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29.12.08
Este blogueiro descansa até o dia 12/1. Descanse também.
28.12.08

Nesta época somos quase coagidos a fazer um balanço do que foi o ano, por causa das festas e férias, a empilhar promessas que mal serão cumpridas – emagrecer cinco quilos, ler mais livros, reencontrar aquele velho amigo – e, pior, a levar a sério as simpatias como pular ondas e comer uvas. Revistas se enchem de artigos conservadores sobre a necessidade da fé para sobreviver num mundo violento. E as TVs vêm com seus “especiais” dominados por musiquinhas açucaradas. É como se encarar a passagem de ano como um simples período de descanso, em que as crianças ficam felizes com os presentes e podemos comer e beber mais à vontade, fosse pouco. A humanidade que teima em pregar idílios é a que não sabe se satisfazer com os prazeres simples da vida. E tome xaropada, dia e noite, até a quarta-feira de cinzas...
A natureza e os políticos não estão nem aí para o calendário festivo. As enchentes continuam revelando a incompetência urbana em criar mais áreas permeáveis e evitar ocupação de morros. Governos como o brasileiro aproveitam a calada do réveillon para lançar pacotes que aumentem as despesas públicas e/ou os impostos que pagamos. E, por mais que desestressar seja importante, qualquer olhar realista sobre 2009 não se deixa iludir. EUA, Europa e Japão estão em recessão; emergentes como China e Brasil crescerão em ritmo bem mais lento, talvez à metade do anterior. Aqui, para complicar, a fraqueza da moeda e a dependência de commodities se traduzem num dólar alto, e a “marolinha” já provoca demissões, fugas de capital, quedas no consumo. A noção de que o Brasil cresce graças ao mercado interno foi fazer companhia a Papai Noel.
Coisas boas acontecem também. Barack Obama não vai realizar nem 10% do que as pessoas esperam que realize, mas, além de uma equipe experiente, ele já anunciou medidas que aliviam o mal-estar deixado por Bush, como a liberação das pesquisas com célula-tronco e o fechamento da prisão de Guantánamo. Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico que já tinha feito o pacote mais inteligente para combater a crise financeira, declarou agora que vai tirar suas tropas do Iraque. E o problema principal da economia, a excessiva desregulamentação que permitiu até “pirâmides da sorte”, foi identificado – e só em mentes arcaicas resiste a opinião de que o capitalismo morreu, como se o mundo não estivesse melhor hoje do que estava em 1989. Como se vê nas listas de melhores livros, CDs e filmes, tampouco o apocalipse cultural previsto por fascistas e marxistas aconteceu. Há vigor e variedade, sim.
Contabilidades de réveillon, claro, costumam ser egoístas. Fulano quer saber se tem dinheiro no banco, mulher na cama e prestígio na sociedade, não se o país e a humanidade vão bem ou mal. Eu, por exemplo, poderia me queixar da perda de um emprego ou de outras coisas que doem no orçamento e na vaidade. Mas só posso ficar satisfeito com um ano em que fiz duas dúzias de palestras sobre Machado de Assis, inclusive para centenas de adolescentes que prestavam duas horas de atenção contínua, publiquei mais um livro e trabalhei em lugares como China e Antártica. A retórica e o consumismo dos tempos servem apenas para que se esqueça o que é substantivo – como a educação e as amizades – e o que é adjetivo. Reveja 2008, prometa pouco, deixe de crendices. O que vale nem sempre se mede.
("Sinopse")
26.12.08
A inteligência de Philip Roth, no livro de não-ficção Entre Nós (Companhia das letras, trad. Paulo Henriques Britto), é tão visível quanto em sua ficção. São entrevistas com escritores como Primo Levi, Ivan Klíma e Milan Kundera e outros judeus e europeus do leste; há uma conversa com Isaac B. Singer sobre Bruno Schulz, o autor de Sanatório; cartas com Mary McCarthy; um perfil de Bernard Malamud; e análises da pintura de Philip Guston e dos romances de Saul Bellow. Roth se mostra exigente e generoso ao mesmo tempo e confirma sua cultura européia, contrariando a burrice da Academia Sueca que considera que a literatura americana só fala consigo mesma. Na conversa com Levi, Roth nota que o fato de ele ser um sujeito que "pensa demais" o ajudou a sobreviver a Auschwitz - "O cientista e o sobrevivente são a mesma pessoa" - e o genial autor de É Isto um Homem? concorda plenamente. Roth faz brilhantes comentários sobre Kafka, comenta com Edna O'Brien o medo feminino do abandono, chama Herzog de "o Leopold Bloom da literatura americana" (não, não está dizendo que Bellow é tão bom quanto Joyce) - esbanja, enfim, sensibilidade para a vida e a literatura.
Todo grande escritor é um grande leitor.
25.12.08
Klaus não acreditou quando viu Cuca, seu amigo de infância e colega de empresa, andando pelo corredor do shopping com pacotes a tiracolo. Nunca o havia encontrado ali, embora o shopping fosse ao lado do seu prédio, e Klaus sabia que Cuca morava longe, em outra parte da cidade. Mas as coisas começaram a fazer sentido quando Klaus chegou mais perto e pôde ver que, ao contrário da ansiosa excitação da maioria dos freqüentadores, Cuca tinha um semblante carrancudo, aborrecido como se estivesse numa fila de espera para consulta com o urologista.
– Cuca, tudo bem? Você não parece bem.
– Klaus. Não tinha te visto. É, tô meio de saco cheio. Literalmente e metaforicamente.
– Haha, pelo menos de bom humor.
– Não, cara, de mau humor. Desculpe, a culpa não é sua. Mas é que não suporto esta época de final de ano. Nunca fui de fazer compras, e aqui estou eu tendo de fazer compras.
– Mas por que não gosta desta época do ano?
– Você ainda pergunta? Tá vendo este pacote aqui? Foi presente que precisei comprar para a Amelinha. Tirei aquela chata no amigo secreto. Quer coisa mais inútil do que amigo secreto? Em geral não é amigo, às vezes nem mesmo secreto. E você ainda precisa ficar descrevendo como ela é para os outros adivinharem. Claro, só falando coisas boas. Por mim, sabe como eu descreveria a Amelinha? “Minha amiga secreta é uma colega, não uma amiga, e ela é baixinha, gorda e não costuma dar bom dia. Também é conhecida por nunca ter dado um aumento para sua equipe.”
