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26.06.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Variedades, Estados Unidos 17:18:35.

Há uns dois meses, resolvi ir no pronto socorro porque tinha uma febre de 40 graus que não baixava e minha garganta estava inflamada. Fui ao hospital porque era bem mais fácil do que marcar consulta aqui, com esse sistema de saúde maluco. Bom , cheguei no PS, esperei um pouco para ser examinada por um médico, e saí de lá com duas receitas - uma de antibiótico e uma de Percocet.

"Isso é um remedinho pra dor, toma dois agora que vai melhorar".

Tomei dois. Cheguei em casa conversando com os Teletubbies. Comecei a ficar tonta, imaginar coisas, minha fala ficou pastosa.

Mas que raio de analgésico é esse?

"Analgésico potente, opiáceo, pode causar dependência", me disse a internet.

Ou seja, entro no PS com dor de garganta e saio com um analgésico opiáceo tarja preta.

Como já tinha mostrado Heath Ledger, alguma coisa está errada com o sistema. Agora, há suspeita de que Michael Jackson tenha morrido depois de receber uma injeção do analgésico Demerol, outro analgésico opiáceo.

Segundo a Agência de Combate a Drogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês), 8.500 pessoas morreram por causa de analgésicos tarja preta em 2005 – último ano para o qual há estatísticas. Isso representa um aumento de 114% no número de mortes desde 2001. De acordo com a DEA, há 6,9 milhões de viciados em remédios sob prescrição médica (dados de 2007).
Quase um terço das pessoas que começaram a usar drogas no ano passado afirmaram que sua primeira droga foi um remédio vendido sob prescrição médica. Desses, 19 % relataram ter usado um opióide.

“Remédios de tarja preta estão matando gente todo dia, mas nós só ficamos sabendo quando morre alguém famoso”, disse o patologista forense Cyril Wecht, professor da Universidade de Pittsburgh.

 


24.06.09

por Patricia Campos Mello, Seção: BRICs 08:09:06.

Durante a entrevista de uma hora com o presidente Barack Obama, focada em assuntos densos como Irã e reforma do sistema de saúde, uma jornalista se aventurou a fazer a pergunta que não queria calar: “Quantos cigarros o senhor fuma por dia? O senhor fuma sozinho ou na frente dos outros?”

“Estou 95% curado, mas às vezes eu escorrego” – disse o presidente Barack Obama, respondendo – mais ou menos – à pergunta. . “Não sou um fumante diário e nem constante. E não, não fumo na frente dos meus filhos ou da minha família”.Obama disse que é perguntado sobre seu vício uma vez por mês e se comparou a um alcoólatra. “Como as pessoas que freqüentam os Alcóolicos Anônimos, uma vez que você entra nesse caminho, é uma luta contínua”.

Foi a primeira vez que o presidente falou mais abertamente sobre o assunto, desde que seu vício veio à tona, durante a campanha eleitoral.

Na segunda-feira, Obama assinou uma lei que aumenta a regulamentação sobre cigarros e reacendeu as discussões sobre os cigarros de Obama. Ao assinar a lei, ele contou ter começado a fumar quando era adolescente e disse : “eu sei como é duro se livrar do vício”. No mesmo dia, o porta-voz Robert Gibbs se limitou a dizer, em resposta à pergunta fatídica: “O presidente continua a lutar contra o vício”.

Michelle fez um trato com Obama antes da campanha –o então senador só poderia se candidatar se parasse de fumar. Obama era visto constantemente durante comícios mascando chiclé de nicotina. Mas ele confessou, em entrevista durante a campanha, ter “escorregado” algumas vezes. Foi noticiado até que Obama teria fumado um cigarro escondido com o presidente Lula durante a reunião do G-20 em abril, em Londres.

Mas como já disse alguém, eu não me importo que Obama fume seu cigarrinho antes decidir
qualquer coisa - melhor do que ser um abstêmio evangélico que invade países a torto e a direito.

 


14.06.09

por Patricia Campos Mello, Seção: BRICs, Economia internacional, Globalização, Estados Unidos 22:08:00.

Eu me lembro bem da época em que o Brasil queria ser "um país gente grande" e ganhar o selo de qualidade "grau de investimento". Vira e mexe ia um economista gringo para São Paulo e pontificava - a relação dívida-PIB do Brasil é muito alta, o país é muito arriscado.

