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30.06.08

por Daniel Piza, Seção: livros, Machado de Assis 10:50:18.

Baptistão

Se eu fosse inclinado a dividir a humanidade em duas, colocaria no lado de lá as pessoas que dizem que João Guimarães Rosa é chato ou ilegível. Mas a humanidade já é dividida demais e Rosa seria o primeiro a nos lembrar disso. O que simplesmente quero dizer é que há tantos prazeres em ler Rosa que é difícil me conformar que mais pessoas não partilhem deles. Se seu centenário de nascimento, comemorado anteontem, é pretexto para que mais gente o descubra, então viva o pretexto – pois o texto é vivo a cada linha:

“Digo, porque até hoje tenho isso tudo do momento riscado em mim, como a mente vigia atrás dos olhos. Por que, meu senhor? Lhe ensino: porque eu tinha negado, renegado Diadorim, e por isso mesmo logo depois era de Diadorim que eu mais gostava. A espécie do que senti. O sol entrado.” Tantos poetas e prosadores cantaram o amor, como Dante e Shakespeare, e Rosa ainda foi capaz de cantá-lo de modo original. “O sol entrado.” Mas, como numa tragédia grega, com a luz vem a treva: Diadorim e Riobaldo estão condenados a não se amar.

Há outra passagem, no extremo oposto da cartela de sentimentos, em que Riobaldo vai ao encontro do que pensa ser o Diabo com quem vai pactuar, na noite estrelada do sertão. Chama por Lúcifer, remordendo o ar, bramindo, “desengulindo”, e tem o silêncio como resposta. E diz: “O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.” Ele insiste, pois “em mim tudo era cordas e cobras”, acredita ouvir Satanás (“O Diabo não existe, por isso ele é tão forte”) e, sob o orvalho da madrugada, tremendo de frio e sede, atravessa o limite da solidão. Vi um “miguilim” declamando de cor esse trecho em Cordisburgo, quando refiz a viagem de Rosa em 1952 pelos descampados mineiros, e como poucas vezes na vida me comovi... como o Diabo.

Há também muita ação na história, e não por acaso Rosa dizia que cada palavra deveria conter “meditação ou aventura”. Mas há uma insistência em dividir Rosa, em dividi-lo entre meditação e aventura, entre universalismo e regionalismo, entre poesia e prosa, entre filosofia e geografia. Minha edição de Grande Sertão: Veredas tem muitas páginas marcadas para que eu possa voltar a elas de tempos em tempos, e a cada revisita encontro não um Rosa ou outro, mas um Rosa múltiplo – porque o sertão “é dentro da gente”, porque Dostoievski e Flaubert eram sertanejos, porque sabemos o que é o silêncio. Deve ser por isso que nos dá tanta vontade de ler em voz alta.

Tenta-se também dividir o leitor entre Rosa e Machado de Assis, lembrando suas muitas diferenças, mas esquecendo as muitas semelhanças entre nossos dois maiores escritores: as preocupações filosóficas (Deus x Diabo, alma x corpo, a busca do “terceiro”); o gosto por nomes simbólicos (Riobaldo é rio e vazio; Bento é o prometido); a identificação de uma nacionalidade íntima ou indizível (a difusa identidade brasileira, irredutível a um conceito); o jogo entre erudição e prosódia; e, acima de tudo, a percepção da solidão subterrânea.

Eles até tinham em comum uma desconfiança exagerada diante da modernidade, dos progressos, mas – assim como a escola sociológica da crítica literária brasileira toma isso para defendê-los como “críticos do capitalismo” ou coisas que o valham – não se pode acusá-los por tal posição, pois a grande arte é sempre maior que o artista. De sua quase nostalgia eles extraíram uma obra fundadora e permanente. E transcenderam divisões conceituais.

