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02.07.09

por Daniel Piza, Seção: livros 09:05:45.

Estou em Paraty desde ontem à tarde. Pretendo ver mesas de escritores como Richard Dawkins, Gay Talese, Simon Schama, Milton Hatoum com Chico Buarque. No sábado participo de entrevista com Jon Lee Anderson e de mesa sobre Euclides da Cunha. A conferência de abertura foi com Davi Arrigucci, que repetiu suas teses sobre Manuel Bandeira (dando impressão de que foi o único poeta moderno que misturou alto e baixo, poético e prosaico, lúdico e lúgubre). A cidade está cheíssima, com todos os problemas que isso acarreta, e me pergunto quantas pessoas leram ou lerão os livros discutidos. Mas o elenco estrangeiro é forte e tem o que dizer.

Na saída da abertura, vi Gay Talese passando de chapéu marrom, terno azul e gravata amarela, olhando para tudo com a mesma elegância e curiosidade de seus livros. Se todos fossem iguais a você, que maravilha seria.

 


01.07.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 23:55:10.

O jogo começou como previsto: pressão do Internacional, empurrado pela torcida; nervosismo e cartões amarelos. O Corinthians recuou, compacto, e o Inter cometia o erro de só tentar pelo centro, na base da correria de Taison e Nilmar. Aí, aos 20 minutos, Ronaldo fez pivô para André Santos, que cruzou e Jorge 1m69 Henrique cabeceou no canto, comemorando depois com o passo lunático de Michael Jackson. Mais oito minutos e Ronaldo tabelou com Jorge Henrique e lançou André Santos, que dominou e fuzilou, mostrando como é hábil no apoio. Ronaldo ainda teve uma chance de "matar" fácil o jogo e desperdiçou. No segundo tempo, o Inter fez dois gols, Cristian fez catimba tola ao cair no chão e D'Alessandro foi ainda mais tolamente expulso; tentou levar William consigo, mas o capitão foi impecável. O campeão já estava definido.

Frio, maduro, preciso, o time corinthiano chegou a um estágio de entrosamento e autoconfiança que fez toda a diferença. Além disso, mostrou que é superior por ter jogadores bons em todos os setores, ao contrário do desigual Inter. E assim encerrou um semestre perfeito - com Paulista e Copa do Brasil, classificado para a Libertadores no ano do centenário - sob o excelente comando de Mano Menezes. Que os méritos sejam reconhecidos e a festa seja pacífica.

 


por Daniel Piza, Seção: futebol 07:01:11.

A imprensa verde-amarela – aquela que fica verde de raiva quando a pátria perde e diz que ela só perde quando amarela – já nos garante que Dunga tem o “grupo fechado”, o “time pronto” para a Copa de 2010. Ela disse o mesmo quando venceu a Copa das Confederações em 2005; por isso precisou pôr a culpa no peso de Ronaldo em 2006, afinal era o único atacante que não tinha estado lá. Mas, para todo efeito, é melhor que isso não seja verdade. Primeiro, mesmo depois das melhoras, porque ainda há problemas a enfrentar. Segundo, porque não foi assim em nenhuma das Copas que o Brasil venceu. Considerar um time pronto é o mesmo que condená-lo ao fim. Nietzsche: “O que está maduro tende a morrer.”

Vide 1958. Pelé e Garrincha começaram no banco e só entraram na terceira partida. 1962. Pelé se machucou no primeiro jogo e foi preciso que Amarildo e sobretudo Garrincha fizessem o diabo para substituí-lo. 1970. João Saldanha era o técnico até poucos meses antes; se não fosse por Zagalo, o time não jogaria com Pelé e Tostão juntos. 1994. Parreira só decidiu levar Romário para a Copa depois que, por pressão da opinião pública, o escalou no último jogo das Eliminatórias e ele fez a melhor partida de sua vida (sic) contra o Uruguai. 2002. Ronaldo e Rivaldo, contundidos, não jogaram as Eliminatórias; durante a Copa, Felipão ainda precisou trocar Juninho por Kleberson para ter mais equilíbrio no meio.

Esse histórico também aponta para outro problema da atual seleção. Em todas essas Copas o Brasil tinha pelo menos dois craques muito criativos e decisivos. Pelé e Garrincha, Garrincha e Vavá, Pelé e Tostão, Romário e Bebeto, Ronaldo e Rivaldo. Será que Kaká e Luís Fabiano serão a dupla da vez? Talhados para o futebol atual, mais veloz e forte, eles são. Mas Luís Fabiano não tem muita habilidade e Kaká nem sempre faz a diferença num lance individual. Na África do Sul, por sinal, acho que quem mereceu o troféu de melhor jogador não foi Kaká, talvez eleito pelo nome, e sim Luís Fabiano, com cinco gols. Como é bom ter bom centroavante.

O time está mais consistente, principalmente depois de abandonar a linha de três volantes, mas não mais criativo. O lance do segundo gol foi sugestivo: Kaká arrancou pela esquerda, onde Robinho e André Santos não criavam quase nada, e buscou a linha de fundo, jogada que até o momento só se fazia pela direita com Maicon e menos qualidade. André Santos e mesmo Ramires, que perdeu muitas bolas, ainda não dão segurança de que são titulares; Gilberto Silva é experiente, mas lento; Robinho brilha em cinco jogos por ano, nos outros desaparece. Há uma equipe base e uma certa identidade, que muitas vezes são suficientes para bater qualquer adversário em tempos de escassez de talentos no ludopédio. Mas está longe de ser um grupo pronto.

COPA DO BRASIL

Corinthians e Internacional, no Pacaembu, há duas semanas, fizeram o melhor jogo do semestre em território nacional. Hoje, no Beira-Rio, o Inter sai com a obrigação de ir para cima e o Corinthians deve ficar mais fechado, por motivos óbvios. Mas o histórico também diz que um sabe não se expor demais enquanto busca a goleada e o outro não abre mão de lancetar o adversário num contra-ataque. Com as voltas de D’Alessandro, Nilmar, Kleber e André Santos, o nível técnico pode até melhorar. Não se trata de decidir qual o melhor time do Brasil no momento. Trata-se de esperar um grande momento do futebol no Brasil.

("Boleiros")

 


30.06.09

por Daniel Piza, Seção: dança 15:44:00.


Pina Bausch, coreógrafa alemã, morreu hoje aos 68 anos. A dança ampliou seu luto na semana, e Pina Bausch também tratou muito dos instintos primitivos do ser moderno. Mas nela os tempos variavam, os movimentos angulosos eram muitas vezes agressivos, anticlássicos; os bailarinos rompiam com o programa e faziam gestos cotidianos e andavam sem “técnica” com grandes efeitos dramáticos ou abstratos. O resultado em alguns momentos era cansativo ou hermético, como naquela repetitiva Cravos, que vi no Rio em 1997, mas Bausch foi a tradução mais perfeita da música dissonante de Stravinsky, Bartók e seguidores. E também sabia ser lírica, fez Kurt Weill e fado português e foi usada por Almodóvar no melodrama Fale com Ela. Revolucionou como poucos a dança na segunda metade do século 20.

 


por Daniel Piza, Seção: livros 07:03:18.


