não haver problemas em matar milhões de pessoas para manter um certo equilíbrio de poder, como verá o espectador. Mas chamá-lo de politicamente irresponsável seria dar a essas tramas soltas e pouco orgânicas uma colher de chá que elas não merecem. Em termos de entretenimento, vale por alguns bons momentos. Convém não queimar muitos neurônios com ele.
(Caderno 2, 6/3/09)
05.03.09
Foi indicado em cinco categorias do Oscar e não levou nenhuma. O que isso quer dizer? Nada. Frost/Nixon é muito bom filme, tomando um tema político e transformando-o em espetáculo. No conteúdo e na forma. Como? Contando a história dos quatro depoimentos dados pelo ex-presidente Richard Nixon ao apresentador de TV David Frost, três anos depois de Watergate. Quem eram os dois personagens antes dos depoimentos? Nixon, um político caído em desgraça, que havia sido conduzido à renúncia (para evitar o impeachment) no vendaval criado pelo caso Watergate. Frost, um apresentador de TV de sucesso, sem experiência política e levado pouco a sério por colegas acostumados a entrevistar autoridades.
Nixon precisa de dinheiro, Frost precisa de credibilidade. Eis aí onde se encontram. Frost, de maneira habilidosa, consegue levantar fundos de patrocínio para pagar o cachê exigido pela assessoria de Nixon. Mas só conseguirá vender o programa para as TVs do mundo se conseguir revelações surpreendentes, como a confissão de Nixon de sua participação na espionagem do Partido Democrata no hotel Watergate, em Washington. Assim, o encontro Frost/Nixon, transforma-se numa batalha, numa luta disputada num ringue e testemunhada pelas câmeras de TV. Como toda boa luta esta também pende ora para um dos oponentes, ora para o outro. Nixon começa dando um banho em Frost, mas este ainda tenta virar o jogo nas gravações seguintes. É um bom combate, e bem encenado no filme.
Mais que isso, um bom filme político e, para variar, adulto. Ponto para atuação de Frank Langella como Nixon. Ele em nada se parece, fisicamente, com o ex-presidente. Mas sentimo-nos diante dele, por uma entonação de voz, uma sobrancelha franzida, coisas assim. Atores...
03.03.09
Por uma questão profissional, ando meditando sobre as diferenças entre conto e romance. Não adianta dizer que um é curto, outro é longo. Há contos compridos e romances enxutos. A diferença deve ser de estrutura. Até agora, a melhor definição que encontrei é de Julio Cortazar, que se serve de uma metáfora pugilística:
"No combate entre um texto e seu leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute."
Ou, no original:
"La novela gana siempre por puntos, mientras que el cuento debe ganar por knockout".
Como se esperava, Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho, se tornou o filme mais visto desde a retomada da produção brasileira, com de 5.324.000 pagantes contabilizados. É um fenômeno, sem dúvida, e coloca um marco difícil de ser batido. Pelo menos no Brasil. Na França, o fenômeno foi muito maior: Bienvenue chez les Ch'tiz vendeu mais de 20 milhões de ingressos. Como a França tem população de uns 65 milhões de habitantes, é o mesmo que um filme no Brasil ser visto por mais de 60 milhões de pessoas. Impossível.
É um número especial este dos Cahiers du Cinéma de janeiro. Seu diretor de redação, Jean-Michel Frodon, anuncia o que todos já sabiam - a compra da mais famosa revista de cinema do mundo pelo grupo Phaidon, da Inglaterra. Até 2008, a Cahiers pertencia ao Le Monde. Mas, ao que parece, a revista é deficitária e o Le Monde, ele próprio (como toda a imprensa mundial) enfrentando dificuldades, resolveu livrar-se desse título de prestígio, porém dispendioso. Frodon anuncia a compra da revista pela Phaidon com otimismo: "É uma tripla garantia de qualidade estética, ambição intelectual e independência financeira."
Outro fato digno de registro é a capa deste número ser dedicada ao Che, de Steven Soderbergh, tipo de épico em geral esnobado pela revista, que prefere se dedicar a obras de outro tipo. Ou alternativas ou americanas, obedecendo à inspiração primeira dos Cahiers de garimpar autores em plena meca da indústria.
