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29.01.07

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 20:14:27.

“Forget Iraq – Rebuild at home” – Esqueça o Iraque, reconstrua aqui em casa.

A camiseta com esses dizeres é um dos suvenires mais vendidos de New Orleans, e traduz o sentimento de abandono de vários habitantes daqui. A maioria culpa o governo federal e Bush pessoalmente, mas também apontam para a incompetência do prefeito e da governadora.

Outras camisetas disputadas:

Fema – Find Every Mexican Available

Fema é a agência federal de administração de situações de emergência. No caso, como metade da cidade foi embora e nunca mais voltou, os hispânicos estão por toda a parte, na construção civil, varrendo ruas, nas lanchonetes.

E, por fim, mais uma das mensagens que traduzem bem o humor entre os creoles:

Fema evacuation plan – Run motherfucker run

(Plano de evacuação da Fema – Corra “Fdp”, Corra)

A propósito, a coluna de Frank Rich no The New York Times de domingo, criticando o “artificialismo” de Hillary Clinton, estava excelente. Traduzo aqui um trecho atilado:

Os últimos presidentes que enfrentaram o Congresso tão em baixa (no discurso Estado da Nação) foram Harry Truman em 1952 e Richard Nixon em 1974, os dois nos estertores de seus governos, atolados em guerras impopulares que seriam terminadas por seus sucessores, e ambos ansiosos para mudar de assunto, como fez o presidente Bush. Em seu discurso sobre o Estado da Nação de 1952, Truman jurou: “tornar a assistência médica acessível para todas as pessoas”, enquanto Nixon, 22 anos depois, prometeu “um novo sistema que torne assistência médica de alta qualidade disponível para todos os americanos.”Não ficando para trás, Bush propôs que “todos os cidadãos tenham assistência médica barata e disponível.”

Aparentemente, a promessa vazia de “um almoço grátis intravenoso” (grifo meu) é o último subterfúgio dos presidentes em guerra desesperados.

Frank Rich disse tudo.

 


27.01.07

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 23:02:15.

“Se você passar do lado de alguém e a pessoa não sorrir e disser ‘bom dia, tudo bem?’, pode ter certeza, a pessoa não é daqui”, explica-me Barbara Robichaux, ela mesma uma simpática e prestativa nativa de New Orleans.

Estou passando uns dias aqui na capital do jazz, do Gumbo, de Louis Armstrong. Agora, infelizmente, New Orleans é a capital do indelével Katrina.

Já se passaram 17 meses desde a tragédia. Mas parece que foi ontem. A paisagem é nuclear. Metade da cidade, sem exagero, está abandonada. Casas vazias, destruídas, lixo, destroços, Wal-Marts e Mc Donalds abandonados....a maioria das pessoas foi embora e nunca mais voltou. Não tem onde morar, porque a reconstrução é tão lenta, que não há apartamentos disponíveis. Muita gente está morando em trailers – nunca vi tantos trailers na vida...

Mesmo o French Quarter, o coração da cidade, está sofrendo. Várias lojas fecharam as portas, antiquários estão para alugar, restaurantes às moscas. Isso porque que o charmoso centro histórico não foi tão afetado: recebeu dois a três pés de água, como se diz por aqui, ou seja, a enchente chegou a 60cm, 90 cm. Na maioria de New Orleans, a água chegou a 2 metros.

É uma visão desoladora. A população da cidade caiu pela metade. E Bush nem sequer mencionou o Katrina em seu discurso sobre o Estado da Nação. Os sorridentes creoles estão muito, muito tristes.

 


24.01.07

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 20:37:37.

Estou em Miami para acompanhar as audiências da Bispa Sonia Hernandes e seu marido. Em meio ao entra-e-sai de tribunais e conversas com advogados, não pude deixar de notar: o verão 2007 promete.

Eu nunca vi umas mini-saias tão curtas. Um amigo meu cunhou a expressão perfeita – são as mini-saias Papanicolau. Em todos os lugares de Miami, mulheres circulam com as menores mini-saias já vistas no planeta. Outro amigo, que mora há cinco anos por aqui, garantiu – está certo que Miami é a capital do hedonismo, mas não é sempre assim. Portanto, é oficial – trata-se de uma moda nova.

Elas não podem se abaixar, movimentar e não pode ventar, porque correm o risco de um espetáculo de mau gosto a la Lilian Ramos. Ou, pra ser mais atualizada, Britney Spears. Digo isso sem preconceitos – gosto de minissaia, só não do tipo ginecológico.

Futilidades à parte, a febre do Second Life corre solta por aqui. Para quem não sabe, trata-se de um site onde as pessoas podem levar uma vida virtual paralela, por meio de avatares, e fazer de tudo – desde abrir negócios até dar entrevistas.

E, aparentemente, sofrer uma tentativa de estupro. Uma bilionária virtual do setor imobiliário, Anshe Chung, foi perseguida por uma gang de “falos” voadores em um forum do Second Life.

