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22.11.09
No futebol, “paulistinha” é outro nome para “tostão”, uma pancada na lateral da coxa que, mesmo sem muita força, dói para caramba. O cidadão paulistano leva “paulistinhas” o tempo todo, em especial do poder público. A mais recente é o projeto do prefeito Gilberto Kassab de aumentar o IPTU em até 40% para imóveis residenciais e 60% para comerciais. Alega que é para acompanhar a valorização deles, mas na cracolândia o aumento será muito maior que na avenida Paulista. E por que diachos o imposto tem de acompanhar súbita e exatamente a valorização? Não sofrer um confisco desses, tão acima da inflação, é o direito prioritário do contribuinte. Na realidade, o objetivo é arrecadar mais R$ 744 milhões no ano que vem, assim como o governo Lula quer recriar a CPMF com o nome de CSS, afinal a economia passou por marolinha... O assunto nada tem de paroquial: reflete a mentalidade brasileira de que a sociedade deve servir ao Estado, não o contrário. A máquina pública não pode perder jamais.
No caso de São Paulo, uma cidade que deveria lutar para mostrar que as vantagens do desenvolvimento (geração de empregos, vitalidade cultural, liberdades individuais) são maiores que as desvantagens (trânsito lento, custo de vida, desgaste físico), essa máquina tem particularidades. Para não ir mais atrás, a nomes como Adhemar de Barros, eu diria que seus piores exemplos se exprimiram em alcaides como Jânio Quadros e Paulo Maluf. Jânio era o prefeito-bedel, que acha que deve não apenas cuidar da administração, mas sobretudo do estado moral da cidade, com aparições corretivas, de dedo em riste. Maluf era o prefeito-empreiteiro, que se vendia por meio de obras tão vistosas quanto superfaturadas (“rouba mas faz”), incluindo iniciativas “sociais” como Projeto Cingapura e Leve Leite. Esse “janufismo” está de tal modo impregnado em São Paulo que até supostos opositores como Martaxa Suplicy o praticaram com poucas diferenças. E Gilberto Kassab, com respaldo do governador José Serra, é mais um de seus herdeiros.
O aspecto bedel se manifestou algumas vezes de forma explícita, como no esbregue que deu num coitado num posto de saúde, no fechamento de boates de prostituição, no apagamento do mural de osgemeos perto do Minhocão. (Hoje a prefeitura acordou para a explosão dos grafites paulistanos e consta que até prepara um guia para visitantes.) Mas ele também aparece na radicalidade de algumas medidas que, em princípio, são benéficas. Desse ponto de vista, não basta, por exemplo, proibir fumo em lugares públicos; é preciso extinguir os fumódromos das empresas. Não basta fiscalizar e punir os que dirigem alcoolizados; é preciso impor uma lei que não tolera nem sequer dois chopps no sangue e impor ao cidadão que se submeta ao bafômetro. E não basta organizar a linguagem visual da cidade, coibindo excessos; é preciso eliminar todos e quaisquer outdoors, como se não fossem uma forma interessante de linguagem urbana.
A segurança, no entanto, dispensa explicações, embora os tucanos sempre exaltem a queda no número total de homicídios, que tem muito a ver com operações localizadas em regiões antes muito violentas como Diadema. A criminalidade da cracolândia, como se sabe, foi empurrada para outros bairros, como Santa Cecília e Higienópolis. Moro neste e não passo dois dias sem saber de algum furto de celular, bolsa, loja e/ou prédio nos arredores, mesmo que os guardas particulares com seus guarda-sóis tenham se multiplicado pelas ruas. Fui assaltado com arma à luz das 10 horas na Paulista e tenho vários colegas que tiveram o vidro do carro arrebentado em cruzamentos que todos sabem quais são. Agora imagine o que é viver num bairro abandonado, sem estrutura e sem dinheiro para pagar o que o Estado não provê.
