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03.07.09
Paris é a tentativa de Cédric Klapisch na estrutura multiplot - aquelas histórias que se desenvolvem paralelamente e terminam de alguma forma por se entrelaçar. A forma canônica foi estabelecida por Robert Altman em filmes como Nashville e Short Cuts, inspiradores de Antes da Chuva, de Milcho Manchevski, ou Amores Brutos, de Alejandro González Iñárritu, para citar apenas exemplos mais recentes e de sucesso.
Neste filme, como indica o título, Klapisch ambienta histórias na capital francesa, na grande cidade que abriga dramas e comédias humanos em doses fartas. Entre os personagens estão o bailarino (Romain Duris) que precisa de um transplante cardíaco; sua irmã (Juliette Binoche), assistente social desiludida com os homens; e o professor universitário (Fabrice Lucchini), historiador especializado em Paris, que paquera uma de suas alunas mais bonitas.
Várias outras histórias paralelas se desenvolvem e se cruzam com estas três básicas e o filme não deixa de ter encanto. Em especial pela maneira mais amorosa que engenhosa como os personagens são desenvolvidos contra o pano de fundo de uma cidade que, como todas as metrópoles, parece agressiva, indiferente, tão cheia de vida como esmagadora.
Klapisch busca tom caloroso para retratar seus personagens, mas nem por isso de maneira piegas. Faz a emoção aflorar, com senso de contenção. Contempla, ainda, a diversidade cultural e étnica de uma cidade como Paris, pluralidade que muitas vezes leva as pessoas a rever conceitos ou, pelo contrário, a reforçar preconceitos. As duas atitudes contrárias estão lá, representadas. Enfim, a cidade é um ser vivo, pulsante, às vezes monstruoso e um tanto enlouquecedor. E, nela, as pessoas são induzidas a pensar-se como superpoderosas, até que alguma contingência revele sua fragilidade. É quando o sentido de humanidade pode aflorar de alguma maneira.
(Caderno 2, 3/7/09)
Previsivelmente, o velório e enterro de Michael Jackson estão se transformando num fabuloso (e, supõe-se, lucrativo) espetáculo midiático. Leia aqui. Será que vai ser o maior funeral de todos os tempos?
É um pouco a morte da velha França diante do mundo globalizado que Olivier Assayas encena neste bonito Horas de Verão. Toda a primeira parte se desenvolve na grande casa de campo de Hélène (Edith Scob), a matriarca que recebe os filhos para o seu aniversário. Ela pressente que seu tempo está chegando ao fim e chama o único deles que ainda vive na França, Fréderic (Charles Berling), para comunicar as disposições da sucessão. A filha Adrienne (Juliette Binoche) mora em Nova York, e o caçula, Jérémie (Jérémie Renier) foi com a família fazer a vida na China, que é onde estão os bons negócios. O problema será o que fazer com a casa e os objetos de arte que ela contém depois da morte de Hélène.
Assayas mostra, em especial na primeira parte do filme, o frescor de imagens que remete à provável fonte de inspiração - o cinema de Jean Renoir. Como fazia o mestre, pelo painel familiar fala de algo que vai além dele. No contato com a natureza, nessa história também à maneira de Chekhov, as paixões e contradições afloram. Não é um cinema ameno, embora a beleza das imagens faça pensar em certa doçura, naquilo que a vida pode conter de melhor: o equilíbrio, os espaços largos, as cores, o convívio entre as pessoas cultas e a arte. Por trás disso tudo, infiltram-se outros sentimentos, que se entrelaçam com a placidez aparente. Surgem as rivalidades, ressentimentos do passado, interesses contraditórios. E, nesse caso em especial, algo tão normal - e também tão corrosivo - quanto as necessidades materiais imediatas que se confrontam com a preservação de tradições.
No caso, o conflito seria entre Fréderic, que deseja manter a casa e os objetos, e os irmãos, que preferem vender tudo e fazer dinheiro. Mas Assayas não coloca a questão em termos maniqueístas. Cada qual tem seus motivos, sem por isso se transformar em vilão. O confronto entre irmãos é, apenas, sintoma de um mundo que muda e leva consigo valores e interesses de outrora.
