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02.12.08
relato de Luis Genaro Ladereche Figoli
Caos. É isso que estão vivendo nossos irmãos de Santa Catarina. E vi isso de perto!!!
Por motivos profissionais, tive que viajar a Santa Catarina no final da semana passada, e estiquei até Camboriú no Sábado.
Água, Chuva e vento, foi o que me deparei. A tal ponto de que domingo de manhã, quando tentei sair da cidade, quase não consegui.
Para sair do Hotel (que fica na Av. Atlântica) e rumar para a BR 101, foi toda uma epopéia. As águas subiam pelas calçadas e atingiam, em alguns pontos da cidade, mais de um metro de profundidade.
Caos total. Os policiais estavam mais preocupados e mobilizados em salvar vidas, principalmente na cidade de Camboriú que teve desbordamento de um rio e as água subiram mais de 12 metros, do que organizar o trânsito da cidade.
Os carros invadiram as calçadas. Outros flutuavam ao sabor das ondas que se formavam, em pleno centro de Camboriú!!!!
Com algum sacrifício, subindo calçadas e esquivando os rios que haviam se formado em plena cidade, consegui acessar a BR 101. Foi aí, do alto da BR, que consegui perceber a real dimensão do desastre climático que Santa Catarina vive.
A cidade de Camboriú e uma parte do Balneário, simplesmente desapareceram embaixo de uma água vermelha. Das casas mais baixas, somente apareciam os telhados. Dos edifícios, alguns, a água ultrapassava o primeiro andar.
Com o rádio ligado na emissora que assumiu o papel de dar cobertura e assistência, acompanhávamos o desenrolar do desastre, com o número de desabrigados, mortos e necessitados, subindo de forma geométrica.
Foi com duplo sentimento de alívio (confesso) mas também um pouco de culpa (por abandonar o lugar e talvez alguém necessitasse minha ajuda) que me afastei do caos. Mas somente era o começo de uma peregrinação que terminaria 12 horas depois quando finalmente cheguei em casa.
Com a BR 101 interrompida por queda de barreira, fui obrigado a seguir pela BR 282 em direção a Lages, descer pela BR 116 até Vacaria e Caxias e finalmente pegar a Rota do Sol para chegar ao Litoral do RS, fazendo mais de 700 quilômetros.
Quem conhece a BR 282, entre Palhoça e Lages, sabe que é uma estrada inserida num desfiladeiro. Montanhas de terra e pedra, à direita e esquerda da estrada, a qualquer momento prestes a despencar em cima de nosso carro.
A água infiltrava pelas rochas e terra e formavam verdadeiras cascatas que invadiam a estrada.
Em vários pontos, como no quilômetro 36 e 79 da rodovia, tivemos que esperar que as máquinas desobstruíssem a pista. Só que a espera era abaixo de duas muralhas de terra e pedra, prestes a despencar.
A nossa tranqüilidade veio apenas no RS, quando parou de chover.
28.11.08
Repórter: Júlio Castro, de O Estado de S.Paulo
Os alunos da rede pública municipal e estadual de ensino do município de Blumenau que alcançarem média de 5,0, mesmo sem o fechamento do ano letivo, serão aprovados. A determinação já oficializada através de portaria assinada pelo secretário de Educação de Blumenau, Mauricí Nascimento, deverá ser extensiva a todos os municípios atingidos pela enchente em Santa Catarina.
Em Blumenau, informa Nascimento, também as escolas particulares vão adotar média semelhante, inclusive a Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), a maior instituição de ensino superior na região.
Os que não alcançarem média vão participar de uma avaliação especial com critérios especiais determinados pela secretaria. Todos os alunos da pré-escola e também do primeiro e o segundo ano do ensino fundamental já estão aprovados. Na segunda-feira, todos os estudantes devem ir às escolas para conferir suas médias. Os que passarem serão dispensados do ano letivo.
Um deslizamento de terra no Morro do Baú deixou quatro pessoas soterradas por volta das 10h30 desta sexta-feira, 26. No momento do deslizamento, homens da Força Nacional de Segurança trabalhavam no local em busca de três vítimas de um outro deslizamento de terra.
A área chamada de Baú Seco é uma das mais atingidas no Vale do Itajaí. Nesta sexta, a Defesa Civil de Santa Catarina decidiu focar os esforços no local. Por conta do deslizamento, os homens que trabalhavam no local tiveram que ser retirados por helicópteros do Exército e da Marinha.
