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17.05.09

por Patricia Campos Mello, Seção: CHINA, BRICs, Economia internacional 21:33:40.

Outro dia, uma grande amiga minha chinesa, Wei, e seu marido, Rong, vieram passar o final de semana aqui em casa. Estudei com a Wei em Nova York e hoje ela é colunista da Reuters em Hong Kong, escrevendo sobre economia chinesa. Eles têm dois filhos, um de dois anos e outro de meses. Rong, que tinha um ótimo emprego como advogado de mercado de capitais em um escritório em Hong Kong, acaba de ser demitido em meio a um corte brutal, por causa da crise. O pacote de demissão não era lá essas coisas, eles me contaram. E Rong não sabe se vai conseguir se recolocar rapidamente, considerando que sua área, fusões e aquisições, ainda está bem devagar. Mas meu dois amigos não pareciam desesperados.

“Nós temos uma boa poupança”, ela disse, como se isso fosse óbvio.

E é óbvio, pelo menos na China. “Eu não entendo como os americanos gastam tanto, têm dívidas no cartão de crédito e não guardam dinheiro”, diz Wei, que costumava levar seu almoço de casa todo dia, quando estudávamos juntas, e morava a uma hora da universidade.

Na China, tradicionalmente um país onde a chamada “safety net” é precária, as pessoas guardam dinheiro para tudo: pagar o hospital se sofrerem um acidente, já que muitas não têm plano de saúde, precaver-se contra uma crise na economia e uma onda de demissões, ter uma aposentadoria tranqüila.

Mas essa grande qualidade dos chineses – a austeridade – é um dos maiores obstáculos à recuperação da economia mundial. Muito além das hipotecas subprime, no cerne da crise atual estão os desequilíbrios globais.

A China poupa muito, exporta muito, compra os títulos dos Estados Unidos e assim contribui para manter os juros mundiais excessivamente baixos por anos. Os EUA gastam muito, não poupam o suficiente, dependem da China para os financiar. Essa simbiose nefasta vem se desfazendo, vide o déficit comercial americano, em queda, e o superátiv comercial chinês, também em queda. Mas ainda falta muito para a situação ficar equilibrada. E para isso será essencial que a China dependa mais de seu mercado doméstico, ou seja, os chineses precisam poupar menos e gastar mais. (Os americanos, por outro lado, precisam poupar mais e gastar menos – o que estão fazendo à força, por causa da crise.)

Diante desse cenário, é surpreendente ter passado batido no radar de muita gente um anúncio do governo chinês. Pequim anunciou um plano para oferecer plano de saúde para mais milhões de chineses nos próximos três anos. Jim O’Neill, economista chefe da Goldman Sachs, disse que essa expansão da assistência médica na China pode ser “o mais importante acontecimento na economia mundial”. Ou seja, em vez de guardar dinheiro para um imprevisto médico, os chineses se sentiriam mais seguros para consumir – estimulando a economia doméstica.

Portanto, vale a pena acompanhar o plano chinês e ver como vai evoluir.

 


01.08.07

por Patricia Campos Mello, Seção: CHINA, BRICs, Economia internacional, Globalização 14:53:14.

Sabe aquele suéter lindo de cashmere que você comprou por uma pechincha? Pois é, ele está acabando com as pastagens da China e criou uma nuvem de poluição que chegou até a Califórnia.

Uma série de matérias de Evan Osnos, correspondente do Chicago Tribune na China, mostra como o aumento na demanda pelo cashmere está causando um enorme desequilíbrio ecológico. A população de bodes produtores de cashmere da região de Alashan, na China, multiplicou-se por 15 na última década. Essa superpopulação de bodes acabou com as pastagens da região. E como os animais ficam raspando os cascos pontudas no chão – é como se eles estivessem sempre de salto agulha, brinca Osnos – geram uma gigantesca nuvem de poeira. Essa nuvem de poeira atravessa o Pacífico e está poluindo a costa da Califórnia, que já registrou um aumento na incidência de problemas respiratórios.

Os EUA foram inundados por cashmere barato da China nos últimos anos. Foi-se o tempo em que suéter de cashmere era made in Italy ou France, e custava no mínimo US$ 100. Hoje em dia, uma malha de cashmere sai por US$ 25.

A democratização do cashmere e suas conseqüências ambientais é um ótimo exemplo sobre o preço que pagamos pelo boom chinês.

É hora de boicotar o cashmere e salvar as pastagens da China.

 


06.05.07

por Patricia Campos Mello, Seção: CHINA, Globalização, Estados Unidos 22:05:47.

Sou contra todo tipo de xenofobia e protecionismo. Mas confesso que tenho evitado qualquer produto alimentício made in China. (tirando, talvez, frango xadrez do delivery, que não deve ser made in China de qualquer jeito)
Aqui nos Estados Unidos, está em curso o maior recall de ração de cães e gatos. Mais de 100 animais morreram ao comer certos tipos de ração (até Eukanuba e Iams, super premium, estavam incluídas) que estavam contaminadas com uma substância chamada melamina.

A substância, vieram a saber, foi exportada da China. Os chineses adicionavam a melamina ilegalmente ao glútem de trigo, que exportam para os fabricantes americanos para engrossar a ração dos animais. Os cachorros e gatos morrem de falência dos rins e fígado.