Quanto ao aspecto empreiteiro, primeiro é preciso dizer que ninguém sadio deixa de comemorar novas linhas de metrô integradas com ferrovias, desassoreamento do rio Tietê, rodoanel e reformas da Luz e do Largo da Batata, para citar obras em curso, ou da Praça das Artes (entre São João e Anhangabaú), a caminho. Há problemas nelas, por sinal: muitos trechos locais do Tietê ainda têm 0% de oxigênio; obras no metrô e no rodoanel causaram acidentes sérios e ainda por ser punidos; as reformas não podem se bastar na montagem de equipamentos culturais. Mas o que predomina ainda é o pensamento que dá preferência ao automóvel. As obras da marginal, por exemplo, seguem a toque de caixa eleitoral, sem respeito nenhum pelo pedestre e pela vegetação (que só voltam depois de prontas), e o trânsito está cada vez pior, com ruas esburacadas, sujas e escuras (e custa muito iluminar os pontos de ônibus?). Há inúmeros problemas de fluência, como corredores que terminam em X, avenidas que não têm conexão direta com outras, semáforos inteligentes desligados, falta de informação nas bifurcações importantes (como os cronômetros regressivos e os painéis luminosos que antecipam congestionamentos). Vamos ter de chamar os chineses?
Mais importante ainda, a cidade carece de uma reflexão mais estratégica. Daqui da redação vemos que a Barra Funda, no outro lado do rio, cresce rapidamente, desde a inauguração do “fórum do Lalau” (boa arquitetura de Décio Tozzi): há pelo menos uma dúzia de prédios em ascensão. Qualquer pessoa percebe, portanto, que alternativas à marginal – ainda que tão descontínuas –, como a Marquês de São Vicente, em breve deixarão de ser. Mais gente por rua significa mais trânsito, até porque muitos espaços coletivos são construídos sem o devido tamanho de estacionamento. Uma tendência boa se converte, assim, em fonte de problemas. Essa reflexão estratégica, comum em metrópoles como Paris ou Barcelona, valeria também para recuperar bairros que perderam identidade, como Bixiga (que poderia ter sido uma pequena Broadway, com outdoors e tudo), ou endossar movimentos que o mercado cria em outros, como Vila Hamburguesa (onde produtoras audiovisuais e agências de publicidade formam o que poderia ser um “media district”) – tudo com participação de instituições e empresas. Mas no Brasil, como se sabe, o progresso é quase sempre para poucos.
("Sinopse")
07.08.09

Por falar em New York Times, eis aqui o que Roberta Smith escreveu sobre os grafites de Osgemeos em Nova York.
03.11.08

Se o pavilhão da Bienal Internacional de São Paulo está com um andar inteiro vazio, as ruas da cidade nunca estiveram tão cheias de arte. A arte de rua - expressão que vem substituindo "grafite" - está em alta e não são poucos os visitantes que têm reparado na variedade de cores e formas que ocupou avenidas como Paulista, Consolação e Augusta, bairros como Vila Madalena, Glicério e Liberdade, paredões e viadutos em todas as regiões de São Paulo.
Desde os anos 1980 a cidade não vivia tal efervescência na pintura. Assim como aquela geração, os artistas de hoje fazem uma arte colorida, gráfica e quase sempre figurativa. Mas há duas diferenças importantes, além de ser feita ao ar livre: ela usa muitas técnicas - como o spray e o stencil - para deixar sua mensagem instantânea em superfícies ásperas e irregulares, não raro correndo o risco de repressão policial; e só agora começa a ganhar a atenção das galerias comerciais, especialmente as internacionais.
Também vêm dos anos 80 os precursores dessa arte que nasceu com o grafite, como Alex Vallauri e Carlos Matuck, mas a força da atual é muito maior. É a verdadeira expressão de uma ou duas gerações que buscaram meios alternativos numa época em que bienais e museus se dedicaram à arte conceitual, caracterizada por instalações que variam entre o impenetrável e o lúdico - a exemplo do que se vê mais uma vez na Bienal. Os artistas de rua em São Paulo estão preocupados com a comunicação, e cada vez mais o público, sobretudo o jovem, se encanta por seus trabalhos e se familiariza com seus nomes.
Assinaturas como Osgemeos, Nunca, Nina, Highraff, Onesto, Speto, Titi Freak, Bugre, Zezão, Boleta, Fefê, Akemi, Não, Kboco, Tinho, Milo Tchais, Paulo Ito, Vitché, Ciro e Derf - para citar 20 dos mais conhecidos - correm de boca em boca pela cidade e já foram parar em museus como o Tate, na Inglaterra, e galerias como a Jonathan LeVine, em Nova York, para citar apenas dois eventos recentes. Pinturas em tela de alguns desses nomes, como Osgemeos (galeria Fortes Vilaça) e Nina (galeria Leme), já chegam a custar acima de US$ 10 mil; outros já fazem sob encomenda obras para muros, paredes e portas de residências e estabelecimentos.
