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07.02.10
Tudo começou com um repórter à beira de um ataque de nervos, em cadeia nacional. “Nós não queremos subsidiar as hipotecas dos fracassados! Quem quer pagar a hipoteca do vizinho que resolveu ter um banheiro a mais, e não conseguiu pagar? Ninguém! O senhor está ouvindo, presidente Obama? Vamos fazer um Tea Party em Chicago!” O vídeo de Rick Santelli da rede CNBC, esperneando contra impostos e programas de estímulo do governo Obama, tornou-se sucesso instantâneo no You Tube. E, diz a lenda, deu origem ao Tea Party.
Minutos depois do vídeo, americanos descontentes espalhados pelos quatro cantos dos EUA começaram a fundar, online e em casa, suas filiais do Tea Party. O nome é uma homenagem aos colonos americanos que, em 1773, revoltaram-se contra os impostos cobrados pelos ingleses e passaram a jogar seu chá no porto de Boston. O movimento moderno do Tea Party começou com um bando de fanáticos, que carregavam cartazes com fotos de Barack Obama com bigodinho de Hitler e tumultuavam discussões sobre a reforma do sistema de saúde. Mas em menos de um ano, o movimento se transformou em uma força política que ameaça os democratas no poder e os republicanos moderados tentando se eleger.. E neste fim de semana, realizou sua primeira convenção nacional - ainda cheia de rachas, é bom que se diga
O grupo é bastante heterogêneo. Reúne desde ativistas anti-impostos e libertários antigoverno, passando por fãs de Ayn Rand e Reagan, e até radicais contra imigração, cristãos extremistas e “birthers” que acreditam que Obama nasceu no Quênia e por isso não pode ser presidente. Em comum, os Tea Party estão revoltados “contra tudo isso que está aí” : pacotes de estímulo do governo Obama, déficit crescente, reforma do sistema de saúde, resgate de Wall Street, e os atuais ocupantes de cargos políticos.
O movimento já deixou sua marca no cenário eleitoral. Foi com o endosso dos Tea Party que o republicano Scott Brown ganhou dos democratas a vaga do Senado de Massachusetts, que pertenceu ao ídolo da esquerda Ted Kennedy. Os Tea Party estão apoiando também candidatos ultra-conservadores na Flórida e Kentucky. Na Flórida, eles apoiam Marco Rubio na primária para a candidatura ao Senado, contra o moderado governador Charlie Crist. O eternamente bronzeado Crist virou alvo do escárnio dos conservadores ao apoiar o pacote de estímulo de Obama e até ensaiar um “abraço” no líder americano – devidamente eternizado em blogs de direita. No Kentucky, apostam em Rand Paul, filho do deputado libertário e ídolo dos independentes Ron Paul – aquele que quer acabar com o Fed, o banco central americano.
E no Arizona, a tentativa mais ousada – querem destronar o senador John McCain, ex-candidato à presidência pelo partido republicano. O candidato abraçado pelos Tea Party é JD Hayworth, um radialista que quer acabar com a imigração e expulsar os ilegais do país. McCain, moderado, chegou a patrocinar uma lei pedindo a anistia de parte dos ilegais. Ele é senador desde 1987 e concorre a reeleição em outubro, nas eleições legislativas. Hayworth deve disputar como independente, ou desafiar McCain na primária do partido Republicano, com endosso dos Tea Party.
Apesar da vitórias, o histórico do tea Party ainda é irregular. Em Nova York, ficou provado que eles podem dividir a direita – e acabar perdendo para a esquerda. Na eleição para uma vaga de deputado em upstate New York, os republicanos indicaram Dede Scozzafava, uma moderada que apoia o direito ao aborto e o casamento gay. Os Tea Party torceram o nariz e endossaram Doug Hoffman, um desconhecido ultra conservador. O resultado – um democrata acabou ganhando a vaga que ficava com republicanos há décadas.
''O movimento está começando a amadurecer – não como um terceiro partido, mas como uma força de muita influência dentro da estrutura tradicional dos partidos”, diz Mark Skoda, um radialista que fundou um Tea Party em Memphis.
Dentro do partido republicano, há um dilema – abraçar o movimento Tea Party ou deixá-lo à margem? Ao ignorar os Tea Party, os republicanos se arriscam a perder eleições para candidatos populistas endossados pelo movimento. Mas se abraçarem o Tea Party, correm o risco de migrar para a extrema direita, e perder os eleitores moderados.
“Corremos o risco de jogar para o ostracismo os moderados do partido Republicano – diante da pressão de candidatos do Tea Party, vão todos migrar para a direita”, diz Chip felkel, um estrategista republicano que já assessorou o senador Jim de Mint, conservador que é ídolo dos Tea Party (e bloqueou a indicação do atual embaixador em Brasília, Thomas Shannon, durante meses). “A maioria dos republicanos não é a favor de grande intervenção do governo no Estado, mas também não é contra o governo, como os Tea Party”
O partido de Obama, controlando a Câmara e o Senado, também tem muito a perder. Todos seus deputados e grande parte dos senadores enfrentam as urnas em outubro. De acordo com uma pesquisa NBC News/Wall Street Journal, 41% dos americans têm uma visão positiva do movimento Tea Party. Apenas 35% têm visão positiva dos democratas, e 28% dos republicanos. “O Tea Party é uma ameaça para os dois partidos”, diz John Avlon, que escreveu um livro sobre o movimento.. “É um alerta para a insatisfação dos americanos.”
Da maioria silenciosa às lágrimas de Glenn Beck
Um dos grandes ídolos do movimento é Glenn Beck, o apresentador da rede de TV Fox cujo programa tem audiência de 3 milhões de pessoas. Beck costuma chorar em seu programa e já disse que o presidente Obama era “racista” porque “ele não gosta de gente branca”. Beck também afirmou, ao vivo, que “poderia matar Michael Moore” com suas próprias mãos. Foi Beck quem que turbinou a passeata dos Tea Party em 12 de setembro. A passeata reuniu 60 mil pessoas em Washington. Era gente com cartazes dizendo : “O zoológico tem um leão africano e a Casa Branca tem um africano mentiroso”, bem na frente da Casa Branca.
Sarah Palin, que fez o discurso de encerramento da convenção dos Tea Party, é outra inspiração para o movimento.
Mas historiadores veem raízes mais antigas – para eles, o movimento Tea Party se assemelha à chamada “maioria silenciosa” do ex-presidente Richard Nixon. Nixon tornou famoso o termo “maioria silenciosa”, para designar o grande número de americanos que não estavam protestando contra a guerra do Vietnã, não apoiavam a revolução contracultural dos anos 60, e eram apenas americanos pacatos que queriam estabilidade. Tal como os integrantes do Tea Party, eram brancos de classe média, justamente a fatia demográfica que não votou em Obama. A nova maioria silenciosa seria uma reação às multidões que saíram às ruas em 2008 para eleger Obama.
