27.08.08

Link permanente Zaijian, Xie Xie: O Aeroporto do Dragão me espera
por Felipe Machado, Seção: Pequeno Post Vermelho s 09:06:54.

Agora é hora: meu táxi chegou e tenho que desligar. Uma longa viagem até São Paulo me espera, até porque serei obrigado a passar cinco horas no aeroporto de Dubai.

Para terminar, gostaria de agradecer a sua presença aqui no blog. Foi muito bom dividir tantas coisas legais que aconteceram durante a viagem.

(Parênteses: Antes de desligar a TV, acabo de ver um casal chinês cantando ópera. Incrível: a voz dele consegue ser ainda mais fininha que a dela.)

Como é que se diz 'obrigado a todos os meus amigos de Pequim, vou sentir muita falta de vocês' em chinês?

Zaijian Xie Xie Zhongguo. Wo Ai Ni.

Adeus, China.

 


Link permanente Cenas da China, parte 5
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China, Pequeno Post Vermelho s 08:42:58.

Últimas imagens da China, na visão do fotógrafo Nilton Fukuda:

Livro do Mao, por Nilton Fukuda/AEe

O pequeno livro vermelho do Mao é mais uma tranqueira com o ditador-ícone pop

Templo, por Nilton Fukuda/AE

Religião é um assunto quente por aqui

Bambu, Nilton Fukuda/AE

Shanghai em obras: quem disse que bambu só serve como comida de panda?

 


Link permanente Últimas horas em Pequim: A garganta começa a apertar
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, Comida chinesa, Pequeno Post Vermelho s 07:57:11.

Felipe, por Nilton Fukuda/AE

Como é que se diz 'saudades' em chinês?

Dia 26

'Partir é um doce pesar', já dizia Shakespeare. Pois ir embora daqui a pouco de Pequim, apesar de a saudade pelo Brasil e pela minha família já estar batendo nos limites do aceitável, está tomando conta da minha garganta de uma maneira não muito confortável. Começo a lembrar de várias coisas que passei por aqui, das inúmeras pessoas que conheci, dos incríveis e diferentes lugares que visitei. Como é que se diz 'eu não vou chorar nem a pau' em chinês?

Nesse último dia, aproveitamos para fazer mais umas comprinhas e almoçar com calma no Alameda, que acabou se tornando o nosso restaurante favorito por aqui. É engraçado como já sinto falta de coisas simples do cotidiano, como andar de táxi ou dizer 'Ni Hao' para as funcionárias do hotel. Acho que coisas assim, no fundo, é que vão deixar mais saudades: surpreender um vendedor chinês com um 'Xie Xie, Zaijian' na hora de ir embora; assistir ao vídeo do hino da Olimpíada 'Beijing Huan Ying Ni' nos telões da Wangfujing; ler as sempre otimistas notícias do 'China Daily' durante o café da manhã. Os lugares turísticos e os estádios grandiosos dos Jogos Olímpicos vão deixar um outro tipo de saudade: um mês é tanto tempo que a gente acaba se apegando mesmo é à vida real.

 


26.08.08

Link permanente O céu diz adeus na última noite em Pequim
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, Comida chinesa, República Pop da China s 21:58:58.

Como é que se diz 'cavaquinho milenar' em chinês?

Dia 25

Já comentei aqui que uma das vantagens de passar um longo tempo em uma cidade desconhecida é a possibilidade de voltar aos locais que você mais gostou e pelos quais já sente saudades antes mesmo de ir embora. Nada mais justo, portanto, do que visitar o hutong na região da Liu Li Chang, a rua das antiguidades.

É claro que eu gostaria de ter 15.000 RMB (quase R$ 4 mil) para levar para casa a réplica de uma estátua dos guerreiros de Xi’An feita de terracota em tamanho natural. Mas como não havia lugar na minha mala para esse pequeno mimo de dois metros e meio de altura, me contentei em adquirir delicados estojos de caligrafia, uma das artes milenares que ainda sobrevivem na China apesar da homogeneização que a escrita sofreu com a popularidade dos computadores. Na China, a beleza das palavras não depende apenas do conteúdo daquilo que está escrito, mas dos traços harmoniosos imortalizados pela dança dos pincéis sobre o papel-manteiga. É por isso que só aqui um calígrafo famoso pode ganhar uma página inteira de jornal, como aconteceu outro dia no caderno de cultura do China Daily. Como fã de tipologia e, portanto, admirador tanto do conteúdo quanto da forma das palavras, não posso deixar de admirar a sensibilidade de um povo que resiste à praticidade repetitiva dos teclados digitais.

Hutongs são bairros formados por vielas estreitas e casas simples construídas desde o século 13 de acordo com os princípios do feng-shui. Mas com o crescimento do número de arranha-céus e construções modernas, eles estão desaparecendo. Nos anos 80, eram mais de 3.600 em toda a cidade. Hoje há pouco mais de mil hutongs em Pequim, e, ao contrário do bairro artístico onde está localizada a rua Liu Li Chang, a maioria sobrevive de um comércio simplório baseado em mercadorias para turistas que desrespeitam o passado recente do país. É meio deprimente ver esses pobres moradores tentando desesperadamente empurrar goela abaixo dos turistas objetos vagabundos decorados com o rosto de Mao Tse-Tung.

Quem garimpa um pouco mais, no entanto, pode descobrir negócios da China a preços realmente ridículos. Foi o que aconteceu comigo: ao entrar numa loja de instrumentos musicais antigos, encontrei um Liu Qin (espécie de cavaquinho milenar) em ótimo estado e incrivelmente pintado à mão com figuras do dragão e da fênix, que representam o imperador e a imperatriz da China. Comecei a barganhar e, pela primeira vez, acabei vencendo o jogo da pechincha. Levei o Liu Qin por 350 RMB (menos de R$ 100) e ainda levei de graça um CD com canções típicas chinesas.

(Parênteses: Acho que vale aqui mencionar breves exemplos do que se compra com o dinheiro chinês. A cotação é de 4 RMB para R$ 1, ou 6,80 RMB para US$ 1. Para se ter uma idéia do valor das coisas, imagine que uma cerveja long neck em média custa 20 RMB; uma refeição em um restaurante legal sai, sem bebidas alcoólicas, entre 100 RMB e 150 RMB; o aluguel de um apartamento razoável está em torno de 4 a 5 mil RMB; a passagem de ônibus custa 1 RMB e a de metrô, 2 RMB; o salário de uma pessoa, digamos, normal, é relativamente baixo: de 1.0000 a 3.000 RMB.)

Voltando aos hutongs, acho que eles podem até ser culturalmente interessantes, mas dá para entender por que o governo quer reduzi-los ao máximo, especialmente nas áreas mais nobres da cidade. Apesar da comparação não ser exatamente fiel, seria como se um antropólogo defendesse a manutenção das favelas no Brasil com a justificativa de que elas já são parte da cultura. Apesar das reclamações dos moradores, até os hutongs mais famosos da cidade estão sendo demolidos. Habitados por famílias pobres que dividem pátios e banheiros, os hutongs de Pequim são uma lembrança de um passado que não tem mais espaço na China de hoje.

Toda essa caminhada me abriu o apetite e, acompanhado pelos colegas do Estadão, lá fomos nós de volta ao único bairro da cidade onde alguns restaurantes ainda estão abertos para o almoço após as 15h: a velha e boa Sanlitun. A rua está completamente vazia, é verdade, mas pelo menos os restaurantes ainda estão lá.

Para variar de sabor, fomos comer no Ciro's, uma bela cantina pós-moderna cujo dono (o tal do Ciro) é um italiano tatuado hiperegocêntrico com cabelo preto até a cintura e visual típico de quem ainda acha que os anos 80 não acabaram. Não, não chegamos a conhecer o Ciro pessoalmente, mas nem precisou: o restaurante é inteirinho decorado com fotos dele ao lado de personalidades das áreas mais distintas que você pode imaginar, de Ronald Reagan e Paulo Coelho, passando por Axl Rose e Sylvester Stallone. Apesar disso, a comida do lugar é muito boa. Depois de quase um mês comendo pratos cozidos com óleo de banha de animal, meu estômago agradeceu a volta ao bom e velho azeite de oliva.

Após uma tarde de descanso, a equipe do Grupo Estado voltou a se reunir para jantar. O lugar escolhido foi o Salt, um restaurante descolado localizado naquela região conhecida como 798, o bairro das galerias de arte. Como a comida é ótima e a dona é a brasileira Gaby Oliveira, nos sentimos mais em casa ainda. Tivemos direito até a pão de queijo chinês.

(Parênteses: Sem querer ser puxa-saco (e já sendo), quero parabenizar meus colegas e deixar um abraço a todos que participaram dessa cobertura olímpica. Foi trabalho duro e intenso, mas acho que quem acompanhou a Olimpíada por meio de qualquer um dos veículos do Grupo Estado teve acesso a informações exclusivas, um completo material multimídia, excelentes análises esportivas... enfim, conteúdo de primeira qualidade. Desculpe o clima de fim de cobertura, mas é que... a cobertura está mesmo chegando ao fim.)

Com uma chuva torrencial que começou a cair logo após o jantar em Pequim, nosso plano de passear por alguma região ao ar livre como Hu Hai ou Nanluogu Xiang foi por água abaixo, com o perdão do trocadilho. Por outro lado, um temporal na última noite da viagem é até justo: talvez a cidade esteja tão triste com a nossa partida quanto nós estamos.

 


Link permanente A festa acabou. E o dia seguinte?
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China s 01:09:27.

Como é que se diz 'documento em cinco vias' em chinês?

Dia 24

Eu sempre soube que a China era um país orgulhoso por manter suas tradições milenares, mas não imaginava que algumas delas fossem levadas tão a sério. Os carimbos chineses, por exemplo. Esse antigo hábito de estampar objetos com carimbos esculpidos em pedra nasceu há muito tempo, mas desde a implantação do regime comunista ele ganhou um aliado que o torna tão chinês quanto os leques e as bicicletas: a burocracia.

Com o fim da Olimpíada, a única rua que ainda permanece relativamente cheia em toda a cidade era a Wangfujing, com sua imensidão de lojas e produtos para todos os gostos. Ainda há alguns estrangeiros pela região (eu, por exemplo), mas o que parece é que agora é a vez dos turistas chineses, de várias partes do país. Aproveitei o dia mais tranqüilo para finalmente fazer minhas compras olímpicas, camisetas com o logotipo 'Beijing 2008' e objetos ilustrados pelas simpáticas mascotes dos Jogos, as famosas Fu Wa ('crianças sortudas', em chinês).

Para evitar a difícil opção por um único animal (a briga entre pandas, tigres e dragões seria sangrenta) como mascote, o Comitê Olímpico Chinês escolheu quatro bichinhos que homenageiam diferentes regiões da China (Panda, Antílope-Tibetano, Andorinha e Peixe) e um quinto integrante, um 'foguinho' que representa a tocha olímpica.

(Parênteses: Os nomes das mascotes também foram escolhidos a dedo: se você separar as sílabas de seus nomes (Beibei, Jingjing, Huanhuan, Yingying, Nini), tem a frase Beijing Huan Ying Ni, Bem-vindo a Pequim). A cor de cada um ainda representa os anéis olímpicos e os cinco elementos da tradição chinesa (metal, madeira, água, fogo e terra).

