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17.05.09

Sempre ouvimos que a beleza é subjetiva, que muda de acordo com o tempo, o lugar e o observador. “Ah, na Renascença os homens gostavam de gordinhas”, fala-se, em contraponto à magreza valorizada hoje em dia. Também se diz que a beleza é relativa, comparativa, porque um prédio pode parecer bonito até que outro mais bonito ainda surja ao lado. E que a beleza é uma qualidade decorativa, um atributo de superfície, um dado da anatomia; mulheres em especial gostam de dizer que não fazem questão de homem bonito, que é melhor que ele seja charmoso, interessante, divertido, etc. “Gosto não se discute”, eis a palavra final, quando já existe a certeza de que o outro discorda.
Mas esses lugares-comuns não explicam fenômenos que podemos ver a todo instante, ainda mais num mundo de distâncias reduzidas como o atual. Não me esqueço da cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim que vi num grande telão em uma avenida que estava lotada de chineses e turistas. Como cada delegação era aplaudida pelos compatriotas, pudemos ver que havia gente do mundo todo. De vez em quando, a câmera dava closes em atletas mundialmente famosos ou nem tanto. E quando eram bonitos – eles ou elas – havia um “oooh” generalizado. Combinações harmônicas de volumes proporcionais, traços nítidos e cores viçosas transcendiam características locais e tinham apelo universal.
Por esse motivo, estudiosos de diversas disciplinas tentam há muito tempo definir o que é beleza, encontrar uma espécie de lei que a determine. É o que fazem de novo dois livros recém-publicados em inglês, The Art Instinct, de Denis Dutton, e Beauty, de Roger Scruton. Dutton, editor do ótimo portal Arts & Letters, tenta entender o prazer da beleza à luz da evolução de Darwin. Ele mostra como o design cerebral favorece equilíbrio e movimento e se deixa seduzir por simulações que lhe pareçam informativas e estimulantes, pois somos seres contemplativos: aprendemos pela imitação. Scruton, grande crítico conservador, autor do estudo sobre modernismo The Banquet Years, procura associá-la à racionalidade humana. Queremos partilhar uma experiência alheia de um modo que é ao mesmo tempo ordenado e peculiar e, por isso, nos leva ao exame e autoexame crítico.
Muito do que ambos dizem me parece correto, mas também limitado. Sim, é verdade que há exemplos de beleza humana e artística que ultrapassam gerações, e o simples fato de que resistiram a tantas mudanças de valores é uma prova de que o subjetivismo e o relativismo não bastam. Mas não vamos muito longe se desprezarmos o enorme espectro de estilos que podem conter beleza; ou seja, ela parte de noções como proporcionalidade ou vitalidade, e não chega a elas. O Parthenon ou a Notre-Dame são simétricos, mas os ritmos, espaços e detalhes dão outro grau de expressividade à sua forma geral. Beleza, nem mesmo no rosto humano ou nas artes funcionais, não é o mesmo que perfeição métrica.
Mais importante: arte não se faz só com beleza. Umberto Eco foi feliz em fazer um livro chamado História da Beleza e depois outro História da Feiura. Mulheres pintadas por Picasso com dois olhos do mesmo lado e soltando gases foram e são consideradas feias, mas a linguagem do artista é de uma tal riqueza em si, inclusive ao recorrer a combinações cromáticas e linhas marcantes, que vemos beleza ali. A história da arte está repleta de usos do “mau gosto” para explorar composições inovadoras. Dutton fala em “complexidade” e “seriedade” como virtudes da grande arte, mas novamente são termos enganosos: não há uma simplicidade melódica em Mozart que nos cativa antes de mais nada e não há uma infinidade de obras iconoclastas ou despretensiosas como uma cena de Charlie Chaplin?