Não há dúvida de que a publicação de um livro escrito por Mario Vargas Llosa sobre Juan Carlos Onetti em seu centenário é, em si mesma, demonstração da permanência de sua obra. Llosa é um dos maiores ficcionistas vivos; seu mais recente romance Travessuras da Menina Má foi um sucesso, inclusive no Brasil; e como ensaísta já escreveu bons textos sobre Flaubert e Victor Hugo. Logo, um livro seu sobre Onetti – El Viaje a la Ficción (editora Alfaguara, que deve traduzi-lo para o Brasil em 2010) – pode ajudar bastante a divulgar sua obra para um público maior, especialmente de EUA e Europa, pois uma navegação rápida pelos arquivos das principais publicações de língua inglesa e francesa revela que Onetti ainda é mal conhecido em tais “centros”, até mais do que no Brasil, por exemplo. E ele mereceria, no mínimo, ser tão conhecido quanto Llosa ou Gabriel García Márquez.

Falar em “divulgação” leva muitos leitores preconceituosos a pensar que se trata de uma análise superficial, com fins meramente didáticos. Mas Llosa diz muito do que há a dizer sobre Onetti, ou o que outros autores precisam de muito mais páginas de áridas teses acadêmicas para dizer. Sem fazer uma obra-prima da crítica literária, Llosa detecta em Onetti as principais influências, aponta as datas de sua melhor fase, elege seus melhores romances e contos, interpreta com argúcia alguns deles. E um de seus alvos principais é bastante acertado: a confusão entre o olhar pessimista de Onetti e os rumos perdidos do capitalismo latino-americano ou da nacionalidade uruguaia. Llosa se recusa a fazer essa redução sociológica – que nós brasileiros conhecemos tão bem – em sua leitura, como o próprio Onetti recusava.

O debate sobre as influências é bem posto. Muita gente acha também que assumir uma ou duas influências essenciais é o mesmo que pôr uma obra como devedora da outra, para não dizer parasitária, como se toda a história da literatura não fosse a história das influências filtradas e reprocessadas (como estudou, entre outros, Harold Bloom, embora Bloom faça uma leitura hiperfreudiana do mestre como pai único a ser morto pelo aprendiz). Feito o esclarecimento, Llosa examina a óbvia e reconhecida influência número 1 de Onetti, o escritor americano William Faulkner. Descreve as semelhanças e diz que o livro preferido de Onetti era Absalão, Absalão!, e não o mais “joyciano” O Som e a Fúria. Coerentemente, faz paralelos entre a vila imaginária de Faulkner, Yoknapatawpha, e a Santa María de Onetti. Naquela o passado pesa com suas tradições e discriminações; nesta se vive “de costas” para ele.

Llosa também vê no espectro das influências os fantasmas de Balzac, Céline, Camus, Scott Fitzgerald, Borges e sobretudo o argentino Roberto Arlt, que Onetti conheceu, leu e, num gesto raro de sua parte, elogiou quando morou em Buenos Aires (1930-55) pela caótica urbanidade de livros como Os Sete Loucos. Se Fitzgerald realmente é evocado, em especial nos contos, a comparação com Borges é menos feliz, pois, como o mesmo Llosa lembra, Onetti admirava mas não amava Borges, por mais que a literatura do uruguaio tenha certo caráter de “jogo intelectual”. Foi bebendo com mais sede no modernismo americano que Onetti criou sua obra de indivíduos fraturados em hiatos sociais. Llosa nota que até alguns defeitos da prosa de Onetti, tortuosa e obscura demais em algumas passagens, vêm da sua leitura de Faulkner.

O apogeu de Onetti nos contos é corretamente demarcado por Llosa entre Um Sonho Realizado (1941) e Jacob e o Outro (1961). Outros destaques no gênero são, segundo Llosa, Bem-vindo, Bob, O Inferno tão Temido e Esbjerg, na Costa, entre outros. Todos estão no volume 47 Contos, editado no Brasil pela Companhia das Letras. No meio desse caminho está um de seus dois melhores romances, A Vida Breve (1950), e logo a seguir o outro, Junta-Cadáveres (1964), que foram traduzidos aqui pela editora Planeta. Se você nunca leu Onetti, portanto, esses são os três livros a procurar.

Ao comentar O Inferno tão Temido, Llosa o chama de “o mais extraordinário de seus contos” e “a mais inquietante exploração do fenômeno da maldade humana” por mostrar um mundo provinciano, de “gente cinza e medíocre, com um horizonte vital pequenino”, vaidosamente ignorante, em que o jornalista Risso se divorcia da mulher, Gracia, e esta decide se vingar dele enviando fotos em que aparece transando com seus amantes. Onetti (que comenta a origem do conto no vídeo acima) parte desse conflito melodramático, a um ponto de virar folhetim, e lhe dá outra grandeza ao mostrar que a dor da perda amorosa se confunde com o orgulho ferido machista, a vergonha de saber que seus colegas de redação viram as imagens, e produz o desfecho trágico.

Por esse e outros motivos, Llosa diz que Onetti divergiu da literatura predominante na América Latina dos anos 30, em que o regionalismo e a crônica de costumes eram dominantes, “com exceção de Arlt e Borges” (uma injustiça possivelmente involuntária com a literatura brasileira, que já tinha tido Machado de Assis, Raul Pompéia e Lima Barreto). E mostra como Onetti vai além do realismo social por meio dessa complexidade psicológica e inventividade linguística. Daí o título do livro: Llosa insiste na tese de que a ficção é uma viagem para um mundo alternativo, uma resposta à “derrota cotidiana”. Aqui comete um erro; ao menos, um lugar-comum indigno de sua percepção. Onetti cria uma realidade imaginária para onde vamos não em fuga, pois de lá sempre voltamos e então enxergamos melhor as cercas que nos cercam.

 


29.06.09

por Daniel Piza, Seção: música 16:33:47.


Tenho tocado muitos CDs e mp3 na rádio Eldorado, no encerramento às 9h. Há, como em quase tudo hoje em dia, muita coisa boa e pouca muito boa. Mas, para quem ainda duvida da grandeza da canção brasileira, é um prazer vê-la na voz de Cassandra Wilson (Loverby, em que interpreta a melodia das melodias, Manhã de Carnaval), Diana Krall (Quiet Nights, com arranjos de Claus Ogerman), o jovem fadista António Zambujo (Quando Tu Passas por Mim, de Vinicius) ou mesmo Fábio Jorge, cantor paulistano que gravou clássicos franceses e incluiu Chico Buarque (Joana Francesa, claro). Melhor ainda é ouvir na internet as gravações de “samba bop” de Dizzy Gillespie com o Trio Mocotó em 1974, que soubemos por Jotabê Medeiros que foram reencontradas.


Também escolhi algumas faixas dos novos CDs de Nando Reis (gosto da melodia do refrão “Guarde este amor/ Ele é todo seu/ Lindo como a flor/ Livre como um Deus”) e Zélia Duncan (parceria com Dante Ozzetti), mas aqui também os tempos são outros. No exterior há novidades mais marcantes, como o ousado e rascante CD de P.J. Harvey com John Parish, A Woman a Man Walked by, e a grata revelação Melody Gardot, que em My One and Only Thrill se mostra boa compositora e se distingue de concorrentes como Diana Krall ou Madeleine Peyroux por um tom mais jazzista e melancólico – vide Our Love Is Easy – que os críticos insistem em atribuir a um atropelamento que sofreu há cinco anos.