Mas o que essas mascotes têm a ver com os tradicionais carimbos chineses? Calma, eu chego lá. Aliás, eu cheguei lá na hora de pagar pelos produtos na lojinha olímpica.

Se você é fabricante de papel carbono e achou que seu negócio estava arruinado por essas novidades tecnológicas como notas fiscais eletrônicas e afins, pode dormir tranqüilo. A China não deixará você ir à falência.

Nem nas mais jurássicas repartições públicas brasileiras seria possível imaginar uma burocracia tão paquidérmica ou um número maior de trâmites para se comprar um produto. Talvez seja por isso que a fila de clientes era tão grande: a caixa conferia e carimbava cinco vias da nota fiscal, grampeava duas delas, guardava uma via numa gaveta, outra em outra, carimbava a primeira e a terceira, rubricava a segunda e a quarta, colava um adesivo na terceira e quinta, rubricava esse adesivo, daí carimbava todas as cinco vias e arrancava imediatamente esses grampos, daí rubricava a segunda e a quarta pela terceira vez... o mundo podia acabar que a maldita fila não andaria um centímetro antes da maldita caixa carimbar, rubricar e sujar de papel carbono as malditas trocentas vias da nota fiscal. Aí, sim, eu poderia retirar minhas mascotinhas de pelúcia e voltar para o meu maldito hotel.

Com o fim dos Jogos, começa a discussão sobre o futuro da Vila Olímpica. De acordo com o jornal China Daily, o complexo abastecido com placas de energia solar instaladas os apartamentos será transformado em um bairro residencial com imóveis à venda por preços entre 500.000 e 1 milhão de yuans (entre R$ 125 e 250 mil). O futuro de estádios como o Ninho dos Pássaros e o Cubo Aquático também já foram definidos: Comprado por um consórcio formado pelo grupo estatal chinês Citic, o Ninho terá o número de espectadores reduzido de 91 para 80 mil será transformado no campo do time de futebol Beijing Guoan F.C. O grupo Citic pretende ainda leiloar o nome do estádio para alguma empresa e alugá-lo para eventos e grandes shows. No futuro, portanto, prepare-se para o lançamento de discos com o subtítulo 'Gravado ao Vivo no Ninho dos Pássaros'.

O Cubo Aquático vai virar um centro esportivo composto por parque aquático, quadras de tênis, lojas, restaurantes e casas noturnas. Outros enormes ginásios construídos especialmente para a Olimpíada, como o Wukesong Indoor Stadium (basquete), Fencing Hall (Esgrima) e National Indoor Stadium (Ginástica), serão adaptados para se tornarem locais de treinamento para as futuras gerações de esportistas chineses e centros de convenções empresariais.

Após um cansativo dia de compras, à noite a equipe do Estadão se reuniu em um jantar organizado pela correspondente do jornal na China, Cláudia Trevisan, para degustar um autêntico Pato à Pequim no restaurante Duck de Chine, em Chaoyang. Há praticamente um mês na China, trabalhando como loucos e longe das famílias e amigos, posso dizer que eu e meus colegas entramos em contagem regressiva para voltar para casa.

Nada que impeça, no entanto, uma voltinha por Sanlitun para uma última cerveja. Caminhando pela região que era o grande palco das festas e comemorações durante a Olimpíada, foi possível constatar que Pequim está de volta ao normal. Tudo bem, era uma noite de segunda-feira, mas a diferença de movimento no local era gritante. Na calçada onde tínhamos que brigar por espaço centímetro a centímetro, meia-dúzia de gatos pingados tentavam se divertir driblando os barzinhos que iam fechando as portas, um atrás do outro. Paramos no bar mexicano The Saddle para a derradeira bing pijiu da noite. O mar de estrangeiros que há poucos dias balançava bandeiras e cantava gritos de guerra nos mais variados idiomas deu lugar a mesas vazias, luzes apagadas e garçons desanimados. A festa acabou. Depois de uma festa de duas semanas, hoje em Pequim é dia de ressaca.

 


25.08.08

Link permanente Cenas da China, parte 4
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China, Yin e Yang, Pequeno Post Vermelho s 08:13:56.

Mais algumas cenas da China na visão do fotógrafo Nilton Fukuda:

Namorados, por Nilton Fukuda/AE
Casal de namorados em Shanghai: Além do amor, eles compartilham o jeito de se vestir

Jogando na rua, por Nilton Fukuda/AE

Quem você acha que está ganhando? Eu não tenho a menor idéia

Pele, por Nilton Fukuda/AE

Pelé na Cidade Proibida: visita real ou imperial?

 


24.08.08

Link permanente Fim da Olimpíada: a China volta à realidade
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China s 22:59:13.

Telao encerramento, Nilton Fukuda/AE

Como é que se diz 'circulando, circulando' em chinês?

Dia 23

Nada como degustar um típico rodízio brasileiro e assistir à disputa pela medalha de ouro no vôlei. Estava tudo perfeito, da companhia dos colegas brasileiros aos garçons chineses vestidos de gaúchos. Pena que os americanos jogaram melhor e estragaram a nossa festa, com uma vitória por 3 sets a 1. Mas nem isso impediu que o almoço com colegas brasileiros no Latin, perto do Chaoyang Park, fosse um banquete com direito à picanha, guaraná e pudim de leite de sobremesa.

Não tínhamos muitas dúvidas em relação ao melhor lugar para assistir ao encerramento da Olimpíada, já que a abertura na Wangfujing havia sido uma experiência maravilhosa, com turistas de vários países se reunindo para celebrar a festa que começava. Fomos para lá, então, ansiosos para conhecer o que o gênio de Zhang Yimou tinha preparado para o adeus do mundo a Pequim 2008.

Uma grande surpresa e decepção nos assolou quando encontramos o telão da Wangfujing onde assistimos à abertura da Olimpíada desligado, mesmo com milhares de pessoas que tiveram a mesma idéia que a gente no local. Chineses e estrangeiros não entendiam e se perguntavam por que aquilo estava acontecendo, por que o telão não estava ligado para exibir a chave de ouro do Comitê Olímpico Chinês, a cereja no bolo de uma festa em que tudo tinha saído exatamente como o combinado: a China venceu a Olimpíada, os estrangeiros ficaram apaixonados por Pequim e assuntos complicados como Tibete, Direitos Humanos e poluição acabaram ficando em segundo plano.

Segundo uma repórter chinesa que também estava lá para cobrir o suposto evento, a decisão de não ligar o telão havia provavelmente sido tomada para evitar eventuais problemas provocados por excessos decorrentes da aglomeração de pessoas. Não entendi esse raciocínio, já que essa aglomeração tinha o objetivo de saudar o sucesso do evento produzido justamente pelo governo do país e seus braços esportivos. Ela respondeu que a noite da abertura havia gerado uma certa polêmica por ter reunido muita gente e saído de certa forma do controle, fato que as autoridades chinesas não costumam permitir. Eu discordei e disse que estava lá na noite da abertura e não havia acontecido nada 'fora do controle', muito pelo contrário. O que eu vi foi uma festa maravilhosa de confraternização entre pessoas de vários países. Sim, foi meio complicado para encontrar um táxi na região após o término do evento, mas isso não chegou a ser um problema que pudesse ter 'colocado em risco' o poder das autoridades. Acho que eu e o governo chinês não pensamos da mesma maneira.

Às 20h, hora do início da cerimônia de encerramento, os chineses se revoltaram e começaram a gritar 'liga o telão' (em chinês, claro, mas alguém me traduziu). Agora sim, estávamos diante de um leve princípio de rebelião, um pequeno ato de desafio à decisão das autoridades chinesas. Fiquei com pena do povo, desta vez formado quase exclusivamente por chineses, com estrangeiros como nós presentes apenas como coadjuvantes dispostos a aplaudir o fim de uma festa tão bem sucedida. Mas os gritos de 'liga o telão' não foram bem-vindos pela policia: poucos minutos depois, alguns policiais começaram a cercar a multidão para dispersá-la. O inusitado é que esses policiais (eu contei pelo menos seis tipos de uniformes diferentes, cada um para uma hierarquia repressora) não estavam armados nem mesmo com cassetetes, condição bastante improvável para controlar uma multidão de mais de cinco mil pessoas. Mesmo assim, foi o suficiente. Com tapinhas nas costas (dos chineses, já que os policiais não olhavam e muito menos encostavam nos ocidentais) e frases de ordem (algo como 'circulando, circulando'), os policiais pouco a pouco controlaram a situação e o povo, sem esboçar nenhuma reação, obedeceu ao eficiente controle de multidões em que os chineses são especialistas.

(Parênteses: Fico imaginando o que aconteceria se o governo se recusasse a exibir um jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo em um daqueles telões espalhados pelas ruas do país, do Anhangabaú à Copacabana. E fico pensando qual seria reação do povo se o governo enviasse ao local meia-dúzia de guardinhas para aconselhar o pessoal a ir para casa.)

Sem opção e já perto do fim da cerimônia, decidimos esquecer tudo e ver a reprise mais tarde em um dos 12 canais da CCTV, que provavelmente exibiriam o evento à exaustão (o que acabou acontecendo). Eu e meus colegas do Estadão fomos, então, para o bar/restaurante Lan, um lounge pós-moderninho famoso por ter sido decorado pelo designer Philippe Starck.

Starck é famoso por seus exageros que beiram o kitsch, e o Lan não foge à regra. Cadeiras douradas e quadros barrocos dividem o local com réplicas em gesso da mão de Mao Tse-Tung estendida naquele seu gesto típico, como se estivesse abençoando o povo chinês. Tudo isso entre cortinas de veludo vermelho, mesas de acrílico decoradas com ideogramas chineses e paredes repletas de telas de cristal líquido com vídeos muito loucos produzidos por VJs chineses.

Só o som que não tinha nada de rococó: era um bate-estaca tradicional, hipnótico e repetitivo. Detalhe: o lugar é tão VIP que o DJ da noite era Álvaro 'Berlusca', sobrinho do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Alguns drinques depois, esquecemos o episódio da Wangfujing. Mas ele ficou marcado como prova de que não há contestação e as autoridades são realmente quem decidem como as coisas devem ser na China, independente da vontade do povo. Afinal, o que havia de mal em ter cinco mil chineses reunidos para celebrar o sucesso de seu próprio país? Como me disse a repórter chinesa, a China começa a acordar do sonho olímpico e voltar à realidade.

 


Link permanente A última balada olímpica
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China, Medalhas, Yin e Yang s 06:17:13.

Como é que se diz 'xaveco olímpico' em chinês?

Dia 22

Não sei se você reparou, mas o nome deste blog é 'Ping Pong'. O meu último evento olímpico, portanto, não poderia ser outro que... a final de Ping Pong, claro.

Ping Pong, chamado por pessoas sérias de 'tênis de mesa', é um dos esportes mais populares da China. Outros países orientais, porém, também têm excelentes jogadores, como é o caso do coreano Min Seung Ryu, vencedor da medalha de ouro na Olimpíada de Atenas. Imagine então como a China comemorou quando três chineses e um sueco foram classificados para jogar as finais.