Soderbergh é cineasta respeitado, no entanto seu díptico sobre Ernesto Guevara parece um empreendimento de risco. Primeiro pela figura do guerrilheiro, ícone da esquerda e do espírito dos anos 60, mas detestado por quem pensa de maneira oposta. Segundo, a opção do diretor, de imprimir um tom clássico a seu filme, uma narrativa límpida que nunca resvala para o academismo. De novo: política e classicismo. Não são características que mais agradam aos críticos dos Cahiers. No entanto, a recepção ao filme é das mais positivas.
No artigo escrito por Eugenio Renzi, alguns pontos são discutidos. Como o da sugestão de que o encontro de Guevara com Fidel no México se deu sob um misto de loucura e paixão pela revolução. Condições sem as quais ninguém embarcaria num precário iate de turismo para derrubar um governo protegido por um exército. Assim, o êxito dessa aliança teria sido levar essas duas características até as últimas consequências. A cena da conversa entre Fidel e Guevara está em O Argentino, título da primeira parte. Dessa maneira, A Guerrilha, título da segunda parte, não seria a história de uma derrota, mas "o contracampo de um triunfo". Na lógica proposta pelo filme, e flagrada pelo crítico, o fato de Guevara abandonar uma revolução àquela época triunfante para embrenhar-se na aventura boliviana, seria apenas a consequência lógica da premissa inicial. Tivesse o Che se acomodado aos cargos que chegou a ocupar na estrutura de poder da revolução cubana e trairia aquela intuição inicial. Não seria o ícone que hoje ainda é. O que lhe dá força é a paixão. E, por que não?, também a loucura.
Essa é uma maneira de entender a personalidade do personagem e traçar um projeto de filme em consonância com essa compreensão. Pode-se discordar, mas tem lá sua lógica interna.
(Cultura, 1/3/09)
Outro dia mandei a minha votação para a tradicional lista de melhores de 2008 do CineSesc. Compartilho com vocês:
Melhores do ano 2008
Estrangeiros:
O Silêncio de Lorna
4 Meses, 3 Semanas, Dois Dias
A Questão Humana
Gomorra
Onde os Fracos não Têm Vez
Melhor diretor: irmãos Dardenne (Lorna)
Melhor ator: Mathieu Amalric (A Questão Humana)
Melhor atriz: Arta Dobroshi (Lorna)
Melhor roteiro: Senhores do Crime
Melhor fotografia: Senhores do Crime
Nacionais:
Serras da Desordem
Linha de Passe
Pan Cinema Permanente
Deserto Feliz
Meu Nome É Dindi
Melhor diretor: Paulo Caldas (Deserto Feliz)
Melhor ator: Paulo Guarnieri (Feliz Natal)
Melhor atriz: Djin Sganzerla (Meu Nome É Dindi)
Melhor roteiro: LInha de Passe
Melhor fotografia: Nome Próprio
Uma pessoa querida pediu para que eu escrevesse sobre a alegria no futebol. Antes de começar a coluna, fui ver o que Ugo Giorgetti, o "Boleiro" de domingo, havia escrito e, para minha surpresa, não é que ele tinha tirado o pão da minha boca? Alegrias e tristezas do futebol eram seu tema. Alegria: a sobrevivência, ainda que precária, da várzea, símbolo do amadorismo, do futebol jogado por si mesmo, pelo simples prazer. A tristeza? Todo auê em torno de Ronaldo em Presidente Prudente, os fãs em histeria, não em busca do extraordinário jogador que ele já foi, mas da celebridade. Poderia ser um cantor de rock, um astro pop, um ator de novela e daria na mesma, constata Ugo.
E é isso mesmo. Pelo menos para quem cultua o futebol como esporte e arte, talvez como expressão de uma cultura, e o coloca em padrões muito acima dos interesses mercantis ou da insensata badalação das estrelas, tudo isso parece meio ridículo, meio frescura. Por isso, o amadorismo passa a ser uma espécie de último refúgio do aficionado. Digamos assim: em vez da Copa dos Campeões, o Desafio ao Galo. Mas agora fico sabendo que o tradicional Desafio ao Galo já não existe mais. Então estaria tudo perdido? Não estou de acordo.
