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12.10.07

por Daniel Piza, Seção: cinema, teatro 19:43:26.

Arquivo/AE

Paulo Autran morreu hoje, aos 85 anos. Era nosso "the entertainer", o dono da cena, o ator maior. Seus últimos trabalhos, como o avarento de Molière no teatro e o intelectual francês no filme de Babenco, foram um belo fecho a uma carreira tão bela. Descanse.

Reproduzo aqui o texto que escrevi sobre ele no ano passado, quando lançado seu livro Sem Comentários:

Mil caras de um ator único

"O ator não tem direito ao próprio corpo nem à própria cara."

Isso é o que Paulo Autran diz na página 255 do belo livro Sem Comentários (Cosac Naify, 272 págs., R$ 85). Mas o que nos chama a atenção no volume é justamente o contrário: é a riqueza característica desse rosto, é sua capacidade de visitar todas as escalas da interpretação, da comédia à tragédia, e de lá voltar sem máscaras. Muitos atores, incluindo alguns dos grandes, perdem a face para seus personagens – e passam a atuar com tiques e truques, como caricaturas de si mesmos, como se a demão tivesse ocupado o lugar da superfície. Autran sabe ser tomado pelo personagem. Não tem direito à própria cara enquanto o representa, mas a recupera depois; só assim pode dar esse direito ao seguinte.

Apesar do título, o livro não vale apenas pelas excelentes fotos, que prestam tributo à sua carreira de quase 60 anos, mas também pelos comentários que Autran faz ou cita a cada uma. Não tem pudor em comentar seus próprios excessos, como o ataque de vaidade que teve numa de suas primeiras peças, Don Juan, de Guilherme Figueiredo, em 1950, ao se sentir ofendido porque as falas mais engraçadas eram de outro personagem, Leparela, feito por Armando Couto. Foi Tônia Carrero quem apelou ao seu bom senso. Autran conta também passagens ilustrativas como a de Adolfo Celi, durante os ensaios para Assim É... (se lhe Parece), de Pirandello, em 1953, mandando-o descer e subir correndo a escada dez vezes, para aí sim achar o tom oral da fúria do sr. Ponza.

É um prazer ler também os trechos de crítica que Autran menciona. Quem melhor escreveu sobre ele foi Décio de Almeida Prado, aqui no Estado, numa sucessão de ocasiões. Décio apreciava especialmente quando Autran punha uma nota sóbria em sua natureza teatral. “Como ator, não precisa mais sequer erguer a voz para sugerir força e autoridade”, assim descreveu sua atuação como Creonte em Antígone, versão de Jean Anouilh para o texto de Sófocles, em 1952. A foto da montagem parece comprovar: traz Autran de olho em Cacilda Becker, como se fossem duas efígies de intensidade. Sábato Magaldi foi na mesma linha, em 1967, ao avaliar seu Édipo: "Paulo Autran é sem dúvida o nosso ator mais qualificado para encarnar o herói sofocliniano, e o porte, a autoridade, o domínio cênico dão plena convicção ao seu trabalho." Paulo Francis e Bárbara Heliodora, que tanto o atacaram, não ganham nenhuma linha.

É curioso que os críticos se refiram tanto ao porte de Autran. Ele não é alto nem forte, mas sua postura, assim como sua voz, irradia uma segurança, uma concentração, que chama os olhos da platéia para si. Em Rei Lear, por exemplo. O crítico inglês Kenneth Tynan disse que o personagem de Shakespeare derrotou tanto John Gielgud como Laurence Olivier. Mas quem no Brasil senão Autran poderia ser derrotado por Lear com tanta majestade como ele foi em 1996, sob direção de Ulysses Cruz? Seu grito por Cordélia era arrancado das ruínas.

O que é raro é encontrar um ator que tem recursos de "diseur", autor de gravações de poemas de Carlos Drummond de Andrade e contos de Machado de Assis, mestre do "timing" da fala, e ao mesmo tempo possui tal presença física; e que faz essas duas forças se encontrarem no rosto, vértice de seu magnetismo. Nesse rosto, as projeções do nariz ligeiramente adunco e do queixo ligeiramente pontudo podem ser moldados para a comédia, do pastelão à sofisticação, e podem também assumir todos os ângulos do sofrimento, na tragédia mais carnal ou no drama mais intelectual.