Analistas também se referem ao historiador Richard Hofstadter, que publicou há 45 anos um ensaio que se tornou um clássico “O estilo paranoico na política americana”. Em plena guerra fria, quando o ultra-conservador Barry Goldwater havia acabado de vencer a primária republicana, Hofstadter descreveu como a histeria de direita tinha tomado conta da política americana. Os radicais estavam sequestrando a agenda republicana, entre eles os lunáticos da John Birch Society, que viam comunistas até atrás da porta.Em comum, todos eles tinham uma predileção especial por teorias de conspiração – tudo era orquestrado secretamente, havia um inimigo oculto, estavam aí para persegui-los. Os membros mais radicais do Tea Party, com suas teorias de que Obama é queniano e a reforma da saúde vai instituir painéis para decidir quem vive e quem morre, remetem à paranoia dessa época.
06.02.10
Chamada de Snowpocalypse ou Snowmageddon, a nevasca épica que castiga Washington desde sexta-feira de manhã pode ser a maior desde 1922. A previsão é que caiam 30 inches, pouco mais de 60 centímetros. Acordei hoje de manhã e resolvi "brave the elements", como se diz por aqui. A neve está batendo no joelho. A Pensilvânia Avenue, que liga o Capitólio à Casa Branca, sumiu, debaixo de um cobertor branco. No National Mall, tem gente fazendo cross-country ski. Nada funciona - metrô, ônibus, tudo parou. Nenhuma loja está aberta, nem o correio veio. Nenhum jornal foi entregue. Americano costuma ser exagerado, então eu nem estava pondo muita fé na tal tempestade. As pessoas correram para os supermercados e a cena geral era de pânico: prateleiras vazias, acabou papel-higiênico, leite, pão. Ontem à tarde, caía uma nevinha, mas nada de acumular. Pensei - fui ludibriada. Esse pessoal é histérico.
Mas não, acordamos em uma cidade fantasma. É uma nevasca épica, sem nenhum exagero. Abaixo, algumas fotos

21.01.10
Scott Brown, o republicano eleito na terça-feira para a vaga do senador Ted Kennedy , era um desconhecido senador estadual até a semana passada. Brown era famoso só entre um grupo seleto de leitoras assíduas da revista feminina Cosmopolitan, editada no Brasil como Nova. Ele foi “o homem mais sexy” da Cosmopolitan de 1982, e estampou a edição com fotos sensuais, semi-nu.
O republicano conquistou o eleitorado de Massachusetts, Estado democrata até a raiz dos cabelos, com seu tipão popular – fazia propagando de jeans, camisa, mostrando sua caminhonete (veículo vetado por liberais ecologicamente conscientes). Como disse o comediante Jon Stewart ontem: "O legado dos Kennedy vai para um cara pelado que é dono de uma caminhonete”. Ele é triatleta e acorda todo dia às 5 da manhã para nadar. Sua mulher, Gail Huff, é estrela da TV em Boston e uma de suas filhas, Ayla, foi finalista no American Idol.
Brown teve uma candidatura anti-establishment, contestando o direito natural dos democratas à vaga ocupada por 46 anos por Ted Kennedy. E fez campanha contra a lei de reforma de saúde – considerada a principal bandeira de Kennedy.
Está certo que ele teve uma granda ajuda da campanha inepta da democrata Martha Coakley, ruim de voto. Martha disse que o arremessador Curt Schilling, um ídolo do time local Red Sox, torcia para os Yankees, de NY - uma gafe semelhante a dizer que o Ronaldo joga no São Paulo, em vez do Corinthians. Para completar, em resposta a um repórter do Boston Globe, que perguntou se ela não tinha sido passiva demais em sua campanha: “Por que, eu deveria ter ficado em Fenway Park, nesse frio, apertando mão de eleitor?”!
Não que Brown tenha passado incólume no quesito gafes. No discurso de vitória, deixou suas duas filhas, Arianna e Ayla, roxas de vergonha. “Queria agradecer muito as minhas filhas, que me ajudaram na campanha...e só por acaso, se alguém estiver se perguntando ao redor do país, sim, as duas estão disponíveis”. Ai.
19.01.10
Há exatamente um ano, eu saí de casa às 7 da manhã em um dos dias mais frios que Washington já viveu. O termômetro marcava 8 graus abaixo de zero, mas a sensação térmica era de uns 20 abaixo. Ao lado da minha amiga Rita Siza, correspondente do jornal português Público, caminhamos uns três quilômetros até o Capitólio, acompanhando a multidão agasalhada. Com cobiçados ingressos, iríamos ver de perto a posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, no dia 20 de janeiro de 2009.
A cidade parou. Eram mais de 4 milhões de pessoas nas ruas, tudo para ver Barack Hussein Obama jurar sobre a Bíblia de Lincoln e assumir a presidência.Apesar do frio paralisante, uma euforia tomava conta de todo mundo, até dos jornalistas, nós, supostamente neutros.Admito, com vergonha, que foi difícil não se contagiar. Tudo iria mudar. Guantánamo, crise econômica, eixo do mal, tortura, falsas armas de destruição em massa no Iraque, arrogância unilateralista, tudo isso ficava para trás.
Tive a oportunidade de estar num grupo de jornalistas que acompanhou a campanha eleitoral e a candidatura Obama desde o começo. Em Chicago, no dia 4 de novembro, ao som de Stevie Wonder “Signed, Sealed, Delivered”, o altamente improvável aconteceu – Obama foi eleito, em um país que viveu segregação racial durante décadas. Na medida em que os resultados das urnas iam sendo divulgados, as pessoas se abraçavam e choravam.
Um ano depois, o sonho não acabou . Mas para os 53% dos americanos que votaram em Obama e achavam que o novo presidente americano ia caminhar sobre a água e fazer a terra parar, houve um choque de expectativas. A euforia da eleição de Obama foi sufocada por um desemprego a 10% que teima em não cair, uma guerra sem fim no Afeganistão, uma reforma da saúde que se arrasta pelo Congresso, e as realidades bem menos poéticas de se governar um país idiossincrático. Não, não vai dar para fechar Guantánamo no dia 22 de janeiro, como ele havia prometido. Conversar com o Irã não adiantou nada, pelo menos ainda não. Israelenses e palestinos continuam se matando. E embora Obama tenha estendido a mão para os hostis, “abandonando o punho cerrado”, como prometeu no dia da posse, um major matou 13 pessoas em Fort Hood, em novembro, e um nigeriano tentou explodir um avião no Natal.
Barack Obama assumiu o poder há um ano com a aura de um messias e a popularidade de um Beatle. O 44o presidente dos Estados Unidos tomou posse com uma taxa de aprovação de 69% e grande popular para adotar sua ampla agenda de reformas. Porém, em 12 meses de governo, sua popularidade caiu para 46%, de acordo com a pesquisa da CBS. Os eleitores independentes, essenciais para a vitória de Obama, debandaram, com medo do governo Leviatã que não pára de se expandir, esbarrando nas suspeições históricas dos americanos, como disse o colunista David Brooks.
Obama não tinha escapatória – ao herdar a maior recessão desde a Depressão de 30 e duas guerras, era inevitável que tivesse de expandir o papel do Estado. E como conseqüência, o déficit inchou ainda mais e o povo americano teve a reação pavloviana de desconfiança no excesso de intervenção do governo na sociedade livre.