Porque sim, mesmo com tudo tendendo à chatice, ao politicamente correto, à supremacia do poder econômico, ainda existe alegria, e muita, no futebol. Mesmo no futebol profissional. A própria pessoa que me pediu para escrever sobre o assunto dá o exemplo: alegria é ver Keirrison jogar. E é mesmo. O garoto é a própria fome de bola, a vontade de estar em campo como se ainda brincasse com amigos de rua. Aquele contato às vezes até meio irresponsável (no bom sentido) com a bola. Algo que faz lembrar, embora os estilos sejam muito diferentes, de Robinho, quando este ainda era um garoto e infernizava as defesas com dribles inesperados. A alegria da força jovem. Esse poder regenerador que tem o futebol, em especial o nosso, em que ainda surgem talentos, apesar de tudo. Hoje esses jovens brilham uma, duas temporadas, e somem no buraco negro dos euros. Mas encantam enquanto passam, como cometas. Manda a sabedoria que aproveitemos a alegria enquanto dura. Porque, como dizem os boleiros de verdade, o futuro a Deus pertence.
Não é apenas curtindo os jogadores muito jovens que podemos reencontrar essa alegria do futebol. Em meio ao mundo sisudo dos "profissionais", do futebol de terno e gravata, burocratizado e chato, ainda se pode garimpar um pouco de vida. Por isso, sempre recomendo a amigos entediados que vejam de vez em quando uma partida no estádio. Sim, senhor, são péssimos, e muita gente só tem olhos para o que neles falta: assentos adequados, papel nos banheiros, segurança, estacionamento ao lado, etc. Suspiram pelos maravilhosos estádios do "Primeiro Mundo", nos quais tudo é limpo, com lojas maravilhosas, lanchonetes de luxo, lugares demarcados e tudo o mais. Certo: respeito pelo consumidor é fundamental, etc.
Mas enquanto tudo isso não chega, vou me divertindo com o que encontro por aqui. Gosto de chegar ao campo com antecedência, beliscar um sanduíche de pernil na rua (embora meu médico tenha me feito advertências), beber uma cerveja nos botecos das imediações, sentir o calor da torcida, aquele clima até meio tosco e romântico, que cerca o futebol desde que ele foi inventado e resiste a ser de todo esterilizado pela força da grana. São sobrevivências, inscritas na essência mesma desse jogo fantástico. Já que os ídolos passam rápido, que pelo menos permaneça esse doce aroma do amadorismo e mantenha vivo o nosso gosto pelo futebol.
(Coluna Boleiros, 3/3/09)
02.03.09
Viver Sua Música é um livro de difícil classificação. Memórias? Sim. Relato de viagens? Também. Reflexões sobre a música? Sem dúvida. Se Gilberto Mendes mantivesse um blog, talvez se comportasse desse jeito mesmo. Pulando de um assunto a outro, encadeando temas, refletindo, polemizando, às vezes consigo mesmo. Escreveu um livro. Belo livro, aliás, e tão parecido com sua música - heteróclito, criativo, nada dogmático.
É o que há de mais encantador neste Viver Sua Música - Com Stravinsky em Meus Ouvidos, Rumo à Avenida Nevskiy: a capacidade de equilibrar-se, com toda a elegância, sobre a corda bamba da contradição. Gilberto Mendes não parece ter medo do contraditório. Pelo contrário. Como destaca João Marcos Coelho, colaborador do Estado, em seu prefácio, Gilberto ama a contradição: "Resolvi conviver com a contradição. Fica legal não resolvê-la." É verdade. Por exemplo, como ouvinte, é mais do que eclético. Ama a música para cinema, que compositores eruditos mais rígidos tendem a considerar como música de segunda, ou terceira categoria. Disse que ficou encantado ao ouvir a trilha de Antoine Duhamel ao rever Beijos Proibidos, de François Truffaut. Também cita com admiração compositores populares como Tom Jobim, Noel Rosa, Caetano Veloso.
