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20.01.10
Há jogadores que precisam especialmente da adversidade para mostrar serviço, para dar o melhor de si. Maradona e Ronaldo me parecem pertencer a esse grupo. E há jogadores que precisam especialmente do carinho, da atenção constante, do sentimento de proteção para ousar e vencer. Rivaldo e Ronaldinho talvez sejam dois exemplos. É fato que todo grande atleta, como todo grande performer ou todo profissional que vive da alta criatividade, é ou precisa ser um tanto ambicioso, ou melhor, autoconfiante num grau que em outros colegas seria suicida. De Pelé a Usain Bolt, de Muhammad Ali a Michael Jordan, a “bendita petulância dos campeões” é certeira. Mas ninguém é 100% autossuficiente e ela se alimenta e se manifesta de maneiras distintas.
Ronaldinho ficou três anos sem jogar nada, o que em seu caso significa jogar como jogam em sua posição muitos titulares competentes de grandes times. Raramente mostrou a combinação de inventividade e letalidade que mostrou nos dois anos de Barcelona em que foi eleito o melhor do mundo. E isso não porque estava contundido, como Ronaldo antes de seus retornos. Depois da Copa de 2006, aonde chegou exaltado como o novo Pelé, Ronaldinho nunca mais foi o mesmo; parecia desinteressado, autocomplacente, entregue. O fiasco na Alemanha, quando não fez nenhum gol e ainda desperdiçou a melhor chance contra a França nos minutos finais, corroeu sua confiança aos poucos. Assim como precisa ser paparicado para se adaptar até brilhar, leva tempo para perceber quando perdeu o “duende”, como dizem os espanhóis. Mas agora o recuperou.
O trabalho do técnico Leonardo e a proximidade da Copa da África devem estar ajudando essa ressurreição. Com a saída de Kaká, o Milan precisou de Ronaldinho como nunca – para articular meio e ataque, experiência e juventude. Leonardo o escalou onde gosta, na esquerda, como se fosse um terceiro atacante, com liberdade para se movimentar para o meio e, principalmente, chegar à área para fazer gols. Ronaldinho vinha se acomodando em declarações como “Fico feliz em dar passes para os outros”, mas nada dá tanta confiança como estufar o filó. Veja a partida que fez contra o Siena no domingo: partiu para cima dos adversários com dribles e pedaladas; correu para alcançar a bola na frente, não apenas recebê-la no pé; e fez três gols, o último com um chute diagonal cheio de veneno e velocidade.
Quando joga assim, com caninos para fora, pondo a fantasia a serviço do resultado, não tem para ninguém, nem mesmo para Messi e Cristiano Ronaldo. Mas o difícil para ele não é chegar a esse nível; é mantê-lo. Como faltam apenas cinco meses para a Copa, é enorme a chance de que chegue lá em alta – e escolado contra o oba-oba, que em 2006 o fazia se preocupar mais em ajeitar a faixa da testa do que em entortar o adversário com a bola. No momento, seguramente pode ser o titular no lugar de Robinho, outro jogador movido mais a aplausos que a apupos. E quem gosta de futebol está torcendo para que isso aconteça, para que a atual fase não seja um lampejo de outrora. Que venham os merecidos elogios – e que Ronaldinho não se deixe ofuscar por eles.
PAULISTÃO
Por falar em erres, erros e ressurreições, hoje é dia de ver a estreia de Roberto Carlos ao lado de Ronaldo. O torcedor, por definição, é um impaciente. Depois da primeira rodada, já há diagnósticos e prognósticos como se ausências, despreparos e mudanças tivessem peso secundário. Sim, Palmeiras e Santos devem estar mais dispostos ao título, mas Corinthians e São Paulo têm tudo para se arrumar logo. E o Corinthians, aconteça o que acontecer, vale as atenções. É por isso que estarei lá no Pacaembu, de olho nas estrelas da noite.
20.12.09

Na coluna sobre os melhores livros do ano passado escrevi que “mais uma vez o maior número de destaques ocorre em não-ficção, especialmente história, crítica e biografia, e mais uma vez as reedições chamam atenção, sobretudo em romances”. Em 2009 a ficção novamente não se destacou numericamente, mas os livros de ciência, sobretudo por causa do bicentenário de Charles Darwin, agora merecem menção especial. Lemos A Ilha de Darwin, de Steve Jones, A Causa Sagrada de Darwin, de Adrian Desmond e James Moore, e O Maior Espetáculo da Terra, de Richard Dawkins, que aqui trocou o panfletarismo antirreligioso por uma ampla e hábil explicação da Evolução como fato histórico, não apenas como teoria ou hipótese. Nos EUA, o jornalista cultural Adam Gopnik, em paralelo com outro aniversariante, Abraham Lincoln, tentou escrever sobre como Darwin mudou não apenas nosso conhecimento da natureza, mas ajudou a fundar a mentalidade moderna, com sua desconfiança de dogmas e sistemas.
Não foram apenas livros sobre Evolução. A tradução brasileira de um livro de 2006, Em Busca da Memória, do octogenário Eric R. Kandel, é um espaço a menos na vasta lacuna editorial que o Brasil sofre no tema. Kandel, Nobel de 2000, transformou a concepção da memória humana com seus estudos fisiológicos, em especial na distinção do mecanismo da memória de curto prazo e longo prazo. “A arquitetura do cérebro de cada pessoa é única”, escreve ele, em seguida demonstrando como os genes também podem ser influenciados por eventos no mundo externo. Estímulos ambientes podem ativar “interneurônios modulatórios” que modificam a estrutura e a função das sinapses; no caso da memória de longo prazo, que requer a síntese de novas proteínas, há mesmo uma mudança anatômica. E Kandel propõe a reaproximação entre o estudo da biologia e a interpretação do indivíduo, como o próprio Freud queria (vide outra tradução do ano, Da Neurologia à Psicanálise, de Lynn Gamwell e Mark Solms).
Um livro que parte da matemática e mostra como se usa mal a estatística, O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, fez merecido sucesso no Brasil. E The Age of Wonder, de Richard Holmes, mostrou como escritores e artistas partilharam crenças e medos a respeito das descobertas e invenções do século 18, ao contrário da visão convencional do romantismo como anticientífico. Dificilmente o livro será traduzido por aqui tão cedo, como tantos outros grandes livros do setor publicados nas últimas décadas. Sempre digo, aliás, que os livros de ciência e arte são os mais negligenciados pelo mercado brasileiro, especialmente quando exigem um investimento editorial maior, por serem grandes, ilustrados e sofisticados.
Então o leitor interessado nesses assuntos e que tenha estudado outras línguas precisa recorrer às amazons da internet para importar, por exemplo, obras extraordinárias como Paintings in Proust, de Eric Karpeles, espécie de “museu imaginário” das pinturas citadas nos romances de Em Busca do Tempo Perdido, e o catálogo Titian Tintoretto Veronese, que mostra o diálogo e a rivalidade entre esses gênios do Renascimento veneziano. Já a chance de um tesouro verbal como L’Art de la Préface – que tem Claudel sobre Homero, Gide sobre Montaigne, Camus sobre Chamfort e Valéry sobre Stendhal, entre outros – deve ser maior. Afinal, bons livros de crítica literária foram editados aqui: A Literatura em Perigo, de Todorov, que critica o estruturalismo que ajudou
E não só a crítica literária deixou um pouco o antigo esquecimento das editoras brasileiras. Robert Stam analisando as adaptações em A Literatura Através do Cinema, Alex Ross navegando pelas tensões entre vanguarda e música popular em O Resto É Ruído, Sartre viajando com Tintoretto em A Rainha Albermarle ou O Último Turista, Peter Gay examinando o Modernismo com algumas falhas e o grande acerto de defini-lo como arte herética – eis alguns outros títulos de primeira. Mas The Art Instinct, de Denis Dutton, e Beauty, de Roger Scruton, que tentam encontrar parâmetros para o que julgamos belo na arte e na natureza, não sei se terão a mesma sorte. Ao menos o jornalismo literário tem sido lembrado, com títulos de Martha Gellhorn, Paul Theroux, James Agee (que agora precisa ser lembrado como o grande crítico de cinema que foi) e o fluente Z, A Cidade Perdida, em que David Grann relata a expedição amazônica do Coronel Fawcett que refez há pouco.
Grandes personagens têm ficado mesmo para as biografias, gênero ainda em alta. Terminei de ler Padre Cícero, de Lira Neto, muito satisfeito: ele nos mostra em detalhes o que se passava no sul do Ceará quando esse misto de clérigo e coronel passou a defender costumes antes proibidos como as romarias em público, atraindo para si fiéis entre os deserdados pela Igreja e pela sociedade. O bom biógrafo mostra defeitos justamente porque faz um esforço de compreensão. Já Clarice, de Benjamin Moser, que ainda não terminei, começa com reveladora pesquisa factual, sobre as sofridas raízes ucranianas de Clarice Lispector, mas depois parece se converter em ensaio literário, em sintonia com o misticismo da escritora, e se afasta de questões polêmicas como suas relações com mulheres. Em Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory, a análise também se sobrepõe à narrativa. Sim, combinar ambos, como fizeram um Richard Ellmann (Joyce) ou um Lewis Lockwood (Beethoven), é mesmo difícil, mas fundamental quando se trata de grandes criadores.
E a ficção? Pela superficialidade do personagem narrador, mais próximo da sociologia de Gilberto Freyre do que da sutileza de Machado de Assis, não admirei Leite Derramado, de Chico Buarque, como admirei Budapeste, mas suspeito que vá arrebatar a maioria dos prêmios. Gostei de contos de Milton Hatoum em A Cidade Ilhada, embora não esteja à altura dos romances. Novamente me deleitei com Philip Roth, com Indignação (também influenciado por Machado) e The Humbling (apesar de não ir bem naquilo que faz como poucos, as cenas de sexo) – Roth que há 50 anos produz em alta qualidade e quantidade. E gostei acima de tudo de Terras Baixas, de Joseph O’Neill, uma história íntima multicultural em Nova York. Li ainda os mais recentes de Thomas Pynchon e John Banville, mas estão abaixo de seu padrão.
Leio, por sinal, muita coisa que opto por não comentar, principalmente de ficção brasileira, por não valer a pena. Tratei de mais de 80 livros neste ano, mas um terço são reedições ou edições atrasadas de clássicos ou bons livros há muito publicados no exterior. Do ensaísmo histórico de Tocqueville (O Antigo Regime e a Revolução) ao belo livro sobre o fascismo de Mussolini escrito por Donald Sassoon, de Tolstoi (A Felicidade Conjugal) a ficções de Bernhard e Bolaño, do teatro de Sófocles (Filoctetes) à Obra Completa de Euclides, revista e ampliada – passando pelas cartas de Van Gogh e Rimbaud, que comentarei em breve –, vivemos muito do passado. Mas, quando o passado está vivo, como no caso de todos esses citados, não há nada de errado nisso.
("Sinopse")
16.12.09