 


por Daniel Piza, Seção: livros 09:17:51.

Baptistão

Sempre achei que, historicamente, a literatura é a melhor arte brasileira. Se você pensar na música dita erudita, por exemplo, vai se lembrar de Carlos Gomes, Villa-Lobos e poucos mais. O teatro seria bem discreto sem Nelson Rodrigues, como a arquitetura sem Oscar Niemeyer. Nas artes visuais é possível citar mais nomes, como Volpi, Iberê ou Goeldi, mas raramente na escala de ambição de seus pares estrangeiros. O cinema teve rompantes, como Nelson Pereira e Glauber Rocha, e só de uns tempos para cá tem uma produção média mais consistente. Apenas na música popular ou, como prefiro, na canção, de Noel Rosa a Chico Buarque, o Brasil tem boa projeção internacional; e talvez ela, como a TV, a publicidade e o jornalismo, se beneficie por ser um caminho mais acessível de $obrevivência para os talentos. Mas das artes mais densas, por assim dizer, a literatura se destaca.

Mesmo assim, depois de passar algumas semanas relendo clássicos brasileiros por motivos que já explico, digo que a literatura brasileira também não tem a grandeza que alguns dizem ter. Eis um dos motivos: fui um dos convidados por uma editora a selecionar “20 ou 30 nomes” de autores nacionais para um livro que está sendo traduzido com uma lista dos 501 maiores escritores da história. Primeiro, usando a memória e olhando de esguelha para as estantes, cheguei a 60, mas confesso que muitos deles não me falam alto; depois cheguei aos 30, com alguma dor no coração por deixar alguns de fora, mas com clareza na cabeça sobre outros critérios que pesaram, como a importância histórica. Jorge Amado, digamos, entrou na minha lista, mas está longe de ser um autor imprescindível ou apaixonante para mim, um texto que eu anseie por reler com frequência. A literatura brasileira que realmente vale a pena não tem 30 nomes.

***

É melhor eu parar por aqui, senão vão dizer que sou “exigente demais”, “amargo”, etc. Veja o espanto com as opiniões literárias de Manuel Bandeira reunidas agora em Crônicas Inéditas II (Cosac Naify), em que critica, por exemplo, Oswald de Andrade, apontando no Serafim Ponte Grande o sarcasmo repetitivo que impede a vitalidade dos personagens, ao contrário do que ocorre em João Miramar. Bandeira dispara para todos os lados: recusa o “sentimentalismo de impressões” do livro de estreia de Marques Rebelo, o qual se vê também em seu melhor romance, A Estrela Sobe, agora reeditado pela José Olympio; destrói, como naquele poema Os Sapos, o parnasianismo de certos autores dados a latinismos e grandiloquências, inclusive o primeiro Vinicius de Moraes; reclama dos poemas arrastados de Claudio Manuel da Costa e palavrosos de Olavo Bilac. Faz, em suma, o que um crítico tem de fazer: “Não havendo choque, não existe necessidade nenhuma de crítica.”

Embora elogie esquecidos como Ribeiro Couto e Amando Fontes, como notou Almir Freitas na Bravo!, Bandeira faz um corte na produção – do seu tempo e também anterior – e elege os “happy few”: Drummond, Murilo Mendes, Cecília Meireles, Jorge de Lima. A posteridade costuma ser mais cruel que a maioria dos críticos. Ele próprio, Bandeira, que será o tema da Flip que se inicia nesta semana (aonde vou para compor mesa sobre Euclides da Cunha e conferir outras), não é tudo que os admiradores mais fanáticos dizem. Não é preciso ir tão longe quanto ele, que se dizia um poeta menor, um simples lírico, mas ele também se entrega em muitos momentos ao sentimentalismo e à repetição; e suas melhores criações não estão no patamar de Drummond e João Cabral, não têm aquela condensação de ideias e recursos. Mas obviamente eu o poria numa lista dos dez poetas brasileiros.

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O outro motivo para esta revisão foram duas enquetes que decidi fazer em meu blog, uma sobre as melhores aberturas e outra sobre os melhores fechamentos da literatura brasileira. No momento em que escrevo, quinta-feira, não tabulei os dados ainda. Mas Machado de Assis e Guimarães Rosa, pela ordem, venceram com vantagem, seguidos por Graciliano Ramos. Sim, há grandes livros sem frases iniciais ou mesmo finais especialmente memoráveis – e há livros que começam muito bem, como Macunaíma, de Mario de Andrade, e depois caem na monotonia –, mas como negar a superioridade de Machado e Rosa na construção de cada frase e na arquitetura do conjunto? E olhe que houve muitos votos para autores que merecem mais status e estudo do que recebem, como Raul Pompéia, Rubem Braga, Raduan Nassar, Dalton Trevisan e Otto Lara Resende.

Mais um exemplo da pequena quantidade são antologias como Os Melhores Contos Brasileiros de Todos os Tempos, organizada por Flávio Moreira da Costa (Nova Fronteira). Otto, por exemplo, não está ali, e de Rosa não consta o supremo A Terceira Margem do Rio. Entre os 87 escolhidos, há uma vasta diferença entre os sete de Machado e quase todos os demais, com exceção de Lima Barreto e mais alguns. Como se vê também em antologias de autores contemporâneos, a exemplo do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa ou do número 4 da revista Granta, para não falar de alguns romances que tenho lido, a ficção nacional sempre soa como uma espécie de memória disfarçada, uma crônica rarefeita e emotiva, parasitária de alguma influência mal digerida. Os personagens nunca deixam de ser autobiográficos; o estilo sempre está a reboque de outro. Não se explora a língua nem em seu potencial de pensamento nem de percepção.

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Listas servem apenas como dicas, caso você confie em quem a faça, mas tenho visto algumas tão extensas – como um livro com "1.001 filmes para ver", o que significa ver muita bobagem – que não se justificam. É um critério que vem de fora, numérico, e não estético. Esteticamente não existem 87 bons contos brasileiros! (Acabo de me lembrar de uma declaração radical de Nabokov: “Os únicos livros que interessam no século 20 são Metamorfose, de Kafka, Ulisses, de Joyce, e Em Busca do Tempo Perdido, de Proust – e mesmo assim só os três primeiros volumes!”) E, se um autor foi capaz de fazer mais de uma obra-prima, é isto que importa. Como já escrevi, o gênio é um sujeito que fez uma obra de gênio, não é um tipo de pessoa. Na hora de escolher os 15 fechos literários, por exemplo, não pude evitar a inclusão de seis de Machado... e olhe que ainda havia mais opções. Quem mandou ser tão bom?

Por um lado, acho ruim que haja tão poucos autores brasileiros numa Flip; por outro, a melhor maneira de defender a literatura nacional, como mostrou Bandeira, não é passando a mão na cabeça, e sim separando o que há de melhor em uma linhagem para que os contemporâneos se meçam por ela. Acredito que haja pelo menos dez grandes livros para você ir direto ao que de melhor se fez nas letras brasileiras. São eles Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado, Grande Sertão: Veredas, de Rosa, Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, O Ateneu, de Raul Pompéia, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque, São Bernardo, de Graciliano Ramos, e os melhores poemas de Drummond e Cabral. Depois leia os outros de Machado, Rosa e Graciliano. E só então siga adiante.

