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07.02.10
Tudo começou com um repórter à beira de um ataque de nervos, em cadeia nacional. “Nós não queremos subsidiar as hipotecas dos fracassados! Quem quer pagar a hipoteca do vizinho que resolveu ter um banheiro a mais, e não conseguiu pagar? Ninguém! O senhor está ouvindo, presidente Obama? Vamos fazer um Tea Party em Chicago!” O vídeo de Rick Santelli da rede CNBC, esperneando contra impostos e programas de estímulo do governo Obama, tornou-se sucesso instantâneo no You Tube. E, diz a lenda, deu origem ao Tea Party.
Minutos depois do vídeo, americanos descontentes espalhados pelos quatro cantos dos EUA começaram a fundar, online e em casa, suas filiais do Tea Party. O nome é uma homenagem aos colonos americanos que, em 1773, revoltaram-se contra os impostos cobrados pelos ingleses e passaram a jogar seu chá no porto de Boston. O movimento moderno do Tea Party começou com um bando de fanáticos, que carregavam cartazes com fotos de Barack Obama com bigodinho de Hitler e tumultuavam discussões sobre a reforma do sistema de saúde. Mas em menos de um ano, o movimento se transformou em uma força política que ameaça os democratas no poder e os republicanos moderados tentando se eleger.. E neste fim de semana, realizou sua primeira convenção nacional - ainda cheia de rachas, é bom que se diga
O grupo é bastante heterogêneo. Reúne desde ativistas anti-impostos e libertários antigoverno, passando por fãs de Ayn Rand e Reagan, e até radicais contra imigração, cristãos extremistas e “birthers” que acreditam que Obama nasceu no Quênia e por isso não pode ser presidente. Em comum, os Tea Party estão revoltados “contra tudo isso que está aí” : pacotes de estímulo do governo Obama, déficit crescente, reforma do sistema de saúde, resgate de Wall Street, e os atuais ocupantes de cargos políticos.
O movimento já deixou sua marca no cenário eleitoral. Foi com o endosso dos Tea Party que o republicano Scott Brown ganhou dos democratas a vaga do Senado de Massachusetts, que pertenceu ao ídolo da esquerda Ted Kennedy. Os Tea Party estão apoiando também candidatos ultra-conservadores na Flórida e Kentucky. Na Flórida, eles apoiam Marco Rubio na primária para a candidatura ao Senado, contra o moderado governador Charlie Crist. O eternamente bronzeado Crist virou alvo do escárnio dos conservadores ao apoiar o pacote de estímulo de Obama e até ensaiar um “abraço” no líder americano – devidamente eternizado em blogs de direita. No Kentucky, apostam em Rand Paul, filho do deputado libertário e ídolo dos independentes Ron Paul – aquele que quer acabar com o Fed, o banco central americano.
E no Arizona, a tentativa mais ousada – querem destronar o senador John McCain, ex-candidato à presidência pelo partido republicano. O candidato abraçado pelos Tea Party é JD Hayworth, um radialista que quer acabar com a imigração e expulsar os ilegais do país. McCain, moderado, chegou a patrocinar uma lei pedindo a anistia de parte dos ilegais. Ele é senador desde 1987 e concorre a reeleição em outubro, nas eleições legislativas. Hayworth deve disputar como independente, ou desafiar McCain na primária do partido Republicano, com endosso dos Tea Party.
Apesar da vitórias, o histórico do tea Party ainda é irregular. Em Nova York, ficou provado que eles podem dividir a direita – e acabar perdendo para a esquerda. Na eleição para uma vaga de deputado em upstate New York, os republicanos indicaram Dede Scozzafava, uma moderada que apoia o direito ao aborto e o casamento gay. Os Tea Party torceram o nariz e endossaram Doug Hoffman, um desconhecido ultra conservador. O resultado – um democrata acabou ganhando a vaga que ficava com republicanos há décadas.
''O movimento está começando a amadurecer – não como um terceiro partido, mas como uma força de muita influência dentro da estrutura tradicional dos partidos”, diz Mark Skoda, um radialista que fundou um Tea Party em Memphis.
Dentro do partido republicano, há um dilema – abraçar o movimento Tea Party ou deixá-lo à margem? Ao ignorar os Tea Party, os republicanos se arriscam a perder eleições para candidatos populistas endossados pelo movimento. Mas se abraçarem o Tea Party, correm o risco de migrar para a extrema direita, e perder os eleitores moderados.
“Corremos o risco de jogar para o ostracismo os moderados do partido Republicano – diante da pressão de candidatos do Tea Party, vão todos migrar para a direita”, diz Chip felkel, um estrategista republicano que já assessorou o senador Jim de Mint, conservador que é ídolo dos Tea Party (e bloqueou a indicação do atual embaixador em Brasília, Thomas Shannon, durante meses). “A maioria dos republicanos não é a favor de grande intervenção do governo no Estado, mas também não é contra o governo, como os Tea Party”
O partido de Obama, controlando a Câmara e o Senado, também tem muito a perder. Todos seus deputados e grande parte dos senadores enfrentam as urnas em outubro. De acordo com uma pesquisa NBC News/Wall Street Journal, 41% dos americans têm uma visão positiva do movimento Tea Party. Apenas 35% têm visão positiva dos democratas, e 28% dos republicanos. “O Tea Party é uma ameaça para os dois partidos”, diz John Avlon, que escreveu um livro sobre o movimento.. “É um alerta para a insatisfação dos americanos.”
Da maioria silenciosa às lágrimas de Glenn Beck
Um dos grandes ídolos do movimento é Glenn Beck, o apresentador da rede de TV Fox cujo programa tem audiência de 3 milhões de pessoas. Beck costuma chorar em seu programa e já disse que o presidente Obama era “racista” porque “ele não gosta de gente branca”. Beck também afirmou, ao vivo, que “poderia matar Michael Moore” com suas próprias mãos. Foi Beck quem que turbinou a passeata dos Tea Party em 12 de setembro. A passeata reuniu 60 mil pessoas em Washington. Era gente com cartazes dizendo : “O zoológico tem um leão africano e a Casa Branca tem um africano mentiroso”, bem na frente da Casa Branca.
Sarah Palin, que fez o discurso de encerramento da convenção dos Tea Party, é outra inspiração para o movimento.
Mas historiadores veem raízes mais antigas – para eles, o movimento Tea Party se assemelha à chamada “maioria silenciosa” do ex-presidente Richard Nixon. Nixon tornou famoso o termo “maioria silenciosa”, para designar o grande número de americanos que não estavam protestando contra a guerra do Vietnã, não apoiavam a revolução contracultural dos anos 60, e eram apenas americanos pacatos que queriam estabilidade. Tal como os integrantes do Tea Party, eram brancos de classe média, justamente a fatia demográfica que não votou em Obama. A nova maioria silenciosa seria uma reação às multidões que saíram às ruas em 2008 para eleger Obama.
Analistas também se referem ao historiador Richard Hofstadter, que publicou há 45 anos um ensaio que se tornou um clássico “O estilo paranoico na política americana”. Em plena guerra fria, quando o ultra-conservador Barry Goldwater havia acabado de vencer a primária republicana, Hofstadter descreveu como a histeria de direita tinha tomado conta da política americana. Os radicais estavam sequestrando a agenda republicana, entre eles os lunáticos da John Birch Society, que viam comunistas até atrás da porta.Em comum, todos eles tinham uma predileção especial por teorias de conspiração – tudo era orquestrado secretamente, havia um inimigo oculto, estavam aí para persegui-los. Os membros mais radicais do Tea Party, com suas teorias de que Obama é queniano e a reforma da saúde vai instituir painéis para decidir quem vive e quem morre, remetem à paranoia dessa época.
