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29.06.09

por Daniel Piza, Seção: livros 09:17:51.

Baptistão

Sempre achei que, historicamente, a literatura é a melhor arte brasileira. Se você pensar na música dita erudita, por exemplo, vai se lembrar de Carlos Gomes, Villa-Lobos e poucos mais. O teatro seria bem discreto sem Nelson Rodrigues, como a arquitetura sem Oscar Niemeyer. Nas artes visuais é possível citar mais nomes, como Volpi, Iberê ou Goeldi, mas raramente na escala de ambição de seus pares estrangeiros. O cinema teve rompantes, como Nelson Pereira e Glauber Rocha, e só de uns tempos para cá tem uma produção média mais consistente. Apenas na música popular ou, como prefiro, na canção, de Noel Rosa a Chico Buarque, o Brasil tem boa projeção internacional; e talvez ela, como a TV, a publicidade e o jornalismo, se beneficie por ser um caminho mais acessível de $obrevivência para os talentos. Mas das artes mais densas, por assim dizer, a literatura se destaca.

Mesmo assim, depois de passar algumas semanas relendo clássicos brasileiros por motivos que já explico, digo que a literatura brasileira também não tem a grandeza que alguns dizem ter. Eis um dos motivos: fui um dos convidados por uma editora a selecionar “20 ou 30 nomes” de autores nacionais para um livro que está sendo traduzido com uma lista dos 501 maiores escritores da história. Primeiro, usando a memória e olhando de esguelha para as estantes, cheguei a 60, mas confesso que muitos deles não me falam alto; depois cheguei aos 30, com alguma dor no coração por deixar alguns de fora, mas com clareza na cabeça sobre outros critérios que pesaram, como a importância histórica. Jorge Amado, digamos, entrou na minha lista, mas está longe de ser um autor imprescindível ou apaixonante para mim, um texto que eu anseie por reler com frequência. A literatura brasileira que realmente vale a pena não tem 30 nomes.

***

É melhor eu parar por aqui, senão vão dizer que sou “exigente demais”, “amargo”, etc. Veja o espanto com as opiniões literárias de Manuel Bandeira reunidas agora em Crônicas Inéditas II (Cosac Naify), em que critica, por exemplo, Oswald de Andrade, apontando no Serafim Ponte Grande o sarcasmo repetitivo que impede a vitalidade dos personagens, ao contrário do que ocorre em João Miramar. Bandeira dispara para todos os lados: recusa o “sentimentalismo de impressões” do livro de estreia de Marques Rebelo, o qual se vê também em seu melhor romance, A Estrela Sobe, agora reeditado pela José Olympio; destrói, como naquele poema Os Sapos, o parnasianismo de certos autores dados a latinismos e grandiloquências, inclusive o primeiro Vinicius de Moraes; reclama dos poemas arrastados de Claudio Manuel da Costa e palavrosos de Olavo Bilac. Faz, em suma, o que um crítico tem de fazer: “Não havendo choque, não existe necessidade nenhuma de crítica.”

Embora elogie esquecidos como Ribeiro Couto e Amando Fontes, como notou Almir Freitas na Bravo!, Bandeira faz um corte na produção – do seu tempo e também anterior – e elege os “happy few”: Drummond, Murilo Mendes, Cecília Meireles, Jorge de Lima. A posteridade costuma ser mais cruel que a maioria dos críticos. Ele próprio, Bandeira, que será o tema da Flip que se inicia nesta semana (aonde vou para compor mesa sobre Euclides da Cunha e conferir outras), não é tudo que os admiradores mais fanáticos dizem. Não é preciso ir tão longe quanto ele, que se dizia um poeta menor, um simples lírico, mas ele também se entrega em muitos momentos ao sentimentalismo e à repetição; e suas melhores criações não estão no patamar de Drummond e João Cabral, não têm aquela condensação de ideias e recursos. Mas obviamente eu o poria numa lista dos dez poetas brasileiros.

