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18.12.09

por Daniel Piza, Seção: livros 14:44:24.

Rimbaud (segundo da direita para a esquerda, com Verlaine à sua direita) em quadro de Latour

Escute aqui comentário sobre a edição da correspondência de Arthur Rimbaud pela editora Topbooks. Correção: Rimbaud morreu com 37 anos.

 


17.12.09

por Daniel Piza, Seção: livros 10:44:50.

No mundo inteiro, inclusive no Brasil, hoje são lidos mais livros de não-ficção do que de ficção. Ou seja, há mais exemplares e títulos de biografias, ensaios, reportagens, história, autoajuda, didáticos, científicos e outros do que de romances e contos. Mesmo com sucessos como os da série Crepúsculo, histórias românticas de vampiros adolescentes escritas por Stephenie Meyer, o predomínio já não é da novelística. Houve um tempo, como se sabe, em que a narrativa ficcional ocupava o centro da cultura, era a espinha e medula da troca de valores e costumes. No século 19, por exemplo, o grande romance, que mesclava panorama histórico e análise psicológica, como em Tolstoi, Balzac ou George Eliot, dava a medida de uma civilização. Hoje, não mais. Curiosamente, tal mudança não se restringe ao mundo literário. É claro que há mais filmes de ficção, por exemplo, mas o número de documentários no cinema e na TV só tem aumentado (e influenciado até mesmo filmes não documentais). Nas salas brasileiras, um quarto dos filmes em cartaz pertence ao gênero.

O que explica isso? Num arco de tempo mais curto, pode-se pensar que há relação com um mundo cada vez mais globalizado, de notícias que correm na velocidade da luz (ou das trevas), e fatos como os atentados de 11 de setembro de 2001 provocam nas pessoas uma necessidade de entender melhor a realidade que as afeta de modos tão imprevisíveis. Indo um pouco mais atrás, pode-se atribuir a perda de importância da ficção à explosão de outros meios e linguagens, à concorrência de formatos audiovisuais, internet, novas tecnologias etc., que, além de consumir tempo e dividir atenção, têm uma eloquência mais direta; não exigem o grau de concentração que os clássicos exigem. E, num recuo ainda maior, até a virada para o século XX, a ficção tem enfrentado também a ascensão de uma série de disciplinas antes vagas, sem método nem consistência, e que hoje usam e abusam de ferramentas como a estatística – a exemplo da sociologia, da psicologia e da economia.

Eu arrisco outra hipótese adicional, que tem a ver com os rumos tomados pela própria ficção. Talvez porque pressionados por essa multiplicação das fontes de conhecimento e entretenimento, os romances abandonaram parcialmente aquilo que mais os distinguia até a geração modernista de Proust, Mann, Joyce e Kafka: a força dos personagens. Pense em qualquer grande obra literária e pensará num(a) protagonista, não raro citado(a) já no título: Hamlet, Anna Karenina, Bovary, Fausto, Dom Quixote, Pai Goriot, Dom Casmurro... Mas depois dos anos 30 parece que a ficção optou pela metalinguagem, pelo chororô do autor, ou então pelas crônicas policiais ou fantásticas que são lidas para diversão no verão, quando queremos escapar da chatice da rotina. E ainda não querem perder a “briga” para as biografias de figuras históricas e complexas? Mesmo assim, confesso minha nostalgia pelos grandes romances, com seus personagens fortes e suas ambições estéticas. Romances medianos podem facilmente ser substituídos por histórias reais. Obras-primas, não.

(Fonte)

 


16.12.09

por Daniel Piza, Seção: livros, Amazônia 13:16:42.

Resumir e ilustrar as 42 expedições amazônicas mais importantes de 1500 a 1930 foi a ótima ideia de João Meirelles Filho – tão simples que poucos haviam pensado nela. O pesquisador e ambientalista que nasceu em São Paulo e vive às margens do Rio Pará, em Belém, executou a tarefa com muita competência em Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros, 244 págs., R$ 140), que será lançado hoje, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, 1.731. Como o preço indica e como se vê nesta página, trata-se de um livro de arte, com belas imagens, mas não o confunda com “coffee table book”, com livro para deixar na mesa de centro e apenas folhear em vez de ler.

Autor do utilíssimo Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro, 2004), Meirelles relata cada expedição usando os mesmos tópicos: contexto, líder, principais colaboradores, percurso, obras e principais contribuições. Isso tira do livro a levada narrativa, infelizmente; em compensação ele funciona como obra de referência e também de introdução àquelas expedições que o leitor porventura não conheça ou conheça mal. Cada uma delas mereceria um livro, claro, mas, como se sabe, os brasileiros se importam pouco com a memória. E vê-las todas juntas, na ordem cronológica, forma um panorama único e faz pensar no poder dessa entidade “Amazônia” sobre o imaginário mundial.

Da primeira viagem, de Vicente Pinzón, no ano em que o Brasil é descoberto, até as expedições de Candido Rondon, das quais a última se dá na fronteira do Brasil com Peru e Colômbia, em 1930, vemos como gradualmente o desconhecimento e a fantasia vão dando lugar ao mapeamento e à fotografia. No entanto, as reações de espanto e admiração não sofrem muitas mudanças. Rondon, por exemplo, fez diversas viagens, sobretudo para instalação de linhas de telégrafo, mas também para travar contato com os índios, no qual se distingue da grande maioria dos antecessores por agir pacificamente; há ainda a viagem com o ex-presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, pelo Rio da Dúvida, então batizado por Rondon como Rio Roosevelt; e as últimas viagens são as campanhas em diversas fronteiras. O leitor se cansa só em acompanhar o relato...

Meirelles sintetiza viagens famosas como as de Orellana, do bandeirante Raposo Tavares, a “filosófica” de Alexandre Rodrigues Ferreira, a botânica de Von Martius e Spix, a do Barão de Langsdorff, as de Bates, Steinen ou Koch-Grünberg – muitas das quais lembradas antes nos livros da série Brasil dos Viajantes, da mesma editora. O etnólogo e conde italiano Ermano Stradelli bem poderia ter sido homenageado, embora tenha se concentrado mais no Rio Orenoco, na Amazônia venezuelana. (Alexander von Humboldt, herói de muitos expedicionários posteriores, não aparece justamente porque não entrou em território brasileiro.) Mas Meirelles lembra diversas viagens menos estudadas do que deveriam ser, como a de Euclides da Cunha pelo Alto Purus e a do biólogo inglês Alfred Russell Wallace, que na floresta pluvial fez observações sobre a seleção natural muito parecidas com as de Darwin em A Origem das Espécies. O autor lembra ainda as do linguista Paul Ehrenreich e do pintor francês Biard, para citar algumas mal conhecidas.

Faltam mais mapas com os percursos, mas as imagens são igualmente reveladoras. Das araras pintadas na expedição de Rodrigues Ferreira às fotos das comissões demarcadoras de Rondon, o teatro natural e os grupos indígenas são retratados com a curiosidade dos aventureiros e o perfeccionismo dos profissionais. Bates, por exemplo, é especialmente dotado para a arte da gravura, mas não consegue deixar de trair seu maravilhamento com as cenas, que parecem sempre exageradas – como a da pesca de tartaruga, que mostra em primeiro plano a luta de cinco índios contra um jacaré. Ou temos o pirarucu gigante de Franz Keller, imagem usada pelo geólogo James Orton. Mas não existe apenas a exuberância de fauna e flora: os grandes espaços vazios são recorrentes, em muitas das aquarelas e fotografias, do mesmo modo que o trabalho servil dos seringueiros, como na viagem de Wickham. Não há cartões-postais aqui.

As Amazônias, enfim, são muitas, assim como este livro de João Meirelles Filho são muitos. Que venham seus frutos.

 


por Daniel Piza, Seção: futebol 07:08:04.

Chegou aquela época do ano em que o noticiário é tomado por informações e especulações – mais especulações que informações – sobre contratações de jogadores. Os comentaristas, cada vez mais rendidos ao vão exercício das profecias, palpitam sobre as futuras equipes, dizendo quais nomes servem e quais não servem, com a certeza dos descompromissados. E os torcedores se põem a imaginar como serão seus times na próxima temporada.

