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10.09.06

por Patricia Campos Mello, Seção: Índia, BRICs 13:54:12.

O governo indiano está construindo modernas Express Highways para substituir as horrendas estradas que cortam o país (a que vai de Delhi para Agra, onde fica o Taj Mahal, é uma Cuiabá-Santarém no pior pedaço, e ainda vem com vacas, riquixás e cabras de brinde). Estive em uma das novas estradas - a que liga Mumbai a Pune, cidade onde fica uma fábrica enorme da Tata Motors (a Gurgel indiana que deu certo). É excelente a estrada, de concreto, maravilhosa. Espero que continue esse plano de expansão das estradas.

 


06.09.06

por Patricia Campos Mello, Seção: Índia 03:47:47.

1 - Estou contando. Anteontem, vi cinco indianos fazendo xixi no muro. Ontem, foram quatro. Hoje, já vi dois. Com suprema naturalidade, eles ficam de frente para o muro, abrem o zíper e fazem xixi, nas avenidas mais movimentadas.

2 - Ontem, vi dois 'pares' de homens andando de mãos dadas e três caminhando abraçados. Nesta sociedade altamente conservadora, os homens andam abraçados e de mãos dadas, mas não vi nenhuma demonstração pública de afeto entre homens e mulheres.

3 - Tive que enfrentar o temível banheiro oriental, desafio que eu já tinha vivido na China e na Tailândia. Trata-se de uma privada que, na realidade, é apenas um buraco no chão. É preciso ficar agachada para fazer xixi. Ah, não tem papel higiênico. Tem um balde com um copinho. Obs: esse é o banheiro da Hindustan Aeronautics, uma das maiores indústrias aeroespaciais do mundo.

4- Tenho um novo motorista, o hindu Hanumman Thappa. Ele tem uma imagem de Ganesha com várias flores dentro do carro. Não consegui descobrir se ele é bacana como meu motorista de Hyderabad - Thappa fala muito pouco inglês e não gesticula de forma eficiente. Sua comunicação verbal vem apenas na forma de arrotos - ele arrota o tempo inteiro dentro do carro.

ALERTA: não estou fazendo nenhum julgamento de valor, estou apenas descrevendo hábitos que causam estranhamento a uma brasileira (da mesma forma, os indianos podem se sentir chocados ao ver casais se beijando em público em São Paulo, mulheres andando de micro-saia e homens cuspindo no chão)

 


05.09.06

por Patricia Campos Mello, Seção: Índia 11:21:59.

foto Patricia Campos Mello

Poucas semanas atrás, a polícia indiana descobriu 50 fetos mortos, todos do sexo feminino, dentro de um poço no Punjab, uma das regiões mais ricas do paísa. o poço era bem ao lado de uma clínica.

A localização não é mero acaso: o governo aprovou uma lei em 1994 proibindo o uso de exames de determinação do sexo do bebê, a não ser em casos específicos. Apesar disso, muitas clínicas oferecem esses exames, juntamente com os abortos de fetos do sexo feminino.

Os indianos preferem ter filhos homens para não precisar pagar os dotes do casamento. Ainda é prevalente na Índia o costume do dote, e muitas famílias não conseguem pagar dote para casar várias filhas.

Em seu livro mais recente, "The Argumentative Indian", o economista indiano Amartya Sen, vencedor do Nobel, calcula, baseado em várias pesquisas, que exista um déficit de mais de 100 milhões de mulheres na índia e China, países que mais praticam esses abortos seletivos.

Em alguns estados, chegam a nascer apenas 700 mulheres para cada 1000 homens. Ele afirma que a desigualdade entre os os sexos é uma das grandes barreiras para o desenvolvimento.

 


03.09.06

por Patricia Campos Mello, Seção: Índia 12:04:32.

Em meu último dia em Hyderabad, fui almoçar com Khaja Mohiuddin, meu super motorista-tradutor-descolado. Ele me indicou o restaurante que, supostamente, serve um dos melhores biryanis da cidade, espécie de risoto típico. Eu o convidei para almoçar, é claro.

Comemos o tal biryani e pedimos uma sobremesa. Eis que, de repente, Mohiuddin olha para trás e começa a gritar: Bin Laden!!! Bin Laden!!!