Anos e inúmeras debacles de escala global depois, a Standard & Poor's e a Moody's andam à procura da credibilidade perdida, o Brasil é grau de investimento, e os países emergentes parecem cada vez mais seguros.

O FMI divulgou um estudo na semana passada sobre endividamento pós-crise global. No ano que vem, a relação dívida-PIB dos 10 países mais ricos do G20 será de 106%. Isso mesmo, 106%. Já os emergentes que fazem parte do G20 (como Brasil,Argentina, México)tinham relação dívida-PIB média de 38% em 2007, e ela deve cair para 35% em 2014, ou seja, menos de um terço do índice nos países ricos.

E a remuneração dos títulos do Tesouro americano continua subindo.

 


08.06.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Variedades 19:53:53.

Aqui em Washington, tenho o privilégio de conviver com vários portugueses, ou tugas, como eles dizem. E o enriquecimento lexical é notável – os portugueses têm expressões excelentes para vários aspectos da vida. Entre parênteses, aspecto não é aspecto – é aspeto, sem pronunciar o cê (e agora, com a reforma, sem escrever o cê). Já facto não perdeu o cê com a reforma, porque fato é terno. Hã?

Os lusofalantes originais, aliás, estão furibundos com a tal reforma. Despediram-se a duras penas do pê em excepção e em adopção.

Os portugueses não morrem de fome – eles, paradoxalmente, ficam “cheios de fome”. Para aqueles que vêm de Lisboa, é linguagem corrente não concordar o advérbio com o adjetivo – “isto aqui é muita caro”, por exemplo.

Há grandes expressões, ou "bestiais", melhor dizendo. Outro dia, comentei com um amigo que achava a Katie Holmes muito bonita.

- “Ela é banal de autocarro”, ele disparou. Ou, para leigos, “mulher bem comum, daquelas que a gente encontra no ônibus”. De borla é de graça, boleia é carona.

Além das piadas prontas, claro.

Dia desses, espiei uma colega portuguesa escrevendo um post sobre a dificuldade dos humoristas para fazer piadas com Obama. “Ninguém goza com Obama”.

E entrando nesse assunto mais, digamos, gráfico, descobri que os portugueses devem ser um dos poucos povos no mundo que têm orgasmo em ênclise – “estou-me a vir” é a frase por eles usada,contou-me a minha colega.

 


31.05.09

por Patricia Campos Mello, Seção: BRICs 21:58:08.

A ex-toda-poderosa GM vai entrar em concordata amanhã às 8 da manhã. Não se trata apenas de uma montadora quebrando (ou quase....e na verdade duas, já que a Chrysler também está em concordata). Trata-se de o fim de uma era, a era do romance dos americanos com seus carrões. Quem é que ia dizer, na vida, que a GM ia quebrar? Como disse o escritor P.J.O’Rourke, que acaba de lançar um livro sobre o assunto, a frase “a concordata da GM” é tão melodramática quanto “as fotos da mamãe pelada”. É inconcebível.

Estive em Detroit na semana passada e o cenário é desolador. . Uma volta por bairros residenciais no centro lembra muito Nova Orleans depois do Katrina – sendo que em Detroit, não houve nenhum um furacão.

Há casas abandonadas por toda a parte, muitas foram ocupadas por viciados em crack. Segundo cálculo da prefeitura, são cerca de 44 mil casas vazias na cidade. Muitas foram depenadas por ladrões que vendem os destroços nos ferro-velhos. Mas elas continuam lá, porque a cidade não tem dinheiro para demoli-las – custa US$ 10 mil para derrubar cada uma. Alguns moradores assumiram o serviço – muitos queimam as casas, para que não sejam ocupadas por ladrões ou viciados em drogas.

Muitas das pessoas que eu entrevistei não têm dentes. É gente sem emprego, sem assistência médica, sem acesso a dentista.

A cidade encolheu junto com a indústria automobilística. No apogeu das Três Grandes, nos anos 50, Detroit tinha 1,8 milhão de habitantes. Hoje, não passa da metade - são 916 mil pessoas, das quais 80% são negros. Da mesma maneira, a participação da Chrysler, Ford e GM no mercado americano passou de 90% nos anos 50 para cerca de 48% hoje.

A concordata da GM é melancólica. Mas é a única chance de a empresa sair do buraco.

