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08.01.10

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 22:50:20.

Londres e São Paulo

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Enquanto a chuva cai em São Paulo e cobre a cidade de caos, a neve cobre Londres de branco e caos também. Mas semelhanças e diferenças não param por aí...

O BLOG DA VANESSA

A estudante brasileira Vanessa tem um blog em que escreve sobre Londres:
http://2anosemlondres.blogspot.com/

Nele, assim como eu, não consegue evitar a comparação entre as duas terras. Ela escreve muito mais que eu. Mas, assim como eu, tem um tom espontâneo, despreocupado e até mesmo naïf e descuidado de narrar o que vê, pensa e sente. Seja como for, o que importa é que seu texto é autêntico. Cara-de-pau na melhor acepção da palavra, revela muito bem como pensam e o que sentem os tantos imigrantes da nossa working class brasileira em Londres.

Este recente post dela mostra bem o que sentem tantos que vão e que vem...

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Vanessa Santos, brasileira e blogueira

2 anos em Londres

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Capítulo 28 - Refletindo sobre a volta ao Brasil

Foi vendo as fotos da viagem de uma amiga que foi a Sao Paulo que eu percebi que vai ser muito difícil minha adaptação no Brasil. Porém, também vi que vai ser muito importante ver tudo com outros olhos e que na verdade, apesar do medo, eu não vejo a hora. É uma mistura de sentimento engraçada.

A primeira foto que vi foi uma foto da avenida paulista onde eu pude ler uma placa que dizia "Bela Vista, Vila Mariana", ao redor muitos prédios e carros seguindo pela avenida.

Meu primeiro pensamento foi: "nossa, é totalmente diferente daqui!". É, eu vou sentir bem a diferença quando chegar lá. Poque é muito diferente! Eu já fiz um capítulo falando das diferenças de comportamento, certo, mas existem também as diferenças de estrutura.

Na Inglaterra também tem varios prédios no centro, mas é diferente. Em Londres tem menos prédio do que em São Paulo e os que tem são prédios antigos, mas muito bonitos, não pense que é igual os da praça da sé. São de tijolos vermelhos, como as casas, e não são tão altos. Os ingleses se sentem o máximo de falar que trabalham em um prédio de 7 andares. Para eles é muito alto. Mas fica mais bonito prédios de tijolinhos baixos do que um monte de prédio altão, quadradão e cobrindo a paisagem.

E como São Paulo tem gente ein. As avenidas são larguíssimas e mesmo assim ainda tem congestionamento. Eu jurei para mim mesma que quando chegar no Brasil NÃO vou comprar um carro. E pensar que em Londres eles reclamam que tem muita gente e muito trânsito. Eles não viram São Paulo ainda.

Estão vendo, vai ser difícil para mim. Mas vai ser bom. Na verdade não vejo a hora de chegar em São Paulo e ver tudo com olhos diferentes.

E até que São Paulo é chic não é? Cheio de prédios com janelas de vidro, shoppings maravilhosos, algumas avenidas arborizadas. O problema vai ser quando eu ver os mendigos, as criancas de rua...Aí vai ser complicado...

E até que São Paulo é bem atualizada culturalmente também. Podemos encontrar muita cultura! Tem o Fnac, enfim, vários lugares para adquirir cultura da mais atual. O único problema é que essa cultura toda é cara! Na Inglaterra, um livro custa em média 8 libras, enquanto que no brasil custa em torno de 30 reais. Mas tudo bem, certo? Porque eu vou ter um booom salário, eu espero.

A próxima foto foi uma foto da cidade litorânea, Peruibe. Eu sabia que era Peruibe mesmo antes de ler a legenda porque reconheci o morinho no horizonte e também o prédio branco redondo lá atrás. Dois tios meus tem apartamento e casa em Peruibe e além disso meu melhor amigo da época da adolescencia também tinha casa lá. Então Peruibe fez parte, digamos, da minha adolescencia praieira.

Foi legal ver a foto, mas eu já vi que vou me decepcionar com as praias de São Paulo. Começando com uma coisa que pode parecer besta, mas não é: as praias na Inglaterra tem sempre um Pier a beira mar. O Pier nada mais é do que um pilar de ponte que vai até consideravelmente em cima do mar que eu acredito que antigamente servia de embarcadouro, mas que hoje em dia virou centro de atrações.

Nos "piers" tem brinquedos estilo de parque de diversão, várias separações onde comerciantes vendem maça do amor, donouts, que eles amam aqui, creques, todo tipo de coisa doce que você imaginar, e claro, inclusive sorvete. Além disso tem aquelas casas de jogos, tipo de video game, maquinhinha de dança e de tentar pegar ursinho. E tem também pubs onde você pode beber uma cerveja e comer um fish & chips olhando o mar de cima.

E em Peruibe, só tem uns quiosquinhos feios. Nada contra. Na minha adolescencia eu achava Peruibe o máximo. Quando marcava de descer para Peruibe eu ficava contando os dias e não dormia pensando nisso. Na verdade, basicamente, Peruibe também tem umas casinhas de jogos, lugares onde você pode comprar docinhos gostosos, só que não é tudo junto em um Pier acima do mar. E também, pelo que me lembro, não é tão bonito.

Além disso, nas praias inglesas a areia é limpa e o mar também. Até a praia mais suja deles, que eu acho que é Brighton, a nossa equivalente Santos, ainda é muito mais limpa do que qualquer praia do litoral de São Paulo. Algumas praias na Inglaterra tem até museu marímito, navios antigos a exposição ou fortes que antigamente foram usado para guerra e a estrutura está lá até hoje para ser admirada. Se for ver, é tudo melhor!

Mas tem uma coisa que a praia brasileira tem que a praia inglesa não tem. E nisso o Brasil ganha de mil a zero. Nas praias brasileiras, faz calor. O máximo de calor que eu peguei na Inglaterra foi 25 graus! E se tratando de férias na práia, calor é muito importante. Principalmente porque sem ele simplismente não dá para entrar no mar. Então na verdade o que adianta eles terem uma praia toda cheia de atrações se o mar é frio, certo? Para ver atração eu fico em Londres mesmo. Se eu vou à praia é para entrar no mar.

Nossa. Mas foi incrível como vi que verei as coisas com olhos diferentes quando vi uma foto que mostrou uma brasileira bem de perto. Era uma moça normal para os padrões brasileiros, só que eu achei tão estranhinho o jeito que ela estava vestida. Como já disse, não era nada demais. É só que certas coisas não se fazem na Inglaterra, em relação a moda, e eu acabei que agora acho feio também.

