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08.11.09

Passados vinte anos da queda do Muro de Berlim, já houve tempo suficiente para muitas de suas lições serem esquecidas. Os que não haviam nascido ou eram pequenos demais não parecem entender a grandeza envolvida no fato. Mesmo que sejam informados de que representou o fim da divisão de uma cidade, o fim da Guerra Fria e o fim do socialismo, não compreendem nem quanto se sofreu e se lutou para que isso acontecesse nem quais esperanças queriam ser erguidas entre os escombros. A queda do muro não era apenas desejo de ver TV e comer hambúrguer, até mesmo porque ele implicava desejos de outras dimensões; era sobretudo a noção duramente assimilada de que autoritarismo e nacionalismo podem até iludir, mas a médio e longo prazo só trazem desvantagem e desgosto. Chega de conversa fiada: 1989 foi uma reação ao controle estatal e uma afirmação de que toda fronteira fechada é falsa.
Naquele mundo dividido, toda tirania começava pela restrição à informação e à expressão e mesmo os que lidavam com elas, como intelectuais, jornalistas e artistas, caíram em grande número na propaganda oficial de que a democracia era mais bem defendida por regimes autoritários, fossem ditos de esquerda fossem ditos de direita. E qualquer forma de abertura econômica, salvo por conveniência ideológica, era vista como entreguismo ou submissão. Lembro essas loucuras porque elas não têm sido lembradas ou então são lembradas como se fossem detalhes. Quando vejo, por exemplo, tantos autores confundindo os problemas que a internet revela ou amplia com um defeito inerente a ela, não às sociedades humanas, fico pasmo. Sim, devemos criticar a boataria e a palpitaria que se multiplicam como vírus nos meios virtuais; mas esquecer a necessidade de sempre celebrar a liberdade tem um custo muito maior.
Do mesmo modo, me espanta que tantas pessoas digam levianamente que “o Estado voltou” ou algo do gênero quando a crise financeira deflagrada em setembro de 2008 é debatida. Primeiro, repetindo, o Estado mínimo é algo que só existia na cabeça de pseudoliberais um dia batizados de neoliberais. Ao longo de todo o século 20, mesmo em países como os EUA, o Estado sempre foi chamado a socorrer bancos e empresas, por um lado, e pressionado a estender uma rede de proteção social, por outro. Na mão de conservadores como Ronald Reagan e Margaret Thatcher, favorecia mais a concentração do que a competição e se esmerava em moralismo e belicismo, além de promover o preconceito contra os imigrantes. Segundo, há uma enorme diferença entre um Estado que intervém no mercado em seu favor, pontualmente, e o velho, velhíssimo desenvolvimentismo, que supunha que seu papel era comandar a economia, como se dispusesse de dados e recursos suficientes para substituir seu dinamismo cultural.
Vide o governo Lula. Depois de um primeiro mandato mal qualificado de “pragmático”, em que deu uma autonomia branca ao Banco Central para manter a mesma política econômica do governo anterior (juros altos e reservas em dólares para alegria de banqueiros nacionais e estrangeiros), no segundo tratou de gradualmente valorizar o também mal qualificado “planejamento”. Fez acordo com o PMDB do oligarca José Sarney, expandiu seus domínios sobre fundos de pensão, bancos estatais, monopólios e sindicatos – toda a burocracia corrupta e politizada que se dependura nos nossos impostos – e, claro, atraiu os “amigos do rei” para patrocinar compras, fusões e obras. No semicapitalismo brasileiro, os empreiteiros continuam a distribuir as cartas. Se a jogatina tiver um veludo de amparo aos pobres, então, não há quem possa com ela.
Qualquer crítica, como se sabe, não passa de “elitismo”, “torcer contra” e “pensar pequeno”. Sendo esta uma sociedade cujas ideias ainda são em boa parte determinadas pela agenda oficial, é cada vez mais comum ouvir também que não há problema nenhum em ser nacionalista; afinal, “os americanos são nacionalistas, os franceses são nacionalistas”, etc. Bem, uma coisa é saber que o mundo não é um só, reconhecer o sentimento de origem e tratar de defender os próprios interesses porque ninguém mais o fará inocentemente. Outra coisa é achar que sua pátria é o centro do mundo, que seu povo é um povo eleito (pela raça, natureza, língua ou história), e vender a imagem falsa de que estamos à porta do Paraíso. Os mesmos que hoje elogiam o nacionalismo de certos países criticavam, duas ou três décadas atrás, seu ímpeto imperialista.