Há riscos de novos deslizamentos de terra na região, já que há água represada sobre alguns morros. As vítimas do deslizamento no Morro do Baú não estão na contagem oficial da Defesa Civil, já que não foram encontradas pelas equipes de resgate.
27.11.08
Relato enviado por Miguel Dias, morador de Gaspar
Enfim, hoje vim trabalhar. Comigo e minha família está tudo bem. Na minha rua, só alagou a entrada, que fica longe da minha casa. Porém, como vocês sabem, Gaspar foi duramente castigada. Estive ajudando aqui na cidade como voluntário e confesso que nunca, mas nunca da minha vida, pensei em presenciar algo igual.
Quando fui aos [bairros] de Baú, entre Gaspar e Ilhota, e parte de Belchior, me senti em um filme. Coisa de cinema mesmo, sem exageros. Vi tirarem corpos, carregarem crianças pequenas quase afogadas na lama, que só apareciam os olhos e os dentes. Ajudei pessoas cujos rostos nunca irei me esquecer pelo semblante de desespero, angústia, gritos e choros ensurdecedores.
Cheguei a lugares (bases da Defesa Civil) onde pessoas, mesmo desiludidas, machucadas e sujas, me ofereciam comida e água em panelas. Imaginem vocês umas estradas entre morros com casas. Depois imaginem uma planície no mesmo lugar, mas uma planície de lodo e água barrenta.

Foto: Clayton de Souza/AE
Foi assim: pessoas andando com lama até o peito. A lama ora parecia água ora parecia barro. Com helicópteros voando baixo por causa da chuva que ainda caía em alguns lugares.
Pontes não existem mais, nem estradas. Tudo [só é feito] através de morros que ainda não deslizaram e apenas com jipes, caminhões, motos de trilha e tanques do Exército. Ou via aérea. A agonia de andar em lugares que podem a qualquer instante desabar novamente é algo inexplicável. Algo que nunca quero sentir novamente. Enquanto ajudava certas famílias, outras vinham desesperadas suplicar por ajuda, por socorro...
Digo uma coisa: se alguém perdeu carro, móveis, isso não é nada. Agradeçam por poder conquistar novamente. O pior é quem perdeu entes queridos, amigos, conhecidos. Famílias inteiras soterradas como no Baú, em Ilhota. Nada trará essas pessoas de volta, só fica a lembrança.
Para terem uma idéia, no cemitério municipal de Gaspar há um caminhão-container daqueles com câmara fria para alocar os corpos das vítimas, para que eles não inchem nem apodreçam. Covas estão sendo cavadas com retroescavadeiras porque não há condições de fazê-las manualmente. As vítimas de Gaspar e Ilhota estão sendo trazidas pra cá; ainda nem foram contabilizadas.
É triste quando passo nos colégios e associações e vejo centenas de pessoas sujas, sentadas esperando tudo acalmar, chorando muitas vezes vendo seus filhos brincarem ao seu redor. Parece campos de refugiados. Realmente lembra uma guerra... um filme de guerra.
Desculpem o livro. Sei que não é o melhor consolo, mas que sirva para aqueles que não perderam ninguém terem coragem e força de seguir em frente. Um forte abraço e até um próximo momento. Que Deus abençoe a todos nós...
26.11.08

Uma equipe do Corpo de Bombeiros do Paraná realizou um resgate dramático na terça-feira, 25, no município de Gaspar, um dos afetados pelas chuvas que assolaram Santa Catarina. No local, muitas casas foram arrastadas pelos deslizamentos no local.

O grupamento paranaense contou com ajuda de bombeiros voluntários e militares de Gaspar, para realizar os resgates no bairro de Belchior. Vários moradores ilhados foram removidos e tiveram que cruzar uma corredeira.

Um senhor de 85 anos que não podia andar, foi transportado através de uma cadeira pela corredeira. Não existem mais estradas, a retirada do pessoal é feita apenas de helicóptero ou com ajuda dos bombeiros.