Por exemplo, que nem a moça da foto que usava um brinco com uma estrela, que para a mulher brasileira não é nada demais, mas para a Vanessa pós Londres pareceu um exagero. Sem falar na regatinha super justa, estrangulando a mulher, com estampa de bichinho e ainda ela tinha cabelo fuá e fazia um rabão de cavalo bem cheio. Eu sei, pareceu maldade. Mas não é, vários caras brasileiros devem achar mulher assim bonita, é só que para os padrões europeus está feio.

Mas uma coisa eu tenho que reconhecer que essa moça da foto tinha bonito e que a maioria de nós brasileiras tem: a cor da pele. A pele das europeias é tudo cheio de ruga e seca. As peles das brasileiras, por mais que a mulher não se cuide e não passe creme constantemente, ela está sempre bonita. Claro, tem umas inglesas que tentam copiar fazendo bronzeamento artificial, mas não fica o mesmo.

Mas com certeza verei meus colegas de faculdade com outros olhos. Minhas primas, meus pais, meus tios, enfim, todo mundo. Porque agora eu enxergo que todos nós fazemos parte de uma coisa muito maior, entende? No brasil nós nos prendemos muito a fazer grupinhos, a falar mal dos outros etc. Quando na verdade nós todos fazemos parte de um mesmo grupo.

No fundo, não somos tão diferentes assim. Devemos amar uns aos outros! Cada um do jeito que é. E procurar ver as pessoas por dentro. Conhece-las não para dizer que tem muitos amigos, mas realmente para conhece-la. Para ve-la por dentro. Para amá-la!

O povo brasileiro tem fama de ser o mais amigável, mas, na verdade, isso não significa que um brasileiro se importa com o outro. Isso só significa que quando está tudo bem eles se reunem e fazem festa. Mas ninguem realmente quer saber de conhecer o outro, de saber se o outro está realmente vivendo feliz.

Essa minha residência de 2 anos em Londres foi essencial para ver isso. Só à distância para enxergar certas coisas. E agora, quando eu voltar, em março de 2010, eu não serei mais a mesma Vanessa que deixou o Brasil em março de 2008. A adolescente virou adulta. E eu tenho que confessar que sinto muito orgulho de mim :)

E quer saber, acho que no final eu vou acostumar rapidinho. Afinal, morei toda minha vida lá. Nao vai ser 2 anos em Londres que vai ter modificado tudo.

 


07.01.10

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 19:15:50.

Prólogo:

Caros leitores, acrescento este prólogo como resposta aos comentários postados por alguns aqui abaixo.
Sinceramente, este blog pode ser lido, e deve, como cada um bem o entender, uma vez que eu escrevo como bem entendo. Mas, muito por saber que temas como estes são explosivos, não fiz uso de grandes adjetivos e opiniões. Como bem disse, são 'fatos e fotos' e não opinião.
Mas, diante dos comentários, opino agora. Não acredito que um 'eu com isso' vai resolver nossos problemas tanto com os imigrantes que exportamos quanto com os que recebemos. Esta aldeia, ainda que em chamas, é global sim. Ainda que haja muitas porteiras espalhadas por ela. Mas somos todos parte de um organismo em desequilíbrio. E acredito que seja in Europa seja in Terra Brasilis, a questão não é 'estrangeiro ou não'. Se há equilíbrio social, se há trabalho, honesto e digno, se o tal do estrangeiro colabora para o funcionamento do órgão local do organismo global, deve ser bem vindo. Controle é uma coisa. Xenofobia é outra. O que faz de cidades como São Paulo e Londres lugares ricos em cultura e economia é, justamente, seu passado e presente de migração e imigração.
E atire a primeira pedra o brasileiro que tem 100% de puro sangue. Aqui no Brasil, e muito menos no meu blog, igonorância, xenofobia e racismo? NÃO!

São Paulo

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Scanner, já implantado nos EUA e em estudo na Europa e outros países, revela armas, e algo mais, dos passageiros de vôos internacionais

Fatos e fotos de um mundão globalizado e sem porteira. Ou quase.

Deu no Estadão e no Guardian:
- Londres estuda a possibilidade de implantar em seus aeroportos o scanner que permite checar não só se os passageiros portam armas e outros objetos afins como também os contornos dos corpos nus. Há grupos que defendem as liberdades civis alegando que o novo método de controle, que já foi adotado nos EUA e deve ser adotado por vários outros países da Europa e do Oriente Médio, viola a privacidade dos passageiros, sobretudo a das crianças.

Deu hoje no Estadão, mas no Guardian não:
- Brasil concede anistia a 41.816 estrangeiros.
Como informou matéria do jornalista Vannildo Mendes, destes, 16.816 são bolivianos (parte desses, explorada como mão-de-obra escrava e alvo de traficantes), 5492 são chineses, 4642 são paraguaios e 1129 são coreanos. Do total, 34mil se fixou em São Paulo, 2400, no Rio, e 1500 no Paraná.
A anistia, instituída em julho de 2009 por decreto presidencial, deu direito ao benefício a quem entrou no Brasil, mesmo que por meio ilegal, até 1 de fevereiro de 2009. Todos contemplados ganham visto de permanência provisório e, após dois anos, este será convertido em definitivo, podendo se transformar em cidadania plena se o imigrante assim o quiser.
Esta é a quarta anistia que o governo brasileiro concede a imigrantes desde os anos 80. Desta vez, aliás, surpreendeu as autoridades o número de europeus que pediram o benefício: 2390. Muitos destes provenientes de países desenvolvidos. O número de europeus anistiados foi quase igual ao de africanos: 2700. Historicamente, os africanos sempre ocuparam o topo da imigração para o Brasil, ao lado dos sul-americanos. Para finalizar, 274 norte-americanos também entraram para o time dos anistiados.

