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29.03.09
Poucas pessoas teriam tantas condições para perceber os movimentos da arquitetura contemporânea de São Paulo como Cristiano Mascaro. Formado em arquitetura e um dos melhores fotógrafos do Brasil, ele está acostumado a observar em detalhes esta cidade “muito eclética, que se destrói e se reconstrói” – e captar o que se destaca, muitas vezes sem alarde. Nos últimos anos, tem tido a satisfação de encontrar casas e prédios que resistem ao tempo, que somam design e humanismo a uma paisagem ainda marcada pelo convencional e pelo mau gosto, por um “neoclassicismo” datado e deslocado.
Mascaro fotografou especialmente para o Estado algumas dessas obras que têm seduzido seu olhar. “Não são monumentos, que por definição são vistos o tempo todo, mas trabalhos que se caracterizam pela contemporaneidade”, diz o pai de Teresa Mascaro, ela também arquiteta. Entre as obras que ele escolheu para retratar, estão públicas e privadas, residenciais e comerciais. Há uma igreja, a Catedral de Campo Limpo, de Maria do Carmo Vilariño, Luís Mauro Freire, Fabio Gonçalves e Zeuler Lima, e um conjunto habitacional em Heliópolis, de Héctor Vigliecca. Outros dois exemplos são a estação do metrô Dom Bosco, de João Walter Toscano, e o Terminal da Lapa, do escritório Núcleo de Arquitetura.
Mascaro sempre busca o ângulo e a luz que lhe permitam mostrar as linhas do projeto e seu diálogo com o ambiente urbano. Foi justamente isso que ele registrou no caso do terminal. Um dos arquitetos que o assinam, Luciano Margotto (com Marcelo Ursini e Sérgio Salles), diz que a preocupação era fazer uma obra que “não tirasse o protagonismo do espaço público” (a praça Miguel Dellerba), mas tivesse uma arquitetura rica, que valoriza a luz natural, variações em torno da simetria e as árvores do pátio interno.
Para Margotto, é cedo falar em uma “tendência” de valorizar uma arquitetura mais criativa em São Paulo, mas ele diz que há de fato muitos arquitetos de talento que surgiram recentemente. “Se houvesse mais espaço para eles, estaríamos bem melhor hoje.” Já o uruguaio radicado no Brasil Héctor Vigliecca, que se queixa do desrespeito ao projeto original de sua obra, na qual mudaram posição, cor e acabamento, afirma, mesmo assim, que não tem dúvida de que a tendência existe. Graças ao acesso a publicações e internet, há também um público em busca dessa arquitetura. Vigliecca só faz a ressalva: “Em arquitetura como design, já melhoramos. Mas, em arquitetura como cidade, avançamos pouco. Não há debate sobre isso no Brasil. Veja o plano habitacional lançado nesta semana: ele fala em construir casas, não em pensar cidades.”
As fotos de Mascaro trazem ainda exemplos como uma escola estadual na zona norte, E.E. Pedro de Morais Victor, dos arquitetos Angelo Bucci e Alvaro Puntoni, e um predinho comercial do escritório Triptyque, na Vila Madalena, cujo exterior as plantas e os musgos vão modificar com o passar do tempo. Na escola, destacam-se a iluminação e ventilação com “brise-soleils” e a posição central da quadra sob grandes painéis do grafiteiro Speto. “A obra pública não pode ser apenas uma questão de preço. O equipamento tem uma função de cidadania”, diz Bucci, que conta que até mesmo jovens profissionais como calculistas de estrutura, antes raros, têm surgido agora. “Dos anos 90 para cá a arquitetura brasileira voltou a falar com o mundo."
Comentários:
Comentário de: Eloisa Zeitlin [Visitante]
29.03.09 @ 16:49Depois que li "ARQUITETURA DA FELICADADE"Alain de Botton,Passei a ter uma relação diferente com as obras arquitetonicas.
Hoje sei o que me trás felicidade ou infelicidade nas edificações em que olho.
Comentário de: antonio bezerra neto [Visitante]
29.03.09 @ 21:30Mascaro é ótimo em p&b. É essencialmente um animal urbano. Ótimo post. É bom passear por este espaço feito de tantos assuntos.
Comentário de: Emília [Visitante]
29.03.09 @ 23:09A arte de escolher o tema e o ponto de vista justifica mais uma vez o status de arte da fotografia.
Acredito que esta abundância do pseudo neoclássico pela cidade seja um grande medo de "errar" e de ficar datado. Mostra a rotina autoimposta e, paradoxalmente, uma aversão à mudança numa cidade em constante mutação, como se se quisesse manter um passado que jamais existiu: São Paulo escondendo suas origens pobres e provincianas antes do café.
A arte documental de Mascaro, além de bela, agradável, tem a eficácia de chamar atenção para detalhes que passam despercebidos no cotidiano. Num contraponto do belo que se torna feio ao se macular pela entrada neste mundo, as fotos tornam belo o que poderia ser insosso ou simplesmente útil.
Isso é que é ensinar a olhar...
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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br
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