06.02.10
Chamada de Snowpocalypse ou Snowmageddon, a nevasca épica que castiga Washington desde sexta-feira de manhã pode ser a maior desde 1922. A previsão é que caiam 30 inches, pouco mais de 60 centímetros. Acordei hoje de manhã e resolvi "brave the elements", como se diz por aqui. A neve está batendo no joelho. A Pensilvânia Avenue, que liga o Capitólio à Casa Branca, sumiu, debaixo de um cobertor branco. No National Mall, tem gente fazendo cross-country ski. Nada funciona - metrô, ônibus, tudo parou. Nenhuma loja está aberta, nem o correio veio. Nenhum jornal foi entregue. Americano costuma ser exagerado, então eu nem estava pondo muita fé na tal tempestade. As pessoas correram para os supermercados e a cena geral era de pânico: prateleiras vazias, acabou papel-higiênico, leite, pão. Ontem à tarde, caía uma nevinha, mas nada de acumular. Pensei - fui ludibriada. Esse pessoal é histérico.
Mas não, acordamos em uma cidade fantasma. É uma nevasca épica, sem nenhum exagero. Abaixo, algumas fotos

02.02.10
Assisti ao filme “Hurt Locker”, um dos principais indicados ao Oscar deste ano,em julho do ano passado. Era uma plateia cheia de parentes de soldados lutando no Iraque e no Afeganistão, e veteranos das duas guerras. O ator principal, Jeremy Renner, veio falar com a plateia ao final do filme sobre seu convívio com soldados para se preparar para o filme – em Hurt Locker, Renner é um especialista de uma Explosive Ordinance Disposal Unit, uma equipe de elite que desarma bombas.
O filme é tão impactante, que cheguei em casa e comecei a chorar descontroladamente. Não se trata de apologia da guerra. É apenas uma crônica do dia a dia desses caçadores de bomba em uma guerra onde o inimigo é tão elusivo, que pode estar a seu lado, um velhinho puxando um carrinho com arroz, com uma bomba disfarçada. Na época, fiz uma resenha para o Caderno 2 (copio aqui embaixo).
Uma semana depois, embarquei para o Afeganistão. E lá, na base de Connelly, no leste do Afeganistão, fronteira com Paquistão, conheci os verdadeiros Hurt Locker.
Esses soldados têm uma das funções mais perigodsas do exército – eles vão na frente de todo mundo, fazendo uma varredura, para garantir que não há bombas de estrada, as letais IED (improvised explosive devices).
“Os IEDs ainda são menos sofisticados do que os do Iraque, mas os insurgentes estão aprendendo”, diz o sargento Andrew Gernux, líder de um time de EOD na região de Kogyani. Desde que chegou ao Afeganistão, há dois meses, Gernux já desarmou ou explodiu 12 IEDs. Especialista em IEDs há seis anos, ele esteve quatro vezes no Iraque. “Minha mulher e minha mãe odeiam meu emprego, por razões óbvias.”
Eles acharam que o Hurt Locker romanceia um pouco a vida deles. Não, ninguém guarda bombas desativadas debaixo da cama, como lembranças.
Mas sim, é mesmo uma rotina perigosíssima. E as bombas ficam cada vez mais avançadas. No Afeganistão, o Taleban tem um estoque interminável – todas as minas não explodidas na época da invasão soviética, que eles usam para fazer ssuas bombas de estradas., me contou o capitão Ryan Loomis, o líder do time de EOD. “Está cheio de campos minados no país e há sobras de todas as guerras, os Taleban simplesmente vão lá e pegam os explosivos, é de graça”. Loomis coordena nove esquadrões antibomba, times que passam por um treinamento especializado de um ano na Flórida para desarmar explosivos de todos os tipos.
Com a multiplicação dos IEDs, os times antibomba vêm usando cada vez mais seus robôs Talon e Pacbot, que são pilotados com joysticks para manipular os explosivos. Em última instância, quando não é possível manipular os explosivos à distância, os especialistas usam seu “escafandro” antibomba, o “EOD 9 suit”. “Tentamos fazer tudo de forma remota, porque mesmo o suit só protege contra estilhaços, não contra a explosão”, diz Loomis.
Quando não usam “sobras” de outras guerras, os insurgentes fazem os explosivos em casa mesmo, usando fertilizantes. Já para detonar, eles usam mais placas de pressão, que acionam o explosivo quando o carro passa por cima, do que celulares, que eram os mais comuns no Iraque.
HURT LOCKER - RESENHA
Na cena inicial do filme “The Hurt Locker”, da diretora Kathryn Bigelow , um destacamento de elite do exército americano chega a um canto imundo de Bagdá para desativar um explosivo escondido embaixo de um monte de lixo. O especialista em “improvised explosive devices” (IEDs, ou dispositivos explosivos improvisados) manobra cuidadosamente um robozinho que vai se aproximando da bomba que ele precisa desarmar. Mas no meio dos pedregulhos, o robozinho perde uma roda. O especialista, sargento Matt Thompson (Guy Pearce), veste seu “escafandro” de proteção contra bombas e caminha lentamente para o monte de lixo. Enquanto isso, alguns iraquianos observam. Muitos são apenas moradores da cidade pobre, cansados da guerra e da presença dos americanos. Outros podem ser insurgentes, que com o simples aperto de uma tecla de seu celular, podem detonar a bomba.
Se desse para esquecer de respirar, metade da platéia tinha morrido sem ar até o final da cena.
O filme de Bigelow mostra essa batalha assimétrica que os Estados Unidos estão perdendo. O poderoso exército americano, com seus caças não-tripulados, pilotados como video-games, e destemidos especialistas em explosivos, estão levando uma sova de pobres agricultores e suas bombas caseiras feitas com frasco de desodorante e celulares de US$ 30
O foco do filme é um destacamento do exército que passa a vida tentando desativar essas bombas improvisadas, a principal arma no Iraque. O ator Jeremy Renner (Sargento William James) é o líder do destacamento –um superespecialista que atua com precisão de cirurgião para desarmar bombas e guarda os detonadores dos explosivos como lembrança. O sargento James adora desafiar o destino e testar seus limites. Seus companheiros são o sargento JT Sanborn (Anthony Mackie), que respeita as regras e muitas vezes bate de frente com a temeridade de James, e o cabo Owen Eldridge (Brian Geraghty), boa-praça e ingênuo, doido para ir para casa.
The Hurt Locker é baseado no roteiro do jornalista Mark Boal. Em 2004, Boal passou várias semanas “embutido” com destacamentos de especialistas em bomba em Bagdá, seguindo os movimentos desses soldados para escrever uma matéria. “A experiência no Iraque me impressionou muito; as pessoas não têm ideia sobre como esses caras vivem e o que eles estão enfrentando;”, disse. Boal.
A diretora fez filmes de ação como "K-19: The Widowmaker" , "Strange Days" e “Point Break” Mas só com The Hurt Locker ganhou consagração da crítica. Para A.O.Scott, crítico do The New York Times, trata-se do “melhor filme não-documentário sobre a guerra no Iraque”. E também, como ele brinca mais para frente: “Se Hurt Locker não for o melhor filme de ação do verão, eu prometo explodir meu carro.”