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Em foto de Andre Dusek, presidente Lula participa de cerimônia de anistia a imigrantes estrangeiros no Brasil no último dia 02

Não deu no Estadão nem no Guardian:

- Enquanto isso, Maria (nome fictício, mas história real), amiga desta blogueira que vos escreve, precisou voltar ao Brasil para renovar seu visto de estudante no Reino Unido. Mesmo tendo submetido seu pedido de renovação ao Home Office inglês dentro do prazo. Salvo detalhes de documentos e declarações que são necessários, com a mudança nas leis de imigração e conceção de vistos no Reino Unido, Maria não pôde ter seu visto renovado em Londres porque a distância entre o último dia de seu visto anterior e o começo de seu novo curso foi maior que 30 dias. Por cinco dias, Maria teve de desistir do processo iniciado em Londres há meses e recomeçá-lo no Brasil. O juiz que julgou seu caso, afirmou: Entendo seu caso. Acredito que você merece estudar no Reino Unido e que seu caso seja especial. Contudo, vou recomendar você às autoridades inglesas no Brasil e acredito que você não terá problema nenhum para voltar a Londres. Nossa decisão final é somente baseada na lei. E a lei não lê casos especiais. É igual para todos.

- Enquanto isso, Max, personagem de Karl Max Way, o documentário que dirigi e estou finalizando, continua ilegal e não tem planos de voltar ao Brasil, como fez Maria, para entrar novamente na legalidade para, então, voltar a Londres. Max, assim como tantos bolivianos em São Paulo, continua trabalhando, sustentando sua família e colaborando para a dinâmica e a economia inglesa. A julgar pela lei, Max não vai ser contemplado com uma anistia geral do governo inglês. A que tudo indica, o governo britânico não tem nenhum plano semelhante ao do governo brasileiro.

 


31.12.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 20:25:08.

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Se Londres não vai ao Brasil, o Brasil vai a Londres

Londres e São Paulo

Depois da avalanche de correria, agitação, Christmas Sales, neve e frio, desembarco em São Paulo. De volta ao Brasil após um ano, experimento a sensação que muitos, sejam proletários, retirantes, alta classe, universitários e afins, sentem. A sensação de deslocamento no tempo e no espaço. Ao mesmo tempo em que nada mudou, tudo parece diferente. Eu bem que podia gastar muitas das minhas intermináveis palavras para descrever o 'mix of feelings' (nada mais que a mistura de sentimentos) que atordoa quem passa um ano ralando no exterior e volta à terrinha nesta época do ano. Mas vou roubar os diálogos de conterrâneos que, como eu, esperavam pelos seus vôos no aeroporto de Heathrow há menos de uma semana.

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A picanha que aqui eu saboreio, não tem o mesmo gosto de lá

Estava eu saboreando um chá com leite (alguns vícios e qualidades a gente sempre herda de outros povos), quando um grupo de brasileiros sentou-se ao lado:

"Adoro Londres, mas esta cidade não dá. Preciso ir para São Paulo, ver a galera da Zona Sul, comer um churrasquinho, matar uma pizza de verdade", provocou o Paulista.
"Não dá por quê? Londres é ótima. E nem vem dizer que São Paulo é melhor. Cidade mais feia, suja, poluída, um trânsito da peste, violenta..", retrucou o amigo nordestino em seu sotaque indefectível.
"É verdade, aqui é muito melhor para trabalhar e para viver. Mas sinto falta de pegar meu carro, ir até a padaria da esquina, ser reconhecido no trajeto, parar para falar com o amigo do bar, tomar umas breja, matar umas coxinha! Meu, coxinha!! Há quanto tempo eu não como uma coxinha e tomo uma água-de-côco. Inglês é bacana, mas brasileiro é brasileiro", explicou o Paulista num saudosismo de encher Gonçalves Dias de orgulho.
O amigo goiâno não se fez de rogado e retrucou: "Ói qui, acho tudo muito bão aqui na Londres. Aqui na Inglaterra nem mesmo a polícia é corrupta. Uma vez fui parado pela polícia e claro que o cara se ligou que eu estava ilegal. Ele teve a cara-de-pau de me liberar mas não pediu nenhuma 'cervejinha'. No Brasil, era capaz de pedirem a minha casa para não me entregar para o Home Office. E na boa, nem tanta saudade dá. Até coxinha, picanha, farinha e requeijão a gente acha. Mas eu quero mesmo é me jogar num bailão de Goiânia, sair com as meninas, ir num rodeio, dançar muiiito! Vou lá matar a saudade depois eu volto."
Diante dos ataques de Policarpo Quaresma indeciso do amigo, a mineira sintetizou: "É... Quando a gente tá aqui, quer estar lá. Quando está lá, quer estar aqui porque começa a sentir saudade da organização, dos políticos honestos, do eletrônicos mais baratos, dos planos para celular que não roubam a gente, do metrô que funciona e vai para tudo quanto é canto, da segurança, do salário em libras. Sabe quando eu, como cleaner (faxineira), ia ter um iphone no Brasil? Nunca."

É... Como bem diz o ditado, the grass is always greener on the other side. Or 'a grama é sempre mais verde no quintal do vizinho.'

HAPPY NEW YEAR! FELIZ 2010!

 


22.12.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 01:38:44.

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Na Carter House, em pleno East End londrino, já era noite nevada às quatro da tarde

Londres

Enquanto os comerciantes comemoram o White Christmas (Natal Branco), que garante, sabe-se lá por que, muito mais empolgação dos consumidores e altas nas vendas, as companhias aéreas não têm muito o que se alegrar com a neve que tem tingindo de branco boa parte da Europa e de Londres.
A neve que não se viu em dezembro passado, desta vez presenteou os londrinos com um lindo, porém caótico, cenário de Natal. Só entre os amigos e moradores do flat 1 da Carter House (a minha casa, na foto), dois perderam seus vôos para Portugal e Berlim. Motivo: Neve e aeroportos fechados. Gatwick e Luton, no norte da capital, fecharam suas portas hoje e enlouqueceram passageiros e operadoras low-cost.
Por hora, nem sinal de outros vôos extras. E os europeus que querem voltar para casa no Natal correm o risco de terem de saborear, como eu, uma autêntica ceia inglesa. Cidra (ou cider), batata e neve, pelo menos, não vão faltar.

 


16.12.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 15:30:29.