Há por certo melancolia nesse processo. Por exemplo, na cena em que Fréderic e a mulher veem a antiga escrivaninha da família, cedida ao Museu d?Orsay, ser observada de maneira superficial por um grupo de turistas. Melancolia, mas não o sentimento paralisante da nostalgia. Mesmo porque Fréderic é um francês moderno, com todos os problemas e vantagens que isso acarreta. Além disso, no desfecho do filme, o espectador poderá conferir que Assayas acredita na capacidade da juventude de dar novos fins a antigas configurações, pois assim é a vida. O que não exclui um certo sentimento de perda, pois seria bom possível avançar e, ao mesmo tempo, preservar parte do passado. Mas, em geral, não é desse jeito que as coisas acontecem.
Nem mesmo na tradicionalista França, obrigada a reinventar-se e, com isso, perder alguma coisa para ganhar outras.
(Caderno 2, 3/7/09)
02.07.09
Como conta na entrevista que figura como extra no DVD de Kapo, Gillo Pontecorvo partiu de um livro famoso de Primo Levi, Era Isto Um Homem?, como ponto de partida para o filme, que agora está saindo pela Versátil. Nele, o escritor conta sua experiência como prisioneiro de um campo de concentração nazista. Gillo, e seu parceiro o roteirista Franco Solinas, não se ativeram ao depoimento de Levi, mas ao seu conteúdo geral. E retiveram o caráter polêmico da visão de Primo Levi sobre o comportamento humano em tempo de guerra, quer dizer, em situação-limite. Em seus livros, Levi procura mostrar como, nesse tipo de situação, muitas vezes a necessidade de sobrevivência se sobrepõe a valores morais, éticos e ideológicos.
É o caso da garota Edith (Susan Strasberg), que, deportada para um campo de concentração, vê seus pais serem assassinados. Ajudada por um médico, esconde sua identidade judia e começa a se passar por uma ladra francesa, Nicole. No campo, a moça aceita prostituir-se para os guardas SS e, ganhando sua confiança, é promovida a kapo, a guardiã de suas colegas presas. Quer dizer, na prática passa-se para o outro lado. Levi chama de "zona cinzenta" essa área de ambiguidade moral induzida pelo instinto de sobrevivência. Quem leu seus livros sabe que é uma constatação feita sem condenação, com um insight talvez só possível a quem tenha sentido o horror na própria pele. É, por assim dizer, uma visão interna do fenômeno do colaboracionismo.
Do depoimento de Gillo se compreende também de que maneira uma ideia dura, radical, brutal, pode ser amortecida por questões de produção. Discutindo o roteiro com seu parceiro, Gillo estranhou que Solinas sugerisse uma história de amor entre Nicole e um soldado russo para aliviar um pouco o tema indigesto. Gillo argumentou que seria uma mudança brusca de tom em um projeto rigoroso. Brigaram. Mas se reconciliaram. E, quando o fizeram, um passou a dar razão ao outro, em sentido inverso. Solinas aceitou a ponderação de Gillo de que a história de amor deformaria o filme. Mas Gillo havia pensado melhor e passara a entender que o público não aceitaria um filme tão áspero se ele não fosse pelo menos em parte edulcorado por essa love story no campo de concentração. O produtor Franco Cristaldi interveio e a solução, sempre segundo Gillo Pontecorvo, foi colocar a história de amor, porém de forma mínima e atenuada.
Não é bem o que se vê, no entanto. Pouco verossímil, o envolvimento de Nicole com Sasha (Laurent Terzieff) enfraquece consideravelmente o cerne do filme, que é a análise dessa zona cinzenta moral de que falava Levi. Essa seria a grande objeção a Kapo e não o famoso plano-sequência de aproximação de Emmanuelle Riva suicidando-se na cerca de arame farpado. O pessoal da nouvelle vague pegou no pé de Gillo por causa dessa cena, mas nem era para tanto. O seu problema foi a submissão ao gosto do público pelo romântico, pecado que ele não cometeu em seu filme seguinte, A Batalha de Argel (1966), rigoroso até a medula. E, por isso mesmo, sua obra-prima.
(Caderno 2, 2/7/09)
Fui hoje à Cinemateca assistir Adieu, Philippine, de Jacques Rozier, que faz parte da mostra promovida para celebrar os 50 anos da novelle vague. É, possivelmente, a maior raridade da retrospectiva, já que a maior parte dos outros filmes são encontráveis em DVD, além de muito familiares aos cinéfilos.
Nao é o caso de Philippine. Esse filme, tão inspirado e cheio de frescor, mostra a juventude francesa, com seus namoros e energia, enquanto paira sobre a França a sombra da guerra da Argélia. Basicamente, parece uma pequena história de amor. Michel (Jean-Claude Aimini) está sempre ao lado de duas belas garotas, Juliette (Stefania Sabatini) e Liliane (Yveline Cery), sem se decidir por uma delas. Ele trabalha como estagiário na TV mas deseja fazer cinema e envolve-se com um picareta, Pachala (Vittorio Caprioli). Enquanto espera a convocação para o serviço militar, que o levará para a Argélia, Michel viaja com as duas moças para a Córsega.