("Sinopse")

 


28.06.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 17:39:30.

O Brasil mostrou mais uma vez que tem problemas contra times que marcam sua saída de bola. Com Kaká e Robinho criando pouco e insistência na bola alçada por Maicon para a área, o placar do primeiro tempo era sinistro: EUA 2 x 0 Brasil. Mas nada como ter centroavante. Luís Fabiano marcou logo no início do segundo tempo, em giro mortal com a esquerda, e depois completou de cabeça a jogada iniciada por Kaká que Robinho quase desperdiçou. A vitória veio ao estilo da seleção Dunga, com escanteio cobrado por Elano e gol de cabeça de Lúcio: Brasil 3 x 2 EUA. O Brasil mostrou mais uma vez que mesmo quando tem problemas sabe o que fazer com a bola.

Notas:

Júlio César - Não teve culpa nos gols. 6.
Maicon - Teve espaço, mas exagerou nos cruzamentos pelo alto. 6.
Lúcio - Lutador atrás, fez o gol da virada. 7.
Luizão - Deu espaços. 5.
André Santos - Mais solto, só que errou passes demais. 5.
Daniel Alves - Entrou e deu velocidade. 6.
Gilberto Silva - Muitos passes de lado. 5.
Felipe Melo - Também não arriscou. 5.
Ramires - Sua pior partida, perdeu muitos duelos. 4.
Elano - Entrou bem, com lançamentos e cobranças. 6.
Kaká - Mal no primeiro tempo, achou espaço na esquerda no segundo. 7.
Robinho - Também melhorou no segundo, mas longe de brilhar. 5.
Luís Fabiano - Nome do jogo e da Copa. 8.

 


27.06.09

por Daniel Piza, Seção: teatro 18:12:50.

Ontem fui ao Sesc Pinheiros ver Turismo Infinito, montagem de textos de Fernando Pessoa por um grupo português, comandado por Ricardo Pais, um encenador engajado na aproximação cultural - sem reforma ortográfica - entre Brasil e Portugal. Infelizmente a peça termina amanhã depois de duas semanas em cartaz. Não que ela não seja um tanto cansativa, com 1h30 de leitura quase estática, com cinco atores que se alternam mas mal se relacionam. Para meu gosto, há trechos demais de Bernardo Soares, do fascinante Livro do Desassossego, prosa que no contraste com a poesia termina desfavorecida. É quando a poesia entra, sobretudo na voz de Alvaro de Campos (não há nada de Mensagem, meu livro preferido), com brilhante elocução do ator João Reis, que o espetáculo vibra. O cenário é bonito, trabalhando a ilusão de profundidade em planos rigorosos, e recursos como os discos de tecido translúcido caem muito bem. "Nunca fiz mais do que fumar a vida", diz Pessoa na pessoa de Campos. Saímos do teatro fumando poesia.

 


26.06.09

por Daniel Piza, Seção: música, dança 08:02:05.


A morte de Michael Jackson surpreendeu e comoveu por ser aos 50 anos de idade, mas é um fecho mais alinhado com sua história do que seria a tentativa de ressurgimento que faria a partir de julho com megaturnê mundial. A carreira de Michael já estava morta havia algum tempo, e não apenas pelos escândalos e excentricidades; sua criatividade jamais reapareceu depois dos píncaros comerciais de Thriller em 1982, apesar de algumas coisas boas em Bad. Ele jamais cogitaria de voltar a não ser em escala "mega". Sua autodestruição entrou em ritmo inversamente proporcional. Não há astro sem narcisismo, por isso não há queda senão vertiginosa. Michael, ao que se sabe, não se matou como o rebelde Kurt Cobain. Tampouco decaiu como Elvis Presley, ainda reencarnando em momentos talvez cafonas mas eficientes. "Neverland" era o símbolo da terra-de-ninguém artística; era "never more", como bradaria o corvo de Edgar Poe naquele cenário de parque de diversões. Autoproclamado rei do pop, ele foi se esmaecendo como sua pele e rachando como o retrato de Dorian Gray, na fantasia de uma juventude que não haveria sucesso suficiente para resgatar. Figuradamente ele se matou e foi morto também por essa idolatria, essa histeria fanática dos tempos modernos.

Musicalmente, que é o que importa, ele é bem melhor do que dizem seus detratores, mas não foi uma figura comparável com Elvis, Beatles e outros que tenho visto citados. Acho sua fase com Jackson Five admirável; apesar da voz pequena, vemos a musicalidade inata, o talento e o carisma óbvios. Enquanto bebeu nessa fonte, no "motown", sua arte não secou. O início de sua fase solo também tem grandes achados, como minha preferida Billie Jean, e mesmo assim ele se renovou ao se inspirar em James Brown e na dança de rua, o "break", e chegar à ótima Beat it, uma nova combinação de batida dançante com melodia e narrativa. Pode ver que a canção Thriller é boa, mas ali a estratégia já é dominada pelo videoclip; a imagem começou a sabotar o som. Lembro aos 12, 13 anos que amigos ficavam horas tentando imitar seus passos, o "moonwalk" e aquele jogo de braços e pernas como um boneco articulável.

Mas, principalmente a partir dos anos 90, ele - que fez apenas dez álbuns, o que é espantoso para alguém da sua fama - não soube se reinventar como a menos talentosa Madonna. Por quê? Faltava esperteza? Começou a fazer sucesso cedo demais? Tinha traumas infantis? Ganhou dinheiro como ninguém? Tudo isso tem a ver, mas minha sensação é a de que ele simplesmente não tinha nada mais a dizer em termos de criação e comunicação. Esse ídolo das multidões se declarou, certa vez, a pessoa mais solitária do mundo. E talvez fosse mesmo.

 


25.06.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 17:45:24.

A seleção brasileira jogou pouco hoje contra a África do Sul. Ninguém brilhou e houve muitos erros de passe; Robinho e André Santos pela esquerda, em especial, não pareciam ter entendido o valor da objetividade. O adversário, que chegou mais vezes e, se não fosse pela precipitação em muitos momentos, até mereceria a vitória, "jogou como nunca e perdeu como sempre". O Brasil lembrava o futebol-caranguejo do time de Parreira na Alemanha, com toques de lado, e no segundo tempo apenas Kaká tentava partir para cima; Luís Fabiano mal apareceu. Aí o jogo já começou a dar pinta de que se resolveria num lance isolado, como uma cobrança de bola parada. Dunga pôs Daniel Alves e ele converteu a falta que Ronaldinho não converteu contra a França em 2006, no último minuto, à beira da linha da grande área. No domingo, a final. Mesmo que seja campeão, o time continua sem empolgar tecnicamente.

 


por Daniel Piza, Seção: livros 07:00:00.