***

O outro motivo para esta revisão foram duas enquetes que decidi fazer em meu blog, uma sobre as melhores aberturas e outra sobre os melhores fechamentos da literatura brasileira. No momento em que escrevo, quinta-feira, não tabulei os dados ainda. Mas Machado de Assis e Guimarães Rosa, pela ordem, venceram com vantagem, seguidos por Graciliano Ramos. Sim, há grandes livros sem frases iniciais ou mesmo finais especialmente memoráveis – e há livros que começam muito bem, como Macunaíma, de Mario de Andrade, e depois caem na monotonia –, mas como negar a superioridade de Machado e Rosa na construção de cada frase e na arquitetura do conjunto? E olhe que houve muitos votos para autores que merecem mais status e estudo do que recebem, como Raul Pompéia, Rubem Braga, Raduan Nassar, Dalton Trevisan e Otto Lara Resende.

Mais um exemplo da pequena quantidade são antologias como Os Melhores Contos Brasileiros de Todos os Tempos, organizada por Flávio Moreira da Costa (Nova Fronteira). Otto, por exemplo, não está ali, e de Rosa não consta o supremo A Terceira Margem do Rio. Entre os 87 escolhidos, há uma vasta diferença entre os sete de Machado e quase todos os demais, com exceção de Lima Barreto e mais alguns. Como se vê também em antologias de autores contemporâneos, a exemplo do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa ou do número 4 da revista Granta, para não falar de alguns romances que tenho lido, a ficção nacional sempre soa como uma espécie de memória disfarçada, uma crônica rarefeita e emotiva, parasitária de alguma influência mal digerida. Os personagens nunca deixam de ser autobiográficos; o estilo sempre está a reboque de outro. Não se explora a língua nem em seu potencial de pensamento nem de percepção.

***

Listas servem apenas como dicas, caso você confie em quem a faça, mas tenho visto algumas tão extensas – como um livro com "1.001 filmes para ver", o que significa ver muita bobagem – que não se justificam. É um critério que vem de fora, numérico, e não estético. Esteticamente não existem 87 bons contos brasileiros! (Acabo de me lembrar de uma declaração radical de Nabokov: “Os únicos livros que interessam no século 20 são Metamorfose, de Kafka, Ulisses, de Joyce, e Em Busca do Tempo Perdido, de Proust – e mesmo assim só os três primeiros volumes!”) E, se um autor foi capaz de fazer mais de uma obra-prima, é isto que importa. Como já escrevi, o gênio é um sujeito que fez uma obra de gênio, não é um tipo de pessoa. Na hora de escolher os 15 fechos literários, por exemplo, não pude evitar a inclusão de seis de Machado... e olhe que ainda havia mais opções. Quem mandou ser tão bom?

Por um lado, acho ruim que haja tão poucos autores brasileiros numa Flip; por outro, a melhor maneira de defender a literatura nacional, como mostrou Bandeira, não é passando a mão na cabeça, e sim separando o que há de melhor em uma linhagem para que os contemporâneos se meçam por ela. Acredito que haja pelo menos dez grandes livros para você ir direto ao que de melhor se fez nas letras brasileiras. São eles Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado, Grande Sertão: Veredas, de Rosa, Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, O Ateneu, de Raul Pompéia, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque, São Bernardo, de Graciliano Ramos, e os melhores poemas de Drummond e Cabral. Depois leia os outros de Machado, Rosa e Graciliano. E só então siga adiante.

("Sinopse")

 

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Comentários:

