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30.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Atualidades 14:10:10.

anjo

Minha mulher, a jornalista Maria do Rosário Caetano, notou que, no intervalo de poucas semanas, duas vezes ouvimos menções a um texto famoso de Walter Benjamin, inspirado num quadro de Paul Klee chamado Angelus Novus. A primeira foi num debate que moderei durante a Mostra de Cinema de São Paulo com o cineasta francês Nicolas Klotz (de A Questão Humana). A segunda foi através do documentarista Geraldo Sarno, quando debatia seu filme Tudo Isto me Parece um Sonho durante o recém-encerrado Festival de Brasília.

James Joyce referia-se à história como pesadelo do qual queria despertar. Essa imagem está em Benjamin, em sua interpretação do anjo de Klee. E passa por cineastas contemporâneos,em suas reflexões sobre o curso dos acontecimentos, que lhes (nos) parece caótico.

A História como pesadelo.

Eis as palavras com as quais Benjamin abre o texto:

"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus.

Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.

Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.

O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado.

Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.

Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.

Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso."

Walter Benjamin, “Obras Escolhidas”, tradução: Sérgio Paulo Rouanet, 1994 - 7.ed. Editora Brasiliense. p.226.

 


29.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Atualidades 10:15:46.

Não é um belo exemplar da espécie humana? A moça é Irene Stefânia, em Lance Maior, filme de Sylvio Back apresentado em cópia restaurada em Brasília. O longa é de 1968. Tempos idos.

irene

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Críticas 09:59:10.

A primeira coisa a ser dita é que, depois do esforço representado por Onde os Fracos Não Têm Vez, o novo filme dos Coen, Queime Depois de Ler, parece uma espécie de divertimento da dupla. Algo como refresco, pausa para pensar e refrescar as idéias. Um filme sabático, por assim dizer. Fracos fora mesmo uma aventura cinematográfica levada no limite, adaptando para a tela o universo dark de Cormac McCarthy. Queime Depois de Ler é bem mais leve. Mas a segunda coisa a ser dita é que nem por isso ele é inferior, ou desprovido de interesse. Muito pelo contrário. É justamente em sua leveza que está a sua profundidade; e é em seu frescor de comédia de equívocos que reside uma reflexão que, decodificada pelo espectador, mostra-se bastante pertinente para o mundo de hoje.

O filme se apresenta sob a forma de uma comédia de equívocos, em que uma trapalhada leva a outra, até que o desenrolar dos acontecimentos chegue a um desfecho trágico, imprevisto para os protagonistas. Deixando entre parênteses o lado cômico, há um quê de tragédia nesse tipo de encaminhamento. As pessoas pensam controlar os acontecimentos e fazer suas opções como se as dominassem, sem se dar conta de que, pelo contrário, todo planejamento é frágil. Os personagens pensam-se como sujeitos da ação, mas não passam de objetos.

Na história de Queime Depois de Ler, John Malkovich é Osborne Cox, agente da CIA demitido por alcoolismo crônico. George Clooney é Harry Pfarrer, um agente federal, e Brad Pitt, um personal trainer que trabalha em uma academia. Frances McDormand é gerente dessa academia, e Tilda Swinton, a esposa do ex-agente da CIA demitido por causa do apego ao álcool. Movido pelo ressentimento, talvez pelo tédio, Cox resolve colocar no papel suas memórias e grava o texto em CD. Sua mulher, que o está traindo, rouba o CD e o esquece na academia. A personagem de McDormand precisa de dinheiro para pagar uma série de cirurgias plásticas que acredita necessitar para sua carreira. Ela encontra o CD que parece valer muito e assim a coisa rola. Ladeira abaixo, diga-se. Mas não tente adivinhar o caminho da história, porque ela é cheia de desvios e imprevistos.

No fim de agosto, o filme abriu fora de concurso o Festival de Veneza. Na entrevista que deram, os Coen desmentiram qualquer implicação política da história, mas é óbvio, para quem consegue ver, que ela comenta algo do tipo: "O que vamos fazer com o nosso passado?" Naquela ocasião, a eleição americana ainda estava indefinida e a rejeição ao governo Bush era total. Os Coen se divertiam com seu elenco, pois haviam criado uma série de personagens que não passavam de patetas. Ora, a tolice pode ser bom material para a ficção, do contrário Bush não seria ironizável e nem Flaubert teria escrito algo como Bouvard e Pécuchet. Mas a pergunta que fica ressoando, depois de visto o filme, é menos engraçada que inquietante: o que aprendemos com os erros do passado? Podemos evitar que se repitam?

As histórias dos personagens se cruzam, mas não da maneira que se tornou quase banal no cinema dito de "arte" contemporânea. Existe articulação entre elas, e também sutileza no modo como os Coen costuram seus comentários sobre temas como a obsolescência da CIA, observação que se liga à crítica da obsessão moderna pelo culto físico, o sexo pela internet e outras bobagens do nosso cotidiano.

Esse comentário ácido e irônico da contemporaneidade norte-americana, e sua relação com a herança da Guerra Fria, é levado com o brilho e habitual fluidez da dupla. O cinema do Coen é um grande prazer. Prazer que pensa e faz pensar. Rindo, castigam-se os costumes, como se dizia.

(Caderno 2, 29/11/08)

 


28.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Atualidades 14:21:43.

Essa quem me mandou foi o amigo Eurico de Barros, jornalista do Diário de Notícias de Lisboa. Reproduzo, tal e qual:

"Aquele que ao longo do dia é activo como uma abelha, forte como um touro, trabalha que nem um cavalo e que ao fim da tarde se sente cansado que nem um cão, deveria consultar um veterinário porque é bem possível que seja burro."

cao

 


27.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 10:40:03.

Hoje, minha matéria final do 41ºFestival de Brasília, no jornal. Leia aqui.

fobia

 


26.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Críticas 18:06:16.

Saí há pouco do Hotel Nacional e estou no aeroporto de Brasília esperando o vôo de volta a São Paulo. Fechando minha conta no hotel, aconteceu uma coisa engraçada. Peguei o elevador com duas moças e um funcionário do hotel. Elas portavam crachá de um evento que havia começado na véspera, um simpósio de genética, ou coisa que o valha. Uma delas perguntou ao rapaz:

- Será que o pessoal do cinema já foi embora? Porque ninguém conseguiu dormir com a farra que eles fizeram durante a noite.

Achei engraçado e disse a ela que eu mesmo era do festival de cinema, mas não me sentia responsável pois havia ido dormir cedo e não perturbara o sono de ninguém. A moça achou graça e riu. Desceram as duas no andar e outra congressista subiu no mesmo elevador. Perguntei a ela se também fora perturbada pelo “pessoal do cinema”. Disse que não, de modo algum.

- Eu até me divirto com essa fauna.

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 00:53:46.

Final chocho para festival idem, acabou ganhando FilmeFobia, de Kiko Goifman. Foi vaiado, mas nem as vaias foram calorosas, como as do ano passado, dedicadas a Julio Bressane e seu Cleópatra. Além do troféu de melhor filme, FilmeFobia venceu nas categorias de montagem, direção de arte, ator (Jean Claude Bernardet). Leva para casa também o prêmio da crítica, em votação nada entusiástica, posso garantir.

Os outros principais premiados:

=> Continua ...

 


25.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 11:17:21.

Bem, foram exibidos os últimos filmes deste 41º Festival de Brasília, e não se pode dizer que a situação do júri de longas, em particular, tenha melhorado. Tudo isso me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno, é um filme que pode render boas discussões – de ordem estética e histórica- mas não me parece de molde a empolgar muita gente. Sarno faz o que seria uma cinebiografia nada convencional de um personagem histórico meio esquecido – o general José Ignácio Abreu e Lima, pernambucano que lutou ao lado de Simon Bolívar e participou da Revolução Praieira, em 1848. Logo o filme converte-se no making of de si próprio, pois Sarno dá-se conta da dificuldade (e mesmo da impossibilidade) de retratar um personagem sobre o qual se sabe muito pouco. O que procura fazer é uma espécie de arqueologia. Usa imagens encenadas com atores para mostrar os momentos finais de Abreu e Lima, velho e escrevendo as memórias. Vai atrás dos traços do general na Venezuela de Hugo Chávez, entra pelos canaviais de Pernambuco e visita velhas usinas desativadas; visita também terreiros de candomblé e, num deles, tem uma iluminação. Anda pelas ruas do Recife com o intelectual Vamireh Chacon e ouve dele uma aula de história. O filme é um exercício de digressão, que não deixa de lembrar, em alguns momentos, a técnica de Glauber em A Idade da Terra. Nem por isso derrotou menos os espectadores. Uma boa metade do Cine Brasília retirou-se em algum momento ao longo dos 150 minutos do longa (e ponha longa nisso) metragem. Os que ficaram, aplaudiram de maneira discreta.

Sobre o júri: soube que a reunião foi até às 5h da manhã. Não deve ter sido fácil. Na volta do café da manhã, encontrei com um deles, de saída. Perguntei se havia dormido bem. Malicioso, me disse que sim. Contou que a discussão tinha ido até a madrugada – “E olha que só tinha filme ruim, hein?”.

Essa edição do festival ainda vai dar muita polêmica. E mal posso imaginar qual premiação esse júri pôde ter feito. Pode dar qualquer coisa.

 


por Luiz Zanin, Seção: Futebol 10:41:04.

Amigos, quem assistia ao Chacrinha lembra dele dizendo que aquele era um programa que "só acaba quando termina". Pérola do nonsense, mas que vale (e como!) quando o assunto é futebol. Jogo da bola não tolera comemoração antecipada, e já vi muito marmanjo chorar ao perder uma partida, ou taça, que acreditava ter no papo.