Há, em suma, um aspecto humanista na queda do muro que tem sido esquecido. Aquela foi uma festa da liberdade em todos os sentidos – econômica, política e moral. Não se tratava apenas de uma defesa do mercado e do consumo, mas também de um alerta contra a natureza do poder. A defesa corrente do estatismo, além de desconsiderar a história do capitalismo democrático (em que Estado e mercado vivem em contínua tensão, mas não em mútua exclusão), põe de canto o fator mais importante: a permanente necessidade de cercear o poder, de conter sua vocação de inspirar o que há de pior na chamada natureza humana. A democracia não é apenas o sistema menos ruim que a humanidade concebeu, mas também aquele que mais resistência pode oferecer a suas próprias distorções. Que os muros mentais sejam derrubados.
("Sinopse")
Comentários:
Comentário de: Emília [Visitante]
08.11.09 @ 09:55Piza,
São muitas coisas num só post, mas vou me deter na questão da democracia e do humanismo.
A democracia permite a cada um a liberdade de expressão, mas obriga a conviver com qualquer coisa, como você bem disse: "Qualquer crítica, como se sabe, não passa de “elitismo”, “torcer contra” e “pensar pequeno”." Essas acusações pífias, mofadas, sem fundamentações, sem autocrítica, que não geram debate para o crescimento social são, a meu ver, uma grande falta de formação humanista, pois esta requer reflexão, não repetições de chavões e slogans de efeito como em propagadas. Infelizmente, tais acusadores (e eles existem de todos os lados) confundem 'humanista' com 'humanitário', e este último, com 'paternalista'. Sim, palavras, jogos semânticos, até. Mas numa sociedade com o grau de sofisticação para usar um copo diferente para cada bebida, por que não usar as palavras onde elas realmente cabem? Aí o debate será de idéias que proponham ações, não socos virtuais.
A velocidade e a técnica nos permitem acesso a tanta coisa que à época da Queda do Muro eram caras e/ou inviáveis. Eu me pergunto, porém, por que tem gente que gosta de usar a técnica em sua capacidade máxima, assim como escutar música (ou o que chamam de música por falta de um novo termo) no último volume. Isso provê apenas dados que não são trabalhados, e a cada novo dado, os anteriores são abandonados. Como as novelas, acaba uma, começa outra sem qualquer conexão com a anterior, mas sem diferença fundamental, e continua-se patinando na superficialidade: pensar dá trabalho, requer observação, auto-crítica, arrependimentos, honestidade, e sobretudo, abrir-se para outros pontos de vista. Enfim, acusações dogmáticas devem ser descartadas; isto pode dar uma sensação de vazio, amputação, aleijamento e desamparo. Precisa ser corajoso, o que raras pessoas são.
Há que se ter a paciência (e mesmo a caridade) de tolerar democraticamente os que não querem ou não podem ter aprofundamento. Acho que é esse o preço a pagar enquanto o país sofrer do mal de baixa educação.
Comentário de: Ronald [Visitante]
08.11.09 @ 14:56Sr. Piza,
A Emília tem razão, são muitos temas num post só e é inquestionável que a queda do Muro tenha consequencias até os dias atuais.
Por outro lado me dá uma saudade muito grande da ilha de liberdade que era Berlin Ocidental ( me recuso a escrever Berlin com M). Deixando de lado temas complexos e pra lá de discutíveis, Berlin era um enorme parque de diversões onde a liberdade excessiva constrastava com o cerceamento de expressão daqueles que ficavam do outro lado do muro. Eu odiava tanto os comunas safados que sistematicamente ia até o Portão de Brandeburgo para subir nas plataformas então existentes para que pudessemos ver o outro lado ( nada havia a não ser uma faixa de terra onde os orientais não podiam colocar seus pés) e lá de cima provocar os guardas da antiga DDR ( ex-Alemanha Oriental ) fazendo sinais com minha mão fechada e o dedo médio levantado...