“O Corinthians está montando um time de masters”, ironiza um, depois de ver que Roberto Carlos, Tcheco, Iarley e Danilo têm mais de 30 anos. “O Fernandão com o Washington não dá. Aí sim serão as duas torres gêmeas”, afirma outro, projetando o São Paulo. “O Palmeiras até agora só trouxe o Muriqui”, reclama o alviverde. “Que Obina e Vagner Love o quê! O Adriano tem que ficar”, torce o rubronegro. “O Inter só vai contratar técnico?” E por aí vai.

Enquanto isso, mais divertido é ler a brincadeira de Washington Olivetto, o livro Corinthians x Outros (Leya), com o subtítulo “Os melhores nossos contra os menos ruins deles”. Ele convidou gente famosa como Fausto Silva, Jô Soares, Verissimo e até Serra e Menem para escolher seus times ideais, inclusive estrangeiros, e imaginou como seria um jogo do Corinthians ideal contra cada um deles. Em sua equipe, com pôster e tudo, botou 14 ídolos (três no banco a cada partida, portanto): Gilmar, Zé Maria, Dino Sani, Roberto Bolangero, Gamarra, Wladimir, Rincón, Marcelinho Carioca, Neto, Rivellino, Sócrates, Tevez, Casagrande e Ronaldo, o Fenômeno.

Há muitas passagens engraçadas, como Rivellino enfrentando a si mesmo no Fluminense, Ronaldo enchendo a paciência de Cristiano Ronaldo, Neto cobrando falta no olho frágil de Tostão... São textos de humor, e ainda bem; a informação ficou por conta do craque Celso Unzelte, que biografou cada um dos nomes citados.

Bom humor, afinal, é decisivo. Há pessoas que dizem que gostar verdadeiramente de futebol é ser fanático, totalmente passional, amar o clube acima de todas as coisas, cultivar superstições... E daí a matar e morrer por ele vai uma pequena distância. Uma derrota pode chatear, mas jamais tirar o humor; gozação e autogozação são bem-vindas, com a leveza que devem ter, e não a agressividade, velada ou não. Do mesmo modo, imaginar os jogos de 2010 pode ser divertido, lembrando sempre que a maior diversão será vê-los acontecer. Quem briga por causa de futebol não merece o futebol.

("Boleiros")

 


15.12.09

por Daniel Piza, Seção: comportamento, outros esportes 10:24:06.

Não entendo essa histeria puritana contra Tiger Woods. O inferno do golfista começou com uma briga entre ele e sua mulher que terminou num acidente de carro. A isso se seguiram revelações sobre sua vida sexual, com numerosas amantes, prostitutas, etc. Então algumas empresas cancelaram seus patrocínios e a mídia caiu em cima do assunto como sete abutres; muitas feministas foram à TV "exigir" que ele se retratasse; ativistas que sempre se indignaram com o fato de Tiger Woods se dizer "cablinasian" (mistura de negro, caucasiano, índio e asiático, pois sua mãe é tailandesa) o criticaram por preferir mulheres loiras (sua mulher é sueca). Mesmo pessoas que não são em geral moralistas acharam que ele paga o preço de ter vendido sua imagem de bom moço - e agora, portanto, sofre o prejuízo da reversão dessa imagem. Mas vem cá: nas inúmeras propagandas que ele fez, de marcas de roupas, carros, artigos esportivos e alimentos, em algum momento estava explícita ou implícita a mensagem "seja fiel à esposa como eu"?

Alegam que ele sempre aparecia em fotos e ocasiões públicas com a família sorridente e que isso lhe rendia dividendos. Mas por acaso ele deveria ter posado com suas amantes? Por acaso ele implorava à mídia que fizesse imagens suas? E, como há um histórico de escaramuças no casal, será mesmo que a mulher não sabia de nada? Li bons artigos no New York Times e na New Yorker, que observam que as patrocinadoras - com exceção da Nike, que teve o bom senso de lembrar que ela patrocina "o maior jogador de golfe de todos os tempos" - ficaram com medo de perder dinheiro, antes de mais nada, e que o escândalo fere a imagem de autocontrole que ele construiu dentro de campo. Mas só os ingênuos supõem que a admiração esportiva deva se converter em atestado de pureza, honra ou sei lá o que mais - quando não faltam exemplos de ídolos que se valem da fama e da grana para se deitar nas camas...

 


14.12.09

por Daniel Piza, Seção: livros, jornalismo/ crítica, Amazônia 10:24:01.

O Ano Euclides da Cunha não poderia terminar melhor: acabam de ser publicados quase simultaneamente a nova edição de sua Obra Completa, em dois volumes (Nova Aguilar), sua Poesia Reunida por Leopoldo Bernucci e Francisco Foot Hardman (Unesp) e duas coletâneas de estudos, A Vingança da Hileia, também de Foot Hardman (Unesp), e Euclidianos e Conselheiristas, organizado por Walnice Nogueira Galvão (Terceiro Nome). Se as efemérides servem para alguma coisa, é para não deixar a memória dos grandes autores se apagar num país amnésico e tentar lançar luz sobre o que fizeram e reparar esquecimentos ou injustiças. No centenário de morte de Euclides, é inegável que os esforços estão aí.

O melhor exemplo está na reedição de sua Obra Completa em capa dura e papel-bíblia. Em relação às edições anteriores, muitos textos foram acrescentados e o organizador Paulo Roberto Pereira dividiu os volumes em um dedicado aos textos republicanos e amazônicos e o outro a Os Sertões e tudo que se refere à questão do semiárido brasileiro. Entre os acréscimos, está sua preciosa Caderneta de Campo feita como correspondente de O Estado de S. Paulo na Guerra de Canudos, em 1897. Havia apenas uma edição em livro dessa caderneta, de 1975. (Outras cadernetas de Euclides, como as depositadas em São José do Rio Pardo, com sua minúscula letra e seus minuciosos cálculos, pedem versão em livro urgente.) Também nova é a seção batizada de Outros Contrastes e Confrontos, com textos dispersos, em destaque sua tocante celebração post-mortem de Machado de Assis, A Última Visita. Também há crônicas, cartas e poemas que não estavam nas primeiras edições.

Quanto aos poemas, a caixa traz 52, ou seja, 15 a mais do que na primeira edição, organizada por Afrânio Coutinho em 1966, no centenário de nascimento de Euclides. Mas a Poesia Reunida por Bernucci e Foot Hardman chegou a um levantamento total de 110 poemas, sendo cinco incompletos, e mais 24 manuscritos que contêm variantes dos mesmos textos. O único livro de poesia concebido como tal por Euclides, Ondas, traz 73 poemas integrais. Foram encontrados 20 outros dispersos e 12 escritos em postais. O conjunto abrange desde a adolescência de Euclides, que aos 17 anos já escrevia versos antes mesmo de saber que seria jornalista e ensaísta, até o ano de sua morte. Mas, como todo escritor daqueles períodos, a exemplo de Machado, a poesia era a porta de expressão da ambição literária juvenil: Euclides escreveu Ondas entre 1883 e 1884. Depois da maioridade, fez os outros 32 poemas em 25 anos. Transferiu para a prosa todo seu gosto por ritmos e metáforas.

Por isso mesmo, há grande importância no estudo da poesia de Euclides, ainda que ele não tenha sido grande poeta. Machado também não o foi, aliás; mas os poucos poemas bons que deixou, como A Mosca Azul e o soneto à mulher Carolina, merecem qualquer antologia brasileira. Como Machado, Euclides quis ser um poeta romântico e suas influências maiores são certamente Victor Hugo e Castro Alves, como aconteceu com nove entre dez literatos de sua geração e da anterior. Um poema como Os Enjeitados – adjetivo que mais tarde usará para definir o Rio Purus, pelo qual viajou em 1905 – traz a mesma grandiloquência dramática, as mesmas imagens em movimento, os mesmos exclamativos (“Folgai, cantai – valsai!...”) – como se já não bastasse a epígrafe ser de Hugo.

Esse poeta que fala do mistério do ser, dos bafejos de Deus, do seio da amada, do “spleen” da existência; que dá títulos como Estoicismo, Cenas da Escravidão e Eu Sou Republicano; que canta a queda da Bastilha, e seus heróis Danton (Dantão), Marat e Robespierre, e também a revolta dos Farrapos; que usa e abusa de palavras como vastidão, sonho e infinito, sempre no contraste entre amor e morte – esse poeta é certamente um incurável romântico, “o último romântico”, como ele mesmo diria muitos anos depois (e nada mais romântico do que se dizer o último deles). Mas o escritor que enfrenta a aridez do sertão baiano, a complexidade do drama nacional, o desafio de medir cientificamente a Amazônia que induz à fantasia, também está nesses versos. Toda a obra madura de Euclides pode ser entendida como a busca da união desse idealismo romântico com a empreitada realista – uma linha reta com o infinito no ponto de fuga.