("Sinopse")

 

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Comentários:

Comentário de: Linda [Visitante]
02.07.08 @ 02:44
A grande arte é sempre maior que o artista",justamente!!!
Piza,seu comentário sobre Guimarães Rosa foi sublime! Sempre fui apaixonada por ele,e é uma pena que exista uma distância grande entre Rosa e outros escritores (tipo José Sarney),porque a literatura brasileira precisa de um filho legítimo do grande contista e romancista mineiro.
Comentário de: rodrigo [Visitante]
02.07.08 @ 08:59
Piza,

Respeito suas opiniões mas considero primárias suas críticas ao grande crítico Roberto Schwarz, a quem não raro você alude quando fala de Machado de Assis. Gostaria que você mencionasse algum outro trabalho relevante para a compreensão do escritor fluminense - que não seja "sociológico em demasia", mas que prescrute na obra de Machado as relações entre texto e contexto.
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
02.07.08 @ 09:05
Rodrigo, primário é seu comentário, que nem se dá ao trabalho de justificar o adjetivo. Schwarz faz de Machado um crítico do capitalismo, mas Machado era mesmo um monarquista abolicionista avesso ao progresso. Leia "A Pirâmide e o Trapézio", de Raymundo Faoro, que é muito melhor, muito mais livre da bitola marxista.
Comentário de: Maria Izabel [Visitante]
02.07.08 @ 09:28
Adorei, exepcional! Rosa torno-me praticamente alfabetizada. Tive um choque quando li "A Hora e a Vez de Augusto Matraca". Parabéns Piza, você fez exelentes colocações.
Comentário de: Joca Ramiro [Visitante]
02.07.08 @ 10:37
Seu Daniel,

De tempo a tempo eu venho ciscar em seu terreiro. O senhor perdoe a invasão. Bicho homem não foi feito pra ficar sozinho. Mesmo aqui, nesse algodoal de brancuras e nuvens, eu fico amodorrado. A bem verdade eu sinto é saudade de uns tiros. Eu sinto é saudade do bicho homem, com suas quizilas e suas bicheiras. Aqui, no Céu do Sertão, tudo é bom, mas às vezes é meio chato. Só o que enterte, vez em quando, é escutar meu cumpade Joãozinho Bem-Bem contar suas estripulias, comendo sua jacuba com rapadura, rapada bem fininho. Céu que se preza tem que ter uma boa jacuba. Fala pro seus minino aí, pararem de se ferroar, porque bicho homem num dá esquadro de jeito nenhum. Se fosse formar juntas de carro-de-boi com o bicho homem, não se formaria junta nenhuma. Porque o homem é marruais. Bicho homem só forma junta a mando de Deus-todo-Poderoso, o Carreiro-Chefe. E aí desce aí pra Terra, pro Sertãozão, sofrer com o ferrão da guiada de Deus. Êh! E aí o carro canta bonito. Fala pro seus minino parar de fazer gincana com o Rosa e com o Machado. Dia desses, Sêo João mais o Sêo Machadinho tavam jogando uma partida de gamão (mais uma coisa boa daqui), e deram boas risadas com a tentativa doceis daí da Terra de medir os dois. Bestagem. Logo depois passou o Púchkin, o Negro de Petersburgo, que veio tomar uma reverência com os dois. Tava preocupado com as coisas lá na Mãe-Rússia. Na saída, repetiu um seu ditado de preferência: quer abranger o mundão todinho, então fale do seu sertão.... E depois, vocês já têm problemas demais, pra criarem mais um...
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
02.07.08 @ 11:18
Prezado Joca Ramiro, o senhor está certo. Mas não se apoquente, não. Essas brigas que inventam é nonada. Ossos de borboleta.
Comentário de: Mauricio [Visitante]
02.07.08 @ 11:29
Olá Piza, Quanto tempo...

Na verdade não acompanho mais o blog e só estou postando hoje pq. li domingo a sua coluna.

E não poderia deixar de escrever... Não poderia deixar de dizer que torço para quando a orquestra perder sua Academia de Musica, seu orçamento for cortado, vc tb. se prontifique a dar o seu costumeiro pitáco contra essa situação.