Seguir as fotos do livro (ao qual falta apenas um índice das peças) é ver a abrangência dessa carreira. Autran fez muitos dos grandes personagens clássicos; além de Édipo, Creonte e Lear, foi Otelo ("Vi no Brazyl uma interpretação genial de Otelo feita por Paulo Autran", escreveu em 1960 Glauber Rocha, que o dirigiria em Terra em Transe sete anos mais tarde) e Macbeth, foi o Burguês Fidalgo de Molière e o Dom Quixote de Cervantes. Fez Ibsen, fez A Dama de Camélias, fez comédias refinadas de Bernard Shaw e Noel Coward. Os modernos não foram menos numerosos: Arthur Miller, Beckett, Pinter, Sartre ("O inferno são os outros" – foi a ele que coube a famosa frase da peça Entre Quatro Paredes), Brecht. Fez brasileiros de Gonçalves Dias a Mauro Rasi, passando por marcos como Liberdade, Liberdade, de Flávio Rangel, e Morte e Vida Severina, de João Cabral. E assim continua até hoje, buscando textos contemporâneos como Visitando o Sr. Green e Variações Enigmáticas.

É um ator que fez jus ao direito de tantos corpos e tantas caras.

 

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Comentários:

Comentário de: Molière Shakespeare [Visitante]
12.10.07 @ 20:48
Fará uma falta infinita.
Comentário de: Regina [Visitante]
12.10.07 @ 20:57
Uma perda lamentável. Uma lágrima pelo maior dos atores.
Comentário de: Palhaço ( Já votei sem anular ) [Visitante]
12.10.07 @ 21:25
A vida faz opção pela mediocridade.

Há pessoas que prestam e prestam valiosa contribuição para o crescimento intelectual,moral e emocional da sociedade.
Estas vão embora, parece ainda muito cedo. Da-nos a impressão que muito ainda poderiam fazer.

Enquanto isso, há muitas outras que não prestam e continuam por aqui, roubando, decidindo que as pessoas devem continuar na ignorância,manipulando-as e delas servindo-se.
Estas insistem em ficar, parece que tardam e assim mais podridão produzirão.
Efim, é a vida. Ou a morte...
Meus respeitos, Sr. Paulo Autran.

Comentário de: Tadeu [Visitante]
12.10.07 @ 22:36
Aqui se vai uma das maiores pessoas do nosso pais...
E inumeravel a contricuicao que ele nos forneceu, com suas pecas irreverentes, seu jeito humilde, que as vezes nos dizia muito apenas com um unico gesto, ou um silencio...
Me orgulho que ter visto o maior de todos os atores amando... atuando... essa era sua maior paixao... Isso foi o que ele me disse em uma das vezes em que esteve em Curitiba...
Um homem de uma sabedoria imensa, que podia sim se dar o luxo de ser esnobe, porque ele realmente era um ser de mais elevado do que nos.... mas nao... preferia a humildade.... atendia e ouvia seu publico com prazer...
Os palcos sentirao sua falta!!!!
Comentário de: José Fernandes Lopes [Visitante]
12.10.07 @ 23:06
Morre um ilustre brasileiro, ator sem-par. Pode até haver alguns iguais; melhor nunca haverá, jamais. Meu abraço de conforto aos familiares.
Comentário de: Leo Carioca [Visitante]
13.10.07 @ 01:01
Já estamos sentindo a falta dele...
Comentário de: Rodrigo [Visitante] · http://www.panoramainternacional.com
13.10.07 @ 01:39
É como uma biblioteca que se incendeia: insubstituível!
Comentário de: Domingos Ernesto Mazoio [Visitante]
13.10.07 @ 06:10


Eterno descanso ao Actor,

Do lado do Indico, em Moçambique, cedo cativou, influenciou e marcou as nossas vidas.

Cecinho (o faxineiro) é nome do meu filho de 15 anos, fruto do dinamismo do actor que vi na novela Sassaricando. Estaria errado?

Seja como for, até sempre e bem hajam todos os feitos de Paulo, o filho do mundo.

Nossos Sentimentos

Domingos Ernesto Mazoio - 38 anos, Maputo
Comentário de: cesar murilo jacques [Visitante]
13.10.07 @ 06:53
Paulo Autran foi um homem com quem tive o prazer de conversar. Com ele e com Karin. Sobre O'Neill, Miller e Durrenmatt. Educado e de uma lhanesa ímpar, não precisava do estrelismo tão perseguido pelos medíocres. Paulo Autran não merece uma lágrima não, só aplausos. Mesmo na morte.
Comentário de: josias lima [Visitante]
13.10.07 @ 08:07

UMA VIDA COMPRIDA [ 85 ANOS ]

UMA MISSÃO CUMPRIDA [ E COM LOUVOR ]

QUANTOS DE NÓS CONSEGUE REALIZAR ESSAS DUAS METAS A CIMA?