Agora vamos às melhores frases finais da literatura brasileira. Foi difícil não escolher muitas de Machado de Assis:

1) "Alguma cousa escapa ao naufrágio das ilusões." (Machado de Assis, Iaiá Garcia)

2) "Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

3) "O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens." (Machado de Assis, Quincas Borba)

4) "E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve! Vamos à 'História dos Subúrbios'." (Machado de Assis, Dom Casmurro)

5) "Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos." (Machado de Assis, Memorial de Aires)

6) "É a tua pena, alma curiosa de perfeição; a tua pena é oscilar por toda a eternidade entre dous astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: lá, lá, lá..." (Machado de Assis, Trio em Lá Menor)

7) "Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo – o funeral para sempre das horas." (Raul Pompéia, O Ateneu)

8) "Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia." (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

9) "Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos." (Graciliano Ramos, Vidas Secas)

10) "Abro o chuveiro e sinto na boca o calor da fumaça. A de fora já está se dissipando e aqui começa outra, ah, não esquecer de avisar à menina de Santarém que se aparecer um gatinho malhado atendendo pelo nome de Astronauta. Gatinho? Mas ele não cresceu? Enfim, um gato malhado. Me avise e será fartamente recompensada. E se por acaso uma voz meio velada me chamar no telefone, voz de homem que prefere não deixar o nome. Me vejo de perfil no espelho esfumaçado." (Lygia Fagundes Telles, As Meninas)

11) "(...) ele dormia, não era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaria aos seus caprichos, pois fui tomada de repente por uma virulenta vertigem de ternura, tão súbita e insuspeitada, que eu mal continha o ímpeto de me abrir inteira e prematura pra receber de volta aquele enorme feto." (Raduan Nassar, Um Copo de Cólera)

12) "Mas no meio de tudo isso, fora disso, através disso tudo – há o amor. Ele é como a lua, resiste a todos os sonetos e abençoa a todos os pântanos." (Rubem Braga, Sobre o Amor, Desamor, em Ai de Ti, Copacabana)

13) "Agora sei que procurei a Verdade. Mas nunca amei de verdade." (Otto Lara Resende, O Braço Direito)

14) "E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite, me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa." (Chico Buarque, Budapeste)

15) "Amigo... sou menos que uma voz..." (Milton Hatoum, Cinzas do Norte)

 


24.06.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 09:10:29.

Dunga continuou a dar ouvidos às críticas e a seleção brasileira evoluiu muito nos últimos dois jogos da Copa das Confederações. A entrada de Ramires no lugar de Elano, embora André Santos já esteja melhor do que Kléber, fez a principal diferença. E não só por causa do que Ramires joga, mas também pelo papel tático que desempenha. Com ele, o Brasil ataca com muitos jogadores, não apenas se defende. Ele ajuda na marcação, corre muito e se apresenta no ataque, como fez no terceiro gol da vitória sobre a decadente Itália. A linha de três volantes, em que Dunga tanto insistiu, hoje não existe mais.

Defender com muitos e atacar com muitos não significa que não haja áreas de movimentação que pedem características especiais. Volantes e laterais, por exemplo, não podem ser lentos. Daniel Alves é mais habilidoso que Máicon, mas com este o Brasil ganha jogada pela ponta que não tinha antes, pois aquele centraliza demais. Robinho tem tendência de cair pela esquerda para poder dar seus cortes para a direita, o que de certa maneira explica que André Santos não precise subir tanto – e vai exigir que se aprimore na marcação se quiser ser o titular de vez. Lá na frente é essencial um jogador com faro e fome de gol, como Luís Fabiano.

O bom técnico extrai o melhor de cada jogador fazendo valer sua vocação e ao mesmo tempo cobrando seu diálogo com os demais. Nesse aspecto, Robinho ainda está devendo por seu egoísmo e Gilberto Silva por sua baixa mobilidade. No conjunto, a seleção não tem nenhum craque do mesmo nível daqueles que tinha quando venceu as cinco Copas, ainda que Kaká seja decisivo e renda muito quando tem espaços. A imprensa já está caindo no oba-oba perigoso que antecede as Copas. Mas ninguém pode negar que o conjunto hoje está quase à altura do elenco. Não é para isso que os técnicos servem?

Muricy Ramalho serviu para isso durante três longos anos para o São Paulo. Sem ter craques realmente dignos do nome, e nem ao menos um meia armador, ele criou um padrão de jogo consistente, que, por depender bastante do treinamento e do preparo físico, demorava a engrenar. Muita gente não viu seus méritos e o acusou de promover um futebol feio ou defensivo. Mas o fato é que seu time cometia número baixo de faltas e produzia muitas finalizações por jogo. Em 2009, porém, a queda de rendimento de seus dois principais articuladores, Hernanes e Jorge Wagner, a venda ou contusão de outros, como Rogério Ceni e os zagueiros, a decepção de algumas contratações, como o limitado Washington, a escalação de dois volantes de marcação, um deles Eduardo Costa, e um desgaste natural de ciclo se somaram para tornar insustentável a continuidade. Resta ver se Ricardo Gomes é o nome certo para driblar tantos problemas.

Outro que entrou mais recentemente num degringolar é Tite. O Internacional não consegue compensar as ausências de D’Alessandro e Nilmar e não tem laterais de destaque; não dá para viver apenas de Guiñazu e Taison. Contra um Corinthians mais coeso, com um Ronaldo a desequilibrar diante do gol – embora Mano Menezes ainda precise encontrar formas de acioná-lo que não venham apenas de Elias e Cristian –, o Inter teve dificuldades. O técnico não tem culpa pelos desfalques, embora tenha pecado na organização da defesa e no rodízio do banco. A eliminação na Copa do Brasil pode sair cara; se vencer, porém, tudo isto se apaga. Técnicos, como goleiros, chamam mais atenção quando falham. E as diretorias que compram mal e vendem mal seguem no mesmo lugar.

("Boleiros")

 


23.06.09

por Daniel Piza, Seção: livros 14:30:00.

Bons livros podem começar (ou terminar) sem grandes frases, mas há algumas aberturas que não esquecemos. Shakespeare ("Oh, for a muse of fire!"), Tolstoi ("Todas as famílias felizes se parecem; mas cada família infeliz é infeliz a seu modo"), Proust ("Longtemps je me suis couché de bonne heure" etc), Nabokov ("Lolita. Lo. Lee. Ta") e outros mestres o foram desde a primeira linha. Para escrever minha próxima coluna, que é sobre literatura brasileira, me ocorreu então fazer uma enquete entre quinze exemplos de inícios ficcionais (aguarde para breve a dos fechos). Por favor, escolha o número e, se quiser, comente e acrescente:

1) "Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco." (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

2) "– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja." (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

3) "Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios." (Graciliano Ramos, Angústia)

4) "No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
- Ai! Que preguiça!..." (Mario de Andrade, Macunaíma)

5) "PRIMEIRO CONTATO DE SERAFIM E A MALÍCIA
A – e – i – o – u
Ba – be – bi – bo – bu
Ca – ce – ci – co – cu." (Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande)

6) "Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas." (Erico Verissimo, Um Certo Capitão Rodrigo)

7) "Ela estava com soluço. E, como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva." (Clarice Lispector, Tentação, em A Legião Estrangeira)

8) "Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua." (Jorge Amado, A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua)

9) "Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade." (Rubem Braga, Um Sonho de Simplicidade, em A Traição das Elegantes)

10) "Familiar aos cacos de vidro inofensivos, o gato caminhava molengamente por cima do muro." (Otto Lara Resende, Gato Gato Gato)

11) "Na porta da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, dentista." (Rubem Fonseca, O Cobrador)

12) "Ai, me dá vontade até de morrer. Veja, a boquinha dela está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz. É uma que molha o lábio com a ponta da língua para ficar mais excitante. Por que Deus fez da mulher o suspiro do moço e o sumidouro do velho? Não é justo para um pecador como eu." (Dalton Trevisan, O Vampiro de Curitiba)

13) "Vivos ali só Nando com a lamparina de querosene e Cristo na luz da sua glória." (Antonio Callado, Quarup)

14) "É muito difícil – ou inútil – datar o início desta história. Ela está começando hoje, aqui e agora, talvez só comece realmente amanhã, mais tarde ainda, ou nunca, talvez. Sei que esta história existe, está escrita e inscrita em minha carne, mas creio que ela não teve um início preciso, nem mesmo no dia em que resolvi dar nome ao meu pau." (Carlos Heitor Cony, Pilatos)

15) "Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso." (Hilda Hilst, Com os meus Olhos de Cão)

 


por Daniel Piza, Seção: livros 07:17:01.

