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11.06.07

por Daniel Piza, Seção: televisão 12:16:04.

Procurei a nota que dei sobre a série "Roma" depois de ver na TV os dois primeiros capítulos, no ano passado, só que não a encontrei. Lembro ter elogiado, mas feito a ressalva de que havia um excesso de pretensão de atualizar os acontecimentos, ou algo parecido. Agora, depois de assistir em DVD, no feriado, aos doze episódios da primeira temporada (a segunda está em cartaz na HBO), me arrependi. É muito boa.

Uma das razões é justamente a imersão minuciosa no cotidiano do período (da volta de Júlio César da Gália ao seu assassinato no Senado), com passagens e detalhes muito interessantes de hábitos e costumes - comida, medicina, paganismo, sexualidade, etc. Em raros filmes ou mesmo livros sentimos esse mergulho "antropológico" e nos familiarizamos com as superstições e os valores correntes nas diversas camadas sociais, inclusive a participação das mulheres nas decisões. Ao mesmo tempo, temos a tal macro-história, os grandes acontecimentos políticos da época. As batalhas não são mostradas, e sim as conseqüências na disputa entre republicanos que na verdade estão mais interessados em seus privilégios e o popular César, tirano que modula sua crueldade com diplomacia e paternalismo.

Parte da minha crítica era razoável, porque a série começa mais interessada em mostrar uma Roma Sodoma & Gomorra e depois é que passa a se concentrar na questão do poder. Mas isso é menos importante diante da qualidade geral - atuações e cenários em destaque - e há cenas que ficam na memória do prazer, como aquela em que o protagonista Lucius Vorenus e seu amigo Tito Pullus fazem jangada com corpos mortos ou a seqüência em que o primeiro ajuda o segundo no ringue dos gladiadores.

Os diálogos são bons, ainda que abusem de gírias e expressões modernas; as personagens, tridimensionais, feitas por ótimos atores ingleses; o ritmo, capaz de combinar ação e reflexão. O que nos pomos a pensar é, justamente, em como Roma foi modelo para tudo, da república americana a ditaduras de todas as latitudes, como a nazista; e em como muitas de questões ditas contemporâneas como o culto ao espetáculo e o conflito entre privado e público são antigas. Somos muito diferentes e muito parecidos com aquela gente. E esta visão é uma característica da boa obra de arte.

 

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Comentários:

Comentário de: J! [Visitante]
11.06.07 @ 12:53
Piza,
Não deixe de assistir ao 2o ano, que vai do assassinato de Cesar à consolidação do poder por Otaviano. O último capítulo será no próximo domingo.

Você definiu muito bem: é uma imersão na história.
Pena que a HBO tenha resolvido parar por aí, pois a série causava-lhe prejuízos.

Uma passagem marcante é a lição de política de Cesar a Voreno, que o havia desobedecido: se eu o punir, desagradarei ao povo; se não fizer nada, parecerei fraco; então, vou recompensá-lo, elevando-o a herói e senador.
Comentário de: Sérgio [Visitante]
11.06.07 @ 14:07
Prezado Piza,

O assunto Roma me fascina. Como Carthago, muitíssimo. E Atenas e Esparta. Etruscos, Hititas, Egito Antigo...

A série "Roma", por óbvio, me chamou a atenção. Mas não assisto esse tipo de programa. É falso e infantil demais.
Primeiro, porque conheço o suficiente para, a cada cena, saber que aquilo que está passando NÃO ERA A REALIDADE DA ÉPOCA.

Isso sem falar que os "Romanos" volta e meia tem o cacuete de consultar as horas em seus "Rolex"...

A "Lista de Schindler" tem o mesmo problema. Conheço muito da II Guerra Mundial, principalmente sobre Adolfinho, Nazismo, campos de concentração, essas coisas bonitas.
É só ver a "Lista de Schindler" e EU não aguento tanta papagaiada. O filme é ridículo. Chega a ser ofensivo aos Judeus.
A VERDADE ERA MUITO PIOR...

Stanley Kubrick sentiu o mesmo problema. Quiz filmar sobre o Nazismo e Campos de Concentração. Mostrar o sofrimento dos Judeus.
Não conseguiu...
Desistiu.
É impossível passar para a tela a verdade do que REALMENTE aconteceu. Ia tentar filmar, quando Spielberg o salvou com o meloso e falso "Schindler"...

A série "Roma" é a mesma coisa. Tudo bem que, aparentemente, mostrem a luta pelo Poder. (d'outra forma seria pornografia sádica o tempo todo...).
Mas, como é IMPOSSÍVEL passar a realidade romana para as telas, arranham a libido do telespectador com sadismos...
A realidade romana era muito mais cruel. Sem sadismos modernos. Era "natural". Bocejavam vendo cristãos serem despedaçados nas arenas...

Os Imperadores faziam questão de comer comida podre. Com as mãos. Não só nas "orgias".