– Hahaha, ela é durona, mesmo. Mas relaxe, Cuca, o fim de ano não é só amigo secreto. É tempo de balanço, de descanso, de...
– Você está parecendo Papai Noel de comercial.
– Pô, larga de ser implicante. Até o Drummond, o poeta Carlos Drummond de Andrade, falou sobre a inteligência que existe em dividir o tempo em anos, para que a gente possa refletir e renovar.
– Poetas... Mas tenho certeza de que o Drummond não trabalhava ao lado da Amelinha. E que não saía para fazer compra de Natal em shopping. Esses outros pacotes, aqui, são para sobrinhos, pais, afilhados... O mundo numa baita crise e eu gastando uma fortuna! Sem falar naquelas tias que vêm falar com você como se ainda tivesse 10 anos. O Natal era para ser uma festa religiosa e virou uma festa consumista. Amar o próximo agora é se endividar no cartão de crédito por ele? E, convenhamos, essa festa nada tem a ver com a gente: é tudo comida pra inverno. Tá vendo ali?
– O quê?
– O Papai Noel do shopping. Viu agora? Todo shopping tem um. Olha lá o coitado com aquela barba e aquela roupa, suando em bicas, mesmo com ar-condicionado. Só pode ser um bom dinheiro.
– Cuca, você sempre teve esse ótimo mau humor, mas agora tá virando ranzinza, hem?
– É que eu fiz o balanço de mais um ano e concluí que tô mais velho... Mas falando sério: você não se cansa desse bombardeio de “esperança”, de “compre isso, compre aquilo”, de gente dizendo que vai pular não sei quantas ondinhas, comer não sei quantas uvinhas... E para quê todo mundo se veste de branco? Você olha para a praia e vê toda aquela gente de branco; parece uma multidão de pais-de-santo. Qual a graça de ficar cinco horas na estrada para fazer isso?
– Cuca, meu caro, você tem muita razão em tudo que está dizendo. Mas dá um desconto. Não porque é Natal, porque isso, porque aquilo. Mas porque é assim, sempre foi assim. Até você deve lembrar dos natais de quando era criança, ou pensar de vez em quando “o ano tal foi muito bom”... Lembra 1988?
Cuca arregala os olhos, como se recebesse uma surpresa.
– 1988? Claro. Grande ano. Nosso time foi campeão, você e eu fomos promovidos e eu ainda conheci a Renata. Grande ano!
– Viu como nem tudo é ruim? Dá um desconto, amigo; vamos lá, te ajudo a terminar as compras.
– Ok... Até porque esse é o tal “lado bom da crise”: tem um monte de lojas dando desconto. Vamos ali, meu afilhado lá de Salvador vai adorar aquele game de futebol. Eu também.
24.12.08
Para terminar o ano com uma boa notícia, a temporada encerrou definitivamente o futebol dos “nove atrás da linha da bola”, com três volantes e apenas um atacante. Nos times mais bem-sucedidos do momento o que se vê são dois ou três atacantes, que ficam na linha do meio-campo quando o adversário avança e que recebem companhia de meias e alas quando é sua vez de avançar. O Manchester United, campeão mundial no último domingo, joga com Cristiano Ronaldo (31 gols na Liga Inglesa), Tevez e Rooney, este como referência na área (e autor, ali, do gol da vitória sobre a LDU). O Barcelona está dando show com dois centroavantes, Henry e Eto’o, mais um Messi cada vez mais goleador.
Mesmo o ainda irregular Milan, que sofre com falta de renovação na defesa, goleou o Udinese no sábado com dois gols de Kaká e dois de Pato. Bastou Kaká reclamar de estar muito recuado por causa de Ronaldinho, que o técnico inverteu as posições e o resultado já apareceu. Ronaldinho é um meia que chega para finalizar, assim como Seedorf; Kaká é segundo atacante, fazendo valer sua velocidade, sua incisividade. Pato está adquirindo confiança e maturidade; no primeiro gol de Kaká, mostrou frieza na hora de rolar de pé trocado a bola na pequena área para o companheiro. O líder italiano, a Inter de Milão, não é diferente. Tem tantos atacantes matadores, a começar por Ibrahimovic, em fase formidável, além de Crespo e Julio Cruz, que praticamente já dispensou Adriano. O Lyon tem Benzema, outro em fase brilhante. Etc., etc.
No Brasil essa realidade começa a voltar também. O São Paulo, que sofreu muito enquanto Borges esteve machucado, já contratou Washington, pois, como disse Muricy, é sempre melhor ter goleadores no elenco. O Corinthians fechou com Ronaldo, que mesmo sem o arranque de outrora sabe resolver situações em espaços curtos ou longos, e parece consciente de que precisa ter outro centroavante para não ficar dependente do craque e suas lesões. O Palmeiras perdeu Alex Mineiro para o Grêmio, mas trouxe Keirrisson, revelação e um dos três artilheiros do ano, mais jovem e eficaz. O Santos aparentemente preservou seu melhor jogador, Kléber Pereira. Não há dúvida, portanto, de que pelo menos o Campeonato Paulista que começará em janeiro terá uma forte disputa pela artilharia. Além disso, Fred, do Lyon, e o próprio Adriano querem voltar ao Brasil, onde teriam mais chance de serem titulares. Se os clubes dos outros estados forem espertos, já devem estar atrás deles.
Afora a presença de bons atacantes – jogadores completos, mas que sabem antes de mais nada finalizar com categoria –, as equipes de ponta no futebol atual têm um sistema tático apurado: sabem jogar com e sem a bola e fazer com rapidez e competência a transição de defesa para ataque, graças ao meio-campo versátil. Para isso, volantes que se transformam em meias na hora de apoiar, com visão de jogo, bom passe e bom chute – como Xavi, do Barça e da Espanha campeã da Eurocopa, Pirlo, do Milan, Juninho, do Lyon, ou Hernanes, do tricampeão brasileiro São Paulo –, são fundamentais, como um dia foram Gérson ou Falcão, desde que protegidos por um volante mais de marcação. Mas isso não adianta muito se não houver, de preferência, dois homens com fino faro de gol à frente. Tomara que 2009 seja mesmo o ano dos 9.