Fica difícil exigir de qualquer autor que tenha escrito mais que A Democracia na América, livro que em 1835 antecipou as mudanças que a sociedade americana traria ao mundo, o que o século seguinte se cansou de testemunhar. Mas Alexis de Tocqueville escreveu ainda O Antigo Regime e a Revolução, publicado em 1856 e que estava indisponível em tradução brasileira há muito tempo. Com a excelente tradução de Rosemary Costhek Abílio, a editora Martins Fontes traz de volta ao leitor uma obra-prima de história e pensamento. Tocqueville deixou dois clássicos para a modernidade que não podem ser ignorados.

Nascido em 1805, o aristocrata francês formado em Direito escreveu sobre a democracia dos EUA depois de viajar por seu território e perceber que instituições mais descentralizadas e horizontais fortaleciam o modelo republicano, ao contrário do que se dizia. Embora o tenha escrito aos 30 anos, o livro é um primor de pesquisa e estilo. Em seu trabalho de maturidade, do qual deixou apenas o primeiro volume antes de morrer em 1859, as mesmas características se repetem e, em alguns momentos, se superam. O Antigo Regime e a Revolução é extraordinariamente bem escrito e fundamentado.

Olhe que o desafio não era menor. Embora analisando um evento ocorrido 67 anos antes, e não um processo ainda em progresso como a democracia americana (Tocqueville ainda foi capaz de prever que uma guerra civil poderia acontecer nele, como de fato aconteceu em 1861), ele enxergou a complexidade da Revolução Francesa como ninguém até então. Sem sua obra não haveria hoje, por exemplo, livros como outro que acaba de ser lançado no Brasil, Varennes, de Mona Ozouf. A historiadora que foi parceira de François Furet – grande estudioso de Tocqueville – no Dicionário Crítico da Revolução Francesa se debruça na sequência de eventos de 21 de junho de 1791, “a morte da realeza”, com os mesmos tipos de nuance e abrangência que Tocqueville ensinou.

Rediscutir a Revolução Francesa, 220 anos depois, soaria pouco útil se não fosse por esse olhar de Tocqueville, tão atual numa época em que, apesar da hegemonia da democracia, ela continua a sofrer assaltos dos conservadores que a veem apenas como subproduto das necessidades do mercado e também dos nostálgicos que, a cada crise do capitalismo, clamam por intervenções burocráticas que asfixiam a liberdade da qual ela se nutre em essência. E em países com democracias imaturas, como o Brasil, apesar das juras tucano-petistas em contrário, ele deveria ser leitura obrigatória em universidades e redações. Um ciclo de apenas 25 anos não tem como constituir uma república verdadeiramente democrática. Tocqueville explica.

Um ponto fundamental na interpretação dele fica explícito quando rebate os argumentos de Edmund Burke, o ensaísta inglês, outro grande estilista da prosa, que em suas Reflexões sobre a Revolução na França (clássico a ser reeditado pela Topbooks em setembro) criticou a Revolução por sua lógica cruel, por ter culminado na violência do Terror que era, ela mesma, uma negação dos valores mais libertários do Iluminismo, como os direitos humanos. Muitos conservadores que hoje tentam se apropriar de vertentes da tradição liberal fazem confusão entre Tocqueville e Burke. No entanto, Tocqueville em nenhum momento trata a Revolução Francesa como um erro, uma ruptura radical com tradições que poderiam ter sido renovadas de modo moderado.

Tocqueville não cai nessa. Ele vê os episódios que se iniciam em 1789, com a tomada jacobina da Bastilha, como o resultado “súbito e violento” de uma “obra na qual dez gerações de homens haviam trabalhado”. Mesmo que em muitos aspectos a ordem feudal da Europa já vinha sendo desfeita pelo avanço das cidades, das classes médias e das novas relações comerciais, o “antigo regime” ou a “antiga lei comum” continuava no substrato social. Essa obra de dez gerações precisava substituir as instituições feudais por “uma ordem social e política mais uniforme e mais simples, que tinha como base a igualdade de condições”. Privilégios de sangue e casta não acabariam por diplomacia; e novos princípios como a liberdade de imprensa eram antimedievais.

O que Tocqueville descreve é como essa criação de uma ordem mais uniforme e simples se traduziu em centralização administrativa, e o que descreveria no segundo volume seria como essa centralização foi levada a tal extremo, em nome da “estabilidade”, que terminou sendo um retrocesso do qual a América nasceria livre. “A Revolução Francesa foi ao mesmo tempo seu flagelo e sua professora”, resume. Ao longo do século 18, os governos municipais tinham “degenerado em pequenas oligarquias”, que por sua vez se tornavam refratárias ao avanço liberal, aos direitos de cidadania, com a pulverização de autoridades e tributos (soa familiar?). A Revolução foi uma expressão da insustentabilidade da situação. Que tenha criado outra ordem que mais tarde também se tornaria insustentável por seu teor tirânico não tira a importância do marco.

A narrativa esperta da fuga do rei Luís XVI por Mona Ozouf também demonstra isso. Curiosamente, ela dá mais destaque às interpretações dos romancistas que às dos historiadores, pois autores como Stendhal e Dumas percebiam melhor o peso dos acasos e das simbologias no curso da história. A tentativa de escape da realeza foi um golpe final em sua própria imagem, ao confirmar a noção crescente entre o povo de que a corte era supérflua, de que a unidade nacional já não dependia de seus ritos rococós. No vaivém dos atos, na indecisão frívola de Luís e Maria Antonieta, a autora projeta as armadilhas em que a própria monarquia se ajudou a cair – o que significa que caiu não por uma espécie de destino histórico, e sim por uma conjunção de variáveis. Por se achar indissociável da pátria, o rei não viu que a pátria tinha mudado.

 


22.06.09

por Daniel Piza, Seção: moda 18:37:41.

A moda brasileira ainda é conhecida como moda de praia, por biquínis e sandálias. De resto, tem uma imagem de copiadora ou adaptadora de tendências internacionais, até porque não tem alta costura; o uso de materiais mais simples costuma chamar atenção, na ausência de sofisticação e originalidade. Mas, para meu gosto, no prêt-à-porter há algumas marcas bacanas que trazem o que a maioria das pessoas quer: roupas modernas e "usáveis", despreocupadas de conceitos; veja o que Osklen, Cori, Maria Bonita e outras trouxeram na São Paulo Fashion Week que termina hoje. E há alguns estilistas, como Herchcovitch (em seus momentos menos exibicionistas, não nos vestidos inspirados em uniforme de futebol americano desta coleção), Reinaldo Lourenço e Glória Coelho, que conseguem fazer "para o mercado" e ao mesmo tempo dar notas de criatividade, menos convencionais. O vestido de Glória Coelho inspirado no Guggenheim de Bilbao, de Frank Gehry, é o exemplo que destaco; pode ser uma mera citação de formas alheias, mas funciona:

 


21.06.09

por Daniel Piza, Seção: futebol 22:10:52.