Escalado apenas como coadjuvante da festa, o sueco Jorgen Persson perdeu a disputa do bronze para o chinês Hang Liqin; a medalha de prata ficou com Wang Hao, e o ouro, com Ma Lin. Ou seja: com três bandeiras chinesas hasteadas, três chineses no pódio e o hino da China nos alto-falantes, o ginásio da Universidade de Pequim veio abaixo. Zhongguo Jiayou!

Essa foi a parte 'tênis de mesa' do ping pong. Agora, numa visão politicamente incorreta, é muito divertido encarar esse esporte como uma brincadeira de criança levada extremamente a sério. Dizem, por exemplo, que o ping pong foi inventado por anões que sonhavam em ser grandes jogadores de tênis. Eu acho que isso é mentira. Mas que o ping pong é uma espécie de mini-tênis, ah, isso é. Com exceção da velocidade das jogadas, que é impressionante, é tudo reduzidinho: em vez de quadra, uma mesinha; em vez de raquetes, raquetinhas; em vez de bola, bolinha; até a cadeira do juiz, em vez de ser um daqueles cadeirões altos com guarda-sol e tudo mais, é uma cadeirinha esprimidinha. Para finalizar, a volta olímpica que o Ma Lin após a vitória deu foi a mais curta de toda a Olimpíada.

Depois do ping pong foi hora de comemorar o título da seleção feminina de vôlei. Após uma vitória sensacional contra os Estados Unidos, nada melhor do que brindar com umas bing pijiu na já tradicional região de Sanlitun, que obviamente estava lotada nesse finzinho de Olimpíada. Parabéns para as garotas brasileiras: além de bonitas, são belas jogadoras.

(Parênteses: É engraçado ver que a China se preparou para as Olimpíadas em todas as áreas imagináveis, com exceção de uma: eles não sabem o que fazer com as torcidas de estrangeiros loucos que lotam a Sanlintun para comemorar as vitórias de seus países. Os policiais ficam em volta, olhando, sem entender direito se o que está acontecendo é uma briga ou uma festa. E isso não acontece apenas com os bagunceiros brasileiros: holandeses, alemães, americanos, o mundo todo desafia a compreensão dos policiais chineses com gritos de guerra e bandeiras tremulantes.)

Sábado à noite, véspera do encerramento da Olimpíada. Não tive opção a não ser terminar a noite na casa noturna mais famosa de Pequim, o China Doll (conhecido entre nós, chineses, como Zhongguo Wa Wa). Uma versão ampliada do clube Suzie Wong, o China Doll parecia uma festa de encerramento informal dos Jogos de Pequim. Quando você assistir ao desfile de encerramento, pode ter certeza de que muitos ali estarão numa ressaca brava. A gente costuma ver esses deuses olímpicos em ação, concentrados e supersérios, e se esquece de que eles são pessoas normais. Nunca imaginei que atletas olímpicos tinham uma vida social fora das quadras, nem que gostavam de dançar loucamente e festejar como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. Metaforicamente, talvez o fim da Olimpíada seja mesmo uma espécie de fim do mundo.

Lembra que na noite anterior eu fiquei empolgado por segurar uma medalha de ouro nas mãos? Pois isso no China Doll virou carne de vaca. Pude pegar nas mãos não tantas medalhas de ouro, prata e bronze que nem me lembro mais quem eram os atletas. Em uma balada freqüentada quase exclusivamente por atletas olímpicos, aliás, temos que admitir que uma medalha no peito é uma excelente forma de, digamos, 'valorizar o seu passe'. E foi isso que aconteceu no China Doll: atletas usaram e abusaram das medalhas como forma de xaveco olímpico. Os jogadores do time de hockey da Espanha, por exemplo, exibiam as medalhas no peito e esperavam sentados pela fila de mulheres que estavam lá para cumprimentá-los. Não sei se os atletas americanos que estavam no China Doll eram todos vencedores, mas a maioria deles preferiu atrair as mulheres com outro tipo de ornamento precioso: gigantescos anéis e colares de brilhantes. Uma ostentação desnecessária e tipicamente americana. Mas como nem todas as atletas ligam para esse tipo de coisa, acho que o time da Espanha se deu melhor. Não existe xaveco olímpico melhor do que uma medalha no peito.

 


23.08.08

Link permanente O amor pela China (e pelos inferninhos chineses)
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China, Medalhas, Yin e Yang s 04:44:31.

Como é que se diz 'eu vou levar meu amor pela China para meus amigos' em chinês?

Dia 21

Ai, o verão na China... Época de calor sufocante, perninhas de fora e cabelos ao vento, incontroláveis diante das fortes brisas vindas do mar...

Ops, volta a fita. A única coisa que nos lembra de que é verão em Pequim é o calor úmido e grudento de quase 40°C, o resto é uma imagem construída na nossa cabeça ocidental. As chinesas não gostam muito de exibir as pernas, pelo menos pelo que tenho visto pelas ruas. Na verdade, elas não gostam de exibir ao sol nenhuma parte da pele, pois aqui a brancura é que é sinônimo de beleza. Ficar morenaça depois de horas torrando debaixo do sol vestindo apenas um biquíni fio dental pode ser encarado mais como tortura do que como benefício estético. As chinesas gostam tanto de ficar branquinhas como porcelana que usam até umas luvas compridonas para cobrir os braços e não deixá-los expostos aos raios solares. Com o cabelo é a mesma coisa: dificilmente você vai ver uma chinesa de cabelão comprido e selvagem solto durante o dia. E quanto à brisa do mar, claro: não há mar em Pequim.

É claro que isso não impede as chinesas (e chineses) de curtir o verão. O amor à estação mais quente do ano levou inclusive o imperador Wan Yanliang (que não era besta, nem nada) a construir o Palácio de Verão ao pé da Montanha da Longevidade, norte de Pequim. Os imperadores que vieram depois gostaram da história e foram acrescentando pequenos detalhes à obra: um grande lago, jardins espetaculares, mais palácios... Hoje o Palácio de Verão é um complexo turístico maravilhoso, tão imperdível quanto a Cidade Proibida ou a Praça da Paz Celestial.

É um passeio que dura o dia inteiro – e você nem vê o tempo passar. O mais gostoso é se deixar perder pelos jardins e caminhar sem compromisso, olhando a paisagem e parando de vez em quando para pegar carona nos barquinhos em formato de dragão que transportam os turistas entre as várias ilhas do parque.

No Palácio de Verão aconteceram duas coisas que me marcaram, coisas bobas até, mas que dão mais uma vez a dimensão do orgulho que os chineses estão sentido por receber o mundo inteiro para a Olimpíada. Ao final do passeio, ao perceber que seria difícil conseguir um táxi para voltar para o hotel, decidi almoçar por lá mesmo, numa pequena cantina abarrotada de turistas. Cheguei ao balcão e pedi: Qing Wo Yao Yi Gan Pi Za, (não tenho certeza, mas acho que é assim que se escreve 'por favor, eu quero uma pizza'). Quando sentei, notei que um velhinho na mesa ao lado estava me encarando. Não estou falando de um velhinho qualquer, mas de um daqueles chinesinhos típicos, com o rosto todo enrugado e um penteado estilo Fu Manchu com um tufo do cabelo preso no topo da cabeça. Ele ficou sorrindo para mim, até que respondi: Ni Hao, Shifu (Olá, mestre). Ele começou a falar em chinês, imaginando que eu entenderia alguma coisa. Claro que não entendi nada, e soltei logo um Wo Bu Zhidao (eu não sei). Ele começou a falar em inglês 'Fico feliz que você saiba falar chinês. Bem-vindo à China, hoje nós somos todos amigos.' Ele estava errado porque eu não sei falar chinês, mas mesmo assim puxei papo e perguntei onde ele havia aprendido a falar inglês tão bem, já que é difícil encontrar pessoas com mais de 25 que saibam um segundo idioma – a não ser russo, que era ensinado nas escolas públicas durante os tempos áureos da amizade comunista entre China e Rússia. Ele respondeu que tinha aprendido na universidade, em uma outra província. E ficou nisso. Quando me levantei, ele disse numa voz rouca e fraquinha. 'Quando voltar para o seu país, leve seu amor pela China para seus amigos.' Agradeci e fui embora, emocionado.

Do lado de fora, a velha dificuldade para arranjar um táxi. O Palácio de Verão fica cerca de 45 minutos do centro de Pequim, por isso muitos motoristas simplesmente se recusam a te levar – muito menos aparecer por lá do nada para pegar passageiros. Eu e um casalzinho de adolescentes chineses teríamos que disputar no braço o primeiro táxi que aparecesse – se aparecesse algum, claro. Eu já estava até pensando em pegar um ônibus que passava com certa freqüência, mas fiquei com medo de não entender o destino e acabar indo parar ainda mais longe do hotel. Então, apareceu um táxi.

O maldito casalzinho estava lá antes de mim, por isso não tive como empurrá-los no chão e entrar no táxi à força. Eles viram o meu desespero, já que eu teria que ficar pelo menos uns 45 minutos ali em pé, esperando o próximo táxi. Mas não tinha jeito. O casalzinho entrou no carro e eu fiquei do lado de fora, com cara de cachorro magro. Foi aí que veio a surpresa: eles abriram a porta e me convidaram para entrar. Nenhum dos dois falava inglês e eu não falo chinês, mas dava para ver que eles queriam saber para onde eu ia. Liguei para o hotel e passei o celular para o motorista, hábito de 11 entre 10 estrangeiros na China. A recepcionista explicou o endereço e lá fomos nós, todos juntos, de volta ao centro da cidade. O táxi me deixou na porta do hotel e, claro, fiz questão de pagar a corrida. Eles sorriram e agradeceram. Fiquei com vontade de dizer ‘podem ter certeza de que eu vou levar o meu amor pela China para os meus amigos’, mas eu não sabia como dizer isso em chinês.

Posso garantir que já conheço razoavelmente a noite de Pequim, mas confesso que ainda não tinha ido à região de Chaoyang Park, onde as baladas são praticamente para estrangeiros e onde os chineses são minoria. Nada melhor do que uma sexta-feira à noite para consertar essa falha no meu currículo de chinês por um mês. Comecei a noite no Souk, um barzinho com clima de lounge árabe, mesas ao ar livre e telão de plasma exibindo a Olimpíada, onde tive a tristeza de ver o time de basquete americano vencer a Argentina por 101 a 81. Dois Dry Martinis depois, caminhei alguns passos e entrei no clube mais VIP de Pequim, The World of Suzie Wong Club, boate de três andares batizada em homenagem àquele filme dos anos 60 estrelado pelo William Holden.

Para os padrões chineses, até que a entrada é bem cara: 200 RMB, cerca de R$ 50. Esse clima exclusivo faz de o lugar favorito das celebridades, dos chineses descolados e dos estrangeiros endinheirados (não é meu caso, mas fui obrigado a passar a noite no Suzie Wong para poder contar a você como é o lugar).

Ver chineses e holandeses dançando loucamente ao som de Shakira me deu mais uma vez a sensação de que o mundo está cada vez menor e mais parecido. O poeta inglês Rudyard Kipling disse no início do século 20 que o ocidente e o oriente nunca se encontrariam. Se ele estivesse vivo no início do século 21 e visitasse a China, tenho certeza de que sua opinião seria diferente.