Curiosamente aquela revolução foi promovida sem um tiro, até nos protestos os alemães foram organizados e ordeiros como sempre ( Eu amo a Alemanha, Deutchland über alles !!! ).
Entendo sua observação sobre o governo do energúmeno-mór como sendo um exemplo triste do velhissímo Estado "desenvolvimentista", metendo o bedelho onde não é chamado como vemos agora o pau-de-arara fazendo com a Vale.
Não surpreende que a existência de muros mentais continue presente em mentes arcaicas, sobretudo dos dirigentes destas republiquetas vagabundas da América do Sul como Argentina, Brasil. Bolívia, Equador e Venezuela, esta comandado pelo Hugorila e sua mente murada e fechada com dogmas ultrapssados, convicções idiotas e muita egocentria.
Tive a sorte de ver o muro em pé e de aproveitar a enorme festa que era Berlin. Kreuzberg era literalmente o "Fim do Mundo", cheio de imigrantes turcos e clubes punk ou de música eletrônica. Alguns anos após a queda do Muro voltei a berlin e pude constatar que aquela aura de fim do mundo tinha dado lugar a um falso sentimento de união, coisa que ainda inexiste hoje, 20 anos após aquele 9 de novembro de 1989.
Entre os próprios alemães, o muro continua presente em aspectos da vida cotidiana, seja na diferença dos salários pagos para ex-ocidentais e ex-orientais, seja nas oportunidades de emprego assim como em outros setores da sociedade moderna alemã.
Minha saudade do Muro tem somente haver com lembranças pessoais de um tempo de alegria e curtição que não voltará nunca mais, afinal hoje estamos 20 anos mais velhos e as responsabilidades não diminuem, só aumentam.
Mas que fique claro, o Muro não existe mais dividindo a maior cidade alemã, mas ele continua de pé e firme na cabeça dos alemães.
Sds
Comentário de: Camila [Visitante] · http://www.inacessivelchao.blogspot.com
08.11.09 @ 15:06Sou uma das que não viveu a queda do Muro de Berlim e toda a euforia e esperança por ela acarretada, mas posso dizer que vejo as consequências de tal fato. A começar pela ausência de ideais que veio quando notou-se que nem tudo seria perfeito, que o lado Ocidental não poderia resolver todos os problemas dos orientais. Claro que as desilusões não podem ser atribuídas somente aos problemas alemães, mas pode-se notar isso no Brasil com a corrupção cotidiana, parecendo provar que não vale a pena ser honesto e que é todo mundo igual. Que nos empenhemos em derrubar os muros que atravancam o caminho, não esquecendo de punir seus construtores.
Comentário de: Alex [Visitante]
08.11.09 @ 17:34Piza,
Voce usou uma palavra que resume tudo: Semicapitalismo. O Brasil adopta este regime desde sempre, heranca portuguesa com certeza. Para ter "sucesso" nos negocios voce tem que ter alguma ligacao com politicos no poder. A segunda opcao e' ser funcionario publico em alguma estatal, funcionario do Senado, do Judiciario e afins. Quem tem algum talento em alguma area e' melhor sair do pais. Os EUA e o Reino Unido sao as melhores opcoes. Pelo menos por la' o capitalismo e' exercido de fato.
Comentário de: josé [Visitante]
08.11.09 @ 17:55Hoje é facil comentar, falar explicar, sobre o muro de Berlim, mas eu fico imaginando quantos muros estão sendo levantados, alguns com materiais como em Israel, outros com preconceito a quem é nacionalista e defende seu pais da exploração irracional capitalista.
Comentário de: Teresa [Visitante]
08.11.09 @ 22:59Ich war dabei!!
Comentário de: Sophia Cordeiro [Visitante]
09.11.09 @ 01:00Cai um muro e a arrogância constrói outro. Gaza testemunhará dia a dia a construção de sua própria prisão. Quantos saudosistas de BerliN, cidade onde ordas de neonazistas crescem assustadoramente. E nem são chamados de inergumenos pelos seus compatriotas!