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Equipe de Avatar em entrevista coletiva para a imprensa mundial na capital inglesa

Londres

Caros leitores,

Interessante observar o quanto não se pode agradar jamais a gregos e troianos. Toda vez que escrevo um post mais pretensioso e sério, alguém me diz que meu blog deveria ser mais leve e descontraído e falar mais das trivialidades de Londres. Isso porque, segundo quem geralmente me diz isso, os detalhes do dia-a-dia muitas vezes contam mais sobre uma cidade que questões muito edificantes.
No entanto, toda vez que tento postar algo mais leve, trivial, fútil e bobo, alguém (desta vez foram muitos ‘alguéns’, aliás) vem me dizer (para não usar outros verbos mais pesados) que eu devia gastar meu raro espaço com temas mais edificantes, sérios que realmente revelam o que há por trás das trivialidades de uma cidade como Londres.
Bom, diante do impasse dicotômico, eu concluo que devo continuar a escrever sobre o que bem entender. Isso porque o que entendo é que este blog não é só meu. Como sempre digo, o que mais gosto ao ter um blog é da relação orgânica e direta que posso ter com meus leitores. Por isso, quando entendo que devo postar algo leve, sei que alguém vai ouvir e ter algo construtivo a dizer. E quando entendo que devo postar algo mais sério, informativo etc, alguém também terá algo construtivo a dizer. Seja negativo. Seja positivo. Nunca, jamais, deixei de postar nenhum comentário negativo em relação a meus posts. E nem vou deixar. Este espaço não é meu palanque de massagem no ego. É um canal aberto.

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Sigourney Weaver e James Cameron tentam explicar o que faz de Avatar um fenômeno mesmo antes de chegar aos cinemas

Para concluir, leitores que pedem algo mais 'profundo, informativo, jornalístico etc', entendo. Só deixo claro que um blog é um blog. E posts não são matérias, nem artigos, nem teses de mestrado. Posts são posts. Um híbrido de tudo isso. Um comentário, consideração, ponto de vista... E assim o devem ser. Quem ainda não entendeu a que vêm os blogs tem de começar a se acostumar com este novo veículo.
Quem prefere ler minhas matérias, artigos, mais sérios, mais bem apurados, mais informativos, leia o que publico no Estadão.

A matéria, completa, informativa, séria etc, sobre Avatar segue aqui:
estadao.com.br/estadaodehoje/20091216/not_imp482618,0.php

E, para quem quer saber o que acho do filme, Avatar é um marco. Antes mesmo de chegar aos cinemas (estréia só amanhã em Londres e na sexta, no Brasil) já provoca filas até mesmo na internet. Pode não ser uma obra-prima de Andrey Tarkovsky, nem um Ridley Scott, muito menos um Antonioni, um Fellini, mas dentro do gênero a que pertence (o de aventura, ficção científica, cinemão blockbuster para encher os olhos), Avatar faz história. Quem for assistir, se puder, veja em 3D. Como bem prova James Cameron, o futuro do cinema é azul.

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PS: Já Shelock Holmes, que assisti no domingo, não recebeu comentários tão acalorados da crítica. É interessante observar como Guy Ritchie empresta o frescor e a ação do cinema norte-americano a um clássico tão inglês. Mas falta a atmosfera meio que emborolada (no melhor dos sentidos) da Londres vitoriana ao filme.
Futuros comentários virão. Por ora, cena da entrevista coletiva que ocorreu anteontem por aqui. Aliás, se as fotos que posto nem sempre são dignas da capa do jornal é simplesmente porque, como repórter, não sou autorizada a levar minha super câmera profissional às entrevistas (coletivas e exclusivas) que faço. Para isso, eu precisaria ser 'repórter fotográfico', o que não sou. Bem, não se pode ter tudo.

 


11.12.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 00:31:16.

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Fachada do Odeon, em Leicester Square, hoje à noite depois da première mundial de Avatar

Londres

“É impossível ficar entediado em Londres”, disse-me Sarah Jessica Parker em entrevista ontem, por conta do lançamento do seu novo filme, Did You Hear About the Morgans, no qual ela divide a cena com o galã e eterno solteirão ingles Hugh Grant.

Tem razão a nova-iorquina e eterna Carrie Bradshaw. Em apenas uma semana, a capital inglesa teve nada menos que quarto grandes premières mundiais que agitaram os hotéis de Park Lane e garantiram o tumulto que os turistas tanto adoram ver em Leicester Square.

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Sarah 'Carrie' Jessica Parker em conversa com jornalistas para lançar novo filme em Londres

Meca dos cinéfilos londrinos, a Leicester Square (cuja pronúncia foge completamente à regra do bom senso e vira um ‘Léster Square’ de enrolar a lingual até mesmo dos nativos) está para o cinema assim como a Picadilly Circus está para o teatro. Parada obrigatória de todas as grandes produções que estréiam na capital, o completo Empire/Odeon teve a semana mais agitada do ano. Nesta semana, foram Nine (musical em homenagem a Fellini estrelado por Daniel Day Lewis), os Morgans… Anteontem Jessica Parker, Hugh Grant e cia desfilaram por lá.

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Daniel Day Lewis, Jude Dench, Penelope Cruz e Nicole Kidman lançam Nine em Londres

Hoje foi a vez de James Cameron provar porque ainda é um dos mestres do cinemão. O mais que aguardado Avatar arrasou o quarteirão da Leiscester Square. Confesso que fui à première em missão ‘crítica’ e cheguei para não gostar. Confesso que me rendi à visão que os óculos 3D descolados distribuídos aos convidados me garantiram. Em uma platéia que contava com ícones como Sigourney Weaver, Avatar prova que, de ação, efeitos e roteiros bem ao gosto do freguês do bom blockbuster Cameron entende. Se ele ainda precisava provar algo depois de Exterminador do Futuro e Titanic, agora não precisa mais. Além de garantia certa de zilhões de bilheteria, garantiu uma das quintas-feiras mais animadas da cidade em que se pode até ficar estressado, mas entediado, jamais!

Domingo tem mais. Vem aí o Sherlock Holmes de Guy Ritchie.

 


04.12.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 14:58:42.

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Vista do Estádio Olímpico na última terça: Parque Olímpico londrino começa a tomar forma

Londres

Faltam exatamente 966 dias para as Olimpíadas de Londres 2012. Estive passeando pelo canteiro de obras do Parque Olímpico nesta semana. Fui em função jornalística, representando a imprensa brasileira em um grupo no qual eu era a única latino-americana. E, confesso, virei uma espécie de porta-voz. Não pela minha relevância brasuca, mas porque todos queriam saber tudo que os brasileiros andam sentindo em ter pela frente a oportunidade e o desafio de provar que podem, sim, hospedar uma Olimpíada e criar uma Vila Olímpica que, mais que palco da festa, seja um legado para a população e, mais difícil, melhorar a cultura esportiva e o incentivo cotidiano ao esporte olímpico no país do futebol.
Confesso que procurei ser o mais entusiasta, e, ao mesmo tempo, menos deslumbrada, possível. Tendo em vista que temos 2014 antes para cuidar, esta década reserva muita lição de casa para nosso espírito de Policarpo Quaresma. Ma, enfim...