Resumir e ilustrar as 42 expedições amazônicas mais importantes de 1500 a 1930 foi a ótima ideia de João Meirelles Filho – tão simples que poucos haviam pensado nela. O pesquisador e ambientalista que nasceu em São Paulo e vive às margens do Rio Pará, em Belém, executou a tarefa com muita competência em Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros, 244 págs., R$ 140), que será lançado hoje, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, 1.731. Como o preço indica e como se vê nesta página, trata-se de um livro de arte, com belas imagens, mas não o confunda com “coffee table book”, com livro para deixar na mesa de centro e apenas folhear em vez de ler.
Autor do utilíssimo Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro, 2004), Meirelles relata cada expedição usando os mesmos tópicos: contexto, líder, principais colaboradores, percurso, obras e principais contribuições. Isso tira do livro a levada narrativa, infelizmente; em compensação ele funciona como obra de referência e também de introdução àquelas expedições que o leitor porventura não conheça ou conheça mal. Cada uma delas mereceria um livro, claro, mas, como se sabe, os brasileiros se importam pouco com a memória. E vê-las todas juntas, na ordem cronológica, forma um panorama único e faz pensar no poder dessa entidade “Amazônia” sobre o imaginário mundial.
Da primeira viagem, de Vicente Pinzón, no ano em que o Brasil é descoberto, até as expedições de Candido Rondon, das quais a última se dá na fronteira do Brasil com Peru e Colômbia, em 1930, vemos como gradualmente o desconhecimento e a fantasia vão dando lugar ao mapeamento e à fotografia. No entanto, as reações de espanto e admiração não sofrem muitas mudanças. Rondon, por exemplo, fez diversas viagens, sobretudo para instalação de linhas de telégrafo, mas também para travar contato com os índios, no qual se distingue da grande maioria dos antecessores por agir pacificamente; há ainda a viagem com o ex-presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, pelo Rio da Dúvida, então batizado por Rondon como Rio Roosevelt; e as últimas viagens são as campanhas em diversas fronteiras. O leitor se cansa só em acompanhar o relato...
Meirelles sintetiza viagens famosas como as de Orellana, do bandeirante Raposo Tavares, a “filosófica” de Alexandre Rodrigues Ferreira, a botânica de Von Martius e Spix, a do Barão de Langsdorff, as de Bates, Steinen ou Koch-Grünberg – muitas das quais lembradas antes nos livros da série Brasil dos Viajantes, da mesma editora. O etnólogo e conde italiano Ermano Stradelli bem poderia ter sido homenageado, embora tenha se concentrado mais no Rio Orenoco, na Amazônia venezuelana. (Alexander von Humboldt, herói de muitos expedicionários posteriores, não aparece justamente porque não entrou em território brasileiro.) Mas Meirelles lembra diversas viagens menos estudadas do que deveriam ser, como a de Euclides da Cunha pelo Alto Purus e a do biólogo inglês Alfred Russell Wallace, que na floresta pluvial fez observações sobre a seleção natural muito parecidas com as de Darwin em A Origem das Espécies. O autor lembra ainda as do linguista Paul Ehrenreich e do pintor francês Biard, para citar algumas mal conhecidas.
Faltam mais mapas com os percursos, mas as imagens são igualmente reveladoras. Das araras pintadas na expedição de Rodrigues Ferreira às fotos das comissões demarcadoras de Rondon, o teatro natural e os grupos indígenas são retratados com a curiosidade dos aventureiros e o perfeccionismo dos profissionais. Bates, por exemplo, é especialmente dotado para a arte da gravura, mas não consegue deixar de trair seu maravilhamento com as cenas, que parecem sempre exageradas – como a da pesca de tartaruga, que mostra em primeiro plano a luta de cinco índios contra um jacaré. Ou temos o pirarucu gigante de Franz Keller, imagem usada pelo geólogo James Orton. Mas não existe apenas a exuberância de fauna e flora: os grandes espaços vazios são recorrentes, em muitas das aquarelas e fotografias, do mesmo modo que o trabalho servil dos seringueiros, como na viagem de Wickham. Não há cartões-postais aqui.
As Amazônias, enfim, são muitas, assim como este livro de João Meirelles Filho são muitos. Que venham seus frutos.
14.12.09
O Ano Euclides da Cunha não poderia terminar melhor: acabam de ser publicados quase simultaneamente a nova edição de sua Obra Completa, em dois volumes (Nova Aguilar), sua Poesia Reunida por Leopoldo Bernucci e Francisco Foot Hardman (Unesp) e duas coletâneas de estudos, A Vingança da Hileia, também de Foot Hardman (Unesp), e Euclidianos e Conselheiristas, organizado por Walnice Nogueira Galvão (Terceiro Nome). Se as efemérides servem para alguma coisa, é para não deixar a memória dos grandes autores se apagar num país amnésico e tentar lançar luz sobre o que fizeram e reparar esquecimentos ou injustiças. No centenário de morte de Euclides, é inegável que os esforços estão aí.
O melhor exemplo está na reedição de sua Obra Completa em capa dura e papel-bíblia. Em relação às edições anteriores, muitos textos foram acrescentados e o organizador Paulo Roberto Pereira dividiu os volumes em um dedicado aos textos republicanos e amazônicos e o outro a Os Sertões e tudo que se refere à questão do semiárido brasileiro. Entre os acréscimos, está sua preciosa Caderneta de Campo feita como correspondente de O Estado de S. Paulo na Guerra de Canudos, em 1897. Havia apenas uma edição em livro dessa caderneta, de 1975. (Outras cadernetas de Euclides, como as depositadas em São José do Rio Pardo, com sua minúscula letra e seus minuciosos cálculos, pedem versão em livro urgente.) Também nova é a seção batizada de Outros Contrastes e Confrontos, com textos dispersos, em destaque sua tocante celebração post-mortem de Machado de Assis, A Última Visita. Também há crônicas, cartas e poemas que não estavam nas primeiras edições.
Quanto aos poemas, a caixa traz 52, ou seja, 15 a mais do que na primeira edição, organizada por Afrânio Coutinho em 1966, no centenário de nascimento de Euclides. Mas a Poesia Reunida por Bernucci e Foot Hardman chegou a um levantamento total de 110 poemas, sendo cinco incompletos, e mais 24 manuscritos que contêm variantes dos mesmos textos. O único livro de poesia concebido como tal por Euclides, Ondas, traz 73 poemas integrais. Foram encontrados 20 outros dispersos e 12 escritos em postais. O conjunto abrange desde a adolescência de Euclides, que aos 17 anos já escrevia versos antes mesmo de saber que seria jornalista e ensaísta, até o ano de sua morte. Mas, como todo escritor daqueles períodos, a exemplo de Machado, a poesia era a porta de expressão da ambição literária juvenil: Euclides escreveu Ondas entre 1883 e 1884. Depois da maioridade, fez os outros 32 poemas em 25 anos. Transferiu para a prosa todo seu gosto por ritmos e metáforas.