E disso Foot Hardman sabe como poucos, pois em A Vingança da Hileia (termo usado pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt para designar a floresta pluvial) estuda justamente como os escritos do Purus revelam a modernidade de Euclides. Os ensaios da primeira parte, ainda que repitam alguns argumentos e citações, mostram como a Amazônia foi para Euclides uma “miniatura trágica do caos”, porque era de uma abrangência ao mesmo tempo impactante e inalcançável, já que só poderia ser estudada em fragmentos, sob pena de permanecer desconhecida. E daí a aposta no “consórcio entre ciência e arte”, na expressão famosa. Foot Hardman sintetiza: “São essas relações cruzadas entre o sonho na prosa da ciência e o real-maravilhoso na prosa da poesia que continuam a perseguir o escritor expedicionário.”

O professor da Unicamp também levanta hipóteses para o motivo de Euclides não ter conseguido realizar Um Paraíso Perdido, que seria seu “segundo livro vingador”, a versão madura de Os Sertões para os ermos amazônicos, onde encontrou os mesmos fortes caboclos. Apesar dos problemas pessoais, como a relação extraconjugal da esposa, Ana, e da tuberculose, Foot Hardman aponta para o lado certo: Euclides tinha receio de ser um escritor “esmagado pelo assunto” e pretendia voltar à Amazônia antes de produzir tal obra. Pode-se também acrescentar a ausência de uma narrativa equivalente; afinal, Os Sertões é o livro que é porque todo o preâmbulo geográfico e antropológico converge para a narrativa do conflito, digna de um grande jornalista literário. Euclides imaginou ver no teatro de fronteira do Alto Purus um embate entre seringueiros e caucheiros (peruanos que extraíam borracha do “caucho”) e não viu. Apesar dos poemas etéreos da mocidade, sua maturidade pedia ação.

Em Euclidianos e Conselheiristas, a professora da USP Walnice Nogueira Galvão transcreve uma mesa-redonda realizada em 1986 com Antonio Houaiss, Franklin de Oliveira, José Calasans e Oswaldo Galotti, tendo ela e mais Valentim Facioli e José Carlos Garbuglio como debatedores. O simpósio de estudiosos passa pelas principais questões do tema, em especial pelo papel da ciência na obra de Euclides. Franklin Oliveira nota que a mesma pretensão científica que deu originalidade e densidade à obra de Euclides foi responsável por seus erros, como o preconceito racial contra os negros litorâneos. Esses erros, na verdade, têm mais a ver com visões social-darwinistas da história (luta de raças e não de classes), não com a ciência, com os estudos de fauna, flora e geologia, que distinguiram Euclides de seus contemporâneos. De resto, como diria Machado, é a eterna contradição humana.

 


13.12.09

por Daniel Piza, Seção: política/ economia, ciência/ tecnologia 08:13:34.

Baptistão

Na semana retrasada houve um estalo perto da esquina da rua Pará com a avenida Angélica. Foi um estalo forte que alguns confundiram com batida de carro. Mais dois estalos se seguiram e então todos entenderam o que acontecia: um dos belos e altos carvalhos da rua estava caindo. Não resistiu às chuvas contínuas de vários dias e ao antigo trabalho dos cupins no interior. E despencou em cima de um carro, obstruindo a rua e, apesar de não ter sido notícia, se somou a mais um transtorno do inferno pluvial que São Paulo tem vivido. Numa cidade com tão pouca área verde, a perda de uma árvore deveria fazer dobrar o sino; mas a prioridade é do asfalto e do concreto, é da cidade impermeável que na terça-feira foi de novo castigada por enchentes.

Se eu fosse adepto da teoria do caos, também associaria a ruína do Quercus ao aquecimento global. Afinal, essa expressão virou explicação para tudo. Faz calor? É o aquecimento global. Chove e faz frio? É o aquecimento global, que deixou o tempo maluco desse jeito. E um dos chavões da teoria do caos é aquele sobre o bater de asas da borboleta que influencia o universo inteiro em ondas sucessivas, podendo gerar até um tufão. A imagem do físico Edward Lorenz pretendia dar uma ideia do que é complexidade – em que o todo é maior que a soma das partes, em que a interação entre os fatores envolve tanta aleatoriedade que o sistema cria sua própria instabilidade. Mas o efeito borboleta passou para a linguagem corrente como tradução de uma noção sentimental segundo a qual não se pode retirar nada da natureza que tudo cai.

“Não foi um caos”, disse o prefeito Gilberto Kassab enquanto a cidade ficava com as ruas desertas porque ninguém conseguia ir trabalhar (quando vi as fotos, pensei ironicamente: enfim uma solução para os congestionamentos!), e no dia seguinte ele ainda tentou se explicar. Mas é claro que foi um caos. No sentido mais comum, caos é uma situação em que tudo se confunde; as distinções se liquefazem, os padrões naufragam... Kassab também confusamente mencionou algo sobre o orçamento previsto não ter sido executado, mas que o executado seria suficiente, exceto num dia em que choveu tão acima da média. Só que os jornais cansaram de mostrar que a verba para combater inundações não foi totalmente usada e que uma bomba de escoamento falhou; e os especialistas descreveram os problemas de infraestrutura e a falta de limpeza de bocas de lobo, etc. No mínimo, faltam padrões para reagir melhor ao caos que irrompe na natureza de vez em quando.

O que não dá para negar é que existe um aquecimento global e que ele se deve bastante à ação humana. Vejo de vez em quando objeções a esse fato. Algumas são inteligentes, pois é sabido que muitos números são exagerados para dar a impressão de catástrofe iminente e pregar ilusões como a intocabilidade da Amazônia. O estatístico Bjorn Lomborg mostrou essas distorções e foi muito criticado por isso, até porque errou também na interpretação de alguns dados; e mais recentemente a Universidade Rice denunciou manipulação semelhante na revista Nature, mostrando que há outros motivos para a subida da temperatura além da queima de carbono. Mas a temperatura tem subido e as emissões de gases podem aumentar a média em 4 graus até o final do século, o que traria muitos transtornos. Isso não é fantasia. O degelo no Ártico – que implicaria o esfriamento da Antártica – e vários outros fenômenos se originam disso.

O caos mental se instala com mais força quando se trata de encontrar as soluções, como estamos acompanhando agora na reunião de Copenhague. Muito se criticou o fato de os EUA não terem aderido ao Protocolo de Kyoto, ainda que cientistas sérios como James Lovelock e Freeman Dyson – que apostam em tecnologias como a nuclear e as alternativas – também o tenham criticado; e de fato as metas não foram cumpridas. Agora, porém, o clima de opinião é mais favorável ao controle dos poluentes, até mesmo pela falta de alternativas imediatas em grande escala, e, como mostrou Jared Diamond em Colapso, o preço de menosprezar a saturação dos recursos naturais é sempre alto. No entanto, os desenvolvidos alegam que os emergentes também contribuem; o Brasil, por exemplo, é o quinto maior poluidor do planeta, em boa parte graças aos desmatamentos no cerrado e na Amazônia. Já os emergentes dizem que os desenvolvidos esgotaram florestas e queimaram petróleo até o limite e, sendo ricos, com matrizes energéticas bem mais sujas que a brasileira, têm o compromisso de colaborar com mais dinheiro.

A China chegou ao cúmulo de dizer que no mesmo estágio de desenvolvimento a Europa Ocidental e os EUA poluíram assim. Mas não parou para pensar no anacronismo do argumento, nem para lembrar que tem 1,3 bilhão de habitantes, os quais precisariam de outro planeta para viver com os mesmos padrões de renda e consumo. Eis um assunto complicadíssimo como o trânsito de São Paulo em dias de chuva: uma nação que põe tanta gente na Terra pode exigir concessões para poluir? Estamos longe de ter a fórmula para o crescimento sustentável no sentido exato da expressão – sobretudo com os políticos que elegemos. Há quem diga, por exemplo, que a Zona Franca de Manaus evita o desmatamento, quando o que faz é concentrar a economia estadual. A cada carvalho que despencar sobre o asfalto, podemos ao menos lembrar como a humanidade continua capaz de ignorar o caos. Ou incapaz de atenuá-lo.

