BLOGS

02.07.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 23:00:13.

dafsdf
Ingressos Lenticulares desenhados pelo próprio Jacko: satisfação (quase) garantida ou seu dinheiro de volta

Londres

Mais que a dor de perder um ídolo (discussões sobre a dor da perda de fato e sobre o que é ou não um ídolo à parte), os fãs que compraram um dos 800 mil ingressos que já haviam sido vendidos para a turnê de Michael Jackson estão amargando a dor da dúvida. Quem adquiriu seus tickets por 'vias certas' (ou seja, revendedores autorizados), podem escolher ou ter seu dinheiro de volta integralmente (ainda que não se saiba quanto tempo este processo levará de fato) ou adquirir um exemplar de um autêntico e raro 'lenticular ticket'.
lenticular o quê?
O site oficial da turnê (www.michaeljacksonlive.com) explica: a impressão lenticular é um processo especial em 3D que contém animação, fotos múltiplas, movimentos e/ou uma combinação disso tudo. Ou seja, cada um dos ingressos lentinculares contém na parte da frente uma foto de Jacko dançando um de seus passos clássicos. Desenhados pelo próprio cantor, eles seriam já enviados aos que assistissem aos shows da turnê inglesa.

No desespero para tentar tampar o buraco dos 50 milhões de libras de prejuízo que está levando, a AEG Live, empresa organizadora dos 50 shows, está encontrando saídas 'criativas' para diminuir o rombo deixado pela morte do cantor. Além dos ingressos souvenirs, que tem a dimensão 'especial' de 8,2cm X 18,6cm, shows-tributos ao cantor estão na lista de medidas para recuperar o tempo, e o dinheiro, perdido.
Há fãs revoltados que alegam que a AEG Live está oferecendo ouro de tolo aos fãs (uma vez que a lembrancinha surpresa já estava incluída no pacote inicial). Hã fãs que já garantiram seus ingressos lenticulares que vão entrar para a história da 'volta dos que não foram' ao show. Já os indecisos têm até 14 de agosto para escolher se terão sua satisfação (quase) garantida ou seu dinheiro de volta.

 


27.06.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 18:11:18.

moon

Flash mob pára o leste de Londres em homenagem a Michael Jackson

Fãs organizaram mobilização pelo Facebook e pelo Twitter e, em questão de horas, reuniram milhares de ‘moonwalkers’ em frente à estação de Liverpool Street

Flávia Guerra

Londres

A idéia nasceu assim como quem não quer mais que cantar, abrir o peito, soltar a voz (ainda que desafinada) e relembrar os hits do Rei do Pop... Mais que isso, mostrar que Londres não é a culpada pela morte de Jacko.... E que os fãs ingleses sabem como se mobilizar e festejar, literalmente, em praça pública. Como? com uma flash mob. Ou uma mobilização a jato.
A idéia foi do jovem Milo Yiannopoulos que, em vez de ir para a porta da O2 Arena reclamar suas libras de volta, resolveu ir para a porta da Liverpool Street Station, no leste de Londres, exibir seu sound system e ensinar os outros fãs de Jacko a dançar a moonwalk.
Depois que, em poucas horas, conseguiu reunir milhares de pessoas em plena noite de sexta, confessou que não sabe dançar a moonwalk. Mas, afinal, que diferença isso faz? Yiannopoulos conseguiu um feito inédito. E os fãs, órfãos do ídolo e da turnê que nunca vai acontecer, adoraram e compareceram em peso.

Na noite de sexta, enquanto a BBC, a CNN e as TVs do mundo caçavam notícias e especulavam tudo o que podiam sobre a causa mortis de Michael Jackson, uma pequena multidão dançava e cantava em frente à Liverpool Street Station. A mesma estação viu, há pouco, a cidade quase parar diante dos tumultos do encontro dos G20.

Ontem, diante desta que é uma da principais estações de trem e metrô da capital inglesa, cerca de três mil fãs entoaram os hits de Jackson e transformaram sua Mass Moonwalk em uma das homenagens mais acaloradas da Europa. “Decidi fazer esta mobilização porque cansei de ouvir as coisas horríveis que têm sido faladas sobre o Jacko. Ele foi muito mais que escândalos, overdoses e polemicas. Sempre foi o meu ídolo e sempre vai ser. E merece esta homenagem. Londres não pode ficar marcada como a cidade culpada pela morte dele”, declarou o organizador da mobilização, Milo Yiannopoulos.

monb
Polícia inglesa literalmente assiste à Mass Moonwalk

A culpa em questão se deve ao fato de que a pressão de encarar a maratona de 50 shows que ele começaria no próximo dia 13 na capital inglesa é apontada como o motivo principal do stress por qual o cantor vinha passando nos últimos meses. “Seria maravilhoso se ele pudesse ter cantado para nós, mas não aconteceu. E não vamos esquecê-lo por isso. Pelo contrario”, bradou a estudante Karen Moor, de 17 anos, que tentava dançar ‘moonwalk’ em meio à multidão. “É incrível o que conseguimos fazer em poucas horas. Tive a idéia, espalhei pelo Facebook e pelo Twitter e veja no que deu. Isso é prova de que podemos fazer muito mais”, concluiu Yiannopoulos.

Apesar da colunista do Guardian Hadley Freeman afirmar em letras garrafais hoje que "ESTE NÃO É UM MOMENTO DIANA' e que as pessoas estão procurando momentos de emoção (e comoção) coletivas que, no fim das contas, só promovem falsas emoções, os fãs ingleses mostraram que, quando o assunto é 'demonstrações públicas de afeto aos ídolos' (sejam eles frutos da mega influência da mídia ou não), fazem bonito para o mundo ver.

É... assunto para continuar a se pensar... Até que ponto um Diana Moment e/ou um Jacko Moment é obra da mídia ou da pura emoção?

Como dizem os italianos, 'se non è vero, è ben trovato'....

Quem quiser conferir a Mass Moonwalk 'pelos olhos' dos fãs, pode acessar:

http://www.youtube.com/watch?v=rPxA2fu0UHs&eurl=http%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fevent.php%3Feid%3D95380486558&feature=player_embedded

 


26.06.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 18:36:41.

Prólogo:
Este blog está de volta ao ar após uma longa ausência causada por uma maratona enfrentada por sua blogueira. Motivo: finalização do documentário dirigido por ela sobre os motoboys brasileiros em Londres. Os brasileiros couriers, como aqui são chamados, compõem cerca de 80% destes profissionais tão necessários aqui quanto em São Paulo ou outras grandes capitais brasileiras. Mais detalhes sobre este outro lado londrino, que passa muito longe dos clichês da Piccadilly Circus e de Notting Hill, virão a seguir. Por ora, outra história londrina: Michael Jackson e sua anunciada, mas nunca realizada, última turnê

nb
Capa do Metro tentava achar um culpado...

Londres

Centenas de fãs lotavam a Trafalgar Square há pouco. Celebravam o talento de Michael Jackson e agradeciam ao cantor o presente que seria dado aos londrinos: Assistir e ser palco daquela que seria a última turnê da vida do Rei do Pop.
“Não deu tempo… Nunca vou ver o Jacko ao vivo”, lamentava uma fã adolescente ao amigo enquanto acendia uma vela em homenagem a Michael.

Hoje pela manhã, na ‘porta’ da O2 Arena (a arena de espetáculos no leste de Londres) que seria a ‘casa’ de Michael até março de 2010, quando a turnê (ainda que não saísse do mesmo lugar) seria encerrada, centenas de fãs exigiam o dinheiro dos ingressos de volta e choravam pela memória do cantor.
Enquanto isso, nas linhas mais que lotadas do metrô londrino, os jornais gratuitos sumiram. Quem enfrenta a maratona do ‘commuting’ todos os dias em Londres sabe. Em geral, no fim do dia, o que mais se vê nos vagões são os London Paper, o London Lite e o Metro jogados às traças depois de terem sido devorados pelos milhares de usuários do ‘tube’.

Hoje não. Hoje um usuário resmungava para o amigo: Todo dia tem Metro jogado pelo chão. Fica uma sujeira só. Hoje, justo hoje que eu quero ler sobre o Jacko, não tem um exemplar.”
O amigo retrucou: “Claro. Hoje é um dia histórico. Todo mundo quer guardar o jornal ou levar para casa.”

Se os tablóides metropolitanos entraram para a história, isso é assunto para outro post. Mas que a manchete do Metro deixa um quê de intriga e exagero (como todo bom tablóide tem de ter), isso deixa. A chamada: “Família culpa Londres pela morte do superstar”. “Jacko foi morto pelo inferno de fazer 50 shows na O2 Arena”
É… assunto a se pensar...