Vou tentar explicar o estilo do Suzie Wong: Sabe aqueles filmes sobre a guerra do Vietnã onde soldados americanos faziam a festa com garotas orientais em inferninhos vietnamitas? Agora imagine isso acontecendo dentro da Daslu. O Suzie Wong é mais ou menos assim.

É fácil entender então por que o lugar atrai tantos estrangeiros. Nessa época de Olimpíada esse número se multiplicou: como a maioria dos atletas já encerrou sua participação, dá a impressão de que a Vila Olímpica se mudou no fim de semana para o Suzie Wong.

Numa hora em que fui ao banheiro, vi um grupinho de caras altões e fortões conversando numa rodinha, como se estivessem discutindo um segredo. Como sou só um pouquinho curioso, me juntei a eles para descobrir o que estava acontecendo. Eles me olharam com uma cara meio estranha, do tipo 'de onde saiu esse cara?', mas daí eu explique que era jornalista, brasileiro, 'football, football...', e eles ficaram mais relaxados. Perguntei então qual era o assunto secreto daquela rodinha, e um dos altões tirou um negócio do bolso e me mostrou: era uma medalha de ouro da Olimpíada.

Fiquei de boca aberta, pois estava diante do campeão olímpico em remo em duplas, o australiano Duncan Free. Não que eu conhecesse, mas o cara é melhor do mundo em alguma coisa e a gente tem que tirar o chapéu para isso. Duncan (olha a intimidade) ofereceu a medalha e eu a segurei nas mãos. Ela é pesadinha e um pouco maior do que eu imaginava. Não sei por que, mas fiquei com vontade de mordê-la. Não fiz isso, por respeito ao Duncan e porque não tinha a menor intenção de provocar um campeão de remo de dois metros de altura. Mas foi uma sensação incrível ter aquele objeto tão famoso e desejado nas mãos, um simples círculo de metal que representa tanto para tantas pessoas. Cumprimentei o cara, fui até o bar e pedi mais um Dry Martini em homenagem aos deuses olímpicos. Ao contrário de mim, quando voltar para a Austrália Duncan Free não vai levar para casa apenas o seu amor pela China.

 


Link permanente O manual de etiqueta olímpica e a mídia
por Felipe Machado, Seção: Medalhas, Pequeno Post Vermelho s 04:37:54.

A cobertura da Olimpíada pela mídia americana está ficando cada vez mais patética. Antes dos Jogos começarem, a CNN fez piada com o manual de boas maneiras distribuído pelo Comitê Olímpico Chinês, que traz recomendações como a proibição de se cuspir na rua e a sugestão para os taxistas evitarem comer alho em excesso. Os âncoras da CNN leram o manual no ar e morreram de rir, o que eu achei uma grande falta de respeito. Ora, é claro que eu também acho cuspir na rua esquisito, mas daí a uma emissora internacional zombar de costumes locais que estão sendo evitados justamente para receber melhor os turistas vai uma longa distância. Se os Estados Unidos fossem sediar uma Olimpíada, talvez as recomendações do manual americano atualmente fossem outras: 'não entre na escola com uma metralhadora para assassinar seus colegas durantes os Jogos Olímpicos', 'não seja preconceituoso ou racista com os atletas estrangeiros, 'tente fingir que sabe onde ficam os outros países no mapa', etc.

(Parênteses: Se a Olimpíada de 2016 for no Brasil, nosso manual terá que recomendar pelo menos dez mudanças nos hábitos do dia-a-dia:

1. Os criminosos estão proibidos de fazer arrastões ou assaltar turistas nos faróis.
2. As torcidas organizadas estão proibidas de espancar integrantes de torcidas rivais.
3. Os taxistas estão proibidos de enganar os turistas.
4. É proibido depredar e pichar os estádios olímpicos.
5. É proibido ao MST e outros movimentos sociais invadirem e ocuparem a Vila Olímpica.
6. A comunidade carcerária e organizações criminosas estão proibidas de fazer rebeliões.
7. Evite ser filmado pedindo propina ao comitê olímpico ou a delegações internacionais.
8. É proibido torturar e matar traficantes rivais. Aliás, é proibido traficar drogas.
9. É proibido levar turistas a casas de prostituição infantil.
10. A dança do Créu será proibida na frente de turistas europeus cardíacos.

E por aí vai.)

Voltando à mídia americana, agora a CNN está querendo minimizar o fracasso dos atletas americanos diante dos chineses e já começou a dizer que 'a China está liderando a competição segundo o critério do número de medalhas de ouro, mas os Estados Unidos estão vencendo no número total de medalhas'. Peraí, o ranking sempre foi feito pelo número de medalhas de ouro, pelo que eu saiba. O campeão da Olimpíada é o 'país que tem os melhores atletas', e não 'o país que tem mais atletas bons'. Daqui a pouco, é capaz da CNN começar uma campanha 'o que vale é o espírito olímpico, então o país que tiver o maior número de medalhas de bronze é o vencedor' ou alguma outra história para boi dormir.

 


22.08.08

Link permanente Beijing Beijing, Niao Tiao
por Felipe Machado, Seção: Medalhas s 02:34:42.

Como é que se diz 'o cara mais rápido do mundo' em chinês?

Dia 20

Odeio gente que insiste em contar seus sonhos para os outros. Esses delírios nunca fazem sentido algum e são divertidos apenas para quem os sonhou, nunca para quem está ouvindo a história. É por isso que vou resumir o sonho que tive essa noite.

Alguns dias depois que cheguei no Brasil, minha família, meus amigos e eu alugamos (ou compramos, sei lá, em sonho tudo é possível) um avião e voltamos para a China. Meu pai foi escolhido para ser o piloto. 'Ué, mas você sabe pilotar avião?', eu perguntei, num lapso de lógica raro nos sonhos. 'Não. Mas sua filha me ajuda', ele disse, com segurança. Minha filha tem dois anos.

Durante o vôo, uma festa daquelas. Uma banda tocando ao vivo dentro avião, luzes estroboscópicas, drinques para todo mundo. E todo mundo ansioso para ver os lugares sobre os quais eu tinha falado com tanta animação no último mês. Pena que o despertador tocou no momento em que o avião pousou no Aeroporto do Dragão, em Pequim. Será que é possível retomar um sonho de onde ele parou?

De volta à realidade. Chegou a vez de mais um dia olímpico, e desta vez bastante especial: era minha 'estréia' no Estádio Nacional, o famoso Ninho de Pássaros, projeto da dupla suíça Herzog e De Meuron e principal obra do Bairro Olímpico. Aqui, os chineses chamam o estádio de Niao Qiao, que se pronuncia 'Niao Tiao'. É engraçado, porque isso soa como se eles estivessem falando: 'tchau, tchau'. Como sou distraído, acabo pensando que as pessoas estão indo embora e também me despeço. Eles não entendem nada.

(Parênteses: Lembra da sigla BRIC, usada por economistas para designar o bloco de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China? Pois eu acho que é um otimismo irreal incluir o 'C' nessa mesma turma. A China merece uma categoria à parte. É só imaginar o dinheiro que eles gastaram com infra-estrutura para sediar essa Olimpíada, algo impensável para países como Brasil, Rússia ou Índia. Eles reconstruíram a cidade de Pequim em sete anos, e não estou falando apenas do aeroporto ou dos novos estádios e arranha-céus erguidos especialmente para receber os atletas e turistas do mundo inteiro. Todas as ruas foram recapeadas, o metrô foi absurdamente ampliado, as pontes foram praticamente reerguidas. No Brasil, para fazer um mísero quilômetro de metrô a gente demora anos e a obra ainda cai na nossa cabeça.)

Com competições decisivas em várias modalidades do atletismo, a noite tinha tudo para ser uma das grandes da Olimpíada. Pena que a lesão do ídolo chinês Liu Xiang tirou um pouco da animação chinesa. Ao lado do jogador de basquete Yao Ming, Liu Xiang é o maior ídolo chinês desta Olimpíada – pelo menos em número de campanhas publicitárias. Liu Xiang sofreu uma lesão no calcanhar de Aquiles (até o machucado teve um toque olímpico, percebeu?) e ficou de fora da tão esperada final de 110 metros com barreiras, prova que o cubano Dayron Robles venceu com facilidade.

A ausência de Liu Xiang, no entanto, não reduziu em mim o impacto de entrar no Ninho (olha a intimidade) pela primeira vez. O estádio é lindo à noite, vermelho e cheio de luzes estrategicamente espalhadas na estrutura. O Bairro Olímpico inteiro é lindo à noite, aliás: a torre de TV da CCTV muda de cores, assim como o Cubo Aquático da natação. A gente fica perdido com tanta coisa para olhar. Mas o Ninho de Pássaros é o meu favorito. Ele tem um aparente caos estrutural, com toneladas de aço unidas de maneira (aparentemente, claro) aleatória, quase como se um gigante tivesse jogado barras de ferro em um terreno baldio e construído um gramado no centro dessa bagunça.

Claro que isso é modo de falar, porque de bagunça o estádio não tem nada. É limpo, lindo, organizado, moderno. Nas arquibancadas mais afastadas (não era o meu caso, felizmente) foram instaladas telas de plasma para o público acompanhar os detalhes das provas.

(Parênteses: Fico imaginando quanto tempo essas telas durariam no Brasil após uma derrota do Corinthians para o Palmeiras, por exemplo. Ou em qualquer outro jogo de futebol, para falar a verdade. Isso, claro, se algum malandro não levasse os aparelhos pra casa. 'Aê, mano, vou levar esse computador bem loco para casa, tá ligado?')

Eu fiquei bem perto da pista de atletismo, tão perto que conseguia até sentir o cheiro de suor dos atletas (o que não é necessariamente uma coisa boa. E talvez seja um exagero meu. Não, com certeza é um exagero). Logo na entrada, a primeira impressão foi a mesma que tive quando entrei para assistir às provas de ginástica olímpica, ou seja, que tem um monte de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Olhando para a esquerda, vi a disputa de arremesso de dardo feminino; à direita, o salto em altura masculino; as provas de corrida acontecendo em volta do gramado. Só achei que faltou um semáforo, para facilitar a vida dos atletas. Alguns deles cruzavam a pista de atletismo sem olhar para os dois lados, o que poderia ter terminado em atropelamento. E seria difícil correr atrás e pegar quem atropelou.

Esses esportes olímpicos tradicionais são bem legais de se assistir ao vivo. Mas como eu estava bem perto das atletas, confesso que fiquei com um pouco de medo do arremesso de dardo. Isso porque começou uma garoa fina pouco antes da final da competição. E daí fiquei imaginando: 'chuvinha fraca, esse dardo pode escapar da mão dela'... Imagina se uma russa como a Maria Abakumova, cujo braço direito é do tamanho das minhas duas coxas juntas, escorrega e arremessa o dardo na direção da platéia? Ia fazer um estrago.

Fiquei tão empolgado com o atletismo que pensei em começar a me dedicar a uma das categorias. Como sou meio ansioso, pensei nos 100 metros, prova que acaba em poucos segundos e dá para ir para casa rapidinho. Mas nessa prova a gente tem que correr muito rápido, e isso não é para mim. Pensei então na maratona, que dá para correr mais na boa. Mas aí demora e cansa muito, afinal são 42 quilômetros. Difícil escolher. Acho que vou tentar combinar as duas provas: vou correr 100 metros de distância numa velocidade de maratona. Será que esse esporte pega?