Eles viajam, dançam muito e cantam. Mas tudo tem um fim e o prazo de Michel expira. O filme consegue combinar uma leveza notável com o peso da ameaça constante que paira sobre o trio, como sempre paira sobre a fugacidade da juventude. Rozier dirige de maneira inspirada, com travellings muito bonitos e enquadramentos nunca banais.
Mas vale também a espontaneidade dos atores, esse frescor que é muitas vezes privilégio dos não-profissionais. Foi um grande prazer ver este filme, mesmo na cópia em 16mm e com a projeção sendo interrompida a cada troca de rolo. Parecia uma sessão dos antigos cineclubes, o que só aumentava a sensação de nostalgia. Havia meia dúzia de gatos pingados na sala.
A boa notícia é que o filme será exibido mais duas vezes. Sexta, às 21h, e domingo, às 16h30. A Cinemateca fica no Largo Senador Raul Cardoso, 207. Eu não perderia a oportunidade.
Abaixo, algumas cenas de Adieu, Philippine.
01.07.09
Outro dia assisti em pré-estreia A Proposta, uma comédia romântica com Sandra Bullock no papel de uma executiva má (dá para encarar a namoradinha da América fazendo esse tipo de papel?). Ela é a chefona de uma grande casa editora e temida por todo mundo. Acontece que a moça é canadense e o visto expirou. Está a ponto de ser expulsa dos EUA. A não ser que faça um casamento de conveniência. Digamos, um casamento com um dos seus funcionários e justamente aquele que mais a odeia... Bem, está aí o ponto de partida para uma história das mais previsíveis. Nem vale a pena contar como as coisas se passam, mesmo porque tudo é tão previsível e convencional que, se você for mesmo assistir, irá adivinhando cada passo dado. Sem surpresas, o que parece ser uma das receitas possíveis de sucesso hoje em dia. Enfim, é uma daquelas comédias que fazem as da Globo Filmes parecer que foram dirigidas por Billy Wilder.
30.06.09
Há uma superstição de jornal que diz que, quando começam as mortes, elas não param mais. Agora foi Pina Bausch que se foi, de repente, com 68 anos. Sei da carreira da bailarina e coreógrafa genial, e fiquei contente ao aprender que seu último trabalho foi inspirado no Chile e – tenho a impressão – particularmente na tragédia representada pela ditadura militar chilena. Por que outro motivo teria, entre as músicas, algumas de Victor Jara, assassinado pelo regime de Pinochet? Agora, lembro mais de Pina pelo cinema, por Fale com Ela, de Almodóvar, mas, muito em particular, por ...E La Nave Va, de Fellini. Nesse canto do ocaso à civilização europeia da belle époque, ela faz uma princesa cega, que embarca no navio acompanhada de um irmão obeso e candidato a déspota. Tinha um rosto marcante e interpretou o papel desenhado por Fellini às mil maravilhas. Grande Pina. Adeus e salve.
É a pergunta que se deve fazer aos clubes na fase atual do Campeonato Brasileiro. Quer dizer, o campeonato não é mais novinho em folha. Já rolaram oito rodadas e algumas cabeças de técnicos. Alguns jogadores já se firmaram como valores seguros e outros bateram asas. Uns poucos times mostraram que irão disputar o título e vagas para a Libertadores. Outros já sentem rondar o incômodo do rebaixamento. E outros não estão nem lá e nem cá. Vivem no limbo, sem conhecer as delícias do céu ou padecimentos do inferno. São os times médios, palavra que, você sabe, está próxima do termo medíocre.
Nada menos que cinco times têm dez pontos na competição. Pela ordem: Cruzeiro, Santos, São Paulo, Santo André e Fluminense. Vão do 9º ao 13º lugar, segundo os critérios de desempate. É engraçada a situação deles. Ganhando na próxima rodada, encostam nos líderes; perdendo, se acotovelam com os lanternas. Isso tudo para dizer que o campeonato pode estar muito embolado, mas já chegou a hora de os times definirem o que desejam para si. Brigar pelas primeiras posições? Instalar-se no conforto da zona intermediária? Ou arriscar-se a lutar até o fim contra o descenso? Agora é a hora da escolher o que se vai ser quando crescer. Trocar de técnico, se acham que é necessário, contratar jogadores, se for possível, dispensar alguns, se estiverem sobrando. Hora de pensar na vida. Depois, pode ser tarde demais.