Depois de uma série de filmes professorais sobre o atoleiro do Iraque que foram fracasso de bilheteria, “The Hurt Locker” consegue ser o filme que menos faz proselitismo sobre a futilidade da guerra, e o que melhor traduz a falta de sentido do conflito americano – tanto no Iraque, como no Afeganistão.
Ao retratar o dia-a-dia dos destacamentos que desarmam bombas, ”The Hurt Locker” mostra a dimensão do buraco em os os EUA se enfiaram. Em poucas palavras, os soldados nunca sabem quem é o inimigo. Muitas vezes, o inimigo é o velhinho simpático levando uma bomba feita com uma lata de Nescau que ele arrasta no seu burrico.Como resultado, os soldados vivem numa paranóia constante. É impossível descobrir quem é civil e quem é insurgente.
“Tem muita gente olhando para cá, vamos embora”, diz o sargento Sanborn, enquanto o protagonista se embrenha em um carro bomba, tentando desativar explosivos que podem levar o prédio inteiro pelos ares..
Os EUA estão saindo do Iraque. E sim, a situação está bem melhor. Em vez de morrerem 800 por mês, há um ataque por semana, onde morrem 60 . Mas isso é ganhar é guerra
Muitos dos soldados não sabem o que é a vitória e se resumem a pensar em como se manter vivos. É uma contagem regressiva dos dias que faltam para eles voltarem para casa. Como é que se ganha essa guerra, em que o inimigo é esquivo?
“A guerra é uma droga” . Essa frase do ex-correspondente de guerra Chris Hedges abre o poderoso filme de Kathlyn. E só o vício da guerra pode explicar o que move esses soldados nessa batalha sem sentido, onde qualquer coisa pode ser uma bomba, e qualquer um pode ser o inimigo.
O sargento James volta para casa depois do fim de seu turno no Iraque. Uma cena típica, até um pouco clichê, mostra sua perplexidade diante das infinitas possibilidades de escolha do corredor de cereais no supermercado.
James não aguenta. Decide voltar para o “barato” da guerra e enfrentar o “hurt locker”, expressão que significa “a expectativa de uma dor lancinante”..
31.01.10
Se existe um texto que consegue passar todo o horror do terremoto do Haiti, esse texto é "A little while", publicado pela escritora haitiana Edwige Danticat na New Yorker desta semana. Danticat é a brilhante autora de Brother I'm Dying e cronista mór de todas as coisas haitianas. Ela recebeu a bolsa MacCarthur para gênios no ano passado.
Em um artigo singelo e despretensioso na New Yorker, Danticat conta por meio de seu primo, Maxo, e outros de seus parentes que estavam em Porto Príncipe a extensão da tragédia. Maxo é de carne e osso. Maxo morreu, ela nos informa na primeira linha. Mas sua prima "Naomi Campbell" sobreviveu.
Nada de Sanjay Gupta e Anderson Cooper carregando nenezinhos cheios de fuligem, ou repórteres auto-referentes posando de heróis e observadores da pobreza que passa na janela.
Leia aqui a tragédia haitiana que se abateu sobre uma família haitiana, narrada por uma haitiana
24.01.10
O presidente Barack Obama, com a popularidade em baixa, já elegeu Wall Street como alvo de sua ira populista. Nesta semana, anunciou regras proibindo bancos que detêm depósitos de correntistas de investir, negociar ou aconselhar fundos hedge e fundos de participações em empresas (private equity), além de vetar as instituições de fazerem operações com seu próprio dinheiro, na chamada regra de Volcker. Obama também propôs medidas para limitar o tamanho dos bancos – para que o governo não se veja novamente obrigado a resgatar instituições com dinheiro do contribuinte para evitar um colapso no sistema financeiro.
Os bancos estão chiando - muito se acham injustamente punidos, porque afinal já devolveram o dinheiro do governo. A Goldman Sachs diz até que não precisava do dinheiro, e só aceitou sob pressão do governo.
Mas o buraco é mais embaixo.
Apesar de terem devolvido as injeções de capital do Tesouro, os bancos se beneficiaram e ainda se beneficiam muito dos recursos do contribuinte.
Com o início da crise de 2008, quando o banco Bear Stearns foi absorvido pelo JP Morgan em março, o governo adotou uma série de medidas de apoio aos bancos de investimento para evitar uma quebradeira em série. Primeiro, eles passaram a ter acesso à janela de redesconto do Fed, antes restrita a bancos de varejo. Depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, bancos como Goldman Sachs e Morgan Stanley foram transformados em instituições que também mantêm depósitos de correntistas – e com isso passaram a ter direito ao seguro do FDIC de contas correntes e outros investimentos e depois o FDIC passou a garantir títulos de dívida emitidos por esses bancos.A Goldman foi um dos maiores usuários desses subsídios. Com isso, em 2009, esses bancos de investimento usaram essas fontes de financiamento barato, subsidiadas pelo governo, para aplicar em investimentos arriscados, feitos pela Tesouraria, ou seja, com o dinheiro do banco para lucro do banco. A Goldman lucrou US$ 13,4 bilhões no ano passado. Eles não usaram esse financiamento subsidiado para aumentar seus empréstimos a empresas, o que teria acelerado a recuperação da economia. A regra de Volcker anunciada por Obama quer coibir exatamente esse tipo de comportamento e forçará alguns bancos a dividirem suas unidades de varejo e de investimentos ou abirirem mão do stateus de banco de varejo, que a Goldman assumiu em 2008. “Vários bancos registraram enormes lucros recentemente fazendo operações com seu próprio dinheiro, apoiados na janela de redesconto do Fed e na garantia das contas correntes pelo FDIC – ou seja, lucraram com ajuda do contribuinte, em vez de usarem a ajuda do governo para voltarem a conceder empréstimos”, disse um funcionário da Casa Branca.

21.01.10
Scott Brown, o republicano eleito na terça-feira para a vaga do senador Ted Kennedy , era um desconhecido senador estadual até a semana passada. Brown era famoso só entre um grupo seleto de leitoras assíduas da revista feminina Cosmopolitan, editada no Brasil como Nova. Ele foi “o homem mais sexy” da Cosmopolitan de 1982, e estampou a edição com fotos sensuais, semi-nu.
O republicano conquistou o eleitorado de Massachusetts, Estado democrata até a raiz dos cabelos, com seu tipão popular – fazia propagando de jeans, camisa, mostrando sua caminhonete (veículo vetado por liberais ecologicamente conscientes). Como disse o comediante Jon Stewart ontem: "O legado dos Kennedy vai para um cara pelado que é dono de uma caminhonete”. Ele é triatleta e acorda todo dia às 5 da manhã para nadar. Sua mulher, Gail Huff, é estrela da TV em Boston e uma de suas filhas, Ayla, foi finalista no American Idol.
Brown teve uma candidatura anti-establishment, contestando o direito natural dos democratas à vaga ocupada por 46 anos por Ted Kennedy. E fez campanha contra a lei de reforma de saúde – considerada a principal bandeira de Kennedy.
Está certo que ele teve uma granda ajuda da campanha inepta da democrata Martha Coakley, ruim de voto. Martha disse que o arremessador Curt Schilling, um ídolo do time local Red Sox, torcia para os Yankees, de NY - uma gafe semelhante a dizer que o Ronaldo joga no São Paulo, em vez do Corinthians. Para completar, em resposta a um repórter do Boston Globe, que perguntou se ela não tinha sido passiva demais em sua campanha: “Por que, eu deveria ter ficado em Fenway Park, nesse frio, apertando mão de eleitor?”!