("Boleiros")
23.12.08
Crises vão e vêm, a globalização tem altos e baixos, mas o turismo só fez aumentar no mundo desde que o poeta Lord Byron cunhou o termo há cerca de dois séculos. Ou seja: se quiserem fronteiras fixas, com muros cada vez mais altos, mandem o planeta parar. Não há mais culturas puras e lugares inexplorados. Mesmo em países de regime fechado, autoritário, como Cuba, a indústria do turismo é inescapável: mais de 50% do PIB da ilha vem dos viajantes de todas as partes que deixam dólares em troca de lagostas, charutos, mojitos, daiquiris e músicas.
A era de ouro dos viajantes pode ser definida entre o século 15 – o século de Colombo, se não quisermos voltar a Marco Polo – e o século 19, quando exploradores britânicos foram a todos os cantos da África. No início do século 20, a última fronteira foi ultrapassada: o aventureiro norueguês Amundsen chegou ao Pólo Sul, no centro da Antártida, depois de cruzar o continente com uma equipe em trenós puxados por cães. Era 1911 e uma revolução tecnológica já estava começando a acontecer: a invenção do avião por Santos-Dumont, irmãos Wright e outros.
Outras revoluções se seguiriam. Destaco a do satélite, que não apenas serviu para a exploração espacial e a televisão, mas também para sistemas de navegação que hoje estão cada vez mais presentes em carros e celulares. Hoje o mundo está cortado por estradas; voar de avião deixou de ser um luxo da elite; mesmo o passaporte passou a ser desnecessário dentro de blocos geopolíticos como a Europa e o Mercosul. Como resultado, lugares antes remotos como Vietnã, Tanzânia ou Ilhas Galápagos agora abundam de turistas com GPS e Google Earth. E Pequim se preparou para uma Olimpíada com o talento de arquitetos estrangeiros.
Ok, você pode se queixar do excesso de turistas, das lojas de souvenir, da descaracterização de culturas locais, das agressões ao meio ambiente, etc. Pode observar que nos pontos mais distantes, de Ushuaia a Seul, há a uniformização de marcas de roupas, eletrônicos e lanches. E pode lembrar que os imigrantes ainda são um problema sério em muitos lugares. Mas pense no que a humanidade pode ganhar de conhecimento e mesmo tolerância graças à multiplicação dos deslocamentos. Os outros deixam aos poucos de ser estranhos. Ainda que tantas cabeças pensem pequeno, o mundo não ficou menor; ficou mais próximo.
22.12.08
Atrasos em mais de 27% dos vôos. Não foi por falta de aviso. Nem as tragédias fizeram Infraero, companhias aéreas e autoridades (in)competentes atenderem ao consumidor com a decência que ele merece.
P.S. Muitos dos atrasos são por culpa da Gol? Cabe à Anac vigiar e punir. Mas, segundo sua diretora, tudo iria correr muito bem no final de ano...
21.12.08

No ano passado escrevi que o cinema brasileiro, por mais que ainda se tenha preconceito contra ele, tem sido “variado e inquieto”, claro que me referindo ao período que vem desde a retomada em 1994. Como exemplos de 2007, dei O Cheiro do Ralo, Tropa de Elite, Mutum e O Passado, além de documentários como Santiago e Jogo de Cena. Nenhum deles é uma obra-prima, nem ao menos uma grande obra, embora o último – o documentário de Eduardo Coutinho – se aproxime bastante disso. O mesmo se pode dizer neste 2008, exceto pela ausência de um documentário desse porte. Meu Nome Não É Johnny, de Mauro Lima, Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, Estômago, de Marcos Jorge, Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, e o multinacional Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, bastam como prova. Mas já não está na hora de uma reflexão que permita vislumbrar filmes de nível mais alto?
Sim, trata-se de histórias urbanas de cunho tragicômico, lírico-nostálgico, social-afirmativo ou apocalíptico, todas com bom apuro de produção, atuação e cinematografia. Apesar de ter faltado também um bom filme não-urbano, como foi Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), estamos certamente diante de uma safra vigorosa. Atores como Selton Mello, João Miguel e Sandra Corveloni fazem trabalho primoroso, sustentando boa parte de seus filmes com seu talento, e a sensibilidade de Laís Bodanzky também não iria longe se não fosse a de Cássia Kiss e Stepan Nercessian. Mesmo com problemas sérios, o filme de Meirelles (“uma parábola que mal deseja ser uma história”, na definição da New Yorker) tampouco pode ser ignorado. No entanto, são poucos produtos bons nessa atividade crescente – e nenhum rompe a barreira da correção.
O problema me parece ser que, por baixo da diversidade de temas e gêneros, há ainda alguns travos comuns. O maior deles é certa demagogia sentimental. Do ponto de vista técnico, Linha de Passe é o mais bem realizado dos filmes do ano, mas também o que mais faz concessão a esse traço da cultura brasileira, a consciência culpada, que sempre acena com um final feliz para nossa fratura social desde que haja solidariedade entre as classes... Os outros filmes mal fazem referência a isso, mas também sentem vontade enorme de acomodar o espectador, de comovê-lo ou entretê-lo em vez de convencê-lo. O cinema brasileiro ainda se divide exatamente entre filmes que fazem um discurso sobre as mazelas e filmes que as encobrem com ação e humor – ou então absorvem acriticamente uma linguagem de TV para ter escala comercial.
Realismo social e comédias personalistas, para resumir, dão o tom. Dilemas individuais num contexto histórico, o que sempre foi hegemônico no universo das narrativas, continuam raros. Não se filma, por exemplo, o drama de pessoas de classe média de um modo que seja crítico sem ser ideológico; é como se só nos interessassem a tragédia coletiva ou o escape subjetivo. Alice, a série de TV da HBO, apesar também dos muitos problemas (como as situações forçadas e os diálogos redundantes), pelo menos apontou para outro campo temático, com a história de uma jovem de Tocantins que se transforma ao viver dores e amores em São Paulo. Ir além do binômio entre o cinema da culpa e o cinema da desculpa talvez seja a abertura para ver Brasil e humanidade de forma mais complexa.
CADERNOS DO CINEMA
Não que o cinema mundial esteja muito melhor, que ainda se veja um Cidadão Kane, Um Corpo Que Cai, A Malvada, Morangos Silvestres, Rastros de Ódio, A Regra do Jogo, A Doce Vida, 2001, Lawrence da Arábia, O Poderoso Chefão... Sim, estou citando meus dez filmes preferidos.