(Parênteses: Descobri a origem de duas modalidades do atletismo: O salto triplo foi inventado no Pantanal por fazendeiros que tinham que cruzar rapidamente um rio pisando em cabeças de jacarés; o salto em altura foi inventado por um cara que morava numa casa de muros altos, chegou da balada de madrugada e esqueceu a chave.)

Uma coisa me deixou particularmente feliz: a entrega das medalhas dos 200 metros, prova que aconteceu um dia antes. Pude ver de perto o jamaicano Usain Bolt, um personagem olímpico que achei mais interessante que o Michael Phelps. Ele não apenas quebrou os dois recordes mundiais mais incríveis da Olimpíada (9.69 nos 100m e 19.30 nos 200m), como nos 100 metros ele ainda olhou para os lados e bateu no peito antes de vencer a prova. Queria ver se o Phelps teria coragem de dar uma cambalhota embaixo d’água antes da chegada.

Usain Bolt é impressionantemente alto e forte, o tipo de cara com quem você não gostaria de trocar palavras, digamos, mais ásperas. Para se ter uma idéia de como ele é rápido, aquela câmera de TV por controle remoto que corre nos trilhos ao lado da pista teve que suar para acompanhá-lo.

Bolt tem um sorriso arrogante e sarcástico, do tipo 'sim, eu sei que sou o melhor'. Bem, ele é, o que me obriga a perdoá-lo. Como diria o Zagalo, o mundo tem que enguli-lo. Ver o Bolt recebendo a medalha de ouro ao vivo foi ainda mais legal porque os alto-falantes do estádio tocaram Happy birthday to you em homenagem ao aniversário dele: ontem o cara fez 22 anos. Ao ganhar a medalha de ouro, Bolt fez aquela pose característica, como se estivesse apontando um arco e flecha para o céu. Vou guardar essa imagem para sempre como uma foto impressa no meu cérebro: a noite em que vi um simples homem se tornar uma lenda.

(Parênteses: O Jadel Gregório não foi bem no salto triplo e terminou sem medalha. Por que será que o Brasil está indo tão mal nessa Olimpíada? E no atletismo, por que será que não temos mais atletas de primeiro nível? Ouvi o hino da Jamaica tantas vezes que até decorei a melodia. Aliás, o que a Jamaica, Etiópia, Trinidad & Tobago e Quênia têm que nós não temos? Pobreza, pelo visto, não impede nenhum país de ser potência olímpica. O que falta é vontade, seriedade, profissionalismo, investimento. É ridículo que um país com 200 milhões de pessoas não possa produzir meia-dúzia de atletas de nível olímpico. Acho que o governo implantou o programa ‘Medalha Zero’ e não nos avisou.)

As garotas que correram a Marcha Olímpica também receberam medalhas nessa noite. Lembra da Marcha Olímpica? É aquela maratona em que os atletas parecem estar rebolando. A regra não permite que eles tirem os pés do chão, algo assim. Peraí, uma corrida em que as garotas rebolam durante 20 quilômetros? E como é que a Olga Kaniskina, uma russinha magricela, levou a medalha de ouro? Se a gente tivesse inscrito alguma dançarina do Créu, o Brasil teria alguma chance. Onde está a Mulher Melancia quando o país precisa dela?

Tudo bem, tudo bem. Fica para a próxima. Ganhar uma medalha olímpica deve ser muito legal. Apesar de não ser atleta, eu adoraria levar uma para casa. Pena que não encontrei nenhuma para vender no Mercado da Seda.

 


21.08.08

Link permanente Um mundo, um preço
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China s 03:01:28.

Logo, por Nilton Fukuda/AE

Dia 19

Fazer compras no Mercado da Seda é uma experiência que provoca sentimentos conflitantes. Por um lado, o local é um portal para um universo consumista que oferece os objetos mais variados e desejados do planeta a preços bastante acessíveis. Por outro, é um exercício de paciência que esgota física e mentalmente em pouquíssimo tempo.

Há quem acuse o Mercado da Seda de ser um ponto de contrabando; outros dizem que é o paraíso dos produtos falsificados. É um pouco dos dois, eu diria. Graças à corrupção nas linhas de montagens chinesas, há muitos produtos que vão parar lá devido a 'sobras' na produção das fábricas locais contratadas por clientes internacionais. Por outro, há, sim, produtos totalmente falsificados que não resistem a uma segunda leitura. "Por que será que esse tênis Nike veio escrito com a letra 'M'?" é um tipo de pergunta que intriga os freqüentadores do Mercado da Seda, vorazes consumidores que lotam o lugar como urubus à procura de carniça. E o movimento fica ainda mais intenso em tempos de Olimpíada: os russos, por exemplo, foram fazer compras com o ônibus oficial da delegação.

(Parênteses: Não pensem, no entanto, que são só os russos que aproveitam as ofertas do 'Silk Market'. Na verdade, os russos têm seu próprio mercado negro, ali perto, onde sacoleiros de outros países são proibidos de entrar. A corrupção está tão entranhada no estilo de vida da Rússia que não consegue ficar restrita nem às superlativas fronteiras do país.)

Há também muitos turistas dos Estados Unidos no Mercado da Seda, apesar das empresas americanas reclamarem que a China não respeita o copyright e o direito de imagem das marcas. Não respeita mesmo. O que há hoje é uma pseudofiscalização em que os vendedores fingem que têm medo dos fiscais e os fiscais fingem que não ganham nenhum dinheirinho por fora (você se lembrou de algum outro país?). Segundo um amigo meu, deixar o Mercado da Seda correr solto ao lado da embaixada dos Estados Unidos é a maior piada que os chineses poderiam ter feito com os americanos.

Veja só o caso dos produtos da Louis Vuitton, por exemplo: eles não ficam expostos nas lojinhas, mas as vendedoras (todas falam inglês e algumas arriscam russo, espanhol e até português) exibem catálogos atualizados e com fotos, e mandam buscar as bolsas e carteiras escolhidas pelos clientes. Dependendo da qualidade e da negociação, uma bolsa pode custar de 300 a 1.500 RMB (entre R$ 75 a R$ 375). Poucas garotas e garotos chineses armados apenas com um rádio são os 'temíveis' guardiães desse enorme prédio de seis andares e milhares de metros quadrados. Ou seja, é fiscalização para americano não ver.

Mas se a coisa é tão tranqüila assim, por que é preciso tanta paciência para fazer compras no Mercado da Seda? Bem, em primeiro lugar porque as vendedoras arrastam literalmente você para dentro das lojas. Não é modo de falar, não: eu me senti o cara mais bonito do mundo depois de ter sido chamado de Mr. Handsome e agarrado por mais de vinte chinesas em apenas meia hora de passeio.

Dou uma dica se você for ao Mercado da Seda: não pergunte o preço de nenhum objeto se não estiver disposto a comprá-lo. A vendedora não vai deixá-lo em paz enquanto vocês não chegarem a um acordo sobre o valor. Isso significa que um objeto de 1.000 RMB pode sair por 10 RMB se você estiver disposto a perder metade do seu dia. Pechinchar é um esporte chinês tão típico quanto o ping-pong.

Justamente por não ter paciência para esse joguinho psicológico que não fui um cliente muito bom para as chinesas. Metade do tempo que eu estava por lá, aliás, passei assistindo a um clássico da pechincha mundial: uma cliente árabe negociando com uma vendedora chinesa. As duas mulheres arrancando o produto uma das mãos da outra é uma cena que nunca mais esquecerei. Se pechincha fosse um esporte olímpico, esses dois países praticantes da pechincha-arte estariam brigando centavo a centavo pela medalha de ouro.

Saindo de lá fui visitar um amigo meu, brasileiro, que mora na China há quase uma década. Bem sucedido executivo do ramo de energia, ele é um belo exemplo da pujança financeira que inunda o país desde a abertura econômica. No início dos anos 2000, ele foi convidado para trabalhar na China como funcionário de uma empresa européia de tecnologia. Em 2005, por razões que não vêm ao caso, acabou saindo para se tornar CEO de uma empresa que ainda estava começando. No início, sua equipe tinha apenas três funcionários. Hoje a Suzlon Energy tem uma sede no sofisticado CBD (Distrito Central de Negócios), uma fábrica própria e mais de 1.300 funcionários espalhados por toda a China. Apenas um pequeno exemplo de como a explosão chinesa não tem precedentes na economia moderna.

Jantei com ele e sua mulher – uma ex-colega minha dos tempos da escola – na humilde residência do casal, uma casa de quatro andares decorada com móveis chineses em um condomínio internacional de Pequim, a uns 25 quilômetros do centro. Ali, arroz, feijão e um churrasco de picanha de vez em quando não são obsessões de brasileiros com saudades da terra natal. São pequenos luxos do dia-a-dia, simples detalhes que contribuem para transformar Pequim em uma cidade cada vez mais cosmopolita.

Ao falar sobre a sua vida aqui, minha amiga sem querer me deu uma aula de como a globalização pode ajudar a melhorar o mundo, se a gente esquecer por um minuto que nesse processo há pessoas interessadas apenas em ganhar, ganhar, ganhar. Ela e uma amiga, ambas fotógrafas, produzem todo ano um calendário com fotos de cenas chinesas para vender para os amigos estrangeiros. O dinheiro arrecadado vai para a Half The Sky, ONG que acolhe órfãos, constrói escolas e treina professores chineses. Sem obrigação nenhuma, uma brasileira e uma australiana ajudam as crianças do país onde vivem, sem preocupação com a nacionalidade de nenhum dos envolvidos. O que prova que, para algumas pessoas, Um Mundo, um Sonho pode ser muito mais que um simples slogan olímpico.

 


20.08.08

Link permanente Cenas da China, parte 3
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China, Medalhas s 13:41:39.

Uma imagem vale mais que mil palavras? Ou é o contrário? De qualquer maneira, as imagens de Nilton Fukuda valem muito. E aqui estão mais algumas para você curtir.

Mao de ouro, Nilton Fukuda/AE

Mao Tse-Tung se reviraria no túmulo se soubesse que virou objeto kitsch para turista americano ver

Grilo, por Nilton Fukuda/AE

'Rinha' de insetos: Vai um grilinho aí?

Cielo, por Nilton Fukuda/AE

César Cielo passeia pela Cidade Proibida: "Quem é esse cara? Não sei, mas ele está com uma medalha de ouro."

Jornal, por Nilton Fukuda/AE

Será que se eu olhar bem de perto eu consigo ver as notícias de verdade, e não as versões oficiais?

 


Link permanente Um belo dia que terminou mal
por Felipe Machado, Seção: Comida chinesa, República Pop da China, Medalhas, Isso é chinês pra mim s 02:08:42.

Dia 18

Como é que se diz 'futebolzinho ridículo' em chinês?

Um dia que começa com uma manhã ensolarada e uma bela caminhada em um parque lindo como o Beihai não pode terminar mal. Mas aconteceu justamente o contrário, o que prova que, como diria algum filósofo chinês, 'uma coisa não tem nada a ver com a outra'.