Não que Brown tenha passado incólume no quesito gafes. No discurso de vitória, deixou suas duas filhas, Arianna e Ayla, roxas de vergonha. “Queria agradecer muito as minhas filhas, que me ajudaram na campanha...e só por acaso, se alguém estiver se perguntando ao redor do país, sim, as duas estão disponíveis”. Ai.
19.01.10
Há exatamente um ano, eu saí de casa às 7 da manhã em um dos dias mais frios que Washington já viveu. O termômetro marcava 8 graus abaixo de zero, mas a sensação térmica era de uns 20 abaixo. Ao lado da minha amiga Rita Siza, correspondente do jornal português Público, caminhamos uns três quilômetros até o Capitólio, acompanhando a multidão agasalhada. Com cobiçados ingressos, iríamos ver de perto a posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, no dia 20 de janeiro de 2009.
A cidade parou. Eram mais de 4 milhões de pessoas nas ruas, tudo para ver Barack Hussein Obama jurar sobre a Bíblia de Lincoln e assumir a presidência.Apesar do frio paralisante, uma euforia tomava conta de todo mundo, até dos jornalistas, nós, supostamente neutros.Admito, com vergonha, que foi difícil não se contagiar. Tudo iria mudar. Guantánamo, crise econômica, eixo do mal, tortura, falsas armas de destruição em massa no Iraque, arrogância unilateralista, tudo isso ficava para trás.
Tive a oportunidade de estar num grupo de jornalistas que acompanhou a campanha eleitoral e a candidatura Obama desde o começo. Em Chicago, no dia 4 de novembro, ao som de Stevie Wonder “Signed, Sealed, Delivered”, o altamente improvável aconteceu – Obama foi eleito, em um país que viveu segregação racial durante décadas. Na medida em que os resultados das urnas iam sendo divulgados, as pessoas se abraçavam e choravam.
Um ano depois, o sonho não acabou . Mas para os 53% dos americanos que votaram em Obama e achavam que o novo presidente americano ia caminhar sobre a água e fazer a terra parar, houve um choque de expectativas. A euforia da eleição de Obama foi sufocada por um desemprego a 10% que teima em não cair, uma guerra sem fim no Afeganistão, uma reforma da saúde que se arrasta pelo Congresso, e as realidades bem menos poéticas de se governar um país idiossincrático. Não, não vai dar para fechar Guantánamo no dia 22 de janeiro, como ele havia prometido. Conversar com o Irã não adiantou nada, pelo menos ainda não. Israelenses e palestinos continuam se matando. E embora Obama tenha estendido a mão para os hostis, “abandonando o punho cerrado”, como prometeu no dia da posse, um major matou 13 pessoas em Fort Hood, em novembro, e um nigeriano tentou explodir um avião no Natal.
Barack Obama assumiu o poder há um ano com a aura de um messias e a popularidade de um Beatle. O 44o presidente dos Estados Unidos tomou posse com uma taxa de aprovação de 69% e grande popular para adotar sua ampla agenda de reformas. Porém, em 12 meses de governo, sua popularidade caiu para 46%, de acordo com a pesquisa da CBS. Os eleitores independentes, essenciais para a vitória de Obama, debandaram, com medo do governo Leviatã que não pára de se expandir, esbarrando nas suspeições históricas dos americanos, como disse o colunista David Brooks.
Obama não tinha escapatória – ao herdar a maior recessão desde a Depressão de 30 e duas guerras, era inevitável que tivesse de expandir o papel do Estado. E como conseqüência, o déficit inchou ainda mais e o povo americano teve a reação pavloviana de desconfiança no excesso de intervenção do governo na sociedade livre.
Obama “o mito” se transformou, ao longo desses 12 meses, em Obama “o presidente de carne e osso”, com todas as limitações do posto e da pessoa. Isso era inevitável. Mas foi, e continua sendo, doloroso.
15.01.10
A pronta reação do governo Obama à tragédia no Haiti rendeu elogios na imprensa e deve melhorar a popularidade do presidente. Obama tentou ao máximo se diferenciar de seu antecessor George W. Bush, que cometeu todo tipo de erro na catastrófica operação de reconstrução após o furacão Katrina, em 2005. Bush demorou para falar com o público americano e o plano de resgate e reconstrução foi um fracasso monumental.
Obama, diante de seu primeiro desastre internacional, agiu rapidamente. Ele foi informado sobre o terremoto uma hora depois de o tremor atingir o Haiti, e logo depois a Casa Branca já tinha divulgado um comunicado sobre o desastre. Integrantes do departamento de Estado, Pentágono e Agência Internacional de Desenvolvimento (USAID) passaram a noite em claro desenhando a estratégia para o pacote de ajuda. No dia seguinte, de manhã, Obama fez seu primeiro comunicado ao público. A secretária de Estado, Hillary Clinton, interrompeu sua viagem à Àsia e de manhã já estava em todos os programas de notícias, dando explicações ao público. “Eles adotaram as medidas certas e foram rápidos”, disse ao Politico Johanna Mendelson Forman, ex-consultora da missão da ONU no Haiti. “Ele foi à TV imediatamente e ofereceu os serviços de todas órgãos de assistência dos EUA.” pouco depois, Obama anunciou US$ 100 milhões de ajuda, "para começar" , e o envio de 10 mil soldados.
12.01.10
Desde que os primeiros trechos começaram a vazar para a imprensa, na sexta-feira, o livro “Game Change” vem espalhando a cizânia pelos corredores do poder em Washington. As revelações bombásticas do livro sobre os bastidores da campanha de 2008 já puseram pelo menos um político na fogueira. O líder democrata no Senado, Harry Reid, teve que telefonar para o presidente Obama para pedir desculpas. Ele admitiu ter dito aos autores o país estava pronto para apoiar um candidato negro, especialmente um como Obama :“um Afro-americano de pele mais clara” , que não “fala como preto”, a não ser que queira. Michael Steele, o diretor do Comitê Nacional Republicano, que é negro, disse que Reid deveria renunciar. “se fosse”. O presidente obama aceitou o epdido de desculpas de Reid, que voltou a se “imolar” em público ontem.
Quase todo mundo sai chamuscado por revelações nada lisonjeiras do livro dos jornalistas Mark Halperin, da revista Time, e John Heilemann, da revista New York;. Segundo o livro, Bill Clinton irritou o então-senador Ted Kennedy ao insistir no pedido de apoio a Hillary Clinton, que disputava a prévia do partido democrata com Obama. Clinton teria dito que Obama, “até alguns anos atrás, era o cara que buscava cafezinho para a gente”.
Hillary aparece como fria e calculista, tal qual era pintada por seus adversários. Um ano antes da convenção democrata, Hillary destacou dois dos executivos de sua campanha para começarem a cuidar da “transição” para seu governo, certa de que iria vencer a eleição.O livro diz que o “potencial priapismo” de Bill era uma ameaça à campanha de Hillary e, por isso, era tema de teleconferências. O ex-presidente vivia paquerando donas-de-casa vindas da aula de yoga, em um café em Chappaqua, onde os Clinton vivem. E o e-xpresidente vivia para cima e para baixo com seu amigo, o playboy Ron Burkle, cujo avião era conhecido como “Air Fuck One”. Um dos rumores era de que Clinton teria um caso com a atriz Gina Gershon (do filme Showgirls).