Obama “o mito” se transformou, ao longo desses 12 meses, em Obama “o presidente de carne e osso”, com todas as limitações do posto e da pessoa. Isso era inevitável. Mas foi, e continua sendo, doloroso.
15.01.10
A pronta reação do governo Obama à tragédia no Haiti rendeu elogios na imprensa e deve melhorar a popularidade do presidente. Obama tentou ao máximo se diferenciar de seu antecessor George W. Bush, que cometeu todo tipo de erro na catastrófica operação de reconstrução após o furacão Katrina, em 2005. Bush demorou para falar com o público americano e o plano de resgate e reconstrução foi um fracasso monumental.
Obama, diante de seu primeiro desastre internacional, agiu rapidamente. Ele foi informado sobre o terremoto uma hora depois de o tremor atingir o Haiti, e logo depois a Casa Branca já tinha divulgado um comunicado sobre o desastre. Integrantes do departamento de Estado, Pentágono e Agência Internacional de Desenvolvimento (USAID) passaram a noite em claro desenhando a estratégia para o pacote de ajuda. No dia seguinte, de manhã, Obama fez seu primeiro comunicado ao público. A secretária de Estado, Hillary Clinton, interrompeu sua viagem à Àsia e de manhã já estava em todos os programas de notícias, dando explicações ao público. “Eles adotaram as medidas certas e foram rápidos”, disse ao Politico Johanna Mendelson Forman, ex-consultora da missão da ONU no Haiti. “Ele foi à TV imediatamente e ofereceu os serviços de todas órgãos de assistência dos EUA.” pouco depois, Obama anunciou US$ 100 milhões de ajuda, "para começar" , e o envio de 10 mil soldados.
12.01.10
Desde que os primeiros trechos começaram a vazar para a imprensa, na sexta-feira, o livro “Game Change” vem espalhando a cizânia pelos corredores do poder em Washington. As revelações bombásticas do livro sobre os bastidores da campanha de 2008 já puseram pelo menos um político na fogueira. O líder democrata no Senado, Harry Reid, teve que telefonar para o presidente Obama para pedir desculpas. Ele admitiu ter dito aos autores o país estava pronto para apoiar um candidato negro, especialmente um como Obama :“um Afro-americano de pele mais clara” , que não “fala como preto”, a não ser que queira. Michael Steele, o diretor do Comitê Nacional Republicano, que é negro, disse que Reid deveria renunciar. “se fosse”. O presidente obama aceitou o epdido de desculpas de Reid, que voltou a se “imolar” em público ontem.
Quase todo mundo sai chamuscado por revelações nada lisonjeiras do livro dos jornalistas Mark Halperin, da revista Time, e John Heilemann, da revista New York;. Segundo o livro, Bill Clinton irritou o então-senador Ted Kennedy ao insistir no pedido de apoio a Hillary Clinton, que disputava a prévia do partido democrata com Obama. Clinton teria dito que Obama, “até alguns anos atrás, era o cara que buscava cafezinho para a gente”.
Hillary aparece como fria e calculista, tal qual era pintada por seus adversários. Um ano antes da convenção democrata, Hillary destacou dois dos executivos de sua campanha para começarem a cuidar da “transição” para seu governo, certa de que iria vencer a eleição.O livro diz que o “potencial priapismo” de Bill era uma ameaça à campanha de Hillary e, por isso, era tema de teleconferências. O ex-presidente vivia paquerando donas-de-casa vindas da aula de yoga, em um café em Chappaqua, onde os Clinton vivem. E o e-xpresidente vivia para cima e para baixo com seu amigo, o playboy Ron Burkle, cujo avião era conhecido como “Air Fuck One”. Um dos rumores era de que Clinton teria um caso com a atriz Gina Gershon (do filme Showgirls).
A certa altura, o QG da campanha de Hillary descobriu que Bill realmente esta tendo “um relacionamento estável” com uma mulher e fez um plano de contingência para lidar com o escândalo, se vazasse para a imprensa.
O livro Game Change e as revelações bombásticas dominaram os noticiários de TV, jornais e blogosfera no final de semana e ontem. Quando a reportagem do Estado foi à Barnes and Noble próxima à Casa Branca para comprar o livro, o vendedor disparou: “você e mais o resto de Washington vieram comprar esse livro hoje”. Segundo ele, tinha gente do lado de fora, esperando a loja abrir, para comprar seu exemplar.
Sarah Palin tampouco sai bem no livro. Segundo os autores, a vice na chapa do republicano John McCain tinha um tique verbal e cismava em chamar Joe Biden de Obiden, um mix entre Obama e Biden. Por isso, no debate entre os candidatos a vice, começou pedindo a Biden: posso chamá-lo de Joe? Na época, isso pareceu uma estratégia esperta para a candidata parecer mais despachada. Na verdade, era uma tática para evitar uma gafe e mesmo assim ela escorregou uma vez, deixando escapar um “senador Obiden”. No livro, os autores contam que Sarah teve de ser educada sobre todas as questões de política externa, e teve aulas de Primeira Guerra Mundial,Segunda e Guerra Fria com os assessores de McCain. De acordo com eles, ela não sabia nem porque existiam duas Coreias. Ontem, mesmo, Sarah anunciou que será a próxima comentariasta da TV Fox News, de direita.
Elizabeth Edwards é descrita como paranoica e violenta (e não como a heroica vítima de câncer que aparecia na campanha). Em um surto de fúria por causa do caso de seu marido, John Edwards, com Rielle Hunter, Elizabeth rasgou sua própria blusa no meio ede um estacionamento, enquanto gritava para John: “Olha para mim!”
A relação entre Joe Biden e Obama era péssima. Segundo o livro, os dois mal se falavam durante a campanha e Biden não podia participar das teleconferências com a cúpula. Depois de Biden ter cometido a gafe de dizer que, em seus primeiros meses de governo, Obama enfrentaria uma crise internacional, Obama teria dito: “Quantas outras idiotices o Biden vai conseguir dizer?” Segundo os autores, Obama era chamado de “Jesus negro” pelos integrantes da campanha.
Para fazer o livro, os autores entrevistaram 300 insiders políticos, a maioria em “deep background”, ou seja, super em off, como faz o jornalista Bob Woodward. Woodward é autor de três livros sobre os bastidores do governo Bush (além de ser um dos autores do furo sobre o escândalo de Watergate). Os autores (assim como Woodward) são acusados de usar muitos rumores no livro, além de “entrar na cabeça” das pessoas, para supostamente dizer o que estavam pensando.
08.01.10
Lendo o relatório de seis páginas divulgado ontem pela Casa Branca e os briefings do departamento de Estado e outras "autoridades" sobre a tentativa de atentado do nigeriano terrorista da cueca, só consigo chegar a uma conclusão: não sei como não explodiram nenhum avião. Ai que medo de embarcar.
Numa boa - você não acharia estranho alguém embarcar na Nigéria, com rumo aos EUA, comprando passagem só de ida, pagando em dinheiro e não despachando nenhuma bagagem?