Por isso mesmo, há grande importância no estudo da poesia de Euclides, ainda que ele não tenha sido grande poeta. Machado também não o foi, aliás; mas os poucos poemas bons que deixou, como A Mosca Azul e o soneto à mulher Carolina, merecem qualquer antologia brasileira. Como Machado, Euclides quis ser um poeta romântico e suas influências maiores são certamente Victor Hugo e Castro Alves, como aconteceu com nove entre dez literatos de sua geração e da anterior. Um poema como Os Enjeitados – adjetivo que mais tarde usará para definir o Rio Purus, pelo qual viajou em 1905 – traz a mesma grandiloquência dramática, as mesmas imagens em movimento, os mesmos exclamativos (“Folgai, cantai – valsai!...”) – como se já não bastasse a epígrafe ser de Hugo.
Esse poeta que fala do mistério do ser, dos bafejos de Deus, do seio da amada, do “spleen” da existência; que dá títulos como Estoicismo, Cenas da Escravidão e Eu Sou Republicano; que canta a queda da Bastilha, e seus heróis Danton (Dantão), Marat e Robespierre, e também a revolta dos Farrapos; que usa e abusa de palavras como vastidão, sonho e infinito, sempre no contraste entre amor e morte – esse poeta é certamente um incurável romântico, “o último romântico”, como ele mesmo diria muitos anos depois (e nada mais romântico do que se dizer o último deles). Mas o escritor que enfrenta a aridez do sertão baiano, a complexidade do drama nacional, o desafio de medir cientificamente a Amazônia que induz à fantasia, também está nesses versos. Toda a obra madura de Euclides pode ser entendida como a busca da união desse idealismo romântico com a empreitada realista – uma linha reta com o infinito no ponto de fuga.
E disso Foot Hardman sabe como poucos, pois em A Vingança da Hileia (termo usado pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt para designar a floresta pluvial) estuda justamente como os escritos do Purus revelam a modernidade de Euclides. Os ensaios da primeira parte, ainda que repitam alguns argumentos e citações, mostram como a Amazônia foi para Euclides uma “miniatura trágica do caos”, porque era de uma abrangência ao mesmo tempo impactante e inalcançável, já que só poderia ser estudada em fragmentos, sob pena de permanecer desconhecida. E daí a aposta no “consórcio entre ciência e arte”, na expressão famosa. Foot Hardman sintetiza: “São essas relações cruzadas entre o sonho na prosa da ciência e o real-maravilhoso na prosa da poesia que continuam a perseguir o escritor expedicionário.”
O professor da Unicamp também levanta hipóteses para o motivo de Euclides não ter conseguido realizar Um Paraíso Perdido, que seria seu “segundo livro vingador”, a versão madura de Os Sertões para os ermos amazônicos, onde encontrou os mesmos fortes caboclos. Apesar dos problemas pessoais, como a relação extraconjugal da esposa, Ana, e da tuberculose, Foot Hardman aponta para o lado certo: Euclides tinha receio de ser um escritor “esmagado pelo assunto” e pretendia voltar à Amazônia antes de produzir tal obra. Pode-se também acrescentar a ausência de uma narrativa equivalente; afinal, Os Sertões é o livro que é porque todo o preâmbulo geográfico e antropológico converge para a narrativa do conflito, digna de um grande jornalista literário. Euclides imaginou ver no teatro de fronteira do Alto Purus um embate entre seringueiros e caucheiros (peruanos que extraíam borracha do “caucho”) e não viu. Apesar dos poemas etéreos da mocidade, sua maturidade pedia ação.
Em Euclidianos e Conselheiristas, a professora da USP Walnice Nogueira Galvão transcreve uma mesa-redonda realizada em 1986 com Antonio Houaiss, Franklin de Oliveira, José Calasans e Oswaldo Galotti, tendo ela e mais Valentim Facioli e José Carlos Garbuglio como debatedores. O simpósio de estudiosos passa pelas principais questões do tema, em especial pelo papel da ciência na obra de Euclides. Franklin Oliveira nota que a mesma pretensão científica que deu originalidade e densidade à obra de Euclides foi responsável por seus erros, como o preconceito racial contra os negros litorâneos. Esses erros, na verdade, têm mais a ver com visões social-darwinistas da história (luta de raças e não de classes), não com a ciência, com os estudos de fauna, flora e geologia, que distinguiram Euclides de seus contemporâneos. De resto, como diria Machado, é a eterna contradição humana.
03.12.09
Amazônia é sempre um tema polêmico e amplo, mas uma convergência foi evidente nos dois painéis de anteontem: o modelo tradicional de desenvolvimento não atende à complexidade da região. O secretário do Ministério da Integração Nacional, Henrique Villa da Costa Ferreira, mencionou explicitamente o pensamento “desenvolvimentista” de autores como Celso Furtado, dominante nos anos 50 e 60 e inspirador de órgãos como a Sudam, cuja função seria comandar a economia regional com um planejamento centralizado. Hoje está claro que as questões amazônicas só serão resolvidas com participação de muitos atores, sobretudo a iniciativa privada, e atenção às múltiplas escalas, pois uma solução para o sul do Pará não servirá para o norte do Acre. Ao poder público cabe coordenar e induzir – e, como disse Guilherme Leal, da Natura, reduzir a burocracia para que um produto não leve até três anos para chegar ao mercado.
Outra convergência foi a crítica à noção de sustentabilidade como um parâmetro exclusivamente ambiental, quando se trata de combinar avanços socioeconômicos ao uso inteligente dos recursos naturais. O professor José Alberto Machado observou que ainda existe a noção de que “Amazônia e negócios não andam juntos”: falta visão estratégica para investir nos potenciais produtivos com escala, não apenas de modo pulverizado e experimental. Adalberto Val, diretor do INPA, registrou a carência de pesquisadores e verbas para ciência & tecnologia. Todos, afinal, concordaram: ainda conhecemos mal a Amazônia, o que dificulta muito pensá-la de forma pragmática. Mapear esses potenciais e dar a infraestrutura adequada são imprescindíveis. Enquanto isso, a confusão entre desmatamento e desenvolvimento vai prosseguir.
06.11.09
19.09.09
Ermano Stradelli (1852-1926) foi um desses aristocratas europeus que, inspirados por Humboldt, se deixaram fascinar pela natureza tropical. Eles viajaram pela Amazônia como se buscassem saciar toda a sede de conhecimento e aventura. Filho de conde italiano, Stradelli partiu aos 27 anos para fotografar os índios. O equipamento se perdeu num naufrágio, mas ele encontrou seu futuro: o idioma nheengatu foi a abertura para muitos anos de expedição a rios e povoados, entre malárias e maravilhas. Este livro é sua preciosa contribuição como antropólogo – um apurado coletor de lendas, artefatos, costumes e a geografia do rio Negro, do Uaupés e do alto Orenoco, com um Eldorado de detalhes descritivos. Os relatos e diários nos fazem conhecer mais a Amazônia, lembrando que ela ainda é bem maior do que nosso conhecimento.
Esse texto é uma apresentação que fiz na quarta capa do livro 'Lendas e Notas de Viagem', de Ermanno Stradelli, que acaba de ser publicado pela Martins Fontes. Pouco a pouco vamos tirando o atraso editorial em relação aos livros de viagem sobre Amazônia.
30.08.09