Comentário de: André R. [Visitante]
29.06.09 @ 09:42
Daniel,
Gostei de ler esse post. Tenho uma sugestão. Por que também não mencionar com mais frequencia escritores portugueses? Por que não ampliar para "literatura de língua portuguesa"?Afinal, compartilhamos um idioma e uma história. Não estou dizendo que você, ou outros comentaristas, não mencionam autores portugueses, isso acontece, o que estou sugerindo é que no Brasil isso se torne um hábito mais comum, que não nos fechemos. Nos EUA, é bem mais comum, apesar de, claro, haver uma clara noção de literatura americana, se incluir autores ingleses tanto nos cursos de escolas, cursos universitários, e na mídia e crítica jornálisitca. Na Inglaterra também, americanos são muito lidos.
Acredito que incluir com mais frequencia autores portugueses (e também africanos de ex-côlonias portuguesas) só pode ampliar nossos horizontes, inclusive as possibilidades literárias.
Comentário de: jo lima [Visitante]
29.06.09 @ 09:57
essa história de uma crítica que não quer entrar em choque, passa a mão , me lembrou um fato relatado pelo Paulo Francis [ e não me lembro onde eu o li ] = que uma vez francis ouviu de josé uilherme merquior [ não sei se é assim que se escreve o nome dele ] falou a francis que bandeira não era tudo isso. E francis, na época editor de uma revista, o convidou pra escrever e expor essa sua opinião - bem fora do politicamente correto na época. Mas Merquior recusou para não ficar mal com ' a turma'.

Comentário de: Daniel Piza [Membro]
29.06.09 @ 10:00
André: pode deixar. Jo: fui eu mesmo que contei essa história, inclusive no perfil em livro que fiz do Francis. É o problema mais básico da crítica brasileira, o medo de desagradar à patota.
Comentário de: claudio ribeiro [Visitante]
29.06.09 @ 10:33
Existe vida inteligente na literatura, fora Machadão, Mestre Graça e o neologista Guimarães Rosa.Basta procurar direito nas prateleiras dos sebos.E só dos sebos porqe a literatura nacional anda muito mal das penas mais preocupada em copiar estilos do que em criar.
Um dia me encho de ar e faço a minha lista dos 60...(talvez com um titulo Antes dos anos 60).
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
29.06.09 @ 10:37
Pois foi justamente o que escrevi. Penso, por exemplo, em Mario Palmério, que ninguém mais parece ler, e acho isso um absurdo. São mais, embora não sejam tantos...
Comentário de: Eduardo Grandinetti de Barros [Visitante]
29.06.09 @ 10:50
Caríssimo,
Mario Palmério apesar de ter produzido muito menos do que Rosa, anda esquecido
Parabéns , um abraço
Comentário de: fred [Visitante]
29.06.09 @ 11:26
Daniel, nesses últimos posts sobre literatura nacional faltou pelo menos uma menção a dois gigantes quase obscuros de tão ignorados: Osman Lins e Cornélio Pena. Na questão dos melhores desfechos, fiquei impressionado de ninguém ter se lembrado de Avalovara.
Comentário de: Anna H. [Visitante]
29.06.09 @ 11:33
Só ñao concordo com sua definiçao de "gênio", um tanto restritiva. No mais, sigo com você : Machado, Rosa e Graciliano deixaram de herança aos brasileiros uma coletânea de obras geniais (e inesquecíveis, é óbvio).
Comentário de: Sérgio Roswell [Visitante]
29.06.09 @ 13:07
Prezado Piza,

Minha "Personal Training" me espera...

EX-CE-LEN-TE texto. ADULTO.

Falar que MANUEL BANDEIRA não é tudo "ISSO" é legal e EU concordo. Mas, "A NÍVEL DE" brazil-TUPINAMBÁ é ótimo. DRUMMOND é muito inferior a JOÃO CABRAL, que é uma MÉRDA. "QUESTÃO DE GÔSTO".

" A FICÇÃO NACIONAL SEMPRE SOA COMO UMA ESPÉCIE DE MEMÓRIA DISFARÇADA, UMA CRÔNICA (sic) RAREFEITA E EMOTIVA DE ALGUMA INFLUÊNCIA MAL DIGERIDA " ( sic, DANIEL PIZA ).
--- BRILHANTE !!! SIMPLES E VERDADEIRO ! ---.

" NÃO EXPLORA A LÍNGUA ( sic, IDIOMA, nota minha, S.R.) NEM EM SEU POTENCIAL DE PENSAMENTO NEM DE PERCEPÇÃO ". ( sic, DANIEL PIZA ).
--- ÓTIMO, mas ÓBVIO. Mas ninguém tem coragem de dizer isso ---.