 


11.06.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 09:39:25.

tu

Londres

"Londres teve uma semana de São Paulo. Isso serve para os londrinos aprenderem que tudo sempre pode piorar", brincou (ou não) o estudante brasileiro na terça à noite, quando resolveu fazer a pé o caminho que sempre faz, em cinco minutos, de metrô. "Levei uma hora para fazer o mesmo percurso. Esta cidade está digna de São Paulo em dia de greve e chuva", completou o 'commuter' brasileiro.

Commuters são, grosso modo, o que poderíamos chamar de usuários do transporte público. Mas quem 'commuta' geralmente tem de trocar de linhas, 'to commute'. O commuter em geral sai de sua casa no subúrbio de manhã e tem de trocar de linhas, meios e caminhos para chegar ao trabalho. Baldear enfim...

O motivo do desespero dos commuters londrinos nesta semana: greve. Greve dos metroviários.

Em uma cidade como Londres, em que 11 linhas coloridas cruzam entre si e se propagam por linhas do
DLR (algo como o famigerado, e nunca 'alcançado' Fura Fila), do trem e das centenas de linhas do tradicional Double-Decker Bus (mudado a pedidos, mas que conste que 'o londrino de todo dia' prefere facilitar e falar, ainda que errado, doubledeckbus), uma Tube Strike (Greve do Tube, o metrô) causa arrepios até nos mais despojados súditos da Rainha.

dsfads
No London Lite, a manchete foi a bravura dos commuters londrinos

O desamparo em que se sentiram os moradores de Londres não atingiu somente os portadores do Oyster (uma maravilha da vida moderna que pode ser mal comparada ao Bilhete Único paulistano). Os Push-Bikers, os moto-bikers, os que andam a pé, de ônibus, de táxi... Ontem o assunto não foi o mau tempo. Até porque, apesar da tradicional chuva londrina, o tempo tem sido generoso e tem garantido domingos de sol no parque.

A greve levantou uma questão mais interessante: A bravura dos commuters.

Deu no London Lite (o 'must read' - tem que ler - jornal distribuído nas portas das estações de metrô). A bravura dos 'commuters' venceu a greve. Em vez de ficar em casa esperando a greve, e a chuva, passarem, os commuters se uniram e tiraram suas bicicletas, patins de casa, pegaram carona, ônibus e barcos.

É... Se os problemas são os mesmos nas grandes cidades, as soluções por vezes são diferentes. Ou quase. O londrino, ao menos, pode optar pelo serviço público de barcos que circulam pelo Tâmisa diariamente. Numa demonstração de solidariedade, o prefeito Boris Johnson (que vai trabalhar pedalando todos os dias) ontem resolveu se unir ao usuários dos barcos que fazem a linha Tower Bridge - Canary Wharf. Enfim, quem não tem tube, vai de barco. Ou compra uma bicicleta.

 


31.05.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Way of Life 11:24:15.

dsd
No site da BBC, 'pequenas susans' fazem campanha pela conterrânea Susan na cidade natal da cantora, em Blackburn

Ou Susan Boyle perdeu ou ganhou porque 'é feia'?

London

A derrota de Susan Boyle para o grupo de street dance Diversity no último sábado rendeu às bancas de apostas britânicas cerca de 5 milhões de libras (que não foram gastas pagando quem apostou na cantora escocesa que virou febre no youtube há sete semanas).

Minutos depois da derrota de Susan, transmitida ao vivo pelo ITV (canal britânico que exibe o Britain’s Got Talent, algo como Os britânicos tem talento), o assunto de mesa de pub era: “Susan perdeu porque seu lugar no show business já está mais do que garantido ou porque o Diversity é mesmo melhor?”

Há quem aposte que ela ‘perdeu porque é feia’. “Garanto que se fosse uma mocinha loirinha, novinha e que cantasse tão bem quanto, teria levado. Ela, mesmo com tantas críticas e sendo acusada de ser só um golpe de marketing, mostrou que tem uma voz linda e que sabe perder”, defendeu uma advogada que assistiu a final do programa no ‘pub da esquina’ da Liverpool Street com a Bishop’s Gate Avenue.

Há quem diga que ela ‘só chegou tão longe porque é feia’. “E eu garanto que se ela não fosse tão feia assim teria ido lá, cantado bem, mas não teria feito todo aquele alarde. Ela só chamou tanta atenção porque subiu ao palco como uma caipira sem estilo que foi já considerada por todos uma looser”, rebateu a estudante de moda.

O amigo ‘funcionário de banco’ acrescentou: “E quando viu que ela cantava tão bem, todo mundo ficou culpado e surpreso, mas a voz dela não é nada de extraordinário. Basta ir a uma ópera para ver quantos talentos incríveis como ela existem.”

Em tempos em que a virgindade de Susan (que afirmara que, aos 47 anos, nunca havia sido sequer beijada) vira mercadoria para empresas de ‘filmes adultos’, em que seu talento (que de fato é notável) seja medido pelo seu ‘grau de feiúra’ e que seu valor seja calculado de acordo com ‘o quanto as bolsas de apostas lucraram com a vitória da zebra’, talvez seja hora de perguntar: Britain’s Got Talent ou Britain’s Got Tedius?

 


14.05.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 22:30:10.

frree

Free is good!

Londres

O ditado já diz. De graça, até injeção na testa. Ou quase. Mas, se o presente em questão se tratar de algum artigo oferecido no freecycle, pode acreditar que até uma bela injeção na testa vai ter seu destino.

O sistema é simples. Há quem queira se livrar de algo que já foi útil mas se tornou um elefante branco em plena sala de estar. Há quem esteja precisando desesperadamente de um elefante branco para combinar com a decoração de motivos safari na sala nova.

A oferta de ontem era tentadora: "Ofereço uma caixa cheia de minhocas. Não são lá minhocas campeãs, mas já serviram de bom adubo para minhas azaléias e garanto que reproduzem muito rápido. Só estou me livrando delas porque estou mudando para um apartamento sem jardim."

Presente de grego? Que nada! Não deu cinco minutos e as minhocas já tinham um novo lar.

Assim é o Freecycle. Uma rede internacional de troca de tudo que se possa imaginar. De minhocas a cestas de frutas estilo 'Dorothy em o Mágico de Oz', passando por simplórios sofás, cadeiras, mesas, aspiradores-de-pó, talheres, camas, lençóis, almofadas, secador de cabelo, raquete de tênis, sapatos, livros, revistas, DVDs, berços, roupas...

Os endereços dos que dão e dos que recebem variam, mas o centro nervoso da comunidade é o mesmo sempre: www.freecycle.org. Criado nos Estados Unidos em 2003, hoje já está em centenas de cidades em dezenas de países. Já conta com mais de seis milhões de membros que se dividem por quase cinco mil grupos.

Há semanas, quando se inscreveu, esta que vos escreve exibia orgulhosa o sofá (quase) novo da Laura Ashley barganhado com um produtor musical do East End londrino que precisava de espaço em casa para o novo modelo que havia comprado.

lll
Um autêntico Laura Ashley ganhou um novo lar

Se em tempos de credit crunch (a famigerada tal da crise), a ordem é reciclar, o freecycle é o case do ano. Em Londres o freecycle já é assunto de mesas de bar (ou seria de pub?), de cabeleireiro e fila de supermercado...

"Não é só pelo fato de ser bacana e contribuir para o meio-ambiente. É mais barato doar as coisas no freecycle que chamar um carreto para levar para o lixo. A prefeitura não recolhe sofás, por exemplo. E está todo mundo querendo economizar. Até no carreto, que é uma fortuna até para quem ganha em libras", explicou o bem-feitor e ex-dono do meu Laura Ashley.

Já na fila do supermercado, o assunto era o mesmo, mas o tom era outro. "Menina, tá vendo esta saia nova? Peguei no freecycle! A menina estava voltando para a Austrália e resolveu dar todas as roupas no freecycle", disse uma amiga para outra na fila do Tesco (a cadeia de supermercados mais famosa de Londres, que carinhosamente muitos brasileiros chamam de Tosco tamanha a má qualidade das frutas oferecidas. Mas de o quanto as frutas são artigos raros na Inglaterra é assunto para outro post).

"Jura? Que ótimo. E olha que eu tinha vergonha de aceitar qualquer roupa usada no Brasil. Agora até cadeira no lixo eu ando pegando. Outro dia uma amiga disse que marcou um date (o famoso 'encontro') com um cara de quem ela foi buscar uma geladeira", respondeu a amiga.

"Lixo que nada. É reciclável. É hype reciclar! Tá na moda! Pena que não existe no Brasil", reclama.

Existe sim. A comunidade 'internética' já não é mais 'uma grande novidade', mas poucos ainda a conhecem de fato no Brasil. Até pouco tempo, somando Rio, Curitiba e São Paulo, pouco mais de 300 pessoas faziam parte do clube. Para aumentar o quórum da comunidade brasileira, e quem sabe conseguir ganhar, dar ou trocar mais que 'ótimas minhocas', é só acessar: www.freecycle.org.

 


05.05.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 13:00:16.