Mas, tb. não posso deixar de dizer que como bem disse o colega da comunidade acima, falta clareza em sua argumentação. Sim... pois parece aquela fala decorada, aquela argumentação batida de quem é contra o atual regente da Osesp, uma vez que não leva em consideração todos os ganhos que a orquestra teve nos últimos 11 anos e sua influencia no mundo não só para o Estado de São Paulo, mas para o Brasil. Mas, falando especificamente de resultados. A algum tempo atrás vc mencionou que a Osesp só ganhava prêmios com autores brasileiros... Bem, o CD Tchaikovsky/Medtner que foi escolhido como CD do mês da Gramophone e um dos 3 principais lançamentos na categoria concerto em todo o mundo, segundo a própria revista, ou talvez a Pastoral de Beethoven vencedora do Grammy Latino atestam a qualidade totalmente ignorada em seus comentários.

Enfim, não estou aqui para ficar discutindo. Só peço o que já escrevi acima. Quando a orquestra ter suas verbas cortadas, sua academia fechada, suas viagens e gravações canceladas... por favor... não ignore sua responsabilidade nisso... Manifeste-se tb.

Ah.... eu não sou o Neschling.... ok??? Se quiser marcamos para um café para vc ver que eu sou de carne e osso e sou eu mesmo...rsrsrsrs

Abraços,

M
Comentário de: Marcos de Luca Rothen [Visitante]
02.07.08 @ 11:31
Estou ficando tentado a começar a ler Guimarães!
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
02.07.08 @ 11:33
Poletti, estamos combinados. Quando a orquestra decair, serei o primeiro a denunciar. Assim como me vi obrigado a mostrar que o rei era absolutista, como agora a maioria das pessoas já vê.
Comentário de: Mauricio [Visitante]
02.07.08 @ 11:55
Sim, absolutista como Karajan em Berlim ou Mravinsky em Leningrado.

Uma pena que nosso país não tenha a tradição que fez com que algumas semanas após o final da segunda guerra a Filarmônica de Berlim já estivesse funcionando.

Aliás, acho que poucas pessoas sabem como é o contrato entre o Governo e a Fundação. Pelo que soube 2010 não é apenas o ano em que o contrato de Neschling acaba mas da própria fundação com o Governo... Depois disso o governo pode renovar com quem ele quiser pelo valor que achar melhor. Vamos torcer para que alguém defenda a orquestra nessa hora.