A sua lista de PROSA é BOA, ( i.e. o brazil-TUPINAMBÁ nada tem a mais...).

MAS, em matéria de POESIA, DANIEL PIZA é...bom, "TEM MUITO MAL GOSTO" digamos assim. FALA, absurdamente, razoavelmente bem de CECÍLIA, DRUMMOND e outros ABACAXÍS, e nem ao menos menciona AUGUSTO DOS ANJOS, p.ex. E não diz nada, do SENTIMENTALÓIDE, mas bom poeta FAGUNDES VARELLA.

ENFIM. Para um PAÍS DE ANALFABETOS FUNCIONAIS, como é, HOJE, COMO SEMPRE, o futebolístico brazil-TUPINAMBÁ, até que o BANANÃO tem ALGUMA, ALGUMA ( hipervalorizada pelos NATIVOS ), "Literatura" DE SEGUNDA ( 3ª ? ) CLASSE.

MEU DEUS DO CÉU !!

O QUE SERÁ , O QUE SERÁ QUE UM SUJEITO INTELIGENTE COMO O SR. DANIEL PIZA CONSEGUE VER NOS "POETAS" ( aspas ) MODERNISTAS ??

E AUGUSTO DOS ANJOS...NADA !!...

À Hidroginástica ( hoje é mais tarde...).
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
29.06.09 @ 13:11
Obrigado, Roswell. Mas... João Cabral é uma merda, Fagundes Varela é bom? Questão de mau gosto...
Comentário de: Alexandre Couto de Andrade [Visitante] · http://sciencecultureknowledge.blogspot.com/
29.06.09 @ 13:30
Piza,

O que você tem a dizer sobre autores tais como João Ubaldo Ribeiro, Clarice Lispector e José Lins do Rego? Foram pelo menos candidatos a figurar em sua lista? Se não, por que?
Comentário de: Rodrigo Gurgel [Visitante] · http://rodrigogurgel.blogspot.com/
29.06.09 @ 14:54
Parabéns pelo texto, Daniel. Já tivemos críticos que não relevavam a má literatura, mas hoje tornaram-se raros, infelizmente. Gostei desta frase, de ironia lapidar: "A posteridade costuma ser mais cruel que a maioria dos críticos".
Se me permite, gostaria de lembrar um nome importante da prosa nacional: Manuel Antônio de Almeida e seu delicioso "Memórias de um Sargento de Milícias".
Grande abraço!
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
29.06.09 @ 14:57
Está havendo confusão sobre o que escrevi. Uma coisa são os dez livros fundamentais. Outra são os trinta autores importantes. Entre estes, sim, estão Clarice e José Lins, dois que mais têm aparecido nas perguntas por email. Dos vivos incluí apenas Ferreira Gullar e Rubem Fonseca, deixando Ubaldo, Raduan, Hatoum e outros de fora.
Comentário de: Fernando Ludovico [Visitante] · http://www.arquitetandocaminhos.blogspot.com
29.06.09 @ 15:01
"(...) E só então siga adiante." Se tivesse um esquema assim , um núcleo de leitura ou uma faculdade, que chegasse a isso... Mas não se chega a este ponto. Tem escritores que não chegaram a isto..

Bom texto! Piza. Mas e quanto aos poetas Bruno Tolentino e Mário Faustino?

abraço
Comentário de: Carlos Eduardo [Visitante]
29.06.09 @ 15:22
Já que entre os dez livros fundamentais _ e eu gosto muito dessas listas, quando feitas pelo autor do blog, um dos poucos jornalistas atuais com capacidade de selecionar _ foi citado o Raízes do Brasil _ que estou lendo cuidadosamente há quase um mês _ posso dizer que foi uma escolha corajosa.

Normalmente Casa grande & Senzala aparece como o livro que melhor explica o Brasil. É muito citado principalmente pelos tais neoconservadores; eles acreditam que realmente a mistura de raças que aconteceu no Brasil elimina qualquer resquício de preconceito racial. Estão enganados. Freyre e seu séquito.