BOBOS NO FUTEBOL
Ouvi com atenção as alegações de Luiz Gonzaga Belluzzo para demitir Luxemburgo. Não fiquei convencido. Não posso acreditar que um homem que, como ele mesmo diz, combateu a ditadura, possa se ater de forma inflexível a uma pequena questão disciplinar. Parece que a entrevista em que Luxa se queixa da saída intempestiva de Keirrison foi apenas uma gota d'água e não "quebra de hierarquia", como se alegou. Não cometeria com Belluzzo, a quem admiro, a descortesia de considerá-lo um hierarca de ares imperiais, cioso de sua "otoridade". Prefiro pensar de outro modo: o economista Belluzzo, mirando com um olho a folha de pagamento de Luxemburgo & estafe, e com o outro as conquistas do time, teria chegado à conclusão de que o custo-benefício não se justificava. Assim, apegou-se a esse pretexto para arrumar a casa. Mas também não acho que Luxemburgo entrou nessa de gaiato. Não era segredo, nem para a estátua de Valdemar Fiúme, que a frigideira já se acendera para ele no Parque. Quem o defendia, em público, era o próprio Belluzzo. Sentido-se ameaçado, e desprestigiado no caso Keirrison, Luxa resolveu partir para o ataque, como é do seu feitio.
Deu-se mal. Ou talvez bem? Não sabemos. O fato é que não acredito nessa história de que não existe mais bobo no futebol, como se diz. Acho que o futebol continua cheio de bobos: nós, a torcida. Ou, pelo menos, somos tratados desse jeito.
A outra bobeira é achar que, porque ganhou a Copa das Confederações, a seleção seria favorita para o próximo Mundial. Pelo contrário: as vitórias suadas contra África do Sul e Estados Unidos deveriam servir de aviso. Há um nivelamento por baixo muito evidente no futebol. Dunga conseguiu ter um time arrumado e, em aparência, motivado. Em meio à mediocridade geral, pode até ser campeão. Só não pode é posar de favorito antes da hora. Mesmo porque não é. Esse negócio de favoritismo é papo de gente tola.
(Boleiros, 30/6/09)
29.06.09
Talvez não exista sentimento mais doloroso que o da vergonha. Foi ele que Bergman resolveu investigar no filme que leva justamente esse nome - e está agora sendo lançado pela Versátil (R$ 44,90). Mas, por um momento, poderíamos pensar que se trata de uma obra estranha à tradição do cineasta. Afinal, ele é o diretor da alma, da intimidade, da psicologia dos personagens, dos seres atormentados que formam a sua galeria de tipos. E tudo isso é verdade. No entanto, este é conhecido como o filme no qual Bergman coloca seus personagens contra o pano de fundo de uma situação terminal - a guerra. A maior de todas, a 2ª Guerra Mundial.
Seria então um filme de guerra, a guerra segundo Bergman? Em certo sentido, sim. Temos lá todos os componentes de encenação dessa que é a "continuação da política por outros meios", como dizia dela o seu teórico maior, Carl von Clausewitz. Essa frase esperta, ainda que profunda, disfarça e até enobrece essa situação em que todos os demônios podem ser soltos. E então aqui voltamos ao terreno preferencial de Bergman, porque se existe alguém que entende de demônios é ele mesmo.
Cena de A Classe Operária Vai ao Paraíso, com Gian Maria Volontè (D)
Boa medida da popularidade de um filme é quando seu título entra para a linguagem comum. Quem já não ouviu falar - em geral em tom de ironia - que a classe operária "iria ao paraíso" em tal ou qual situação, em geral desfavorável para ela? A alusão é ao filme de Elio Petri, que sai agora em DVD pela Versátil (R$ 44,90). A Classe Operária Vai ao Paraíso é de um tempo em que o proletário ocupou de fato o centro da cena cinematográfica. Certo, não de todo o cinema, mas pelo menos de um tipo dele, o cinema político, ou melhor, de empenho social como muitos preferem definir. Esse "gênero" proliferou em determinada época, em especial no período que vai dos anos 50 aos 70, e em vários lugares. Entre eles, a Itália, espécie de epicentro do fenômeno. País na época com um Partido Comunista muito forte, foi lá que esse tipo de cinema floresceu com grande viço. Mesmo porque boa parte da melhor produção italiana daquela época pode ser considerada caudatária do neorrealismo, movimento que tinha entre suas premissas a de colocar o homem comum à frente da cena. Foi a época de ouro do trabalhador, fosse ele um homem do mar como em A Terra Treme (1947), de Luchino Visconti, e Stromboli (1950), de Roberto Rossellini, ou o camponês como em Pai Patrão (1977), dos irmãos Taviani, Bandido Giuliano (1962), de Francesco Rosi, ou Banditi a Orgosolo (1961), de Vittorio de Seta. Ou o proletário como em Os Companheiros (1963), de Mario Monicelli, ou Mimi o Metalúrgico (1972), de Lina Wertmüller. E, no mais representativo de todos, claro, A Classe Operária Vai ao Paraíso (1972), de Petri.