("Sinopse")

 


12.12.09

por Daniel Piza, Seção: cinema 07:20:04.

Não acho que Abraços Partidos, de Almodóvar, tenha a mesma qualidade de seus maiores filmes, dos quais o mais recente foi Volver. Mas ainda assim é um filme tão acima do que se vê nos cinemas que só se pode recomendar que seja visto. Há um toque hitchcockiano em sua história de uma atriz casada com um milionário e apaixonada pelo diretor, com quem se esconde nas praias vulcânicas de Famara e sofre uma tragédia – com a diferença de que Penélope Cruz é filmada em toda sua beleza sensual, jamais distante, com seus grandes olhos ternos. Há passagens de muito apuro visual, que compensam algumas cenas redundantes, em que vemos os personagens fazendo coisas que nada acrescentam à trama, e o final algo esquemático, como se a cegueira e a saudade tivessem sido melodramaticamente superadas. E há o humor, como sempre. Irmãos Coen, Tarantino, Almodóvar, Woody Allen – o humor deles ao menos tira o cinema de sua rotina de romancezinhos, efeitos especiais e sagas moralizantes.

 


11.12.09

por Daniel Piza, Seção: livros 12:45:54.

Escute aqui sobre a biografia de Padre Cícero por Lira Neto.

Participei da enquete sobre o livro da década que este portal promove. Dei quatro sugestões: em ficção, Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e Reparação, de Ian McEwan; em não-ficção, As Ilusões Armadas, de Elio Gaspari, e Colapso, de Jared Diamond. Vote lá.

 


por Daniel Piza, Seção: livros, comportamento, gastronomia 07:05:28.

Na casa de Gilberto Freyre, Apipucos (Valéria Gonçalvez/ AE)

Passei três dias no Recife (os recifenses fazem questão do artigo definido), apurando algumas matérias, e aproveitei muito a cidade que não visitava havia oito anos. Recife tem uma história literária forte, ligada a nomes como Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Nabuco, Álvaro Lins e tantos mais; tem uma cultura popular igualmente forte, na música e no artesanato (representada no Museu do Homem do Nordeste, muito bem montado na Casa Forte), além de espaços como o parque de Francisco Brennand, cujas obras se espalham pela cidade, e o instituto de seu primo, Ricardo Brennand, que tem coleção de Frans Post; tem casarões antigos, como o de Freyre, e casario colonial colorido, como se vê melhor ainda em Olinda, e tem bairros modernos, com prédios cada vez mais altos e em formas curiosas (como um parêntese voltado na concavidade para o mar, tendo no fundo convexo as janelinhas e escadarias), em especial na praia de Boa Viagem e no cais Santa Rita, onde foram construídas duas "torres gêmeas", altíssimos prédios à beira da foz do Capibaribe. A cidade é um tanto espalhada e o trânsito vem piorando, mas dizem que a criminalidade caiu. E é preciso revitalizar o centro agora que o porto perdeu importância para Suape.

E uma cidade conquista pelo estômago também. Comi muito bem no Maxime, por exemplo: fritada de aratu (espécie de caranguejo), pargo com batata ao murro e a deliciosa "cartola", um doce de banana com canela e queijo-manteiga. No Chez Georges, carne de sol com queijo coalho, feijão verde e farofa de jerimum. Na Oficina do Sabor, em Olinda, pescada rosa com molho de gengibre. E no tradicional Leite, ao lado do Recife Antigo, um tenro cabrito com arroz no próprio molho, seguido novamente de "cartola". E os outros doces, como bolo de rolo, baba de moça e nego bom, que me serviram aqui e ali? Adoçar a vida é a melhor vingança.

 


10.12.09

por Daniel Piza, Seção: música 14:32:33.


E viva a coragem. Se fosse conversar com um empresário ou produtor musical desses que dominam a indústria do entretenimento, a mezzo-soprano Cecilia Bartoli ouviria um rotundo “não!” ao propor um CD como Sacrificium, em que reúne o repertório dos “castrati”, os meninos castrados na Nápoles do século 18 para que suas vozes unissem a tessitura feminina à intensidade masculina, dos quais Farinelli foi o mais famoso. Eis que o belo CD, com momentos de dicção virtuosística, está entre os mais vendidos em várias partes do mundo.


Coragem teve também Sting ao fazer um disco invernal, If on a Winter’s Night, com antigas canções inglesas sobre o tema, assinadas por compositores como Purcell e letristas como Dryden – além de alguns trabalhos próprios, incluindo a letra para uma música de Bach. O problema é que a voz de Sting não dá conta de toda a gama de notas e ideias. De qualquer modo, o CD chegou à sexta posição nos EUA.

I Dreamed a Dream, de Susan Boyle, tem vendido como água, na esteira de sua fama, mas quem simplesmente escutar o que é cantado ali, como Cry me a River, com muito vibrato e nenhuma malícia, sabe que está longe de uma grande artista.

 


09.12.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 06:49:52.

Não entendi o que disseram sobre o Flamengo ser um campeão “completamente diferente” dos anteriores da fórmula de pontos corridos. Acho, ao contrário, que o Flamengo mostrou que entendeu o que ela significa. Depois de ser campeão estadual, manteve a maior parte do time e substituiu bem os que vendeu, como Íbson e Fábio Luciano, por Petkovic, Maldonado e Álvaro. Pagou salários em dia e deu crédito a um treinador que organizou o time taticamente, reeducando Leonardo Moura e Juan a ajudar na marcação e também impedindo corpo mole e estrelismo.

A equipe teve a segunda melhor defesa do campeonato, inclusive um dos melhores volantes desarmadores, Willians, e, apesar de não ter um dos cinco mais produtivos ataques, contou com o artilheiro, Adriano (19 gols em 27 partidas), e outros anotadores como Zé Roberto e Pet, craque das bolas paradas e gols olímpicos. Graças a tudo isso teve um returno regular, com momentos de brilho técnico, e venceu jogos decisivos, contra adversários diretos, como o Palmeiras no Palestra. Mais uma vez o time que mais convenceu na segunda metade foi o que venceu o campeonato.

Bons jogadores em todos os setores, um ou dois acima da média e trabalho sério para todos, enfim, são as marcas comuns aos que conquistam esse tipo de torneio. É claro que isso não significa que o Flamengo não deva melhorar muito em infra-estrutura e gestão, mas o que não dá para negar é que soube se planejar melhor neste ano. Essas melhoras servem para que aconteça o que vem acontecendo a clubes como o São Paulo, Inter e Cruzeiro: ter muitas temporadas seguidas no topo das tabelas, sem oscilar demais para baixo. Que o time do Morumbi tenha obtido o terceiro lugar depois de ser três vezes seguidas campeão, apesar de todos os erros da temporada, não é informação para menosprezar.

E também é claro que o Flamengo foi em boa parte ajudado pelo Vacilão de Almeida, muito atuante em 2009 – e a grande lição às avessas do campeonato foi o Palmeiras, clube que mais tempo ocupou a liderança. Equipe, diretoria e técnico não souberam lidar com os reveses, como os desfalques e as quedas de produção de jogadores importantes como Vagner Love e Diego Souza – que por isso mesmo não merecia o prêmio de melhor do campeonato, mais justo para Adriano ou até Pet, ainda que este tenha jogado 22 partidas apenas. Mas nada disso tira os méritos do Flamengo.

O nível médio do campeonato, certamente, decepcionou. Havia boas chances de que fosse melhor que o do ano anterior, em termos técnicos, já que os times contrataram antes e inclusive alguns grandes nomes. Mas as vendas de meio de ano fizeram estrago em diversas equipes e as revelações foram escassas. O Santos de Neymar e Paulo Henrique, por exemplo, foi mal. O Internacional apareceu com Taison, que depois ficou meio apagado, e em seguida com Giuliano, que não chegou a brilhar regularmente. Por isso voto em Paulo Henrique, o Ganso, pela precocidade de seu futebol de boa visão e categoria. Mas o RH dos clubes precisa melhorar muito...