Ailin Graef, nome real do avatar Anshe Chung, participava de um evento patrocinado pela CNET, dentro do mundo virtual do Second Life, quando vários bonequinhos em forma de pênis começaram a persegui-la.

Esse ataque é feito por meio de um programa de computador que cria objetos em série....seria como spam, mandando várias mensagens para atravancar sua caixa postal. As pessoas que lançam esse ataques são chamadas de “griefers”.

Realmente, não falta mais nada – mini-saia Papanicolau, estupro virtual.....

PS – Agradeço ao meu amigo Marcos Fontes, advogado que está morando em São Francisco, pela dica sobre a loucura que está rolando no Second Life

 


20.01.07

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 23:03:03.

Aqui no paraíso do litígio, nem os mendigos estão à salvo de processos.

O dono de uma loja de antiguidades de Nova York está processando os mendigos que “moram” na calçada em frente ao seu estabelecimento, em plena Madison Avenue. O antiquário Karl Kemp pede indenização de US$ 1 milhão aos mendigos que, segundo ele, fazem xixi, cospem e trocam de roupa em plena calçada, assustando assim seus clientes refinados.

“Faz dois anos que eu agüento este bando de vagabundos aqui na frente da loja, espero que o processo force a prefeitura de NY a tomar alguma providência”, Kemp disse ao The New York Times.

A “residência” dos "pedintes antiestéticos" fica em localização privilegiada – um pulinho das lojas da Prada e da Gucci. “É injusto que essas pessoas passem dia e noite na frente da minha loja, uma vez que os contribuintes pagam pelos abrigos de sem-teto na cidade.”

A motivação do antiquário é das mais nobres. “Minha preocupação é a saúde dessas pessoas”, disse Kemp, em um arroubo de altruísmo. “Às vezes eles ficam aí no sereno, durante nevascas, em vez de irem para abrigos confortáveis.”

Mas ele alfineta o “senso de estilo” dos mendigos. No processo, os advogados argumentam que os mendicantes estão atrapalhando a visão da vitrine da loja e usam roupas “velhas e sujas”.

Segundo entidades de proteção aos sem-teto, esta é a primeira vez que alguém processa um mendigo em Nova York. O que será que o Bloomberg vai fazer?

PS: Agradeço ao meu amigo Simon Rucker, de NY, pela dica para o blog...

 


17.01.07

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 23:19:54.

Está certo que a maioria das estatísticas é enganosa. Como disse o Joelmir Betting (se não me engano foi ele), o consumo per capita de frango pode ser um, mas o rico come dois frangos e o pobre nenhum.

(Foi ele que falou isso? minha memória está péssima...estou com mal de Eisenhower, como diz um amigo...)

De qualquer forma, queria dizer que algumas pesquisas são fantásticas. Jon D. Miller, da Michigan State University, pesquisou a aceitação da teoria da evolução em 34 países. O resultado: os Estados Unidos só perdem da Turquia em relação ao número de pessoas que não acredita na teoria de Darwin.

A Islândia tem o maior número de “darwinistas” - 85% aceitam a teoria. O país da Bjork é seguido pela Dinamarca (83%), Suécia (82%), França (80%) e Japão (78%).

Nos EUA, só 40% das pessoas acreditam na evolução das espécies. Na Turquia, são 27%. (Brasil e outros países da América Latina não foram incluídos no estudo)

Na supercatólica Itália, 69% aceitam o darwinismo.

Seria curioso, se não fosse triste, saber que vários Estados americanos, em pleno século XXI, tentam substituir o ensino da teoria da evolução de Darwin pelo criacionismo (Bíblia) nas aulas de ciências. O Kansas é um dos Estados que está injetando religião em suas aulas de biologia.

Parece até que foi ontem que o professor John T. Scopes foi preso porque ensinou as idéias básicas da teoria de Darwin em uma escola do Tennessee.

Mas foi em 1925.

 


15.01.07

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 00:22:47.

Tudo bem que o presidente Lula chamou os venezuelanos de bolivianos, entre outros lulismos verbais, mas o presidente dos Estados Unidos ainda mantém o posto de rei dos foras. Profissional dos deslizes, o glorioso George W. Bush cunhou mais uma pérola. Mês passado, em visita à África do Sul, disse que os países deveriam apoiar a "Rodada Darfur", em vez de Rodada Doha (Darfur é a região do Sudão em guerra civil, enquanto Rodada Doha se refere às negociações multilaterais de comércio).

Pode ter sido o que chamam aqui de Freudian slip (num lance genial da língua inglesa, escorregadela freudiana, ou simplesmente lapso) - a confusão trai a pouca afeição de Bush (ou mera indiferença) pela Organização Mundial do Comércio e outras entidades multilaterais.