Dito isso, e fazendo a ressalva de que o futebol é o futebol, "caixinha de surpresas, etc.", é claro que o São Paulo já está com uma mão e vários dedos da outra na sua sexta conquista de Brasileirão, a terceira seguida. Pode perder fôlego e deixar algum adversário atropelar na final? Pode. Mas, quem, em sã consciência, acredita nisso? Já houve precedente, e não faz muito tempo. Em 2004, o Atlético-PR estava também com a taça na mão, mas perdeu embalo nas últimas rodadas e deixou o Santos passar.

Só que as condições eram outras e o São Paulo me parece sólido e competente demais para deixar escapar um título que lhe caiu no colo.

Caiu? É isso: caiu no colo. Como definir de outro modo a situação? O Grêmio, com 12 pontos de vantagem, vai perdendo fôlego rapidamente até chegar à situação atual, cinco pontos atrás do rival? E ainda se dando "ao luxo" de perder um jogo por 2 a 4, contra o Vitória, que nada mais aspira (e nem teme) na competição? Muricy tem falado muito nessa recuperação. Houve época em que o próprio time havia desacreditado da conquista e preparava-se para disputar apenas uma vaga para a Libertadores, vaga que, para os são-paulinos, soa como nada mais do que a obrigação.

De modo que, salvo algum acidente de percurso, os colunistas esportivos de todas as tendências já estarão se preparando para analisar o "caso" São Paulo. Sim, porque se existe hoje uma hegemonia no futebol brasileiro é a do tricolor, que será sacramentada com esse título. Vamos analisar muitos itens, tentando entender o segredo do São Paulo. Condição financeira sólida? Sim, mas dentro dos limites de solidez do futebol brasileiro, o que não é dizer muito. Concepção democrática, com oposição forte e alternância no poder? Mais ou menos, embora não haja, no Morumbi, aberrações de continuísmo, como em clubes que são ou foram até pouco regidos por monarcas de direito divino e não por presidentes civis. Diz-se que o São Paulo tem estrutura funcional estável e que a entrada e a saída de um técnico não altera todo o esquema, como acontece em outras partes. Aposta na infra, naquilo que os boleiros chamam a torto e a direito de "estrutura"? Sim, mas outros clubes também dela dispõem, se por isso se entende o meio físico favorável, equipamentos modernos e bons profissionais de apoio. O segredo seria Muricy Ramalho? Talvez, porque é o técnico em melhor momento - e estranhamente muito bem cotado pela mídia, que parece deleitar-se com seu mau humor militante.

Sim, o São Paulo merece ser estudado e, se não me engano, todas as conclusões irão confluir num ponto comum - é o mais profissional dos clubes brasileiros. Da minha parte, concordo com tudo e todos, só me reservo o direito de achar que não existe uma maneira única de obter conquistas. Os outros clubes, hoje perdedores ou desesperados, não precisam se transformar em imitações do São Paulo para se tornar vencedores. Há mais de um caminho para chegar ao fim do arco-íris e colher o pote de ouro. Pelo menos, é o meu credo pessoal.

(Coluna Boleiros, 25/11/08)

 


24.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 19:38:55.

Antes tarde do que nunca, recomendo a cobertura excelente do Festival de Brasília, assinada por Eduardo Souza Lima na Revista Zé Pereira. O Zé (que a gente chama de ZéJosé), está meio pau da vida com o pênalti que o juiz não deu para o seu Flamengo. Mas isso em nada perturba a sua análise e humor.

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 08:49:47.

margem

Sempre cai bem no Cine Brasília um filme com pegada política. E foi o caso do documentário À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel, várias vezes aplaudido em cena aberta, em especial durante falas de catadores de material reciclado em São Paulo. Numa delas, um catador diz que não estava escrito em seu sangue que ele iria ganhar a vida apanhando os restos da sociedade; e que também não está escrito no sangue de um “burguês” (sic) que ele iria ser rico e morar numa mansão. Em outra ocasião, um dos personagens (presente ao festival) faz o elogio do governo Lula, “o único que recebeu gente como eu em palácio e ouviu o que tínhamos a dizer.”

Mocarzel afirma que deixou essa cena, entre outras, porque queria mesmo um filme político e incisivo, nada romântico, nem “bonzinho”. Toma partido e vai em frente. Porém, é bom dizer: o filme não se resume a um panfleto. É um exercício cinematográfico interessante. O diretor é culto, experimentalista e inclui seqüências à maneira de Dziga Vertov, o grande cineasta soviético. Como, por exemplo, quando segue o percurso do material a ser reciclado na fábrica até que se transforme em bobinas de papel, prontas a serem reaproveitadas. A seqüência é alucinante, tanto visual quanto auditivamente. A idéia geral do filme, ele diz, é mostrar os catadores como a ponta explorada de um grande negócio, que gera bilhões de reais. Um pouco como olhar de maneira interna o mecanismo de funcionamento da sociedade capitalista.

Os curtas da noite: A Minha Maneira de Estar Sozinho, de Gustavo Galvão, conseguiu a proeza de levar uma grande vaia, mesmo sendo do Distrito Federal. Pudera. Contando a história de um rapaz chamado Sueco, com dificuldades de relacionamento, termina de maneira abstrata, para não dizer incompreensível. Claro, tudo pode ser um sonho. Mas a galera não perdoou.

Já Na Madrugada, da carioca Duda Gorter, trabalha com tema difícil, e sai-se bem. Uma mulher de meia-idade, solitária, também sonha com o relacionamento com uma hipotética parceira. Melancólico às vezes, sensual em outras, o filme trabalha com climas e sentimentos, bastante beneficiado pela fotografia de Jacques Cheuiche e pela atuação das atrizes Ana Lúcia Torre e Denise Weinberg.

 


23.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Personagens 19:07:36.

Neste domingo, demos um Cultura especial em homenagem aos cem anos do etnólogo Claude Lévi-Strauss. Dêem uma olhada no Portal do Estadão, que contém uma galeria de fotos. E uma ouvida, se não se incomodarem, pois, a convite do portal, gravei um pequeno depoimento sobre Lévi-Strauss.

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 12:34:07.

Saí meio do ar um tempinho por excesso de compromissos aqui em Brasília. Volto à tona para registrar que dois retratos do Brasil profundo ocuparam a tela do Cine Brasília no fim de semana: Siri-Ará, de Rosemberg Cariry, fala, em tom alegórico, da fundação do Estado do Ceará e, por extensão, da nação brasileira. Ñande Guarani (Nós, Guarani), de André Luís da Cunha, revela os problemas de sobrevivência da nação indígena guarani, espalhada por vários países – Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina.

O filme sobre os guarani é muito simples; e, com essa simplicidade e emoção ganhou a platéia –já ganha, de antemão, porque se trata de um filme da casa, convém registrar. Já Siri-Ará exigiu muito do público. Denso em alegoria, com um tipo de estética mais localizável nos anos 70 do que na contemporaneidade, usa de reisados e bandas de pífano para contar a história de um conflito, de um massacre, que seria um dos atos fundadores da nação brasileira – “nosso processo civilizatório é assentado sobre ossadas”, disse Cariry no debate.

Debate, aliás, que poderia ter evoluído melhor caso o cineasta não se mantivesse na defensiva. Cariry é um homem muito culto e dá gosto ouvi-lo. Nem sempre, na minha opinião, consegue traduzir essa cultura toda em seus filmes. Mas esta é outra história e gostar ou não gostar de uma obra acaba sendo questão de gosto mesmo. Agora, o que cerca a construção de um filme pode ser objeto de debate. Quais as opções, por que tal coisa é representada de um jeito e não de outro? Isso quando se sabe que a “forma”, a linguagem cinematográfica, nunca são neutros e dizem muito (dizem tudo, de fato) da visão de mundo do artista. A ausência de discussão sobre a linguagem acaba empobrecendo muito as possibilidades dos debates. Alguns cineastas gostam apenas de ouvir elogios. E parte do público acha o debate sobre linguagem meio esotérico. Assim, não importa tanto a linguagem vetusta mas o “tema” abordado. Desse jeito não se vai em frente. Do nosso lado, por aqui, vamos tentando fazer o nosso trabalho e avançar alguma coisa nesse sentido.

Por falar nisso, ontem à tarde fui ver a seção do festival chamado Mostra Brasília, composta apenas de produções do DF. Vi o longa de André Luis Oliveira, Sagrado Segredo. Bem, o “tema” não me interessa tanto: a filmagem da Paixão de Cristo numa das cidades-satélite de Brasília. Claro, André Luís, que já ganhou o festival com Loucos por Cinema, vai muito além disso. Faz uma espécie de making of da filmagem e do processo de conversão (religiosa) do diretor. Ele próprio, no palco, disse que o filme fazia parte do seu processo de busca espiritual. Estou dizendo tudo isso apenas para enfatizar que nada disso seria de molde a comover este empedernido materialista.

Pois bem, achei o filme, em boa parte, um magnífico exercício de cinema. Os primeiros, sei lá, dez minutos, são puro cinema, com a câmera infiltrando-se nos figurantes durante os passos da Paixão. Comovente, de fato.

Claro, o filme tem problemas evidentes que eu localizo, por exemplo, na entrevista com um místico indiano que fala sobre Jesus e traça estranhas aproximações entre a religião e a mecânica quântica, considerações que me parecem deslocadas, além de quebrar o ritmo do filme. Seja lá como for, as partes mais interessantes de Sagrado Segredo expressam um vigor cinematográfico que não tenho visto na mostra “principal”.