Prólogo a este post editado e comentado:

Como poderá ser lido no post do leito Jose, abaixo, havia erro de tradução no post antigo, que já foi corrigido.
Aceito de muito bom grado a observação sobre saudar a Coroa. Mas ainda vejo contradição quanto ao caso dos Brazilians.
Após pequena enquete com amigos ingleses, todos concordam que Ahmed pode estar tanto falando do tratamento a Jean Charles quanto sobre o tratamento que os brasileiros em geral recebem da polícia. Concordo que seria mais direto e óbvio de fato que Ahmed estivesse falando de Jean Charles, já que é fato que a canção trata exatamente disso. Sem contar que as minorias étnicas interessadas se uniram na época do caso para protestar contra o julgamento mais que sumário sofrido pelo brasileiro e pela justificativa dada pela polícia, que alegou que o tinha confundido com um suspeito terrorista. Alguns disseram que o suspeito seria árabe, outros somali, outros paquistanês... Em futura, e desejada entrevista que realizarei com Ahmed, a pergunta não deixará de ser feita. Por ora, o texto original, ainda que esteja equivocado, será mantido.

shf

Londres

Shifty é um típico jovem inglês. Mora em uma das tantas cidadezinhas da região metropolitana de Londres. Na pacata Dudlowe, ao sul da capital inglesa, ele divide uma confortável casa com o irmão mais velho, trabalha para ajudar a pagar o aluguel e é bom filho, apesar de um tanto ausente.
Tudo estaria do gosto da Rainha não fossem alguns poréns. Shifty é filho de imigrantes paquistaneses. E isso já é suficiente para lhe garantir julgamentos pré-concebidos e apelidos carinhosos como Paki. Para agravar, Shifty é dealer e anda se envolvendo com más companhias. Dealer é como o tradicional drug dealer (traficante) é também carinhosamente chamado por seus clientes.
Os clientes de Shifty, por sua vez, são pais de família desempregados que não vivem sem 'dar um tiro' de cocaína no fim do dia, senhoras de classe média viciadas em crack e jovens a fim de 'pimp their party' (algo como enfeitar, vitaminar uma boa festinha).
Tudo vai relativamente bem até que o irmão de Shifty descobre que tipo de bico ele faz para ajudar no aluguel, seu cliente pai de família resolve roubá-lo e o Big Dealer da cidade resolve que um Paki como ele não é lá um contato muito confiável.
Tudo seria um grande drama real não fosse Shifty o personagem principal do filme que leva o mesmo nome e que vem fazendo com que o público recupere a fé no cinema britânico, como bem observou a descolada revista Dazed&Confused.
Shifty é um ótimo exemplo do cinema 'bom, nem tão bonito, mas muito barato' que os jovens cineastas vêm praticando no Reino Unido. Filme de estréia de Eran Creevy, Shifty rendeu uma indicação ao Bafta para o ator e cantor Riz Ahmed.

Riz Ahmed é Shifty: http://www.youtube.com/watch?v=DT75k8sUXaQ

Mais conhecido como Riz MC, Ahmed é de fato descendente de imigrantes paquistaneses e já foi chamado várias vezes de Paki. Em 2006, quando voltava do festival de Berlim, onde o filme Caminho para Guantanamo foi exibido, foi parado pela polícia alfandegária de seu próprio país. Os oficiais precisavam checar se Riz, na verdade, não se tratava de algum agente terrorista.
Curiosamente, Caminho para Guantanamo, filme de Michael Winterbottom, revela as atrocidades cometidas pelas autoridades norte-americanas na base onde 'abrigam' os prisioneiros acusados de atos terroristas.
Seria trágico se não fosse cômico. No longa, Riz entrou na pele do Shafiq Rasul, integrante do Tipton Three, trio de ingleses que ficou preso na base americana de Cuba nos anos 80.
Assim como seu personagem, Riz está sempre shifting. Ou seja, mudando, trocando de papel, trocando a carga que carrega de um lado para outro neste mundo (quase) sem fronteiras. Shifty, Riz MC, Riz Ahmed. Seja qual o apelido carinhoso, a arte imita a vida no roteiro do jovem inglês. Riz é formado em Filosofia, Política e Economia em Oxford e, como resultado do tratamento que teve na alfândega, criou o hilário POST 9/11 BLUES.

rs
Riz Ahmed em cena de Caminho para Guantánamo

O 'pessoal' não gostou muito e andou mandando 'recolher' a provocativa canção. Pudera. Na letra mais que ácida, Riz não poupou ninguém. Nem mesmo os brasileiros.

"Se você é moreno, é melhor você fazer a barba e 'saudar a Coroa' (como bem observado pelo leitor Jose, é, ao pé da letra, o significadeo de ´salute the crown´e nao ´the crow´, o corvo. Mas que pode bem ser interpretado como o respeitoso ato de bater continência). Se não eles podem fazer como os brasileiros e atirar na sua bund..." (ou seria ´como com os brasileiros´, no caso, Jean Charles?)

É... Na aldeia global da geléia geral, miséria e violência é são as mesmas em qualquer canto. Já as riquezas continuam diferentes.

Confira:

POST 9/11 BLUES

http://www.youtube.com/watch?v=AKTsJpfC0IQ&eurl=http%3A%2F%2Fwww.thepoorhouse.org.uk%2Feverybody_do_the_post_9_11_dance&feature=player_embedded

What can I do
I got the post 9-11 blues
On the telly nuthin but the post 911 news
War, iraq, suicide bombs
Stop hogging the limelight and make some room for my songs!!
Anyway its all re runs
- We need a new war Bush! Go get Iran, I heard theyre talking bout your mum!
Change the channel, watch some telly for kids, but whats this??
Hi kids welcome to fun fun fun fundamentalists [kids show theme style]
In the breaks, Nikes advertising bomb-proof-kicks
They even showing Bin Ladens cave on Cribs!!
So I picked up a respectable post 911 magazine
It told me bout the new post 911 categories -
Isreali fighters are soldiers, Irish are paramilitary
- And darkie ones are terrorsists - how simple can it be?
But not me my friends say riz is still one of us
But if I havent shaved - they wont sit with me on the bus

Everybody do the post 9-11 dance
Look scared and shake ya ass while the bombs go blast
Everybody shake your post 911 thong
So the dossier was wrong
Jack some oil drop a bomb
Sing a song sing a long
bush and blair in a tree
K-I-L-L-I-N-G-
Shave your beard if your brown and you best salute the crown
Or theyll do you like Brazillians and shoot your ass down

Post 9/11 getting around can be expensive
Cost ya 12 dead Iraqis for a litre of unleaded
And even Green Cross Codes all changed
They just teach kids to duck around low flying planes
And on the tube if you see a dude with a rucksack,
And a beard, move carriages mate - **** that!
They cancelled xmas cos of santa clauses beard and his magic
Red sac got confiscated as a suspect package
No need for Halloween 911s more scary
Osama Bin Goblin eats kids and hes hairy
Hear a knockin on the door at early dawn in the dark?
Its MI6 theyll trick or treat you to a week in belmarsh
Forget Guy fawkes hes lame
Gun powder plots dont really compare to planes
So no bonfire Halloween or christmas, theyre done
Well do it all on one day merry 911

Everybody do the post 9-11 dance
Look scared and shake ya ass while the bombs go blast
Everybody shake your post 911 thong
So the dossier was wrong
Steal some oil drop a bomb
Sing a song sing a long
bush and blair in a tree
K-I-L-L-I-N-G
Shave your beard if your brown and you best salute the crown
Or theyll do you like Brazillians and shoot your ass down

Post 911 policy might seem harsh
But its the terrorists fault we got id cards
And a congestion charge
That theyre extending far
And electronic tags on the chav childrens arms
Course we need belmarsh and **** 28 days
We should put the whole of Oldham in its own ****in cage
Move Hounslow underground so nothing could go wrong
Lutons already moving, Bradfords already gone
Were all suspects so literally, be watching your back
I farted and got arrested for a chemical attack
Dropped some litter on the street and I caused a bombscare
But told police my name was John, they thought they caught the wrong brae
But its ok
Post 9/11 I been getting paid
Playing terrorists on telly getting songs made
but will it get airplay geeza
well, if bbc dont want it Ill send it to al jazeera

 


28.04.09

por Flávia Guerra, Seção: Para brasileiro ver 16:06:34.

Londres

xx

Deu no The Sun: Susan Boyle recebeu uma proposta de uma produtora de 'filmes adultos' para perder a virgindade na frente das câmeras.
Quanto vale o show? Um milhão de dólares.
A mais recente estrela da música mundial (ou seria da indústria midiática?) teria até ontem para responder sim ou não. Se aceitasse a proposta, a escocesa que, aos 47 anos, afirma nunca ter sido beijada, viajaria para os Estados Unidos (onde as filmagens deveriam ocorrer) de, ironia!, Virgin Airlines.
Interessante é constatar que, desde que surpreendeu a todos em sua participação no Britain’s Got Talent (algo como Os Britânicos tem Talento), Susan virou fenômeno de mídia até mesmo no Brasil. O público brasileiro pode nunca ter assistido ao cheesy (algo como brega, mas que, ao pé da letra seria 'queijoso') programa da ITV, mas sabe de cor a sequência em que ela 'prova que o sonho pode se tornar realidade' diante da cruel bancada do Show de Calouros britânico. Segundo o The Sun, mais de 100 milhões de pessoas já assistiram ao vídeo em vários sites.