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Do alto da casa de forças do Parque Olímpico, um grande painel explica no que se transformará o hoje imenso canteira de obras

Os mais céticos que me perdoem, mas o deslumbre ainda é fundamental. Nunca havia estado em uma Vila Olímpica antes. E tenho de confessar que há algo de maior que provoca um arrepio na espinha quando se vê, e se ouve, a palavra Estádio Olímpico.
Chega a ser estranho que um jornalista, profissional da mídia, que não deve, a priori, deslumbrar-se com construções midiáticas de qualquer natureza e manter sempre um senso crítico apurado, sinta ainda tamanha emoção ao pensar que, além da abertura, da competição, das medalhas que ali serão ganhas e perdidas, um certo Brasil irá participar da cerimônia de encerramento e começar a abrir os trabalhos para Rio 2016.

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"Em dois anos, tudo isso se transformará em legado para a população inglesa", garante o chefe executivo das obras do Olympic Park

Por ora, a Vila Olímpica é um imenso canteiro de obras. Por ora, o que se vê é pouco mais que o esqueleto do que vai se transformar em meca do esporte dentro de dois anos. Por ora, o leste londrino, uma das regiões mais pobres da cidade, ainda não sentiu a transformação que os jogos vão provocar em suas ruas de tijolinhos aparentes. Por ora... Daqui dois anos, o canteiro se transfere para o Rio. Espera-se! Espera-se também que logo logo a Vila Olímpica inglesa recebe muitas visitas oficias brasileiras. Até agora, segundo me disse David Higgins, chefe executivo do Olympic Park, nenhuma comissão brasileira entrou em contato com ele. "Mas queremos muito colaborar e trabalhar junto com os brasileiros. O Rio 2016 tem muito o que aprender com Londres 2012. Espero que recebamos uma visita logo de representantes do seu país", disse-me Higgins. Eu também, caro Mr. Higgins, eu também.

Quem quiser conferir como andam as obras do Parque Olímpico Londrino, pode conferir:

http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,parque-olimpico-de-londres-comeca-a-ganha-vida-para-2012,475786,0.htm

ou

www.london2012.com

 


30.11.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 21:55:04.

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Ciclistas pedalam livres, leves e soltos pelas ruas londrinas durante a London Naked Ride: http://www.worldnakedbikeride.org/uk/

Londres

Estava eu hoje lendo a edição especial "World in 2010' da Economist e mais uma vez Inglaterra e Brasil ocupam lugar de destaque no tabuleiro da vida econômica e política mundial. Nas páginas e páginas de análises e previsões para o mundo no ano que virá, o Brasil entra com uma página inteira sobre 'O que vem depois de Lula' e a Bretanha entra com várias páginas num tom 'E agora, José'?

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Anúncio vende para investidores a edição "The World in 2010'

E deu na Economist. Na verdade, não é nenhuma novidade. Mas, já que a Economist falou, eu aproveito o ensejo.
No dossiê 'Inglaterra: Ser ou não ser ainda uma potência mundial' uma meia página cheia de otimismo despretensioso me chamou atenção. ON YER BIKES é o nome do artigo. E nada mais é que uma doce previsão sobre a decisão do famigerado prefeito Boris Johnson de adotar o sistema de aluguel de bicicletas. Sistema este que já é sucesso em cidades como Paris, Barcelona, Berlim... Alugar uma bicicleta pública não requer prática nem agilidade. Funciona basicamente do mesmo jeito que 'alugar' um carrinho nos aeroportos. Bota-se uma moeda, leva-se a magrela. E devolve-se a mesma em algum outro ponto da cidade onde haja um 'estacionamento' oficial. Em uma cidade em que o metrô ameaça entrar em colapso todos os dias (comparações com a malha paulistana chegam a ser injustas e dispensáveis), sair pedalando é garantia de stress e minutos a menos gastos no trânsito ou nos túneis do Tube.

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para saber mais, acesse o London Bycicle: http://www.londonbicycle.com/

A medida vem se juntar a várias outras para transformar Londres em uma cidade mais prática e viável, capaz de hospedar com tranqüilidade eventos como as Olimpíadas 2012.

Bom, nós, brasileiros, temos alguns anos a mais, e anos luz de diferenças sociais, urbanas e históricas, para tentar transformar nossas cidades mais viáveis para hospedar a Copa do Mundo 2014 e os Jogos Olímpicos 2016.

Resta saber se vamos assumir o compromisso ou simplesmente sair pedalando...

PS: Quem não leu ainda o especial da Economist sobre o Brasil, não pode perder:

http://www.economist.com/members/survey_paybarrier.cfm?issue=20091114&surveyCode=UK

 


27.11.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 16:22:05.

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Rachel Holmes aprende a fazer uma autêntica caipirinha no Guanabara, a casa noturna brasileira mais famosa de Londres

Londres

Prólogo:
Deu no Guardian. Um amigo no Brasil, o Zé Kley, me mandou o vídeo acima e comentou: Brasil em Londres para inglês ver. ai, ai, ai...

O vídeo completo da Rachel vai aqui:
http://www.guardian.co.uk/travel/video/2009/nov/26/my-brazilian-night-out-london

Como não virar um post no blog? Impossível!

Então, aí vai:

A Brazilian noitada que muitos londrinos encaram pensando ter, assim, um taste of real
Brazil. Não que não seja o Brasil... nem que não seja real... Mas o lado picky (cricri) da colônia brasileira está cansado de ver e ser visto como a 'Terra da Lambada". Não que a lambada não tenha nascido no Pará antes de ganhar o ritmo caribenho que transformou o Kaoma (!!!) em fenômeno mundial. Juro, até os húngaros conhecem 'Chorando se foi'... Não que a lambada não seja diversão garantida! Como bem definiu a Brazilian Expert, no Café Rio, Bel Groves, lambada é como Dirty Dancing, mas mais divertido.
Não que a feijoada não seja uma das nossas deliciosas 'comfort foods', não que a caipirinha do Guanabara não seja ótima e feita com cachaça de verdade. Não que os brasileiros que aqui sofrem de banzo (ou que estão homesicks) não se orgulhem de todos estes 'quality labels'.