Sérgio Buarque é verdadeiramente um cientista e sua tese do tal "homem cordial" é a mais devastadora visão que um brasileiro já teve sobre o povo da terra do futebol.

Pena que normalmente o "homem cordial" seja citado como se fosse exemplo para as civilizações avançadas do ocidente.

*

Se na ficção o brasileiro já gosta de ler besteira e de defender besteira _ basta ver a quantidade de gente que reclama quando, numa lista de livros essenciais, não são citados seus queridinhos da mídia e da moda, dessa, e de outras épocas, normalmente autores que se lê sem muito esforço _ no ensaio é que a coisa complica mesmo.

Sérgio Buarque vence Gilberto Freyre. No tempo normal.

*
Machado de Assis nasceu no país errado. Os brasileiros não o merecemos.
Comentário de: Lourdinha Biagioni [Visitante] · http://lourdinhabiagioni.blogspot.com
29.06.09 @ 16:38
Boa tarde, Daniel,

Uma viagem, este seu 'Post'.
E quanto ao último parágrafo: a vida é curta, nem sempre é suficiente para ler todos os melhores. Antes de voltar para reler Machado de Assis "e seguir adiante" tem Érico Veríssimo, O Tempo e o Vento. Tem Jorge Amado. Entremear com Rubem Braga é um presente na vida. Já Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas, pode ser relido entrando em qualquer pedaço do livro. E a sua lista, DANIEL, sendo dos clássicos, talvez não tenha incluido o mais jovem, recente, Milton Hatoun? Seu conto "Varandas de Eva" do livro A Cidade Ilhada é surpreendente.

Quanto ao comentário do leitor Carlos Eduardo sobre Machado, ele não seria o que foi e é se não tivesse sido um brasileiro, vivendo no Rio de Janeiro. E nós o merecemos, sim.

E um abraço para Eduardo Grandinetti de Barros, vou ver o Mário Palmério,confesso que nunca li.

Até mais,
Comentário de: Jamila Tavares [Visitante]
29.06.09 @ 16:52
Oi, Daniel, tudo bem?
Para uma visão ainda mais radical acerca da qualidade da literatura brasileira, recomendo os livros do pesquisador Flávio Kothe - o cânone colonial, o cânone imperial e o cânone republicano, volumes 1 e 2. É uma visão um tanto ácida da nossa literatura, mas vale a pena conhecer suas ideias.

Ah, seus posts são mais do que surpreendentes, são leitura obrigatória.
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
29.06.09 @ 16:53
Olha, Lourdinha e os demais, eu realmente indico para quem quiser ir direto ao melhor aqueles dez livros. Cada um sequencia e alterna do modo que bem entender. Mas não vejo os livros de Erico Verissimo, Gilberto Freyre, Jorge Amado, Mario Palmério e Milton Hatoum entre os dez maiores da literatura brasileira, embora estejam obrigatoriamente na lista dos que valem a pena ler. Ezra Pound chamava essa atitude de "paideuma", o núcleo de leitura essencial que passa de geração para geração.
Comentário de: Sérgio Roswell [Visitante]
29.06.09 @ 17:46
Prezado Piza,

Discorde-se, alí e aquí de DANIEL PIZA, mas, reconheçamos, o "Cara" é uma NECESSIDADE CULTURAL NO JORNALISMO NACIONAL.

A CORAGEM de DANIEL PIZA em FALAR A VERDADE sobre a PAUPÉRRIMA LITERATURA BRASILEIRA, ( PRÓSA ET POESIA ) é ADMIRÁVEL. Digna dos GRANDE E POUCOS INTELECTUAIS DO BRASIL.

A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DE DANIEL PIZA ?

1. SUA ENORME ERUDIÇÃO ?
NÃO;

2. SEU GRANDE SENSO CRÍTICO ?
NÃO;

3. SEU CONHECIMENTO PRÁTICO DAS CONSEQUÊNCIAS DOS FATOS AO SEU REDÓR ?
NÃO;

SUA HUMILDADE.