Vivemos tempos em que cada vez mais há coisas que o dinheiro não compra, mas manda buscar. Qualidade na TV, principalmente a britânica, berço da tão copiada e admirada BBC, é algo que nunca teve preço, mas vem perdendo valor. O tradicional formato britânico de documentários, que formou gerações de profissionais e espectadores, vem perdendo espaço para 'o bizarro na TV'. Recentemente, um departamento inteiro de documentários da BBC foi fechado. E os funcionários, que receberam a ordem de 'já para suas casas', também souberam de outra novidade: "De agora em diante, ou queremos documentários sobre pessoas muito exóticas ou sobre casos muito extremos e dramáticos. Nada de 'histórias da vida real e normal", contou uma das diretoras da 'repartição' em palestra na Universidade de Londres. Talvez os produtores do Britain's Got Talent tenham de fato muito o que ensinar sobre as 'novas diretrizes da TV em tempos de guerra por audiência a qualquer preço'.

Enquanto isso, em recentes aparições públicas, Susan já exibe seu novo corte de cabelo, desfila com seu chachecol novo da Burberry e talvez faça plástica. Enquanto a nova diva (que muitos afirmam ter sido milimetricamente construída pelo produtor do programa, o mesmo que 'inventou' as Spicy Girls) não surge totalmente repaginada, quem ainda não conferiu e/ou quer rememorar este 'grande' momento da TV mundial, pode acessar:

http://www.youtube.com/watch?v=iFSqD3BVxSA

 


22.04.09

por Flávia Guerra, Seção: Para brasileiro ver 23:24:43.

Prólogo: Em resposta ao leitor samucaoboapessoa, devo dizer que língua não tem osso. Portanto, é maleável. E gosta de brincar no céu da boca de quem ama cantar sua canção do exílio em bom e alto português, mas que nem por isso abre mão do jogo de palavras e linguagem quando a tarefa é (ao menos tentar) traduzir o clima, a atmosfera e a geléia geral chamada Londres.

Londres

Puck. Ou 'Requeijão para inglês comer"

ou

E por falar em geléia, o que tem mais gosto de 'comfort food' (algo como 'comida lá de casa', que dá conforto mesmo) para um brasileiro que está tentando se acostumar aos 'n' tipos de cheddar ingleses que o tradicional requeijão?

Não adianta apelar para o queijo-minas. Este não chega nem fresco nem curado. Não adianta procurar pelo tradicionalíssimo Poços-de-Calda nem pelas novas 'grifes' do 'Brazilian cream cheese'. E muito menos se contentar com o queijo que domina 90% das prateleiras dos supermercados ingleses, o onipresente cheddar! Há cheddar fresco, meio-curado, muito curado, extra amarelo, envelhecido, 'descansado', temperado.... Mas requeijão, nem no Waitrose (o supermercado dos posh, ricos e famosos, não necessariamente nesta ordem, de Londres).

Mas, no exílio gastronômico, brasileiros de todas as classes, castas, cores e tamanhos encontraram um substituto (quase) à altura. O Puck!
Puck em inglês poderia ser traduzido como disco. Mas neste caso é a marca do 'Requeijão para inglês comer'.

Na tarde ensolarada da quarta-feira londrina, na lojinha brasileira da Poland Street, quase na esquina com a lendária Oxford Street, o assunto era de suma importância para a manutenção da identidade nacional 'brazuca'. Onde achar requeijão?

"Ora, na deli (delicatessen, 'mercearia') turca tem! O Puck! Eu não acreditava, mas não é que até parece com o nosso este tal requeijão turco?", disse um brasileira que seguiu as dicas da amiga e testou o produto pela primeira vez.

"Mas não é turco! Tá escrito em árabe no rótulo", rebateu a amiga, que sempre comprava a iguaria em uma 'deli' indiana', aliás.

"Nem turco nem árabe. Esta marca é dinamarquesa. Tá no rótulo. Atrás...Só está escrito em árabe porque a comunidade islâmica adora cream cheese também", arriscou uma outra consumidora.

"Turco, árabe, dinamarquês... O que importa é que minha qualidade de vida melhorou horrores depois que descobri o Puck!", encerrou a outra nova consumidora.

"E ainda fica ótimo no recheio da jacked potato!", concordaram todas.

 


20.04.09

por Flávia Guerra, Seção: Para brasileiro ver 16:00:27.

tu
O tube (metrô) londrino e suas linhas que ligam os West End Boys às East End Girls. E vice-versa!

Prólogo
Este post é também uma carta aberta ao leitor Antonio Neves

Londres
West-East Side Story

A vizinhança do Carter House parece estar se esforçando para ser amigável com as novas housemates. Os vizinhos que trabalham nos bancos da região passam apressados, mas andam dizendo bom dia. As vizinhas de véus escuros e olhos vívidos andam sorrindo e dando boa noite.

Enquanto isso, Londres continua sendo um terreno em que os mundos se chocam e se encaixam o tempo todo. Talvez esteja exatamente aí, neste clash cultural e temporal, que esteja a beleza de uma cidade que, como todas as grandes metrópoles atuais, tenta encontrar o seu espaço na aldeia global.

Interessante como a simples menção das palavras Londres e Europa ainda são suficientes para fazer brilhar os olhos de milhões e milhões de brasileiros. Infelizmente, na terra da Rainha, nem tudo que reluz é ouro. Mas, já que em terra de cego, quem tem um olho é rei (ou rainha), o brilho no olhar se faz entender.
Um exemplo? A brasileira Adriana Plut está, assim como esta que vos escreve, dirigindo um documentário como projeto final do Mestrado em Direção de Documentários para a Goldsmiths University. O tema dela? Os brasileiros que vivem em Londres.
Não os que vivem em flats trendy em bairros como Chelsea, Notting Hill (que já foi bem 'caído', aliás), Mayfair... Mas os que se espremem em 'Little Brazils' como Willesden Junction. Os mesmos que se espremem em quartos com cinco, seis, dez outros companheiros de imigração.
Não há um só 'working class' brasileiro que não diga que no Brasil todos acham que eles estão ganhando rios de dinheiro, tomando pontualmente os seus chás-das-cinco e gastando seus pounds na Oxford Street.

jc
Um lugar chamado Willesden Junction. Ou seria Little Brazil?

Mas, o fato é que estes brasileiros são, na imensa maioria ilegais, trabalham tanto e desempenham funções e jornadas tão duras que, no pouco tempo livre, em vez de se estirarem nos gramados do Hyde Park, preferem se jogar na cama e assistir ao Caminho das Índias (já que a soap opera local é difícil de entender. Não pelo roteiro fraco, mas porque esta grande comunidade não tirou nota A no exame de proficiência em inglês).

Pode-se perceber nitidamente em cada um destes brasileiros que eles se esforçam para provar o tempo todo que são pobres, mas não miserable. E percebe-se nitidamente em cada um dos brasileiros 'não-pobres' (os que podem pagar um mestrado da Saint Martins, da Chelsea School of Arts, da Goldsmiths, da London School of Economics) que eles se esforçam o tempo todos para provar que são diferentes dos 'pobres'.

ss
Próxima Parada: Little Brazil Willesden Junction

Mas há vários denominadores comuns que unem as pontas deste Brasil expatriado. Rico ou pobre, todos têm de pendurar suas meias no heating (aquecedor, que serve muitas vezes de varal) ou no varal de armar (geralmente armado no meio da sala).
Em terra em que área de serviço é bem de luxo e TV de plasma é tão barata quanto comida, roupa suja não se lava em casa. Simplesmente porque não há tanque. Já roupa suja há muita. Mas esta é lavada na máquina de lavar ou na pia do banheiro mesmo.
Pobre ou rico, todos os imigrantes e ingleses têm de engolir às vezes o fish&chips da esquina, beber a água calcária da torneira e desentupir uma pia de vez em quando. Simplesmente porque o famigerado 'Quilo da esquina' não existe. Filtro é artigo raro. E canos são velhos. Quase tão velhos quanto a monarquia.

bv
Brick Lane, o centro nervoso do East Side, que já foi reduto de Jack, o Estripador e hoje abriga feiras, restaurantes e casas noturnas

E os vizinhos (sejam eles bengali, paquistaneses, ingleses, poloneses, italianos, escoceses, japoneses), em áreas misturadas como o East Side podem não entender, a priori, que nem toda pimenta é chilly. Que nem todo molho é curry. Que nem toda mulher usa ou véu ou cabelo roxo na cabeça. Que nem todo inquilino acha normal um cano vazando, um carpete alagado, buracos na parede e cebolas voadoras. Se estes vizinhos entendem de mestiçagem, então, é melhor nem comentar.