Preciso falar dos curtas, mas isso fica para outro post.

 


22.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 11:00:44.

BRASÍLIA
O Cine Brasília já foi a sala mais confortável do País para se ver um filme – e acho que o festival da cidade deve muito a essas boas condições. Já não é mais. A temperatura interna é de sauna, o que leva à sonolência em obras, digamos, menos estimulantes. Além disso, a área reservada à imprensa foi diminuída e é freqüentemente invadida por outros credenciados. Se você não chegar com muita antecedência, não terá condições de trabalhar. Parece que falta essa compreensão: para o jornalista que cobre o festival, aquilo é trabalho, não lazer ou fruição. Soube que a atual coordenadora (ou coordenador?) do Cine Brasília assim reagiu quando lhe disseram que com a diminuição do número de fileiras não iriam caber os jornalistas credenciados: “Que sentem no chão”. Essa declaração, à la Maria Antonieta (“não têm pão? Que comam brioches”), se verdadeira, mostra bem qual é a relação atual do Cine Brasília com seu público e com a imprensa.

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 08:50:21.

Muito rico o debate com o pessoal do FilmeFobia. Destaco a fala de Jean-Claude Bernardet, teórico de cinema e ator no filme. Ele simplesmente defende que a distinção entre ficção e documentário não tem mais lugar no mundo contemporâneo. Não define mais o cinema ou, sei lá, o tal do audiovisual, que temos por aí e teremos pela frente. Meio sem copy vai aí o que ele disse:

“Acho que a gente deve fazer um esforço para abolir as palavras ficção e documentário, ou mesmo falar numa mistura entre os dois. Filmefobia se esforça para descobrir novas formas de narrativa na atual sociedade. Nem mesmo diria que é metalinguagem, um termo que ainda define algo que sobra da relação com a narrativa clássica. Metalinguagem é algo ainda a ser superado. É um vestígio. A tentativa que eu faço de compreensão do trabalho que nós fizemos Em conversas com Lucas Bambozzi, discutíamos qual o traço estético fundamental da nossa contemporaneidade? Trabalhávamos numa área estética à qual pertencem obras diversas, com o mesmo traço: O Big Brother, fato estético da maior importância, Santiago (de João Moreira Salles, Jogo de Cena (de Eduardo Coutinho), Filmefobia, etc. Estamos todos trabalhando dentro da mesma esfera. E tem tudo a ver com o Big Brother. Somos contemporâneos. É a espetacularização da pessoa. Seja a moça que quer ficar famosa no Big Brother ou eu no FilmeFobia. Construímos uma pessoa espetacularizada ou para o espetáculo. Filmefobia tem a ver com a perda da subjetividade, da intimidade, da necessidade de nos gerarmos como forma de espetáculo. Eu fiz isso na literatura, na critica, e em outros filmes.”

Eis aí, a declaração corajosa e polêmica de um dos nossos principais ensaístas de cinema. Cabe discuti-la e ver no que pode nos ajudar a entender as manifestações contemporâneas.Não é para aceitá-la passivamente ou recusá-la bovinamente. É objeto de debate.

Leia aqui o que escrevi no jornal sobre FilmeFobia.

 


21.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 00:30:45.

fobia

BRASÍLIA - Só um postezinho, miúdo mesmo, antes de dormir. Sabe aquele filme do qual você sai sem sequer saber se gostou ou não? Taí: FilmeFobia, de Kiko Goifman, com Jean-Claude Bernardet no papel do cineasta Jean-Claude. Ficção? Documentário? Ambos? Ou melhor: auto-ficção, como andou teorizando o próprio Jean-Claude? Objeto não identificado, estranhíssimo, aquele tipo de filme que não pode ser comparado com nenhum outro. De certa forma, o objeto ideal para um crítico. Desde que, claro, ele não tenha fobia do desconhecido. A platéia reagiu de forma dividida: parte vaiou forte; outra parte aplaudiu. É uma reação lógica a um dispositivo cinematográfico que mostra um filme sendo feito a respeito das fobias de várias pessoas. Metacinematográfico o tempo todo, traz cenas incômodas, bastante "reais", embora se saiba que estão sendo encenadas. Com exceção de uma, incômoda, quando o próprio "cineasta" recebe uma injeção no olho, como parte do tratamento que realmente faz. Ufa! Amanhã eu penso nele.

 


20.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 13:10:54.

O cantor e ator passou rapidamente por Brasília. Está em dois filmes, ambos da mostra em 16mm. Um deles é Marcelo Bousada, Quem?, de Denílson Felix, que mostra um compositor tentando levar sua música para Ney Matogrosso ouvir e, se gostar, gravar. O outro é Depois de Tudo, em que Ney e Nildo Parente fazem um casal gay. Aliás, o filme foi pivô de uma saia-justa. Como a Sala Martins Pena, onde se realiza a mostra em 16 mm, estava cheia de crianças, Ney disse que considerava seu filme inadequado para menores e pediu que elas saíssem da sala. Depois de algum debate e troca de opiniões contrárias, as crianças tiveram de deixar o cinema. Não sem antes assistir ao primeiro filme, Medo do Escuro, que tem por tema crianças molestadas sexualmente.

depois

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 11:05:22.

lua

BRASÍLIA - O Milagre de Santa Luzia, de Sergio Roizenblit, levantou a galera no Cine Brasília. É alto-astral mesmo, com suas histórias de sanfoneiros, de norte a sul. O filme apresenta muita música, e ao mesmo tempo, procura mostrar o Brasil sob um ângulo favorável. O diretor, paulistano, se diz cansado de notícias negativas sobre o País. Acha uma tremenda sorte ter nascido por aqui. E usa uma distinção que deve a Ariano Suassuna: existem dois brasis – o Brasil oficial, ridículo, pretensioso e burlesco; e o Brasil real, generoso e criativo. O povo é bem melhor que suas elites, o que, aliás, é do conhecimento geral. Gostei do filme, que poderia ter uma montagem talvez um pouco mais enxuta, sempre preservando a integridade dos números musicais. Poderia abusar menos dos efeitos de pôr-do-sol e céus azulados, que abrem uma brecha para que possa ser acusado de “turístico”, o que seria uma injustiça. Enfim, esse Brasil esse que ele apresenta, para a mídia não vale um tostão de mel coado. Mas é o Brasil real. Ou pelo menos, também é o Brasil real. Esse nós não vemos. A não ser de vez em quando, e no cinema.

Se quiser ler a matéria publicada no jornal, clique aqui.

 


19.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 16:51:13.

nildo
Othon Bastos e Nildo Parente no debate em Brasília

BRASÍLIA - Foi bem bacana o debate em torno da restauração de São Bernardo, do qual pouco pude transcrever em minha matéria para o jornal, por causa do horário de fechamento. O que dá para acrescentar é que o clima emocional da noite anterior prosseguiu hoje durante o debate. Maria Hirszman mais uma vez se emocionou ao falar do pai e da obra que ela e irmãos procuram recolocar em circulação. Vladimir Carvalho, o grande documentarista, lembrou, em longa fala, da sua relação de amizade com Leon. Carlos Augusto Calil, o secretário de Cultura de São Paulo, assinalou que São Bernardo foi um filme que veio num momento complicado da vida de Leon Hirszman, que tentava gerenciar uma crise dupla – política e existencial. De certa forma, disse Calil, é com São Bernardo que Leon se reassenta em seu compromisso político, de solidariedade aos mais humildes e crítica constante do capitalismo.

Aliás, antes de o debate no Hotel Nacional começar houve a projeção do documentário de Leon, Maioria Absoluta, de 1964. Um doc. porrada que tenta investigar o analfabetismo e suas raízes na sociedade brasileira. O filme faz parte dos extras do DVD de S. Bernardo. Na platéia, o cineasta Geraldo Sarno, disse que aquele tinha sido um dos documentários seminais, que guiaram sua carreira, colocando-o ao lado de Aruanda, de Linduarte Noronha.

Lauro Escorel, na época do filme um jovem fotógrafo e agora restaurador da cópia original, lembrou da precariedade das condições de trabalho em S. Bernardo e de como elas foram incorporadas à própria estética do filme. Máquinas de filmar pesadas, que levaram a um desenho de planos fixos, com alguns travellings e apenas duas sequências de câmera na mão.

Othon Bastos lembrou também que Leon exigia horas e horas de ensaio antes de filmar. “Não tínhamos o direito de errar, porque o negativo disponível era pouco”, conta.
Othon relembrou que uma determinada sequência tinha de ser feita em 4 minutos. Ensaiaram, durava seis. Foram enxugando as falas, colocando tudo no tempo disponível. Contaram de novo. Tinha 4 minutos. Então Leon disse: “Vamos rodar, mas, pelo amor de Deus, não errem”. E não erraram. Disse o ator que, terminada a cena, o diretor foi beijar cada um dos participantes, agradecendo.

A filmagem toda decorreu nesse clima fraterno. “Tínhamos uma ideologia, sabíamos que estávamos fazendo uma coisa importante”, disse Othon. Ele lembrou quando Leon um dia foi procurá-lo e perguntou se já havia lido S. Bernardo, de Graciliano Ramos. Othon disse que sim. Leon então o convidou para fazer o papel de Paulo Honório e Othon lhe respondeu que ele devia estar brincando, pois seu tipo físico em nada lembrava aquele do personagem descrito por Graciliano. “Eu não quero semelhança física; quero o que tem dentro de você”, lhe disse o diretor. Ao contar essa história, Othon não conseguiu segurar as lágrimas.