Mas, enfim, já que o Brasil está mais na moda do que nunca por conta dos 'por vir' Copa do Mundo e Olimpíadas, por que o Guardian não consegue descobrir o Brasil que vive em Londres além destes clássicos da terrinha? Clássicos que, de tão bons, acabam se tornando reducionistas. Só para citar um pequena lista, o Brasil londrino vai muito além do Favela Chic (o descolado point dos fãs de tudo isso acima, mas que querem uma pegada mais 'hype' para sua noite latina), do Festival de Cinema Brasileiro (tanto o do Barbican quanto o do Riverside Studios), do Raízes, do Guanabara...

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Supla e João Suplicy em foto de entrevista publicada no site do Guanabara: www.guanabara.co.uk

O Brasil londrino passa pelo exército de compatriotas que se espalham cada vez mais por Willesdem Junction... Pela Harrow Road... Vai desde os cleaners (os faxineiros que garantem a ordem dos escritórios da City London muito antes dos bankers chegarem ao trabalho para decidir os rumos do credit crunch), dos couriers (que, como o Karl Max, levam de cima para baixo pelas ruas de Cannary Warf documentos que eles jamais terão legalidade de ter), dos artistas gráficos que se espalham pelos estúdios de Old Street, Shoreditch, Soho, dos estudantes que ocupam os bancos de mestrado da London School of Economics, da Goldsmiths, da St. Martins...Estudantes que vão voltar para o Brasil cheios de idéias novas que tiveram no Velho Mundo. E chega até ao Forró da Brick Lane (a rua dos indianos, paquistaneses e bengalis que acabou virando uma das ruas mais descoladas do East End) e passa até pela Galeria 32, espaço anexo à prolífica Embaixada Brasileira.

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galeria de capas e site oficial da Jungle Drums: www.jungledrumsonline.com

Em dezembro, por exemplo, a 32 vai trazer a ao West Side a Experiência NeoConcreta de mestres como Amílcar de Castro, Cláudio Mello e Souza, Ferreira Gullar, Lygia Pape... E tudo isso vai parar nas páginas caprichadas da Jungle Drums. Revista que uma bela equipe de brasucas jornalistas faz a duras penas e que dita, em português e em inglês, para todos gringos lerem, que o Brasil londrino inclui também shows de Adriana Calcanhoto, Céu, e até mostra de cinema político na alternativa Bethnal Green Road. Cá entre nós, o 'meu' East End, onde moro, é o que há de autêntico e inovador no cenário imobiliário, cultural e fashion da capital inglesa.

Por que será que o mais do mesmo ainda vende mais? Ou será que não? Resta a nós, brasileiros de Londres, ou do Brasil mesmo, ampliar esta janela pela qual nós vemos o mundo e que, por consequência, o Velho (e o novo) Mundo nos vê. Como bem dizia um certo Oswald de Andrade, Tupi or not Tupi? That's the question!

 


20.11.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 20:11:05.

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Sheffield

Prólogo

Sobre o PITCHING

Uma das atrações principais de qualquer festival de cinema é o Pitching. Pelo menos, para quem vive 'dentro do sistema', ou seja, escreve sobre, trabalha com, 'meche com', quer trabalhar, quer fazer ou faz filmes. O Pitching, que vem do pitch palavra que tem dezenas de usos e definições, mas que neste caso, nada mais é que uma apresentação de um projeto, idéia, produto diante de uma platéia de especialistas que julgam se tal projeto deve ou não ser escolhido para ganhar apoio, patrocínio, investimento etc.

De como vencer um Pitching em um festival de documentários

Em Sheffield, o maior festival de documentários da Inglaterra, que foi realizado há duas semanas, o Pitching do Channel 4 (o canal 'alternativo' e badalado cujo carro-chefe por anos foi a produção de documentários e que hoje ganha mais publicidade quando exibe o famigerado X Factor) não poderia ser mais concorrido.
A correria para ver quem se atira na cova dos leões do mercado de documentários ingleses inclui de tudo um pouco. Gente na platéia para tentar entender como vender seu peixe. Gente no palco tentando gritar mais alto que seu peixe é mais gostoso. Ou mais polêmico. Ou mais urgente. Ou mais dramático.
Drama é a palavra de ordem na atual produção de documentários mundial. Não basta ser interessante. Não basta informar. Não basta revelar algo. Tem de fazer tudo isso e ter um drama. Um herói, uma trajetória do herói (ou anti-herói) a ser percorrida. Tem de ter história.

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De como as pessoas se matam no London Tube e de como as pessoas querem saber quem se mata no London Tube

Pois bem... Lá estavam os projetos. Cada um apresentado por um jovem e talentoso documentarista inglês. Um sobre quem enxerga embaçado... Outro sobre terapia de regressão a vidas passadas... Outro sobre quem se mata se jogando nas linhas do metrô.
Ah, este último de drama e de urgência, e de curioso, tem muito.

É fato que a diretora estava bem preparada. Personagem já escolhido. Cenas já filmadas e exibidas no telão. Um drama daqueles. Um motorista (ou maquinista?) do metrô londrino que sofre de stress pós-traumático e não consegue voltar ao trabalho depois de ter atropelado uma mulher que escolheu uma das tantas linhas do London Tube para dar cabo de sua vida.

Tudo isso somado aos milhões de minutos e libras que a cidade perde todos os anos tentando retomar a ordem no sistema metroviário toda vez que mais um usuário resolve dar uma de boi na linha. E temos um drama documental perfeito.

Nome o filme já tem. ‘Down Under’... Lá em baixo... Muito escondida mesmo está a verdade por trás de quem são estas centenas de pessoas que não pensam no maquinista, nem nos milhões de usuários de um dos mais antigos metrôs do mundo.

Assunto não falta. Praticamente todos os meses há algum dia em que o sistema entra quase em colapso e os trens são detidos nas estações “por conta de usuário na linha”. E o recado é dado assim. Como se uma bolsa, um guarda-chuva, ou um usuário, estivessem atrapalhando o tráfego. Resta saber quem são estas centenas de pessoas que morrem na contramão do ritmo frenético da capital londrina.

Com muito drama, a carreira de Down Under promete.

Fica a dúvida. Qual será o número de suicidas nas linhas dos metrôs do Brasil todos os anos. Isso bem que daria um documentário...

 


19.11.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 23:28:46.

Londres

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England X Brazil?

Vamos lá. Depois de passar o mês editando a última versão de Karl Max Way, ajudando Karl a preparar sua resposta ao tribunal de trânsito inglês, entendendo como vai o mercado de documentários na Inglaterra, tentando entender se a BBC ainda ama os documentários, participando de workshops no Festival de Documentários de Sheffield, um dos mais importantes da Europa, e tentando entender as novas medidas de Gordon Brown para a imigração no Reino Unido e, para finalizar, o que Gilberto Gil veio fazer aqui, volto à ativa.