“Um brasileiro pode até sair do Brasil. Mas o Brasil nunca sai de dentro do brasileiro”, disse uma das entrevistadas de Adriana Plut.

Pois bem. Diante deste chavão tão óbvio quanto sábio, esta que vos escreve poderia passar horas contando quantas horas já perdeu na vida tomando os trens que ligam Corinthians-Itaquera aos outros lados dos rios. Do quão proletário é preciso ser para se galgar uma bolsa de estudos do British Council e cursar um mestrado no Reino Unido. Do quanto 'é preciso make ends meet (o que poderia ser algo como ‘vender o almoço para pagar o jantar') para atravessar o Canal da Mancha com um degree (diploma) na mão.
Mas este blog reluz. Apesar de não ser de ouro. Melhor encerrar. E deixar claro que ela pensa que o que faz de cada um pobre ou rico não é seu background bancário, mas o modo como cada um enxerga o outro lado do rio. Seja ele o Tâmisa ou o Tietê.

 


12.04.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Way of Life 19:39:17.

pp

Londres

Passados os G20, a saraivada de críticas que o prefeito Boris Johnson recebeu por ‘gastar dinheiro demais para receber um bando de bagunceiros e de políticos’, a capital inglesa parece ter voltado a seu ritmo normal. Ou quase. Em pleno feriado prolongado (além da Good Friday – a Sexta-feira Santa –, segunda-feira também é feriado. Feriado bancário, aliás), Londres se parece mais cenário de 28 Dias (filme de Danny Boyle em que a Inglaterra é tomada por uma peste e se torna um grande deserto habitado por zumbis).

Os que não voltaram para seus países natais, tentaram formar suas famílias postiças e organizar a bacalhoada (com bacalhau fresco, o Cod Fish). Em Londres, o bacalhau não vem com sal, mas a cabeça… a cabeça continua sendo um mistério. Mais difícil que encontrar uma cabeça de cod fish, parece ser entender como funciona a lei da boa vizinhança Londrina.
Pois bem, voltemos ao Carter House. Depois de conseguir negociar com o landlord 50%/50% do novo carpete, de, heroicamente convencer o mesmo a pregar uma maçaneta na porta do quarto (afinal, para que portas precisam de maçaneta?) e de conseguir um sofá (quase) novinho em folha no freecycle (aliás, esta maravilha da vida ‘internética’ que merecerá um post exclusivo em breve), a casa parece estar em paz, certo? Errado.
Estranhas pilhas voadoras que se atiram contra as janelas double-glazed (ou seja, com vidro duplo, para evitar arrombamentos), cebolas, pedaços de Madeira… Oferendas de boas-vindas do adolescentes Bengali que habitam as outras dezenas de pingeonholes (os buracos-de-pombo) do council building.
Clash cultural ou falta do que fazer? As desperate housemates do Carter House respiraram fundo e fingiram não ligar. Tudo em paz até que uma estaca de Madeira entra, sem querer, pelo letterbox (buraco das cartas) e lá fica. Um metro e vinte da mais pura boa vizinhança entalada na porta e na garganta da brasileira acostumada a receber bolo-de-cenoura como presente de boas vindas. “Vocês querem, por acaso, oferecer flores, mas não sabem como?”, pergunta a vizinha.

Entre reclamar com a polícia ou com o Bispo, a vizinha preferiu respirar fundo e esperar até o dia seguinte. De manhã, em vez de botar a raiva, resolveu botar o lixo para fora. “Vocês fizeram uma festa ontem?”, perguntou o vizinho. “Não. Não houve festa nenhuma, mas minha porta quase foi abaixo”, respondeu ela, enquanto tentava entender a lógica do lixo reciclável. Papelão pode. Saco de plástico, não. Enfim, o vizinho se adianta: “Nós sabemos, nós sabemos. E isso não vai acontecer mais. Esta é uma vizinhança amigável. Vocês podem ficar tranquilas.”
“Se este é o lado amigável da vizinhança, não me fale do lado não amigável.”
O vizinho promete que falaria com os garotos. “Você entende… Eles são crianças ainda. Vocês são novidade…”
Neste momento, a única lembrança que uma das ‘vizinhas novas no pedaço’ tem é a do avô dizendo: “Com 14 anos, eu trabalhava na roça e sustentava uma casa.”
Com 14 anos, os vizinhos do East End, perguntam se as vizinhas fumam, bebem e se querem comprar alguma mercadoria ‘no paralelo’.
“Thanks, but no thanks.”
Por ora, depois da ‘conversa’ com os ‘meninos’, não choveu mais ‘cats and dogs’ nem pilhas, cebolas e estacas de Madeira. Por ora, a paz reina no Carter House.
Falta só resolver ainda o vazamento da máquina de lavar e pagar a TV Licence (sim, na Inglaterra, paga-se imposto para ver TV).

To be continued…

 


03.04.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 17:08:34.

iji

Londres, Bank, City

Hoje, sexta, a cidade amanheceu de ressaca global. Os helicópteros que rondaram insistentemente pela ala centro-leste da cidade silenciaram. As sirenes (quase) se calaram. E a fumaça baixou. O que sobrou foram muros pichados, cinzas e algumas escoriações.
Ontem, os garotos paquistaneses deram uma festa. Pelo sim, pelo não, comemoraram a promissora nova ordem mundial e tocaram uma bela desordem no quarteirão ao som de 'Bye, Bye, Miss American Pie'. Ou seria, Mister America?

Antes, sem saber da festa, pelo sim, pelo não, os manifestantes - que devem preferir a tradicional, e britânica, Shepherd's pie - defendiam (menos os anarquistas italianos, que devem preferir la bella pasta): 'Abrace um policial. Afinal, estamos todos na mesma barca.' Ou não.

fdas

Bank... Depois das manifestações

dff

 


02.04.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 12:22:20.

banksers

Londres

Enquanto os helicopteros acordavam já na madrugada os moradores da Carter House (que, caminhando, está próxima, muito próxima do centro nervoso, financeiro e agitado da capital inglesa, mais conhecido como Bank District), os bancos da Inglaterra já haviam declarado feriado bancário. Pelo menos nas agências do 'bairro dos bancos'.
Um dia longe do trabalho... menos 150 mil libras no bolso. Certo? A julgar pelos 'palhaços manifestantes' que faziam ponto ontem em meio aos 4 mil ativistas que mobilizaram a cidade hoje, corretíssimo.
Então, diante da impossibilidade de se viver sem esta quantia módica por dia o que fazer: "Pedir esmolas, meu caro Watson", ironizou o palhaço do capitalismo.
De 'red nose' (nariz vermelho) empinado, o 'banqueiro' foi às ruas para também protestar por sua fatia do bolo capitalista. "Não sou banco, mas, se gostar de mim, pode me arrendar também', dizia o amigo... "Não precisa me usar com parcimônia", brincava o outro.

jdkjfakdsjf
"Banqueiros ou masturbadores?", pergunta o manifestante americano.

é... em tempos de crise, quem não chora, não mama. E o lendário English humor (o humor inglês) se faz mais que necessário.
Enquanto isso, o circo pega foto na cidade. E a leva dos que não andam mamando o suficiente nas tetas do capitalismo amanhã segue do Bank District para o Excel Center (bem ao leste, nas docas inglesas). Os G20 prometem ter boas idéias para salvar o mundo do colapso financeiro e calar a boca dos barulhentos ativistas, que tentam falar alto em terra em que 'money talks' ('é o dinheiro quem fala'. e mais alto. Palavra do landlord para uma certa inquilina insistente no tal do 'Put People First').

E os helicópteros devem deixar as crianças paquistanesas, as vizinhas brasileiras e os pedreiros poloneses (que mesmo com a crise não pararam a construção de mais um condomínio do outro lado da rua) dormirem, jogarem bola e trabalharem sossegados. Ou quase.

banks

 


31.03.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 13:10:03.

Prólogo e Pré-fácil explanação:

RESPOSTA ABERTA AO CARO LEITOR AM:

Caro, eu não estou me exibindo falando inglês, estou apenas brincando com as palavras e o 'esperanto' que todos acabam falando quando moram em um país que não fala a mesma língua madre nostra. Por isso tento sempre explicar para os leitores que não são obrigados a entender inglês os porquês das brincadeiras. Desta vez, ainda que longe de ser genial, a brincadeira se referia tanto a 'Real Estate' (o tal do imóvel, como explico na primeira linha) quanto ao 'Real State' (o tal do Estado Real da digníssima Rainha). De real, muitas vezes os Real Estate e o Real State não tem nada, não é mesmo?
Como não ficou clara a brincadeira, obrigada pela observação. Vou tentar se mais clara, e menos disléxica, das próximas vezes.