Não valeria a pena checar mais se o pai do sujeito tivesse ligado para a embaixada americana na Nigéria e dito : meu filho esteve no Iêmen e está em contato com extremistas? o pai se encontrou até com agentes da CIA para alertar sobre o filho.
Ao mesmo tempo, em algum lugar da base de dados eficientíssima dos EUA, constava que um nigeriano estava sendo treinado pela Al Qaeda no Iêmen. E , em algum outro lugar da base de dados, constava que a Al Qaeda no Iêmen planejava atacar alvos americanos.
Para completar, a Grã-Bretanha revogara o visto do sujeito porque ele queria um visto de estudante para uma faculdade inventada.
Mas o departamento de Estado, ao investigar o nigeriano, "soletrou errado" o nome do sujeito - e, como resultado, não descobriu que ele tinha visto americano, e não cancelou o dito.
Quer dizer: tudo isso não foi suficiente para alguém nos Estados Unidos dizer "esse cara não pode entrar no avião".
Ou seja, tem velhinha de Taubaté que não pode entrar nos EUA porque foi confundida com terrorista e está na lista de proibidos de voar, ou precisa enfrentar horas de interrogatórios na imigração. Mas o cidadão Abdulmutallab, acima de qualquer suspeita, embarca numa boa.
Algumas coisa está muito errada nesse sistema de "unir os pontos" da inteligência.
05.01.10
Voar da Europa para os Estados Unidos se transformou em um transtorno. Vindo de Portugal, passei 2 horas na fila da segurança dentro do portão de embarque – ou seja, depois de meia hora na primeira fila da segurança, antes de ir para os portões, passei outras duas horas em uma segunda fila.
O voo, obviamente, saiu mais de uma hora atrasado.
“As companhias aéreas precisam pedir aos passageiros que venham pelo menos três horas antes do embarque, e cheguem ao portão duas horas antes”, disse-me um dos portugueses responsáveis pela segurança. “Desde o dia 25, todos os voos para os EUA estao saindo atrasados.”
Mas não posso reclamar da gentileza e atenção dos funcionários, tanto em Portugal como nos Estados Unidos. Na imigração em Newark, estavam especialmnente simpáticos.
Não podem dizer o mesmo os cidadãos dos 14 países da lista negra americana, que serão sujeitos a regras mais estritas: Cuba, Irã, Sudão, Síria, Afeganistão, Argélia, Iraque, Líbano, Líbia, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita, Somália e Iêmen. (aliás, estranho incluir Cuba e excluir Egito, de onde vêm muitos extremistas).
Uma grande amiga, jornalista libanesa, já se preparava para enfrentar sua condição de cidadã de segunda classe nos aeroportos americanos. “Eu volto na sexta-feira do Líbano, e estou chateada; é deprimente estar na lista dos 14 países”, ela me disse. “Além disso, acho que se trata de uma lista idiota, só para as autoridades dizerem que estão fazendo alguma coisa.”
27.12.09
Graças ao nigeriano que tentou se explodir no voo 253 Northwest Airlines de Amsterdam para Detroit, usando líquido explosivo e seringa escondidos em sua cueca,em breve todos teremos de voar usando fraldas.
Peguei um voo do Rio de Janeiro para Washington na noite do dia 25, logo depois da tentativa de atentado do terrorista da cueca.
Aparentemente, tudo estava normal. Raio Xis nas malas e uma revista antes de entrar no avião.
Mas a duas horas de pousarmos, ficou claro que o terrorista da cueca, o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, seria para sempre lembrado por todos que viajam de avião. Da mesma maneira que o terrorista do sapato – depois que Richard Reid tentou explodir uma bomba em seu sapato em dezembro de 2001, todos os passageiros passaram a ser obrigados a tirar os sapatos no aeroporto.
“Queremos avisar que teremos alguns procedimentos de segurança adicionais no voo, e pedimos desculpas pelo incômodo” – informou o comandante da United Airlines. “Dentro de 15 minutos, todos os banheiros da aeronave serão trancados. Ninguém poderá usar os banheiros sob hipótese alguma. Então, por favor, apressem-se.”
Eu pulei da cadeira. Afinal, todos os passageiros do voo teriam 15 minutos, e nenhum segundo a mais, para usar o banheiro. E eu estava apertada. Mas e se alguém tivesse dor de barriga? Paciência, os banheiros estarão trancados, informou-me a aeromoça.
Mas não parou por aí.
“Durante os sessenta minutos finais de voo, ninguém poderá deixar nenhuma bolsa ou objeto debaixo de seu assento. Se precisarem de seus óculos ou remédios, peguem agora, porque depois não poderão mais levantar de jeito nenhum. E nem poderão deixar travesseiros ou cobertores no colo. Iremos diminuir a potência do ar condicionado, para que vocês não passem frio”.
As regras da agência de segurança de transportes dos EUA tentam cercar todos os movimentos do terrorista da cueca.
Pouco antes de o avião da Northwest iniciar o procedimento de pouso em Detroit, o nigeriano Abdulmutallab foi ao banheiro, onde teria preparado seu explosivo líquido. Passou 20 minutos no banheiro. Voltou ao assento e disse estar passando mal do estômago, e se cobriu com a manta.
Pouco depois, um estouro e fogo foram vistos.
Graças a Deus, passageiros agiram para impedir o Abdulmutallab de concretizar seu atentado.
Mas o terrorista da cueca pode ser mais um a entrar para história de como viajar de avião foi se tornando insuportável por causa dos problemas de segurança. Ou melhor: Tire os sapatos e vista a fralda.
29.11.09
Pelo menos desta vez não morreu ninguém pisoteado na entrada de uma loja. Mas a orgia de consumismo que começa na chamada Sexta-Feira Negra, logo após o dia de Ação de Graças, continua assustadora.
Resolvi acompanhar de perto a sanha aquisitiva dos americanos na sexta de manhã cedinho. Na porta da Target, uma loja de departamentos, deparei-me com hordas de consumidores cheios de remela, mas felizes.
Era gente como como a estudante universitária Camilla O’Neal, de 20 anos. Ela saiu de casa às 23h30 de quinta-feira para aproveitar as melhores ofertas da “sexta-feira negra”, o dia das maiores liquidações do ano nos Estados Unidos. Pegou uma carona com um amigo e à meia-noite já estava na fila, esperando a loja de departamentos Kmart abrir. Lá, comprou dois pares de sapatos, um pijama, um videogame e dois brinquedos. Camilla voltou para casa às 2h30 da manhã, mas a maratona estava apenas começando. Às 7h, ela acordou e pegou o metrô até a Target, outra loja de departamentos. Esqueceu de tirar o pijama, aparentemente. Encontrei-a na porta, onde ela me mostrou, triunfante, o assento massageador que comprou por US$ 35, desconto de 40%, e um forninho por US$ 16,99, desconto de 50%. “Só gastei US$ 300 e já fiz todas as compras de Natal”, comemorava.A poucos passos dali, o cozinheiro Hernan Sandoval também estava com uma cara de cansado, mas contente. Ele foi um dos poucos felizardos a comprar uma TV de plasma de 31 polegadas por US$ 300 – elas se esgotaram em 4 minutos na Target. Ele aproveitou e levou outra TV de plasma, essa de 46 polegadas, por US$ 800.