Beihai é o parque mais popular de Pequim e fica pertinho do portão norte da Cidade Proibida. Era lá que as dinastias chinesas andariam de pedalinho, se existissem tantos pedalinhos mil anos atrás quanto existem hoje. Chegamos pouco antes da hora do almoço, mas nos disseram que o melhor horário para freqüentar o Beihai era pela manhã, cedinho, para assistir aos velhinhos praticando Tai Chi Chuan. Eles fazem isso em todos os parques, mas dizem que no Beihai se reúne um verdadeiro exército de senhores e senhoras preocupados com a mente e o corpo. Poderiam até servir de exemplo para os nossos velhinhos – se os nossos velhinhos não tivessem que se preocupar em não ser assaltados toda vez que entram em um parque. Isso não aconteceria por aqui por várias razões: não há violência, os idosos são respeitados e, se as duas outras razões falharem, os velhinhos se juntam e dão um pau nos ladrões.

Uma caminhada sempre abre o apetite e, seguindo meu conselho, pedimos à nossa tradutora que nos recomendasse um bom restaurante de comida típica de Taiwan. Tentei reproduzir o sabor do meu almoço do último domingo, mas fiquei decepcionado ao ver que o cardápio do Café Bellagio (Taiwan é meio metida a ocidental, não liga não) não tinha nada a ver com os deliciosos frutos do mar que eu havia provado. O restaurante só valeu pela sobremesa, não que eu tivesse coragem de experimentar (eu não tive), mas porque foi a coisa mais esquisita que eu vi sobre uma mesa de restaurante chinês desde que cheguei. Imagine um sundae de chocolate em formato de pirâmide; agora imagine que, em vez de chocolate, o recheio é feito com feijões e outros ingredientes que fiquei com medo de perguntar. Era isso mesmo: uma raspadinha de feijão em formato de cone com 30 cm de altura. Só não era mais horrível porque era gelado, e por isso não tinha aquele cheiro de óleo de banha de porco típico da comida chinesa. Resumindo, esse restaurante de Taiwan não era exatamente ruim, mas comparado com o que fui no domingo foi uma decepção. A primeira do dia, eu diria.

Ah, nada como uma voltinha pela rua Wangfujing para esquecer um almoço esquisito. Aproveitei para fazer uma coisa que queria fazer há tempos: entrar numa loja de CDs e conhecer um pouco mais da música pop da China.

Alguns aparelhos permitiam uma degustação dos últimos lançamentos da música chinesa. Foi ali que ouvi uma música bonitinha da cantora Jade, vencedora de uma espécie de 'American Idol' daqui (não, o programa não se chama 'Chinese Idol'). Dando uma volta pela loja, percebi que, apesar de desconhecida no ocidente, a música chinesa produz milhares de artistas dos estilos mais variados, do erudito ao emo (sim, há chineses emo e são iguaizinhos aos nossos, com exceção dos olhos puxados). Esses artistas praticamente dominam as prateleiras dessa loja, deixando para os cantinhos escuros as Celine Dion e Britney Spears da vida. Interessado em comprar algum CD, procurei um vendedor moderninho e perguntei quem seria, sei lá, o Radiohead da China. Ele olhou para mim e fez uma careta. 'O que é Radiohead?'. Se eu quiser saber alguma coisa sobre música chinesa, vou ter que perguntar para a minha tradutora.

Foi também na Wangfujing que começou a minha odisséia (mais uma) para assistir ao jogo Brasil X Argentina, que começava às 21h. Fiquei sabendo que em um hotel americano havia a chance de conseguir comprar ingressos, já que as agências de turismo americanas enviariam para lá o que sobrasse na última hora em seus estoques. Foi em vão: o americano disse que não sabia por que, mas esses ingressos haviam se esgotado rapidamente. Como ele era americano, não fiquei surpreso. Mas qualquer um que goste um pouquinho de esporte saberia que Brasil X Argentina numa semifinal olímpica de futebol em Pequim não é um joguinho que acontece todo dia.

Como a Wangfujing é cheia de turistas, comecei a abordar brasileiros para saber se havia algum ingresso sobrando. É claro que não havia. Expliquei meu desespero, mas não adiantou. Brasileiro é um bicho meio desconfiado, ainda mais quando encontra outro brasileiro no exterior. Devem ter me olhado e achado que eu tinha cara de cambista.

Só me restou uma alternativa: ir para a porta do Estádio dos Trabalhadores para tentar dar um jeito por lá. Fiquei surpreso com o número de chineses tentando vender ingressos nas redondezas, mas não me pareceram cambistas de verdade, daqueles 'profissionais' que estamos acostumados a ver no Brasil e que chegam a oferecer ingressos VIP em setores variados do estádio. Aqui parecia mais que eram uns pobretões sonhando em ganhar uma graninha, às vezes com um único ingresso na mão.

O 'meu' cambista era um chinês que não falava uma palavra de inglês. Sorte que ele tinha uma calculadora nas mãos e podíamos disputar o aparelho e digitar os preços durante a negociação.

O cambista deu o pontapé inicial com 1.500 RMB, cerca de R$ 375. Foi tocando, tranquilamente, levando a proposta até o meio de campo. Foi quando eu recuperei a bola e chutei 500 RMB de bate-pronto. Percebi que a defesa dele sentiu o golpe, mas reagiu rapidamente e lançou o contra-ataque: 1.000 RMB. Agora a bola estava comigo. Roubei a calculadora da mão dele e coloquei no ângulo: 700 RMB. Ele respirou fundo e viu que não havia tempo para prorrogação ou disputa de pênaltis. O juiz apitou o fim do jogo e o ingresso era meu por R$ 175. Foi caro, mas quando eu teria a chance de ver um Brasil e Argentina histórico como este?

Dentro do estádio, comprei uma binde pijiu para comemorar. Parecia impossível, mas lá estava eu, subindo as escadas em direção à arquibancada para ver o jogo que levaria o Brasil para o inédito ouro olímpico. Só faltava combinar com os argentinos.

Havia um clima estranho no ar, mas só fui me dar conta disso mais tarde. Normalmente, a gente acha que todas as torcidas têm a 'obrigação' de torcer para o Brasil, pois somos os reis do futebol-arte, os pentacampeões do mundo, etc. Pelo menos era essa idéia que eu tinha quando assistia às transmissões de futebol da Globo na TV. Mas na vida real foi bem diferente: o Estádio dos Trabalhadores estava totalmente dividido, com muitos chineses vestindo amarelinhas de Ronaldinho e branquinhas e azuizinhas do maior craque da atualidade, Lionel Messi.

Sentei no meu lugar, e tive que agradecer ao meu cambista chinês: a vista era espetacular. Faltava uma hora para o começo do jogo e estava tudo perfeito. Só faltava o Brasil jogar, o não chegou a acontecer.

Não vou entrar no mérito do jogo porque os comentaristas esportivos brasileiros vão perder tempo falando semanas sobre isso. Mas que o Ronaldinho estava lento e o Diego não soube distribuir o jogo desde o início não precisa ser nenhum freqüentador de mesa-redonda para afirmar. A Argentina foi rápida, objetiva, talentosa. A Seleção Brasileira estava jogando no fuso horário do Brasil: o time estava tão sonolento que parecia que os caras tinham acabado de acordar.

(Parênteses: Um jogo rápido sobre a partida: O Ronaldinho está a cara (e o corpo) da tenista Serena Williams, apesar das pernas dela serem mais grossas; Antes de começar a partida houve uma apresentação de cheerleaders masculinos lutando Kung-Fu; Em vez de gritar o já tradicional Zhangguo Jia You (Força, China), a torcida se uniu numa só voz para protestar com Xia Ke Xie Ya Long, algo como 'O futebol chinês é uma droga'; Impensável no Brasil: o público não vaiou o número de pagantes do jogo, 52.968. Até eu acreditei; O Pato foi aplaudido pelos chineses, mas não porque jogou bem: ele saiu na capa de uma revista de futebol daqui fazendo o sinal de um coração e os chineses acharam isso ‘bonitinho’; o Kobe Bryant, da seleção de basquete dos Estados Unidos, estava no estádio e fez mais sucesso que o Maradona.)

Depois do jogo, o público foi todo para a Sanlitun, rua cheia de barzinhos pertinho do estádio. E foi assim durante toda a madrugada: brasileiros cantando que são 'brasileiros com muito orgulho, com muito amor', etc. A maioria vestia a camisa da Seleção e aquelas perucas ridículas que eles adoram exibir na TV. Não sei por que estavam com tanta saudade do Brasil, já que muitos tinham chegado aqui apenas alguns dias antes. Vigiando de longe e deixando um pouco a bagunça rolar, a polícia chinesa não entendia por que os caras comemoravam tanto se o Brasil havia acabado de perder o jogo. Eu também não.

 


18.08.08

Link permanente Cenas de rua e imagens olímpicas
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China, Medalhas s 15:58:53.

Bicicletas à noite, por Nilton Fukuda/AE

Dia 17

Dia 18 de agosto, segunda-feira. Ou seja, mais um dia sabático para mim. Aproveitei para passar o dia inteiro trabalhando no hotel, mas como ninguém é de ferro (só o Homem de Ferro, diria um amigo meu) saí sozinho para dar uma voltinha e comer alguma coisa na hora do almoço. Desta vez, meu estômago optou por um restaurante ocidental, para evitar problemas lingüísticos na hora de fazer o pedido.

(Parênteses: Uma das coisas mais legais para se fazer durante uma viagem longa é caminhar por ruas, digamos, normais da cidade, longe dos pontos turísticos tradicionais ou de qualquer outro lugar onde a palavra 'turista' esteja estampada na sua testa.)

Do hotel ao restaurante descobri mais um pouquinho da verdadeira Pequim, com pessoas normais andando de bicicleta pra cá e pra lá, crianças brincando nas calçadas e velhinhos de camiseta regata com a barriga para fora sentados em umas cadeirinhas baixinhas, jogando conversa fora. Vi outras cenas ainda mais inusitadas, como uma mulher passeando com um cão da raça pequinês (eu achava que estava extinta) e um trio de senhoras uniformizadas exibindo faixas vermelhas nos braços com a inscrição 'Voluntários da Polícia'. Mas não deu para ver as outras palavras que estavam escritas em inglês. Fiquei morrendo de medo de encarar aquelas velhinhas de 80 e poucos anos e levar um golpe de bengala-kung-fu na cabeça.

Minha idéia genial de almoçar em um restaurante ocidental não foi tão genial quanto eu esperava. Na falta de um McDonald’s aqui por perto, fui comer no Kentucky Fried Chicken, um fast food de frango tão 'fast' que o frango parecia estar prontinho ali há horas, apenas me esperando. Só faltou ele falar Ni Hao, Felipe na hora em que a atendente o colocou numa caixinha de papel que eles chamam por aqui de 'prato'.

Eu achava que o KFC era um restaurante internacional, daqueles que servem a mesmíssima comida no mundo inteiro. Infelizmente não é, pelo menos não na filial que fica perto do Holiday Inn. Descobri isso quando dei a primeira mordida e constatei que os cozinheiros de lá temperavam os frangos com um molho de pimenta fortíssimo. Precisei de três Seven-Up para conseguir terminar de comer.