Em apenas um tempo a seleção brasileira resolveu o jogo contra a Itália. Dunga mais uma vez ouviu os apelos sensatos e entrou com Ramires e André Santos. Ramires, em especial, representa um salto tático para a equipe: é um jogador de marcação que aparece bem no ataque e cria boas jogadas pela direita com Maicon (menos habilidoso que Daniel Alves, mas mais forte e vai mais à linha de fundo). No terceiro gol, Ramires estava lá para completar o cruzamento de Robinho e culminar mais um contra-ataque comandado por Kaká; o zagueiro italiano acabou fazendo seu serviço. A Itália depende apenas de Pirlo para os momentos de lucidez; sente muita falta dos jogadores como Del Piero ou, para ir mais atrás, Roberto Baggio; e mesmo na defesa, com Cannavaro passando do ponto, não faz jus à tradição. Foi alvo fácil para o rápido ataque brasileiro. Há ainda jogadores rendendo pouco, como Robinho e Gilberto Silva, mas pelo menos agora o time sabe defender com muitos e atacar com muitos. E tem um matador na frente.

Entrevi a goleada do Flamengo sobre um desfalcado Inter no Maracanã, com Adriano em inspirado fim de tarde. O elenco não é ruim, só que o ambiente tem muitos problemas e há muitos jogadores irregulares, de pavios curtos, a começar pelo próprio Adriano. É preciso ver quantas vezes o desempenho vai estar à altura do potencial. Do clássico entre Corinthians e São Paulo só vi os gols, o melhor deles o de Cristian, outro volante que sabe chegar bem ao ataque. Sem Rogério e agora sem Muricy, o novo treinador do São Paulo (Ricardo Gomes, ao menos assim anunciado) terá muito trabalho pela frente. Muricy já trabalhava com muito desgaste mesmo quando as coisas iam bem. Agora, eliminado da Libertadores e mal no Brasileirão, escalando Eduardo Costa em lugar de Hernanes, ficou difícil continuar. Mas os torcedores só lhe devem agradecimento pela era que se encerra.

 


por Daniel Piza, Seção: política/ economia 08:20:06.

Baptistão

Estou mais uma vez com o presidente Lula: o senador José Sarney não é uma pessoa comum. Uma pessoa comum não tem ilha e mausoléu, não pertence aos imortais da ABL, não fica no poder por mais de quatro décadas sem se indispor com ninguém, não é detidamente resenhado por Millôr Fernandes, não tem jornais e rádios em todos os cantos de um Estado cujo IDH está entre os piores. Uma pessoa comum também não tem “atos secretos” para dar emprego público para os parentes de primeiro, segundo e terceiro graus e não tem a honra de ter presidido o Brasil num golpe da fatalidade e de ter levado a inflação aos três dígitos. E uma pessoa comum sabe o que entra em sua conta bancária, embora saiba melhor ainda o que sai e o que não entra.

E há quem continue chamando Lula de um político de esquerda... Quer posição mais favorável ao status quo do que as declarações dele em defesa de Sarney? O que ele disse, em outras palavras, é que os representantes do povo não são pessoas comuns, ou seja, do povo. São especiais, talvez eleitas pela voz divina (a voz do povo é a voz de Deus até terminar a contagem dos votos, depois deve se calar para a eternidade), e portanto merecem foro privilegiado, imunidade parlamentar, carteiradas, “praxes” que até ferem as leis que elas mesmas fizeram. Continuidade popular de FHC, Lula o imita na justificação verbal de alianças com o que há de mais retrógrado na mentalidade brasileira. Sarney, como foi ACM, é o facilitador dos projetos de permanência no poder.

Quem menospreza Sarney como autor comete um erro ao ignorar uma peça literária como o discurso que ele fez na quarta-feira. Primeiro, porque é um exercício de imaginação que deixa longe livros como Saraminda – aquela obra-prima que conta a história de uma mulher com mamilos de ouro em Serra Pelada. Segundo, porque são centenas de linhas com apenas dois argumentos, ou melhor, duas alegações: a de que ele não é culpado, e sim a instituição que ele preside com a tal “crise da democracia representativa” (tradução: todos nós do Senado temos rabo preso, atire a primeira pedra quem nunca pecou com o dinheiro público); e a de que ele “exige respeito” por sua história (e sua versão singular de como não colaborou com o autoritarismo militar). Todos os males que Sérgio Buarque identificou nas raízes do Brasil frutificam ali.

Por isso mesmo, os que apontam as oligarquias estaduais como barreiras para a democracia capitalista brasileira estão equivocados. Como o PT e o PSDB demonstraram, e como nossa vida cotidiana demonstra o tempo todo, o pensamento oligárquico – que confunde instituição e personalidade sempre que convém, que vê a crítica como um obstáculo em sua comunicação com os comuns, que se exime de qualquer erro e se gaba até do que não fez sozinho – vai muito além dos atos e palavras desses clãs de poder. Em graus diferentes, é aceito e reproduzido por quase toda a sociedade. Parafraseando Joaquim Nabuco sobre a escravidão, permanecerá por muito tempo como a característica nacional.

("Sinopse")

 


20.06.09

por Daniel Piza, Seção: livros, futebol 09:24:32.

Participei do livro acima, muito bem acompanhado, como se vê, no desafio de falar sobre como o futebol nos marcou a vida. Eis uma palinha do meu ensaio, que se chama 'Bola de Meia':

"(...) O cineasta Píer Paolo Pasolini disse que o futebol brasileiro de 1970 era poesia, em oposição à prosa dos demais. Mas isso é simplificar muito. O pior é que outros autores foram além e deram a entender que a razão disso era o talento do brasileiro para o drible, quando na verdade Pasolini também se referiu aos gols, ao estilo que não esquece que o objetivo maior é vencer, é balançar a rede adversária. Esse pensamento dicotômico – prosa ou poesia, tática ou técnica, defesa ou ataque – é extremamente banal no mundo do futebol, talvez porque seja a forma mais cômoda de lidar com as paixões envolvidas. A história de um jogo, porém, não se conta assim. Grande parte dos movimentos executados numa partida – os passes, os deslocamentos, a marcação – são prosaicos, são a tentativa de fazer de modo simples e direto o que há a fazer, inclusive com alto número de falhas (mais de 30% dos passes em média beneficiam o adversário). A poesia acontece em alguns momentos, em instantâneos, geralmente com a presença de espírito do bom jogador ou a criatividade inesperada do craque. São momentos raros. Se não fossem, não seriam poéticos.