POUQUÍSSIMAS. E PAULO AUTRAN FOI UMA DELAS. SUA PARTIDA, PORTANTO, NÃO É MOTIVO DE TRISTEZA, MAS SIM PARA LEMBRAR A GRANDEZA QUE FOI SUA VIDA: A VIDA DE DAR VIDAS A TANTAS VIDAS NO TERRITÓRIO SAGRADO DO PALCO.



Comentário de: Ana Penteado [Visitante]
13.10.07 @ 08:28
Prezado Daniel,

Como sempre vc capta o momento de forma infitamente superior a qualquer um. Estou bem triste e nao tenho palavras. La se foi uma parte da historia do meu Brasil. La se foi o teatro com letra maiuscula. (Vi-o a ultima vez com Cecil Thiré no teatro da FAAP. Que classe).
Comentário de: Luciana [Visitante]
13.10.07 @ 09:08
Enquanto o cinema dá lições de amoralidade e a televisão patina em tramas medíocres, a gente se lembra que existiu um brasileiro sofisticado, um artista incansável, um ator de uma elegância! Ah, será que só nos resta a informalidade, a mediocridade e a amoralidade? Que você nos ilumine, Paulo, a sermos artistas e cidadãos melhores.
Comentário de: patypimentinha [Visitante]
13.10.07 @ 09:57
Quando uma estrela se apaga seu brilho (imagem) percorre uma grande distancia levando anos para não mais poder ser vista brilhando.
Assim será com Paulo Autran e outros que para nosso lamento um dia como fala o Miguel Falabela vão para o andar de cima, Paulo Autran foi ator em uma época em que não havia escadas nem portas dos fundos na tv brasileira, sinto por ter que me contentar cada vez mais com os namorados de direttores gays de malhação ganhando mercado na tv.
Tenho uma lembraça muito legal dele em guerra dos sexos numa guerra ilaria com fernanda Montenegro eu era uma criança e me lembro do bimbo um esperto coroa que me fez rir muito não sei se ele era nem bem um vilão, é muinha melhor lembraça do grande Paulo Autran.

Vai com Deus grande estrela.
Comentário de: Dirceu (visitante) [Visitante]
13.10.07 @ 10:36
Se todos os politicos tivessem a mesma dedicação que Paulo Autran teve com o Teatro, a vida do povo brasileiro seria uma maravilha
Comentário de: Neli Faria [Visitante]
13.10.07 @ 10:37
A ele Força,coragem e confiança em Deus nessa nova caminhada.
Comentário de: Lucas [Visitante]
13.10.07 @ 11:19
Que é isso, 2007? Já nos levou Bergman, Antonioni, Pavarotti e agora Autran...

Poderia citar aqui várias interpretações marcantes de Autran, mas prefiro lembrar de uma entrevista que ele concedeu para a TV, anos
atrás. O ator e a jornalista chegaram ao assunto 'poesia', e ela pediu que Autran declamasse um poema. Ele se virou para a câmera e começou: "Oh, que saudades que tenho da aurora da minha vida..."

Paulo Autran terminou o poema chorando, e eu chorei com ele.
Comentário de: patypimentinha [Visitante]
13.10.07 @ 12:34
lembro lucas

Realmente muito boa lembrança.
Comentário de: Tonho [Visitante]
13.10.07 @ 13:00
Quase todos os dias acostumei-me a ouvir o PAULO
AUTRAN,recitando poesias,contos.Coloco a sua voz
para todo o ambiente.No início achava que era mais
pelo conteúdo do que dizia,mas com o passar do tem-
fui percebendo que era a sua voz,a entonação,clareza
das palavras,um drink ouvindo-o,ancora melhor.