O REAL STATE em estado de alerta geral

ddsadf

No ball games, diz a placa para 'inglês ver e desobedecer'

Hoje é dia de preparação para os protestos de amanhã. Enquanto os G20 se reúnem, os súditos da Rainha se preparam para protestar e defender com placas e piquetes que 'Capitalism is not working!'. O Capitalismo não está funcionando. O heating (aquecedor) de um dos quartos, o exaustor do banheiro, a fechadura da porta também não. Mas sobre isso é melhor protestar com o landlord (o 'senhor da terra' e não o proprietário, já que não muitos súditos são donos de suas propriedades no Reino Unido) paquistanês.

dsdf
O exaustor do banheiro quebrou? "Abra a janela!"

O que é mais difícil? Quebrar um preconceito ou uma cláusula no contrato?
Quebrar as regras até que não é tão difícil assim. Os meninos de Bangladesh jogavam bola no domingo de novo e quebravam as regras claras (vide a placa). Só não quebravam as janelas porque elas aqui são double glazed (tem 'camada dupla' contra arrombamentos e afins).
Quem promete quebrar o silêncio são os que perderam a fé no mercado financeiro e no capitalismo. Não é que a máxima ‘o seguro morreu de velho’ diz que melhor que investir em ações é comprar terras, muitas terras?
Pois bem, em Londres não há muita terra. E muito menos ‘frehold land’. A ‘frehold land seria algo como ‘a terra de posse livre’. Isso porque a grande maioria das terras no Reino é de posse da realeza. As ‘terras da Rainha’ são de ‘leasing land’ (algo como emprestadas ou alugadas) por cerca de 100 anos. Compra-se e mantém-se por uma, duas, quase três gerações, mas o tataraneto do landlord (por isso ‘o senhor da terra’ e não o proprietário) se quiser mantê-la, terá de comprá-la novamente.
A terra treme em solo inglês nesta semana. Enquanto na Carter House as novas inquilinas tentavam convencer o landlord a ser bom para elas e arrumar o exaustor do banheiro, as energias se exauriam no centro da cidade. Milhares dos britânicos desempregados protestavam e pediam uma nova política mundial que ‘PUT PEOPLE FIRST’, ou seja, Ponha as Pessoas (e não os banqueiros bem os cifrões em primeiro lugar). Há também o grupo que pede Put BRITISH People First e pede que os milhões de imigrantes (que, pelo bem ou pelo mal, fazem com que a capital inglesa seja talvez a cidade mais cosmopolita do mundo) ‘go home’ (voltem para suas free, ou não, lands).

Um grupo diz: Yes, we can. O outro diz: ‘Yes, weekend!’.
E os senhores da Terra dizem: I can.
Não são as pessoas que estão em primeiro lugar quando o assunto é convencer o landlord a pagar pela troca do carpete alagado cheirando a guardado desde a era Vitoriana.
A explicação: O heating, aquecedor, do quarto estava com vazamento. O sistema que aquece as casas inglesas segue um primário esquema de ‘a água é aquecida em um tambor e, em seguida, corre, fervendo, pelos canos que se estendem por toda a casa’. Canos enferrujam. Canos enferrujados racham e pingam.
Pingou por noites seguidas. Alagou o carpete, claro, o mais barato possível, do quarto do tal do council flat (a Cohabezinha). “Olha, isso é um negócio. Se eu começar a trocar tudo que os inquilinos querem, não vou ter lucro. Ninguém vai morrer porque há buracos nas paredes, um carpete fedendo ou um exaustor quebrado”, diz o landlord.

nnn
O carpete do quarto alagou. 'Ora, vá reclamar com a Rainha! Isso aqui é um negócio!"

De fato. “Mas eu sou alérgica. E se viver neste quarto, vou viver doente. E vou mandar a conta dos remédios para você”, responde a inquilina já cansada de guerra contra as regras ‘para inglês ver’ dos Real Estate Agents (os corretores de imóveis).
O landlord não se convence e replica: “Você deve ser muito sensível, eu juro que não estou sentindo nada.”
“Sensível o seu nariz de fato não é. E aqui não moro enquanto não trocar o carpete. Troco e desconto do aluguel.”
Depois de muita discussão de deixar a bancada do G20 boquiaberta, o landlord concordou: “Ok. Eu pago metade. Mas do carpete mais barato. E você vai ter de ir na loja do meu amigo que eu indicar.”
Na falta de um membro do PUT PEOPLE FIRST para defendê-la no momento, a inquilina botou a viola no saco, engoliu seco e concordou.

Dia seguinte, a tal da loja do tal amigo. No coração de Whithechapel, a única mulher em uma loja de tapetes…

O G20 vai passar por aqui. E a real Estate, and State, Odissey, continua….

xcvzxcv
Um lado do colchão está velho? "Vira o colchão para o outro lado!"

 


25.03.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Way of Life 19:07:12.

Após tenebrosos dias de muita peleja imobiliária (real estate= algo como imóvel, propriedade, pedacinho de chão, ou de ar...), este blog ressurge dos calabouços dos porões mofados da capital inglesa para narrar, em primeira pessoa, mas sem arroubos de auto-promoção, as aventuras de se alugar uma casa em Londres.

Vamos lá. E desta vez, como manda a lei universal dos blogs, vamos tentar posts mais curtos e mais frequentes.

A começar, minha nova casa, cuja foto aqui segue:

vvv

Esquina da Carter House. My new home, bitter-sweet, home.

Um council building (algo como a Cohab, o Cingapura daqui) de tijolinhos expostos (não há nada arquitetonicamente mais britânico que os 'red bricks', não é mesmo?). Na esquina, e na divisa, de Banglacity com Spitalfields Market. Seria como morar na esquina da Praça Benedito Calixto, no coração da Vila Madalena quando era 'desabrochou', com um possível bairro paquistanês, indiano, judeu, japonês, italiano, chinês, coreano.... A chamada modernidade fashion dos londrinos trendy (descolados, na moda, cool) convivendo harmoniosamente (ou quase) com a tradição paquistanesa que até hoje rege as cabeças que caminham à mostra e sob os véus.

'Proibido Jogar Bola' está escrito na parede da Carter House (como a cohabezinha é chamada). Está lá escrito. Em bom inglês e bom paquistanês (suponho que seja bom, uma vez que ainda não consigo distinguir a diferença entre os dois alfabetos - o indiano e o paquistanês- mas já consigo distinguir de longe, e de perto, a diferença entre os dois grupos de imigrantes tão presentes em Londres). Mas que nada. No sábado à tarde, o que se vê (graças!) são as crianças batendo um bolão, acertando as janelas com o mesmo bolão e rondando o prédio de bicicleta. Tudo isso a cinco minutos a pé de Liverpool Street Station, uma das mais movimentadas (e belas) estações de trem da Inglaterra.

Mas, pode-se perguntar, o que a minha odisséia imobiliária tem de relevante jornalisticamente para estar aqui narrada? A minha, pessoal, talvez não muito. A minha, como um dos exemplos de como funciona o mercado imobiliário em meio à crise mundial que corrói cada um dos canos (já em sua maioria muito enferrujados) dos imóveis e, consequentemente, da economia inglesa, e, consequentemente, mundial, muito.

É sobre esta indústria imobiliária macro, e também micro, que este blog versará nos próximos posts.

To be continued... Continua amanhã

 


24.02.09

por Flávia Guerra, Seção: Para brasileiro ver 09:52:06.

Londres

Nem sempre é Carnaval no Brasil. Muito menos em Londres. Mas às vezes....

ojo
De olho no Brasil. Bela foto de Vanderlei de Almeida/AFP

Deu no Guardian!
O Eyewitness (testemunha ocular) do Guardian, está de olho no Carnaval do Brasil. Até aí, nenhuma novidade, não é mesmo? O trio de ouro brasuca quando o assunto é 'aos olhos alheios', é sepre a combinação certeira 'carnaval, futebol e praia'. Com direito a incluir nas entrelinhas, os tufões nos quadris e os derrières generosos das compatriotas foliãs.
Mas, vê lá, na última sexta, enquanto milhares de patrícios curtiam no pub da esquina ou em bailes 'quase' carnavalescos da capital londrina, o Guardian olhou por nós para detalhes da nossa folia que quase nunca são destaque nas páginas dos jornais estrangeiros.
Na outra ponta deste novelo cultural, a fotógrafa Erika Tambke desenvolveu uma consistente pesquisa sobre como, e porquê, a brasileira é sempre vista como a 'passista sempre pronta para dar uma sambadinha'. Seja na frente da Rainha ou do Papa. Erika está no Rio esta semana, clicando mais, e pesquisando mais, para tentar entender este fenômeno nacional. Sua pesquisa rendeu tese para a LSE (London School of Economics) e bela exposição fotográfica.

ll
Legenda da fogo, que ocupou duas páginas inteiras do mais nobre jornal britânico: Um membro da Acadêmicos do Grande Rio trabalha em um dos destaques do desfile que a escola fará na Cidade do Samba, onde as escolas do grupo de elite do samba se preparam para o Carnaval, que começa hoje.