Enfim, foi um belo, um belíssimo momento, esse primeiro passo de um festival que havia começado sob o signo da desconfiança. Tomara continue assim.

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 00:28:51.

BRASÍLIA - Acabo de voltar do Teatro Nacional, após a abertura do festival com orquestra (teve até La Valse, de Ravel) e exibição da cópia restaurada de São Bernardo, de Leon Hirszman. Amanhã falo mais sobre S. Bernardo. Por enquanto, antes de dormir, gostaria apenas de registrar uma dúvida, dividi-la com vocês: começar um festival com um filme desse nível é inspirador ou serve para intimidar os cineastas concorrentes? Meu Deus, como é bom ver um filme dessa qualidade...!

 


18.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 19:05:09.

Já cheguei, estou no Hotel Nacional, há tantos anos sede do festival. Esse hotel tem um charme discreto, como seu homônimo de Havana. Podem não ser os melhores do mundo em termos de acomodação, serviço, etc. Mas outros, talvez mais eficientes, perdem de goleada no quesito clima, evocação de antigas lembranças, pequenas nostalgias, paredes e tetos testemunhos de passagens e personagens históricos – enfim, todos esses bens impalpáveis da memória humana.

Mas chega disso. Daqui a pouco sigo para o Teatro (também) Nacional para a abertura, com orquestra e, depois, a cópia restaurada de São Bernardo, de Leon Hirszman, adaptado de Graciliano Ramos. Livro de um escritor comunista, interpretado por um cineasta idem, em 1973. Que tempos aqueles, hein? E, no entanto, pelo que me lembro, o filme nada tem de tacanhamente ideológico, no mau sentido do termo. É apenas melancólico e reflexivo em sua descrição do casamento de Paulo Honório (Othon Bastos) e Madalena (Isabel Ribeiro). Honório e Madalena, consumidos pela ambição do marido, por seu materialismo vulgar e sem limites. O que ainda nos pode dizer esse filme, a nós, passageiros de um tempo de consumismo absurdo e sem remorso? Será que suas “mensagens” se reatualizam em face dos desdobramentos da crise?

A trilha sonora é, sabe de quem? Caetano Veloso, carregando no experimentalismo. Dizem que os estudos feitos para São Bernardo o levaram a Araçá Azul, seu disco de maior risco estético. Veremos. E ouviremos.

 


por Luiz Zanin, Seção: Futebol 17:13:09.

O Campeonato Brasileiro vai chegando ao fim e as previsões se estreitam. Agora parece claro que apenas São Paulo e Grêmio disputam o título. Quem será o campeão? As coisas parecem tender mais para o time paulista, mas os gaúchos estão em cima e, a qualquer vacilo do adversário, podem assumir a ponta. A outra pergunta - lá no lado de cima da tabela - é: quem vai entrar e quem vai ficar fora da Libertadores? Por exemplo, já se especula que o Palmeiras, depois de distanciar-se da disputa do título em razão da goleada sofrida diante do Flamengo, pode também ficar sem a vaga na Libertadores. Depois de começar o ano como favorito a tudo, o Verdão vai sobrar?

A partir dessa perspectiva, já se desenha um clima de caça às bruxas no Parque Antártica, por mais que os dirigentes neguem. Nesse ponto, faço um parêntese: Muricy soltou uma frase interessante no final de semana. Disse que conta à imprensa no máximo uns 10% do que realmente se passa dentro do clube. É o normal. Roupa suja, e outros itens, convém lavar em casa. Disso sabemos todos, e portanto estamos longe de conhecer os fatos que ocorrem nos bastidores dos clubes. Ouvimos uns e outros, em "off", e do que podemos apurar, tiramos as nossas precárias conclusões.

Daí que não se pode ter como verdades absolutas tudo o que se diz. Técnico e dirigente esportivo são como políticos - não é que não digam nunca a verdade; podem até dizê-la, desde que seja de seu interesse. Além disso, é claro que interessa ao Palmeiras, e a todos os que o comandam, esfriar essa crise que se desenha. O título parece que já se foi. Mas a vaga na Libertadores ainda se encontra bem ao alcance - e pode salvar o ano, e o projeto. Porque, senão, haverá a inevitável "apuração de responsabilidades", que é o sinônimo mais civilizado de caça às bruxas.

Toda essa pressa e truculência faz um estranho sentido nesse jogo da bola, que é feito de detalhes, e com detalhes se perde ou se ganha. Por exemplo, é impossível dissociar a derrota fragorosa diante do Flamengo da instabilidade da zaga palmeirense. Agora, pense bem: a culpa maior é do zagueiro incapaz de acompanhar o ataque adversário ou de quem o coloca lá? Essa a questão que deve estar sendo formulada, em surdina, pelas alamedas do Parque Antártica. Essa, entre outras. E, tudo isso, meu amigo, não faz parte dos 10% que os dirigentes, técnicos e mesmo os boleiros revelam em suas entrevistas.

Porque, além de tudo, o futebol é cercado por uma alta dose de irracionalidade. Não deveria ser assim, mas é. A prova está no próprio Palmeiras ou nas pessoas que o rodeiam. Refiro-me, claro, à parte da torcida que agrediu a delegação palmeirense e, em particular, o técnico Luxemburgo, no embarque para o Rio. Podemos pensar que quem tem uma torcida dessas nem precisa de adversários, pois àquela altura o Palmeiras estava muito bem colocado na disputa pelo título e o tudo o que precisava era incentivo e não instabilidade. Carinho, e não agressões. Mas como convencer as pessoas de que muitas vezes a pressão só atrapalha?

De modo que o Palmeiras (como outros clubes, é bom que se diga) entrou na reta final da disputa e pronto para eleger seus heróis ou seus vilões. Nem todos, é claro, devem ser comparados àquela torcida violenta, mas, de qualquer forma, parece que a tolerância à frustração é artigo de luxo no Parque Antártica. Quem sonha alto torna-se muito susceptível.

(Coluna Boleiros, 18/11/08)

 


17.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 19:53:41.

Amigos, vou para Brasília acompanhar o festival de cinema da cidade, o mais tradicional do Brasil. Não quero adiantar muita coisa neste primeiro post, mas apenas dizer, como aliás já assinalei neste blog, que, antes mesmo de começar a competição, já existe uma polêmica latente – cinco dos seis longas concorrentes são documentários.

Já houve alguma chiadeira de bastidores a respeito disso. Muita gente acha que o fato se deve à carência de obras de ficção, que teriam preferido outros festivais, como o do Rio, de Paulínia ou de Curitiba. Há quem já veja, no próprio espanto com a seleção, algum tipo de discriminação contra os documentários. “Se fossem cinco filmes de ficção e apenas um doc., ninguém estranharia”. De fato. Mas também há quem se preocupe com a estrutura da premiação. Como dar prêmios de atriz, ator, atriz coadjvante, ator coadjuvante, direção de arte, etc, com apenas um filme de ficção em concurso? Ou, talvez dois, já que FilmeFobia, de Kiko Goifman, parece pertencer àquele "gênero" híbrido, de fronteiras indefinidas.

Bem, por enquanto apenas assinalo a polêmica em potencial. Não sei se vai dar em nada ou se vai render uma boa discussão, inclusive sobre a natureza contemporânea do documentário.

Em todo caso, lendo esse blog vocês saberão do que se passa no Festival de Brasília durante a próxima semana. Por enquanto, não posso dizer nada sobre os filmes, e essa é a parte boa. É muito estimulante, para um crítico de cinema, ir a um festival sem ter visto qualquer dos concorrentes. Tudo será novidade. No Brasil, a repetição de filmes, aves migratórias que passam de festival em festival, tornou-se regra. Ponto para Brasília, pelo menos nesse aspecto, com a preferência dada aos inéditos.

Preferência pelos inéditos sim, mas com lugar garantido para os clássicos. O festival começa com um fino biscoito: a cópia restaurada de São Bernardo, adaptação de Leon Hirszman do livro de Graciliano Ramos. Talvez seja a obra-prima de Hirszman, cineasta a ser redescoberto. Estou com muita vontade de rever esse grande filme em tela grande. Pelo que me lembro dele, não haverá decepção.

Abaixo, a lista dos concorrentes, em 35 mm.

Longas-metragens em competição

À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel (SP)
FilmeFobia, de Kiko Goifman (SP)
Ñande Guarani (Nós Guarani), de André Luiz da Cunha (DF)
O Milagre de Santa Luiza, de Sergio Roizenblit (SP)
Siri-Ará, de Rosemberg Cariry (CE)
Tudo Isso me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno (RJ)

Curtas-metragens em competição:

A arquitetura do corpo, de Marcos Pimentel, 21min, MG
A Minha Maneira de Estar Sozinho, de Gustavo Galvão, 15min, DF
A Mulher Biônica, de Armando Praça, 19min, CE
Ana Beatriz, de Clarissa Cardoso, 9min, DF
Brasília (Título Provisório), de J. Procópio, 15min, DF
Cães, de Adler Paz e Moacyr Gramacho, 16min, BA
Cidade Vazia, de Cássio Pereira dos Santos, 13min, DF
Minami em Close-up, de Thiago Mendonça, 18min50, SP
Na Madrugada, de Duda Gorter, 21min, RJ
1Nº 27, de Marcelo Lordello, 19min, PE
Que Cavação É Essa?, de Estevão Garcia e Luís Rocha Melo, 19min, RJ
Superbarroco, de Renata Pinheiro, 16min, PE

PS: Que o título do post não leve a equívocos. Esta é a 41ª edição do festival, fundado em 1965, portanto há 43 anos. Ele está apenas na 41ª edição porque foi interrompido por dois anos durante a ditadura militar, por imposição da censura. Esta é a história do nosso país, meninos.