Eis uma expressão que sempre me incomodou, “natureza humana”, embora, por falta de melhor, tantas vezes a tenha usado. Dos anos 90 para cá, houve o retorno de uma intensa discussão sobre o que ela significa, à vista da realidade moderna e de descobertas em tantas áreas como a neurologia e a genética. Lembro sempre a reação do grande biólogo Stephen Jay Gould ao simplismo da definição dada por Edward O. Wilson, um dos teóricos da sociobiologia (da qual mais tarde se afastou), de natureza humana como “um conjunto de predisposições genéticas”. Contra essa noção estanque, outros estudiosos como Matt Ridley, em O Que Nos Faz Humanos, já mostraram que nosso estoque de genes pode ser ativado ou desativado e até transformado ao longo da interação com o ambiente, em combinações de fatores em diversos graus. Do outro lado, psicólogos como Steven Pinker atacaram o ultrarrelativismo das ciências humanas, que lidam com o ser humano como uma folha em branco a ser preenchida por condições sociais e econômicas.
No Brasil, infelizmente, esse modo de pensar tem sido dominante. Nossa intelligentsia tem desprezo pela inteligência científica. Poucos se informam sobre essas novidades do conhecimento, como se o escaneamento cada vez mais refinado das atividades cerebrais não tivesse importância alguma. Lê-se mais Marx que Hume, mais Weber que Popper, mais Habermas que Ramachandran. E só pode ser por isso que até agora não se encontravam em nenhuma livraria os ensaios de um autor como Thomas Henry Huxley, de quem a editora Unesp acaba de publicar três Escritos sobre Ciência e Religião. Tal lacuna era penosa, primeiro, porque ele foi um dos grandes estilistas da língua inglesa, modelo maior do virtuosístico H.L. Mencken; segundo, porque é o pai do conceito de “agnosticismo”. Há quem pense que o agnóstico é apenas um cara que diz “não sei se Deus existe”, em contraste com o ateu, “Deus não existe”. Mas agnóstico, para Huxley, é o sujeito que não acredita em eventos sobrenaturais, como Deus e como a vida pós-morte. É um cético, um sem-religião, um antidogmático, que não quer ser convertido nem converter.
Infelizmente seus textos mais célebres, como Agnosticism & Christianity e seu histórico debate com o bispo Wilberforce sobre as ideias de Darwin não estão no belo livreto, bem traduzido por Jézio Gutierre. Mas a clareza e beleza do estilo estão ali, as ideias sobre conhecimento natural, a oposição ao dito “humanismo” dos primeiros pensadores protestantes (“bem distantes de desafiar mesmo os mais irracionais dogmas do sobrenaturalismo medieval”). E o texto final, Ciência e Cultura, antecipa o movimento atual da “terceira cultura” ao discordar da visão de Matthew Arnold de que cultura é apenas “saber o melhor que tem sido pensado e dito no mundo”, como se fosse apenas literatura e não ciência, acúmulo e não experimento. Huxley tem os problemas de sua época, como a associação unilateral entre biologia e moral, presente também em Darwin, e que então terminava sempre em discurso racial. Mas não se ganha nada ignorando as qualidades tão modernas de sua mente.
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O ponto que mais tem passado despercebido no centenário de morte de Euclides da Cunha é, justamente, sua relação com a natureza. A razão para isso talvez seja o fato de que sua obra é analisada quase somente por literatos, raramente por cientistas. Euclides buscava, sim, o tal “consórcio entre ciência e arte”, mas, como disse a respeito do lema “ordem e progresso”, a prioridade é do primeiro conceito. Seu ídolo maior, como o de Darwin, era Humboldt, o naturalista viajante que escrevia com uma espécie de ciência lírica sobre geologia, flora e fauna. Só que a isso Euclides adicionou pensadores positivistas (como seu professor Benjamin Constant) e social-darwinistas (como Herbert Spencer); e do polonês Gumplowicz tirou a conclusão de que a luta de raças, não a de classes, é que era a “força motriz da história”. Diante dos fatos, porém, precisou reformular sem negar tudo isso.
A descrição de tal mistura de influências, embora exagere na atribuição de algumas (Gustave Le Bon, o da “psicologia das multidões”, por exemplo), é a melhor parte da biografia que será lançada daqui a duas semanas, Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory, pela Ateliê Editorial. A melhor biografia de Euclides até aqui era a de Sylvio Rabello, de 1966... Foi preciso que viesse um autor americano, infelizmente morto em janeiro passado, e organizasse melhor os fatos e pensamentos do brasileiro. Por outro lado, Amory se dedica pouco ao contexto histórico, às suas relações de amor e ódio com a pátria, às idas e vindas republicanas. E com isso – pois conceitos e fatos se interpenetram – não vê que Euclides nunca foi exatamente um “cientificista”, pois se dizia também um homem de fé, panteísta e romântico.
Euclides, principalmente a partir de Canudos, se desesperou com a solução das divergências entre seu determinismo e seu nacionalismo. Na guerra viu que sua noção de raças inferiores estava equivocada, mas não porque não houvesse raças inferiores nem muito menos porque a tal raça inferior é que era superior. O que ele viu nela foram aspectos positivos que outra raça não tinha. E que outra raça era esta? Os “mestiços litorâneos”, mais degenerados, menos íntegros em termos étnicos. Euclides admirou nos sertanejos as qualidades que ele não via nessa “civilização de empréstimo” que encontrava no litoral, sobretudo o estoicismo moral e a bravura física. Para recuperar essas qualidades perdidas, Euclides se dissociou dos outros racistas da época, que não viam qualidade em quem não era branco, e defendeu a incorporação daqueles “isolados” caboclos ao progresso nacional.
E qual foi o modo que encontrou para sustentar seu argumento? Uma metáfora geológica: aquela camada retardatária poderia ocupar uma posição à frente de novo, já que a terra está sempre em transformação. Aos líderes brasileiros caberia esse papel de civilizar os bárbaros, aliando sua fibra resistente à sensibilidade culta. Quando vai à Amazônia, Euclides novamente defende a ideia de que apenas os “caboclos rijos” seriam capazes de se adaptar ao ambiente volúvel e perturbador da jovem floresta pluvial. Escreve com todas as letras que eles “não são efeitos do meio; surgem a despeito do meio”. Para apontar à nação qual seria seu futuro grandioso, cria um determinismo heterodoxo; nunca deixa de considerar o meio em primeiro plano, nem abandona a visão racial, mas valoriza a ação humana, a superação dos limites com o apoio dos ideais. Ou aceitamos Euclides em sua complexidade, ou não o entenderemos.
***
Talvez esteja chegando a hora de ver a natureza humana com a mesma variedade da natureza exterior, com seus díspares e plurais ecossistemas, com suas formas visíveis e invisíveis, com suas competições e colaborações entre espécies. E não mais uma unidade só, criada toda no mesmo dia.
25.08.09
Quer dizer então que Zé Sarney ficou irritado com a interrupção do senador Suplicy em seu discurso sobre o centenário de Euclides da Cunha? Bem, Suplicy deveria ter se manifestado antes que seu partido, o PT, sob liderança de Mercadante (aquele que revogou o irrevogável), coordenasse o engavetamento de todos os processos contra o presidente do Senado no Conselho de Ética. Falar depois, ao perceber que a sociedade está indignada, é fácil e conveniente. Mas pelo menos Suplicy falou. Provavelmente, recebeu um sinal do ectoplasma de Euclides, que naquele momento enfrentava tortura maior do que ver os mortos de Canudos ou os piuns de Purus... Diante do massacre do dono do Maranhão ao idioma pátrio, pelo qual tanto trabalhou e prezou, a interrupção foi uma bênção, sem contar o indubitável desprezo que Euclides sentiria por um político que tanto agride o conceito de república.
23.08.09
Convido aos interessados que assistam hoje às 23h à segunda parte do programa sobre Euclides da Cunha da Globo News. Eis a primeira:
E aqui a participação de Milton Hatoum, Nísia Lima e Francisco Foot Hardman, respectivamente, na mesa sobre Amazônia no colóquio realizado neste jornal no último dia 14:
15.08.09