Só na terça-feira, 25, o Centro de Operações da Defesa Civil de Santa Catarina resgatou 1.138 pessoas que estavam em locais de difícil acesso, conta o assessor da Defesa Civil de Santa Catarina, Vitor Hugo. O trabalho foi feito com a ação de 15 helicópteros e dois aviões cedidos pelos governos dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Marinha e Polícia Rodoviária Federal. Eles esperam ter até esta quinta-feira, 27, um total de 20 helicópteros.
O trabalho de resgate está centralizado no município de Navegantes, próximo do Aeroporto de Navegantes. Os 103 militares envolvidos nesse atendimento também são responsáveis pela distribuição de alimentos.
Ainda nesta quarta-feira, 26, o Centro de Operações deve receber de Brasília um avião Hércules com 100 tipos de medicamentos enviados pelo Ministério da Saúde.
Relato de Daniele de Pierri
Acabo de chegar da Fundação Pró-Família, que está servindo de base para receber os donativos e alimentos que as pessoas estão doando aos desabrigados da enchente em Blumenau. A cena é chocante: o exército no apoio para ajudar as pessoas a tirar as doações dos carros, muita lama pra todo lado e um sobe e desce de helicópteros que mais parece cena de guerra. Saí de lá com um nó na garganta, vontade de chorar sem parar... um sentimento que não dá pra explicar.
Não dá para imaginar que essas milhares de pessoas perderam tudo, e quando digo tudo é até o nome porque muitos nem tiveram tempo de resgatar sequer os seus documentos. São família inteiras alojadas iguais a animais, em locais que chegam a abrigar mais de 500 pessoas. Apesar de os voluntários tentarem fazer o melhor, os abrigos se tornam um terror para as pessoas que tem que ficar lá. É um amontoado de gente, sem casa, sem roupa, sem nome, à espera de que um milagre aconteça.
Mas o milagre é esperar, esperar, esperar. E depois? Muitas famílias tiveram suas casas varridas pelas águas, e na maioria dos casos nem o terreno existe mais, porque desabou e sumiu. Algumas vezes vi pessoas perguntando: onde está Deus nesse momento. Mas ele é o único que pode nos confortar num momento tão difícil. É muito difícil para mim, cruzar os braços e ficar esperando o tempo passar, como se o problema não fosse meu. Mas nessa hora, acredito que o problema seja de todos nós, que possamos de alguma forma ajudar essas pessoas que não tem idéia do que o futuro lhes prepara. E tanto é, que há muitas pessoas ajudando, inclusive de cidades vizinhas.
Vi pessoas vindas de Brusque para trazer água potável e comida, e também voluntários de outras localidades. O povo de Blumenau está sendo muito solidário e fazendo uma grande ajuda, mas nós vamos precisar mesmo é que o governo federal se comprometa a ajudar a restaurar a nossa cidade, que todos bem sabem sempre foi muito linda!
Diante de tudo isso, só nos resta rezar pelas famílias que além dos bens materiais, também perderam seus entes queridos nos soterramentos e desabamentos de casas. Isso sim é irrecuperável, o resto tenho certeza que juntos vamos superar. Cada um fazendo um pouco, cada um ajudando com um mínimo que seja. Porque nessa vida, só não se dá jeito é para morte!

Foto: Filipe Araújo/AE
A situação para os moradores de Itajaí, cidade litorânea de Santa Catarina e uma das mais atingidas pelas chuvas no Estado, é desesperadora. Segundo o assessor de direção da Defesa Civil do município, Giovan Muniz, na tarde desta quarta-feira, 26, chovia fraco, o que ajudava a limpar as ruas, cobertas de lama por conta das enchentes. Ele contou que a situação piorou com a baixa das águas na cidade. "O desespero de Itajaí é que as pessoas ficaram isoladas por quatro dias. Agora [com a queda no nível das águas], as pessoas estão saindo em busca de água e comida. Elas estão saqueando as lojas porque estão com fome".
Segundo Muniz, 130 mil pessoas das 180 mil que moram na cidade estão desalojadas e outras 11 mil perderam as casas por conta da chuva. "97% da cidade ficou embaixo da água. Os quartéis da Defesa [Civil], da prefeitura, dos bombeiros, estão nos outros 3% que não está alagado", conta ele. Muniz falou que a estimativa é que a água baixe totalmente na cidade em oito dias.