A certa altura, o QG da campanha de Hillary descobriu que Bill realmente esta tendo “um relacionamento estável” com uma mulher e fez um plano de contingência para lidar com o escândalo, se vazasse para a imprensa.
O livro Game Change e as revelações bombásticas dominaram os noticiários de TV, jornais e blogosfera no final de semana e ontem. Quando a reportagem do Estado foi à Barnes and Noble próxima à Casa Branca para comprar o livro, o vendedor disparou: “você e mais o resto de Washington vieram comprar esse livro hoje”. Segundo ele, tinha gente do lado de fora, esperando a loja abrir, para comprar seu exemplar.
Sarah Palin tampouco sai bem no livro. Segundo os autores, a vice na chapa do republicano John McCain tinha um tique verbal e cismava em chamar Joe Biden de Obiden, um mix entre Obama e Biden. Por isso, no debate entre os candidatos a vice, começou pedindo a Biden: posso chamá-lo de Joe? Na época, isso pareceu uma estratégia esperta para a candidata parecer mais despachada. Na verdade, era uma tática para evitar uma gafe e mesmo assim ela escorregou uma vez, deixando escapar um “senador Obiden”. No livro, os autores contam que Sarah teve de ser educada sobre todas as questões de política externa, e teve aulas de Primeira Guerra Mundial,Segunda e Guerra Fria com os assessores de McCain. De acordo com eles, ela não sabia nem porque existiam duas Coreias. Ontem, mesmo, Sarah anunciou que será a próxima comentariasta da TV Fox News, de direita.
Elizabeth Edwards é descrita como paranoica e violenta (e não como a heroica vítima de câncer que aparecia na campanha). Em um surto de fúria por causa do caso de seu marido, John Edwards, com Rielle Hunter, Elizabeth rasgou sua própria blusa no meio ede um estacionamento, enquanto gritava para John: “Olha para mim!”
A relação entre Joe Biden e Obama era péssima. Segundo o livro, os dois mal se falavam durante a campanha e Biden não podia participar das teleconferências com a cúpula. Depois de Biden ter cometido a gafe de dizer que, em seus primeiros meses de governo, Obama enfrentaria uma crise internacional, Obama teria dito: “Quantas outras idiotices o Biden vai conseguir dizer?” Segundo os autores, Obama era chamado de “Jesus negro” pelos integrantes da campanha.
Para fazer o livro, os autores entrevistaram 300 insiders políticos, a maioria em “deep background”, ou seja, super em off, como faz o jornalista Bob Woodward. Woodward é autor de três livros sobre os bastidores do governo Bush (além de ser um dos autores do furo sobre o escândalo de Watergate). Os autores (assim como Woodward) são acusados de usar muitos rumores no livro, além de “entrar na cabeça” das pessoas, para supostamente dizer o que estavam pensando.
08.01.10
Lendo o relatório de seis páginas divulgado ontem pela Casa Branca e os briefings do departamento de Estado e outras "autoridades" sobre a tentativa de atentado do nigeriano terrorista da cueca, só consigo chegar a uma conclusão: não sei como não explodiram nenhum avião. Ai que medo de embarcar.
Numa boa - você não acharia estranho alguém embarcar na Nigéria, com rumo aos EUA, comprando passagem só de ida, pagando em dinheiro e não despachando nenhuma bagagem?
Não valeria a pena checar mais se o pai do sujeito tivesse ligado para a embaixada americana na Nigéria e dito : meu filho esteve no Iêmen e está em contato com extremistas? o pai se encontrou até com agentes da CIA para alertar sobre o filho.
Ao mesmo tempo, em algum lugar da base de dados eficientíssima dos EUA, constava que um nigeriano estava sendo treinado pela Al Qaeda no Iêmen. E , em algum outro lugar da base de dados, constava que a Al Qaeda no Iêmen planejava atacar alvos americanos.
Para completar, a Grã-Bretanha revogara o visto do sujeito porque ele queria um visto de estudante para uma faculdade inventada.
Mas o departamento de Estado, ao investigar o nigeriano, "soletrou errado" o nome do sujeito - e, como resultado, não descobriu que ele tinha visto americano, e não cancelou o dito.
Quer dizer: tudo isso não foi suficiente para alguém nos Estados Unidos dizer "esse cara não pode entrar no avião".
Ou seja, tem velhinha de Taubaté que não pode entrar nos EUA porque foi confundida com terrorista e está na lista de proibidos de voar, ou precisa enfrentar horas de interrogatórios na imigração. Mas o cidadão Abdulmutallab, acima de qualquer suspeita, embarca numa boa.
Algumas coisa está muito errada nesse sistema de "unir os pontos" da inteligência.
07.01.10
Mario Blejer, economista convidado pela presidente Cristina Kirchner para ocupar o BC argentino, no lugar de Martin Redrado, foi "traído" por Dominique Strauss-Kahn, o francês que é diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Em outubro de 2008, veio à tona o escândalo: a mulher de Blejer, a húngara Piroska Nagy, estava tendo um caso com DSK.
Blejer interceptou vários e-mails "explícitos" trocados por Piroska e Strauss-Kahn, que é casado com Anne Sinclair, jornalista na TV francesa. Piroska saiu do FMI depois que o caso veio à tona. E Blejer afirmou que já estava se separando de Piroska quando ela teve o caso com Strauss-Kahn.

05.01.10
Voar da Europa para os Estados Unidos se transformou em um transtorno. Vindo de Portugal, passei 2 horas na fila da segurança dentro do portão de embarque – ou seja, depois de meia hora na primeira fila da segurança, antes de ir para os portões, passei outras duas horas em uma segunda fila.
O voo, obviamente, saiu mais de uma hora atrasado.
“As companhias aéreas precisam pedir aos passageiros que venham pelo menos três horas antes do embarque, e cheguem ao portão duas horas antes”, disse-me um dos portugueses responsáveis pela segurança. “Desde o dia 25, todos os voos para os EUA estao saindo atrasados.”
Mas não posso reclamar da gentileza e atenção dos funcionários, tanto em Portugal como nos Estados Unidos. Na imigração em Newark, estavam especialmnente simpáticos.
Não podem dizer o mesmo os cidadãos dos 14 países da lista negra americana, que serão sujeitos a regras mais estritas: Cuba, Irã, Sudão, Síria, Afeganistão, Argélia, Iraque, Líbano, Líbia, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita, Somália e Iêmen. (aliás, estranho incluir Cuba e excluir Egito, de onde vêm muitos extremistas).
Uma grande amiga, jornalista libanesa, já se preparava para enfrentar sua condição de cidadã de segunda classe nos aeroportos americanos. “Eu volto na sexta-feira do Líbano, e estou chateada; é deprimente estar na lista dos 14 países”, ela me disse. “Além disso, acho que se trata de uma lista idiota, só para as autoridades dizerem que estão fazendo alguma coisa.”
27.12.09
Graças ao nigeriano que tentou se explodir no voo 253 Northwest Airlines de Amsterdam para Detroit, usando líquido explosivo e seringa escondidos em sua cueca,em breve todos teremos de voar usando fraldas.
Peguei um voo do Rio de Janeiro para Washington na noite do dia 25, logo depois da tentativa de atentado do terrorista da cueca.
Aparentemente, tudo estava normal. Raio Xis nas malas e uma revista antes de entrar no avião.