Fiquei petrificada. Meu Deus. Por que ele está chamando o Bin Laden?

"Madam, estou só pedindo a conta para o garçom", explicou.
Fui descobrir que Bill Lade (grafia adaptada), em hindi, quer dizer traga a conta - e é motivo de várias piadas envolvendo presidentes americanos.

 


31.08.06

por Patricia Campos Mello, Seção: Índia, BRICs 11:32:15.

Hyderabad, capital do Estado de Andhra Pradesh, aqui na Índia, é um centro mundial de indústrias farmacêuticas e de tecnologia. Visitei hoje a Satyam, uma das chamadas Big Four de TI indianas(as outras são Wipro, Infosys e Tata Consultancy Services). A Satyam tem 30 mil funcionários, sendo 85% engenheiros ou programadores, está em mais de 50 países e fatura US$ 1 bilhão. O campus da Satyam (sim senhor, é chamado de campus e é igualzinho a uma faculdade Ivy League dos EUA)é maravilhoso, tem até zoológico. "Trabalhar em um ambiente agradável, bonito, com muito verde, aumenta a produtividade dos nossos funcionários", explica o diretor de marketing da Satyam.
Pena que, saindo desses parques tecnológicos, o mundo seja bem diferente. Uma notícia no jornal The Hindu nos informa que ainda vai levar 10 anos para que todos os habitantes da cidade de Hyderabad tenham água potável todos os dias. Segundo o secretário de administraçao da cidade, Hyderabad nao tem recursos suficientes para fazer o investimento na infra-estrutura.
Passando pelas estradas caóticas, outdoors oferecem ventiladores de teto à prova de falta de luz (devem ser movidos a pilha, imagino eu). Os blecautes são comuns, ent'ao muitas lojas têm um mini-gerador na porta.

 


24.08.06

por Patricia Campos Mello, Seção: Índia 18:29:53.

Olha aí a oportunidade exportação pro guaraná Jesus e para a Tubaína:
sete Estados da Índia proibiram a venda de Coca-Cola e Pepsi-Cola em escolas, universidades e repartições públicas. Segundo autoridades desses Estados, as bebidas estão contaminadas com pesticidas. O ministério da Saúde indiano afirmou que não havia contaminação nas bebidas, mas os Estados estão irredutíveis. No Estado de Kerala, o veto às bebidas é total e as autoridades chegaram a pedir que as fábricas de Coca e Pepsi fossem fechadas.
PS - O maranhense Jesus virou um hit tão grande que foi comprado pela Coca-Cola em 2001

 


16.08.06

por Patricia Campos Mello, Seção: Índia 19:42:47.

Não se trata de preciosismo higiênico. Viajar 36 horas sem poder escovar os dentes não é trivial.

Estou prestes a embarcar para a Índia, via Heathrow Airport de Londres, e já me preocupo com as provações sanitárias pelas quais vou passar.

malinha

Com todas essas novas medidas antiterrorismo, adotadas desde que a polícia britânica impediu o atentado das bombas líquidas, viajar de avião se tornou quase insalubre. Quer escovar os dentes? não pode levar pasta. Nenhum item de higiene de consistência pastosa, líquida ou intermediária será admitido na mala de mão.

Por outro lado, está aí uma oportunidade de negócios. Vão prosperar empresas que lançarem batons, pastas de dentes e hidratantes desidratados - tipo comida de astronauta.

Sem falar que será impossível fazer aquela malinha de emergência, com uma muda de roupa, para a eventualidade (bastante comum) de ter sua bagagem extraviada. Só vão admitir a bordo dos vôos uma única pequena maleta, nas dimensões de um lap-top. E só.

Como da última vez que fui pra Índia perderam minha mala (e passei 10 dias fazendo entrevistas de bata indiana e outros figurinos locais), estou um pouco preocupada. E pensar que eu reclamava da sovinice da Gol e suas barrinhas de cereal.

 


 

Patrícia Campos Mello é correspondente do Estadão em Washington desde 2006. Ela cobriu toda a campanha que culminou na eleição de Barack Obama, em 2008, e passou um mês no Afeganistão "embedded" com as tropas americanas. Patrícia é formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo e tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. Ela é autora de dois livros: "O mundo tem medo da China", editora Mostarda, e "Índia - da Miséria à Potência", editora Planeta.





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