 


23.05.09

por Patricia Campos Mello, Seção: BRICs, Economia internacional, Globalização, Estados Unidos 21:43:55.

Coca Light – ou zero – é meu último vício. Eu, como muitos workaholics que pararam de fumar, sou movida a Coca Zero, já que não tomo café. E chiclé, ok, preciso de um chiclé para dar partida em vários textos.

Mas não é que meus vícios inofensivos estão ameaçados? Aqui nos Estados Unidos, Pigou é rei. O economista inglês Arthur Cecil Pigou está por trás da idéia de impostos que coibem alguns comportamentos nocivos, ou externalidades negativas, ao mesmo tempo em que reforçam o caixa público. Em sua homenagem, taxas sobre bebidas alcoólicas e cigarro são chamadas de impostos de Pigou – além de gerar receita para o governo, fazem um bem para sociedade.

E nesta hora de caixa apertado, nada como mais um impostinho de Pigou. Está ganhando força a idéia de taxar bebidas com açúcar, como Coca-Cola, Pepsi,Red Bull, Gatorade, que estão por trás da epidemia de obesidade do país. A idéia foi lançada como uma das formas de financiar a reforma do sistema de saúde.

Até aí nada de mais, acho mais que justo taxar uma coisa que faz mal à saúde. Mas por aqui, as coisas tendem sempre a escalar. Em NY, começaram proibindo o cigarro, depois baniram a gordura trans e chegou uma hora em que havia até regra contra andar de bicicleta sem por os pés no pedal (aliás, tema de matéria sensacional do Christopher Hitchens).

A próxima vítima era o dióxido de carbono – mas a idéia de um imposto sobre poluentes se transformou em uma lei de “cap and trade” aguada, cortesia do lobby do carvão limpo (que para mim é oxímoro) e outros poluidores.

Dessa maneira, tenho certeza que, mais cedo ou mais tarde, vão chegar no último refúgio dos aditos, a Coca Light. Certamente vão descobrir que o adoçante ou o gás da bebida é nocivo e também podia ganhar sua taxa de Pigou. O chiclé então, é alvo óbvio, com perdão da aliteração. Fonte de vandalismo público (isso é com vocês, que grudam o negócio embaixo da mesa), além de poluição sonora (é, mascadores que não fecham a boca aberta), o chiclé já já vai ganhar sua sobretaxa. E a nós, o que vai restar? Vamos todos voltar a fumar?

CHENEY – Ele mesmo faz piada com seu apelido, Darth Vader. Mas acho que o ex-presidente Dick Cheney não pode imaginar como ele se encaixa perfeitamente no papel de vilão (quase tão perfeitamente quanto o Michel Temer no papel de mordomo de filme de terror). Ele tem uma risada maldosa, alfineta o presidente mais popular da história, fica o tempo todo aterrorizando as pessoas com o espectro de um novo 11 de setembro. E como todo bom vilão, Cheney tem sacadas geniais, de um sarcasmo saboroso. Na quinta-feira, logo após Obama fazer seu discurso moderado e racional sobre Guantánamo e segurança, Cheney assumiu o pódio no American Enterprise Instite, reduto dos neocons renhidos.

Uma boa alfinetada foi para The New York Timnes, nêmesis de egressos do governo Bush. “A reportagem impressionou o comitê do Pulitzer, mas certamente não ajudou os interesses do país ou a segurança do nosso povo”,disse Cheney, referindo-se à reportagem em que o jornal revelou o programa de escutas telefônicas clandestinas do governo.

Outro foi sua interessante defesa do método conhecido como simulação de afogamento, que para ele não é tortura. “Chamar esse programa de tortura é caluniar os profissionais dedicados que salvaram milhões de vidas americanas, e retratar terroristas e assassinos como vítimas inocentes. Parece até que ele está falando de enfermeiros.

E Cheney não podia deixar de cutucar aqueles esnobes que se rendem à elite intelectual européiae desdenham sua "América Profunda”. “É fácil ser aplaudido na Europa pelo fechamento de Guantánamo, mas é difícil achar um a alternativa que ainda satisfaça as necessidades de justiça e segurança do povo americano.”

Concluindo senhor deputado – a revista The Economist, em sua nova coluna sobre a Ásia, fala sobre o “Schadenfreude” dos chineses em relação à derrocada econômica americana. Schadenfreude, em mandarim, é “xing zai le huo”, ou o sentimento de que a perda de outra pessoa é seu ganho, levando até a regozijo por causa do desastre alheio.