No ano passado, o segurança de um Wal Mart do Estado de NY morreu pisoteado às 5h da manhã, quando 2 mil pessoas se espremeram para entrar na loja. Neste ano, foram adotadas várias medidas de segurança para evitar tragédias como essa. Resolveram distribuir pela loja os chamados “doorbusters”, as super ofertas que normalmente ficam perto da porta e levam consumidores a literalmente saírem no tapa pela mercadoria. O Wal Mart ficou aberto 24 horas, em vez de só abrir às 5h – assim evitou-se o tumulto na porta.
Até a AAA, a associação dos automóveis americanos, lançou um guia chamado “Dicas para evitar ser pisoteado por consumidores descontrolados”. Uma das dicas é: se você cair, não fique deitado de costas ou de bruços, fique enrolado como uma bola e tente se arrastar na direção da multidão. “Mas o melhor mesmo é fazer compras acompanhado, porque se você for derrubado pela multidão, alguém estará lá para ajudá-lo”, diz o guia.
Para os menos intrépidos, amanhã é o melhor dia de compras – a Ciber Segunda-Feira, quando os varejistas online fazem promoções monumentais – e ninguém corre o risco de ser pisoteado ou levar uns tapas por causa de um Zhu Zhu Pets Hamster, o hamster robô que está em falta nas lojas (e sai US$ 55)..
A grande pergunta dos economistas é : será que esse vai ser o Natal do Snuggie ou do GPS? Muitos analistas acham que os americanos voltaram as lojas, mas só estão comprando quando há promoções, de olho no orçamento. Muitos vãos se ater a presentes baratinhos ou necessários, como casacos, os famigerados Snuggies – o cobertor “vestível” que é a estrela dos comerciais de TV (e agora ganhou uma versão canina, por US$ 7,99) – e outras bugigangas. Na outra ponta, alguns já estão se aventurando a comprar itens mais caros como GPSs, TVs de telas plana, o Rock Band dos Beatles.
Olha, eu não sei se vou de Snuggie ou de Rock Band dos Beatles. Mas certamente não vou encarar turbas enlouquecidas aqui nos EUA (ou estacionamentos infernais nos shoppings no Brasil). Vou comprar pela internet.
22.11.09
O jornal americano Washington Post publicou hoje uma entrevista com a pré-candidata do PV à presidência, a senadora Marina Silva. Com o título “A guerreira da Amazônia conquista o mundo”, a entrevista diz que Marina será a “filósofa-ativista” não-oficial da reunião climática de Copenhagen, no mês que vem, mas não menciona em nenhum momento a pré-candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente. Marina se mostrou pessimista em relação às perspectivas de algum tipo de acordo em Copenhagen.”Não é muito promissor o que se conseguiu de consenso até agora, nos encontros que precederam Copenhagen”, disse a senadora. “O que os líderes concordaram em fazer não é suficiente.”
Marina se disse “entusiasmada” com a tramitação da lei climática no Congresso americano, apesar de a legislação ainda não ter sido votada pelo Senado. “O fato de mudança climática estar de novo na agenda dos EUA é tremendamente importante, depois de o país ter estado ausente das negociações internacionais por 10 anos”, ela disse. “Mas eu reconheço que não ter uma lei climática aprovada pelo Senado cria um problema.” O presidente Barack Obama, ao lado do chinês Hu Jintao. É um dos poucos líderes que não confirmou presença em Copenhagen, em parte proque se arrisca a chegar de mãos vazias.
Marina disse ao jornal americano que trabalhou e viveu com Chico Mendes, “dividimos amizade e parceria” “Se ele estivesse vivo, iria concordar que avançamos muito”, disse. “Mas ele também iria concluir que nossos esforços estão muito aquém do que o que o planeta necessita.”

17.11.09
A palavra do ano, eleita pelo New Oxford American Dictionary, é “unfriend”, ou desamigar, em tradução canhestra.O neologismo vem do Facebook – onde você pode “desamigar” seus amigos, excluindo-os de sua lista. Ou não – há grandes discussões filosóficas sobre a etiqueta de se rejeitar um amigo do Facebook.
Mas os neologismos do ano não se resumem a perfumarias facebookianas. Duas palavras entraram para valer no léxico político americana e foram “finalistas” na lista do Oxford– death panels e birthers.
O death panels (painéis da morte) surgiram no calor da discussão da reforma do sistema de saúde americano. Segundo detratores da reforma, o novo sistema proposto por Obama vai criar “painéis da morte” que decidirão quem merece receber atendimento médico e sobreviver. Sarah Palin foi uma das maiores divulgadoras da palavra nova, o que dispensa maiores explicações.
Já os birthers são os lunáticos conspiratórios que duvidam da autenticidade da certidão de nascimento do presidente Barack Obama – eles têm certeza de que Obama nasceu npo Quênia e, por não ser cidadão americano, não pode ser presidente.Outra palavra que se tornou onipresente é netbook – os laptops superportáteis, com memória limitada, são uma inovação que entrou nos nossos “dicionários” e lojas neste ano.
E um neologismo polêmico é sexting, como foi batizada a moda entre adolescentes de mandar pelo celular fotos deles mesmos, pelados. Faltou um neologismo para definir em uma palavra “gente que não tem mais o que fazer”, que valeria tanto para os birthers, como para os unfrienders e os sexters.
10.11.09
A relatora especial da ONU para o direito à moradia, a brasileira Raquel Rolnik, passou 18 dias em sete cidades dos Estados Unidos e encontrou uma situação digna de terceiro mundo. “Fiquei assustada com a situação da moradia nos Estados Unidos”, disse Raquel, que também é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
Ela já vinha pesquisando o problema da moradia nos EUA há tempos e esperava se deparar com os estragos da crise das hipotecas subprime. Mas encontrou coisa pior: gente morando em carros, muitos moradores de ruas em “cidades de barracas”, famílias inteiras sem-teto, apartamentos superlotados, com três famílias. “É muito difícil achar moradia acessível, as pessoas estão gastando 80%, 90% da renda com aluguel ou parcela do financiamento”, disse Raquel. “Quando a crise chegou, grande parte da moradia pública tinha sido demolida e não foi substituída em números suficientes.”
Ela esteve em Washington, Nova York, Wilkes-Barre, Chicago, New Orleans, Los Angeles e na reserva indígena Pine Ridge.
A ONU tenta desde 2005 enviar um relator para a moradia para os EUA, mas vinha sendo ignorada pelo governo Bush. Só agora, no governo Obama, mais aberto à atuação de instituições multilaterais como a ONU, é que a relatora recebeu sinal verde.
A direita americana esperneou. Um editorial do jornal conservador Washington Times disse que a visita de Raquel era parte da “usurpação gradual da soberania americana.”e perguntava porque ela não ia pesquisar a moradia no Brasil
“Ela deveria voltar para o lugar de onde saiu”, dizia o editorial. “A culpa burocrática de Miss Rolnik deveria ser dirigida ao Brasil, onde 28,9% da população urbana vive em favelas.”