Antigamente era costume citar alguém como instruído,
culto,experiente,só porque tinha viajado muito,conhe-
cido outros lugares.Ou então pessoas que tinham lido
muitos livros era respeitado como sabedor das coisas.
O que diríamos de alguém que entrava nos personagens
com tal maestria que viajava com eles por lugares que
não mais existem ou nunca existiram e que ao invés de
simples turista voyeur convivia com outros vivenciando
dramas, comédias e voltando mais cada vez mais rico?
O que diríamos a respeito de alguém que usou tão bem
a vida,enriquecendo e tornando-nos menos pobres?Para
onde vai toda essa existência?Tenho,mais ainda,preciso
acreditar que ela não finda com a sua partida.Que de
alguma forma fique flutuando como uma nuvem invisível
inspirando quem por aqui ficou e tenha talento para
sintonizá-la.Por que senão a sua partida será por de-
mais injusta e mais pobre a nossa vida.
Comentário de: Tonho [Visitante]
13.10.07 @ 13:02
Em tempos da ruindade em quantidade,quanta qualidade
foi-se.A rede do plim-plim aparelhada pela ignOrância
comunista insiste em colocar no ar por diversas vezes
uma cena pastelão que ele fez com Fernanda Montenegro
em uma novela.Como sempre se auto-elogiando, mesmo as
custas da vergonha das vítimas.E mesmo que uma das ví-
timas tenha sido um dos maiores brasileiros que se não
o maior que ela pode ter tido a honra de usufruir do
trabalho e ainda sequer teve o seu velório encerrado.
Comentário de: Vanderlei Cunha [Visitante]
13.10.07 @ 18:25
Um brasileiro digno, de excepcional talento e profissionalismo exemplar. Sua atuação no palco e na vida deixou este país melhor. Toda escola deveria ter uma disciplina denominada "Paulo Autran" — enriquecendo nosso rumo e a crença de que um Brasil culturalmente mais nobre é possível. Seu lembre-te diário jamais deverá ser esquecido: "...E vamos ao Teatro!"
Comentário de: Vanderlei Cunha [Visitante]
13.10.07 @ 18:29
Um brasileiro digno, de excepcional talento e profissionalismo exemplar. Sua atuação no palco e na vida deixou este país melhor. Toda escola deveria ter uma disciplina denominada "Paulo Autran" — enriquecendo nosso rumo e a crença de que um Brasil culturalmente mais nobre é possível. Seu lembre-te diário jamais deverá ser esquecido: "...E vamos ao Teatro!"
Comentário de: AL [Visitante]
14.10.07 @ 16:34
Perda substancial. Assisti a peça em que ele interpretava um velho judeu e era visitado por um jovem que o atropelara. Sensacional.

Os talentos vão e a nova safra azeda. Com exceções, claro.
Comentário de: Sérgio Roswell [Visitante]
14.10.07 @ 17:23
Prezado Piza,

Meu modesto comentário sobre Paulo Autran foi deletado.

Imagino o motivo.

Mas tudo está registrado...

Oficialmente.

Como você costuma dizer, (no caso do livro do Roberto Carlos, inclusive) :

Em país civilizado isso não ocorreria...
Comentário de: Mariela [Visitante]
15.10.07 @ 14:02
O que é um "país" civilizado, Sergio?
Você consegue definir e exemplificar?
E a propósito, se o nosso não é, o que você faz vivendo nele?


Ao resto da arraia miúda que povoa nossa terra:

Grande perda tivemos,não?
Mas o legado dele fica!
A "história" vai nos dizer ao que eles vieram...
Duro é ter que assistir aos aspirantes de atores, enganados por alguma cigana, e que povoam nossas vidas .
Enfim, ave Paulo Autran!

Comentário de: Zé [Visitante]
15.10.07 @ 16:33
OPelé dos palcos o maior que eu vi
Comentário de: Sérgio Roswell [Visitante]
15.10.07 @ 16:57
Prezado Piza,

Prezada Mariela,

Você tem um bonito nome. Deve ser uma mulher bonita. Sua admiração por Paulo Autran é comovente. Também gostava dele. Como ATOR. Mais ou menos.

Piza, com todo direito, deletou uma mensagem minha, contando uma passagenzinha da vida de Paulo Autran.
Talvez, Mariela, você com sua sensibilidade, se chocasse com o que EU contei...

Quanto ao que é um país civilizado, EU SEI SIM. Já vivi em alguns.

O Brasil NÃO é.

O que EU estou fazendo aqui ?
Boa pergunta...

Essa EU não sei responder...
Comentário de: Pedro [Visitante] · http://www.farolcomunitario.com.br
16.10.07 @ 11:30
Não há homens perfeitos. Há os que brilham em determinada e às vezes determinadas áreas da vida.

Paulo Autran foi um desses grandes gênios, que rareiam atualmente.

Foi para o teatro e para a cultura um ícone.

Fez escola. Vai deixar saudades.
Comentário de: Gus [Visitante]
16.10.07 @ 12:54
É o funil está se estreitando...Raul Cortez, Paulo Autran...

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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br





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