Ah, é por isso que eu gosto de andar por essas ruazinhas menos óbvias... na volta para o hotel, dei de cara com um sebo bastante interessante, apesar de ele só vender livros usados em chinês. Comprei um belo exemplar sobre a arquitetura do Tibete por 50 RMB, ou cerca de R$ 12. De quebra, levei uma edição em mandarim do Ian McEwan, um dos meus escritores favoritos. Por que eu comprei o livro ‘Amsterdam’ de autoria de um escritor britânico em chinês? Nem eu sei. Acho que apenas para me sentir globalizado. E porque o preço era ridículo: apenas 5 RMB, ou R$ 1,25.

Trabalhei o dia inteiro com a TV ligada, então pude ver várias imagens da Olimpíada que eu não tinha conseguido assistir ao vivo. Não sei se o conceito de 'ao vivo' não funciona da mesma forma por aqui ou se a TV estatal chinesa está com birra da torcida brasileira, mas a verdade é que não consegui assistir a um único jogo ao vivo da Seleção Brasileira de futebol em nenhum dos 12 canais da CCTV. E olha que eles não se cansam de dizer que adoram o futebol brasileiro – imagina se não detestassem.

Uma das imagens olímpicas mais interessantes que vi foi a do atirador americano Matthew Emmons, que perdeu a medalha de ouro na última rodada. Eu morri de pena, mas poderia ser pior: se eu estivesse lá, poderia ter morrido de verdade. Imagina um cara desses nervoso e com uma arma na mão. Imagina se ele põe na cabeça que o público atrapalhou o seu desempenho... a última coisa que eu quero é virar alvo de um cara que acerta uma moeda do outro lado do campo de futebol.

(Parênteses: Por que o Brasil não investe para formar atiradores olímpicos? Aposto que essa seria uma bela forma de tirar as crianças do tráfico. E o Comitê Olímpico Brasileiro nem precisaria se preocupar em comprar o material de treino para os garotos, porque eles poderiam pegar emprestadas as escopetas e AK-47 dos amigos. Até as nossas munições poderiam colaborar para o ouro olímpico: mesmo quando as nossas balas parecem perdidas, sempre acabam encontrando o alvo. Infelizmente.)

E o Michael Phelps, hein? Você já viu a cara dele de verdade, fora da piscina? Não sei, achei um cara superesquisito, e não apenas porque come 12 mil calorias no café da manhã. Você reparou nos dentes dele? São meio afiados, como se fossem umas mandíbulas de tubarão. E a cor da pele do Phelps também é diferente, meio cartilaginosa, sei lá. Esse cara não me engana.

Eu não sei qual é sua opinião, mas eu acho meio esquisito ter arco e flecha na Olimpíada. Sei que é um esporte tradicional desde a Grécia Antiga, etc., mas para mim soa meio fora de época, meio primitivo até. É como se nos Jogos Olímpicos a gente assistisse a modalidades como 'luta de tacapes' ou 'campeonato de arrastar mulher pelo cabelo', sei lá.

Alguém conseguiu ver a final dos 100 metros? Agora pouco, quando reprisaram a corrida, eu acabei piscando e perdi a chegada. Tive que assistir em outro canal, em câmera lenta, para entender o que tinha acontecido. Não sei por que a Jamaica pode ser uma potência olímpica e o Brasil não. E você percebeu que o tênis do Usain Bolt estava desamarrado? Uau, imagina só: se o cara corre 100 metros em 9,69 segundos e pisa no cadarço, aí teríamos o recorde mundial de tombo mais rápido do mundo.

O Brasil tem, na minha opinião, dois grandes problemas olímpicos. O primeiro é o psicológico, que sempre acaba afetando nossos atletas. Ser brasileiro é sentir sempre muita emoção, o que é bonito mas atrapalha para burro quando você tem que ser frio e perfeccionista. O segundo problema é óbvio: não se investe o suficiente em esportes amadores, apenas em equipes profissionais de vôlei e futebol. Quando será que alguém vai acordar para isso? Afinal, é uma das maneiras mais ágeis e inteligentes para se fazer distribuição de renda: distribuindo ouro. Mas é melhor deixar para lá, ou alguém do governo pode entender errado a idéia e sugerir a criação do programa 'Medalha Zero'. E aí a gente ficaria ainda pior do que está.

Fotos: Nilton Fukuda/AE

Rua comum, por Nilton Fukuda/AE

 


Link permanente As mulheres mais bonitas da China
por Felipe Machado, Seção: República Pop da China, Yin e Yang s 07:53:46.

Gong Li

Confesso que, antes de vir para a China, o único rosto feminino que eu conhecia era o da atriz Gong Li, estrela de sucessos do cinema como 'Lanternas Vermelhas' e 'Adeus, Minha Concubina'. Esses, no entanto, foram filmes do início dos anos 90, quando a atriz ainda estava com seus vinte e poucos anos e exibia uma sensualidade delicada, misteriosa e fora do comum. Zhang Yimou, o cineasta mais famoso da China – autor também da abertura da Olimpíada de Pequim –, e Gong Li, aliás, protagonizaram um dos maiores escândalos da sociedade chinesa nos últimos tempos ao assumirem um romance que durou a longa colaboração entre eles. Detalhe: Zhang Yimou era casado.

Gong Li continua linda aos seus 43 anos, mas senti uma curiosidade em saber quem são as estrelas atuais do país, as garotas que sairiam na capa da Playboy chinesa, por exemplo – se na China existisse uma Playboy.

Como o país tem uma população de 1,3 bilhões de pessoas, digamos que é difícil escolher as mulheres mais bonitas da China. Mas, pelo que tenho estudado por aqui ('estudado' é bom, não?), há algumas que são apontadas como unanimidade pela torcida do Corinthians – se na China existisse uma torcida do Corinthians.

Zhang Ziyi é bem famosa entre o público ocidental, já que é outra atriz descoberta por Zhang Yimou (será que o Zhang... bom, deixa pra lá) e atuou em filmes razoavelmente conhecidos do grande público no Brasil, como 'O Tigre e o Dragão' e 'Clã das Adagas Voadoras'. Nascida em Pequim, a atriz de 29 anos que mora hoje nos Estados Unidos garantiu à mídia chinesa que estaria na cidade para acompanhar a Olimpíada. Infelizmente nós ainda não nos encontramos, mas ainda tenho esperanças de convidá-la para uma 'binde pijiu' na Nanluoguxiang, a Vila Madalena daqui.

Descobri algumas outras garotas chinesas muito bonitas, principalmente por meio de uma pesquisa ('pesquisa' é bom, não?) em jornais, internet e TV. Você pode imaginar como é difícil descobrir como identificá-las por fonemas ocidentais, já que seus nomes, claro, estão sempre escritos em ideogramas chineses. Mas fiz um esforço ('esforço' é bom, não?) e aqui está uma lista das cinco chinesas mais bonitas que encontrei.

Rong Zu Er

1. Rong Zu Er: Essa cantora é a mulher mais bonita da China na atualidade, na minha modesta opinião de chinês por um mês. Conheci a Rong (olha a intimidade) graças ao videoclipe 'Beijing Huan Ying Ni' (Seja Bem-Vindo a Pequim), um dos hinos da Olimpíada. Não me canso de ver esse clipe, e não apenas pela presença dela: a música do compositor Xiao Ke é maravilhosa e o clipe mostra cenas belíssimas de lugares de Pequim que eu certamente morrerei de saudades. Infelizmente, não posso comentar sobre a letra do compositor Albert Leung, mas tenho certeza de que ela também é ótima.

Li Xiang

2. Li Xiang: Apresentadora mais famosa da China, ela tem a mesma mania de várias estrelas da TV brasileira: acha que é cantora. E ainda estréia no cinema, como produtora da comédia romântica 'Shiquan Jiumei' (Quase Perfeita). Daqui a pouco vão achar que, além de apresentar e cantar, ela também sabe atuar.

Na Ying

3. Na Ying: Essa excelente cantora também está no vídeo de 'Beijing Huan Ying Ni'. Além de ser linda, ela tem uma voz rouca supersexy. Minha música favorita é 'Zui Ai Zhe Yi Tian', perfeita para ouvir a dois em um lounge oriental.

Wei Wei 2

4. Wei Wei: Uma das cantoras mais famosas da China, a garota parece ter saído de um conto de fadas chinês. Nascida numa família pobre no interior da Mongólia, ela foi descoberta por um professor da escola, que a inscreveu em um concurso de talentos. O resto é aquela velha história de sempre: 200 milhões de discos vendidos, shows em estádios, website em várias línguas, etc. Nada como realizar um sonho impossível: muitas vezes a beleza vem daí.

Cai Yi Lin

5. Cai Yi Lin: A carreira da cantora de Taiwan estava praticamente acabada até ela lançar seu último disco, o bem sucedido ‘Wu Nian’ (Dançarina) em 2006. A seguir, a tradução do maior hit do álbum, a canção ‘Jia Zhuang’:

“Senti o cheiro da solidão
Meu coração ficou esquecido após muito tempo de silêncio
A minha felicidade recai sobre seu peito
Quando se perde o amor, outras coisa boas também ficam para trás
Mas quero fingir apenas por mais um segundo
Continuar sonhando que estamos abraçados”

Triste, não? Coitada da Cai Yi Lin. Acho que vou deixar a Zhang Ziyi para lá e convidá-la para uma 'binde pijiu' na Nanluoguxiang. Ela está precisando afogar as mágoas.

 


17.08.08

Link permanente Sonhos de criança, sonhos de consumo
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, Comida chinesa s 14:51:43.

Dia 16

Ah, nada como voltar para casa. Pequim, doce Pequim.

O domingão amanheceu meio nublado, mas isso não impediu minha visita a alguns dos cidadãos mais famosos da China. Venho planejando esse encontro desde o dia em que cheguei aqui. Não, espera aí. Vamos falar a verdade. Estou esperando para conhecer esses chineses desde criança. Sempre sonhei em ver um panda de perto.

Alguns pandas que estão atualmente no Zoológico de Pequim vivem lá há anos, mas oito animais recém-chegados ao local são os grandes ídolos dos chineses desde que colocaram suas patas peludas na capital chinesa, pouco antes do início da Olimpíada. Os oito pandas foram resgatados de Sichuan, província que foi palco de um terrível terremoto em maio, e desde então são os novos queridinhos das crianças e adultos que voltaram a lotar o rudimentar zoológico de Pequim. É engraçado ver como não há ninguém que consegue segurar o sorriso diante de um Da Xiong Mao, que em chinês significa 'grande urso-gato'. Os pandas são praticamente os únicos moradores do local com direito a tratamento cinco estrelas. Animais como leões, ursos e tigres, acostumados a serem VIPs em zoológicos do mundo inteiro, ficam confinados a tanques de concreto com tanta vegetação quanto um estacionamento na Avenida Paulista. É deprê.

(Parênteses: Zoológicos, apesar desse exemplo, são um mal necessário para a humanidade. Não gosto do conceito de ‘bichos presos’, mas acredito que a mágica de vê-los de perto é importante para educar as crianças e ensiná-las a amar a natureza. Nem todas as crianças que freqüentam zoológicos se tornam veterinários ou defensores dos direitos dos animais, mas pode ter certeza que aqueles poucos que se tornam guardam na memória alguma imagem inesquecível de um animal na infância. Sob esse ponto de vista, os bichos do zoológico são como 'mártires' da causa animal – mesmo sem saberem.)