25.06.09
Olhem aí que bela seleção de filmes o Festival de Paulínia conseguiu. Muitos inéditos e com excelente potencial, a julgar pelos diretores dos filmes. Com a grana que eles têm e mais a ótima curadoria, estão passando a perna em muito festival com décadas de tradição. Basta dizer, apenas para citar um exemplo, que a gaúcha Ana Luiza Azevedo escolheu Paulínia e não Gramado para estrear seu primeiro longa-metragem. Cuidado, pessoal, Paulínia vem aí. E está apenas na segunda edição.
Longas de Ficção
1 – O Contador de histórias, de Luiz Villaça - SP
2 – Destino, de Moacyr Góes - RJ
3 – Enquanto Dura o Amor, de Roberto Moreira - SP
4 – No Meu Lugar, de Eduardo Valente -RJ
5 – Olhos azuis, de José Joffily - RJ
6 – Antes que o mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo - RS
Documentários
1 – Caro Francis, de Nelson Hoineff - RJ
2 – Mamonas o Doc., de Claudio Kans - SP
3 – Sentido à Flor da Pele, de Evaldo Mocarzel - SP
4 – Moscou, de Eduardo Coutinho - RJ
5 – Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro César - RJ
6 – Herbert de Perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz - RJ
Curtas brasileiros
1 – Vida Vertiginosa, de Luiz Carlos Lacerda - RJ
2 – Relicário, de Rafael Gomes - SP
3 – Doce Amargo, de Rafael Primot -SP
4 – Milímetros, de Erico Rassi - SP
5 – Nessa Data Querida, de Julia Rezende - RJ
6 – Timing, de Amir Admoni - SP
Curtas Regionais
1 – Morte Corporation, de Léo de Castillo
2 – Prós e Contras, de Pedro Struchi
3 – Quem Será Katlyn?, de Caue Nunes
4 – Spectaculum, de Julliano Lucas
5 – A Máquina do Tempo, de Marcos Craveiro
6 – Capoeira, de Matheus Oliveira
Me abstenho de grandes comentários sobre a morte de Michael Jackson porque conheço pouco de sua obra e nem tinha grande interesse pelo personagem. Mas, como vivemos num mundo midiático, era impossível ficar alheio a ele, seus problemas, a vinda ao Brasil, a auto-deformação física a que se impôs. Achava-o, assim meio sem pensar, um retrato um tanto expressionista da nossa época, de paraísos artificiais, futilidade levada à loucura, em que a aparência se forja segundo algum insondável modelo. Eu via Michael na TV e pensava em certos filmes de David Cronenberg, ou David Lynch. Mundo freak. Aquilo tudo cheirava a morte prematura. E assim se deu. Dá pena mesmo.
Estou a caminho de Santos, onde curto alguns dias de folga a que tenho direito por ter trabalhado em feriados. Deixo entao umas dicas de cinema para o fim de semana. Amanhã estreiam dois filmes nacionais: Jean Charles e A Erva do Rato. Mais diferentes entre si não poderiam ser. Jean Charles, com Selton Mello no papel principal, conta o que aconteceu com o brasileiro assassinado pela polícia londrina por ter sido confundido com um terrorista. O bom é o estilo desdramatizado empregado, que evita a pieguice e destaca a emoção genuína. Traça também um retrato interessante do que é a vida dos brasileiros no exterior. Já A Erva do Rato é um típico filme de Julio Bressane, adaptando, à sua maneira, dois contos de Machado de Assis, A Causa Secreta e Um Esqueleto. No elenco, o mesmo Selton e Alessandra Negrini, de um jeito que você nunca viu. É um ensaio sobre a sensualidade e a morte, e a maneira como se entrelaçam. Eu gostei. E presenciei a polêmica causada pelo filme quando foi apresentado no Festival de Veneza do ano passado. Mas muita gente superou o escândalo e levou o filme a sério. Fotografia de pintor by Walter Carvalho.