“É claro que de forma absoluta, o problema da moradia é mais grave nos países em desenvolvimento”, disse Raquel. “Mas, de forma relativa, é igual - nos EUA, são milhões de pessoas sem acesso à moradia, no país mais rico do planeta.”
A relatora da ONU diz ser muito difícil comparar Brasil e EUA. Os EUA tiveram, por muitos anos, uma política de moradia abrangente, que foi sendo desmantelado desde o governo Reagan. O país está em uma trajetória descendente, só amenizada por algumas medidas recentes do governo Obama, ela diz.
Já o Brasil, explica Raquel, nunca deve uma política de moradia popular em grande escala. Eram sempre iniciativas da própria população – favelas, loteamentos irregulares – que então eram substituídas por COHABs ou Cingapuras, mas em escala muito menor.
Raquel está preparando um relatório sobre tudo o que viu nos EUA. Ela visitou projetos de habitação do governo, bairros com muitas casas em execução de hipoteca, locais onde se concentram moradores de rua e as chamadas tent-cities, que reunem sem-teto em barracas. Também promoveu assembléias com moradores e reuniu-se com representantes de ONGs, além de integrantes do governo Obama. Em março, ela apresenta seu relatório diante do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.
01.11.09
Como diria o jogador de beisebol Yogi Berra, versão estadunidense do nosso saudoso Vicente Mateus, é “déjà vu tudo de novo”.
Há 45 anos, o historiador Richard Hofstadter publicava na revista Harper um ensaio que se tornou um clássico “O estilo paranoico na política americana”. Em plena guerra fria, quando o ultra-conservador Barry Goldwater havia acabado de vencer a primária republicana, Hofstadter descreveu como a histeria de direita tinha tomado conta da política americana. Os radicais estavam sequestrando a agenda republicana, entre eles os lunáticos da John Birch Society, que viam comunistas até dentro da privada. Em comum, todos eles tinham uma predileção especil por teorias de conspiração – tudo era orquestrado secretamente, havia um inimigo oculto, estavam aí para persegui-los.
Quase cinco décadas depois, os malucos de extrema direita voltam a ter força e ser encarados como parte normal – ou a parte principal – do Partido Republicano. Veja o movimento dos “birthers” – eles têm certeza de que o presidente americano na verdade nasceu no Quênia.apesar de a Casa Branca ter mostrado a certidão de nascimento de Obama, que nasceu no Havaí. Até hoje, foram abertos doze processos alegando que Obama não é cidadão americano e, portanto, não pode ser presidente.
O que podia ser só um delírio de três doidos não morre. Com ajuda da internet, aliás, amplifica-se. Segundo Cass Sunstein, guru de behaviorismo econômico da universidade de Chicago e czar de regulação de Obama, trata-se de uma balcanização de informação digital ou ciberpolarização: como esquerdistas só frequentam sites e blogs de esquerda e só trocam ideias com esquerdistas, eles ficam cada vez mais radicais – e o mesmo vale para os direitistas
.As alas mais radicais do partido republicano são encabeçadas por Glenn Beck, o apresentador da Fox News que acusa Obama de “não gostar de gente branca”, Sarah Palin, que dispensa apresentações, o eterno Rush Limbaugh, o mais popular radialista de direita, Michelle Malkin, outra figurinha carimbada entre os comentaristas. Essa tropa de choque da extrema-direita tomou conta da agenda republicana e está esmagando as vozes moderadas. Republicanos que eram apenas fiscalmente conservadores, pró-business e a favor de menor intervenção do governo na economia – ou seja, uma ala moderada – estão sendo sufocados por essa facção mais estridente, paranoica.
As manifestações dos “tea parties”, que reuniram dezenas de milhares de pessoas em Washington e outras cidades, e as assembleias sobre a reforma da saúde, transformaram-se no “mainstream” do conservadorismo. É gente que chama Obama de nazista, fascista ou comunista, dependendo do humor; diz que o país está se desamericanizando por causa do aumento da população hispânica, acusa o presidente de fazer lavagem cerebral nas crianças ao falar em rede nacional para as escolas; nega-se a tomar a vacina contra gripe suína porque ela provoca autismo ou é uma trama do governo.
As teorias conspiratórias estão por todos os lados e tive uma amostra disso na situação mais prosaica.
Eu me sentei ao lado de um senhor no avião no voo de volta de Istambul, onde fui cobrir a reunião do FMI no início de outubro. Era um senhor de uns 70 anos, que me contou ter emigrado da Alemanha para os EUA há 50 anos. Papo vai, papo vem, ele me conta que faz parte da John Birch Society e dá palestras por lá sobre fatos distorcidos pela imprensa.
“Os jornais distorcem tudo, não ficamos sabendo das coisas reais ao ler a grande imprensa”, ele me disse.
Bom, até aí não discordo completamente, pensei comigo.
O senhor começou me contando sobre os piratas somalis, que tinham motivos para sequestrar pessoas. “Afinal, estão sendo inundados por contêineres cheios de lixo nuclear.”
Depois, ele me contou sobre o globalismo – essa proposta mundial de acabar com os países e ter apenas um governo global, com um presidente que mandaria em todos e eliminaria as nacionalidades.
“Eu não sei se esse presidente é o Obama – mas muita gente acha que sim.”
Comunistas, globalistas, é “déjá vu tudo de novo”.
15.10.09
Até poucos meses atrás, a principal função do vice-presidente Joe Biden era manter os humoristas americanos empregados. O presidente Barack Obama rendia pouco para os comediantes, mas Biden e suas gafes compulsivas eram material farto. Agora, longe de ser apenas matéria-prima para piada, o vice-presidente está se tornando uma voz cada vez mais importante na Casa Branca. Com sua ampla experiência em política externa e inúmeras visitas ao Iraque e Afeganistão, Biden tem sido mais ouvido pelo presidente Obama.
Ele não teve muita ressonância em março, quando expôs pela primeira vez suas ressalvas em relação a uma escalada de tropas no Afeganistão. O vice-presidente propôs que os EUA se foquem em operações de antiterrorismo contra a Al Qaeda, em território afegão e no vizinho Paquistão – e não reduza o número de tropas, mas também não envie mais soldados, como quer o comandante Stanley McChrystal. Mas agora, ele não é mais o único a questionar a estrtaégia de contra-insurgência no Afeganistão – e tem sido ouvido mais atentamente por Obama.
Uma reportagem do Washington Post chegou a comparar Biden com o ex-presidente Dick Cheney, por sua crescente influência. Biden ainda está longe de ter o status de “poder paralelo” que tinha Cheney, mas definitivamente está sendo levado mais a sério.
Sua atuação não se restringe às guerras do Afeganistão e Paquistão. Sua necessidade de dizer o que pensa – que muitas vezes o levou a incontinências verbais – passou a ser um ativo. Enquanto Obama é mais quieto e gosta de ouvir, Biden costuma fazer muitas perguntas e expor o que pensa. A dupla faz a dinâmica “good cop – bad cop” enquanto Obama banca o bonzinho, Biden fala grosso.