Nesse processo, obviamente, críticas e atritos surgem. Nas últimas semanas, dispostos a aparecer na divulgação de eventos como a Bienal, pichadores romperam um antigo pacto entre eles e os grafiteiros e, além de pichar uma mureta interna do pavilhão do Ibirapuera, avançaram sobre os trabalhos da mais importante "galeria" de arte de rua, o túnel que liga as Avenidas Paulista e Rebouças. Muitas imagens foram pichadas com riscos e palavras por vândalos que se queixam do "aburguesamento" dos grafiteiros. O mesmo aconteceu no também célebre Beco do Batman, na Vila Madalena, já rebatizado de Beco do Grafite.
O marchand Baixo Ribeiro, dono da galeria Choque Cultural, diz que o pacto entre pichadores e grafiteiros ainda está valendo. "Acho que foi só uma questão de momento. Não faz o menor sentido criar conflito e os pichadores sabem disso." De fato, os grafiteiros já começaram a fazer novos trabalhos nos mesmos lugares nos últimos dias. E não foram apenas os pichadores que prejudicaram alguns dos mais belos murais da cidade. A Prefeitura, há alguns meses, inadvertidamente apagou um dos dois paredões da ligação leste-oeste onde estavam grandes figuras feitas por Osgemeos.
A Choque Cultural foi criada em 2004 por Ribeiro e sua mulher, Mariana Martins, filha do artista plástico Aldemir Martins, justamente para promover e valorizar os artistas de rua. Em sua loja na Rua João Moura, eles vendem trabalhos em tela e outros suportes, "prints" e desenhos. Ali fica clara a afirmação de Ribeiro de que a arte de rua de São Paulo se distingue da de outras grandes cidades - como Nova York, Los Angeles, Londres e Berlim - por ser mais pictórica e diversificada, menos presa a movimentos sociais ou estéticos como o hip-hop e o punk.
De fato, esses artistas de 20 a 45 anos de idade não seguem uma tendência única e têm origens - de motoboys a publicitários, de autodidatas a professores - bem diversas. Em comum, naturalmente, têm a urgência de produzir uma comunicação ágil, que capture a atenção do cidadão que passa a pé ou dentro de carros e ônibus, daí a importância da dimensão e da estilização em sua linguagem. Esse desafio é radicalmente moderno, urbano, e ecoa artistas que falaram sobre essa necessidade como Baudelaire e Delacroix, o pintor francês que dizia: "Se você não é bastante hábil para fazer um croqui de um homem que se atira pela janela, durante o tempo que ele leva para cair do quarto andar ao solo, você nunca poderá produzir grandes quadros."
Outro ponto em comum é que esses artistas de rua reagem à cidade não apenas de forma violenta, como se devolvessem a hostilidade, mas numa curiosa mescla de agressividade com lirismo. É comum ver figuras que são meio corpos meio máquinas, caveiras que vertem lágrimas, meninas delicadas que mostram facas, rostos caricaturizados e ao mesmo tempo convidativos. Ou ver tudo isso ao mesmo tempo num grande muro, como uma obra coletiva, um mural que passa sem dificuldade de um estilo para outro.
Embora haja artistas que trabalham com formas mais abstratas, a maioria se dedica à figura, especialmente à figura humana. Mas, com ainda maior intensidade do que os "comics", eles não significam um retorno ao figurativismo tradicional, em que forma e fundo se distinguiam por uma hierarquia e o detalhismo era responsável pela ilusão de realidade. Todos buscam incorporar erros - tintas que escorrem, acidentes da própria superfície - e dialogar com o ambiente; são traços que também definem sua modernidade.
O psicólogo Sérgio Poato, organizador de um dos raros estudos sobre a arte de rua contemporânea da cidade, o livro Graffiti na Cidade de São Paulo (2006, esgotado nas livrarias), do Laboratório do Inconsciente da USP, define: "No que se refere aos estilos, o grafite brasileiro é mais colorido, solto, livre e se funde com diversas tendências artísticas."
Alguns estilos, porém, aparecem mais do que outros, em termos de influência histórica. A pop art e o surrealismo talvez sejam os mais freqüentes. A linguagem direta e serializada do pop, em diálogo intenso com as imagens da mídia, como os desenhos animados, nos é remetida o tempo todo. O surrealismo e seus desdobramentos "psicodélicos" nas capas dos discos de rock dos anos 60 e 70, como o Sargent Peppers dos Beatles e Pink Floyd The Wall, são referências claras. Há também recursos que lembram o muralismo mexicano e o expressionismo abstrato americano. Mas todos raramente surgem como fontes primárias.