A prosa de Euclides da Cunha não é menos controversa do que suas opiniões sobre raça e progresso. Mais do que em qualquer outro clássico brasileiro, inclusive Guimarães Rosa, ela tem sido um obstáculo para muitos leitores, tão árido e abafado quanto a travessia de Queimadas para Canudos. Por sinal, seu estilo é comumente associado à vegetação da caatinga, por seus galhos tortuosos, mas também poderia ser à floresta amazônica, pois caudaloso e superlativo. O fato é que suas dificuldades podem ser transpostas, sim, se o leitor chegar a ela preparado, e não como o Exército ao sertão baiano; e do lado de lá vai encontrar uma realidade poderosa, marcante, com um arsenal de recursos que o idioma não via desde o Padre Vieira.
Isso não é desculpar os excessos de Euclides. O grande crítico da época, seu amigo José Verissimo, em mais de uma resenha se queixou das inversões sintáticas e períodos entrecortados. Euclides reconheceu, mas disse que já não tinha como se livrar desses “estigmas”. Se atentamos para seus textos dos últimos anos, depois da viagem à Amazônia em 1905, percebemos que ele tentou frear mais, interpondo número maior de frases sintéticas, mais coloquiais, como “o Purus é um enjeitado”. Mesmo assim, lá está seu fraseado extenso, grandiloquente, suas mesóclises (“revelou-se-lhe”) e aquilo que a meu ver são seus maiores problemas: o vocabulário, mais do que amplo, repleto de nomes pomposos ao lado de termos técnicos (“esterilizam-se os ares urentes”); e a profusão de advérbios e adjetivos, uma mania gongórica de sempre acompanhar cada substantivo de pelo menos um qualificativo.
Não é o caso de dizer que sem tais excessos o estilo não seria o mesmo, não significaria a mesma experiência estética e existencial de sua leitura. Uma boa edição a deixaria ainda mais absorvente. Mas o que quero dizer é que a recompensa de tais esforços ao leitor – ainda que ele tome a razoável decisão de seguir mesmo quando não compreende todas as palavras, a fim de se manter atado ao ritmo acima de tudo – é incalculável. Há momentos tão belos na prosa de Euclides que dá vontade de ler em voz alta. Não por ser uma prosa poética, no sentido de uma prosa que tem métricas e rimas como as da poesia, mas por ser uma combinação de prosa poética com prosa científica. Sem esta, o estilo de Euclides não iria tão longe.
Afinal, mais do que leitor de John Milton, Victor Hugo e Castro Alves, ou de beletristas como Coelho Neto e naturalistas como Zola, ele era leitor de cientistas viajantes como Alexander Von Humboldt e Alexandre Rodrigues Ferreira, que faziam descrições às vezes líricas da geologia, fauna e flora; e de social-darwinistas como Herbert Spencer e positivistas como Benjamin Constant, com suas argumentações em torno de etnias evoluídas. Ponha mais uma pitada dos grandes historiadores do século 19, como Michelet e Carlyle, e as influências principais estão pesadas. Mas o estilo de Euclides, como o de Machado ou Rosa, não pode ser explicado assim; é muito próprio para ser visto como simples combinatória de influências. Com o ideal de unir ciência e arte, classicismo e romantismo, ele ousou e inventou como poucos.
Uma das linhas de força de seu estilo é a colagem de gêneros. Ora ele escreve como geógrafo, ora como historiador; ora como romancista, ora como ensaísta. É também o primeiro grande jornalista literário brasileiro, porque sempre tenta se ater aos fatos; melhor ainda, que permitiu que os fatos mudassem sua opinião, ainda que continue marcada em boa parte por preconceitos de época. Sua narrativa de guerra, A Luta, é um prodígio porque encadeia os eventos sem deixar de construir pontes intermitentes com o que disse antes em A Terra e O Homem. Euclides sempre abre seus textos com o “macro”, com a descrição panorâmica de uma região, espécie de Google Earth em verbo. Depois vai fechando sua lente no grupo social e, por fim, em indivíduos, como a sertaneja de mangas sujas de sangue que teve pai e filho degolados pela República. A discordância sobre suas generalizações não tira a força dessa convergência.
Sua saudável ambição em Os Sertões era notar o que ninguém mais notara, o “traço superior do acontecimento”. E “traço” aqui remete tanto à sua visada geológica (como a de Darwin), que destaca a topografia insular do arraial (a qual, impedindo a “mestiçagem extrema”, teria preservado a bravura estoica dos jagunços), como à sua escrita pictórica. Ele recorre a todas as figuras de linguagem e retórica que conhecemos (metáfora, símile, antítese, hipérbole, enumeração, aliteração, até ironia e oxímoro) e a uma enorme variação de ritmos, a justaposições e cortes – que hoje chamamos de cinematográficos, embora nenhum cineasta os recrie. Isso acentua as expressões memoráveis: “o espasmo assombrador da seca”; “arrastando a carcaça claudicante”; “cada parede se rachava em seteiras”; “peitos broqueados à bala ou sarjados à faca”.
Quando vai à Amazônia, não por acaso, se refere a ela como o maior “quadro” da Terra, embora lamente sua falta de linhas verticais e variação cromática. No célebre texto Judas Asvero enfeixado em À Margem da História, é óbvia sua preocupação em transcrever a cena com a marcação de todos os pontos no espaço, desenhando a composição, e com alternância de frases breves e longas que lhe dá movimento: “Caminha. Não para. Afasta-se no volver das águas. Livra-se dos perseguidores. Desliza, em silêncio, por um estirão retilíneo e longo; contorneia a arqueadura suavíssima de uma praia deserta.” Extensivo e intensivo, Euclides enxergava mais drama onde os outros só viam trama.
28.04.09
Eis a íntegra (24 min.) do documentário Um Paraíso Perdido, que filmei na viagem pelo rio Purus que reconstituiu a expedição de Euclides da Cunha em 1905. Foi feito com uma câmera comum, sem microfone, e por isso peço o devido "desconto". Mas espero que transmita pelo menos um pouco do fascínio que o fotógrafo Tiago Queiroz e eu sentimos lá. Agradeço muito a Felipe Machado pela direção e a Alexandre Mesquita pela edição; eles deram ritmo e teor informativo às imagens, além de terem escolhido a bela música de Marlui Miranda.
05.04.09