Poucas coisas são mais poderosamente femininas que ver uma passista passar com sua banda, seus tufões nos quadris e seu chocalho amarrado na canela diante do mundo. Mas poucas coisas são mais desonestas que tirar de contexto uma festa que tem suas raízes profundas fincadas em séculos de história e mistura racial, cultural, e, por que não, sexual. 'Recortar' somente as ancas das brasileiras foliãs para ingleses de todas as nacionalidades verem é como encaixar a mocinha inglesa que despenca da escada rolante, de trêbada que está, numa sexta à noite na estação de Piccadilly Circus e colocá-la, sem escalas, diante de uma vitrine do Shopping Iguatemi.
Qualquer frase, foto, e até elogio, fora de seu contexto, pode soar ridículo, demasiado ridículo.
Mas nesta terça de Carnaval, o fato é que foram os Olhos azuis da Grande Rio que mereceram duas páginas do mais nobre (e um dos poucos não sensacionalistas) periódicos ingleses.
Palmas, palmas! Nem só de derrières se faz um Carnaval!

PS: Quem não gosta de Carnaval, pode até ser ruim da cabeça e doente do pé.... E pode ser muito bom sujeito! Mas julgamentos e comparações 'a grosso modo' sobre o caráter deste nosso povo que ainda busca se entender e se construir, não são indispensáveis a este blog, que se delicia tanto com o Britt Pop quanto com o Samba de Breque da esquina. Sorry about that, mas esta blogueira anda achando que ainda é mais fácil quebrar um átomo que um pré-conceito.

 


21.02.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Way of Life 00:03:07.

Capítulo 1 – O Sunday Roast

frangao
O tradicional Sunday Roast: além do Fish&Chips e 'primo inglês' do 'frangão de padaria'

Londres

Um domingo. Não no parque. Porque em tempos de pós-nevasca e pré-primavera, o inverno ainda não inspira muitos londrinos (de sangue e de criação) a dar um passeio no bosque.
E o que há no lugar do Domingo no Parque? Um domingo no Pub.
Então, lá fomos nós e nosso nariz enxerido em busca do verdadeiro English Sunday Roast. E, como manda a tradição, eles são servidos em típicos English Gastro-Pubs.

parq
O parque, há algumas semanas, num domingo pós-nevasca

O Sunday Roast nada mais é do que o ‘frangão assado’, daqueles de encher os olhos, e a boca, de todo cachorro de porta de padaria que se preze. A pequena diferença é que o frangão inglês é ‘ão’ mesmo. E que um pouco de tempero extra não faz mal a ninguém de paladar tropical. Servido no prato, o Sunday Roast vem acompanhado de brócolis (um ‘must’ britânico), cenoura, cebola, batata, repolho... E de uma cerveja e amigos bons.
O gastro-pub nada mais que um típico bar que serve o tradicional Fish&Chips e algumas das outras poucas iguarias famosas da dita inexistente gastronomia inglesa).
Enquanto a tal da crise mundial faz com que os restaurantes posh (digamos, mais posudos) percam sua clientela a olhos vistos, o cliente da working class (a tal da classe operária, o trabalhador, o funcionário da firma) persiste em sua busca frenética pelo verdadeiro sabor inglês ‘bom, bonito e barato’. Muito por isso, o Old Montague, pub mais que tradicional, daqueles que nos faz entender porque David Lynch existe, era a pedida perfeita.
Em uma esquina entre tantas no sul de Londres, divide sua clientela entre os que param para ver o pianista tocar em um palquinho digno de ficção do Stanley Kubric em plenos anos 80, e os que querem se sentar à mesa e discutir o quanto o `approach` (digamos, ‘jeitinho de chegar junto’) dos latinos, orientais e europeus saxões é diferente (Esta conversa merecerá, em breve, um post exclusivo).

lynch
O Montague é a prova de que David Lynch não 'viaja' tanto assim

Ah, o sul. O sul fica longe na capital inglesa. Muito distante do posudo Oeste. Longe do descolado leste. A perder de vista do tradicional norte. O sul é outra Londres. O Montague mistura uma clientela de ‘beberões profissionais’, estudantes descolados das universidades locais, solitários e moradores da região.
Num pub, nada de garçon. A bebida se pega no bar. A bartender, uma lady (que de lady não tem muito) com seus bem mais de 60 anos, escolhe por você: Hoje você vai de sidra. Aceito a sugestão. Nem de longe, nem no sul e nem no norte, alcanço o profissionalismo com que o britânico sabe apreciar o fruto da cevada.
O Sunday Roast se pede na mesa. E não adianta pedir spicy (super temperado).

bar
Em mesa de bar, cerveja, e sidra, não podem faltar

Tempero e temperamento não se discutem. Principalmente em Londres, cada um tem o seu. A moqueca brasileira, ainda que muito apreciada pelos poucos que já a saborearam, tem gosto de exotismo (talvez porque o coentro seja artigo mais apreciado nas delis indianas). O frangão inglês, ao gosto do freguês latino (isso inclui colombianos, venezuelanos, brasileiros e chilenos), carece de um dedinho de sal.
Mas o tal do melting pot (o caldeirão de sabores e culturas) continua fervendo na capital da atual crise mundial. Enquanto dias melhores não vem, e o Carnaval não faz lá muito barulho em terras britânicas, a torre de Babel conta, em dezenas de idiomas, seus contos. E aumenta alguns pontos.

 


10.02.09

por Flávia Guerra, Seção: Para brasileiro ver 23:35:27.

br
Brasil 2 X 0 Italia

Londres
Após meses de ausência, de toneladas de neve e de tumultos por conta da tal da crise mundial, este blog se levanta novamente para ilustrar a partida que reuniu, segundo os policiais londrinos, que hoje pararam para ver a banda do Brasil passar, ´o maior contingente de brasileiros (e olha que não são poucos) em um evento publico de Londres da historia recente´.

Brasil X Itália era o tal do evento. Caos no metro, estações fechadas, desvios, um frio de 0 graus celsius que castigava ate o mais otimista dos jogadores. O cenário era muito diferente, mas a animação era a de sempre. Um torcedor brasileiro quase arrumou briga com o italiano porque não conseguia assistir ao jogo sentado. Um outro achou a salsicha de porta de estádio (que saudade do pernil da porta do Maracanã) muito sem gosto. A torcedora, que conseguiu se ´por bonita´ mesmo sob as toneladas de roupas, achou o banheiro do Arsenal muito menos `pobre, mas limpinho` que o do Morumbi em dia de Corinthians X São Paulo. E o Nigeriano exibia feliz seu cachecol verde-e-amarelo. E o paquistanes passou mais tempo assistindo ao espetaculo da torcida que o do campo.

Ha quem sempre vá dizer que futebol é o ópio do povo. Ha quem diga que é pura magia. Ontem, não foi nem uma nem outra. Foi amistoso. Entre provocações de ambas as partes, italianos, brasileiros e simpatizantes provaram porque ainda se enfrentam maratonas para ver Robinho e cia entrarem em campo. Em dia de Dorothy, esbanjando sua chuteira vermelha, Robinho provou ja no primeiro tempo porque o futebol brasileiro ainda reúne do mesmo lado nações tão adversas. No segundo tempo da partida, quando o Brasil perdeu um pouco da ginga e a Itália literalmente entrou de sola, os ´carcamanos´ amigos (com todo respeito que a brincadeira preconceituosa hoje é feita até por quem, como esta que vos escreve, leva o sangue pazzo nas veias) admitiram que perderam.

Perderam a chance de também mostrarem o belo calcio que já tiveram (e ainda têm, ainda que bem escondido) e gastaram mais as chuteiras batendo pesado nos adversários canarinhos.
Por fim, de volta aos vagões caóticos dos metros londrinos, os ´fratelli di Italia´ pararam para cantar e ´ouviram do Tamisa, as margens nem tanto plácidas, de um povo ainda heróico o brado retumbante: Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.

PS: Este relato não é um tratado sociológico acadêmico, muito menos um tratado esportivo. É o relato pessoal, apaixonado, e deslumbrado (sim!), que ecoa a voz de milhares de outros tupiniquins, ou não, que se abalaram hoje para, simples e simploriamente, deixar-se entorpecer pela magia deste mistério chamado futebol.

 


04.12.08

por Flávia Guerra, Seção: Britt Way of Life 00:22:37.

bbn

Cartaz no metrô de Londres alerta: "Há coisas que você só faz quando está bêbado."

Londres e Marrocos

Marrakesh – No Marrocos, a turista acidental jantava em um tradicional restaurante na praça mais famosa da cidade, Jemaa el-Fna, quando ouviu uma informação exclusiva do garçon:

- Aqui servimos álcool. E, depois das dez, também se pode fumar shisha.