Em 2008, depois da safra do Oscar, com Desejo e Reparação, Onde os Fracos não Têm Vez e Sangue Negro, tivemos até aqui pouco brilho. O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel, foi certamente o mais criativo, principalmente na primeira metade em que vemos tudo pelos olhos do paciente. Woody Allen fez Vicky Cristina Barcelona, roubado por Penélope Cruz, e os irmãos Coen fizeram também Queime Depois de Ler, que tem alguma coisa de Fargo e de comédias mais leves, mas que não é nem tão inventivo nem tão engraçado. Rebobine, Por Favor, de Michel Gondry, também tem passagens divertidas em meio ao besteirol, além da ótima cena final, mas não tem um décimo da beleza e atualidade de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças. Já Mamma Mia!, com Meryl Streep, é mais um caso de filme desdenhado pela crítica e adorado pelo público, por seu alto-astral e belo visual ao som de Abba. Ainda não vi Gomorra e outros filmes elogiados; verei.
Como no mundo dos livros e dos CDs, reedições estão em alta: o ano viu saírem DVDs de filmes há muito abandonados no Brasil, como O Conformista, de Bertolucci, Era uma Vez em Tóquio e Pai e Filha, do genial Ozu, e mais Mizoguchi, Glauber e outros clássicos, chatos ou não.
ZAPPING
A HBO também fez a melhor série que consegui acompanhar no ano, John Adams, com atores como Paul Giamatti e Laura Linney. Vi episódios bons de Dexter e The Office. Vi também um ou dois capítulos por semana de A Favorita, a não ser quando viajando, e mais uma vez a novela – que não funcionou bem nas partes romântica e cômica – só “pegou” quando a vilã passou a ficar cada vez mais vilã... Apesar da boa atuação de Patrícia Pillar, Cauã Reymond merecia mais elogios; por ser famoso como bonitão, os críticos não têm coragem de declará-lo um ator muito promissor que, nas mãos de um bom cineasta, poderia fazer um grande personagem trágico, um Romeu moderno. Ah, o melhor programa da Globo se chama Som Brasil, graças aos arranjos e jovens intérpretes.
("Sinopse")
19.12.08
Se houve uma tendência forte nas últimas duas décadas, foi a do hábito de cozinhar em casa pratos requintados, com ampla adesão masculina. Costumo dizer que os dois melhores restaurantes de São Paulo são o Chez Cacaio e o Polonio's, ou seja, as residências de dois dos meus melhores amigos, Cacaio Bentivegna e Fábio Polonio, gourmets de mão cheia e boa. Uma vez, irritado com o preço cobrado nos restaurantes por pratos que alguns de nós éramos capazes de fazer melhor com custo menor, cheguei a escrever que só iria comer fora para provar o que poucos sabem. Não cumpri a promessa, mas continuo a achar que ainda tem muito lugar que não vale o que cobra, principalmente porque a coisa mais importante numa receita - a qualidade e o frescor dos ingredientes - deixa a desejar. Há também os pseudo-sofisticados, os que acham que colocar purê de mandioquinha em receita consagrada significa torná-la mais brasileira ou original...
Mas o assunto aqui é o porquê dessa tendência da culinária autodidática. Sim, um aspecto é desagradável, o da pose, e até inventaram a palavra "gastrossexual" para descrever o sujeito que tenta conquistar as mulheres impressionando com seus dotes ao fogão. Tenho baixa tolerância ao papo afetado sobre comida que tem contaminado tantos encontros, papo que antes era mais restrito aos vinhos. No entanto, há alguns aspectos bem positivos. A tendência indica, por exemplo, que o velho machismo de que homem não cozinha está moribundo; que a obsessão por magreza ditada pela mídia não conseguiu tirar o prazer gastronômico; e que, ao contrário do que dizem os apocalípticos sobre a era virtual, as pessoas ainda querem se encontrar ao vivo, em casa, em torno do fogo, para se alimentar e conversar. É uma das mais antigas e melhores formas de convívio. E ainda dá consciência às pessoas sobre o que compram, comem e sentem.
Rompe-se, assim, a monotonia da comida diária e se descobrem pratos e preparos. Nada contra a comidinha da vovó ou da mamãe, aquele bife à milanesa ou filé a cavalo ou bife à parmegiana com feijão de caldo grosso, arroz e batata ou ovo frito - tudo a favor! Mas há tempo, e o tempo para passar duas ou três horas cozinhando para íntimos é muito bem empregado. Eu, por exemplo, cozinho pouco, já que tenho amigos e mulher que cozinham melhor, mas me divirto e até já inventei um prato - medalhão ao molho de mostarda e porcini - juntando tudo que adoro e obtendo um resultado interessante... Saber realizar as receitas centenárias, no entanto, acho a melhor parte desse hábito, até para que não se pense que os chefs badalados inventam tanto quanto eles dizem que inventam. Você pode achar que isso não passa de luxo, de coisa de burguês ou sei lá o que mais; eu acho que é uma parte muito relevante da vida. Nem tudo se encaixa no consumismo e no narcisismo de nossa era. Pode, para os homens de boa vontade, simbolizar muito mais.
18.12.08
Notícias vindas da Cúpula da Bahia, o encontro dos líderes latino-americanos na Costa do Sauípe:
- Cúpula propõe fim do embargo a Cuba.
- Lula diz para jornalistas não tirarem o sapato por causa do chulé.
- Para Hugo Chávez, capitalismo é coisa do diabo.
Eu sabia que esse encontro traria muitas novidades e mudanças importantes. Mundo, curve-se ante o futuro!
17.12.08
Escrevi aqui em 2005 um texto chamado “Por que o Brasil é grande no futebol”, que usava como uma das premissas o fato de que no ano anterior o Brasil tinha tido cinco indicações entre os dez melhores jogadores (Ronaldinho, Ronaldo, Adriano, Kaká e Roberto Carlos), afora jogadores em ascensão como Robinho. Além de ser pentacampeão e a pátria de Pelé, Garrincha, Tostão, Zico e Romário, o Brasil tinha levado até então sete dos prêmios de melhor do mundo dados pela Fifa desde 1991, o que era uma prova de que, ao contrário do que diziam os românticos, o talento brasileiro tinha conseguido se renovar nos tempos modernos de força e velocidade.