Eu e todos os milhões de donos de animais por aqui passamos a consultar, freneticamente, listas de recall. Só pra garantir, fiz uma limpa na minha despensa, e joguei fora todos biscoitos caninos e congêneres que eram made in China.

Na realidade, esses são cuidados inúteis. O produto pode conter uma única substância importada da China e isso pode não ter sido revelado no rótulo.

Hoje de manhã, ao abrir o jornal, novo pânico. Uma matéria impressionante do The New York Times conta como mais de 350 pessoas morreram no Panamá e na China ao consumir remédios contra gripe com substâncias falsificadas. Os chineses vendiam glicol dietileno, uma substância altamente tóxica, como se fosse glicerina, componente dos remédios.

Conversei com um executivo da indústria farmacêutica em um almoço, e ele me explicou que isso não poderia acontecer nos EUA com remédios - o governo americano inspeciona todas as fábricas estrangeiras que exportam substâncias que serão usadas em medicamentos.

Mas e no Brasil, isso poderia acontecer? Já aconteceu? Será que usamos remédios com substâncias feitas na China, em fábricas onde há falsificação, e nem sabemos? E aqui nos Estados Unidos, será que ingerimos alimentos com essas substâncias, já que não há a mesma fiscalização de fábricas - vide o caso das rações de animais?

O problema da falta de fiscalização e falsificação na China é velho conhecido. Mas assume proporções muito preocupantes no caso de exportação de remédios e alimentos.

 


02.10.06

por Patricia Campos Mello, Seção: CHINA 19:43:47.

A destruição do meio-ambiente é um dos principais problemas da super-acelerada China de hoje. As imagens do acidente com vazamento químico no rio Songhua, no ano passado, ainda estão frescas na memória de muita gente.

Altos dirigentes do partido comunista chinês passaram a incluir a expressão "desenvolvimento sustentável" em seus discursos, em uma clara indicação de que é hora de pisar no freio e prestar atenção nos danos ambientais.

Agora, o governo chinês está investindo nas chamadas "eco-cidades". A Arup, uma empresa de consultoria britânica, assinou um contrato com o governo chinês para projetar uma série de eco-cidades na China.

A primeira eco-cidade será em Dongtan, perto de Shangai, e terá 75% do tamanho de Manhattan, para abrigar 50 mil habitantes na primeira fase. As eco-cidades chinesas serão auto-suficientes em energia, água e a maioria dos alimentos.

 


23.08.06

por Patricia Campos Mello, Seção: CHINA 16:31:33.

O acordo Chile-China é mais um lance da estratégia chinesa de assegurar fornecimento de matérias-primas. No caso, o principal objetivo chinês era garantir o suprimento de cobre do Chile, que é o maior produtor mundial. O país vem fazendo a mesma coisa com vários outros países ricos em recursos naturais. Angola vive um mini-boom graças a investimentos chineses no país, que entraram no pacote do acordo petrolífero.A presença chinesa em Luanda, capital da Angola, já é muito evidente, me disse um angolano.

A penetração chinesa também é crescente em outros países da África, com o objetivo de garantir o fornecimento de petróleo. Para garantir suprimento de carnes, minérios, e outros produtos, o país negocia acordos com a Austrália.

A idéia de aproximação com o Brasil - lançada durante a visita do presidente Hu Jintao ao nosso País, em 2004 – também tinha o mesmo objetivo. Chineses queriam assegurar o fornecimento de minério de ferro, soja, e outras matérias-primas. Mas os prometidos investimentos chineses no País, com poucas exceções, não saíram do papel.

Uma interessante análise da Economist Intelligence Unit contextualiza o acordo Chile-China

 


17.08.06

por Patricia Campos Mello, Seção: CHINA 20:27:40.

Bem nos moldes de uma boa e velha ditadura. Na luta para desacelerar sua economia superaquecida, que cresceu 12% no primeiro semestre, o governo chinês resolveu punir três funcionários que permitiram a construção de uma usina de energia não autorizada.

Uma reportagem publicada no International Herald Tribune relata que o diretor da região autônoma da Mongólia e seus dois assessores foram obrigados a escrever auto-críticas (a medida padrão do Partido Comunista para punir os filiados, que se tornou horrorosamente popular durante a Revolução Cultural), por terem autorizado a construção da usina. Segundo o governo, os funcionários não entraram no esforço conjunto de evitar investimento excessivo.

Pequim vem tentando de tudo para desacelerar sua economia pujante: aumentou taxas de juros, proibiu investimentos em certos setores e agora, está censurando funcionários que descumprem as recomendações. O superaquecimento - com uma bolha de investimentos e conseqüente "hard landing" de resultados imprevisíveis - é uma grande preocupação do governo chinês.

Igualzinho ao Brasil, lutando para ultrapassar o medíocre crescimento de 3% do PIB.

 


 

Patrícia Campos Mello é correspondente do Estadão em Washington desde 2006. Ela cobriu toda a campanha que culminou na eleição de Barack Obama, em 2008, e passou um mês no Afeganistão "embedded" com as tropas americanas. Patrícia é formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo e tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. Ela é autora de dois livros: "O mundo tem medo da China", editora Mostarda, e "Índia - da Miséria à Potência", editora Planeta.





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