A turista, acostumada a ver seus compatriotas ingleses entornar mais de três, quatro, cinco pints em uma noite, não entendeu. E perguntou ao vizinho de mesa, um norueguês acostumado a ver o governo (e somente o governo) ter permissão de controlar a venda de bebidas alcoólicas em seu país, respondeu:

- Isso. Álcool eu já sabia que era proibido em países muçulmanos, mas shisha eu achava que era como no Egito, ou até mesmo em Londres, onde qualquer pub da esquina pode botar uma mesa para seus clientes fumarem.

A amiga inglesa entendeu o boicote alcoólico, mas ficou sem saber qual era a ‘tal da shisha’.

ng

Horas depois, a jornalista brasileira aqui, escuta:

Você, que mora em Londres, e mora no sul, onde está cheio de gente de tudo quanto é lugar, e vive comprando docinhos árabes lá para os lados do oeste, em Marble Arch, diga aqui parra esta londrina do norte, o que é esta shisha? É haxixe em árabe? Pode fumar haxixe aqui?
- Nada disso, dear. Shisha é só mais uma forma para se dizer narguilé, water pipe, cachimbo de água. Entendeu?

- Entendi mas não compreendi. O que há de mau em fumar um inofensivo cachimbo de água que nada mais tem que um pouco de melaço, tabaco e fruta dentro? Se for assim, em Londres ninguém mais vai poder sair na rua. Todo mundo fuma naquela cidade.

A turista ocasional e londrina acidental retruca:

- Mas já não se pode Esqueceu que é expressamente proibido fumar agora até em pubs, casas noturnas e festas em locais fechados?

O jornalista árabe, que ouvia a conversa no computador ao lado, em plena sala de imprensa do Festival de Cinema de Marrakesh, o maior da África, faz questão de explicar:

- Olha, até dá para fumar haxixe e maconha na shisha. Mas o water pipe foi banido não porque seja droga. Se os chineses usavam para fumar ópio, os árabes em geral só fumam tabaco. A sociedade marroquina chegou à conclusão de que os cafés onde se fumava a shisha em geral atraía traficantes, prostitutas e era ponto de crimes e brigas. Ainda há alguns escondidos, mas são raridade. E a gente sabe o tipo de gente que freqüenta. Moça de família não vai nestes lugares.

As duas fizeram cara de "entendi". E deixaram a shisha para fumar oficialmente em Londres. E se contentaram em tomar um bom vinho no ‘circuito alternativo’ dos restaurantes e mercados ‘especializados’.

ng2

Londres – De volta à capital mundial da pint, o cartaz no vagão da Nothern Line (a linha norte do metrô londrino), chama atenção.
Enquanto um moço dorme abraçado à sua 'garrafa de cerveja' de estimação no ‘banco da praça’ e deixa à mostra suas pernas semi-nuas debaixo de uma frugal saia de bailarina. Para completar, o singelo dizer:

“Há coisas que você só faz quando está bêbado. Perder o caminho de casa não devia ser uma delas.”

Arrematando: Tome conta da sua saúde, das suas posses e da sua felicidade nesta temporada de festas de fim de ano. Planeje antes e chegue seguro em casa.

Assinado: Policia dos Transportes Britânica e Prefeitura (na verdade, espécie de sub-prefeitura) da cidade de Westminster.

Ora, ora, ora. Well, Well, Well.

Ao ver a jornalista tirar fotos com seu celular do cartaz, o cidadão, natural de Cardiff, em Gales, a cerca de quatro horas de Londres, pergunta:

- Tanto cartaz bonito no metrô. Logo ali tem um do Beckham, por que você está mais interessada no cara bêbado de sainha?

Complicou. Cultural Conundrum. Como explicar para o companheiro de vagão que já estava (quase) acostumada a ver meninas caindo de bêbadas pelas calçadas londrinas depois dos embalos de sexta e sábado à noite, mas que campanha para ‘bêbado chegar em casa direitinho depois de cinco, seis, sete.. pints na festa da firma no fim do ano` era mais pitoresco que a Troca da Guarda real.

mm9

O moço, que desde sempre sabe que uma ‘pint’ nada mais é que a unidade métrica equivalente a aproximadamente 568 mL, ou cerca de dois chopes, emendou com uma bela bronca:

- Não sei o que tem demais. Beber é uma tradição britânica. Se a gente não toma, no mínimo, uma pint, não relaxa. E agora vem este prefeito e f.... com ‘nosso esporte nacional’. Com esta crise toda, o que vai sobrar neste país para a gente ser feliz?

A ‘nova amiga’ não soube responder. Lembrou das capas de jornais. Quando não é a crise econômica, a separação da Madonna e do Guy Ritchie, o assassinato do baby P, tudo que a imprensa britânica mais fala é “Será o fim da nossa Happy Hour?”

ny

Motivos não faltam. Recentemente, o governo britânico decidiu encampar uma “Guerra contra o álcool”. Proibiu a venda de bebidas em lojas de conveniência depois da meia-noite Beber no metrô, que garantia cenas de alta tensão, como bêbados à beira de despencar na linha do trem, também agora é contravenção das mais sérias.

Para completar, as tradicionais promoções foram proibidas. De agora em diante, nada de atrair clientes com as sedutoras:

“Tudo que você conseguir beber por apenas 10 libras.”

“ Mulheres bebem de graça”

Oferecer bebida como prêmio para jogos também está fora de questão.

“Não se trata de moralismo. É questão de saúde. O pais gasta cerca de 25 bilhões combatendo e tratando o consumo excessivo de álcool todos os anos. O inglês precisa aprender que não precisa beber até cair toda vez que quer se divertir”, disse a porta-voz do governo.

bbb

Como explicar isso para o ‘amigo do trem’, que bebe muito mais que 21 pints por semana, a cota recomendada pelo Ministério da Saúde.

“21 doses por semana são menos de três pints por dia. Impossível ser feliz assim. Acho que vou comprar um carro e parar de andar de metrô. Assim deixo de ficar p... com estes anúncios idiotas. E já que não dá para dirigir bêbado, compro um carro brasileiro e passo a usar álcool só no carro. Vocês botam álcool no carros no Brasil, né? Que desperdício!”, brincou o passageiro.

E arrematou: “Aposto que vocês são muito menos beberões lá no Brasil, não?”

Salva pelo gongo. “Minha estação chegou. A gente termina esta história depois de curar a ressaca de réveillon.”

 


17.11.08

por Flávia Guerra, Seção: Para brasileiro ver 19:23:23.

Para encerrar este capitulo, fato mais que real:

Londres

voice

A amiga brasileira pergunta ao amigo polones:

- Vamos a um sound-system?

O polones, nascido e crescido em Varsovia, retruca:

- Sound-system? Aquelas festas do sul? Onde esta cheio de negao? Por que voce quer ir a um lugar destes?

A amiga, que acaba de filmar um pequeno video sobre a historia da musica negra no agitado sul de Londres, responde:

- Porque estou sempre atras da historia da boa musica. Tenha ela que cor tiver. E a boa musica inglesa tem seu berco no sul. 'E la que nasceram os sound-systems. O ska, o reggae e ate o rock que a gente ouve hoje deve muito aos musicos imigrantes do caribe que ainda vivem la.

O amigo continua sem entender:

- O sul para mim 'e sinonimo de gangues, assassinatos, traficantes e gente bebada. Esta eu passo.

A amiga, que entende mas nao compreeende o medo injustificado do amigo, mostra a ele o video que fez:

- Se chama Voice for the Voiceless (Voz para os sem voz). Veja se gosta e se muda esta sua cabeca loira polonesa:

http://www.dailymotion.com/nickstreet83/video/x7bug7_voice-for-the-voiceless_music

Cinco minutos depois, ele se limita a retrucar:

- Legal. Mas ainda assim eu passo. Por que voce nao convida a Helena? Ela, ainda que polonesa, casou com um frances negro. 'E um cara otimo. Ate os pais dela, que sao do interior da Polonia, gostam dele. E olha que na primeira vez que eles vieram a Londres ficaram admirados com quanta gente de outras racas havia aqui. Eu prefiro musica tecno. E por mim estes 'sem voz' vao continuar calados.

No entanto, o sul de Londres nao se cala. Sua musica toca em alto e bom som. Nas cabecas e nos sound-systems mundo afora.

 


:: Próxima página >>

 

Flávia Guerra é repórter do Estadão e dá dicas de cultura na Rádio Eldorado. Atualmente vive em Londres, onde está aprendendo a se entender com o "britt mood", com a lógica do trânsito "ao contrário" e descobrindo que nem só de "fish & chips" se vive na Inglaterra. Para isso, percorre cada canto de Londres em busca do que faz com que a capital inglesa seja hoje também capital cultural do mundo





Todas as Palavras
Qualquer Palavra
Toda a frase