De lá para cá, no entanto, a coisa piorou bastante. O Brasil saiu de cabeça pendida da Copa de 2006 e apenas Kaká aparece entre os finalistas dos prêmios individuais deste ano, sendo Cristiano Ronaldo o justo favorito para o da Fifa. Ronaldinho, o “novo Pelé”, que não fez nenhum gol naquela Copa, entrou em decadência no Barcelona – que agora vive momento ainda melhor – e tenta recobrar a reputação no Milan. Tem feito alguns gols, num time que precisa rejuvenescer e vencer a dependência que tem de Kaká, mas está longe de brilhar – e quem viu o jogo contra a Juventus, no sábado, mal o encontrou em campo. Ronaldo engordou e nunca mais fez uma temporada completa. Adriano, bem inferior tecnicamente, se afundou em problemas pessoais. Roberto Carlos, como Cafu, se aposentou. Robinho virou o que mais se temia: um Denílson melhorado, para quem o torcedor inventou a piada de que é um “triatleta” que corre, pedala e... nada.
Basta abrir uma revista como essa excelente Four Four Two, que na edição de dezembro elege os cem melhores jogadores do mundo. Lá estão dez brasileiros, e apenas Kaká entre os vinte primeiros colocados. A Itália tem treze escolhidos; a Espanha, doze. Os dez melhores, pela ordem, são: Cristiano Ronaldo, Messi, Fernando Torres, Casillas, Kaká, Villa, Ibrahimovic, Aguero, Ferdinand e Gerrard. É uma escolha polêmica, porque desmerece Xavi (11º), Lampard (13º) ou Etoo (36º), mas é difícil defender um brasileiro além de Kaká. Os outros nove e seus lugares são os seguintes: Daniel Alves (23º), Máicon (26º), Luiz Fabiano (31º), Robinho (42º), Ronaldinho (70º), o injustiçado Juninho (73º), Diego (83º), Mancini (84º) e Amauri (94º), que fez dois gols da Juve no Milan.
É claro que essa lista abrange apenas os campeonatos europeus, que há três brasileiros naturalizados (Deco, Pepe e Marcos Senna), que a seleção tem mais candidatos (Júlio César, Alex Silva, Marcelo, Pato) e que, dos melhores jogadores atuantes no Brasil, seguramente Rogério, Miranda, Hernanes e Alex também poderiam estar ali. Mas o fato é que o Brasil já não vive o mesmo momento de três ou quatro anos atrás e que seu campeonato não prima por grandes clubes. O São Paulo não pode ser comparado com Chelsea (doze nomes na lista), Barcelona, Inter, Manchester e outros das ligas mais ricas.
Sim, há motivos individuais (Ronaldinho e Adriano não poderiam ter decaído tão cedo) e circunstanciais, mas a reversão disso passa obviamente pela profissionalização dos clubes nacionais, para que reduzam o número de exportações (Miranda, Hernanes e Ramires, aliás, quase foram embora) e invistam mais na base. A chegada de Ronaldo não aponta para essa tendência positiva, por se tratar de um caso particular. Mas quem sabe inspire a busca de craques e o fim da idéia de que é suficiente ter “o mais disputado campeonato do mundo”. Menos ufanismo e mais pragmatismo, eis como reagir.
("Boleiros")
16.12.08
Ontem passei pela ligação leste-oeste e vi que finalmente o muro que havia sido pintado pela Prefeitura foi de novo entregue a belos grafites de Osgemeos, Nunca, Nina e outros:

Fotografei do carro, mas dá para ver como estava ficando bom.

Se alguém confunde isso com pichação, está doente dos olhos.
15.12.08
Entrevista a Edney Silvestre, da Globo News, raro entrevistador que lê e entende o que os autores escrevem:
O mundo da chamada música erudita vive ainda mais de reedições ou novas interpretações dos clássicos. Mas nesse quesito não podemos reclamar. Curti muito neste ano produtos como o DVD sobre a violoncelista Jacqueline Du Pré, as caixas dos maestros Karajan e Bernstein, a formidável voz de The Art of Christa Ludwig. Recentemente tenho me deliciado com o Chopin de Maurizio Pollini (Deutsche Grammophon), interpretação quintessencial de sua balada número 2, da sonata de mesmo número e de mazurkas e valsas, e me surpreendido com Mozart 13 Berg, CD com o Ensemble Intercontemporain conduzido por Boulez e protagonizado pela grande pianista Mitsuko Uchida. Inigualável, porém, é escutar Benjamin Britten ao piano e Rostropovich ao violoncelo tocando a sonata Arpeggione de Schubert, mais Schumann e Debussy, na gravação lendária de 1968 que a Decca vem de relançar. Que intensidade! Que integridade!
Lamento ter perdido quase todos os bons concertos do ano, de tão ocupado que fiquei com Machado de Assis, Olimpíada e outras viagens e trabalhos. Lamento especialmente não ter visto O Castelo do Barba Azul com direção de Felipe Hirsch – e aguardo o DVD. Mas escutei atuações sensacionais de músicos da atualidade: Late Piano Sonatas, de Schubert, por Leif Ove Andsnes, que veio ao Brasil; As Quatro Estações, de Vivaldi, por Joshua Bell, que também já admirei ao vivo; as Partitas 2-4, de Bach, por Murray Perahia; e a Obra Integral para Piano e Violoncelo de Beethoven, por Menahem Pressler e Antonio Meneses, que também vi executar o Dom Quixote de Richard Strauss com o maestro Roberto Minczuk em Campos do Jordão. A era dos grandes intérpretes, ao contrário da dos grandes compositores, não acabou.
Na música dita popular não é muito diferente. CDs como o de Omara Portuondo e Maria Bethânia, o de Diego el Cigala e o de Rosa Passos são ótimos exemplos. Tivemos ainda, entre as vozes, versões de Cartola, o CD Bonita de Marcia Lopes e a simpatia de Stacey Kent. Brad Mehldau, com seu trio, e Yamandu Costa, com Tokyo Session, salvaram o ano mais uma vez. No pop ouvi com prazer Cat Power, Beck, Carla Bruni e outros, mas gostei mesmo foi de Lay it Down, de Al Green. Gostei também da canção Janta, do disco solo de Marcelo Camelo, com participação da adolescente Mallu Magalhães, “hype” do ano, exagerado como todo “hype”. De jazz passo por onda nostálgica, exceto por Mehldau e poucos outros, e agora recebi a bem-vinda Jazz Collection (Sony BMG), com caixas de cinco CDs cada de músicos como Duke, Monk, Miles e Sonny Rollins.