Podemos ter um instinto de beleza que nos diz, por exemplo, que a estátua de Borba Gato na Avenida Santo Amaro é um horror – proporções grotescas, execução tosca, rigidez involuntária –, o que não impede que alguém diga que a acha bonita ou interessante (cada louco com sua mania, etc). No entanto, é mais fácil estabelecer critérios objetivos para dizer o que não é bonito do que o que é. Como a beleza precisa sempre trazer o tom da surpresa, como quando se vê alguém bonito entrar numa sala ou quando reentramos em Chartres, ela não pode ser reduzida a uma fórmula, biológica ou idealista. É justamente por isso que podemos nos situar no contexto da época para ver como aquela nova modalidade de prazer estético surgiu. Se beleza pudesse ser facilmente encontrada, não a procuraríamos tanto. Procurar é belo.
A ARTE DE EXPOR (1)
Realismo é outra dessas palavras complicadas, que de tão usadas perdem seu sentido. Andando pela mostra O Realismo, cheia de obras-primas francesas do Masp, D’Orsay e da Coleção Berardo de Lisboa, além de alguns paralelos brasileiros, verificamos isso mais uma vez. O termo designa obras que se aproximam da realidade exterior tal como é, que tentam retratá-la de um modo mais fotográfico ou então com alguma intenção de observação social. É o que temos, por exemplo, nas paisagens de Corot, nos retratos de Courbet ou na Família Dubourg, de Fantin-Latour. Mas nenhum artista é 100% realista, nenhum jamais pretendeu captar imagem como uma câmera – mesmo antes de existirem câmeras! Ou você acha mesmo que a Mulher Nua com Cão não foi uma cena montada e adaptada por Courbet? Nem mesmo uma fotografia é neutramente objetiva.
E, claro, existem muitos realismos. Os impressionistas foram acusados de contrariar a noção de arte (e do belo) como registro perfeccionista da realidade, mas seu gesto era realista não só na aproximação às cenas corriqueiras em vez das míticas ou históricas, mas sobretudo na tentativa de captar a natureza fragmentária e cambiante da luz. Acontece, porém, que a mostra se expande para exemplos de Van Gogh, Picasso e até surrealismo e abstracionismo, como se qualquer vestígio de representação literal significasse realismo. Seja como for, realistas ou não, há diversas pinturas belas e inéditas para ver no Masp, como as de Rousseau, Soutine e Balthus.
A ARTE DE EXPOR (2)
Também parte do Ano da França no Brasil, vi a exposição de Léger na Pinacoteca. Não tem muitos exemplos de sua melhor fase, embora o paralelo com Tarsila seja importante para reduzir um pouco as aclamações locais à originalidade dela. O destaque são as ilustrações que Léger fez para livros de poesia, onde solta seu gosto pela linguagem gráfica, que nas pinturas muitas vezes se amarra numa composição quase clássica em sua necessidade de preencher o espaço com a geometria de formas industriais. O curioso é que Tarsila leva isso para paisagens bucólicas, como se fossem pôsteres graciosos.
Vejo conservadores – que detestam qualquer exemplar de arte abstrata e conceitual – exaltando Vik Muniz até por contraste, já que suas obras lidam com figuras tradicionais em tratamento pop. Esse tratamento inclui alimentos como chocolate e parece se basear no velho discurso sobre a questão do consumo que vira ele mesmo, discurso, um objeto de consumo... Mas ninguém vai ver Daniel Senise na Estação Pinacoteca. Sim, são pinturas austeras demais, que muitas vezes não ultrapassam o jogo visual da profundidade. Em alguns momentos, porém, ele cria forte sensação de estranhamento, com deslocamentos de perspectiva que lembram os vazios de De Chirico e camadas de textura que remetem à melancolia de Kiefer. Nem sempre a boa arte tem alcance universal.
("Sinopse")
Comentários:
Comentário de: GUILHERME CIMINO [Visitante]
17.05.09 @ 09:29Acho que foi no penútimo concurso de Miss Universo (mais uma vez, infelizmente, apenas com concorrentes terráqueas) que a brasileira perdeu para uma japonesa e muita gente considerou o resultado injusto; eu, pessoalmente, achei a brasileira comum, arroz de festa em concursos de Miss, enquanto vi uma beleza oriental muito mais atraente e renovada.