Mas a duas horas de pousarmos, ficou claro que o terrorista da cueca, o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, seria para sempre lembrado por todos que viajam de avião. Da mesma maneira que o terrorista do sapato – depois que Richard Reid tentou explodir uma bomba em seu sapato em dezembro de 2001, todos os passageiros passaram a ser obrigados a tirar os sapatos no aeroporto.
“Queremos avisar que teremos alguns procedimentos de segurança adicionais no voo, e pedimos desculpas pelo incômodo” – informou o comandante da United Airlines. “Dentro de 15 minutos, todos os banheiros da aeronave serão trancados. Ninguém poderá usar os banheiros sob hipótese alguma. Então, por favor, apressem-se.”
Eu pulei da cadeira. Afinal, todos os passageiros do voo teriam 15 minutos, e nenhum segundo a mais, para usar o banheiro. E eu estava apertada. Mas e se alguém tivesse dor de barriga? Paciência, os banheiros estarão trancados, informou-me a aeromoça.
Mas não parou por aí.
“Durante os sessenta minutos finais de voo, ninguém poderá deixar nenhuma bolsa ou objeto debaixo de seu assento. Se precisarem de seus óculos ou remédios, peguem agora, porque depois não poderão mais levantar de jeito nenhum. E nem poderão deixar travesseiros ou cobertores no colo. Iremos diminuir a potência do ar condicionado, para que vocês não passem frio”.
As regras da agência de segurança de transportes dos EUA tentam cercar todos os movimentos do terrorista da cueca.
Pouco antes de o avião da Northwest iniciar o procedimento de pouso em Detroit, o nigeriano Abdulmutallab foi ao banheiro, onde teria preparado seu explosivo líquido. Passou 20 minutos no banheiro. Voltou ao assento e disse estar passando mal do estômago, e se cobriu com a manta.
Pouco depois, um estouro e fogo foram vistos.
Graças a Deus, passageiros agiram para impedir o Abdulmutallab de concretizar seu atentado.
Mas o terrorista da cueca pode ser mais um a entrar para história de como viajar de avião foi se tornando insuportável por causa dos problemas de segurança. Ou melhor: Tire os sapatos e vista a fralda.
10.12.09
29.11.09
Pelo menos desta vez não morreu ninguém pisoteado na entrada de uma loja. Mas a orgia de consumismo que começa na chamada Sexta-Feira Negra, logo após o dia de Ação de Graças, continua assustadora.
Resolvi acompanhar de perto a sanha aquisitiva dos americanos na sexta de manhã cedinho. Na porta da Target, uma loja de departamentos, deparei-me com hordas de consumidores cheios de remela, mas felizes.
Era gente como como a estudante universitária Camilla O’Neal, de 20 anos. Ela saiu de casa às 23h30 de quinta-feira para aproveitar as melhores ofertas da “sexta-feira negra”, o dia das maiores liquidações do ano nos Estados Unidos. Pegou uma carona com um amigo e à meia-noite já estava na fila, esperando a loja de departamentos Kmart abrir. Lá, comprou dois pares de sapatos, um pijama, um videogame e dois brinquedos. Camilla voltou para casa às 2h30 da manhã, mas a maratona estava apenas começando. Às 7h, ela acordou e pegou o metrô até a Target, outra loja de departamentos. Esqueceu de tirar o pijama, aparentemente. Encontrei-a na porta, onde ela me mostrou, triunfante, o assento massageador que comprou por US$ 35, desconto de 40%, e um forninho por US$ 16,99, desconto de 50%. “Só gastei US$ 300 e já fiz todas as compras de Natal”, comemorava.A poucos passos dali, o cozinheiro Hernan Sandoval também estava com uma cara de cansado, mas contente. Ele foi um dos poucos felizardos a comprar uma TV de plasma de 31 polegadas por US$ 300 – elas se esgotaram em 4 minutos na Target. Ele aproveitou e levou outra TV de plasma, essa de 46 polegadas, por US$ 800.
No ano passado, o segurança de um Wal Mart do Estado de NY morreu pisoteado às 5h da manhã, quando 2 mil pessoas se espremeram para entrar na loja. Neste ano, foram adotadas várias medidas de segurança para evitar tragédias como essa. Resolveram distribuir pela loja os chamados “doorbusters”, as super ofertas que normalmente ficam perto da porta e levam consumidores a literalmente saírem no tapa pela mercadoria. O Wal Mart ficou aberto 24 horas, em vez de só abrir às 5h – assim evitou-se o tumulto na porta.
Até a AAA, a associação dos automóveis americanos, lançou um guia chamado “Dicas para evitar ser pisoteado por consumidores descontrolados”. Uma das dicas é: se você cair, não fique deitado de costas ou de bruços, fique enrolado como uma bola e tente se arrastar na direção da multidão. “Mas o melhor mesmo é fazer compras acompanhado, porque se você for derrubado pela multidão, alguém estará lá para ajudá-lo”, diz o guia.
Para os menos intrépidos, amanhã é o melhor dia de compras – a Ciber Segunda-Feira, quando os varejistas online fazem promoções monumentais – e ninguém corre o risco de ser pisoteado ou levar uns tapas por causa de um Zhu Zhu Pets Hamster, o hamster robô que está em falta nas lojas (e sai US$ 55)..
A grande pergunta dos economistas é : será que esse vai ser o Natal do Snuggie ou do GPS? Muitos analistas acham que os americanos voltaram as lojas, mas só estão comprando quando há promoções, de olho no orçamento. Muitos vãos se ater a presentes baratinhos ou necessários, como casacos, os famigerados Snuggies – o cobertor “vestível” que é a estrela dos comerciais de TV (e agora ganhou uma versão canina, por US$ 7,99) – e outras bugigangas. Na outra ponta, alguns já estão se aventurando a comprar itens mais caros como GPSs, TVs de telas plana, o Rock Band dos Beatles.
Olha, eu não sei se vou de Snuggie ou de Rock Band dos Beatles. Mas certamente não vou encarar turbas enlouquecidas aqui nos EUA (ou estacionamentos infernais nos shoppings no Brasil). Vou comprar pela internet.
22.11.09
O jornal americano Washington Post publicou hoje uma entrevista com a pré-candidata do PV à presidência, a senadora Marina Silva. Com o título “A guerreira da Amazônia conquista o mundo”, a entrevista diz que Marina será a “filósofa-ativista” não-oficial da reunião climática de Copenhagen, no mês que vem, mas não menciona em nenhum momento a pré-candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente. Marina se mostrou pessimista em relação às perspectivas de algum tipo de acordo em Copenhagen.”Não é muito promissor o que se conseguiu de consenso até agora, nos encontros que precederam Copenhagen”, disse a senadora. “O que os líderes concordaram em fazer não é suficiente.”
Marina se disse “entusiasmada” com a tramitação da lei climática no Congresso americano, apesar de a legislação ainda não ter sido votada pelo Senado. “O fato de mudança climática estar de novo na agenda dos EUA é tremendamente importante, depois de o país ter estado ausente das negociações internacionais por 10 anos”, ela disse. “Mas eu reconheço que não ter uma lei climática aprovada pelo Senado cria um problema.” O presidente Barack Obama, ao lado do chinês Hu Jintao. É um dos poucos líderes que não confirmou presença em Copenhagen, em parte proque se arrisca a chegar de mãos vazias.