Se quiser ler o texto do jornal, clique aqui

 


por Luiz Zanin, Seção: Atualidades 18:54:03.

Pessoas me perguntam pelo Merten. Sosseguem: as notícias não poderiam ser melhores. Ele se recupera muito bem da cirurgia. Está no quarto, já saiu da UTI e reclama da programação dos canais a cabo do hospital. Já pediu um laptop para voltar a escrever e postar, mas isso ainda depende de autorização médica. Logo logo ele volta ao nosso convívio.

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Atualidades 17:12:52.

Li a notícia abaixo na Ansa, a agência de notícias italiana. Tenho ido com freqüência à Itália que, junto com a França, é meu segundo país, e, a cada vez, fico mais pasmo com a pasteurização cultural que lá encontro.

"Esquecido na Itália, Fellini é homenageado com mostra em Los Angeles
A exposição celebra os 15 anos da morte do cineasta italiano

ROMA, 17 NOV (ANSA) - A Fundação Cinema para Roma, a Fundação Federico Fellini e a Academy of Motion Pictures Arts and Sciences de Los Angeles anunciaram hoje a realização de uma mostra dedicada a Federico Fellini, que será realizada em Los Angeles, para comemorar o aniversário de 15 anos da morte do cineasta italiano.

Intitulada "Fellini Oniricon - O livro dos meus sonhos", a mostra ficará em cartaz de 24 de janeiro a 19 de abril de 2009, quando ocorrem as indicações para o Oscar.

No entanto, o genial cineasta parece ter sido esquecido na sua terra natal, a Itália, onde toda a imprensa, incluindo a televisão estatal RAI, "ignorou" o aniversário de 15 anos da morte de Fellini, em 31 de outubro.

"A relação do nosso país com Fellini é marcada por um desafeto profundo, mas felizmente fora da Itália, o nome de Fellini é sinônimo de cinema", afirmou o curador da mostra, Vittorio Boarini.

Além de "Fellini Oniricon - O livro dos meus sonhos", estarão em exposição nos EUA uma centena de desenhos de Fellini e fotos de sets de filmagem provenientes dos arquivos da ANSA, da Cinemateca e da Reporters Associati".

 


14.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema 10:51:32.

scarlet

Como estava em Manaus, não participei muito (aliás, nada) das estréias deste fim-de-semana. Destaco duas: Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, e Pan-Cinema Permanente, de Carlos Nader.
Bem, quanto Woody, passou a ser moda falar mal dos seus filmes. Vou contra a corrente. Continuo gostando. Mesmo deste Vicky Cristina Barcelona que é a história de duas garotas americanas que vão para a cidade catalã e lá conhecem o previsível garanhão latino, representando por Javier Bardem que, acho que segundo o próprio Allen, tem cara de touro de Picasso. O tom é menos obscuro que Match Point e O Sonho de Cassandra, filmados na Inglaterra. Allen parece que se adapta à atmosfera mais solar da Espanha e joga, abertamente, com a sensualidade de sua musa, Scarlet Johansson, uma verdadeira bomba hormonal. O interessante é o contraste entre ela e sua amiga, interpretada pela certinha Rebecca Hall. Esta sabe tudo o que quer e está noiva de um caretão americano. A outra, vamos dizer assim, está aberta a experiências. No entanto, como você poderá ver, as perspectivas um pouco que se invertem. E também entra em cena uma ex do pintor vivido por Bardem, Penélope Cruz, num papel que é o estereótipo da espanhola, tal como ela havia vivido sob Almodóvar em Volver. Não é nada desagradável ver esse trio de mulheres em ação. Mesmo que – esta é uma característica de Allen – tudo termine sob um signo reflexivo. O homem pensa e quer que o seu público pense. O que não significa abandonar todo o resto, sensualidade inclusive. Muito bom, de verdade.

waly

Já Pan-Cinema Permanente é um documentário brilhante de Carlos Nader sobre o poeta e performer Waly Salomão, um dos gurus da Tropicália, tipo inquieto, falastrão, um ator de si mesmo. Nader foi gravando Waly em diferentes situações ao longo de 15 anos. Belo material. O interessante do filme é a maneira como esse material é montado. Waly Salomão é um personagem criado por Waly Salomão. Nunca baixa a guarda. E muda radicalmente quando uma câmera é ligada. Num determinado momento, Waly diz: “eu pouco me importo com a verdade; a vida é sonho”. Citando, de maneira oblíqua, Calderon de La Barca, esse barroco de Jequié, um “baianárabe”, como ele mesmo se definia, busca a sua verdade possível, mas não diretamente e sim pelas frestas, por onde “ela” pode fazer sua irupção momentânea. Grande Waly, autor de poesias memoráveis (são lidas durante o filme, enquanto as palavras aparecem na tela) e de uma música tão memorável quanto Vapor Barato, em parceria com Macalé. Acho Waly um dos ícones da cultura nacional contemporânea. Morreu precocemente, com 60 anos. Ganhou um filme à altura.

 


13.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 19:14:42.

lelouch

MANAUS
Como homenagem do Amazonas Film Festival o diretor francês Claude Lelouch recebeu uma pequena estatueta indígena no palco do Teatro Amazonas. Agradeceu, dizendo que iria colocá-la entre seus dois Oscars. Sim, Lelouch recebeu duas vezes o prêmio da Academia de Hollywood e raramente perde ocasião de lembrar o fato. Com seu grande sucesso Um Homem, Uma Mulher (1966) venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os Oscars de melhor produção estrangeira e o de roteiro, escrito por ele próprio. Lelouch conversou com o Estado a bordo de um barco subindo o Rio Negro.
Falou primeiro de sua ligação com o Brasil, que vem através da música bossa nova empregada em Um Homem, Uma Mulher. “Quem me indicou esse tipo de música foi meu amigo Pierre Barouh, que era muito ligado aos músicos brasileiros. Fiquei encantado com a sugestão e mudei a música que iria empregar pela de bossa nova que acabou ficando famosa”, disse. Assim como ficou famoso o caso de amor entre Jean Louis Trintignant e Anouk Aimée, o casal de Um Homem e Uma Mulher, título que tem uma região de adeptos até hoje.

Seu outro grande sucesso é Retratos da Vida (Les Uns, Les Autres, 1981). A tal ponto que, num encontro com o público, em Manaus, uma fã declarou que aquele era o filme da sua vida, e por ele agradecia ao diretor. Lelouch se diz acostumado a esse tipo de reação apaixonada. Pelo menos por parte do público, já que a crítica não é tão unânime em relação a ele. “Sempre fazem restrições dizendo que misturo muito os gêneros em meus filmes. E, de fato, neles há romance, humor, suspense, tudo isso. E sabe por quê? Porque na vida também é assim, tudo misturado; então as pessoas se identificam com meus personagens e minhas histórias”.
Quando lhe perguntam se o grande sucesso de Um Homem Uma Mulher não lhe teria subido à cabeça e o transformado em uma pessoa intolerante à crítica, ele diz que não. E por um motivo muito simples: “Antes do sucesso de Um Homem Uma Mulher, eu conheci seis fracassos seguidos, e isso tempera uma pessoa. Aliás, acho que aprendemos muito com o fracasso. Ele nos torna humildes, ao passo que o sucesso embriaga”. Lelouch diz que conheceu tanto sucessos como fracassos retumbantes com seus 41 filmes lançados comercialmente. “Essa alternância me deixou muito bem preparado para o sobe-e-desce da vida”, afirma.

E também temperado, segundo ele, para o confronto com a crítica que, a partir de um namoro inicial, começou a tachar suas técnicas de filmagem de mera perfumaria, sem grande substância. “E sabe de uma coisa? Receberam muito bem meu último trabalho, Crimes de Autor (Roman de Gare, 2007)”. Acrescenta, mordaz: “Isso não quer dizer que passei a gostar deles depois disso”. Lelouch tem um histórico de rixas com a crítica francesa e também com o sistema de distribuição dos filmes em seu país. Tanto assim que bancou uma operação arriscada para o lançamento do seu Os Parisienses (2004), que teve um dia de entradas grátis em toda a Paris. Lelouch pagou do próprio bolso a extravagância e consta que desembolsou um milhão de euros para provar que era o sistema que estava errado e não seus filmes.

Não se sabe se repetiria a experiência, mesmo porque ela é muito cara. Mas Lelouch parece disposto a repetir polêmicas e nomear desafetos. Por exemplo, quando o repórter do Estado lhe recorda que não apenas a bossa nova está fazendo 50 anos em 2008 mas também a nouvelle vague, ele comenta: “Sabe qual a diferença entre os dois? A bossa nova é maravilhosa e continua viva; a nouvelle vague está morta”. Por algum motivo, ou vários motivos, Lelouch detesta o movimento cinematográfico iniciado por François Truffaut, Jacques Rivette, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, e que se tornou referência na história do cinema mundial. “A nouvelle vague foi muito útil para mostrar como não se deve filmar”, diz, sem papas na língua. De acordo com ele, afastou o público dos cinemas e criou uma estética empoada, de nariz em pé, que em nada condiz com aquilo que ele próprio pensa do cinema.

Os (então) rapazes da nouvelle vague eram críticos atuantes na mitológica revista Cahiers du Cinéma, fundada por André Bazin. A revista serviu de plataforma de lançamento dos primeiros filmes feitos pelos jovens críticos e nunca deixou de apoiá-los ao longo de sua carreira. Quando lhe perguntam como analisa as atuais dificuldades da Cahiers, que estaria sendo vendida para um grupo inglês, Lelouch resume, em seu estilo: “Claro: ninguém mais lê essa revista”.