24.06.09
Quem fala de Chris Marker solta logo um clichê: seu média-metragem La Jetée inspirou o cult 12 Macacos, de Terry Gilliam. O que é verdade, mas pouco para falar de um cineasta tão complexo e difícil de definir como Marker (1921). Por esse motivo é tão importante a retrospectiva promovida pelo CCBB Chris Marker - Bricoleur Multimídia, que traz nada menos que 33 filmes, vídeos e programas de TV assinados pelo diretor, um outsider da Nouvelle Vague.
Há um toque de mistério nessa obra tão inventiva e marcada pela preocupação recorrente com o tema da memória. É assim com La Jetée (termo que pode ser traduzido como "embarcadouro"), sua única de ficção - embora em Marker a distinção já problemática entre ficção e documentário seja ainda mais fluida. Em todo caso, La Jetée fala de uma imagem de infância, um suave rosto de mulher entrevisto no Aeroporto de Orly pouco tempo antes de a humanidade sofrer uma catástrofe. Os desdobramentos da história - filmada em stop motion, fotografias paradas, em sequência - remetem para as melhores histórias de ficção científica. Mas uma sci-fi "intelectual", como as de Andrei Tarkovski, por exemplo.
Como é o caso de Sans Soleil (Sem Sol), um desses falsos documentários de Marker e uma de suas obras mais interessantes. No princípio, também há a memória. Não como um depósito de recordações, fixo, estável, como se fosse um museu do passado. Marker trabalha com uma memória ativa, criadora, que reprocessa seus conteúdos. Em Sans Soleil, o que temos é a narração de uma mulher, que lê as supostas cartas que lhe teriam sido enviadas por um amigo, cameraman, dos países que visita. Em especial do Japão e da África. No início, uma filmagem de família, a mulher e filhas, na Irlanda, uma imagem que o câmera, através da narradora, qualifica como a própria definição da felicidade. Há um diálogo interno da obra com La Jetée sobre essa permanência da imagem emblemática da pessoal - aquilo que alguns psicanalistas poderiam chamar de "fantasma fundamental". Uma imagem que, verdadeira ou fictícia, organiza e dá estabilidade ao sujeito.
Esse refrão irá se repetir em diversos outros filmes, dando a entender que se trata, também, de um fantasma fundamental do próprio cineasta. Mas não se trata aqui de uma arte da intimidade. Esse trabalho com as imagens, com sua instabilidade intrínseca também remete ao campo do político, como se pode observar no oceânico O Fundo do Ar É Vermelho, um ensaio global sobre a década de 60 de nada menos que 180 minutos, constantemente reelaborados e remontados pelo artista ao longo de sua trajetória.
Há muito mais para ver. Em doses homeopáticas porque o próprio Marker, como diz aos curadores Francisco César Filho e Rafael Sampaio, é contra retrospectivas como esta. Considera-as abusivas e contraproducentes. Seja. Mas, para descobrir Marker, vale.
(Caderno 2, 24/6/09)
Serviço
Chris Marker, Bricoleur Mul-timídia. Hoje, 15 h, E-CLIP-SE (1999), Slon-Tango (1993), Gato Escutando a Música (1990) e Chats Perchés (2004); 17h30, A Sexta Face do Pentágono (1967), A Embaixada (1974) e Balada Berlinense (1990); 19h30, La Jetée (1962) e A.K. Retrato de Akira Kurosawa (1985). Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112, Centro, tel. 3113-3651. 4.ª e 5.ª, 15 h, 17h30, 19h30; 6.ª, 14 h, 17h30, 19h30; sáb., 13 h, 15 h, 17h30, 19h30; dom., 17h30, 19h30. R$ 4. Até 5/7
23.06.09
Consulto os dados do portal Filme B e constato que A Mulher Invisível, de Claudio Torres, segue sua carreira de sucesso. Chegou a 1.114.725 espectadores, com média de 819/cópia e queda de -38% em relação à semana anterior. Continua indo bem, prova da força da comédia romântica à brasileira, com atores (e atrizes...) famosos no elenco. Na mesma linha, Divã chegou a quase 1 milhão e 800 mil, mas já tem a média baixa, 149/cópia. Os filmes de "empenho", como Budapeste e Festa da Menina Morta, patinam. O primeiro ainda chegou a 73 mil espectadores. Já Menina Morta, a bela estreia na direção de Matheus Nachtergaele, fez apenas 7.271 espectadores.