A propósito, traduzo aqui uma excelente notinha da coluna The Zeitgeist Checklist de Michael Grunwald, que sai no The Washington Post e na Slate:

Somália. Aviões americanos bombardearam várias cidades no sul da Somália. Bush explicou que os ataques eram indispensáveis, porque a CIA confirmou a existência de armas de destruição em massa no norte de Lichtenstein.

Da série - é uma piada, mas poderia não ser.....

PS - Justiça seja feita: não, eu não acredito que os americanos tenham inventado o avião antes do Santos Dumont, mas Ronald Reagan foi mesmo um pioneiro - chamou os brasileiros de bolivianos há mais de 20 anos...

 


13.01.07

por Patricia Campos Mello, Seção: BRICs 17:26:24.

No afã de demonstrar sua oposição à escalada da guerra do Iraque proposta por Bush, alguns Democratas estão errando a mão. Ao questionar a secretária de Estado Condoleezza Rice em audiência no Congresso, a senadora democrata Barbara Boxer foi de uma insensibilidade atroz.

“Quem vai pagar por isso? (pelo envio de mais soldados ao Iraque) Os militares americanos e suas famílias é que vão, Você não vai pagar por isso, não tem uma família próxima”, disse Barbara, referindo-se ao fato de Condoleezza ser solteira e sem filhos.

Ora, é absolutamente compreensível se opor ao envio de mais soldados, mas é desnecessário jogar baixo, insinuar que Condoleeza não está nem aí porque não tem família nem filhos.

“Eu achei que não havia problemas em ser solteira”, disse Condoleezza, no dia seguinte. “Achei que não havia problemas em não ter filhos, achei que eu ainda podia fazer decisões sensatas para o país mesmo sendo solteira e sem filhos.”

Rush Limbaugh, o comentarista conservador que só dá fora, desta vez mandou bem em seu comentário, dizendo que Barbara golpeou Condi, acertando “bem abaixo dos ovários”.

Resta saber se , à parte a retórica agressiva e até cruel, os Democratas vão mesmo fazer alguma coisa para brecar o plano de Bush. Alguns analistas por aqui apostam que os Democratas vão apenas marcar posição e fazer uma oposição simbólica ao plano de enviar mais tropas. Mas, com medo de custos políticos (serem vistos como inimigos dos militares, por exemplo), eles podem acabar não usando suas armas para deter Bush. A saber, as armas seriam: não liberar a verba necessária para o envio de soldados e manutenção da guerra( opção mais remota, porque prejudicaria os soldados que já estão lá lutando); impor várias condições para embarcar no plano de Bush (mais factível) ou estabelecer um sistema intenso de vigilância e prestação de contas (o mais provável).

Alguns acreditam que os democratas vão ficar mesmo só na retórica, para se resguardar – se a estratégia de Bush falhar, sem nenhuma intervenção democrata, a culpa será toda dele, abrindo caminho para uma boa plataforma eleitoral para os democratas em 2008.

 


10.01.07

por Patricia Campos Mello, Seção: BRICs 18:30:24.

Depois de um breve e ensolarado interregno no Brasil, estou de volta a Washington, às peripécias de Bush, à guerra interminável, aos subsídios agrícolas, FMI, e ao blog....
e, desta vez, venho acompanhada da Sarah, minha cachorra Border Collie....o que traz questões interessantes....
Para trazer um cachorro para os EUA, é necessário trazer um atestado do veterinário e um certificado do ministério da agricultura....porém, ao desembarcar no aeroporto de Washington, ninguém me pediu nada, nenhum documento.....Sarah estava chorosa dentro de sua caixa, ao lado da esteira....entrou nos EUA assim, sem nenhum passaporte canino....ela poderia muito bem ser uma cachorra-bomba, ou portadora de uma doença da cachorra louca, sei lá....
Isso porque nesta semana o Congresso americano votou as resoluções de segurança do relatório do 11 de setembro, que vão exigir, entre outras coisas, que todos os contêineres com destino aos EUA sejam examinados em seus portos de embarque....vai ser "facinho" implementar isso aí no porto de Santos (sem mencionar outros países mais desorganizados)
Também no pacote segurança (num outro), o aeroporto de Phoenix, no estado de Arizona, vai adotar um sistema de raio-X que permite ver através das roupas - é um strip-search virtual. Entidades de direitos civis estão espernenando - trata-se de um desrespeito, uma máquina que deixa ver todo mundo pelado. As autoridades garantem que as partes pudendas não ficarão nítidas no raio-X. Mas as entidades de direito civil acham que, fatalmente, um desses vídeos vai acabar caindo no You Tube....

e enquanto isso, a Sarah entra sem nenhum atestado médico...vai entender....

 


 

Patrícia Campos Mello é correspondente do Estadão em Washington desde 2006. Ela cobriu toda a campanha que culminou na eleição de Barack Obama, em 2008, e passou um mês no Afeganistão "embedded" com as tropas americanas. Patrícia é formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo e tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. Ela é autora de dois livros: "O mundo tem medo da China", editora Mostarda, e "Índia - da Miséria à Potência", editora Planeta.





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