E nunca mais mencione manipulação do câmbio, senhor Tim Geithner.

 


17.05.09

por Patricia Campos Mello, Seção: CHINA, BRICs, Economia internacional 21:33:40.

Outro dia, uma grande amiga minha chinesa, Wei, e seu marido, Rong, vieram passar o final de semana aqui em casa. Estudei com a Wei em Nova York e hoje ela é colunista da Reuters em Hong Kong, escrevendo sobre economia chinesa. Eles têm dois filhos, um de dois anos e outro de meses. Rong, que tinha um ótimo emprego como advogado de mercado de capitais em um escritório em Hong Kong, acaba de ser demitido em meio a um corte brutal, por causa da crise. O pacote de demissão não era lá essas coisas, eles me contaram. E Rong não sabe se vai conseguir se recolocar rapidamente, considerando que sua área, fusões e aquisições, ainda está bem devagar. Mas meu dois amigos não pareciam desesperados.

“Nós temos uma boa poupança”, ela disse, como se isso fosse óbvio.

E é óbvio, pelo menos na China. “Eu não entendo como os americanos gastam tanto, têm dívidas no cartão de crédito e não guardam dinheiro”, diz Wei, que costumava levar seu almoço de casa todo dia, quando estudávamos juntas, e morava a uma hora da universidade.

Na China, tradicionalmente um país onde a chamada “safety net” é precária, as pessoas guardam dinheiro para tudo: pagar o hospital se sofrerem um acidente, já que muitas não têm plano de saúde, precaver-se contra uma crise na economia e uma onda de demissões, ter uma aposentadoria tranqüila.

Mas essa grande qualidade dos chineses – a austeridade – é um dos maiores obstáculos à recuperação da economia mundial. Muito além das hipotecas subprime, no cerne da crise atual estão os desequilíbrios globais.

A China poupa muito, exporta muito, compra os títulos dos Estados Unidos e assim contribui para manter os juros mundiais excessivamente baixos por anos. Os EUA gastam muito, não poupam o suficiente, dependem da China para os financiar. Essa simbiose nefasta vem se desfazendo, vide o déficit comercial americano, em queda, e o superátiv comercial chinês, também em queda. Mas ainda falta muito para a situação ficar equilibrada. E para isso será essencial que a China dependa mais de seu mercado doméstico, ou seja, os chineses precisam poupar menos e gastar mais. (Os americanos, por outro lado, precisam poupar mais e gastar menos – o que estão fazendo à força, por causa da crise.)

Diante desse cenário, é surpreendente ter passado batido no radar de muita gente um anúncio do governo chinês. Pequim anunciou um plano para oferecer plano de saúde para mais milhões de chineses nos próximos três anos. Jim O’Neill, economista chefe da Goldman Sachs, disse que essa expansão da assistência médica na China pode ser “o mais importante acontecimento na economia mundial”. Ou seja, em vez de guardar dinheiro para um imprevisto médico, os chineses se sentiriam mais seguros para consumir – estimulando a economia doméstica.

Portanto, vale a pena acompanhar o plano chinês e ver como vai evoluir.

 


12.05.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 15:01:57.

As companhias aéreas faturaram US$ 1,15 bilhão no ano passado com as novas taxas para despachar bagagem. Isso mesmo, US$ 1,15 bilhão. Desde o ano passado, a United, US Airways, American e outras estão cobrando pela segunda e às vezes até pela primeira mala despachada.

Esse número me irritou profundamente. No mês passado, voltando de Trinidad e Tobago, o avião atrasou e perdi a conexão em Miami. Tive que dormir em Miami – mas você acha que a companhia aérea pagou o hotel? Nem pensar. Disseram que o atraso se devia a condições meteorológicas locais, e por isso não tinham de pagar.

Ou seja, para despachar mala, que seria um dever natural da companhia, eles cobram. Mas se o vôo atrasa e nós temos de ficar em um hotel, eles lavam as mãos.

Não é irritante?

 


04.05.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 13:00:26.

O Paquistão é o grande pesadelo do governo Obama. Um país com governo civil fraco, militares que tocam uma administração paralela, um serviço de inteligência que age como se não prestasse contas a ninguém, um arsenal de armas nucleares espalhados pelo território e dezenas de insurgentes Talebã e da Al Qaeda. Obama disse estar tranqüilo com a segurança do arsenal nuclear - os militares sabem da importância de manter as armas em segurança, disse ele.