A Música do Século XX traz consigo uma beleza perturbada, mescla de um realismo e de um futurismo ao mesmotempo urbanos e psicológicos.
Uma beleza não apaga a outra. O que é belo hoje, sempre será belo, basta que seja, novamente, hoje.
Comentário de: antonio bezerra neto [Visitante]
17.05.09 @ 10:25Piza, mais um post inteligente! Definir a beleza por uma espécie de lei que a determine é um atentado aos pressupostos mais caros da antropologia cultural. A beleza é uma vicissitude qualquer definida pela empatia humana. A vida é muito complexa para aferir a ideia do belo. A beleza é um perpassar estranho, inusitado, cheio de percalços, sitiada pelo tempo. O bom é esperar o crivo do tempo. Tenho um juízo de beleza sui generis. A beleza clássica (masculina e feminina) não me atrai. Tenho outro pendores, felizmente.
Comentário de: Fey [Visitante]
17.05.09 @ 14:03Acho que existe é uma confusão semântica das palavras "belo", "gosto" e "moda".
Lembro de ter ido ver a exposição de Monet em Masp. Nunca tinha visto tanta gente lá (graças a um feito raro do museu: boa divulgação), era a "moda" falar do Monet.
Não achei os seus quadros tão especiais. Não eram do meu "gosto", mas admito eram "belos".
Ironicamente na mesma exposição podia se ver algumas artes impressas japonesas das quais o Monet se inspirou pra desenhar alguns de seus quadros, as quais gostei mas não achei belas na época.
A sua beleza foi crescendo dentro de mim só depois que fiquei sabendo do trabalho árduo e meticuloso pra fazer essas impressões. O artesão é obrigado a talhar diferentes imagens em várias tábuas, usar tinta e pressão de maneira cuidadosa e ir sobreponto os diferentes detalhes no papel final. E apesar de um processo difícil que pode induzir a vários erros como esse, oque podemos ver é uma imagem simples e precisa.
Acredito que a beleza pode ser cultivada dentro da nossa mente se soubermos um pouco mais do trabalho que há por trás de cada arte, objeto, paisagem ou música. Senão permanecemos na superficialidade da moda.
Comentário de: Jonas [Visitante] · http://gymnopedies.blogspot.com
17.05.09 @ 17:56O mais fascinante nas pinturas do Senise é o modo como ele parece criar arquiteturas imaginárias com aquele jogo de perspectivas.
Comentário de: Lerdo em Surtar [Visitante] · http://recantodasletras.uol.com.br/autores/ykhrojaciel
17.05.09 @ 22:17Os poetas falam de beleza e harmonia, à exaustão.
Realmente, estética é algo que explora a surpresa.
A reação é que pode ou não ser duradoura - e quanto mais perdurar a impressão... subjetiva se provará ser.
Comentário de: antonio bezerra neto [Visitante]
17.05.09 @ 22:24Piza, permita-me o registro: Morre em Montevidéu o poeta Benedetti. Sua lira praticamente não foi traduzida por editoras do Brasil. Que fique o registro do poeta numa entrevista concedida recentemente: Estaré donde menos lo esperes. Por ejemplo, en un árbol añoso de oscuros cabeceos...".
Comentário de: Octavio Lacombe [Visitante] · http://octaviolacombe.blogspot.com
18.05.09 @ 10:17Piza,
o belo pode ter apelos dificeis de explicar, mas eh possivel aprender a apreciar o belo quando se entende os engendramentos das obras de arte. Repertorio seria uma chave para ultrapassar o senso comum do belo. Ha beleza na arte figurativa, no abstracionismo geometrico, na arte conceitual.