Marina disse ao jornal americano que trabalhou e viveu com Chico Mendes, “dividimos amizade e parceria” “Se ele estivesse vivo, iria concordar que avançamos muito”, disse. “Mas ele também iria concluir que nossos esforços estão muito aquém do que o que o planeta necessita.”

17.11.09
A palavra do ano, eleita pelo New Oxford American Dictionary, é “unfriend”, ou desamigar, em tradução canhestra.O neologismo vem do Facebook – onde você pode “desamigar” seus amigos, excluindo-os de sua lista. Ou não – há grandes discussões filosóficas sobre a etiqueta de se rejeitar um amigo do Facebook.
Mas os neologismos do ano não se resumem a perfumarias facebookianas. Duas palavras entraram para valer no léxico político americana e foram “finalistas” na lista do Oxford– death panels e birthers.
O death panels (painéis da morte) surgiram no calor da discussão da reforma do sistema de saúde americano. Segundo detratores da reforma, o novo sistema proposto por Obama vai criar “painéis da morte” que decidirão quem merece receber atendimento médico e sobreviver. Sarah Palin foi uma das maiores divulgadoras da palavra nova, o que dispensa maiores explicações.
Já os birthers são os lunáticos conspiratórios que duvidam da autenticidade da certidão de nascimento do presidente Barack Obama – eles têm certeza de que Obama nasceu npo Quênia e, por não ser cidadão americano, não pode ser presidente.Outra palavra que se tornou onipresente é netbook – os laptops superportáteis, com memória limitada, são uma inovação que entrou nos nossos “dicionários” e lojas neste ano.
E um neologismo polêmico é sexting, como foi batizada a moda entre adolescentes de mandar pelo celular fotos deles mesmos, pelados. Faltou um neologismo para definir em uma palavra “gente que não tem mais o que fazer”, que valeria tanto para os birthers, como para os unfrienders e os sexters.
13.11.09
.”
“O Brasil decola – agora o risco para a grande história de sucesso da
América Latina é a arrogância”. Esse é o título de reportagem especial
publicada pela respeitada revista The Economist nesta quinta-feira,que
traz na capa uma foto que mostra o Cristo Redentor impusionado por um
foguete. Em seu especial com oito reportagens sobre negócios e
finanças no País e mais um editorial, a Economist afirma que o Brasil
“entrou em cena no palco mundial” e vai se tornar a quinta maior
economia do mundo até 2014. E que depois de ser subestimado por anos,
o País hoje supera os outros BRICs em vários quesitos. “O País está
passando por seu melhor momento desde que um grupo de navegadores
portugueses chegaram às costas brasileiras em 1500”, diz outro artigo
sobre o Brasil, na revista. “O Brasil já havia sido democrático antes,
havia tido crescimento econômico e baixa inflação – mas nunca havia
tido essas três coisas ao mesmo tempo.”
Mas a publicação inglesa alerta para as armadilhas que vêm pela
frente. “Da mesma maneira que seria um erro subestimar o Brasil,
também é um erro ignorar suas fraquezas”, adverte. “Muito dinheiro do
contribuinte está está sendo gasto nas coisas erradas” e há pouco
investimento público e privado. Para a Economist, Lula está certo ao
dizer que seu país merece respeito e “ele também merece muito da
bajulação que recebe”. “Mas Lula também tem sido um presidente de
muita sorte, colhendo os frutos de um boom de commodities e
trabalhando a partir da plataforma sólida construída por seu
antecessor, Fernando Henrique Cardoso”. A revista volta a chamar o
presidente de “Lula sortudo” em outro artigo. Para manter o bom
desempenho do Brasil em um mundo com condições mais difíceis, o
sucessor de Lula vai ter de lidar com alguns dos problemas que o
presidente achou que podia ignorar, adverte a revista.
A reportagem lembra que, em 2003, quando economistas da Goldman Sachs
cunharam o termo BRICs, muita gente torceu o nariz para a inclusão do
Brasil no time de economias vencedoras. “Brasil? Um país com taxas de
crescimento tão minúsculas quanto seus biquinis, vítima de qualquer
crise financeira que estiver à espreita, um lugar com instabilidade
política crônica, onde a capacidade infinita de desperdiçar seu óbvio
potencial é tão lendária quanto seu talento para futebol e carnavais”,
diz a reportagem.
“Agora, esse ceticismo parece equivocado”, afirma a The Economist. Em
outro artigo da revista sobre o país, a Economist diz que o Brasil
costumava ser sempre uma promessa, mas que agora começa a se tornar
realidade.
O País não conseguiu passar incólume pela recessão, mas este entre os
últimos países a entrar, e os primeiros a sair.A revista diz que o
Brasil deve crescer a taxa anualizada de 5%, mas que deve acelerar nos
próximos anos, na medida em que campos de petróleo comecem a produzir
e os países asiáticos continuem consumindo os alimentos e minerais do
Brasil. “As previsões variam, mas em algum momento antes de 2014, o
Brasil vai se tornar a quinta maior economia do mundo, ultrapassando a
Grã-Bretanha e a França – bem antes do que a Goldman Sachs achava.”
Até 2025, São Paulo será a quinta cidade mais rica do mundo.
O Brasil supera os outros BRICs em alguns fatores, diz a revista.
“Diferentemente da China, o Brasil é uma democracia, diferentemente da
Índia, não tem insurgentes conflitos étnicos ou religiosos ou vizinhos
hostis, e diferentemente da Rússia, exporta mais do que apenas
petróleo e armas, e trata investidores estrangeiros com respeito.”
A Economist diz que o Brasil, durante o governo Lula, reduziu a
desigualdade social. “De fato, quando se fala em políticas sociais
inteligentes e aumento do consumo doméstico, o mundo tem muito mais a
aprender com o Brasil do que com a China.”
“Em resumo, o Brasil entrou em cena no palco mundial”, decreta a The
Economist. E essa entrada foi marcada de forma simbólica no mês
passado depois que o Rio ganhou o direito de sediar as Olimpíadas de
2016
A Economist diz que a emergência do Brasil tem sido “constante, não
repentina”. A revista lembra que os primeiros passos foram tomados nos
anos 90, quando, esgotadas todas as outras possibilidades, o país
“adotou políticas econômicas sensatas”.Segundo a publicação inglesa,
essas políticas produziram uma trupe de novas e ambiciosas
multinacionais brasileiras – cita Petrobras, Vale, Embraer, Gerdau,
JBS. “Há um grande volume de investimento estrangeiro indo para o
Brasil, impulsionado pela redução da pobreza e crescimento da classe
média” Além disso, diz a The Economist, o país estabeleceu
instituições políticas fortes. “ Uma imprensa livre e vigorosa revela
atos de corrupão – embora ainda haja muito disso, e a maioria fique
impune.
Mas a revista faz um alerta. “Da mesma maneira que seria um erro
subestimar o Brasil, tamém é um erro ignorar suas fraquezas”. Segundo
a The Economist, os gastos do governo crescem mais rápido do que a
economia, mas tanto o setor público quandto o privado investem muito
pouco, o que ameaça as previsões otimistas.”Muito dinheiro do
contribuinte está está sendo gasto nas coisas erradas”. A folha de
pagamento do governo aumentou 13% desde setembro de 2008, gastos com
previdência social e aposentadorias aumentaram 7% no mesmo período,
apesar de a população ser relativamente jovem. “Apesar de melhoras
recentes, a educação e a infra-estrutura ainda são muito piores do que
na China ou Coréia do Sul (como um blecaute nesta semana lembrou). E
em partes do Brasil, crimes violentos são a regra.”