Mas nos bastidores, é cada vez maior o temor na Casa Branca de que armas nucleares caiam nas mãos do Talebã e da Al Qaeda.

Nesta semana, o presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, e o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, estarão em Washingotn para reuniões com Obama, a secretária de Estado Hillary Clinton e o assessor de Segurança Nacional, Jim Jones.O Iraque, como se viu, não tinha armas de destruição em massa. Mas o Paquistão tem.

 


25.04.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 13:18:57.

Na quarta-feira à tarde, funcionários do Fundo Monetário Internacional (FMI) promoveram uma entrevista coletiva para explicar os Direitos Especiais de Saque (DES). Quase metade dos jornalistas presentes eram chineses, que não pararam de fazer perguntas. O assunto era especialmente interessante para eles, porque o presidente do Banco Central chinês, Zhou Xiaochuan, sugeriu que o DES seja a nova moeda de reserva mundial, como alternativa ao dólar. Mas a entrevista era apenas o reflexo de uma nova realidade: há uma invasão chinesa nas reuniões do Fundo Monetário Internacional.

O número de jornalistas chineses registrados para a reunião de primavera deste ano quase quadruplicou – são 43, diante de 12 no ano passado. Como comparação, não passam de 10 os jornalistas brasileiros registrados. O papel da China como emprestador de última instância – o país vem concedendo empréstimos a países como Jamaica e Argentina - e o anúncio da contribuição de US$ 40 bilhões do país para o Fundo fizeram o interesse dos chineses pela reunião crescer muito. “Os chineses estão muito animados porque agora é o momento de a China aumentar sua influência no mundo”, diz Zengxin Li, correspondente da revista Caijing em Washington.

A última capa da revista foi dedicada à reunião do G-20 em Londres e agora Li está escrevendo várias matérias sobre a reunião do Fundo e a atuação da China na reforma do organismo. Segundo Li, os rumos da economia mundial e a criação de uma nova moeda de reserva são a grande preocupação dos chineses. Afinal, explica ele, “metade das reservas de US$ 2 trilhões da China estão em dólar, e com o déficit americano aumentando de forma astronômica, por causa dos planos de resgate, o dólar fatalmente vai se desvalorizar muito.”

Desde o início da crise mundial, a agência de notícias oficial chinesa, Xinhua News, e o jornal China Daily aumentaram o número de correspondentes em Washington. A Xinhua News tem mais de 15 jornalistas cobrindo a reunião do Fundo. “Eu não paro de receber pedidos de entrevista dos chineses, que antes não se interessavam muito”, disse um funcionário do Fundo.

 


14.04.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 19:12:20.

A economia continua derretendo, a guerra no Afeganistão está cada vez pior, mas aqui em Washington, hoje só se falou em Bo, o primeiro cachorro. Bo, que é da raça "Portuguese water dog", cão de água português, fez sua primeira exibição oficial hoje, no jardim da Casa Branca, diante de dezenas de fotógrafos e câmeras.

"Ele é uma estrela, não é?", perguntou o presidente Obama, que foi arrastado pelo energético cachorro.

Malia, a filha mais velha, veio segurando Bo pela coleira, para que ele posasse para fotos. O nome do primeiro-cachorro tem duas explicações - um gato das primas das meninas Obama chamava Bo, e o apelido do avô delas, o pai de Michelle, era Diddley (daí Bo, de Bo Diddley, muito sofisticado).

"Ouvi dizer que os cães de água portugueses adoram tomates, então acho que nossa horta nova já era", brincou Obama.

Um jornalista gritou - presidente, o sr. está seguindo o conselho de Truman?

"Sim, eu finalmente consegui um amigo aqui."

O ex-presidente Harry Truman cunhou a frase famosa: "Se você quuser ter um amigo em Washington, compre um cachorro."

 


07.04.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Variedades, Estados Unidos 17:39:17.

Eu entendo que o país inteiro esteja em liquidação, até a Saks está dando desconto de 70%, e estão pensando em pacote de estímulo até para jornais.

Mas liquidação em banco de esperma.....