Confiram aqui o especial sobre a Amazônia de Euclides, com textos, áudios, vídeo e mapas.
A Amazônia que ocupa as margens do Alto Purus, no Acre, quase não foi tocada pelo homem. De suas matas e espécies nativas, muitas ainda nem sequer foram batizadas. A distância, ali, é medida pelo tempo: um lugar está a tantas horas de barco do outro, ou a tantos dias. O rio desce tão sinuosamente que um ponto que se avista a cem metros adiante só será atingido mais de meia hora depois, assim que se percorrer toda a volta. Pela corrente vêm galhos e até troncos de árvores, não porque derrubadas pelo homem, mas porque tiradas pelas águas caudalosas e barrentas de suas cheias. Paisagens parecem se repetir, como uma curva à direita com imbaúbas e uma pequena praia de barro, dando a impressão de que nada mudou. Índios e caboclos surgem a intervalos, em pequenos povoados onde levam sua vida de subsistência: plantar, caçar, pescar. Ou em canoas com motorzinhos de rabeira e carregadas de macaxeiras e jabutis. Mesmo a flora e a fauna, com exceção das mais triviais garças e andorinhas, se exibem eventualmente, em meio ao silêncio e à aparente monotonia da subida. O que é outono e inverno em outros lugares, ali se chama verão; o inverno, de novembro a abril, é a época do calor e das chuvas, de tal umidade que as noites esfriam e produzem uma cerração que, ao baixar, deixa um orvalho sobre a grama que mais parece resultado de chuva. É como um deserto pluvial.
Foi essa Amazônia que o escritor Euclides da Cunha (1866-1909) viu em 1905: como a natureza flagrada logo depois do Gênesis. Nesse labirinto a vapor, sem pedras nem estradas, sem nomes nem cidades, ele viu o que chamou de "um paraíso perdido", ecoando a expressão do poeta cristão John Milton (Paradise Lost). Planejou escrever sobre ele um grande livro sob esse título - livro que dizia que seria superior ao clássico Os Sertões (1902), o livro de sua juventude, de estilo "bárbaro", produto das reportagens feitas para O Estado de S.Paulo durante a Guerra de Canudos. Oito anos depois de sua incursão no semiárido baiano, onde testemunhou as crueldades e os equívocos do Exército republicano contra a seita monarquista de Antonio Conselheiro, Euclides, ansioso pelos vazios do território, decidiu partir para o Acre.
Formado em engenharia pela Escola Militar da Praia Vermelha, incubadora do positivismo nacional, Euclides viajou sob as ordens do Barão do Rio Branco, o chanceler que tratou de demarcar as dimensões continentais do Brasil. O Acre, com seus contenciosos com Bolívia e Peru, era o último bastião desse processo. A função de Euclides, em parceria com uma comissão peruana, era conferir o traçado hidrográfico do Purus, feito 40 anos antes pelo explorador inglês William Chandless, esclarecer dúvidas a respeito de sua bacia e nascente e assinar um acordo com o país vizinho. A tarefa, que comprovou o mapeamento de Chandless, foi realizada com muito custo. Mas para Euclides, que sonhava ir para lá desde 1903, o mais importante era conhecer profundamente o Brasil e desvendar em sua mente aquela "terra sem história".
Treinada em diversas disciplinas, a começar pela geologia, a mente de Euclides estava repleta de leituras sobre expedições amazônicas, principalmente de autores como Alexander Humboldt, Von Martius, Henry Bates e Alfred Russell Wallace (codescobridor da evolução das espécies), além do próprio Chandless. Tais relatos não eram apenas científicos; todos continham uma sensação de espanto e maravilhamento, quase de perturbação emocional diante da grandeza e das contradições da Amazônia. Com Euclides não foi diferente. No livro póstumo A Margem da História, seus textos sobre a região foram reunidos, com destaque para o relato do que viu no Alto Purus. "(A Amazônia) é, sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num plano horizontal que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme moldura que se quebrou." E "o homem, ali, é ainda um intruso impertinente". Entre admirado e pessimista, Euclides voltou diferente de lá.
Se a Canudos chegou disposto a mostrar o atraso moral de um bando de fanáticos e de lá saiu decidido a vingar os fortes sertanejos pela maneira ignorante como foram tratados, ao Alto Purus ele chegou inspirado a encontrar uma riqueza natural a ser colhida pela nação e de lá saiu desconsolado com a paradisíaca monotonia de uma região onde só existia o trabalho semiescravo dos seringueiros. "A adaptação exercita-se pelo nomadismo", escreveu, como leitor da biologia de seu tempo. "Daí, em grande parte, a paralisia completa das gentes que ali vagam, há três séculos, numa agitação tumultuária e estéril." Com sua mistura de determinismo (o homem é produto do meio) e idealismo ("um serviço organizado de melhoramentos que nos salve o majestoso rio"), de prosa científica e expressões bíblicas, Euclides igualou sua obra-prima em pelo menos um aspecto: as questões estão todas ali, lançadas por seu estilo único, por mais que discordemos de suas soluções.
Hoje, porém, o Alto Purus mudou. Se continua com o mesmo ar de abandono, desabitado e desconhecido, de acesso e permanência difíceis, por outro lado tem outra paisagem humana, com cidades pequenas e uma ponte a caminho. Foi para mostrar semelhanças e diferenças do que Euclides viu, neste ano em que se comemora seu centenário de morte, que o Grupo Estado refez boa parte de sua viagem.
02.04.09
Eis o trailer do documentário de 25 minutos que fizemos da viagem pela Amazônia de Euclides da Cunha. No domingo, circula o caderno especial com a reportagem completa.
16.03.09
Em breve, em caderno especial, você verá as outras fotos que Tiago Queiroz fez na viagem pelo Purus. Por ora, ponho as que fiz. O melhor do dia era quando subíamos no teto do barco e íamos ver o pôr-do-sol:

Este era nossa barco, a baleeira rebatizada provisoriamente de Euclides da Cunha, que levava também a equipe do Projeto Cidadão:

Eis uma casa típica da região, de palafita, com varanda para o rio, tanto dos ex-seringueiros como dos índios:

Em todo lugar queriam nos dar presentes, como o menino com cupuaçus:

Come-se muito jabuti, principalmente entre os índios. Na pequena churrasqueira do barco ele também foi parar um dia:

No dia da documentação em Nova Aliança, aldeia kaxinawá, era divertido vê-los posando para as fotos de RG e carteira de trabalho:

Uma índia kulina, da aldeia Santo Amaro, apareceu com um macaquinho, soim, e depois vendeu para uma "kuriú" (branca) que estava na baleeira:

As canoas e batelões dos índios se amontaram na beira do rio:

Ver fotos e filmagens era o que eles mais queriam, fascinados:

Mas o que mais vimos mesmo, claro, foi a mata, com suas árvores de diversas alturas, quilômetros a fio:
15.03.09

Euclides da Cunha inaugurou, com Os Sertões, uma tradição brasileira de observar seu interior rural ou sertanejo, o chamado país “profundo”, com seus dilemas amplos como suas vistas, seus personagens sofridos como seus ambientes. Não foi o primeiro; e seu estilo, que parece tanto evocar os cronistas portugueses e a retórica do Padre Vieira, não teve imitadores (ao menos convincentes, não). Mas a força dele, que tem a ver também com suas contradições – engenheiro militar positivista que às vezes soa como um poeta bíblico ou telúrico –, foi tal que não há outro marco para essa linhagem que vem até Francisco Dantas ou Milton Hatoum, passando por Graciliano Ramos, José Lins, o esquecido Mário Palmério e tantos mais. A literatura de Euclides foi muito mais que pioneira; foi civilizadora.
Toda literatura precisa de bom número de autores que reajam à realidade de seu país, seja a natural seja a social ou, mais comumente, ambas. Eles não devem ser medidos apenas pelo acerto ou erro de suas “opiniões” sobre causas e desdobramentos desses fatos, mas sobretudo pelo modo – criativo, intenso, complexo – como os captaram e lhes deram uma vida que permanece mesmo quando o tema morre na pauta da sociedade. Em países do chamado Novo Mundo, ainda mais nos momentos de afirmação nacional do início do século 20, isso significou retratar paragens inexploradas, hiatos humanos nem sequer registrados. Pense em Juan Rulfo no México, John Steinbeck nos EUA, Rachel de Queiroz. Não à toa Vargas Llosa se inspira em Euclides e García Márquez fascina o Velho Mundo. E recentemente um Cormac McCarthy ou um Juan José Saer também fotografaram em claro-escuro os sertões das Américas.
Nos grandes, o mérito é muito mais que o do registro; é ver nele o labirinto subterrâneo de implicações, de simbologias e ironias. O moderno não tem lugar para épicos no sentido estrito; não há heroísmo, triunfo linear, nem deve haver apenas a compaixão, que tanto se confunde com a comiseração. Arte não é se fingir de neutro para despertar a consciência culpada do público. Por mais que a mania sociológica da crítica literária brasileira insista, Graciliano Ramos não se limita, nem mesmo nas páginas aparentemente mais cruas de Vidas Secas, a descrever “objetivamente” uma triste conjuntura sócio-econômica. Vê no sufocamento daquelas existências o sufocamento da existência; árida é, antes, nossa alma. Guimarães Rosa se queixou da carência de escritores urbanos brasileiros que não fiquem apenas na superfície dos costumes, agitada como um rio que, ao primeiro mergulho, se revela raso, ralo. São Paulo, a cidade, ainda não tem o que sertão mineiro teve em Rosa. Ou Nova York em Saul Bellow. Ou, claro, antes ainda, o Rio em Machado de Assis.
Machado é grande exemplo do que estou tentando dizer aqui. Comparativamente, não é escritor que fica empilhando referências à geografia de sua cidade, que fica se detendo minuciosamente nos endereços onde seus personagens se movem. No entanto, se você quiser estudar a geografia do Rio do Segundo Reinado, em ninguém mais do que Machado vai encontrar o que procura. Aquele é seu mundo, absorvido por sua mente, recriado por sua linguagem; não é preciso pendurar placa em cada esquina, catalogar cada traçado. Bom escritor se conhece pelo que deixa de fora.
Mas Euclides não era um ficcionista; era um misto de geógrafo, jornalista, antropólogo e ensaísta, um homem familiarizado com muitas disciplinas que tentou unificar em seus relatos das regiões onde passou. Como tal, se foi um pensador com os vícios de seu tempo e lugar – um crente no determinismo subdarwinista à moda da casa, no positivismo tingido de messianismo que os militares brasileiros se atribuíram –, por outro lançou questões muito importantes e atuais sobre as escolhas da nação. Uma delas foi sobre o lugar onde estou no momento, a Amazônia; a esta altura devo estar concluindo a mesma rota que ele fez no rio Purus em 1905.
Ele quis fazer sobre a floresta e seus povos o mesmo que fez sobre a caatinga depois de cobrir a guerra de Canudos (1896-97). Esse “segundo livro vingador” se chamaria Um Paraíso Perdido, quase o mesmo título do poema de John Milton, só que com a diferença substancial do artigo “um”. Trata-se da mistura tão característica de Euclides entre seu pessimismo – que ele dizia incurável – e seu idealismo, que, parafraseando seu estilo, exuda por todos os poros de sua escrita tortuosa e caudalosa como o Purus. Na travessia do Acre ele viu o abandono e a crueldade do processo brasileiro que já tinha visto em Canudos; viu também uma natureza magnífica, que sugeriu à sua sensibilidade grandiloquente um dever magnífico, o de desenvolvê-la com as armas do progresso industrial – um dever para o qual a sociedade brasileira não estava capacitada. E, pelo que andamos vendo em nossa expedição fluvial, ainda não está.
Apesar das belas páginas de À Margem da História, Euclides não conseguiu realizar seu sonho de um livro mais maduro, menos “bárbaro” (sic) do que o anterior. Por que não conseguiu realizar Um Paraíso Perdido? Suspeito que não foi porque, adoecido com malária e tuberculose, tenha descoberto a relação de sua mulher com Dilermando, que terminaria matando Euclides num duelo em 1909. O que faltou ao livro foi o que Canudos tinha de sobra: uma narrativa, uma cadeia exasperante de fatos como a luta entre amotinados e soldados no teatro do semi-árido. Não deixa de ser curioso que a Amazônia (as Amazônias, para ser mais exato) não tenha cabido nem na prosa poderosa de Euclides. Há profundezas que só as combinações do imprevisível permitem sondar.
("Sinopse")
Foram mais de mil km navegando pelo rio Purus, desde Sena Madureira até o encontro com o rio Curanja no território peruano. Foram seis dias de baleeira, dormindo em redes e tomando banho com água do rio, e mais dois dias de voadeira, dormindo nas pousadas sem conforto de Santa Rosa do Purus e Esperanza. Em sete desses dias choveu, e quase sempre torrencialmente. Telefone fixo só era encontrado nas prefeituras das três cidades do trajeto brasileiro (Sena, Manoel Urbano e Santa Rosa), celular não pegava nunca e o satelital só algumas vezes. Mas nada disso se compara aos mais de dois meses que Euclides da Cunha levou para percorrer o mesmo trecho, sem contar que partira desde Manaus, em sua odisséia de 1905.
Euclides era o chefe brasileiro da comissão feita em parceria com o Peru para realizar as demarcações do Alto Purus, o trecho do rio que começa onde hoje se situa Manoel Urbano. O objetivo era verificar os primeiros mapas, feitos pelo explorador inglês William Chandless 40 anos antes, e definir a relação hidrográfica com outros rios do Brasil e do Peru. Euclides teve percepções inéditas sobre o rio - como sua característica de leito variável - e confirmou quase todas as medições de Chandless. Mas a viagem foi cheia de percalços: encalhes, conflitos, malária, beribéri e outros males acometeram Euclides e os demais. Mais importante ainda do que seu trabalho como enviado do chanceler Barão do Rio Branco, foi o impacto da floresta em sua mente.
Muitas das impressões que o abalaram continuam presentes. Ele chamou a Amazônia de "um deserto" e descreveu sua combinação de grandiosidade com tristeza. O Alto Purus continua com o mesmo clima de abandono, como se fosse quase inabitado, com longos trechos de rio sem manifestação humana ao redor. Por isso mesmo, a natureza continua muito semelhante; a mata permanece quase toda intocada, com suas imbaúbas e canaranas, seus botos e jabutis, suas garças e andorinhas, seus tambaquis e pirarucus. As riquezas da floresta continuam pouco exploradas, quando não indescobertas, e a ameaça de doenças - agora mais a anemia e dengue do que a malária e beribéri - é uma constante por aqui.
As diferenças, porém, também são significativas. Euclides se revoltou com a condição de trabalho dos seringueiros ("Ele trabalha para escravizar-se") e quis escrever sobre ele o "segundo livro vingador", ou seja, fazer por ele o que fizera pelos habitantes do semi-árido em Os Sertões (1902). Mas Euclides apostou na exploração da seringa; defendeu a criação de ferrovias e hidrovias para escoamento da borracha para mercados externos; quis que a terra fosse desbravada, elogiando o modo como os bandeirantes haviam expulsado os índios. Se chamou a Amazônia de "um paraíso perdido", foi porque se dizia "pessimista incurável", mas, engenheiro militar e positivista, tinha sua receita para levar progresso ao paraíso.
Hoje o Alto Purus não tem mais seringueiros (nem caucheiros, seus equivalentes - e rivais - peruanos). De Manoel Urbano até a Boca do Chandless o que mais encontramos foram ex-seringueiros que hoje estão aposentados e vivem, como seus filhos e netos, de plantar, caçar e pescar. Desse mesmo modo vivem os índios da região, que Euclides não encontrou porque haviam sido corridos para longe dos seringais. Kaxinawás e Kulinas são predominantes no rio, principalmente a partir da Boca do Chandless e até o lado peruano. Também as três cidades, claro, são novidades no cenário - e, com o asfaltamento da estrada (BR 364) que vai de Sena Madureira a Manoel Urbano, esta última, de apenas 6 mil habitantes, tende a crescer bastante. Isso não vale para Santa Rosa, aonde só se chega de barco ou avião.
Esta região da Amazônia continua muito pobre, como Euclides a encontrou, e a única vantagem parece ser o acesso à educação: os netos dos seringueiros já não são analfabetos como seus avôs, ainda que tenham muitos anos de atraso escolar. A noção de progresso mudou nestes cem anos desde a morte do escritor, e agora a floresta pode começar a ser explorada sem ser destruída, desde que seja estudada em seu potencial agrícola, de cosméticos, remédios, madeiras certificadas e outros produtos, inclusive derivados do látex. Resta saber se daqui a cem anos, na Amazônia, o homem e a natureza continuarão a ser inimigos, como disse Euclides, ou se o paraíso perdido pode passar a ser o paraíso desenvolvido.
14.03.09