Era "chique"...

Prefiro, muito mais, ler Edward Gibbon.
Em preto e branco...
Comentário de: roberto [Visitante]
11.06.07 @ 14:27
UMA DAS SERIES MAIS BEM FEITAS QUE JA ASSISTI EM TODOS OS SENTIDOS FIGURINOS,ROTEIROS,CENARIOS SEM CONTAR OS ATORES
OS PRODUTORES ESTAO DE PARABENS
Comentário de: Marco Antônio Castro [Visitante]
11.06.07 @ 14:35
Concordo com o Piza. O primeiro ano foi muito bom; já o segundo... me parece meio apelativo. Marco Antônio é um sádico putanheiro; Cleópatra é uma prostituta piorada; Otávio é um fetichista frio...
O que me incomoda mesmo é ver os caras chamarem Cesar de "Cízar", Antonius de "Anthony", dizerem "Okay, boss", "shit"... é lamentável e bocejante. Às vezes pinta um "domina" quando um escravo se dirige à sua senhora, mas pára por aí.
Como diria a minha querida avó: no frigir dos ovos a série salva-se pelo 1° ano.
Aqui entre nós, que banho de interpretação que os caras dão.
Ver uma das nossas novelas é uma coisa constrangedora...
Marcão
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
11.06.07 @ 14:56
J!, infelizmente perdi a segunda temporada, mas certamente verei em DVD quando sair. Marco Antônio (não o romano): é verdade, nossas novelas ficam constrangedoras na comparação... Sérgio: você poderia ao menos VER a série antes de analisá-la.
Comentário de: Renato [Visitante]
11.06.07 @ 16:03
Como não vi nenhum capítulo, me abstenho, mas gostaria de te fazer uma pergunta, Piza:
Você ja assistiu Lost? Gosta, não gosta?
Eu acho muito legal.
Comentário de: Sérgio [Visitante]
11.06.07 @ 16:39
Prezado Piza,

Tens razão.

Não VI a série.

Mas SEI o que veria...

Agora, essa estória do "o" do ...voi ch'entrate, que você mostrou, EU sei, EU sei, você está certo. Mas, então, o que EU VI?
Um disco voador?

E a "Storia Letteraria d'Italia, pagina 891, de 1929?...
Talvez, talvez, papai saiba a resposta...

Mas, claro, sua resposta é irrebatível.
Mas minha dúvida continua.
Como os "Discos-Voadores"...

Não! Há uma resposta!
Alguém há de achá-la...

Quanto à série, realmente não a vi. Mas foi proposital. Porque o assunto me fascina...Porque sei que é "fantasia" e pode me tirar o "foco" da VERDADEIRA HISTÓRIA...
Kubrick, certamente, dar-me-ia (huumm!...) razão...
Comentário de: Claudio Adas [Visitante]
11.06.07 @ 19:08
Imaginava que não houvesse mais pessoas que usassem expressões como "verdadeira história". Parece-me um pouco ingênuo crer nesse conceito. Pelo visto enganei-me. Eu já interesso-me pela "falsa história" destas minisséries e filmes, pois acho que promovem, no caso das boas produções, discussões e reflexões sobre temas atemporais apesar das tais imprecisões históricas. Realmente os atores estão sublimes nesta produção de "Roma", o que é quase um pleonasmo considerando-se que são ingleses.
Comentário de: Renato Vercesi [Visitante]
11.06.07 @ 20:29
Caro Piza,

Por acaso vi os DVDs nas 2 últimas semanas e concordo com você, o mais interessante na série é a profundidade na construção dos personagens (todos muito fortes e coerentes), dos hábitos do cotidiano, das divisões de classes ('I´m a roman citizen of noble birth´)... fica mais claro como hoje vivemos no mundo do politicamente correto... (ou no mundo dos eufemismos... de terceiro mundo pulamos para developing world, de junk bond pulamos para subprime, e por aí vai...), mas os costumes são parecidos, guardadas as proporções. Eu gostaria de saber o que pensarão dos nossos costumes daqui a 2.000 anos, se ainda existir vida na Terra...

Achei no geral muito legal, recomendo para todos...

Há um mês passou no NatGeo um documentário sobre a época (pegando um período histórico mais longo, mas terminando em Vespasiano) - muito interessante, não romanceado, produzido, mas legal também - talvez tenha on demand no site deles...

abraço,


Comentário de: André Rosa [Visitante]
12.06.07 @ 19:18
Piza, Concordo com você. A séria ROMA é uma das melhores que acompanhei na TV. Acho que seria melhor se todos os atores falassem latim, ou usassem expressoes da época, como já comentado anteriormnete por outros visitantes, como o Mel Gibson fez no filme "A paixão de Cristo". Abraço, André Rosa P.S.: Este Sérgio é chato mesmo e sempre ou é só sobre assuntos de história?

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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br





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