O consolo, para muitos um console que não deixa enxergar direito, foi a emoção da disputa na ponta e na rabeira, em especial a recuperação do Fluminense. Vi muita gente reclamando das previsões matemáticas (1% de conquista para Flamengo, 97% de rebaixamento para Fluminense), com exaltações pseudopoéticas da “paixão que mostra que o ser humano não é máquina”, etc, mas elas são feitas a partir do que se produziu até então. Nenhum matemático disse que não poderiam ser revertidas a médio prazo.

Já a mania de fazer previsões sem base alguma, ainda que em tom de brincadeira (que não elimina o semblante de orgulho nas raras ocasiões em que eles acertam), quebrou a cara de muitos comentaristas que não entendem números... Ronaldo e Adriano, aliás, foram as estrelas do primeiro e do segundo semestres, respectivamente. E o que se dizia deles no início do ano? Ri melhor quem goleia por último.

("Boleiros")

 


08.12.09

por Daniel Piza, Seção: livros, cinema, artes visuais, música, comportamento 08:42:26.

'Angelus Novus', de Paul Klee

Arte e religião já estiveram bem próximas, principalmente na Idade Média, no Renascimento e no Barroco, se pensarmos no cristianismo – e no fato de que uma de suas distinções em relação a judaísmo e islamismo, por exemplo, foi o incentivo à representação visual de divindades. Na Antiguidade, claro, os gregos já haviam tratado de levar para artes como escultura e teatro as questões e o imaginário da religiosidade. Estudiosos como Eric Auerbach e Harold Bloom viram nessa proximidade uma vocação da arte para uma condição de “gnose”, ou seja, de conhecimento do invisível, de visualização do sobrenatural, como se fosse uma espécie de religião sem dogma. Foi há menos de 250 anos que a arte começou a dar menos ênfase aos temas do passado greco-cristão e a retratar, como Goya, o tempo presente e as pessoas comuns. Mesmo assim, o diálogo segue sempre latente em vários aspectos – antes de mais nada, pela força da tradição – e periodicamente ressurge à tona, em obras isoladas, nem por isso menos relevantes. E nos últimos anos não tem sido diferente, ainda que no século 21 mais gente venha se declarando não-religiosa.

Antes de mais nada, vivemos ainda debaixo do grande, retalhado e meio puído chapéu da modernidade, especialmente dos movimentos modernistas de cem anos atrás. E ali o drama do homem individualista, desgarrado da certeza clássica – “exilado dos deuses”, segundo o ensaísta italiano Claudio Magris –, é assunto constante, como no Angelus Novus de Paul Klee, 1939, anjo que aparenta querer reunir os fragmentos do passado para poder seguir adiante. Entre os artistas contemporâneos, há alguns exemplos que nitidamente se detém sobre o mesmo paradoxo, como o pintor alemão Anselm Kiefer. Em sua pintura as relações do homem com a tradição e com o cosmos são os temas mais frequentes, e sobre eles Kiefer se debruça com uma força melancólica, que flerta com o teor apocalíptico e ao mesmo tempo resiste a ele. Ele não é um conservador no sentido de outro grande artista modernista, T.S. Eliot, para quem a tradição é inescapável e ao poeta cabe comentá-la para renová-la, jamais menosprezar seu peso. Kiefer, principalmente em trabalhos mais recentes, como A Queda das Estrelas, parece dizer que o indivíduo deve aprender a conviver com a solidão, com a ausência de referências fixas.

Em muitos artistas de primeira linha encontramos temas mitológicos e bíblicos, como Cy Twombly, que revisitou lendas como a da sacerdotisa Hero e seu amor suicida por Leandro, ou em James Turrell, um quaker que lida sempre com a questão celestial em instalações onde a interação da luz com o ambiente é central. Mas, assim como em Kiefer, já não se trata de uma exaltação da ordem sagrada nem de seu oposto, o catastrofismo que se traduziu em guerras e holocaustos (e na frase de Adorno de que a poesia não seria possível depois de Auschwitz). Isso vale também para um cineasta como Kieslowski, extremamente influente, que nos anos 80 e 90 fez um Décalogo e uma Trilogia das Cores em que, sobretudo no primeiro caso, buscou identificar a moralidade cristã sob os dramas contemporâneos. Em outros criadores há uma posição semelhante, embora mais contida, menos ostensiva. O escritor John Updike, por exemplo, sempre levou a visão jansenista de Karl Barth para seus contos e romances, em que a fé se torna uma espécie de metáfora oposta à atomização urbana. O brasileiro João Ubaldo, em seu romance mais recente, O Albatroz Azul, também se queixou do mundo materialista e científico em que viveríamos.

No entanto, em alguns casos a religião também se manifesta na estética atual com os mesmos extremismos de outrora. Um cineasta como Lars Von Trier, em obras como Anticristo, é obcecado por questões da tradição religiosa, como a visão do feminino na Idade Média. A personagem de Charlotte Gainsbourg vive um pesadelo no isolamento de uma floresta que remete às bruxas que estuda nos livros, como se a culpa pela perda do filho só pudesse ser expurgada num grand guignol de vingança e desespero. Outro cineasta para quem os fenômenos inexplicáveis têm uma carga divina – e paranóica – é o indiano Shyamalan, de A Vila. Por sua vez, um escritor como José Saramago parte da religião para negá-la, para associá-la a guerras e outros males da atualidade. Depois de seu O Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago voltou agora ao tema em Caim. O curioso é que, a exemplo de alguns evolucionistas como Richard Dawkins, ele às vezes soa religioso em sua fixação no tema. Além disso, é lido por milhares de leitores cristãos como se não fosse tão ácido crítico da religiosidade. Outro artista para quem a condição humana só é pensada do ponto de vista da herança cristã é o dramaturgo Tony Kushner, que, ele sim, pareceu recriar o “angelus” de Klee em sua peça Angels in America.

Raro mesmo é encontrar um trabalho como o do compositor Arvo Pärt, de obras como Fratres e In Principio. Pärt costuma ser descrito como um minimalista, mas sua música é toda voltada para o diálogo com estruturas maximalistas, com as formas grandiloquentes da arte sacra, como as de Bach. Por meio da repetição com pequenas modulações ou alterações de andamento, Pärt como que comprime a retórica de cantatas e réquiens e nelas encontra uma essência; e, por mais triste ou dramática que possa soar, sua linguagem de alguma forma recupera uma dimensão afirmativa que hoje dificilmente a arte – de preocupação religiosa ou não – se arrisca a abordar. No universo pop, por sinal, podemos encontrar ideia equivalente nas canções do “bardo” Leonard Cohen, com seu canto-falado de versos muitas vezes memoráveis; em Hallelujah, por exemplo, ele menciona um “frio e quebrado aleluia” ao se referir a uma garota – de qualquer forma, um aleluia escasso no pop de qualquer país hoje em dia.

A escassez de obras que dialoguem esteticamente com a religião, como as de Kiefer, Kieslowski e Pärt, não impede que o sentimento religioso esteja impregnado nas mais diversas expressões culturais do nosso tempo, antes de mais nada como credulidade, como defesa da fé em forças superiores ou ocultas. Se lembrarmos alguns dos maiores sucessos da literatura e do cinema nos últimos dez ou doze anos, vamos encontrar livros que viraram filmes como Harry Potter, de J.K. Rowling, e O Código da Vinci, de Dan Brown, para não falar das adaptações de um livro dos anos 30, O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, e muitas mais. Há também o brasileiro Paulo Coelho, de Diário de um Mago e O Alquimista, embora hoje não faça o mesmo sucesso, e a nova onda de livros e filmes sobre vampiros, como Crepúsculo, de Stephenie Meyer. Os vampiros e os bruxos, em suma, estão em alta, talvez na esteira de acontecimentos como o 11 de setembro de 2001, que reforçou a fantasia como entretenimento, o esoterismo como escapismo. São obras que estão mais para refrigerante do que para Dante; ainda assim, mostram a força que a aproximação pode ter. Arte & religião, afinal, é uma história que, embora contada de modo mais longevo no passado, ainda parece ter um longo futuro.

(Fonte)

 


07.12.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 07:09:05.