E ÓLHA QUE DANIEL PIZA NÃO TEM RAZÃO ALGUMA PARA SER HUMILDE...

ESTE "POST", corajoso e erudito, onde EU discordo veementemente de algumas questiúnculas, ME OBRIGA a dizer, com SINCERIDADE :

DANIEL PIZA, SOU SEU FÃ !

DANIEL PIZA colocou (quase) no seu devido lugar, a PAUPÉRRIMA LITERATURAZINHA brasileira, TÃO HIPERVALORIZADA, por ACADÊMICOS-TUPINAMBÁS.

QUESTÃO DE GOSTO não se DISCUTE.

FALARMOS MUITO DA PAUPÉRRIMA LITERATURA BRASILEIRA é, EU acho, PERDA DE TEMPO. O BRASIL PAROU NO TEMPO.

COMO NA MÚSIQUINHA BRAZILEIRA TAMBÉM...( sim, sei que o novo "Post", acima, fala bem da MUSIQUINHA brazileirinha. DANIEL PIZA não é perfeito. ).

ONDE ? ONDE ? ONDE ? PODE-SE ENCONTRAR UM JORNALISTA QUE FALE "NÃO BEM", ELEGIACAMENTE DE "JORGE ESCREVE ERRADO AMADO", "ÉRICO MAIS OU MENOS VERÍSSIMO" e diga, como DANIEL PIZA disse, que NÃO HÁ, NÃO HÁ 80 CONTOS LITERÁRIOS DE QUALIDADE EM 500 ANOS DE brazil-TUPINAMBÁ, NUM PAÍS DE 200 MILHÕES DE HABITANTES ??

Onde ? Onde ? Onde ?

SÓ DANIEL PIZA disse.

Parabéns e OBRIGAAADOOO !! DANIEL PIZA !!

MAS, a MUSIQUINHA brazileira-TUPINAMBÁ também é uma MÉRDINHA...
Comentário de: Carlos Augusto [Visitante]
29.06.09 @ 20:58
Eh, Piza, você é corajoso. Mas crítico de verdade deve sê-lo. Sempre achei que há livros que devem ser lidos, e, no meu entendimento, a verdadeira literatura remete aos clássicos. No Brasil, vejo Machado de Assis, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos como expoentes dessa verdadeira literatura, ou seja, são originais. Dia desses, estava eu lendo Os trabalhadores do Mar, Victor Hugo, e senti todo o prazer que um clássico é capaz de despertar no leitor, história inesquecível, personagens bem-gerados, narração que impressiona. Quando terminei de ler o livro, minha língua proferiu em tom de reverência: isso é que é literatura.
Recentemente, comecei a ler um livro de contos Café Titanic, do escritor sérvio Ivo Ándritch, Prêmio Nobel de 1961. No meu modo de ver uma aula. O conto que dá título ao livro, então, é uma jóia. Para mim, uma grande descoberta neste ano, Ivo Ándritch.
Comentário de: Alex [Visitante]
30.06.09 @ 04:16
Piza

Well done. Da sua lista de dez eu so' tiraria "O Ateneu" e incluiria "Fogo Morto" do Jose' Lins. No mais, tudo certo. O meu dilema e' entender como um pais como o Brasil, como ja foi dito acima, com 500 anos de historia e 200 milhoes de habitantes nao consegue ter um time de ao menos 10 grandes escritores, 10 nao, 5. Nao temos 5 escritores que entrariam no panteao mundial. Temos 2. Devemos reverencia-los insistentemente. Quantos tem a Russia?