Lendo tudo isso, ficamos tentados a pensar que Gilberto Mendes é daqueles que pregam a abolição completa das fronteiras entre o popular e o erudito. É o grande clichê que anda por aí e está na moda. Não existe fronteira. Existe a música. E só o que se pode separar é a boa música da música ruim. Ponto e fim da discussão. Pois bem, linhas depois ficamos sabendo que Gilberto abomina essa ideia da abolição de fronteiras. Acha de um populismo gratuito. "Coisa da mídia, que gosta de igualar tudo", escreve. Nota que faz parte do marketing da música popular e descobre, atrás dessa tentativa de extinção das diferenças, um enorme preconceito contra a música erudita: "(Acham)...que a música erudita é uma coisa chata. Só não será tão chata se for semelhante à música popular, se tiver alguma relação com ela. Coisa impossível, porque tem uma pedra no meio do caminho. E aquele abismo, que separa as duas músicas."
Ora, o que acontece é que, ao longo do livro, esse abismo não cessa de ser atravessado, de lado a lado - e não apenas pelo gosto errático do compositor. É que Gilberto Mendes se instala na música, e a vive de maneira tão completa que não consegue ignorá-la em toda a sua diversidade de experiências e registros, que vão do tonalismo mais banal à neue musik que, em tese, seria sua referência mais forte. Gilberto pode ser um fino escultor de estruturas, de formas e módulos abstratos; mas, ao mesmo tempo, confessa que os muito esotéricos que o perdoem, mas a melodia é fundamental.
Gilberto compreende essa contradição perfeitamente. Diz mesmo que a música nova darmstadtiana tem seu ponto fraco exatamente em seu ponto forte, naquilo em que ela inova e contribui para o avanço da música: "a não-periodicidade, o não-melodismo, isto é, a não-repetição, a antidiscursividade melódica." Vai além e fala do seu absoluto racionalismo, seu materialismo obstinado: a nova música não define uma melodia. Mas acontece que a melodia e o ritmo "são elementos básicos da comunicação musical coletiva". Por isso, ele sabe, Beethoven é popular.
A nova música pretende um máximo de informação e um mínimo de redundância. É obra aberta, no sentido estabelecido por Umberto Eco em sua obra fundamental. Nesses casos, a comunicação é um preço a pagar. Às vezes Gilberto Mendes acha que esse é um preço a pagar pela originalidade. Mas em outras, admite que a música não pode se afastar por completo do seu público. É um dilema. Mais um.
Outro ponto: Gilberto Mendes estava, junto com Willy Corrêa de Oliveira, Rogério Duprat e outros, na polêmica contra os compositores nacionalistas como Lorenzo Fernandes, Camargo Guarnieri e Francisco Mignone. No entanto, é um cultor do maior deles, Heitor Villa-Lobos e, em parágrafos surpreendentes, em que elogia a grande obra deixada por Villa, tenta protegê-lo da própria companhia dos nacionalistas, vizinhança que tenderia a empobrecer o seu legado. Villa não foi grande porque utilizou temas populares em algumas de suas obras. Foi grande porque incorporou esses elementos em uma estrutura sólida e original. Não são os elementos componentes que contam em uma obra, lembra Gilberto, mas a linguagem dessa obra.
O fato é que Gilberto Mendes consegue driblar a dificuldade de comunicação inerente a toda arte nova por uma via das mais inteligentes - o exercício da brincadeira levada a sério. Esse aspecto lúdico é o que faz a popularidade de duas de suas obras mais conhecidas - Beba Coca-Cola e Santos Football Music. A primeira peça, que ele define com um "rap polifônico", foi executada por corais dos cinco continentes. Santos, homenagem ao grande time de Pelé & Coutinho dos anos 60, consegue a proeza de colocar um jogo de futebol dentro de uma sala de concerto - e com torcida e tudo. É preciso muita arte e engenho para equilibrar esses elementos e deixá-los no quadro, ainda que expandido, daquilo que hoje entendemos por música.