O real se valorizou quase 50% diante do dólar desde o início de
dezembro. Isso melhora o nível de vida dos brasileiros porque barateia
produtos importados, mas dificulta a vida dos exportadores. O governo
impôs uma taxa sobre entrada de capitais, mas, segundo a The
Economist. “isso dificilmente vai deter a valorização da moeda, ainda
mais quando o petróleo começar a jorrar”.
E a Economist lembra que ainda se usa o “jeitinho” para conseguir
muita coisa no Brasil. E diz que o Estado brasileiro parece um
alquimista ao contrário – transforma ouro em chumbo. “Brasil gasta
três vezes mais que a China com saúde, e tem indicadorers piores.; os
gastos em educação são respeitáveis 5% do PIB, mas os estudantes
brasileiros estão sempre no final da lista da OCDE”.
A resposta instintiva de Lula para os problemas é política industrial,
diz a revista. O governo vai exigir que equipamentos petrolóferos
sejam produzidos por indústrias brasileiras ee stá pressionando a Vale
para investir em siderurgia. “É verdade que a política pública ajudou
a criar a base industrial do Brasil”, diz o artigo. “ Mas foi a
privatização e abertura da economia que as tornaram eficientes; E
enquanto isso, o governo não está fazendo nada para remover alguns dos
obstáculos que dificulta, fazer negócios no Brasil – como regras
barrocas para o pagamento de impostos e contratação de pessoa.” Dilma
Rousseff insiste que não será necessária uma reforma das leis
trabalhistas.”Talvez a maior ameaça ao Brasil seja a arrogância. “
Para a Economist, Lula está certo ao dizer que seu país merece
respeito e “ele também merece muito da bajulação que recebe”. “Mas ele
também tem sido um presidente de muita sorte, colhendo os frutos de um
boom de commodities e trabalhando a partir da plataforma sólida
construída por seu antecessor, Fernmando Henrique Cardoso”. “O atual
presidente do Brasil recebeu muito do crédito pelo crescimento da
economia que deveria ser dado a seu antecessor, Fernandpo Henrique.
Mas Lula manteve as reformas que herdou e fez algumas conquistas
sozinho .”
Para manter o desempenho melhorado do Brasil em um mundo com condições
mais difíceis, o sucessor de Lula vai ter de lidar com alguns dos
problemas que Lula achou que podia ignorar, adverte a Economist.
O artigo termina em um tom otimista. “A rota do país parece estar
traçada. A decolagem é ainda mais admirável porque foi alcançada por
meio de reformas e instituições democráticas”. E ainda alfineta o
líder dos BRICs. “Ai, se a China pudesse fazer o mesmo"
10.11.09
A relatora especial da ONU para o direito à moradia, a brasileira Raquel Rolnik, passou 18 dias em sete cidades dos Estados Unidos e encontrou uma situação digna de terceiro mundo. “Fiquei assustada com a situação da moradia nos Estados Unidos”, disse Raquel, que também é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
Ela já vinha pesquisando o problema da moradia nos EUA há tempos e esperava se deparar com os estragos da crise das hipotecas subprime. Mas encontrou coisa pior: gente morando em carros, muitos moradores de ruas em “cidades de barracas”, famílias inteiras sem-teto, apartamentos superlotados, com três famílias. “É muito difícil achar moradia acessível, as pessoas estão gastando 80%, 90% da renda com aluguel ou parcela do financiamento”, disse Raquel. “Quando a crise chegou, grande parte da moradia pública tinha sido demolida e não foi substituída em números suficientes.”
Ela esteve em Washington, Nova York, Wilkes-Barre, Chicago, New Orleans, Los Angeles e na reserva indígena Pine Ridge.
A ONU tenta desde 2005 enviar um relator para a moradia para os EUA, mas vinha sendo ignorada pelo governo Bush. Só agora, no governo Obama, mais aberto à atuação de instituições multilaterais como a ONU, é que a relatora recebeu sinal verde.
A direita americana esperneou. Um editorial do jornal conservador Washington Times disse que a visita de Raquel era parte da “usurpação gradual da soberania americana.”e perguntava porque ela não ia pesquisar a moradia no Brasil
“Ela deveria voltar para o lugar de onde saiu”, dizia o editorial. “A culpa burocrática de Miss Rolnik deveria ser dirigida ao Brasil, onde 28,9% da população urbana vive em favelas.”
“É claro que de forma absoluta, o problema da moradia é mais grave nos países em desenvolvimento”, disse Raquel. “Mas, de forma relativa, é igual - nos EUA, são milhões de pessoas sem acesso à moradia, no país mais rico do planeta.”
A relatora da ONU diz ser muito difícil comparar Brasil e EUA. Os EUA tiveram, por muitos anos, uma política de moradia abrangente, que foi sendo desmantelado desde o governo Reagan. O país está em uma trajetória descendente, só amenizada por algumas medidas recentes do governo Obama, ela diz.
Já o Brasil, explica Raquel, nunca deve uma política de moradia popular em grande escala. Eram sempre iniciativas da própria população – favelas, loteamentos irregulares – que então eram substituídas por COHABs ou Cingapuras, mas em escala muito menor.
Raquel está preparando um relatório sobre tudo o que viu nos EUA. Ela visitou projetos de habitação do governo, bairros com muitas casas em execução de hipoteca, locais onde se concentram moradores de rua e as chamadas tent-cities, que reunem sem-teto em barracas. Também promoveu assembléias com moradores e reuniu-se com representantes de ONGs, além de integrantes do governo Obama. Em março, ela apresenta seu relatório diante do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.
08.11.09
O diretor do filme “A garota com a tatuagem de dragão”, o dinamarquês Niels Arden Oplev, usou seu melhor tom jocoso: “Dizem que Lisbeth Salander é maior fenômeno a sair da Suécia desde o ABBA”. Ele estava fazendo uma apresentação do filme no AFI Silver, um cinema que passa filmes alternativos em Maryland, aqui perto de DC. Oplev encarou o desafio de filmar um best-seller de sucesso estrondoso, que no original em sueco “Män som hatar kvinnor", significa homens que odeiam mulheres – no Brasil, foi lançado como “Os homens que não amavam as mulheres”.
O filme é sensacional e a escolha da atriz Noomi Rapace para interpretar Lisbeth Salander – a heroína punk-hacker-tomb-boy-fumante compulsiva-abusada – foi um toque de mestre.
Eu devo ser uma das poucas pessoas no mundo – ou pelo menos na sala de cinema – que não havia lido o livro. Mas minha amiga Rita Siza devorou o thriller de Stieg Larsson – e achou o filme ótimo. A escolha de Noomi para o papel foi “perfeita”, ela disse.
O filme só estreia nos EUA em março – mas será lançado em 160 salas. “O que é muito bom, considerando que é um filme sueco, falado em sueco, só com atores suecos desconhecidos, dirigido por um dinamarquês e com quase duas horas de meia de duração; normalmente passaria em no máximo cinco salas nos EUA”, brincou o diretor.
Patrícia Campos Mello é correspondente do Estadão em Washington desde 2006. Ela cobriu toda a campanha que culminou na eleição de Barack Obama, em 2008, e passou um mês no Afeganistão "embedded" com as tropas americanas. Patrícia é formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo e tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. Ela é autora de dois livros: "O mundo tem medo da China", editora Mostarda, e "Índia - da Miséria à Potência", editora Planeta.
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