("Sinopse")
14.12.08

Ronaldo foi conquistado pelo Corinthians no grito. Primeiro, no grito que diz: “Aqui tem um bando de louco/ Louco por ti, Corinthians”. Segundo, no grito que a diretoria deu para tê-lo em 2009 – ano seguinte ao de sua passagem pela Série B, ano anterior ao da comemoração de seu centenário. Os relatos de quem acompanhou as negociações são unânimes em um ponto: enquanto o Flamengo contava ter o craque simplesmente por ser flamenguista, estar lá em seu centro de treinamento e declarar sua vontade de ficar, o Corinthians fez uma proposta concreta, agressiva e... definitiva. O Flamengo, em uma palavra, bobeou. O Corinthians abriu suas portas e camisas para os patrocinadores que Ronaldo trouxe e ainda trará, e isso é algo que se deve ter sempre em conta: mais que uma contratação do Corinthians, Ronaldo é agora um parceiro dele.
O que também está claro é que ele queria um clube de grande torcida. Em setembro, durante entrevista, ouvi dele que a torcida do Corinthians só poderia ser comparada com a do Flamengo, logo depois de uma TV mostrar a Fiel cantando justamente “Aqui tem um bando de louco”. Convenhamos, Ronaldo não tem nada a provar para ninguém, mas isso é algo que falta em sua carreira: a idolatria em algum grande clube brasileiro. Ele arrebentou no Cruzeiro em 1993, com um gol por partida, só que mal deu tempo de se tornar um ídolo e ele partiu para a mais bem-sucedida carreira internacional de um craque brasileiro, em termos de títulos individuais e coletivos. (Só Ronaldo tem duas Bolas de Ouro e três Fifa Players desde que esses prêmios existem.)
Mas o Corinthians não fez apenas uma “jogada de marketing”. Não trouxe um garoto-propaganda que pensa em jogar com o nome; trouxe um craque em recuperação, um centroavante que foi artilheiro em quatro países diferentes e é o segundo maior da história da seleção, atrás somente de Pelé, e que ainda sabe fazer gols como ninguém. Mesmo no Milan, onde jogou pouquíssimo, anotou nada menos que sete gols nas dez primeiras partidas, índice que nem Ronaldinho nem Pato podem ostentar. O problema é que não é isso que se quer dele, nem o que ele mesmo quer. Desde 2005 Ronaldo não emenda uma temporada “cheia”, isto é, sem ficar meses sem atuar por causa de lesões. E esse é seu maior sonho agora: fazer um 2009 bom, de escassas ausências e muitos gols, com algum título de preferência. Aí ele poderá olhar para 2010 e pensar: vou disputar a Libertadores pelo Timão e, quem sabe, a Copa da África do Sul pela seleção.
O que ele quer, em outras palavras, é encerrar a carreira no Brasil em alto estilo, daqui a dois ou três anos. Que ninguém espere, porém, que ele volte a ser propriamente “O Fenômeno”, apelido que ganhou da torcida da Inter de Milão em 1997 quando foi o melhor jogador do Campeonato Italiano e o vencedor da Copa da Uefa. O Ronaldo desse ano e do Barcelona não pode ser igualado nem por ele mesmo: já não tem explosão e agilidade para isso, por causa de sua idade e de seu histórico de contusões e sobrepeso. O que é razoável, então, esperar dele? Depois de dois ou três meses de treino e adaptação, pode ser importante no Paulista e no Brasileirão com uma boa média de gols, acima de 0,5 por partida. Ele pode fazer mais pelo Corinthians do que Adriano fez pelo São Paulo. Precisa, no entanto, contar com paciência da torcida no início.
O maior inimigo de Ronaldo não é a pressão, não é a falta de motivação, não é a noite, não são os compromissos publicitários, não é nem mesmo o peso. É a possibilidade de lesões. Desde 2002, por causa do longo processo de recuperação, sua massa muscular cresceu e o equilíbrio dela ficou mais e mais delicado, atingindo ironicamente aquilo que lhe era mais característico: o arranque em ziguezague, a combinação de velocidade e drible. Mas, se mantiver o porcentual de gordura adequado e for bem monitorado pelos fisiologistas, ele pode enfim ter uma vida regular de atleta – o “resto” vem de sua técnica ímpar e subestimada. O possível time no qual vai jogar não é nenhum Barcelona ou Milan, mas é bem competitivo em sua terra: Felipe, Chicão, William e Escudero; Túlio, Alessandro, Douglas, Morais e André Santos; Dentinho e Ronaldo. Jean, Elias, Cristian, Jorge Henrique, Herrera, Diogo e (talvez) Brandão seriam reservas. Mano Menezes terá doces problemas a resolver...
Jogando 50% do que jogava no auge, ou 80% do que jogou nas duas primeiras temporadas de Real Madrid (2002-04), Ronaldo já será melhor do que todos os outros atacantes que atuam no futebol nacional. Uma vitória ele já conquistou: mostrar o desejo por um desafio, não por uma “aposentadoria em atividade”. E ver tantas pessoas na mídia dizendo que ele foi o maior jogador do mundo nos últimos 15 anos – como Zidane e Ronaldinho já disseram tantas vezes, para não falar de Kaká e Marcos – é outro golaço. Se ele e o clube, cuja estrutura o impressionou bastante, tiverem seriedade comparável com a festa feita nos últimos dias, o ano de ambos pode ser grande.

O que esses chatos que vivem dizendo que os livros e os jornais vão desaparecer não conseguem abolir é o poder transformador da leitura, em papel ou não. Desde 1996 faço todo ano esta lista dos melhores produtos e eventos culturais e verifico todo ano quantos livros interessantes foram publicados. Meu primeiro texto em jornal foi uma resenha de livro e espero que meu último venha a ser também. Não que os livros sejam mais importantes que a música, as exposições e os filmes, mas o fato é que toda semana há um livro para ler e, acima disso, a leitura perpassa tudo, a começar pela absorção das outras artes. É impossível distinguir a consciência humana dos outros animais se não se levar em conta sua profunda ligação com a estrutura verbal. É essa voz interior que permite que um livro se detenha dez páginas sobre um chapéu, digamos, e uma narrativa audiovisual não possa ficar dez minutos nele. Isso não significa que a leitura exija lentidão; ao contrário, ela amplia o poder de concentração e faz que você extraia mais em menos tempo.