O Flamengo se tornou campeão vencendo com dificuldade os reservas do Grêmio, equipe que felizmente mostrou o profissionalismo que alguns jogadores e muitos torcedores não queriam que mostrasse. Os dois gols do dono do Maracanã foram de zagueiros, cabeceando depois de cobranças de bola parada. E Petkovic e Adriano, que novamente teve dificuldades com a perna direita na hora de concluir, não brilharam. Mas, se a partida serviu como símbolo de um campeonato de mediocridade técnica, a conquista premiou com justiça o melhor time no balanço final – e o único que em momentos decisivos soube se alçar acima dessa mediocridade.

Em comum com outros vencedores da fórmula dos pontos corridos, o Flamengo mostrou diversas características: bons jogadores nos diversos setores (no gol, Bruno; na zaga, Ronaldo Angelim; nas laterais, Juan e Leonardo Moura; nos desarmes, Willians e Maldonado; na criação e finalização, Aírton, Zé Roberto e os dois talentos acima da média citados), inclusive na reserva; arrancada consistente no segundo turno; e um técnico sério, Andrade, que não aceitou o “chinelinho” e ainda contrastou com a arrogância e o mau humor dos outros “professores”. A diretoria soube manter a base do time, pagou em dia e ainda trouxe bons reforços.

É claro que o campeão foi ajudado pelos numerosos e incríveis vacilos alheios, em especial do Palmeiras, time que ficou mais tempo na liderança e chegou a abrir cinco pontos de vantagem. Nas últimas dez rodadas, inclusive ontem, a equipe do neocartola Belluzzo jogou quase sempre muito mal, misturando desfalques, apagões e nervosismos em dose surpreendente – e nem mesmo se classificou para a Libertadores. Outro que vacilou foi o São Paulo, embora os próprios torcedores sãopaulinos raramente tenham demonstrado confiança em seu jogo. Já o Internacional e o Cruzeiro, com bons jogadores e jovens revelações, tiveram seus melhores momentos no primeiro turno e não conseguiram repor os exportados.

De qualquer modo, foi um campeonato cheio de emoções, contrariando os defensores do mata-mata, e com os times voltando a apostar em artilheiros, em centroavantes de ofício. Apesar do estilo “fliperama”, com burra velocidade e escassa categoria, permitiu ver alguns lances memoráveis e algumas reações contagiantes como a do Fluminense. E, tardando mas não falhando, consagrou o melhor elenco. Ufa!

 


06.12.09

por Daniel Piza, Seção: política/ economia 07:05:45.

Baptistão

O mensalão do governo Arruda, que reeditou a frase da rainha francesa para “se não tem pão, que comam panetones”, confirma algumas realidades que corriam risco de sumir com a amnésia cultural brasileira. Primeiro, mensalões continuam a existir – mostrando que, ao contrário do que alegaram os petistas em 2005, não se trata de caixa 2, o que já seria crime, mas de redes de corrupção que amarram doações de campanha a licitações públicas. Segundo, a expressão “reforma política” sempre reaparece nesses momentos, por conveniência dos que não a fazem, e serve apenas como biombo para desviar o olhar das baixarias cometidas com o dinheiro público – afinal, há legislação de sobra para que se vigiem e se punam os prevaricadores. Terceiro, o clima de vale-tudo institucionalizado no governo Lula é tal que o primeiro beneficiado é ele mesmo. Ver Tarso Genro lamentando o escândalo é de rir-chorar.

O presidente Lula começou reagindo com seu habitual bordão, já repetido pela ministra e candidata Dilma Rousseff, de que precisamos esperar a condenação da Justiça para emitir opiniões e protestos (como se uma autoridade sob graves acusações pudesse continuar exercendo o poder em sua defesa). Disse que as imagens não falavam por si mesmas. No dia seguinte, atacou o esquema, embora ainda chamando de “coisinha”. E afirmou que mandou duas propostas de reforma política ao Congresso, mas, citando Jânio Quadros (acredite se quiser, Jack Palance), atribuiu a inoperância a “inimigos ocultos”. Bem, a frase de Jânio é controversa, mas teria sido “forças ocultas” e num contexto bem diferente; e todo mundo sabe que não são inimigos, mas aliados, e muito menos ocultos, já que incluem arrimos do governo como Sarney, Collor, Temer, Renan et caterva. E achar que essa caterva vai parar de armar mensalões caso o financiamento de campanha seja público é gostar de se iludir ou de iludir o povo.

Transformar conceitos em desculpas faz parte do personalismo brasileiro, que está em alta nestas vésperas de ano eleitoral. Muitos críticos não percebem como fazem parte do jogo ao criticar o governante em vez do governo. O debate se resume ao bate-leva de adjetivos. De um lado, Lula é chamado de autoritário, analfabeto, etc.; um antigo partidário, César Benjamin, chega a insinuar que ele abusava de um preso, o tipo de afirmação que não viria ao caso nem se não fosse leviana, desprovida de provas. Do outro, o presidente é santificado por um filme com o mais alto orçamento da história e qualificado de “culto” e “inteligentíssimo” até por quem não gosta do petismo. Lula é como seu governo, um neopopulista muito esperto que sabe se gabar das boas notícias sobre o Brasil e se safar das más, pondo a culpa no passado e/ou na imprensa por estas. Não por acaso seu ministro da Cultura se vê no direito de apontar para repórteres e dizer que são pagos para mentir.

Também não é por acaso que já não existe oposição no Brasil. Ela não tem ideias, ou melhor, não tem nem sequer bandeiras. Não pode falar muito da corrupção, porque o valerioduto começou no PSDB mineiro e agora o duto de Arruda passa pelo DEM. Não pode falar muito da incompetência, porque o apagão do governo anterior foi mais calamitoso, por exemplo, e os números do PIB em média são melhores, podendo passar de 5% em 2010. Não pode falar muito da política social, porque o barato e limitado Bolsa-Família virou sinônimo de distribuição de renda, mesmo que o governo Lula não tenha tirado nem um centavo dos ricos (muito pelo contrário). E não pode falar muito dos impostos, porque todos os mandatários só sabem aumentá-los. (O prefeito Gilberto Kassab, segundo a ingênua mídia, teria “recuado” no pulo do IPTU, estabelecendo o teto de apenas 30%...) Temas como meio ambiente e educação dão muito espaço para ataque, mas não catalisam votos como os citados. Logo, não espanta que Dilma suba nas pesquisas, por mais diferente de Lula e inexperiente em urnas.

Entenda direito, leitor: há uma enormidade de assuntos em que o governo Lula pode e deve ser criticado – como venho fazendo há sete anos, enquanto tantos andam desistindo. Quase todos os ministérios fizeram trabalhos ruins ou medíocres, da Saúde à Infraestrutura, da Educação à Justiça. Há uma “herança maldita” em plena expansão, que são os gastos públicos (principalmente com pessoal e Previdência) e as contas externas (a “bolha Brasil”, como sugerido por Paul Krugman, feita de ingressos especulativos que derrubam o real). E há todas as reformas que não foram feitas, assunto que ao menos permitiria uma campanha no tom “o Brasil melhorou, mas vamos olhar para a frente e ver como melhorar ainda mais”. Na arena política, porém, a situação tem dado a liga faz tempo, comemorando agora o consumo aquecido para o Natal. A população come o pãozinho de cada dia – e as autoridades juram que é panetone.

("Sinopse")

 


05.12.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 07:03:54.

Todo mundo discute se é melhor ter adversários fracos ou fortes na primeira fase: os fracos permitiriam tranquilidade e condicionamento; os fortes seriam o “batismo de fogo” que aumentaria a confiança para as fases seguintes. Eu acho que o grupo do Brasil é, como no penta em 2002, um mix quase ideal. Primeiro um fraco, Coréia do Norte; depois a Costa do Marfim, do craque Drogba, um dos melhores times africanos; e por fim um mais forte, Portugal, do insidioso gajo Cristiano Ronaldo. O grupo não é aparentemente simples como os de Alemanha e Itália nem aparentemente complicado como os de Argentina e França, para citar outros campeões. O Brasil tem todas as condições de passar – até por causa do estilo do time de Dunga, de mais pegada e contra-ataque, que sente dificuldades com equipes mais fechadas. Em 2006 a seleção também foi crescendo de produção, mas com adversários fáceis como Gana e Japão, e daí pulou para a difícil missão de bater a França do refinado Zidane. Hoje temos uma equipe menos técnica e menos badalada, capaz de tirar proveito desse ritmo gradual. Mas quem sabe a África do Sul não veja uma Copa menos tradicional, com times leves como Espanha e Holanda, em grupos favoráveis, surpreendendo? A graça é que não sabemos.