Abraços,

M

Comentário de: Daniel Piza [Membro]
02.07.08 @ 11:57
Com pequena diferença entre eles...
Comentário de: Mauricio [Visitante]
02.07.08 @ 12:07
Sim... eles estão no primeiro mundo.
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
02.07.08 @ 12:10
Puxa, a Osesp sempre disse ser algo de primeiro mundo... Coincidência!
Comentário de: Mauricio [Visitante]
02.07.08 @ 12:12
É o que dá uma instituição de primeiro mundo num país de terceiro, né?!
Comentário de: Claudio Adas [Visitante]
02.07.08 @ 12:16
O Sr. Neschling peca por falta de lógica. Se ele teme pela orquestra após sua saída, parece-me então que seu trabalho não foi tão bom assim, já que não teria continuidade sem a sua "valiosíssima" e "insubstituível" pessoa. Ao invés de sair com elegância, deixando seu nome associado ao renascimento, consolidação e aprimoramento indiscutíveis da Osesp, ficará também a impressão de uma personalidade provinciana, insegura e ressentida. Pena.
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
02.07.08 @ 12:21
Talvez a instituição não seja assim tão de primeiro mundo...
Comentário de: Tonho [Visitante]
02.07.08 @ 12:30
Um homem que tinha por ofício brilhar nos salões mais sofisticaddos,com cultura,elegãncia e refinamento,muito embora eu arrenegue a idéia da existência do punhos de ren da sustentados por gente esfomeada,(tô falando do Itamaraty antigo,não êsse,saco de gatos arrivistas brucutus social istas da atualidade),que teve convívio durante toda a sua vida com gente "cidadã do mundo civilizado".Se tivesse al guma aspiração artística ela deveria ser dirigida pra agra dar ao seu meio.Normalmente;mas não aconteceu assim com o ROSA.Em busca de um mundo ainda não conhecido por nínguém, só por ele e por seus personagens(não se iludam a sua obra foi um trabalho incessante em toda a sua vida,mesmo quando ele não sabia disso),um mundo muito rico e de verdades univ esrsais,que ele soube tão bem lavrar e nos oferecer generoso como só as grandaes almas comprometidas com o Destino,o nos so e o dele,podesm nos oferecer.Um outro grande poeta/escritor disse que o rio mais bonito é o rio que passa na nossa aldeia, porque é o rio que passa na nossa aldeia.O nosso ROSA(que pri vilégio!)foi além, ele inventou aldeias,gente,montanhas,rios que passavam em sua cabeça ,lavrou-os durante sua vida para que no seu poente(embora em nossa conta tenha ido prema turamente.Mas o que sabemos?) nos doasse um universo de rara beleza e revelações.--Não gosto de ler acadêmicos boçais dissecadores com suas ferramentas de laboratório que nos falam subjetivamente que nada,nenhuma beleza ou mistério pode resistir à lámina fria .Pois então afirmo: a OBRA do ROSA foi sim um compromisso dele com ele mesmo e dele com os DEUSES mesmo antes de ele nascer.--E NÃO TÔ AQUI PRA EXPLICAR NADA! ----Ele nos deixou?Mas ainda bem que temos o PIZA pra nos confortar com brilhantismo,e nos dizer da imprtnacia e bele za das das joias imperecíveis que ele nos deixou.---P.s.a ilustração magnífica e o texto de PIZA secaram minha gargan ta e pediu um cálice da branquinha,que trato de atender.--- Um brinde ao MISTÉRIO,á BELEZA e Saúde pro PIZA!!!!!!!
Comentário de: Jose Carlos [Visitante]
02.07.08 @ 12:50
Sr. Daniel,
Sua coluna, de certa forma, vai no oposto de uma corrente pseudo-urbanizada que costuma torcer o nariz para o regionalismo de Guimarães Rosa. Mas é na valorização ou na recriação de sua provincia que Rosa torna-se universal. Assim como Dostoievsky.
"A terceira margem do rio" (Primeiras Estórias), que Borges, em suas crônicas, dizia reler sempre emocionado, é, talvez, o mais belo conto já escrito em língua portuguesa. Estão ali, em linguagem de diamante, as nossas mais inquietantes perguntas sobre a solitária trajetória humana sobre a terra.
Os comentários de sua coluna são valiosos para a difundir o conhecimento da obra desse grande brasileiro.
Comentário de: Mauricio [Visitante]
02.07.08 @ 12:54
Infelizmente qualquer instituição brasileira que dependa de verba governamental jamais será de primeiro mundo. Tenho que discordar do que o amigo Cláudio disse acima. A questão de temer pela orquestra após a saída do maestro não está de maneira alguma vinculada ao trabalho que foi feito, mas o que será feito para preservar esse trabalho no futuro. Se o Sesc que tem muitos anos a mais que a Osesp, um orçamento muito maior, está em todos os estados brasileiros, correu um risco muito grande de perder uma grande parte de seu orçamento e como disse o seu diretor, conseqüentemente, perder em qualidade e abrangência, que dirá uma orquestra no Estado de São Paulo?

Como já disse acima, pelo que soube em 2010 acaba o contrato entre a Fundação e a Secretaria. Se tivermos alguém no comando da instituição que não tenha medo de brigar pela orquestra, não tenha medo de ir aos jornais e exigir que o orçamento não seja cortado, é possivel que a orquestra se mantenha. Sem isso alguém aqui duvida que a secretaria vai avançar no orçamento da orquestra? Uma orquestra não sobrevive com qualidade sem orçamento. E tb. duvido que depois de tanto esforço para retirar um regente combativo, coloquem outro no lugar que tenha a mesma disposição para a defesa da orquestra. O secretário já disse que por ele a Academia será encerrada.