Compare os dados, e os filmes, e tire suas conclusões.
Muricy já se foi, depois de fazer do São Paulo tricampeão brasileiro. É pouca coisa? Não era quando o terceiro título foi comemorado. Passou a ser. Falou-se em "desgaste natural" porque Muricy estava no São Paulo havia três anos e esse é considerado um tempo enorme. Mas sir Alex Ferguson não treina o Manchester United há 22 anos? "A Inglaterra é uma coisa, o Brasil é outra", já ouço dizer algum brasileiro vítima do complexo de vira-lata. Lá as coisas são estáveis, é país de tradição; no Brasil tudo que é sólido se desmancha no ar. Sim, mas sir Luís Alonso Perez, o Lula, não permaneceu na Vila Belmiro por 12 anos? Por que, então, o tempo de Muricy deveria ser considerado imenso, despropositado, um exagero?
Suspeito que seja um sintoma do imediatismo nosso de cada dia. Como vocês sabem muito bem, vivemos numa época em que tudo é para ontem. O serviço que é encomendado e deve ser feito sem demora, a compra que deve chegar imediatamente, o e-mail que precisa ser respondido no ato, o recado no celular que tem de ser retornado em cima da pinta. Por que no futebol seria diferente? Pelo contrário. Como o futebol é uma espécie de laboratório da experiência social, nele tudo se expressa com mais nitidez do que na vida corrente. Ele é uma espécie de retrato ampliado do que acontece no resto da sociedade, em seu todo. Por exemplo, se as relações econômicas e culturais tendem a se globalizar, o futebol se globaliza antes. O futebol seria um sintoma profético do mundo.
Daí que a pressa, o imediatismo, que contamina a tudo e a todos, dá suas caras com maior nitidez no ambiente da bola. Há outros exemplos de técnicos que parecem balançar neste primeiro semestre. Um deles é Vanderlei Luxemburgo, que era considerado intocável nos clubes por onde passou, com exceção do Real Madrid, que o mandou embora. Mas aqui no Brasil era Luxa quem abandonava os clubes e nunca o contrário. Pois agora está sendo contestado no Palmeiras, por parte da cartolagem e também da torcida. Não havia em andamento um "planejamento a longo prazo", como os figurões tecnocratas gostam de dizer? E daí, acabou o planejamento só porque o time não conseguiu avançar na Libertadores?
Outro ameaçado, e com muito menos tempo de clube que Muricy e Luxemburgo, é Vágner Mancini, no Santos. Domingo, na derrota diante do Atlético Mineiro, a torcida puxou o coro de "burro, burro, burro", que costuma anunciar a queda de um treinador. Certo, as alterações do técnico, sobretudo a saída de Neymar, não pareceram coisa de gente inteligente mesmo. Mas, até a pouco, pelo menos até a derrota para o Botafogo, Mancini era visto como competente, alguém que havia dado um padrão de jogo ao time, etc. Virou burro de repente? A diretoria já disse que Mancini está "prestigiado". Mas como ficará se acontecer uma derrota contra o Palmeiras, resultado normal e até provável? Um placar desfavorável pode encerrar de maneira prematura uma gestão que poderia ser das mais interessantes.
Enfim, um técnico deveria ser julgado por seu trabalho de conjunto ou por resultados isolados? Se quem o empregou chega à conclusão de que o profissional não serve para o cargo, por que deve esperar por uma derrota do time para então demiti-lo? E, se entende que contratou bem, por que se desfazer do profissional quando os resultados demoram a chegar?
(Boleiros, 23/6/09)
22.06.09
O que o relacionamento entre uma blogueira jovem e um repórter experimentado pode dizer sobre a atual crise do jornalismo? Muita coisa, a julgar pelos comentários que o filme Intrigas de Estado, de Kevin MacDonald, atualmente em cartaz, vem despertando. Além de falar em jornalismo, o longa-metragem toca noutro assunto vital do nosso tempo – a privatização da força militar. Mas talvez o que ele tenha de mais fascinante seja a discussão que traz sobre o futuro do jornalismo num ambiente cada vez mais dominado pelos meios eletrônicos.
Não cessam de aparecer os esqueletos no armário da época da ditadura. Agora são as declarações do major Curió de que houve mais execuções sumárias de guerrilheiros do que se julgava. As revelações estão na matéria de Leonêncio Nossa, tremendo furo do Estadão de Ontem. Leia aqui.