Reportagem de Eduardo Nunomura, enviado especial de O Estado de S. Paulo
Depois do saque de supermercados, uma escola foi saqueada na manhã desta quarta-feira, 26, em Itajaí, o município mais afetado pelas enchentes do Rio Itajaí-Açu. Foram levados computadores, impressoras, televisão e outros materiais da Escola Estadual Francisco de Paula Seara. As escolas permanecerão fechadas até segunda-feira.

Foto: Filipe Araújo/AE
Filas quilométricas se formaram com a divulgação precipitada por uma emissora de televisão da distribuição de cestas básicas. Moradores chegaram a ameaçar alguns locais, como o Corpo de Bombeiros de Cordeiros, um dos bairros mais populosos da cidade. A Polícia Militar e o Exército foram chamados para acalmar a multidão.
Ainda em Itajaí, remédios falsificados foram levados pela enchente e apareceram boiando na frente de prédios da orla marítima. As autoridades alertam para o risco de consumir esses medicamentos. Os produtos foram aprendidos e seriam incinerados pela Polícia Federal.
Em Navegantes, agora que as águas começam a baixar, a prioridade é controlar o caos, sobretudo na distribuição de alimentos e para evitar saques. Com a maior parte do comércio ainda fechado, o que dificulta o acesso de alimentos. Pães, alimentos e verduras já faltam na região. Os produtos que ainda estão sendo ofertados são vendidos com ágio. O galão de água mineral, de 20 litros, saltou de R$ 5 para R$ 20.
O sistema de ferry-boat, que servem os municípios de Itajaí e Navegantes, voltou a funcionar nesta quarta, mas com intervalos maiores. A correnteza das águas continua forte, mas há segurança na travessia. Os ônibus não voltaram a funcionar.
25.11.08
A combinação de fome e desespero proporcionou ontem à tarde, em Itajaí, a cena mais transparente da calamidade em que se encontra a cidade portuária, por causa da enchente. Mais de mil flagelados arrombaram o portão e as portas de um megamercado de 8 mil metros quadrados, no Bairro São Vicente. Levaram tudo o que podiam. Foi o terceiro estabelecimento saqueado em menos de 24 horas. Outros dois supermercados que também estavam fechados foram arrombados na cidade.
O secretário de Segurança Pública de Santa Catarina, Ronaldo Benedetti, ordenou reforço policial tão logo recebeu as denúncias sobre saques nas áreas atingidas. Itajaí já tem cerca de 20% de policiais a mais nas ruas e os policiais estão atirando para inutilizar os botes que transportam mercadorias saqueadas.
Com água pela cintura, a multidão rompeu no início da tarde o cordão de isolamento formado por 20 policiais militares. Eles cercavam o Maxxi Atacado, da Rede Wal-Mart, desde as 10h30. Mais três tentativas de isolar os portões foram feitas pelos policiais e quase todo o efetivo disponível na cidade foi enviado para o local, mas a polícia não conseguiu mais do que controlar a entrada e a saída dos desalojados. O saque em massa começou às 13 horas e o estoque de alimentos e utensílios do atacado se esgotou por volta das 17 horas.
A quase um quilômetro do atacado, na Avenida Adolfo Konder, o movimento intenso de pessoas carregando sacos e carrinhos de supermercado repletos de mantimentos - alguns quase encobertos pela água da enchente - denunciava a anormalidade da situação. Além dos carrinhos, portas de refrigerador, prateleiras e freezers de sorvetes boiavam cheios de alimentos, guiados pelos flagelados.
Para chegar aos portões, moradores atraídos pela notícia de comida grátis beiravam o descontrole, chegando em barcos, botes infláveis e a nado, sobre pedaços de madeira. Da porta para dentro, nem a escuridão no atacado fazia alguns errarem o caminho até as prateleiras. Os mais solidários as escalavam, como se fossem prédios, e lançavam para baixo as caixas fechadas. “Pega leite para mim”, gritavam as mulheres embaixo.
O atendimento era rápido e o ambiente tenso. Mais parecia uma feira livre dentro do galpão. Em poucas horas, o espelho d’água que alcançava as caixas registradoras estava encoberto por pacotes, produtos perdidos e restos de papelão. Tudo foi aproveitado, dos frios e laticínios em temperatura ambiente a alimentos que estavam submersos ou estragados.
Enviado Júlio Castro e Sicilia Vechi
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