Como já disse acima, por melhor que seja uma instituição, realmente ela terá dificuldade de se manter no primeiro mundo com dependência governamental.
Comentário de: Cristina [Visitante] · http://chrysaliis.blogspot.com/
02.07.08 @ 13:20
Lindo post!
Sou apaixonada por Guimarães Rosa.
Comentário de: Mário Latino [Visitante] · http://www.graphiqbrasil.com
02.07.08 @ 16:11
Sou contra aqueles que insistem em comparar Machado com Rosa, mas também sou contra aquela análise simplória que insiste em ver na obra deste último só uma maneira de esticar a corda da língua e seus maneirismos, regionalismos, sei lá. Para mim, "Grande Sertão, Veredas" trascende o romance pois é mais que um romance. É da estatura de um Dom Quixote, de Ulisses. Lê-lo é uma experiência única, transformadora, inebriante.
Comentário de: Sarah [Visitante] · http://www.nhambuzim.com
02.07.08 @ 20:03
Oi, Daniel! Gostei muito de seu texto e sinto o mesmo que você ao reler trechos e contos inteiros, um múltiplo Rosa a cada vez e vontade de ler em voz alta. Gosto demais de Guimarães Rosa.
Eu gostaria de convidá-lo a visitar o site do grupo do qual faço parte, o Nhambuzim. Ficaria feliz em ouvir um comentário seu a respeito do trabalho. São canções inspiradas no sertão do Rosa.
Grande abraço!
Comentário de: Stéphanie. [Visitante]
03.07.08 @ 08:22
SENSACIONAL!
PARABÉNS!
Comentário de: Marco Antônio Castro [Visitante]
03.07.08 @ 08:44
Se perguntado sobre a própria morte, GR diria que só dobrou uma curva na estrada, só não pode ser visto.

Há algum tempo ouvi uma fala do Mindlin dizendo que encontrara GR na Europa, no pós-guerra, quando comprava livros para a sua biblioteca. A impressão dele foi que GR era arrogante e antipático. Não deixa de ser uma nota dissonante.

Osesp e Neschling estão ligados umbilicalmente. Não há dúvida sobre o trabalho excelente que ele fez. Não há dúvida, também, que ele pretende alugar o Maracanã para deixar o ego descansando.
Como todos sabemos, nem Pelé foi insubstituível (Amarildo não nos deixa mentir).
Minha questão em relação à Osesp é sobre os poucos espetáculos. Não me interessa fazer a assinatura anual. Um ingresso apenas não me atende e não tenho essa disponibilidade de grana e nem pretendo assistir a tudo, só o que me interessa. Para isso sou obrigado a comparecer 60 dias antes do espetáculo para tentar comprar ingressos. Nem sempre é possível (cambistas?!). E aí eu lembro que é o meu dinheiro, via impostos, que paga a maioria dos salários, das despesas, que construiu a Sala SP... Então eu fico com cara de brasileiro.
Comentário de: rodrigo [Visitante]
03.07.08 @ 10:17
Mas, Daniel, não seria seu argumento uma "falácia biográfica"? Sugerir que por ser monarquista e conservador Machado de Assis não poderia jamais ter feito uma crítica ao processo de modernização do país? Assim, Balzac, monarquista assumido, não poderia ter feito uma análise crítica da ascensão da burguesia na França. Sabemos, no entanto, que seus livros são repletos de reflexões ferinas sobre essa classe. Como ficamos?
Faoro é ótimo mas descura da análise formal, procedendo por meio, bastante sofisticado, daquilo que Antonio Candido chamou, em contexto diverso, de método paralelístico: de um lado a obra, de outra a sociedade. Não achas?
Comentário de: Geraldo Lima Teixeira [Visitante] · http://trevodotalvez.wordpress.com/
03.07.08 @ 10:23
A propósito de Rosa, proponho uma vista d'olhos no espaço indicado. E vou aos poucos me aproximando do silêncio, pois que não desconheço o básico do "homem cordial" do Sérgio Buarque de Holanda.
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
03.07.08 @ 11:00
Rodrigo, falácia é o que faz o Roberto Schwarz. Ele diz que Machado analisa uma elite brasileira que empresta idéias liberais européias para um lugar que ainda vive em outra etapa capitalista. Isso é verdade, mas limitado. Primeiro, porque Machado não escreve do ponto de vista de uma classe social contra a outra: ele também é ácido a respeito da classe média então emergente (vide Escobar ou Tristão) e, na verdade, de toda a humanidade. Schwarz diz que Capitu é "antiburguesa"! Segundo, porque Machado não usa o termo "capitalismo", pois escreve do mesmo ponto de vista de alguém que teme o progresso tecnológico e urbano. Ele mesmo, embora agudo, era conservador em muitos aspectos. Faoro não pretende fazer análise textual, mas mostrar as contradições daquele período histórico. Vê em Machado alguém que desmascara a sociedade patriarcal, mas não do ponto de vista ideológico. Eis uma diferença essencial.
Comentário de: marcio [Visitante]
03.07.08 @ 19:08