Em realidade, esse caldo de influências chega até eles depois de cozinhados de vários modos desde os anos 90. As fontes mais imediatas foram as histórias em quadrinhos e as ilustrações, os trabalhos gráficos. Os artistas de rua absorveram especialmente as HQs alternativas - apesar de nomes consagrados como Will Eisner e Frank Miller também servirem de inspiração - e os mangás, os quadrinhos japoneses atualmente cultivados pelos adolescentes do mundo inteiro. E têm uma ligação muito forte com o mundo dos desenhos animados, dos cartuns, das caricaturas e das tatuagens, o qual faz parte da cultura do skate e de outros esportes urbanos. Esse universo de imagens pop ou kitsch é que a maioria dos grafiteiros manobra, acrescentando um toque irônico ou dramático.

Não é difícil, por esses aspectos, entender por que Osgemeos se tornaram o maior sucesso entre os grafiteiros recentes. Os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, de 32 anos, sabem trabalhar muito bem com as escalas. No bairro onde cresceram, o Glicério, em ruas como a Justo Azambuja e a Lavapés, criaram seus personagens com traços muito simples e áreas definidas de cor, como que nascidos e ampliados de uma tirinha cômica. O mesmo fez Nina, mulher de Otávio, com suas meninas que parecem criadas para um adesivo infantil, um "sticker" colorido, só que com um teor de tristeza. Não é a única. Tikka, Akemi e Ya também espalharam figuras assim pela cidade.
Mas a arte de rua paulistana é muito mais rica do que isso. Na Liberdade, por exemplo, é possível ver o trabalho de nomes como Nunca, Titi Freak e Whip. Nunca usa figuras que se parecem com índios urbanos, de semblantes meio bravos meio chorosos, como o que se vê no Viaduto Condessa de São Joaquim. Titi Freak é seguramente um dos melhores artistas de rua de São Paulo. Seus retratos têm traços muito estilosos, de exímio desenhista, que são banhados ou "sujados" por cores como o roxo e o violeta. Há movimento, força e harmonia em sua pintura rupestre, assim como na de seu irmão, Whip, embora este seja mais preso à fisionomia dos personagens de mangá. Outros que fazem retratos entre líricos e rebeldes são Bugre e Derf.
Outro talento que se destaca é o de Onesto, que recentemente grafitou uns tapumes na Rua da Consolação com seus personagens de cabelos e costeletas chamativos, entre os quais cria um jogo de proporção, usando sempre cores vivas. Poucas linhas são necessárias para ele criar seu humor estranho. Nome a memorizar é também o de Speto, um dos destaques do Beco do Grafite (travessa da Rua Harmonia), com seus fantasmas, diabinhos e menininhas, igualmente resolvidos em poucas e espessas linhas. No mesmo beco está a mulher nua deitada de Paulo Ito, exemplo de bom desenho adaptado ao suporte disponível.
Um dos melhores murais coletivos é o do paredão que se vê da Avenida Sumaré, pouco antes da curva que desemboca na Henrique Schaumann, que fica abaixo do Instituto Goethe. Dele participam os três melhores artistas de rua abstratos, Highraff, Boleta e Zezão. Highraff (pronuncia-se "raigref") faz formas que lembram gotas que se ramificam de uma esfera central como se fossem um bicho em metamorfose. Boleta cria composições mais caóticas, com formas que se entrelaçam como em tatoos. Zezão ficou famoso por pintar bueiros e até a margem do Tietê com sua marca - volutas quase góticas de um azul bem vivo, as quais sugerem um exercício de delicadeza diante da feiúra urbana.
Esses e outros artistas já não se bastam em intervenções urbanas com spray e stencil, como se vê na Choque Cultural. Ramón Martins mistura aquarela à apurada técnica de usar o spray, no qual põe agulhas para refinar o traço. PJota faz pinturas com inscrições que fazem pensar em Cy Twombly, assim como Daniel Melim ecoa Rauschenberg e Carlos Dias, De Kooning - três nomes do expressionismo abstrato americano. Boleta faz pinturas em que cola objetos como bolas de bilhar, Zezão trabalha sobre recortes de lona, Presto faz minipinturas de madeira. E assim por diante.
Pouco a pouco, a arte de rua deixa de ser devedora de estilos anteriores e passa a credora de novos caminhos, dentro ou fora de quatro paredes. Mesmo que o conceito de vanguarda das bienais seja outro, eles são o novo agora.
(Áudio, fotos e mapa: aqui.)
Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br
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