Não adiante justificar a ausência. Londres borbulha em cada canto. Portanto, falta tempo, mas assunto não falta. Como bem diz o ditado, que quem se cansou de Londres se cansou da vida.

Portanto, neste mês, para fazer jus a este espaço tão privilegiado que vinha sendo negligenciado, vou de um post por dia até o Natal. Como devia ter sido desde sempre mas que, por conta da falta de tempo e do muito tempo gasto entre metrôs, trens, baldiações, ônibus, andanças, acabou por ter o tempo de quem faz um mestrado em um idioma estrangeiro, um documentário (cuja produção, direção, promoção ficaram por conta própria), escreve matérias em geral e, nas horas vagas, experimenta uma cider ou uma pint no pub da esquina.

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Ou Egland E Brazil?

Assuntos a ver e a vir:

- De como as campanhas de Natal em Londres começam antes que qualquer outro lugar do mundo. Em fins de outubro o bombardeio já começa!

- De como os ingleses (incluindo a mídia) gastam horas e muito papel para tentar explicar que a seleção inglesa de futebol tem de provar o quanto é 'tão boa quanto a brasileira'.

- De como os ingleses (incluindo a mídia) gastam horas e muito papel para tentar explicar que o Brasil tem de provar o quanto é tão bom, e organizado, quanto a Inglaterra e que, portanto, vai ser capaz de sediar uma Copa do Mundo e as Olimpíadas sem passar por situações como a última 'guerra urbana no Rio', que rendeu mais comentários que o gol tomado no último sábado

- De como Londres está de fato se preparando para sediar os jogos olímpicos em 2012 e de como o East Side (a operária e um tanto decadente zona leste da cidade, que abriga o Estádio e a Vila Olímpica) vão mudar e se tornar o novo 'hype'

- De como os empresários, empreendedores, artistas e ingleses 'comuns' já voltam seus olhos para o Brasil e planejam desde viagens a negócios no 'vizinho de Olímpiadas'. Um exército de ingleses já se prepara para conhecer e estreitar ainda mais os laços com o 'país da moda'.

- De como os ingleses não sabem se são contra ou a favor que seus jovens, sob a insígnia do exército inglês, continuem a se enveredar por zonas de conflito além mar

- De como o alcolismo continua sendo assunto da ordem do dia quando as festas de Natal das 'firmas' se aproximam

- De como a ilegalidade ainda continua sendo 'uma ficção no Reino Unido' e de como os imigrantes ilegais parecem ser os últimos a se preocuparem com as novas medidas do 'estatuto da imigração inglês'

Bem, assunto não falta. E o tempo, ruge!

Até amanhã.

 


15.10.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 18:36:16.

Londres

Prólogo – Ou lembrança àqueles que insistem em resumir a visão deste blog em apenas um dos tantos posts que ele contem.
Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Quem pensa que a minha visão seja a dourada pílula inglesa acompanhada do chá-das-cinco não deve, no mínimo, ter lido os posts anteriores.
Mas eu realmente acredito que os ingleses tenham muito a ensinar aos brasileiros. Assim como também acredito que os brasileiros tenham muito a ensinar aos ingleses. A graça de tudo está na moderação.
Já que é assim, resolvi fazer uma pequena grande lista de pequenas-grandes lições que os ingleses têm de bom. Isso não significa que não haja quem faça melhor ou igual. Simplesmente, como o título deste blog já sugere, seus temas em geral se atêm à Terra da Rainha.

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Max, um dos tantos motoboys brasileiros em Londres, passou para o lado dos que precisaram de fato cuidar da saúde em outro país

Lição 1 – Saúde

Uma das lições, por exemplo, o sistema de saúde. Antes de mais nada, vale dizer que acredito que o Brasil avança a passos largos. E não deve sofrer de complexo de vira-lata nenhum. O que mais se fala por aqui é sobre o quanto o Brasil cresce, prospera, está crescendo, está na moda etc...
Mas, como bem observou uma leitora, e os índices de condições básicas que elevam o nível de vida de todo país? Como vai a saúde, a educação, os níveis de diferença de renda no Brasil e na Inglaterra?
Então, a saúde na Inglaterra... Muitos dizem que o NHS (National Health System) está em colapso. Outros com razão alegam que o tratamento dado aos pacientes por parte dos médicos é frio e seco como as macas de alumínio. Quase todos brasileiros dizem que os médicos dos GPs (o centros de General Practice, uma clínica de atendimento geral que poderia ser comparado aos postos de saúde brasileiros) usualmente só receitam paracetamol e mandam os doentes para casa.
Quem ousa negar tais fatos? Mas, o que vi neste último ano em que freqüentei mais os corredores de hospitais que os túneis do metrô londrino, foi uma face interessante de como funciona o atendimento em Londres, seja formal quanto informal.

Cinco meses atrás, o personagem principal do documentário que estou agora editando, sofreu um acidente. Karl Max (sim, sem o R) é o nome dele. Ironia pouca do destino, é bobagem...
Goiano e sem falar bem o inglês, ele era um dos centenas de motoboys brasileiros que se arriscam ilegalmente todos os dias nas ruas da Inglaterra para entregar os documentos (legais) que fazem mover uma das maiores economias do mundo. Max se acidentou numa tarde de maio. Quase morreu, quase perdeu o pé. Quase ficou inválido. Chegou ao hospital quase morrendo. Tudo que conseguia processar era: ‘Talvez vamos ter de cortar seu pé”. Bateu o desespero. Max sozinho, sem saber se explicar em inglês, sem poder ligar para ninguém, passou a noite na maca gelada do Whitechappel Hospital. De seu nome, mal grafado, à sua situação legal, passando pelo seu pé esquerdo, tudo estava errado.
Os funcionários do hospital poderiam ter alegado, diante da obviedade da situação, que Max era ilegal e, portanto, não teria direito a tratamento. Que nada. Max foi tratado do começo ao fim dos longos 44 dias em que passou internado como um autêntico inglês. Tão autêntico quanto Roy, o inglês de Kent, que dividia com ele uma das macas da ‘ala dos estropiados’ como eu a definia. Nos outros dois leitos, um russo desabrigado comemorou seu aniversário com um bolo improvisado, pago pelo ocupante do outro leito: um mafioso marroquino que recebia visitas regulares de seus ‘funcionários’, que lhe entregavam sumas impressionantes de libras de dar gosto de ver.