20.06.09
Semana difícil, com morte na família, muito trabalho, polêmicas, dores no corpo, etc. Consegui atravessar e agora me permito um fim de semana de descanso. Agradeço em particular aos que comentaram os posts sobre a greve da USP e o diploma de jornalistas. Foram observações, em sua grande maioria, de ótimo nível. Acho que consegui compreender as razões dos que expressaram opiniões contrárias às minhas. Ontem mesmo fui entrevistado sobre o tema do diploma por um estudante da Cásper Líbero. O rapaz expressava inquietação com o futuro e, por isso, tem a minha simpatia imediata. Mas acho que não é para tanto. Boas escolas sempre irão colocar seus alunos em vantagem quando forem buscar emprego. Mas, num mercado restrito, terão de concorrer com talentos vindos de outras áreas, o que pode ser desconfortável mas, no fim, melhor para o jornalismo e para os leitores.
Quanto a Candido e Chauí, são duas das minhas admirações contínuas neste mundo imperfeito. Se erraram aqui e ali (e quem não erra?) têm carreiras formidáveis do ponto de vista da pesquisa e impecáveis quanto à ética. São minhas referências permanentes, se por referência se entender não alguém a ser imitado mas uma fonte de inspiração.
Por isso os jovens os admiram tanto. E eu também. Fui várias vezes aluno de Marilena na Faculdade de Filosofia e ouvi Candido em muitas palestras. Li vários livros dos dois. Lucrei muito com a obra e com a convivência.
19.06.09
Loki vale-se de pelo menos dois trunfos para ser tão bom como é. Um deles vem do personagem fascinante que é Arnaldo Baptista, o criador dos Mutantes. O outro é a maneira bastante franca como o diretor Paulo Henrique Fontenelle aborda a trajetória desse artista. Um diretor mais tímido, mais recatado (no mau sentido do termo), talvez estragasse o que tinha em mãos. Para sorte de todos, inclusive do biografado, Fontenelle vai fundo. E conta tudo. Ou, pelo menos, conta muita coisa da vida nada vulgar de Arnaldo.
Ele foi uma espécie de músico precoce e criou Os Mutantes ainda menor de idade. De mentor intelectual da banda composta por seu irmão Sérgio e Rita Lee, evoluiu a profeta de uma trip composta de muita loucura, experimentação musical, e, sim, muita experiência com drogas. Arnaldo viveu a fundo a era do LSD e outros aditivos e o filme nada esconde. Como ninguém sai impune desse tipo de aventura, Arnaldo foi internado em hospitais psiquiátricos, e num deles caiu, ou se jogou, da janela de um quarto andar.
Tudo lá é dito, palavra por palavra, e nem mesmo amigos, convidados para os depoimentos, livram a cara do artista. Esse tom de sinceridade dá o tônus ao filme. Sem lamúrias, como deve ser quando se entra nessa de ir ao limite. Arnaldo pagou e paga o preço. Mas o faz de maneira suave. Vive, com sua terceira mulher, em Minas, onde pinta para se expressar. De passagem: é pena que o filme não se detenha mais na pintura de Arnaldo. De relance, dá para ver que se trata de um processo de reconstrução interna permitido pela arte visual. A pintura parece um meio privilegiado para restituir unidade a almas dilaceradas, como sabia a dra. Nise da Silveira em seus procedimentos com os pacientes do Hospital de Engenho de Dentro.
Loki refaz a trajetória de Arnaldo Batista por suas palavras, pelas de amigos e também – felizmente – por inserções musicais dos Mutantes e, de sua fase posterior, separado da banda. Fica transparente que Arnaldo não foi fundo apenas na questão das drogas ou do desregramento de vida. Sua viagem foi, sobretudo, musical, como prova o álbum Loki?, que dá título ao filme e é considerado sua obra mais radical. Era um momento de transição, em que a questão entre a música brasileira “pura” e a de influência internacional já parecia superada. Tendo participado dos festivais da canção e do tropicalismo, os Mutantes fizeram parte daquela geração que desatou esse falso nó. E, tendo desatado, ou cortado de vez, esse nó paralisante, puderam se abrir a tudo que poderia alimentar a música.
Desse modo, o que salta à vista na trajetória de Arnaldo é um ecletismo criativo que pode chegar ao extremo e brinca no abismo. Loki?,seu disco, é prova disso. Loki, o filme, seu testemunho.
(Caderno 2, 19/6/2009)
Zanin é jornalista. Crítico de cinema, colunista e repórter especial de cultura do jornal O Estado de S. Paulo, andou também cometendo nas horas vagas uns livrinhos sobre cinema e futebol.
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