Nao da' para nos comparar com Franca ou Inglaterra, mas veja os EUA. Te faco uma lista de 15 e tu me diz se 10 deles sao ou nao grandes: Faulker, Whitman, Emily Dickinson, Henry James, Edgar A. Poe, Hermann Melville, Hart Crane, Ezra Pound, T.S. Elliot, F. S. Fitzgerald, Walace Stevens, Saul Bellow, Phillip Roth, Thoreau e Ralph Emerson. Nada mal, hein. Por que eles tem e nos nao?
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
30.06.09 @ 07:21
É verdade, Alex, e olhe que você não citou Mark Twain, John Cheever e J.D. Salinger, três que admiro intensamente!
Comentário de: José Guedes [Visitante] · http://colunaintruso.com.br
01.07.09 @ 00:11
Caro Piza,
pra você a arte contemporânea brasileira não é de ponta? O que me diz de Cildo Meireles, Antonio Dias, Hélio Oiticica, Mira Schendel, Lygia Clark, Amilcar de Castro, José Rezende, Waltercio Caldas, Leonilson, Ernesto Neto,Tunga...
Comentário de: NaoDigo [Visitante]
01.07.09 @ 01:02
Boa pergunta Alex e senhor Piza.

.Vamos analisar sua pergunta.Voce deu exemplos e vamos ver quem sao essas pessoas. Se voce notar vera que dos 7 primeiros que encontrei todos sao de familias abastadas. Infelizmente a nossa "zelite brasileira" e burra e nao cria nada.Se rico nao faz quem me dera o pobre que a maioria no Brasil e nao tem ambiente para desenvolver qualquer potencia. Todo conhecimento academico da zelite e inutil e decorado.
So ficam aprendendo coisa que alguem ja fez na Europa e ficam regurgitando conhecimento em coquetel de bacana para "ingles ve".

John William Cheever was the second child of Frederick Lincoln Cheever and Mary Liley Cheever. His father was a prosperous shoe salesman and Cheever spent much of his childhood in a large Victorian house in the genteel suburb of Wollaston, Massachusetts. In the mid-twenties,

Emily Elizabeth Dickinson was born at the family's homestead in Amherst, Massachusetts, on December 10, 1830, into a prominent, but not opulent, family.[5


Henry James was born on April 15, 1843 in New York City into a wealthy family. His father, Henry James Sr. was one of the best-known intellectuals in mid-nineteenth-century America. In his youth James traveled back and forth between Europe and America.

T.S> Eliot was born into the Eliot family of St. Louis, Missouri. His father, Henry Ware Eliot (1843–1919), was a successful businessman, president and treasurer of the Hydraulic-Press Brick Company in St. Louis;

Born in St. Paul, Minnesota, to an upper-middle class Irish Catholic household, Fitzgerald was named after his famous relative Francis Scott Key, but was referred to as "Scott". He spent 1898–1901 in Syracuse and 1903–1908 in Buffalo, New York, where he attended Nardin Academy.[2]

Wallace Stevens (October 2, 1879 – August 2, 1955) was a American Modernist poet. He was born in Reading, Pennsylvania, educated at Harvard and then New York Law School, and spent most of his life working as a lawyer for an insurance company in Connecticut.

Emerson was born in Boston, Massachusetts on May 25, 1803,[3] son of Ruth Haskins and the Rev. William Emerson, a Unitarian minister who descended from a well-known line of ministers.









Comentário de: F. S. Monteiro [Visitante]
01.07.09 @ 07:10
Prezado Alex: obrigado por lembrar de “Fogo Morto”, um romance injustamente esquecido que – ao contrário de outras obras de José Lins do Rego – não envelheceu. Pra mim, “Fogo Morto” é pelo menos tão bom quanto “Vila dos Confins” de M. Palmério.

Quanto à eterna discussão sobre a (pouca) quantidade de literatura de nível internacional que o Brasil teria produzido em cinco séculos de história, se comparado aos EUA ou outros países americanos, gostaria de lembrar três fatores que possam ajudar a compreender o porquê:
1. A cultura impressa brasileira não tem cinco séculos; tem, no máximo, uns dois e pouco. Sem imprimir, era/é difícil divulgar, ler, e escrever.
2. As tiragens dos livros impressos no país são de pequenas a ínfimas, impossibilitando uma distribuição a nível nacional. Sem divulgar, etc.
3. O Brasil nunca investiu pesado em educação primária. Sem boas bibliotecas escolares (pra não se falar das bibliotecas domésticas), fica difícil criar novos leitores e incentivar jovens talentos literários.