As provocações não param por aí. Se a maior parte dos artistas e intelectuais franceses apoiou a socialista Ségolène Royal nas eleições presidenciais, Lelouch nunca escondeu sua preferência pelo conservador Nicolas Sarkozy, que acabou eleito. “Sarkozy vai fazer um grande governo na França; ele trouxe algo de novo ao país”. Quando lhe perguntam se esse algo novo seria Carla Bruni, cantora e primeira-dama, ele contesta: “Não, não, Sarkozy tem brilho próprio e vai mudar o país. Sabe por quê? Porque é centralizador. Ele controla tudo e isso é um bom indício”. Lelouch não deixa de fazer uma analogia: “Um bom diretor de cinema é aquele que tem o controle de todas as etapas de um filme, do roteiro à montagem; é também o que Sarkozy está fazendo na França, controlando tudo.”

Claude Lelouch diz que ama todos os seus filmes, fala dos seus prêmios mas não cultiva o passado. “Meu próximo filme sempre será o melhor”, acredita. E já tem dois projetos engatilhados que, segundo ele, chocarão os críticos pela ousadia e inventividade. Mas negou que vá se aposentar depois desses dois projetos: “Só vou parar de fazer cinema quando eu morrer”, diz. E acrescenta que jamais perderia a oportunidade de utilizar essa grande ferramenta que é a nova tecnologia digital. “Podemos filmar durante uma hora, sem interrupções, o que garante uma uniformidade fotográfica fantástica, por exemplo”.

Lelouch diz que filma como quem vive e que seus filmes têm todas as variações e imperfeições da própria vida – e por isso são bons. Mas, para quem acredita que Lelouch só gosta de Lelouch, ele avisa: em sua opinião o maior cineasta do mundo se chama Woody Allen.

(Caderno 2, 13/11/08)

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 17:16:04.

parker

MANAUS
Talvez um barco subindo o Rio Negro não seja o local mais indicado para uma conversa profissional sobre cinema. Mas tem suas compensações – a paisagem e uma certa calma, ditada pelo ritmo amazônico. Foi assim o papo do Estado com o cineasta britânico Alan Parker, presente em Manaus para presidir o júri de longas-metragens de ficção do 5º Amazonas Film Festival. Parker, diretor de sucessos como Mississipi em Chamas, O Expresso da Meia-Noite e Evita é um tipo bonachão, sempre prestes a uma tirada de humor.

Como, por exemplo, quando comenta sobre a vitória do seu time, o Arsenal, sobre o Manchester United, no último sábado. “Tive o prazer de ouvir o meu nome citado pelo locutor da emissora”, disse, orgulhoso. Parker colocou uma condicional ao convite para presidir o júri internacional – queria ter certeza de que não perderia este e nem outros jogos da Liga Inglesa enquanto estivesse fora dos domínios do seu país. Ele, que gosta tanto do futebol jogado nas quatro linhas, disse ao Estado que não se entusiasma muito com os filmes sobre esse esporte. “Soam todos falsos, porque é impossível que atores reproduzam os movimentos dos jogadores de verdade”, diz. “Você pode imaginar Eddy Murphy interpretando Ronaldinho Gaúcho?”, pergunta ao repórter. Lembra também que um dos livros mais interessantes sobre o futebol britânico, Febre de Bola (Fever Pitch), de Nick Hornby, virou filme e é, justamente, sobre um torcedor fanático do Arsenal, como ele. Já os documentários sobre futebol parecem mais aceitáveis para esse aficcionado exigente – “Pelo menos estão lidando com os fatos futebolíticos como eles aconteceram”, diz com objetividade bem britânica.

Enquanto espera por um redentor filme sobre futebol, que ele não espera filmar, Parker ocupa seu tempo rodando obras de gêneros e temáticas diversas: Bugsy Malone (1976), O Expresso da Meia-Noite (1978), Fama (1980), Pink Floyde, the Wall ( 1982), Asas da Liberdade (1984), Coração Satânico (1987), Mississipi em Chamas (1988), The Commitments – Loucos pela Fama (1991). Nos anos 90, Parker diminui o ritmo. Além do grande sucesso de The Commitments, lançou O Fantástico Mundo do dr. Kellogg (1994), Evita (1996), As Cinzas de Angela (1999) e A Vida de David Gale (2002). Por que a diminuição do ritmo? “Dirigi durante sete anos o British Film Institute (BFI), o instituto do cinema inglês, e isso toma um tempo danado da gente”, diz. Além disso, os métodos de financiamento se tornaram mais difíceis com o passar do tempo. “É mais fácil eu relaxar e ir assistir a um jogo no campo do Arsenal”, diz, brincando.

Em todo caso, Parker avisa que está terminando o roteiro do seu próximo projeto, The Ice at the Bottom of the World, e que deve ser filmado em 2010. E, apesar das dificuldades que sofre pessoalmente, diz que o sistema de produção do cinema britânico lhe parece “saudável”, neste momento. “Na verdade, são dados mais da economia do que referentes à arte; para nós é a questão da proporção entre libra e dólar que pesa. Para você ter idéia, hoje existem mais de 200 diretores de cinema britânicos trabalhando nos Estados Unidos e não em nosso país”.

Ontem, Parker passou a noite num hotel no meio da selva, onde se divertiu na festa do boi-bumbá, disputa entre as agremiações Caprichoso e Garantido, de Paraintins. De manhã foi, com o grupo de estrangeiros do festival, alimentar os botos cor-de-rosa, uma das grandes atrações do turismo ecológico da Amazônia. Está de volta a Manaus para assistir aos últimos filmes do festival, que termina nesta quinta-feira.

(Caderno 2, 13/11/08)

 


11.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Futebol 18:20:48.

Não sei se é exemplo a ser seguido. Mas me deixou comovido a atitude de Marcos ao sair do gol, em desespero, para tentar ajudar seu time no ataque. Vocês vão me dizer: coisas assim acontecem desde que o mundo é mundo. Certo. Na véspera de Palmeiras x Grêmio, Fábio Costa abandonara a meta para tentar uma cabeçada na área adversária em busca de um empate no jogo contra o Vasco, o que acabou não acontecendo. Talvez todo goleiro tenha, no fundo, uma vocação inconfessada de artilheiro, sonho que poucos realizam, sendo Rogério Ceni uma das exceções.

Mas acredito que Marcos saiu do gol não para sentir o prazer egoísta de balançar a rede adversária, mas por uma série de motivos, entre os quais não se exclui um possível sentimento de culpa pelo gol que ele próprio havia tomado. Não se pode dizer que tenha sido frango. Afinal, bolas levantadas na área, cruzando de lado a lado, com vários jogadores atrapalhando a visão, são um inferno para os goleiros. Mas de um jogador como ele se espera que não tome gols desse jeito.

Culpado ou não, Marcos lançou-se ao ataque. Movido, talvez, pelo impulso tão humano de se redimir de uma falta, real ou imaginária.

"Errei, vou consertar meu erro", pode ter pensado, lá no fundo obscuro da consciência. Foi em busca da segunda chance, esse tema recorrente dos faroestes americanos e também da melhor literatura, como Lord Jim, de Joseph Conrad.

Mas, além disso, Marcos pode ter pressentido certa apatia no time, o desespero de não conseguir realizar as jogadas de ataque em virtude da marcação muito eficiente do Grêmio. Muitas vezes um time bem marcado parece apático, quando na verdade está sendo paralisado pelo adversário. É uma das artes do jogo de bola - cortar a fluência de um oponente tecnicamente superior e levá-lo à instabilidade psicológica. O Grêmio ganhou o meio-de-campo e o Palmeiras não tinha articulação para chegar com qualidade ao ataque. Por isso - também - o goleiro saiu da meta e foi tentar resolver as coisas lá na frente. Para insuflar alguma alma num time que já estava sendo derrotado também no plano espiritual.

O fato de não ter dado certo em nada deve influenciar a nossa análise do fato. Nem sempre os resultados dizem tudo, e o significado da atitude também deve ser levado em conta. Enfim, a beleza do gesto tem seu valor, mesmo que não dê em nada. Líder dentro de campo, Marcos tem uma percepção do jogo que talvez escape à análise racional do treinador que o criticou. Eu diria que Luxemburgo tinha razão ao criticar, mas era Marcos no fundo quem estava certo. Naquele momento, em sua atitude camicase, ele encarnou o verdadeiro espírito do futebol, essa velha e apaixonante arte.

BOLEIRO ALAN PARKER

Estou em Manaus cobrindo o Amazonas Film Festival e tive o prazer de conhecer pessoalmente o diretor britânico Alan Parker, autor de sucessos como Mississippi em Chamas e Evita. E por que falar nele nesta coluna de futebol? Porque Parker é torcedor fanático e não perde jogo do Arsenal. Quando o convidaram a Manaus, disse que viria, com a condição de poder assistir a Arsenal x Manchester. Contei essa história aos meus amigos da ESPN ao participar de um programa. Qual não foi a surpresa de Parker ao ouvir o locutor da emissora mencionar seu nome quando acompanhava a vitória do Arsenal sobre o Manchester? Em conversa que tivemos sobre cinema e futebol ele se disse muito emocionado ao ser citado numa transmissão de jogo do Arsenal falada em português. O futebol une as pessoas. É a única verdadeira linguagem universal.

(Coluna Boleiros, 11/11/08)

 


10.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Música, Personagens 11:56:45.