Ver pandas ao vivo é algo emocionante, e isso não é motivo para você desconfiar da minha masculinidade. E perdoe a expressão que vou usar para descrevê-los, mas não consigo pensar em outra melhor: os pandas são mais que fofinhos. Eles são ultra-fofinhos. Pena que existam apenas 1.600 no mundo. Espero que eles ainda estejam por aí quando minha filha tiver idade para amá-los como eu.

Perto do zoológico, no distrito de Haidian, fica o New Zhongguan Building Ground, um shopping como qualquer outro. Com uma pequena exceção: o restaurante Epiq Co., no quarto andar, especializado em comida de Taiwan. Foi lá que descobri uma coisa deliciosa: os moradores de Taiwan, como eu, também adoram lula à dorê. Talvez seja por isso que o governo chinês impede com tanta veemência os arroubos nacionalistas dessa província rebelde.

O bairro de Zhongguancun não é bom apenas para quem gosta de frutos do mar asiáticos. A região é o paraíso para quem gosta de 'gadgets', objetos que podem ser traduzidos do inglês para o português como 'tranqueirinhas eletrônicas'. Os equipamentos ali parecem ser verdadeiros, mas dizem que seus preços são mais baratos do que nas lojas oficiais do centro apenas porque os vendedores 'pagam menos impostos'. Quem acredita nisso deve imaginar também que um homem de barba branca vestido de vermelho distribui presentes para o mundo inteiro no Natal.

Em Zhongguancun há prédios e prédios lotados de lojinhas de câmeras, filmadoras, computadores, iPods e tudo mais. Os preços são bons e, se você tiver paciência para negociar com os insuportáveis vendedores, sairá de lá com um negócio da China. Eu não comprei nada, mas deixei Zhongguancun com centenas de cartões nos bolsos. Será que eu vou me lembrar dos preços de cada uma dessas lojas olhando apenas para os cartões em chinês? Se você acredita nisso, prepare-se para um feliz Natal no fim do ano.

 


16.08.08

Link permanente Ressaca e churrasco à chinesa
por Felipe Machado, Seção: Comida chinesa, República Pop da China s 14:07:24.

Dia 15
Como se diz 'ressaca' em chinês?

Tudo na vida tem o seu preço, e a noite de Shanghai me cobrou o dela na manhã seguinte. Não posso reclamar: Dry Martinis provocam os mesmos efeitos colaterais em qualquer lugar do mundo, não importa se você está na Hengshan ou na Vila Madalena.

Uma voltinha pela região do 'The Bund’, em Pu Xi, é um típico passeio de sábado em Shanghai. Multidões de turistas disputam os melhores ângulos para tirar fotos em frente ao skyline futurístico da cidade, e eu era um deles. Pena que o tempo estava meio nublado, o que deu a impressão de que os prédios eram apenas longos retângulos desenhados numa enorme folha de papel cinza, talvez obra do mesmo gigante que havia desenhado a Muralha alguns dias antes.

Shanghai tem diversos bairros onde a presença de estrangeiros é bastante forte, e Xin Tian Di é talvez o mais popular deles. Principalmente o Xin Tian Di Plaza, região cheia de cafés em estilo europeu e restaurantes internacionais. Escolhendo onde iríamos almoçar, demos de cara com uma placa que dizia 'Barbecue Brazilian Style - Rodízio'. Acima da placa, uma bandeira do Brasil que não deixava dúvidas: ali era uma 'embaixada' brasileira em Shanghai. Não resistimos à possibilidade de comer uma bela picanha com arroz e farofa, assada por um churrasqueiro genuinamente brasileiro. Dito e feito: atendido por garçons brasileiros supersimpáticos (valeu, Vagner, boa sorte no chinês), a picanha da Austrália não deixou nada a desejar em comparação com a que temos no Brasil. Ou talvez seja apenas saudade, mesmo.

Por falar nisso, aliás, que saudades de casa! O que, você pensou que eu estou falando do Brasil? Não, nada disso. Estava sentindo falta do meu quartinho do Holiday Inn de Pequim, querida cidade para onde voltamos à noite. Os Dry Martinis e os arranha-céus de Shanghai vão ficar para sempre na memória... pensando bem, os Dry Martinis eu vou fazer de tudo para esquecer.

 


Link permanente Uma noite em Shanghai
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, Comida chinesa, República Pop da China s 09:42:06.

Noite Shanghai, Nilton Fukuda/AE

Dia 14

Em primeiro lugar, meus parabéns para o César Cielo pela medalha de ouro nos 50 m de nado livre. Ao ganhar a prova mais rápida da natação com a marca de 21s30, Cielo entra para a história do esporte brasileiro como mais um atleta que chega ao topo exclusivamente graças a seu esforço pessoal – ou seja, apesar da completa falta de apoio e investimento do País em qualquer esporte que não seja futebol. Em vez de bancar a farra financeira dos times de futebol mal administrados, o lucro com a loteria Timemania deveria ser revertido para os esportes amadores. Pena que o governo só pensa nos 'atletas de ouro' na hora de agendar a foto com o presidente quando eles voltam ao Brasil.

Eu sonhava em conhecer Xangai desde que minha mãe voltou da China apaixonada pela cidade. Meu vôo da Air China partiu às 9h30, e fiquei feliz em poder ver mais uma vez como o Aeroporto de Pequim é sensacional. Apesar de ser monstruosamente grande, o projeto de Sir Norman Foster é elegante como um cavalheiro britânico.

Do aeroporto de Shanghai até o hotel (Heng Shan Moller Villa, um charmoso mini-palácio localizado perto dos viadutos da Shan Xi Road) a gente já nota que a cidade não tem nada a ver com Pequim. Com quase 20 milhões de habitantes cada, as duas megalópoles disputam o título de cidade mais importante da China. Pequim é a jóia da coroa, o centro turístico e sede do governo. Shanghai é quem paga a conta, com sua pujante bolsa de valores e seus engravatados sem ideologia. Shanghai tem o clima de Nova York, Milão, São Paulo; Pequim está mais para Los Angeles, Roma, Rio de Janeiro.

Shanghai é a prova de que uma metrópole com mais de 10 milhões de habitantes pode ser cortada por um rio que não seja um esgoto a céu aberto. O Huang Pu divide Shanghai em duas partes: de um lado, a moderna Pu Dong, com seus arranha-céus pontiaguados que nos lembram um cenário do desenho Os Jetsons. Do outro, Pu Xi, estão os prédios antigos erguidos à maneira ocidental, edifícios-sobreviventes da colonização inglesa. Chega a ser divertido ver esse prédios supereuropeus decorados com ideogramas chineses; parece que alguma coisa está errada.

O cartão-postal de Shanghai é a vista que se tem dos arranha-céus em Pu Xi, mais precisamente do bairro que os chineses chamam de 'The Bund'. Mas não é apenas dali que se vê as incríveis construções espalhadas pela cidade. Quase todas as paisagem de Shanghai me provocaram umauma sensação de déjà vu. Deve ter sido ter sido algum flashback de 'Blade Runner'.

Almocei no restaurante Haiou Fang, à beira do Huang Pu, do lado de Pu Dong. Em homenagem ao camarada Mao, escolhi um prato de sua terra natal, a província de Hu Nan. Foi a minha última homenagem ao líder chinês. Hong Shao Rou é uma carne de porco tão gordurosa que os palitinhos até escorregavam das minhas mãos. Se algum dia você vier à China, confie em mim: fuja de um restaurante que tenha Hong Shao Rou no cardápio.

Depois do almoço fizemos um passeio pelo parte antiga de Shanghai, um bairro cheio de templos, jardins e, claro, lojinhas de bugigangas chinesas. Ao contrário de Pequim, que está linda e absolutamente limpa, Shanghai tem alguns mendigos e prédios abandonados. Tudo bem, Pequim ganhou um banho de perfumaria para receber a Olimpíada, mas Shanghai vai ter que se esforçar muito para estar perfeita em 2010, quando será sede da Exposição Mundial (Expo) e receberá delegações de 187 países.

Tenho amigos que já estiveram em Shanghai e todos garantiram que a vida noturna, como em qualquer cidade obcecada por trabalho, era algo que eu não poderia perder. Depois de um breve descanso no hotel, meus colegas do Estadão e eu pegamos um táxi e fomos jantar no Club, restaurante localizado no 86º andar da torre Jin Mao, onde também fica o hotel Grand Hyatt. Era o primeiro capítulo da minha saga pela noite de Shanghai.

Um ótimo jantar, mas eu estava mesmo era interessado na sobremesa: um Dry Martini no Cloud Nine, bar com vista panorâmica localizado no 88º do mesmo prédio. De lá fomos para o MT/Multi-Track, um clube freqüentado quase exclusivamente por chineses – o que é raro na cosmopolita Shanghai, onde você pode encontrar mais pessoas de origens variadas do que em uma reunião da ONU.

O MT/Multi-Track era surreal. Só para você ter uma idéia, chinesas vestidas como a Fergie dançavam em cima das mesas. Lembra daquela música que o Silvio Santos usava para apresentar os jurados do 'Show de Calouros' (Aracy de Almeida, lá lá lá lá lá lá...)? Pois é: não agüentei de tanto rir quando o DJ tocou a versão em chinês dessa canção.

A noite estava só começando: de lá fomos para o Zapata, um bar na Hengshan, uma rua cheia de barzinhos. Lá quase não havia chineses, apenas estrangeiros dançando loucamente ao som de Bon Jovi e Britney Spears. Quando começou a esvaziar, caminhamos até o Velvet Lounge, a balada mais legal que estive desde o começo da viagem. Também repleto de estrangeiros, lá eu percebi que Shanghai é cosmopolita porque oferece um ambiente praticamente neutro para quem não é chinês: se você quiser, dependendo da atividade profissional é possível viver praticamente sem contato com chineses. Basta aprender a se comunicar com os taxistas e pronto.

Como ainda era cedo (umas 4 da manhã), fomos para o afterhours Dragon Club, na mesma rua. O típico inferninho era um verdadeiro infernão: uma casa noturna underground, com chineses malucos, estrangeiros bêbados e música eletrônica no último volume. Estava tão ruim que fomos embora três horas depois, às 7 da manhã, com o dia amanhecendo. Meus amigos estavam certos: a noite de Shanghai é mesmo espetacular.

 


15.08.08

Link permanente Cenas da China, parte 2
por Felipe Machado, Seção: Chinatown, República Pop da China s 07:33:19.

Sei que meus textos estão muito longos, mas não consigo resistir. Acho que é excesso de inspiração. De qualquer maneira, para aliviar um pouco, mais imagens sensacionais do fotógrafo Nilton Fukuda.

Mao na rua, por Nilton Fukuda/AE

Um pequeno beco de Pequim... Mao decorado

Um mundo, um sonho, por Nilton Fukuda/AE

'Um mundo, um sonho'? Para alguns chineses, a vida continua como sempre: um pesadelo

Zhongguo Jaiyou, por Nilton Fukuda/AE

Zhongguo Jaiyou! (Força, China)

 


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