O Xytex International, banco de esperma americano, anunciou uma venda especial de esperma de "doadores prolíficos", um eufemismo digno de tucanos. O desconto é de US$ 200. "Todos estamos sentindo os efeitos da crise econômica e para as famílias em busca de opções reprodutivas, cada dólar é importante", disse a porta-voz da empresa. Os descontos são apenas para esperma desses doadores "selecionados". "Os doadores selecionados são aqueles que conseguem doar muitas vezes por semana", esclareceu a porta-voz.

Tucanaram a guerra e os ativos podres

Parafraseando José Simão, a praga dos eufemismos chegou para ficar aqui nos EUA.
Chega de "guerra ao terror", expressão infeliz que remete a todas as besteiras que o governo Bush cometeu em sua luta contra os terroristas. A palavra de ordem agora é "overseas contingency operations", ou operações de contingência no exterior. Não diria que é um slogan que vai pegar, mas...

Os papéis podres ou ativos tóxicos também ganharam novo rótulo - agora, em sua versão 2.0, eles são os "legacy assets", ou ativos herdados (continuam sendo um pepino sem solução, mas isso não vem ao caso.)

 


01.04.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Variedades, Estados Unidos 16:21:36.

"Sexting" é a moda que está pegando entre adolescentes de mandar ou postar na internet fotos deles mesmos nus ou semi nus. Segundo uma pesquisa da Campanha para Evitar Gravidez de Adolescentes, 22% das adolescentes e 18% dos adolescentes americanos já enviou para alguém ou postou em um website fotos deles nus ou semi-nus. No mês passado uma menina de 14 anos de New Jersey foi presa depois de postar quase 30 fotos dela pelada no MySpace.

É sério. A idiotice não tem limites.

Para os mais crescidinhos e com um pouco mais de discernimento (não muito mais), o Google criou um "pacote de redução de de foras no gmail". Com isso, você terá uma janela de 5 segundos para cancelar um e-mail enviado (e salvar seu emprego, casamento ou amizade).

O pacote inclui também os "mail goggles" - mecanismo que exige a resolução de alguns problemas matemáticos antes que você envie e-mails etílicos de madrugada, aqueles do tipo "eu sempre te amei, por favor vamos voltar", e contemple suicídio no dia seguinte.

 


20.03.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Estados Unidos 11:39:58.

Sarcasmo definitivamente não é uma qualidade que cai bem em presidentes. Ontem, em entrevista no programa do Jay Leno, Obama escorregou na piada.

"Eu marquei 129 pontos no boliche", disse o presidente americano.

"Muito bom, sr presidente", ironizou Leno.

"É como as Paraolimpíadas ou algo do gênero".

Ouch. Piadas com deficientes físicos?

Um porta-voz até tentou consertar depois. "O presidente fez uma piada de improviso a respeito de sua pouca habilidade no boliche, mas de maneira alguma queria ridicularizar as Paraolimpíadas."

Não colou.

 


18.03.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Economia internacional, Estados Unidos 16:59:37.

Aqui nos Estados Unidos os supermercados vendem um treco (não sei que outra palavra devo usar para descrever) chamado "I can't believe it's not butter" (não posso acreditar que isso não é manteiga), que é uma pseudo-manteiga com menos calorias e infinatamente menos gosto. Hoje, na audiência do presidente da AIG, Ed Liddy, o congressista Gary Ackerman, rei dos aperçus, veio com mais um dos seus.
"Existe uma grande empresa chamada 'I can't believe it's not butter". Pelo menos eles têm a decência de dizer que não se trata de manteiga. A AIG é uma companhia de seguro que não é uma companhia de seguro. Se eles tivessem que vender os credit default swaps (CDS) como "I can't believe it's not insurance (não posso acreditar que isso não é seguro), ninguém ia comprar."

O senador Chuck Grassley - que, diga-se de passagem, adora passar uma legislaçãozinha contra o Brasil - foi mais longe. Grassley sugeriu harakiri para os funcionários da AIG que levaram bônus milionários depois de causar prejuízos bilionários para o contribuinte. "Eu me sentiria melhor se eles seguissem o exemplo japonês, se apresentassem para o povo americano, se curvassem e pedissem desculpas, e fizessem o seguinte: ou pedissem demissão, ou se suicidassem."

 


14.03.09

por Patricia Campos Mello, Seção: BRICs 11:53:48.