MANAUS - Fico sabendo por aqui da morte de Miriam Makeba, na Itália. Quem não se lembra de Pata Pata, imenso sucesso nos anos 60? Miriam foi uma lutadora contra a discrminação racial e, não por acaso, era conhecida como Mama Africa. Tinha 76 anos e morreu depois de um show em prol de um jornalista ameaçado pela Camorra, a máfia napolitana. Miriam estava sempre ao lado das boas causas. Pena.

 


09.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 19:55:49.

MANAUS - Vocês me desculpem, mas não tive tempo de postar, tamanha a correria. Fomos hoje de manhã para o encontro das águas, quer dizer o encontro dos rios Negro e Solimões. Uma bela experiência, repetida para mim, que já havia visto antes, duas ou três vezes, mas o fato é que nunca cansa. A viagem pelo rio foi ocupada em várias entrevistas com os convidados do festival, o que é sempre massacrante, pelo calor, pela dificuldade de se comunicar em virtude do barulho do motor do barco. O grupo de jornalistas conversou com Alan Parker, Claude Lelouch e mais atores e atrizes disponíveis por aqui. Na volta, ainda assisti aos jogos do Campeonato Brasileiro e agora estou saindo para o cinema, quer dizer, para o Teatro Amazonas, que é onde acontecem as projeções. O filme da noite é russo e sobre ele não tenho maiores informações, a não ser que se chama Captive e o diretor é Alexei Uchitel, de quem nunca ouvi falar. Melhor assim, para quem gosta de surpresas. Vamos ver no que dá. Depois esboço uma impressão mais geral do festival e começo a desovar as entrevistas, que devem sair no Caderno 2, mas ainda não sei quando.

Amanhã o dia também deve ser movimentado, pois vamos passar a noite num hotel na floresta. São quatro horas de barco para chegar lá. Voltamos a Manaus apenas na terça-feira.

 


08.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 17:52:28.

MANAUS - Legal o filme do Quiguistão (produção francesa) Tengri, de Marie Jaoul de Poncheville. Sobre uma garota, casada, cujo marido está sempre na guerra e se apaixona por um marinheiro recém-chegado. A gente pensa que vai ficar naquelas da estética da pobreza, mas o filme dá a volta por cima e se torna muito interessante em sua metade final. Vale como aventura quando o casal foge para ficar junto e é perseguido por quatro machões da aldeia, marido inclusive, que querem capturá-lo por uma questão de honra. Nesse ponto o filme fica ágil, interessante e terminade maneira muito bonita. Gostei. Não é uma obra-prima, longe disso, mas a diretora tem mão. Foi exibido às 11h da manhã no Teatro Amazonas. Lá fora, uns 40º, mais a umidade. Lá dentro, um frigorífico. Tipo banho de contraste.

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 11:44:18.

MANAUS - Andei meio fora do ar porque vim para Manaus e a internet(ou pelo menos a do meu computador) não estava funcionando. Enfim, escrevo da sala de imprensa, para dizer que vi o primeiro filme da mostra competitiva do 5º Amazonas Film Festival, Verônica, do brasileiro Maurício Farias. É um thriller urbano, interessante, de bom ritmo, sobre a professora Verônica (Andréa Beltrão), que resolve proteger um garotinho (Matheus de Sá), ameaçado pela máfia policial. Os pais do menino, informantes e ao mesmo tempo partes do tráfico de drogas, haviam sido mortos numa típica queima de arquivos. Mas deixaram um registro das atividades de corrupção num pendrive que o moleque carrega como um talismã. Bons momentos, num filme claramente inspirado em Glória, de John Cassavetes. Pena que a cópia, apresentada em digital de baixa qualidade, deixasse muito a desejar. Ainda assim, provavelmente pelo estilo tenso e final um tanto, agradou ao público, que aplaudiu muito. Andréa está bem, como sempre. Se o filme escapasse a alguns clichês de gênero, que o fazem às vezes previsível, poderia ser melhor.

 


06.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Atualidades, Futebol 14:03:50.

juiz

Meio mundo está condenando a atitude do zagueiro André Luis, do Botafogo, que, ao receber um amarelo, tirou o cartão da mão do juiz e amarelou o árbitro. A outra metade do mundo, à qual pertenço, achou engraçado. E o futebol vive também de certa graça, senão fica muito chato. Em seu blog, Juca Kfouri lembrou de um jogador, o atacante Dé, que, de tanta raiva, pegou o cartão e o comeu. Há quem diga também que, se era para dar cartão ao juiz, deveria ter sido o vermelho. Aliás, é o que as arbitragens, de maneira geral, andam merecendo. Eu mesmo já tive vontade de dar cartão vermelho para muita gente. Vocês não?

 


por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Críticas 10:16:10.

O que mais nos choca em O Silêncio de Lorna é a crueldade do mecanismo de sobrevivência social que é posto à mostra. O que nos redime é a consciência de que esse mecanismo impiedoso não é inevitável. Pelo contrário. Racional em seu DNA pragmático, essa estratégia competitiva da personagem falha pela interferência de algo tão abstrato quanto palpável - o imprevisível fator humano. No caso, o sentimento, o movimento de simpatia, ou de desejo, que atrai duas pessoas, contrariando as expectativas da razão.

Lorna (Arta Dobroshi, magnífica) é a emigrante albanesa, pivô de um golpe diabólico. Ela precisa de grana para abrir uma lanchonete com o namorado. Precisa também de uma carta de nacionalidade belga, um passaporte de Primeiro Mundo. O que fazer? Talvez um casamento arranjado com um belga, Claudy (Jérémie Renier). Acontece que depois o casamento terá de se desfazer, pois Lorna precisará "vender" a nacionalidade recém-adquirida, casando-se por sua vez com um russo disposto a pagar muito dinheiro para obter o passaporte belga. Quem é escolhido para dançar, no meio de tudo isso, é o outsider Claudy. E, afinal, quem vai ligar para esse pobre-diabo, drogado terminal? O negócio é usá-lo e depois livrar-se dele, como de um trapo velho. Até que entra em campo o imponderável.

Essa é a maneira de os Dardennes trabalharem a relação entre o campo social e o indivíduo. Em Rosetta, até agora o filme mais famoso da dupla (vencedor da Palma de Ouro em Cannes), a questão se dava entre a protagonista e a impossibilidade de encontrar um emprego. A falta de localização social propiciada pelo trabalho afeta até a medula da subjetividade humana, nos diz o filme. Em O Filho, a questão era entre um rapaz e o pai distante. E, em A Criança, os sentimentos atravessados entre um casal jovem, disfuncional para padrões de normalidade, e um bebê.

Em todos, há esse desencontro entre uma sociedade regida por uma racionalidade de relações e o caráter errático, anárquico mesmo dos sentimentos humanos, do desejo, do afeto. São filmes de fricção, de descompasso. Não é racional agredir loucamente uma sociedade porque não se consegue um emprego. Não é racional odiar (e talvez ao mesmo tempo amar) um pai que se conhece há pouco tempo. Não é racional ter um filho quando não se dispõe de qualquer estabilidade. Mas, apesar disso...

A questão, para Lorna, é que ela não se mostra capaz de domar seus sentimentos. No interior de um plano bem urdido, arrisca-se a colocar tudo a perder quando se expõe a emoções. Primeiro cede à compaixão, depois ao desejo. Por fim, cede a algo indefinível como o "instinto materno", seja o filho imaginado ou real. Pouco importa. É essa possibilidade que a torna humana. Que a expõe em sua fragilidade, que derruba por terra a sua onipotência e que, por isso mesmo, pode ser a sua salvação.

Essa fissura entre a vontade e o desejo coloca-se para valer no momento em que o silêncio e a solidão de Lorna são quebrados por uma música, as notas do primeiro movimento da Sonata op. 111 de Beethoven. É um momento de epifania, de graça.

Serviço

O Silêncio de Lorna (Bél-R.Unido-Fr-It-Ale/2008, 96 min.) - Drama. Dir. Jean-Pierre e Luc Dardenne. 16 anos. Cotação: Ótimo

(Caderno 2, 6/11/08)

 


05.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Atualidades 14:30:24.

obama

Claro que virá, já está vindo, um verdadeiro tsunami de asneirol, frases feitas, badalações, etc. em torno de Barack Obama. Eu mesmo já ouvi coisas sobre as quais convém silenciar. E também não quero dar minha contribuição para essa enxurrada de obviedades. Gostaria apenas registrar duas coisinhas, e da maneira a mais breve possível:

1) A repercussão simbólica da eleição de Obama é notável. Quem cresceu testemunhando a selvageria do racismo da sociedade norte-americana sabe do significado de um negro chegar à presidência. Significado em nível mundial, dada a amplitude de tudo o que acontece no centro do sistema, na Roma dos tempos modernos. Tem uns aspectos interessantes aí, como a predileção da mãe de Obama pelo filme do francês Marcel Camus, Orfeu Negro, rodado no Rio de Janeiro e interpretado em parte por brasileiros, como Breno Mello e Ademar Ferreira da Silva. Era o filme da vida da sra. Obama e ela transmitiu o gosto ao filho, que parece um homem vindo da diversidade e interessado na diversidade. Isso é ótimo.

Além disso, juntando esse fato maior a fatos menores, como a presença de Lewis Hamilton na Fórmula 1, outro reduto branco, chegamos à conclusão de que, num mundo que caminha para o desastre, pelo menos um fator positivo se destaca – o racismo recua. Não digo que tenha acabado, longe disso. Mas recua. Sou tentado a apostar que dentro de algumas gerações a cor da pele não terá qualquer importância para a imensa maioria das pessoas. Racistas sempre existirão, mas como anomalias sociais, meras curiosidades, como vírus inativos, que são conservados apenas para que não se elimine uma espécie da Natureza. Então, pelo menos nesse ponto, a humanidade progride. Já, em outros...