Uma resposta possivel a apreciacao do belo talvez seja atraves dos modos de recepcao da obra de arte. Chklovski formulou bem sua teoria em 'A arte como procedimento': " A arte eh feita para dar a sensacao da coisa como coisa vista e nao como coisa reconhecida; o procedimento da arte eh o procediemto da representacao insolita das coisas, eh o procedimento da forma confusa que aumenta a dificuldade a duracao da percepcao, porque em arte o processo de percepcao eh um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte eh o modo de viver a coisa no processo de sua consecucao, em arte aquilo que esta feito nao tem importancia".
Isso nao explica como a harmonia simetrica exerce tanto poder sobre a percepcao e seja apreciada como o belo belo, muito pelo contrario, mas a formulacao em si ja eh bela!
Abracos
Comentário de: Daniel Cabral [Visitante]
18.05.09 @ 11:22Piza,
Uma vez eu li no portfólio de um escritório de design, a seguinte epígrafe:
"A beleza não se opõe ao que é feio; ela se opõe ao que é insignificante."
Levo esse mantra comigo desde então. A idéia de que belo e feio não sejam opostos, mas antes laterais intercambiantes, que jogam um com o outro, me abriu enormes possibilidades.
Comentário de: César Jacques [Visitante]
19.05.09 @ 08:12Meu caro Piza, vou fazer aqui uma mudança para a Arte de Ver. Tu, que tanto lês, diga-me se já leste algo sobre o que penso. A Pop Arte, para eu, é um despertar, ávida por dinheiro como Drácula por sangue, da Arte Déco. Andy Warhol ao pintar sua latas de sopa Campbell e suas caixas de sabão Brillo, nada mais fez, em novo estilo e com outro rótulo, do que já fazia Tamara de Lempicka no entre guerras do séc. XX com a aristocracia e a classe endinheirada, pintando seus retratos.
Nunca li nada sobre este meu modo de pensar os dois movimentos artísticos. Comprei esta semana o livro de Peter Gay, Modernismo, mas ainda não comecei a lê-lo por estar lendo Nixon e Kissinger. Vou ver se ele fala algo sobre o que penso. Se souberes de algo ou pensares diferente do que explanei, traga à estampa. Um abraço.
Comentário de: Sérgio Roswell [Visitante]
19.05.09 @ 14:19Prezado Piza,
Como já havia dito no "POST", meu, que foi censurado, gósto muito, muito mesmo, do trabalho gráfico do BAPTISTÃO.
Não sei se é DESENHO ou COLAGEM, mas é um trabalho ARTÍSTICO muito BONITO e SENSÍVEL. Valoriza muito, muito, o seu "BLOG" ( nunca ví BAPTISTÃO mais gordo em minha vida...).
Queria, EU, muito, ter talendo para DESENHAR. Fazer CHARGES. Frequentei o MUSEU LASAR SEGALL, em SÃO PAULO CITY, para aprender a desenhar. Não consegui terminar o curso, pois, profissionalmente, na época, tive que sair de São Paulo City.
Sou fã do "AROEIRA" também. Acho suas charges deSmaiS. O "traço" de seus desenhos me agradam muito.
MAS, O BAPTISTÃO É DIFERENTE. OUTRO "ESTILO" ( cada um, acho, tem o seu...). Além de uma figura muito bonita ( é SÓ DESENHO ? é COLAGEM TAMBÉM ? ). Admiro, MAIS, quando É SÓ DESENHO...
O QUE O BAPTISTÃO FAZ é uma FORMA DE ARTE. Muito bonita. Meus modestos, embora abalizados, PARABÉNS.
E ao 'AROEIRA" também...
Comentário de: André Felipe [Visitante]
20.05.09 @ 22:55Caro Daniel,
Beleza é uma questão de Gosto. Os critérios de julgamento são influenciados, sim, por aspectos culturais e pelos instintos, mas são determinados, principalmente, pelas paixões. Por isso, é que qualquer tentativa honesta de definição ou apreensão do Belo, necessariamente, explicita sua subjetividade. Abs.
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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br
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