Mais uma vez o maior número de destaques ocorre em não-ficção, especialmente história, crítica e biografia, e mais uma vez as reedições chamam atenção, sobretudo em romances. Mas começo pela ficção atual. Neste ano tivemos Fantasma Sai de Cena e Indignation, de Philip Roth, For You, de Ian McEwan, e Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum. Li muitas outras coisas, como sempre bastante elogiadas na imprensa brasileira, mas nada que se comparasse com esses. O nível sobe quando incluímos ficções recentes que ainda não haviam sido traduzidas no Brasil, a começar pelo extraordinário Austerlitz, do alemão W.G. Sebald, de quem também saiu Vertigem, seu primeiro romance. Putas Assassinas e Amuleto, do chileno Roberto Bolaño, também são magistrais, embora menos conhecidos que Noturno do Chile e Os Detetives Selvagens. As Nuvens, de Juan José Saer, último romance concluído pelo escritor argentino, não é como A Ocasião, mas é muito bom. Não há nada na ficção brasileira dos últimos 30 anos comparável com Roth, Sebald, Bolaño, McEwan ou mesmo Saer.
As reedições, como disse, foram muitas. As obras de Machado de Assis (inclusive as completas, da Nova Aguilar, agora em quatro volumes), Nelson Rodrigues e Jorge Amado são exemplos, assim como as – bem menos comentadas – de Newton da Costa, pensador brasileiro (sim, existe), principalmente o Ensaio sobre os Fundamentos da Lógica. Traduções de clássicos como Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, Sou um Gato, de Natsume Soseki, e Concerto Barroco, de Alejo Carpentier, foram fundamentais. Efemérides, como sempre, justificaram muitas publicações. Os 400 anos do padre Vieira trouxeram o primeiro volume de suas Cartas, a reedição de sua biografia mais conhecida, por João Lúcio de Azevedo, e o “esboço biográfico” de Clóvis Bulcão. O centenário da imigração japonesa ganhou Os Japoneses, de Célia Sakurai, e História do Japão em Imagens, de Shigeo Nishimura. E sobre os 200 anos do Jardim Botânico do Rio se destacaram O Jardim de D. João, de Rosa Nepomuceno, e o belíssimo Árvores Notáveis, ilustrado por Malena Barretto e Paulo Ormindo. Reli agora, por sinal, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, livro que completa 70 anos e tem edição especial com fotos de Evandro Teixeira. Apesar da fama, ele vai além do registro de agruras agrestes e mostra que o que falta a Fabiano é a educação, a capacidade de articular idéias.
Fotografia, por sinal, é um item crescente no cardápio das editoras brasileiras. Cristiano Mascaro, mestre das fotos urbanas em Desfeito e Refeito, Araquém Alcântara, de paisagens como as da Mata Atlântica, e J.R. Duran, anticlichê em seus Cadernos Etíopes, são meus preferidos do ano. O livro da Coleção Princesa Isabel é um banquete. A arquitetura também parece ganhar mais espaço em livrarias: meus destaques vão, sem dúvida, para o livro sobre a Fundação Iberê Camargo, de Álvaro Siza, e o de Isay Weinfeld, além de livros de referência como Arquitetura na Formação do Brasil, de Briane e Paulo Ricca, e Aleijadinho – O Teatro da Fé, de Monterroso Teixeira. O jornalismo também foi saboreado em O Grande Livro do Jornalismo, editado por Jon E. Lewis, O Livro das Vidas, com os obituários do New York Times, e Stasilândia, de Anne Funder, além das incursões no jornalismo literário de duas brasileiras, Vanessa Barbara e Eliane Brum.
Li bons livros de história, como o de Marco Villa sobre 1932 e Mao’s Last Revolution, de Roderick MacFarquhar e Michael Shoenhals, que, ao lado de A China Sacode o Mundo, de James Kynge, me ajudou muito no mês que passei no país. Biografias como The Several Lives of Joseph Conrad, de John Stape, e a de Leila Diniz por Joaquim Ferreira dos Santos me atraíram. A melhor do ano é a que estou lendo no momento, Traitor to His Class, de H.W. Brands, sobre F.D. Roosevelt, que logo comentarei – assim como New Art City, de Jed Perl, traduzido no Brasil, sobre “Nova York, capital da arte moderna”. Livros de crítica que elogiei incluem Paintings in Proust, de Eric Karpeles, Classics for Pleasure, de Michael Dirda, e sobretudo How Fiction Works, de James Wood, único que sei que já está sendo traduzido. Entre os ensaios brasileiros destaco Ser-tão Natureza, de Mônica Meyer, exceção no mal comemorado centenário de nascimento de Guimarães Rosa.
A ciência e suas relações com a cultura, mais do que tudo, continuaram em alta. Assim como Meyer estuda a natureza na obra de Rosa, Jonah Lehrer diz que Proust Was a Neuroscientist e analisa outros criadores pelo ângulo da neurologia. Steven Pinker também se pergunta Do Que É Feito o Pensamento. A Criação, de Edward O. Wilson, e O Canto do Dodô, de David Quammen, tratam de nosso lugar na biodiversidade terrena, assim como The Richness of Life: The Essential Stephen Jay Gould. E The Oxford Book of Modern Science Writing, organizado por Richard Dawkins, é de fato antológico, e uma prova de que muitos dos maiores estilistas modernos estão nas ciências. Todos eles sabem que a tecnologia do folhear ainda não foi substituída e que o hábito da leitura é o melhor amigo do conhecimento.