Anteontem à tarde partimos de Santa Rosa do Purus, no Acre, para Esperanza, no Peru. Foram mais de três horas subindo o rio sob forte chuva. A cidade peruana estava enlameada, e apenas com mototáxis cobertos ao estilo Vietnã foi possível chegar até a pousada não muito salubre. Esperanza, que tem 36 anos de existência, não dá muita esperança: parece uma cidade fantasma, em que a energia elétrica só funciona das 19h30 às 22h30, e poucas pessoas circulam pelas ruas, que chamam mais atenção pela presença de urubus. O prefeito, Emilio Montes Bardalos, nos recebeu com alguma formalidade e muita simpatia - a tal ponto que nos acompanhou na viagem do dia seguinte.
De Esperanza foram mais duas horas subindo de voadeira até o ponto máximo de nossa jornada, a forquilha em que o rio Curanja deságua no Purus. No caminho paramos em duas aldeias, uma de Kaxinawás, outra de Kulinas. Na primeira, San Martín, foi onde nasceu o prefeito, Bardalos, e tem cerca de 120 habitantes. Tem um pouco mais de infra-estrutura que as parentes brasileiras (escada, posto de saúde, banheiros funcionando), mas também sofre com doenças como anemia, hepatite e principalmente males do intestino. O rio mantém sua largura e a correnteza que leva muitos troncos e galhos abaixo. Com a chuva que caiu nos últimos dias, voltou a ficar bastante cheio.
Foi no encontro do Purus com o Curanja que os brasileiros chefiados pelo escritor e engenheiro Euclides da Cunha, depois de mais algumas demarcações do rio e observações astronômicas, lavraram um acordo com os peruanos. Oficialmente, portanto, a missão se encerrou aqui no dia 30 de junho de 1905. Mas Euclides não se deu por satisfeito. Apesar da oposição de Pedro Buenaño, o chefe dos peruanos, quis seguir adiante. Estava com malária e aqui mesmo se alimentou de caldo de macaco. Viajaram ainda cinco semanas acima, chegando à foz do rio Cavaljani, depois de sobrepor nada menos que 51 cachoeiras e trechos por terra. Se hoje é difícil, em seu tempo essa viagem foi heróica.
13.03.09

O que Euclides da Cunha não viu em sua viagem pelo rio Purus, em 1905, foram cidades. Hoje, depois da saída em Sena Madureira, já passamos por Manoel Urbano e agora estamos em Santa Rosa do Purus, a menor das três. Menor em termos de população: cerca de 4 mil habitantes (em Sena Madureira são 40 mil; em Manoel Urbano, 6 mil). Mas em termos de dimensão Santa Rosa é bem grande: o município abrange até a Boca do Chandless, a mais de 300 km de rio, com suas mais de 20 aldeias e outras localidades. Nenhuma estrada chega aqui, só há acesso por barco. Ainda assim, o que era só mata hoje se transformou numa cidadezinha que cresce ano a ano graças à venda de produtos agrários.
Do outro lado do Purus se vê o território do Peru. Brasileiros e peruanos viviam em conflito nos tempos de Euclides por causa da borracha: do lado brasileiro, havia muitos seringais; os peruanos extraíam o látex de uma árvore chamada "caucho", por isso eram chamados de caucheiros. Hoje a relação na fronteira é amistosa. Já entre brancos e índios há algumas diferenças. Manuel Pereira de Freitas, ex-seringueiro que veio do Ceará há 30 anos, quando Santa Rosa nem tinha sido fundada (1992), diz que há muita queixa de furtos de animais praticados por indígenas e também de caça de jacarés feita com tinguí (veneno de uma planta). "O fim da seringa foi ruim", diz ele. "Acabou com o Acre."
Os índios, que somam 52% da população de Santa Rosa, ainda que na maioria espalhados pela floresta, vêm ganhando força, até porque geram mais filhos. O vice-prefeito e três dos nove vereadores são indígenas. Edmar Domingos Kaxinawá, o Yubê (nome em seu idioma), é um desses vereadores. Com 38 anos e oito filhos, ele diz que ainda há muito preconceito contra os índios, mas que a "parceria" com os brancos vem melhorando. Foi eleito com 68 votos, quase todos de Kaxinawás. Diz que os índios conseguem manter sua identidade mesmo que saibam o português, façam negócios com os brancos e vivam aqui na cidade, como ele agora. "Nossa identidade não vai ser esquecida."
12.03.09

Ontem deixamos para trás a baleeira “Euclides da Cunha”, que ficou na aldeia Nova Aliança para completar a documentação dos Kaxinawás, e partimos em duas voadeiras (botes a motor, sem coberta) em direção a Santa Rosa do Purus, na fronteira do Brasil com o Peru. Foram sete horas de viagem, metade delas sob chuva intensa com inclinação contrária de 45 graus. O rio segue largo e caudaloso até aqui.
No caminho paramos em Santa Helena, em busca do cemitério onde o escritor Euclides da Cunha viu, há 104 anos, uma lápide de cinco peruanos com inscrição que acusava brasileiros como os assassinos. Mas só encontramos um pequeno cemitério sem nada parecido. Moram ali quatro famílias e, no meio de tantas aldeias, pela última vez encontramos um ex-seringueiro, José Antonio Cunha da Costa, 59 anos, que hoje vive de agricultura e cria também 12 filhos com Bolsa Família de R$ 105.
A parada seguinte foi em outra aldeia Kaxinawá, Novo Marinho, com 152 pessoas, no alto de um barranco do qual se vê um belo estirão do Purus. Eles aguardam o Projeto Cidadão para amanhã. Cantam o mariri (música típica), oferecem jabutis, pedem por cigarros, bolachas e óleo diesel para o motor de sua canoas. Mais três horas e chegamos a Santa Rosa, ansiosos pelo primeiro banho de água encanada e por dormir na cama em vez da rede. Hoje é dia de seguir o Purus do lado peruano.
Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br
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