 


04.12.09

por Daniel Piza, Seção: livros 15:26:22.

Escute comentário sobre nova edição de Alice no País das Maravilhas.

 


03.12.09

por Daniel Piza, Seção: Amazônia 07:04:35.

Amazônia é sempre um tema polêmico e amplo, mas uma convergência foi evidente nos dois painéis de anteontem: o modelo tradicional de desenvolvimento não atende à complexidade da região. O secretário do Ministério da Integração Nacional, Henrique Villa da Costa Ferreira, mencionou explicitamente o pensamento “desenvolvimentista” de autores como Celso Furtado, dominante nos anos 50 e 60 e inspirador de órgãos como a Sudam, cuja função seria comandar a economia regional com um planejamento centralizado. Hoje está claro que as questões amazônicas só serão resolvidas com participação de muitos atores, sobretudo a iniciativa privada, e atenção às múltiplas escalas, pois uma solução para o sul do Pará não servirá para o norte do Acre. Ao poder público cabe coordenar e induzir – e, como disse Guilherme Leal, da Natura, reduzir a burocracia para que um produto não leve até três anos para chegar ao mercado.

Outra convergência foi a crítica à noção de sustentabilidade como um parâmetro exclusivamente ambiental, quando se trata de combinar avanços socioeconômicos ao uso inteligente dos recursos naturais. O professor José Alberto Machado observou que ainda existe a noção de que “Amazônia e negócios não andam juntos”: falta visão estratégica para investir nos potenciais produtivos com escala, não apenas de modo pulverizado e experimental. Adalberto Val, diretor do INPA, registrou a carência de pesquisadores e verbas para ciência & tecnologia. Todos, afinal, concordaram: ainda conhecemos mal a Amazônia, o que dificulta muito pensá-la de forma pragmática. Mapear esses potenciais e dar a infraestrutura adequada são imprescindíveis. Enquanto isso, a confusão entre desmatamento e desenvolvimento vai prosseguir.

 


02.12.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 07:04:38.

“Tudo que sei com mais segurança sobre moralidade e obrigações, devo ao futebol”, escreveu o goleiro e escritor Albert Camus, autor de O Estrangeiro e A Peste. Bem, Camus estava falando de si mesmo, porque certamente sabia que isso não se aplica a muitos jogadores e boleiros. Eles podem até aprender a guardar posição e tocar a bola para o companheiro mais bem colocado, mas é difícil ver aqueles que vão além disso. Quanto aos torcedores, boa parte não fica atrás, já que tantos não se incomodam de ganhar com malandragem. (Na Copa de 62, por exemplo, Nílton Santos deu passo para fora da área para que não assinalassem pênalti; e Garrincha, expulso na semifinal, foi liberado para jogar a final.) As últimas rodadas têm sido pródigas em novos exemplos.

É curiosa a ansiedade que existe no mundo do futebol em logo apontar culpados, de preferência únicos, para expiar a frustração coletiva. Mais até do que nas vitórias, nas derrotas o futebol vira rapidinho um esporte individual... Todo debate, portanto, termina contaminado por esse passionalismo: a emotividade do torcedor segue com ele por muitos dias depois do apito final – e tome mesa redonda ao longo da semana para distribuir dedos em riste. Sei que há pessoas que acham que atitudes como as de Belluzzo seriam mais “humanas”, mas eu prefiro o humanismo de Camus, que sempre deu grande peso à responsabilidade pública. Amar o futebol não nos exime de obrigações, e uma dessas obrigações é assumir os erros.

O São Paulo, por exemplo, deve ter jogado fora o tetracampeonato no jogo contra o Goiás. Muitos chamaram o time de Jason (do Sexta-Feira 13, aquele que sempre volta para assombrar) e, depois de sequência positiva com Ricardo Gomes, decretaram o triunfo e demonizaram Muricy. Agora que o clube vacilou, o discurso mudou – e já tem muita gente querendo reformulação total. Ninguém pensa que ganhar três Brasileiros seguidos e ainda ficar entre os quatro primeiros mostra que há méritos também. O maior erro de Muricy foi justamente não manter a base, pondo Hernanes e Jorge Wagner tempo demais no banco. Cabe ao clube, por sua vez, ver onde errou neste ano, ao permitir divisão interna no elenco. Fingir que não errou – e ainda tirar mérito do Flamengo – não ajuda nada.

O mesmo vale para o Palmeiras. Muricy tem sua parcela de culpa, especialmente por exagerar nos volantes e chuveirinhos, como se tivesse tentado transplantar um estilo de jogo do Morumbi para o Palestra. A diretoria tem outra parcela de culpa, não só pelo descontrole de Belluzzo, mas também por achar que com Obina e Vagner Love tinha resolvido os problemas. A volta de Cleiton Xavier, domingo, mostrou como um bom armador sempre faz falta. E os jogadores também têm bastante culpa, inclusive Diego Souza, que fez o mais belo gol do campeonato – como já escrevi, num lance de fina biomecânica que só os chatos não entendem como intencional. Diego Souza, que poderia ter sido o craque do campeonato, sumiu em jogos decisivos contra times fracos.

Mais vergonhoso foi o gesto de jogadores como Felipe, do Corinthians, e Souza, do Grêmio. Felipe se absteve de tentar defender uma cobrança de um pênalti que de fato existiu, e que mesmo se não tivesse existido ele teria de tentar defender. O juiz errou muito, mas o goleiro não pode ser antiprofissional. E Souza poderia até dizer que não se pode esperar que o Grêmio, que vai mal fora de casa e já não tem pretensão na tabela, atue contra o Flamengo como se fosse uma final, mas não pode sugerir que se deve entregar o jogo – assim como o São Paulo não pode atribuir ao entreguismo alheio os próprios erros, de muito maior peso. Sei que botar a culpa nos outros é sempre muito mais fácil, ou “humano”. Adultos, porém, evitam isso.

 


01.12.09

por Daniel Piza, Seção: arquitetura 16:23:54.

Museu do Pão

“Começamos pelo espaço e o que ele pode trazer para a vida das pessoas”, diz Marcelo Ferraz, enquanto mostra as imagens do Museu Rodin de Salvador, inaugurado no final de outubro. Ele e Francisco Fanucci são os sócios do escritório Brasil Arquitetura, discretamente acomodado na Vila Madalena, em São Paulo, ao pé do conhecido Beco do Batman, uma ruela cercada de grafites como se fosse um corredor de cores. Seu trabalho se caracteriza justamente por esse diálogo humanista com o espaço, seja ele urbano seja rural, e pelo entendimento do papel social da arquitetura, sem a menor perda no cuidado formal. “Cada projeto tem de contagiar o tecido ao redor”, acrescenta o arquiteto de 54 anos.

Ferraz e Fanucci se conheceram na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, nos anos 70, e Ferraz teve o privilégio de logo estagiar com Lina Bo Bardi, a arquiteta de origem italiana que criou o Museu de Arte de São Paulo. Com Lina, trabalhando em outra obra importante para a cidade, o Sesc Pompeia, Ferraz aprendeu as lições que hoje resume. “O Sesc Pompeia é o espaço mais democrático de São Paulo. Ele é acessível e atraente. Todos os visitantes, não importa de onde venham, se sentem um pouco ‘donos’ daquele espaço.” Ele lembra que “acessibilidade” não é apenas fazer rampa para pessoas com deficiências; é criar canais com os mais diversos tipos e classes.

O convívio com Lina ensinou Ferraz também a destoar um pouco do discurso dominante na faculdade daquele período, em que a exaltação do rigor por si só levou ao “discurso exagerado da estrutura”, de conceitos como o de “fazer o ponto de apoio cantar” – resultando na maioria das vezes em obras que repelem conforto e esbanjam concreto. Ferraz acha, ainda assim, que São Paulo hoje perdeu a “cultura arquitetônica lato sensu”, ou melhor, “o pouco que já teve”, e, com poucas exceções, deu força demais para projetos que se destacam por copiar os estrangeiros e valorizar o show, com as costas voltadas para o tecido urbano. “A cidade é voraz. É pujante, mas realmente não pensa na história e no contexto. Falta a escala humana, aquilo que os americanos chamam de ‘gentle building’, de uma arquitetura que não seja tão agressiva e excessiva.”