Certamente existem outras causas, mas essas devem ser as principais. Então, dadas as circunstâncias, já é um milagre termos escritores do nível universal de Machado, Rosa, Graciliano, Clarice Lispector, Drummond, Cecília Meireles e – por que não? – Mário de Andrade (o nosso Jean Cocteau). Sem falar da “segunda divisão”, que se faz presente nas lembranças dos leitores, e nas traduções e antologias internacionais.
Comentário de: Fabíola Leal [Visitante]
01.07.09 @ 10:27
Caro Piza,

Não concordo quando você afirma que as melhores criações de Bandeira não estão no patamar de Drummond e João Cabral. Bandeira não deve ser lido apenas como lírico e sentimentalista. Isso fica para os leitores de passagem. Alguns de seus poemas tratam profundamente da angústia humana. Ele é verdadeiramente moderno.
Há também um humor em sua obra que não está ao alcance de todos.
Quem gosta de poesia adora Bandeira.
Entendo que os três são os maiores poetas do século XX. A classificação entre eles é questão de gosto pessoal. Para mim, Bandeira é o maior.
Comentário de: George Marques [Visitante]
01.07.09 @ 13:34
Piza,

Há alguns anos, você escreveu na coluna "Sinopse" (se não me engano, ainda no tempo da "Gazeta Mercantil") que seria importante avaliar a "qualidade média" da literatura brasileira, pois seria a partir de uma produção consistente de bons livros que seriam dadas as condições para os "saltos de qualidade", a criação de obras-primas.

Lembro que fiquei intrigado com seu argumento à época (e peço desculpas se não estou reproduzindo adequadamente suas idéias). O que me intriga é que a "qualidade média" da literatura brasileira mais recente é boa, sem ser ótima, mantendo uma boa tendência histórica. Escritores como Erico Verissimo, por exemplo, ofereciam livros sempre interessantes e de qualidade. Jorge Amado, apesar das limitações, foi sempre um bom narrador, um bom contado de histórias. Romances de Cony ("Antes, o Verão") e Fernando Sabino ("Encontro Marcado") ofereciam boas análises psicológicas. Pudemos contar com boas crônicas sociais, ainda que o grande romance urbano brasileiro não tenha sido escrito. Tivemos a prosa inquieta de Clarice Lispector. Hoje temos os livros de Milton Hatoum, Bernardo Carvalho e Cristóvão Tezza, autores sérios, honestos e competentes em seu ofícios.

E no entanto, apesar dessa consistência na qualidade média da literatura brasileira nas últimas décadas, ainda não surgiram as verdadeiras obras de gênio, grupo ainda restrito (ao meu ver) aos livros de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos.

Talvez a tal "qualidade média" seja condição necessária, mas não suficiente, para o "salto de qualidade". Mas o que estaria faltando, então?
Comentário de: Daniel Piza [Membro]
01.07.09 @ 16:52
Caro George, quem dizia isso era o José Paulo Paes, não eu. Sempre discordei da tese dele porque acho que é preciso uma alta qualidade média, gente como Cony e Hatoum (não os best sellers em geral, como queria JPP), mas isto também não é garantia de que os gênios virão...
Comentário de: Alex [Visitante]
01.07.09 @ 17:24
Caro NaoDigo

Obrigado por tentar responder minha pergunta e ainda ilustrar com a origem de alguns dos autores. Mas, se eu entendi bem, eu nao me contento com a sua resposta. Nascer em familias de excelente condicao social nao e' pre-requisito para a genialidade. A lista e' grande, mas cito apenas Machado de Assis e Albert Camus, ambos nasceram bem longe das condicoes dos autores que voce citou. Este tipo de vitimismo acomodado e' algo que devemos nos livrar o quanto antes.

Caro Monteiro

Para mim, "Fogo Morto" e' uma representacao do Brasil. Aquilo que gostariamos de ser confrontado com aquilo que realmente somos. O livro foi magnificamente narrado e com uma riqueza enorme nos personagens, que devem ter feito parte da vida real do Jose' Lins.

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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br





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