Além disso, Obama valoriza a capacidade de Biden de discordar dele – o presidente sempre disse que não queria se cercar de puxa-sacos.
Mas sua lealdade não está nunca em dúvida, apesar de os dois não serem particularmente próximos. Têm personalidades muito diferentes – Biden fala pelos cotovelos e é caloroso; Obama é cool, ouve mais que fala e tem as emoções sob controle.
13.10.09
A revista GQ acaba de publicar a lista das 50 pessoas mais poderosas de Washington (fora aquelas que têm sobrenome Obama ou Biden, claro). No topo da lista está o chefe-de-gabinete cum leão de chácara e negociador mor de Obama, Rahm Emanuel. Chamado de Rahmbo por motivos óbvios, Emanuel é conhecido por seu extraordinário tino político, sua predileção por exepressões de baixo calão, e por ter presenteado um analista que o irritou com um peixe morto.
Antes de assumir o posto, Emanuel estava na fila para ser o próximo presidente da Câmara. Ele trabalhou para os Daley em Chicago e, por 5 anos, foi assessor do ex-presidente Bill Clinton. Emanuel, que mede menos de 1,65 m, fazia balé na adolescência, tem três filhos comn a esposa que conheceu em um blind date, e perdeu o dedo do meio cortando carne no Arby’s, na adolescência. “Ele ficou praticamente mudo depois do acidente”, brincou Obama.
Em segundo lugar vem o secretário de Defesa Robert Gates, que foi nomeado por George Dábliu Bush mas conquistou a confiança de Obama. Gates supervisiona duas guerras, no Iraque e Afeganistão, e um orçamento de US$ 555 bilhões. Ele é seguido por Ben Bernanke, presidente do Fed. Em quarto lugar está Max Baucus, líder do comitê de Finanças do Senado, essencial para aprovar a reforma da saúde, a lei climática, e outras. David Axelrod, principal assessor e estrategista de Obama, está em sexto lugar.
Em sétimo lugar, empatados (colocação que deve ter levado à economia de várias agulhas de voodoo), estão o secretário do Tesouro, Tim Geithner, e o diretor do conselho Econômico da Casa Branca, Larry Summers. Depois vem Nancy pelosi, a ultra-esquerdista presidente da Câmara, seguida de – pasmem- Dick Cheney, o ex-vice presidente e aspirante a Darth Vader que continua a assombrar Washington. Hillary Clinton, secretária de Estado, está lá embaixo, em 18º lugar. Reggie Love, o bonitão que é assistente pessoal do Obama, vem em 38º lugar.
O link do ranking: http://www.gq.com/news-politics/politics/200911/50-most-powerful-people-in-dc
30.09.09
Em primeiro lugar, quero pedir desculpas pela ausência. Os últimos dias foram enlouquecedores - direto da Cúpula do G-20 em Pittsburgh para a reunião anual do FMI em Istambul. Para vocês terem uma idéia da confusão mental, hoje fui barrada aqui na porta do centro de convenções.
- Sua credencial não serve...
E eu, já preparada para discutir, dou uma olhada na dita credencial. Tinha pendurado no pescoço a credencial de Pittsburgh e deixei a identificação do FMI no hotel. (está certo que só perceberam no terceiro check-point....)
Mas chega de digressões.
O anfitrião da reunião do Fundo deste ano é a Turquia, que por muito tempo foi o principal cliente do Fundo. Aliás, era um dos únicos "ganha-pão" do fundo até a crise eclodir, porque países como Brasil e Rússia haviam quitado todas suas dívidas com o FMI. Depois da crise, o Fundo voltou a ganhar relevância - e já fez programas com 15 países, inclusive um pacote de US$ 15 bilhões com a Hungria.
O fato é que a Turquia ser anfitriã da reunião é, digamos, deveras irônico. Faz mais de um ano que o Fundo e a Turquia não conseguem se entender. O país tinha um acordo de US$ 10 bilhões com o Fundo, que venceu em maio de 2008. Pouco tempo depois, começou a negociar um novo pacote. Mas o governo turco não quer nem ouvir falar nos chamados remédios amargos do Fundo: austeridade fiscal, reforma na arrecadação de impostos, superávit primário.
Para sair da crise – que pegou a Turquia de jeito, derrubando a atividade em 14,3% no primeiro trimestre deste ano – o primeiro-ministro Erdogan implementou uma série de pacotes de estímulo, como fizeram outros países. Tinha até isenção de impostos para venda de veículos, a exemplo da isenção de IPI no Brasil. Os pacotes de estímulo funcionaram, e o consumo reaqueceu, amenizando a crise. Mas o buraco fiscal cresceu, e muito. A Trquia passou de uma meta de superávit primário de 6,5% para um déficit primário (sem incluir desepesas com juros) de 2,2% neste ano.
O FMI está mais flexível. Não só nos países que foram aprovados para a nova linha flexível, México, Polônia e Colômbia, por terem políticas macroeconômicas sólidas. Outros países que fecharam acordos tradicionais, como Hungria, conseguiram termos bem menos draconianos que os exigidos nos antigos empréstimos do FMI.
Mas existe um limite. E é aí que o governo turco e o FMI não se entendem.Vamos ver se a bela paisagem de Istambul ajuda.
21.09.09
A decisão do presidente Barack Obama de cancelar o programa antimísseis de seu antecessor, George W Bush, no leste europeu, é um duro golpe contra a Boeing. A Boeing é que ia fornecer os sistemas de mísseis interceptores baseados em terra, na Polônia . Em vez disso, a Casa Branca resolveu usar mísseis disparados de navios, os interceptadores SM-3, fabricados pela Raytheon, que usam controles eletrônicos produzidos pela Lockheed Martin. Com isso, fica ainda maior a pressão sobre o governo americano para emplacar a venda dos caças F-18 Super Hornet à Força Aérea Brasileira – embora o governo Lula já tenha indicado sua preferência pelos Rafale da francesa Dassault. O prazo para apresentação das propostas melhoradas para venda dos caças ao governo brasileiro acaba hoje.
A Boeing já tinha sido prejudicada no último orçamento do Pentágono. O secretário de Defesa, Robert Gates, cortou parte dos sistemas antimísseis baseados na Califórnia e Alasca – também produzidos pela Boeing.
Em um comunicado, a Boeing disse que vai continuar a desenvolver sua tecnologia de interceptores de mísseis. “Continuamos a cumprir as exigências que nosso cliente, a Agência de Defesa Antimísseis dos EUA e os legisladores americanos , determinarem para os sistemas de defesas antimísseis no país e no exterior”, dizia o comunicado.
O governo Obama optou pelos SM3 por serem mais adaptados a deter mísseis de curto e médio alcance do Irã. O sistema da Boeing é mais focado em defesa antimísseis intercontinentais.