Gilberto Gil estava ontem no lobby do Four Seasons, onde está a comitiva brasileira que veio para o encontro com Lula. E estava afiado em suas pensatas holísticas:“Lula veio discutir o significado de Obama; eles vão perceber, vão discutir o sentido das percepções mútuas como pessoas e como chefes de Estado.”

Entenderam?

Gil disse que o Brasil é um exemplo a ser seguido pelos Estados Unidos durante a crise e o presidente Lula pode ajudar o presidente Obama. “O Brasil deve servir de exemplo para todas as providências que o mundo e Obama devem tomar”, disse Gil.

“O Brasil se antecipou a uma série de coisas a que agora o mundo tem de se dedicar, em relação a finanças,dificuldades dos bancos, programas de redistribuição de renda, programas como o PAC. Antes de Obama, Lula já foi um proponente desta pauta de terceiro mundismo e força política compartilhada que Obama deve seguir.”

 


28.02.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Variedades 23:29:28.

É difícil ser ecologicamente correto nos dias de hoje. Até as pobres ovelhas contribuem para o aquecimento global. As ovelhas, quem diria, arrotam gás metano, um dos grandes responsáveis pelo efeito estufa. Outro dia estava lendo uma reportagem genial no Wall Street Journal sobre pesquisadores que estão tentando reduzir o efeito estuia causado pelas ovelhas - que ao mascar grama, regurgitar e arrotar, estão indiretamente derretendo as calotas polares.

Papel higiênico macio, daquele mais caro, também é nocivo ao meio-ambiente. Os papéis bem macios não podem ser feitos a partir de fibras recicladas – então contribuem para o desmatamento. Só aquele papel higiênico mais áspero que é fabricado a partir de fibras recicladas.

E teve gente tirando sarro da Sheryl Crowe no ano passado, quando ela recomendou que todos usassem só um quadradinho de papel higiênico a cada visita ao banheiro. Ou seja, vocês verdadeiramente ecológicos, amordacem as ovelhas, usem só um quadradinho, e de papel lixa, por favor.

 


23.02.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Economia internacional, Estados Unidos 15:30:51.

Está óbvio que o povo americano precisa poupar. Depois de anos de orgias consumistas, o país está quebrado, com uma dívida que se aproxima dos US$ 12 tri lhões e no caso dos consumidores, ultrapassa 100% da renda.

O problema é o timing.

Como disse Santo Agostinho – “Deus, dê-me castidade, mas ainda não”

Se os consumidores americanos começarem a poupar agora, o país mergulha ainda mais na recessão. Então, como disse George W Bush depois de 11 de setembro – vão para a Disneylândia.

A dívida e o déficit são o bode na sala. E será necessário lidar com esses abacaxis para que a economia seja sustentável a médio prazo. Mas isso não pode começar agora, apesar de Barack Obama estar falando em redução do déficit até o final do mandato (porque o investidor em títulos do Tesouro está acompanhando de perto as projeções de déficit). No ano passado, aumentou a compra líquida de títulos do Tesouro dos EUA, mas isso principalmente porque muita gente se livrou de todos os títulos de Fannie Mae e Freddie Mac (que equivaliam a títulos do Tesouro por terem garantia implícita do governo) depois que elas quebraram e trocaram por Treasuries. Daqui para frente, apesar dos pedidos encarecidos da secretária de Estado Hillary Clinton à China, não sabemos se vai cair um pouco o interesse por Treasuries (no curto prazo é pouco provável, mas...)

Portanto, faça-nos austeros, mas ainda não.

A propósito, traduzo um e-mail que está circulando no mercado, enviado por um amigo meu que trabalha em Wall Street :

Alguns sinais de que o mercado vai mal:

– o jornal de domingo custa mais caro que a ação do The New York Times

– A taxa de caixa eletrônico do Citi é mais cara que a ação do banco

 


11.02.09

por Patricia Campos Mello, Seção: Economia internacional, Estados Unidos 10:39:35.

O pacote de resgate aos bancos divulgado pelo secretário do Tesouro Timothy Geithner não resolve o problema central da crise financeira atual: como determinar o preço dos chamados ativos tóxicos. No cerne da crise atual estão trilhões em ativos tóxicos, na maioria títulos lastreados em hipotecas e outros créditos de alto risco, entupindo os balanços dos bancos.