Um exemplo que ele visitou recentemente é a Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre, projeto do português Álvaro Siza. O museu com obras do grande pintor brasileiro se situa junto a uma encosta de frente para o Guaíba. Ferraz destaca essa adequação à geografia e o modo como Siza faz o visitante descobrir o espaço, levando-o a entrar e sair do prédio por meio de rampas externas fechadas com janelas para o rio, além do bem-estar proporcionado também pelo revestimento de gesso recebido pelo concreto. Forma, escala, material e experiência se unem para dar humanidade ao trabalho. E foi de Siza que, em certa ocasião, Ferraz ouviu um elogio tão simples quanto fundamental: ao ver o Museu do Pão, obra realizada pelo Brasil Arquitetura em Ilópolis, no Rio Grande do Sul, o mestre português exclamou: “É uma celebração da madeira”. Não por acaso, é da dupla paulista o mobiliário da Fundação Iberê Camargo.

Também não é por acaso que, no mesmo endereço do escritório, existe uma marcenaria, cujos móveis e peças são exibidos numa loja a poucos metros na mesma calçada da rua Harmonia. O gosto pela madeira se vê no Museu do Pão nos capitéis de ipê, com quatro vigas inclinadas, nas cercas em treliça ao estilo italiano, nas tábuas de araucária que são imitadas pela textura do concreto. O trabalho de Ferraz e Fanucci sempre parte do entendimento da cultura local, da riqueza e mistura de sua história; no caso do museu de Ilópolis, das origens italianas, levadas e transformadas pelos colonos do sul do Brasil. “Arquitetura se relaciona com tudo – com o momento, com a cidade, com a tradição, com a técnica”, diz Ferraz. “E os museus hoje não são mais depósitos de obras; são museus que procuram contar histórias, que procuram conexões entre presente e passado.”

Foi com essa noção que o escritório fundado há exatos 30 anos (então ainda com Marcelo Suzuki, José Sales Costa Filho e Tâmara Roman) fez não apenas o Museu do Pão, mas uma série de outros trabalhos já prontos ou sendo prontos. No Museu Rodin, por exemplo, o que estava em questão era a ocupação de um casarão antigo, de estilo eclético, e sua expansão para novos espaços e funções, em especial a de expor 65 esculturas do gênio francês. A proposta inicial era acrescentar apenas uma edícula, mas Ferraz e Fanucci sugeriram um segundo prédio, ligado ao antigo por volumes de vidro e pisos de madeira. Varandas e paredes foram quebradas, mas a estrutura original permaneceu, assim como as pinturas decorativas nos tetos. A exemplo do que fez Paulo Mendes da Rocha na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, as intervenções do Brasil Arquitetura em prédios históricos combinam respeito e inovação. “O arquiteto precisa saber desaparecer também”, lembra Ferraz. Mas ele também se queixa da intransigência de alguns tombamentos, que se esquecem das necessidades contemporâneas. “Acho que Lina não conseguiria fazer o Sesc Pompeia hoje”, diz, pensando no modo como ela renovou a antiga fábrica.

Muitos trabalhos nessa linha estão em execução pela equipe instalada no primeiro andar do escritório, entre computadores e maquetes. Ferraz mostra projetos em andamento como o Museu do Pampa, previsto para 2011, num prédio de 1855 em Jaguarão, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, onde funcionou uma enfermaria durante a Guerra do Paraguai (1865-70). O projeto mantém até mesmo as ruínas de pedra, prolongando o prédio principal com uma linguagem que é moderna e ao mesmo tempo se harmoniza com a antiga; há até um túnel por dentro da pedra que conduz ao auditório. Estratégia semelhante se dará em outro museu previsto para o mesmo ano, o Museu Xique-Xique, em Igatu, na Chapada Diamantina (MT). Aqui a saga a ser narrada é a do garimpo, num espaço que lembra uma casamata ajardinada em meio à planície agreste.

Já em Piracicaba, no interior de São Paulo, Ferraz – que um dia já foi chamado de “neocaipira”, por fazer trabalhos fotográficos e arquitetônicos no Vale do Paraíba, ganhando cumprimento até do crítico e sociólogo Antonio Candido – conta que pretendem transformar um antigo engenho em teatro, reformando também a praça (para a qual o palco também se abriria) e a casa da cachaça, mas ainda dependem da licitação. Nem todos os projetos em curso, porém, são recuperações de velhos endereços. Em São Paulo, por exemplo, já foram iniciadas as obras da Fundação Shalom, um prédio de linhas modernistas que, mais uma vez, lembram a influência de Mies Van Der Rohe, com volumes cúbicos e vazados que se completam em painéis de concreto azulado na fachada.

Por falar em interior e Van Der Rohe, foi de “Bauhaus caipira” que um amigo de Ferraz, com bom humor, chamou sua casa em São Paulo, a qual considera um de seus melhores trabalhos. A ideia para o terreno linear de 42 metros de comprimento foi criar uma sucessão de “ambientes que podem ser descobertos passo a passo”, de espaços que geram sensações, comportamentos e confortos, não algo fechado ou de leitura imediata. Ângulos, luzes e materiais vão se revelando à medida que o visitante experimenta a casa: a escada de aço dobrado como origami, a lareira “alentejana” com base preta, a varanda com fogão a lenha, as paredes caiadas, o piso de pedra Goiás, a cerca de bambu... tudo sob a intenção declarada de evocar a infância nas fazendas de Minas. Ferraz resume: “É uma planta muito racional, com soluções de roça, mas urbana.”

Mas é num trabalho de cunho histórico em São Paulo que um dos projetos mais importantes do escritório começa a ocorrer: a criação da Praça das Artes. Junto ao vale do Anhangabaú, ao lado da avenida São João, atrás do célebre Conservatório um dia dirigido pelo escritor Mario de Andrade, Ferraz e Fanucci planejam um amplo boulevard que terá numa das extremidades uma torre para a sinfônica, os corais e o corpo de baile, com salas de ensaio, e as escolas de música e dança municipais, além de museu e restaurante, tudo em concreto pigmentado. A praça terá árvores e quiosques, num total de cerca de 30 mil m². Prevista para o final de 2011 também, a obra tem a vocação de um marco na recuperação do centro histórico da cidade, até por não ser a mera criação de um equipamento cultural – e sim um espaço entrelaçado no tecido social. “Arquitetura não pode ser moda, pois as obras ficam para as futuras gerações.”

Na visão de Ferraz, à atividade da arquitetura é inerente a preocupação tanto com o ambiental quanto com o cultural. “A boa arquitetura sempre foi sustentável”, afirma, sem negar que novos procedimentos – como os necessários para obter o certificado LEED, uma espécie de “selo verde” para construções que economizam energia, reutilizam água e adotam outras medidas que zelam por recursos naturais – têm grande importância. “Se você pensar no brise-soleil, que reduz a incidência direta do sol, terá um exemplo. A boa arquitetura sempre procurou evitar excessos, sempre procurou trabalhar com métodos duráveis e de fácil manutenção. No Brasil, então, o clima agressivo, com muito sol e umidade em diversas regiões, uma coisa nunca se separou da outra.” Ferraz cita nomes como Lúcio Costa e Lelé (João Filgueiras Lima, arquiteto de hospitais da rede Sarah) como exemplos por sua preocupação com a circulação de ar – o que inspirou o Brasil Arquitetura em soluções como a do Museu do Pão, em que aberturas quadriculadas permitem que o vento entre no prédio por baixo e saia por cima, permitindo a troca de ar.

Sobre esse compromisso amplo da arquitetura, ele faz outra observação interessante a partir do trabalho de sua mentora. “O belvedere que Lina fez no Masp, para que as pessoas tivessem uma vista para a cidade abaixo, nunca foi seguido. Não há na avenida Paulista inteira nenhum outro prédio que seja suspenso. São todos fechados, como uma estufa de vidro. Não se abrem ao espírito público.” Em tudo que fazem e farão – o que deve incluir ainda um museu de antropologia brasileira e uma fundação para a obra de Luiz Gonzaga, rei do baião – Ferraz e Fanucci se pautam por essa herança deixada por Lina. É seu maior patrimônio.

(Fonte)

 


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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br. Email: daniel.piza@ grupoestado.com.br





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