Também são raros os cronistas brasileiros que enxergam isso. A opinião esportiva local é dividida entre os que chamo de 'esteticistas' e os 'estatísticos'. Os esteticistas parecem sonhar com uma seleção composta de onze dançarinos que só façam lances de efeito o tempo todo. Eles gostam do estilo barroco, exaltam a ginga, afirmam que o 'gênio' não precisa transpirar. Os estatísticos parecem acreditar que as estatísticas contêm profecias, que uma vitória ou derrota se explica exclusivamente por erros de escalação ou esquema. Eles repetem palavras como regularidade, disciplina, planejamento, como se fossem o máximo a aspirar. Ou o futebol é poesia ou é prosa, segundo essas visões; jamais pode ser ambas. O curioso é que o mito maior do futebol nacional, Pelé, foi o maior exemplo de que um jogador pode ser completo e brilhante, eficiente e artístico, mestre e inventor. Essa deveria ser a verdadeira 'escola' brasileira.

Uma entre tantas polêmicas que ilustram esse dualismo é a que envolve as seleções de 1982 e 1994. Quando se pergunta se é melhor 'perder bonito' como a primeira ou 'ganhar feio' como a segunda, todo mundo toma um partido e ninguém contesta a própria formulação da questão. A seleção de 1982 não sentiu apenas falta de prudência na defesa, mas também falta de um centroavante que dialogasse tecnicamente com Zico, Falcão e Sócrates; basta ver quantos gols Serginho fez naquela Copa. E a seleção de 1994 tinha um bom sistema defensivo, com oito jogadores atrás da linha da bola na maior parte do tempo, mas nada seria sem os ardis e requintes de Bebeto e Romário lá na frente. Além disso, a Itália de 1982 era melhor que a de 1994, embora esta tenha sido vencida apenas nos pênaltis. Mas faz parte da cultura nacional que os méritos do adversário sejam secundários: 'O Brasil só perde para si mesmo', diz o chavão.

Entre o saudosismo dos esteticistas e a futurologia dos estatísticos, o futebol é que não é compreendido. Ao contrário do que pensa, tal falso dilema não é de hoje. Nelson Rodrigues, em 1958, criou o paradigma do futebol-arte ao atacar comentaristas como Armando Nogueira que diziam que times como a Hungria eram modernos, versáteis e evoluídos, logo que o Brasil iria perder como em 1950. Nelson, com seu estilo admirável e único, tratou de dizer durante a Copa da Suécia que os brasileiros é que tinham 'saúde de vaca premiada', que Pelé era o rei do futebol, Didi o 'príncipe etíope' e assim por diante. De fato, aquela geração era extraordinária, praticou um futebol que encantou o mundo e voltou campeã, naqueles anos dourados de Juscelino Kubitschek e da Bossa Nova. Nelson proclamou então que o Brasil tinha vencido seu 'complexo de vira-lata', seu complexo de inferioridade ante o europeu.

Concretamente, porém, a história é mais sutil do que isso. Como disse o próprio Pelé, o problema do Brasil em 1950 tinha sido o complexo de superioridade, não de inferioridade. A seleção canarinho tinha certeza absoluta de que venceria o Uruguai naquela final no Maracanã; até a festa do título já estava encomendada. Mas o adversário jogou melhor e o Brasil chorou como nunca, encontrando – como sempre – um bode expiatório em seguida, o goleiro Barbosa. A geração de 1958 tinha todos os elementos necessários para ser vitoriosa. Tinha talentos em todos os setores. Tinha uma mescla fundamental de experiência com juventude. Tinha um trabalho físico e tático que jamais havia feito, graças ao profissionalismo da comissão dirigida por Paulo Machado de Carvalho. E tinha, acima de tudo isso, uma autoconfiança que não se convertia em arrogância. Por isso, mesmo os problemas que surgiram nos primeiros jogos, em que Pelé e Garrincha foram reservas, puderam ser resolvidos a partir do terceiro. Levando-se a sério, a seleção pôde soltar sua criatividade.

O discurso de Nelson foi muito apropriado e, a bem da verdade, vinha de seu irmão, Mario Filho, estudioso do futebol. Mario Filho, assim como o romancista José Lins do Rego, que também era cronista, tirou suas idéias do antropólogo Gilberto Freyre, autor do prefácio de seu clássico 'O Negro no Futebol Brasileiro'. Foram as idéias de Freyre de que a mestiçagem era boa, de que o Brasil era uma democracia racial como não havia igual no mundo, que deram origem a essa visão de que o futebol brasileiro se tornou o melhor do mundo justamente pelas características raciais de seu povo. Se foi uma dissonância saudável em relação ao racismo vigente em muitos clubes brasileiros e à própria tese de que o 'embranquecimento' da população era bom, o pensamento de Freyre aplicado ao futebol se transformou numa explicação grosseira para a história de sucesso das últimas cinco décadas. Dizer que o Brasil é pentacampeão porque é uma 'mistura de raças' hoje é lugar-comum.

Mais uma vez, a explicação é mais rica. O Brasil é bom no futebol – tem cinco Copas, muitos dos melhores jogadores do mundo de Pelé a Kaká, exporta atletas para o planeta inteiro – por uma combinação de fatores. Há, sim, o antropológico (e a ligação entre o esporte e a tradição de festas e músicas – daí a importância da cultura negra, como no jazz americano – foi estudada brilhantemente por Hilário Franco Jr. no livro 'A Dança dos Deuses'), mas há também a história do próprio futebol (ter tido Leônidas e Zizinho permitiu que surgisse Pelé; ter tido Pelé criou um fantasma a enfrentar para Zico, Romário, Ronaldo e Ronaldinho) e a do país (o futebol se afirmou no mesmo momento em que a identidade moderna do Brasil se afirmava, de GV a JK), além de fatores econômicos e geográficos (num país pobre, de população de pouca estatura, os outros esportes não se popularizam do mesmo modo). Associar discurso racial e esporte, por qualquer ângulo, jamais foi boa idéia.(...)"

 


19.06.09

por Daniel Piza, Seção: cinema, música 10:57:44.


Um subproduto da ideologia cordial é o Fla-Flu dos debates no Brasil. O documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Cavito Leal, tem como mérito propor a superação disso, mas não consegue. É claro que Simonal merece o resgate, a anistia artística como cantor e “entertainer” que foi, pois podemos admirar os filmes de um Elia Kazan sem esquecer que ele colaborou com o macarthismo. O documentário está repleto de momentos que mostram seu talento, como o duo com Sarah Vaughan (acima). E também não omite nada sobre as acusações que pesam sobre ele, embora haja mais documentos por aí; a cena da entrevista com o contador em quem Simonal mandou bater é bastante forte. Difícil alguém deixar de pensar mal dessas conexões com gente do Dops e de perceber que Simonal cavou boa parte de sua cova.

Mas a maioria dos depoentes quer nos convencer de que ele foi o maior cantor brasileiro, o Pelé ou Garrincha do “crooning”, e uma vítima de certa ingenuidade ou arrogância (e esta não seria permitida em um negro), não um delator. Sobre isto, os fatos ainda são obscuros, mas certamente Simonal sabia o que dizia quando se declarava a favor da “Revolução” (o golpe militar) e cantava País Tropical do modo como cantava. Mais importante: ele tinha voz bonita e swing contagiante, mas como intérprete não “roubou” nenhuma canção para ele, exceto o hábito folclórico de cantar Meu Limão, Meu Limoeiro em coro com a plateia. Não dá para igualar a Orlando Silva, João Gilberto, Tim Maia, Mário Reis, etc. Seja como for, o documentário é bom e levantou o tema.

 


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Daniel Piza é colunista de O Estado de S.Paulo. Site: www.danielpiza.com.br





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