Piza
Acompanhei alguns comentários aqui constantes sobre a crítica de Machado ao capitalismo de então. Você tem razão: Machado não investe contra o sistema neoliberal, investe contra o burguês que (em sua obra, ao menos em minha pequena opinião) tem em seu proceder um grande vulto do neoliberalismo. É assim como eu enxergo a questão do "ao vencedor, as batatas", é assim que enxergo a vida levada por Brás Cubas etc..., mas realmente o termo "capitalismo" se revestiu de uma carga semântica um tanto juvenil/idealista (digo porque na minha fase "áurea", com meus amigos, tive conhecimento de causa), porém agora já não sou tão idealista. Para mim (ao menos) o neoliberalismo "clássico" ou "moderno" está para os comunismos em pé de igualdade. Por isso me vejo alheio tanto a luta das "classes proletárias" como a essa onda neomacarthista que assola a impressa, principalmente a grandiosa revista veja. (Uma praga essa nova onda, que não pode falar de um artista ou banda musical sem criticar sua posição política)
Mas o que isso tudo tem a ver com Machado, não é? Que seja... ele é um exemplo da minha crença de que só a arte está acima da corrupção que infesta toda a atividade humana (e isso incluí toda e qualquer forma de governo, utópico ou não).
Comentário de: Mauricio [Visitante]
03.07.08 @ 21:01
Olá Marco Antonio,

Não existem cambistas na Sala São Paulo, graças a Deus... aliás... Uma prática muito comum na Sala São Paulo é a doação de ingressos. Pessoas que estão com mais ingressos do que necessitam doam para quem está sem ingressos na entrada do Estacionamento ou do Boulevard.

A falta de ingressos na realidade só demonstra o sucesso da própria orquestra. 3 Concertos semanais e praticamente todos lotam.
Comentário de: nilton [Visitante]
04.07.08 @ 00:17
Grande Rosa! Quando adolescente na década de 60 do século passado devorava os textos do filho de Cordisburgo. Eu e meus amigos na jovem cidade de Brasília . Eram os tempos de ler Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Bernardo Élis e alguns outros bons escritores brasileiros.
Um grande amigo dessa época, de tanto gostar de Guimarães Rosa tomou para si o apelido de Joãozinho Bem -Bem, de "A Hora e a vez de Augusto Matraga." Querido amigo, morto prematuramente na Brasília que nos revelou o grande Rosa. Jamais recuperado das maldades da ditadura militar de 64.
Salve Rosa , Salve Machado.

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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br





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