2) O mundo das coisas reais, que tem a ver, sim, com o mundo simbólico (as coisas não se separam), mas guarda uma lógica própria. Obama terá dois imensos pepinos a descascar – a retirada do Iraque e a administração da crise. A saída do Iraque teria de acontecer de qualquer jeito, mas os militares gostam de fazê-lo de maneira progressiva, para que não pareça debandada. É preciso salvar as aparências, disso que começou como agressão unilateral e injustificável e transformou-se em desastre histórico. E, além de fiasco moral, fato trágico, já que custa vidas dos dois lados.Sobretudo do lado de lá, do Iraque.

Quanto à crise, é preciso dizer que as coisas têm uma lógica tão própria que até o atual governo, fundamentalista de mercado, abriu mão de suas convicções religiosas para tentar “salvar o sistema”. Quer dizer: o Estado está entrando pesado na economia para cobrir os buracos cavados pelos especuladores. Talvez o capitalismo altere um pouco seu rumo depois dessa crise, mas isso independe de Obama ou McCain. Por outro lado, não será Obama quem deterá (mesmo que quisesse) o caráter expansionista do capitalismo americano, porque este tem uma dinâmica que lhe é própria. Os Estados Unidos são o país mais poderoso do mundo, militar e economicamente, e Obama não foi eleito para alterar esse estado de coisas. Muito pelo contrário, e se existe uma verdade na ordem do mundo é que ninguém ateia fogo às próprias vestes. Os Estados Unidos são a única superpotência e desejam manter esse status. O que nós, europeus ou chineses pensamos a respeito lhes interessa muito pouco.

Claro que existe uma margem de manobra para a política e ninguém está dizendo que Clinton, Carter ou Obama sejam iguais a, digamos, os dois Bush ou Nixon. Há estilos, opções, modos de agir que podem, sim, fazer muita diferença na ordem das coisas. Acontece que a história tanto depende dos indivíduos, por poderosos que sejam, quanto de circunstâncias que vão além deles.

Quem pensa assim não se ilude com fantasias românticas, embora o momento seja muito inspirador e todos nos sintamos tentados por elas.

 


04.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Atualidades 16:09:45.

Encontrei há pouco um amigo e ele me fez uma pergunta embaraçosa: “Por que será que toda a direita brasileira está com o Obama?”

Não sei o que responder. Só sei que, de fato, muita gente que morre de ódio ao ver um metúrgico na presidência do Brasil, fica toda empolgada com a possibilidade de um negro presidir os Estados Unidos.

Que "cousa", não?, como diria o analista de Bagé.

Alguém aí me ajuda a entender?

 


por Luiz Zanin, Seção: Atualidades, Futebol 13:09:28.

Amigos, no domingo, como todo mundo, eu estava grudado na Fórmula 1, na decisão entre Massa e Hamilton. Mas larguei a corrida pela metade pois tinha de ir ao futebol. No trajeto até o estádio, fui ouvindo pelo rádio o que acontecia em Interlagos. Cheguei à Vila uns 20, 25 minutos antes de Santos x Palmeiras começar. Vi uma pequena multidão, na rua, em frente a uma TV. Eram torcedores assistindo à corrida. Faltavam umas dez voltas para terminar. Ninguém arredava pé do lugar e a euforia chegou ao máximo naquele espaço de tempo em que Massa foi campeão - e acabou não sendo. Não via tamanha vibração popular com a F-1 desde o tempo de Ayrton Senna. Era povão mesmo, comemorando a enganosa vitória de Massa como se fosse Copa do Mundo. Depois, veio a realidade, e a frustração.

Com o fim do sonho no automobilismo, a galera entrou no estádio, já com o hino em execução. Primeiro minuto de jogo: Palmeiras, 1 a 0. O Santos empata no primeiro minuto do segundo tempo, e, como dizia um locutor da antiga, "na última volta do ponteiro", o Palmeiras desempata. Assim como existe uma Valsa do Minuto, este será lembrado como o "jogo dos minutos". Haja coração. Na saída do estádio, descendo as escadas, um desconhecido comentou, com as feições desfeitas, parecendo o espectro do pai de Hamlet: "Primeiro o Massa, depois esse jogo. Estou esgotado!" Entendo o sentimento do torcedor. Eu mesmo voltei para casa em condição precária. Cheguei até a pensar: será que vale a pena a gente viver tanta emoção por causa de um jogo, de uma corrida de carros? Será que isso faz bem ou mal à gente?

Então me lembrei de José Lins do Rego, o grande escritor paraibano, autor de clássicos como Menino de Engenho e Fogo Morto. Zé Lins foi torcedor fanático do Flamengo e chegou a dirigente do clube. Num tempo em que intelectual tinha vergonha de dizer que gostava de futebol, às vezes Zé Lins era obrigado a enfrentar perguntas de quem não entendia o que ele ia fazer num estádio. "Vou me divertir", dizia a uns, para encerrar a conversa. "Vou sofrer", dizia aos "correligionários" rubro-negros. "Vou viver", dizia apenas quanto queria ser completamente verdadeiro.

Modestamente, acho que Zé Lins estava certo. É isso que buscamos nos estádios, nos esportes de uma maneira mais geral: vida. Emoção. Aquele sentimento que nos arranca por alguns momentos da rotina racional, chata e opaca do dia-a-dia, e dá um sentido poético à existência. Vale muito a pena expor-se a tantas emoções, mesmo com risco de sofrimento. Alguma coisa no nosso mecanismo mental exige essa ginástica da alma. Tanto assim que, exausto, dormi à noite como recém-nascido. A emoção purifica.

DESFECHO

Com essa rodada, é claro que tudo continua indefinido, mas algumas tendências estão aí, para quem quiser ver. Grêmio, Cruzeiro e Flamengo perdem fôlego, embora ainda não tenham se "descolado" de São Paulo e Palmeiras. A fatura não está liquidada. Mas uns sobem e outros descem, exatamente naquela hora que separa os homens dos meninos. O caminho do São Paulo parece mais suave: Portuguesa, Figueirense, Vasco, Fluminense e Goiás. Já o do Palmeiras - Grêmio, Flamengo, Ipatinga, Vitória e Botafogo - promete mais asperezas. Qual deles vai chegar em primeiro no final ? Qual fica fora da Libertadores? Não me interessa. Só quero é o máximo de emoção.

(Coluna Boleiros, 4/11/08)

 


03.11.08

por Luiz Zanin, Seção: Personagens, Livros 13:26:52.

Os dois são muito bem-sucedidos, e estiveram em campos opostos na fronteira política. O filósofo e articulista Bernard-Henri Lévi defendeu a socialista Ségolene Royal, enquanto o romancista Michel Houllebecq ficou com o conservador Nicolas Sarkozy. Trocaram farpas pela imprensa. E, sobretudo, trocaram cartas, algumas de alta temperatura polêmica. Curiosamente, uniram-se num projeto comum, o da publicação dessas cartas, que sai agora pela Frammarion-Grasset (336 págs., 20) com o título de Ennemis Publics.Quer dizer, os antagonistas tornaram-se sócios, num livro de nada menos de 100 mil exemplares de tiragem inicial. É um dos xodós da temporada literária francesa e ganhou capa de Le Nouvel Observateur,que adiantou trechos das cartas aos leitores.

No texto de introdução à matéria, a revista classifica o livro de bem-sucedida operação de marketing. Sobretudo pela maneira como Lévi e Houllebecq se reuniram – fazendo-se, ambos, de vítimas de diversos setores da sociedade, entre os quais a mídia. Anote-se aqui que Lévi, mais conhecido na França pelas iniciais, que já viraram uma espécie de logotipo – B.H.L. – mantém há muitos anos uma prestigiada coluna na concorrente da Nouvel Observateur, a também semanal Le Point,de feição mais conservadora.

Boa parte das cartas se resume a diatribes contra tudo e contra todos – jornalistas de má-fé, blogueiros, internautas, adversários ideológicos, enfim, o mundo todo. A Nouvel Obs se pergunta por que motivo dois dos mais “exportáveis” escritores franceses teriam tantos motivos para queixar-se da vida. B.H.L é autor de vários livros traduzidos em português, entre eles American Vertigo, sobre os Estados Unidos. Houllebecq também está vertido em português e seus romances A Possibilidade de Uma Ilha e Partículas Elementares venderam bem por aqui. A única resposta possível para a pergunta que a revista se coloca é: ambos têm grande facilidade para vender-se como polemistas do momento.

Marketing à parte, a revista admite que, passada a primeira irritação com o oportunismo dos dois autores, pode-se encontrar, nas cartas, muito talento e encanto literário. É quando, por exemplo, cansado de destilar seu fel a respeito da perseguição que sofre dos jornais, B.H.L. se digna a falar de seus autores favoritos – Espinosa, Sartre, Flaubert, Mallarmé, Aragon e Levinas. O mesmo faz Houllebecq a respeito de Pascal, Schopenhauer, Baudelaire, Comte. Ambos também se reúnem no gosto pela poesia, “ao lado da qual o romance permanece um gênero menor”. Enfim, quando esquecem supostas perseguições e comportam-se como intelectuais civilizados, quem ganha é o leitor.

(Cultura, 2/11/08)

 


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Crítico de cinema, colunista e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo





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