Gilberto é mesmo esse equilibrista do impossível. A chave para manter intactas e operantes tantas contradições internas, ele nos oferece no livro. Olhando para a própria obra, ele pode afirmar que não é um compositor, mas pelo menos três: o vanguardista de Santos Football Music, Beba Coca-Cola, Asthmatour e nascemorre. O clássico moderno que compôs Vila Socó Meu Amor e Pour Eliane. O popular de Salada de Frutas, Revisitação e A Festa. Mais ainda: Gilberto combina com frequência esses três compositores gerando um quarto no interior de uma mesma obra.
Dessa conversa entre heterônimos saiu esse livro delicioso, e tão revelador.
Trecho
Que posso fazer? Meu lado musical popular e romântico às vezes vem à tona, quando surge uma oportunidade. E eu deixo, não me policio. Gosto de gostar de tudo, de viver a música em toda a sua plenitude de significados. Me proibir, por razões ideológicas de grupo, de gostar de uma coisa que na verdade eu gosto, jamais! A vida é uma só, vamos aproveitá-la. Não quero estar preso a nenhuma limitação, como a daquelas seitas musicais voltadas somente ao jazz, ou à ópera, à música eletrônica, de vanguarda. Minha escola de valores é aberta a todo tipo de manifestações musicais, das Estruturas de Boulez àquele famoso e caramelado concerto para piano e orquestra de Rachmaninof, da enigmática transcendência de certos momentos da Flauta Mágica e do Don Giovanni, de Mozart, ao desalento nostálgico de João Ninguém, de Noel Rosa, cantado por Aracy de Almeida. E se possuo tal magnitude de percepção e referencial musical, me permito ser cartesiano: gosto, logo é bom.
Cronologia
1922
Gilberto Mendes nasce em Santos, no litoral de São Paulo. A cidade seria, ao longo dos anos, tema de diversas de suas obras e sede do Festival Música Nova.
1940
Abandona o curso de Direito e, de volta a Santos, entra para o conservatório, onde estuda com a pianista Antonietta Rudge. Desiste do piano e passa a se dedicar à composição de maneira autodidata.
1962
Viaja pela primeira vez a Darmstadt, na Alemanha, berço da "neue musik" (música nova). Para lá, convergia a nata da composição mundial, interessada nas pesquisas de vanguarda de autores como Stockhausen e Pierre Boulez.
1962
Cria no Brasil o Festival Música Nova, inspirado no evento europeu e dedicado à divulgação da nova produção musical brasileira e também internacional.
1963
Com Damiano Cozzella, Rogério Duprat, Régis Duprat, Sandino Hohagen, Júlio Medaglia, Willy Correia de Oliveira e Alexandre Pascoal, assina o Manifesto Música Nova. O documento, entre outros
itens, defendia o compromisso com o atual, a valorização da realidade da época, a releitura do passado como combustível para o futuro, a educação como meio de preparar novas gerações capazes de se "encontrar" em meio à indústria cultural. De certa forma, o texto era uma resposta à Carta Aberta aos Músicos do Brasil, assinada pelos nacionalistas. Para eles, a utilização do folclore e das manifestações populares seria a única possibilidade de criação de uma música erudita de caráter essencialmente nacional. Durante décadas, a composição brasileira viveria a oposição entre essas duas correntes.
1978
Viaja para os Estados Unidos, onde dá aulas na Universidade do Wisconsin. Em seguida, assume o posto de Tinker Visiting Professor, na Universidade do Texas, posição já ocupada antes por Jorge Luis Borges e Haroldo de Campos.
1994
Lança seu primeiro livro, Uma Odisseia Musical - Dos Mares do Sul à Elegância Pop/Art Déco (Edusp), biografia utilizada como tese de doutoramento na Universidade de São Paulo, onde dava aulas.
2003
Recebe o título de Cidadão Emérito de Santos; no ano seguinte, recebe do presidente Lula a Ordem do Mérito Cultural, na classe de comendador, do Ministério da Cultura.
(Cultura, 1/3/09)
João Luiz Sampaio e eu fizemos uma entrevista com o grande compositor santista Gilberto Mendes, capa do Cultura deste domingo. Leia aqui.
Depois coloco no blog o texto que escrevi sobre o livro dele, Viver sua Música.
Crítico de cinema, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo
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