Quando o agora mal-falado Tarp foi aprovado pelo Congresso em setembro do ano passado, seu objetivo inicial era comprar ativos tóxicos dos bancos para limpar os balanços. Dessa forma, as instituições voltariam a coinceder empréstimos. E investidores privados, sem medo de buracos que não param de crescer (vide Bank of America comprando o abacaxi do Merrill Lynch), se sentiriam mais seguros para investir nesses bancos, recapitalizando-os.

Mas o então secretário do Tesouro, Henry Paulson, esbarrou em um problema espinhoso – quanto o governo deveria pagar por esses papéis?

Como são papéis pouco líquidos, os bancos determinam o valor desses ativos em seus balanços usando seus prórpios modelos. Mas o valor que o mercado se dispõe a pagar é infinitamente inferior.

Se o governo pagasse o valor de mercado pelos papéis, ele acabaria de afundar os bancos, que recberiam US$ 0,10 por US$ 1 em papéis que eles precificavam a US$ 0,80 por US$ 1, por exemplo.

Mas se pagasse muito acima do mercado, o Tesouro iria enraivecer os milhares de americanos que estãoo sofrendo com uma crise criada por esses mesmos bancos – que seriam recompensados. Além de resultar em enormes gastos para uma economia que já tem quase US$ 12 trilhões de dívida.

Daí porque Paulson desistiu de comprar os ativos tóxicos e resolveu simplesmente injetar capital nos bancos.

Mas, como se viu, não foi suficiente. Sem livrar os bancos dos papéis tóxicos, o crédito não voltou a fluir, não houve investidores privados capitalizando bancos e os empresários continuaram sem acesso a financiamento.

Aí é que entra o fundo público-privado para compra de ativos tóxicos de Geithner. Nas palavras do Tesouro, a banco-ruim PPP tira das costas do governo a responsabilidade de determinar o preço desses ativos: "permite a compradores do setor privado determinar o preço de ativos problemáticos e ilíquidos".

Porém, parafraseando Garrincha, faltou combinar com os russos. Se os investidores privados quisessem, já estariam comprando esses títulos agora, mas não estão.

Para fazê-los mudar de idéia, o Tesouro terá de oferecer incentivos apetitosos, na forma de garantias sobre perdas desses papéis. Mas essas garantias terão de ser "precificadas". E é aí que caímos no mesmo problema: se forem muito altas, podem acabar saindo muito caras para o contribuinte. Se forem muito baixas, o governo não conseguirá atrair o investidor privado. É por essas e outras que alguns economistas "hereges" como Nouriel Roubini falam em nacionalização dos bancos, aqui já chamada de "palavra com a letra ene".

 


31.01.09

por Patricia Campos Mello, Seção: BRICs, Economia internacional, Estados Unidos 18:44:08.

Recordar é viver, como diriam no baile da saudade e em outros locais menos idílicos.
Em 17 de junho de 1930, os Estados Unidos baixaram a Lei de Tarifas Smoot-Hawley, que elevou significativamente a tarifa de importação sobre 20 mil produtos. Em vez de proteger a indústria doméstica, a Lei desencadeou uma guerra comercial e transformou uma recessão em Grande Depressão.

Nas útlimas semanas, uma série de medidas protecionistas está pipocando em vários cantos do globo. Nos Estados Unidos, o pacote de recuperação econômica, que é a grande esperança de salvação para o país,pode conter uma emenda protecionista exigindo que todo o “ferro, aço e produtos manufaturados” usados em projetos do pacote sejam “made in America”. Empresários advertem que isso vai desencadear retaliação por parte de parceiros comerciais e encarecer os projetos de infra-estrutura. Mas as indústrias protegidas e legisladores populistas (entre eles o vice-presidente Joe Biden) comemoram.

Em Londres, houve uma onda de protestos contra a contratação de trabalhadores estrangeiros.

Rússia e Índia elevaram tarifas de importação logo após a reunião do G-20 em Washington, em novembro, em que todos os países se comprometeram a não adotar medidas protecionistas.

E o Brasil, numa operação trapalhada, adotou licenças não automáticas para vários produtos, para logo depois cancelar a medida, diante de protestos de indústrias.

A justificativa é nobre - preservar empregos domésticos durante a crise braba que está aí.

Mas, caveat emptor, o resultado vai ser o oposto disso. Vide Smoot-Hawley. A torcida do Corinthians inteira está avisando.

 


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Patrícia Campos Mello tem mestrado em Business e Economic Reporting pela New York University. É correspondente do Estadão em Washington.





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