No Brasil,o governo americano continua fazendo um lobby agressivo vender os caças da Boeing à Força Aérea. No dia 4 de setembro, o Congresso aprovou a transferência de tecnologia que era exigida pelos brasileiros, a pedido da secretária de Estado Hillary Clinton e do presidente Obama. Mas ainda se considera que os suecos Grippen NG da Saab e a Dassault, os outros concorrentes, oferecem tranferência de tecnologia mais abrangente. A proposta melhorada da Boeing será entregue hoje.
12.09.09
Eu acordei hoje como se fosse um sábado qualquer, mas descobri que estava em uma outra dimensão assim que pus os pés na rua. Bem na frente do meu apartamento,uns três ônibus estavam estacionados – e deles saía uma corrente de gente com placas, faixas, fantasias bizarras e bandeiras dos Estados Unidos , muitas bandeiras.
Isso era só o começo.
Na avenida Pensilvânia, aquela que vai do Capitólio, onde fica o Congresso, até a Casa Branca, um mar de gente estava protestando.
Vi depois no Washington Post que eram "pelo menos 40 mil pessoas", organizados por entidades conservadoras como FreedomWorks (contra refortma do sistema de Saúde), Tea Party (contra aumento de imposto) e Resist Net (contra expansão do governo em geral).
“Obama mente e a vovó morre”, dizia uma faixa.
“Joe Wilson para presidente” (Wilson éo congressista da Carolina do Sul que interrompeu o discurso de Obama no Congresso, na quarta-feira, gritando – voce mente!)
Fox News número um
O governo é o problema, não a solução (parafraseando Reagan)
Eu já era contra o Obama antes de entrar na moda
Eu sobrevivi à Roe vs Wade (uma menina levava esta placa, que se refere à lei que permitiu o aborto)
Por favor rezem pela América
Chega de impostos
Não levem o futuro de nossos filhos à bancarrota com o déficit
Abaixo plano de saúde para imigrantes ilegais
Muitos se aproximavam da Sarah, minha cachorra, para fazer um agrado – e perguntar se eu não queria uma faixa.
Era gente do Michigan, Nova Jersey, Geórgia, Texas, Nebraska.
“Não sou republicana, sou independente. Não aguento mais esse pessoal aumentando imposto, nosso déficit vai explodir”, disse-me uma senhora de New Jersey.
“Seu cachorro é manso?”, perguntou-me um menino de uns 8 anos, do Michigan, com uma faixa de “No more Obama”.
“Sim, é um pouco tímida, mas é mansa sim”, respondi.
“E você votou no Obama?”, disparou.
“Não , eu não voto.”
Ele me olhou um pouco desconfiado e foi embora com mais dois amiguinhos gritando “Nobama!”
Um homem andava orgulhoso com sua camiseta de Obama retratado como o Coringa,com o título “socialista”. Ele, e muitos outros, levavam uma faixa “Bury Obamacare with Kennedy (enterrem o reforma de saúde de Obama junto com Kennedy)”.
O senador Ted Kennedy era o maior defensor da reforma do sistema de saúde, apelidada de Obamacare pelos conservadores. Kennedy morreu no final de agosto de câncer no cérebro.
Parece estar ganhando força a onda de revolta das assembléias de eleitores de agosto, em que muitos protestaram agressivamente contra a reforma do sistema de saúde.
A maioria silenciosa resolveu contra-atacar, respondendo às multidões que saíram às ruas no ano passado para eleger Obama. Richard Nixon cunhou (ou talvez não tenha cunhado, mas tornou famoso) o termo “maioria silenciosa”, para se referir ao grande número de americanos que não estavam protestando contra a guerra do Vietnã, não apoiiavam a revolução contracultural dos anos 60, e eram apenas americanos pacatos que queriam estabilidade.
Uma das faixas me deixou pensando nisso.
“Extremista de direita, e com orgulho: acredito em Deus, na América e nos Militares”, dizia a faixa, carregada por uma mulher loira de uns 40 anos.
A maioria silenciosa começou a fazer barulho. Resta ver se é apenas um bando de extremistas, os mesmos que pintavam bigode de Hitler nas fotos do Obama nas assembléias de eleitores em agosto. Ou se estamos presenciando um movimento contra o aumento da intervenção do governo que pode ganhar força e derrubar muitos dos planos dos democratas.

03.09.09
Durante os últimos meses, o maior medo dos economistas e formuladores de políticas nos Estados Unidos era mergulhar em uma reedição da Grande Depressão de 30. Agora, o grande fantasma é o ano de 1937.
O Fed e a Casa Branca estão sendo pressionados para revelar sua "estratégia de saida". O Tesouro e o Fed adotaram medidas audaciosas e heterodoxas, com um aumento sem precedentes da liquidez, juros perto de zero e expansão do balanço do
Banco central.
Mas agora republicanos e democratas moderados começam a clamar por uma estratégia de saída. Está na hora de começar a normalizar a política monetária e fiscal, já que o desastre foi evitado. O déficit do orçamento deste ano será de US$ 1,58 triilhão, o equivalente a 11,2% do PIB. A única vez em que os EUA tiveram um déficit dessa magnitude foi durante a Segunda Guerra Mundial. Inflada pelos pacotes de estímulo à economia e resgates de bancos, a dívida do país já corresponde a 56% do PIB, primeiro ano em que o endividamento americano ultrapassará os 50% do PIB desde a Segunda Guerra.
Esse caminho é insustentável e precisa ser revertido, alerta parte dos economistas. Esse descontrole fiscal e monetário só pode levar a inflação e desvalorização do dólar. É preciso começar a enxugar.
Mas e aí que entra o fantasma de 37. Em 1933, a economia americana começava a se recuperar de uma das maiores recessões da história. Mas o governo de Franklin Delano Roosevelt começou a manobrar para trazer o orçamento de volta para o azul e enxugar a liquidez, revertendo alguma das medidas de emergência que havia adotado. A estratégia saiu pela culatra. O aperto acabou abortando o crescimento que começava a se recuperar. Em 1937, a economia voltou a desabar. A tentativa de equilibrar o orçamento levou a uma depressão em dábliu – a economia começou a melhorar, voltou a piorar bruscamente, para só depois emergir.
A mesma coisa ocorreu no Japão nos anos 90.
O governo Obama não quer repertir este erro. Ainda é muito cedo para se livrar das muletas. "O que aprendemos com o episódio de 1937 é que não basta estar se recuperando”, diz Christina Romer, diretora do Painel de Conselheiros Econômicos da Casa Branca (e estudiosa da Grande Depressão, como o presidente do Fed, Ben Bernanke). "Não queremos fazer nada que breque a recuperação.” Mas a turma da austeridade fiscal não está tão certa disso. E acredita que a hora é agora para evitar um surto inflacionário.
É essa a encruzilhada da política monetária e fiscal americana.
Patrícia Campos Mello é correspondente do Estadão em Washington desde 2006. Ela cobriu toda a campanha que culminou na eleição de Barack Obama, em 2008, e passou um mês no Afeganistão "embedded" com as tropas americanas. Patrícia é formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo e tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. Ela é autora de dois livros: "O mundo tem medo da China", editora Mostarda, e "Índia - da Miséria à Potência", editora Planeta.
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