("Sinopse")
13.12.08
Para quem perguntou, eis os autores da canção-tema de Bentinho e Capitu na minissérie que termina hoje: Elephant Gun, da banda Beirut:
12.12.08
É tristengraçado que seja preciso uma crise dessas proporções para que coisas importantes, há muito exigidas por quem entende do riscado, se tornem realidade. Ontem o governo anunciou bondades na redução de IR e IOF, entre outros - o mesmo governo que havia elevado o IOF ao final da CPMF e que vivia ensaiando aumentar a alíquota máxima do IR, agora escalonado de modo muito mais justo. Além disso, houve injeção de dinheiro no sistema financeiro, como se fez no mundo todo. Mas o mais importante ainda não foi feito, embora vá ser divulgado: investimento em infra-estrutura. Isto sim é um raciocínio keynesiano ainda pertinente, como relembro na leitura que estou fazendo de uma ótima biografia de Roosevelt, Traitor to His Class, de H.W. Brands, e num artigo que colhi no portal Aldaily. Keynes argumentou que o gasto público em momentos de recessão (para os momentos de crescimento ele recomendava controle e superávit) é fundamental para estimular o setor privado a produzir, reanimando a demanda com a compra de cimento, ferramenta, etc.
É isso que Obama já disse que fará e que o governo Lula agora também diz. A ironia, porém, nunca falha. O PAC não era para isso? Cadê os resultados realmente expressivos do filho de Dilma? Até agora, poucos. E, claro, todos sabem que não foi apenas o New Deal que tirou os EUA da depressão econômica, mas a demanda criada pela entrada na Segunda Guerra, a começar pela produção de aço para a indústria bélica inglesa. Sem muito capital estrangeiro disponível, pois a fuga tem sido grande, e sem capacidade real de eleger os setores prioritários por seu fator multiplicador sobre a economia, o atual esforço fará bem menos diferença. Está certo e nunca é tarde. Mas que, deitado no berço esplêndido do crescimento mundial dos últimos cinco anos, o Brasil deveria ter feito mais, disso não resta a menor dúvida.
11.12.08
Reli na ida e vinda da ponte aérea Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que completa 70 anos, numa edição especial com fotos de Evandro Teixeira (Record). É o livro paradigmático de Graciliano, embora o mesmo aniversário dos superiores São Bernardo e Angústia não tenha merecido igual tratamento de editoras e jornais. Mas Graciliano tem um detalhismo que as fotos não captam e, mais importante, seu livro se distingue de O Quinze, de Rachel de Queiroz, por exemplo, por ir além do registro de agruras agrestes com passagens como a seguinte: “O círculo de luz aumentou, agora as figuras surgiam na sombra, vermelhas. Fabiano, visível da barriga para baixo, ia-se tornando indistinto daí para cima, era um negrume que vagos clarões cortavam. Desse negrume saiu novamente a parolagem mastigada.” O que falta a Fabiano é a educação, não como pompa, mas como capacidade de articular idéias para que ele possa sair da caverna de Platão.
10.12.08
É curioso que o Campeonato Brasileiro tenha terminado com um gol impedido, depois de um chute errado, na sobra de uma cobrança de bola parada, numa partida cujo árbitro tinha sido substituído no dia anterior em decisão inédita e infundada. Não, não estou aludindo a falcatruas. Até me supõem são-paulino de tanto que defendo os méritos do clube, a maneira como entendeu a mentalidade necessária para ser campeão no formato dos pontos corridos. O que me chamou atenção nas circunstâncias da última rodada foi, de novo, a qualidade técnica mediana. Nenhum time jogou realmente bem a temporada.
***
A vantagem do São Paulo, por sinal, começa por aí. Muricy Ramalho e os jogadores são os primeiros a reconhecer que houve muitos problemas neste ano, que tudo “demorou a encaixar”. Foi só no segundo turno, com jogos semanais, a definição de referências como Jean de primeiro-volante e Borges de homem-gol (sua média por partida foi igual à dos artilheiros do campeonato) e a volta de contundidos como Miranda, que o time atingiu a regularidade. Taticamente, foi o único que soube jogar ora com marcação adiantada ora à espera do contra-ataque, às vezes na mesma partida, como nessa contra o pouco motivado Goiás. Não por acaso foi a segunda melhor defesa e o segundo melhor ataque. Defender com muitos e atacar com muitos, repito, é a chave.
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Hernanes ainda não é o que chamo de craque, o jogador que além de cumprir bem suas funções sabe surpreender o adversário com freqüência. Não é o tipo de jogador que muda a cara de um jogo. Mas seguramente foi o melhor do campeonato justamente por simbolizar essa superioridade tática do São Paulo: sabe desarmar e armar, movimentando-se por todo o campo; tem bom passe, drible e chute, além de boa psicologia. Antes insistia em se dizer volante e Muricy demorou a lhe dar liberdade; hoje ele é versátil sem ser vago.
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O São Paulo sabe que precisa contratar melhor em 2009 para ser mais convincente. (Seu erro mais significativo foi contratar Carlos Alberto no começo do ano. Juninho, André Lima e outros foram apostas que faziam sentido e não deram certo.) Com o dobro de investimentos do Grêmio, ficou apenas três pontos à frente. Precisa de outro centroavante e de meias mais criativos; precisa, acima de tudo, pensar em substituir bem os que provavelmente serão vendidos, como Hernanes e Miranda. Clubes que demoram a pensar nisso, como o Flamengo (que levou meses entre ceder Marcinho e trazer Marcelinho), se dão mal, por mais que se queira restringir a culpa ao técnico.
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O Grêmio, claro, foi mais longe do que o elenco sugeria, situação inversa à do rival Inter. Celso Roth fez bom trabalho, mas o time só sabia jogar de um jeito e sentia muito a falta de Tcheco quando este se contundia. Ao Cruzeiro faltou padrão tático, por tantas mudanças de escalação, e nomes mais experientes. Já o Palmeiras, que também investiu muito, deu a certa altura impressão de que tinha banco de reservas, mas Lenny e Denílson fazem pouco e Evandro e Maicossuel são opacos. Luxemburgo apoiou a venda de Henrique e Valdívia, disputou protagonismo com Marcos e quebrou a cara.
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Minha seleção do campeonato: Vitor (Rogério), Léo Moura (Victor), André Dias (Thiago Silva), Miranda (Fábio Luciano) e Juan (Jorge Wagner); Ramires (Rafael Carioca), Hernanes (Íbson), Tcheco (Diego Souza) e Alex (Wagner); Keirrisson (Guilherme) e Kléber Pereira (Alex Mineiro). Técnico: Muricy.
("Boleiros")
Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br
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