Comentário de: José Madureira [Visitante]
09.11.09 @ 01:06Piza, no início deste texto de tantos temas você fala do "fim do socialismo". O correto não seria dizer "fim do comunismo"? O socialismo, embora já não embale tantos sonhos como há algumas décadas e tenha realmente iniciado uma rota descendente de popularidade nesse período, não era o regime praticado nos países da Cortina de Ferro. Lá a mão de ferro que mandava (antes da Glasnost do Gorbatchev) era comunista mesmo - e representava o sonho máximo de muita gente que hoje vive para fazer mal ao país nos corredores semicapitalistas de Brasília.
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
09.11.09 @ 07:31Caro José, o comunismo seria a etapa final do socialismo, segundo Marx e Engels, e nela já não haveria Estado nem classes sociais. Os regimes da ex-URSS e do Leste Europeu - e de Cuba - apenas estatizaram os meios de produção na mão de uma burocracia autoritária e produziram alguma igualdade pelo empobrecimento...
Comentário de: Otavio Faria [Visitante]
09.11.09 @ 10:14Daniel,
acho que todos as coisas ditas na sua coluna de domingo, o que mais me impressinou é essa coisa caipira que muitos brasileiros tem. Nós só olhamos para nosso umbigo.
Isso está nos exemplos mais banais do cotidiano, como nas chamadas dos jogos do campeontaos europeus de futebol. Onde as emissoras de TV abertas ou pagas anunciam de maneira ufanista, o Time tal tem 5 braslieiros,e normalemente a midia vai torce para time para ele. Ou quando chegamos na Argentina e as pessoas falam, Brasil, " O mais grande do mundo" em tom jocoso e muitos não entendem se quer a piada, ou no Uruguai, onde não conhecemos quase de sua história e cultura e estado da aulas de português nas escolas ( Esse tema já foi abordado Gustavo Chacra no blog dele).
Esse ar que somos superiores aos vizinhos latino-americano, em todos os aspectos e também a subimssão de quando vem um estrangerio de um pais entendido como civilizado e achamos que ele é quase um E.T ou Semi-Deus é o muro, que devemos demolir. Porém ele foi construido através de anos de má educação e vangloriar tudo, até a miséria do país.
Se na década de 50 Nelson Rodrigues cunhou a expressão, sindrome de vira-latas, acho que logo logo, alguém irá criar uma expressão que possa simbolizar essa tremenda babaquice, que essa ar que vivemos no Paraíso, que muita gente hoje fala ao borbotões. Na minha opinião, acabamos de chegar ao Purgatório
Comentário de: pintassilgo do breque [Visitante]
09.11.09 @ 10:52"ASPAS" DEMAIS!
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
09.11.09 @ 11:15Piupiu, as aspas são para deixar claro que as besteiras foram ditas pelo governo. Questão de atribuição.
Comentário de: Wagner [Visitante]
09.11.09 @ 20:07Piza,
O Brasil realmente não é um país capitalista. Na verdade constitucionalmente o Brasil é um país de economia esquizofrênica. Uma hora adota princípios de livre mercado, como, por exemplo, a liberdade de iniciativa. Hora adota princípios de social-democracia, prevendo (veja bem, prevendo) amplas redes sociais, como se pode ver na lei de assistência social. Por fim, adota princípios de estado socialista, com estado empresário.
Comentário de: Wagner [Visitante]
10.11.09 @ 01:16Piza,
Tudo no Brasil está errado. O povo brasileiro acha que faz parte de uma potência e vive na periferia.
O povo brasileiro acha que a solução das mazelas do Brasil é tributar pesadamente os empreendedores, como se o lucro fosse um pecado, quando na verdade quem desenvolve a nação são as pessoas que tem coragem de empreender.
O povo brasileiro espera que o Estado resolva tudo, quando na verdade o Estado é um estorvo.
Pena que até hoje a mentalidade do brasileiro é tão atrasada que não entendeu que uma pessoa interessada pode resolver os problemas sociais melhor do que um burocrata sem qualquer compromisso com as pessoas para as quais ele trabalha.
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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br
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