Com algumas destas libras, o marroquino pagava a TV (que não é de graça) do leito do Max, para que ele se distraísse nas tantas horas de solidão hospitalar. Enquanto isso, Roy ensinava o Max a falar direito com as enfermeiras descendentes de famílias da Índia, do Paquistão, do Iraque, de Bangladesh e, veja só, até da Inglaterra!

Os 44 dias serviram para o Max parar de falar que médico inglês “só taca paracetamol na gente”. Serviu também para ele melhorar o parco inglês que falava. Serviu para aprender que, por mais ilegal que fosse, médico inglês nenhum iria largá-lo no corredor ou chamar o Home Office (o tão temido caça-ilegais) antes de ter a certeza absoluta que o pé esquerdo do Max estava em condições de passar para a fase da fisioterapia e, em seguida, para a cirurgia plástica.

Enquanto isso, a mulher do Max, também ilegal, fazia o pré-natal em um outro hospital da cidade. Fui a quase todas as consultas do pré-natal com ela. Traduzi linha por linha do que as midwives (algo que poderia ser traduzido como uma parteira, mas que é de fato uma enfermeira especializada) diziam para ela. Do fato dela ter de tomar mais ferro (que era fornecido gratuitamente) ao fato dela ter de fazer parto normal (porque na Inglaterra parto cesárea não é banal e só é feito em último, mas último caso mesmo). Passando até pelo fato das enfermeiras se recusarem a fazer mais do que os quatro necessários ultrassons durante os nove meses. “Não deu para ver o sexo do bebê direito? Espere a surpresa. Compre tudo branco e verde e vai ser feliz.” Foi assim que a midwife, muito carinhosamente, com uma frieza que uma enfermeira do Brasil nunca falaria, explicou porque não iria mais fazer ultrassom nenhum na barriga da mulher do Max. “Se o marido dela não está contente com uma menina, o problema é dele.”
Eu achei uma grosseria inglesa das maiores ouvir aquilo. Afinal, era só para comprar roupinhas da cor certa. Mas, depois de uma olhada melhor, e de perceber que 90% da grávidas que ali faziam o pré-natal são em geral de famílias muçulmanas, chinesas e do Leste Europeu, entendi a lição.

O tratamento continua sendo sim frio e impessoal. Como brasileira, continuo achando estranho que o médico em geral só apareça na primeira consulta e depois de o bebê nascer. Mais estranho ainda que todo mundo sabe que todo mundo sabe que há milhares de ilegais trabalhando, sendo tratados, parindo, gastando suas libras, pagando impostos e contribuindo para a economia inglesa. Como numa república dos acordos tácitos, todo mundo sabe que o Rei (ou a Rainha) muitas vezes está nu. Mas ninguém fala. Muitas vezes para o mal. Outras tantas para o bem.

 


09.10.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 16:38:08.

Londres

Após a clássica parada para correr atrás das passarelas da Fashion Week e do Raindance (o SUNdance inglês, o maior festival de cinema independente da Inglaterra, só podia começar com Rain... Há dias que chove na capital inglesa), voltemos aos temas da moda: Olimpíadas e, claro, Brasil.

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Irlan em uma das cenas mais emblemáticas de Só Quando Eu Dançø

Only When I Dance - Ou Só no sapatinho...

Acabo de voltar da sessão de Only When I Dance (Só Quando eu Danço) no Festival de Cinema Brasileiro do Barbican. O Barbican é um dos centros culturais mais importantes de Londres. Casa de artistas e casa de fato de centenas de londrinos, o centro poderia ser comparado a um Sesc Pompéia com unidades residenciais.

Neste ano, o Barbican escolheu os Urban Tales (os contos urbanos) para contar ao público da cidade o que anda de acontecendo de melhor no cinema nacional.

Hoje, a última noite de um longo mês que contou com mais de 40 produções nacionais em exibição (tanto no Barbican quanto no Cine Fest Brasil, que ocorreu no Riverside Studios), o filme em cartaz mostrava uma realidade muito brasileira, mas a produção e a assinatura tinha nomes ingleses.

A diretora inglesa Beadie Finzi conta em seu filme a história de Irlan e Isabela, dois garotos da periferia do Rio de Janeiro que sonham se tornar bailarinos de companhias internacionais.

O filme, rodado sem nenhum apoio oficial do governo brasileiro, tem um quê de miopia européia sobre a América Latina. Mas talvez para o bem, eu diria. A realidade de Irlan e Isabela é a mesma de muitos meninos brasileiros cujos pais têm de vender o almoço para pagar o jantar. E vender, muitas vezes, a alma para pagar os estudos dos filhos.

Beadie, ontem, em debate com a platéia prioritariamente inglesa ao fim da sessão, contou que no Festival do Rio, onde o filme fez sua première brasileira na semana passada, muitos brasileiros sentiram vergonha em ver o que ela mostrou e disseram: “Por que não fomos nós, brasileiros, a fazer um filme sobre estes dois jovens tão talentosos? Por que nós estamos sempre só mostrando o nosso lado negativo? Por que deixamos nossas crianças passarem por estas dificuldades?”

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Isabela dança em cena de Só Quando eu Danço

Não é bem assim. O cinema nacional tem mostrado caras diversas de um país que, pelo menos a meu ver (ainda que eu também esteja sofrendo de uma certa miopia do exílio agravada por um certo banzo), ainda procura definir sua identidade. Mas, exageros e acessos de Policarpo Quaresma à parte, as observações procedem. Como observou o mediador inglês do debate, temos, ainda, tempo para fazer algo de fato. Disse ele: “Ora, as Olimpíadas estão aí e os brasileiros poderão melhorar muito o Rio. Se quiserem algumas dicas de Londres, temos muito o que conversar. E, sem esquecer, vagas para bailarinos não faltarão (obrigada pela correção, Maria) quando as coreografias da cerimônia de aberturam forem criadas. Irlan e Isabela terão muito o que dançar.”

É… Há muito o que rebolar até 2016… Haja sapatilha de ponta e muita pirueta para redesenhar a coreografia da imagem que o Brasil tem no exterior até lá.

Trailer de Só Quando Eu Danço: http://www.youtube.com/watch?v=fQwiq4SojqA

 


22.09.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 11:49:25.

Prólogo:

A discussão abaixo é antiga. Mas continua atual. E tudo indica que será interminável... eterna...

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Time dá a receita: Como salvar seu jornal!

Londres

Vejam só... Este blog, ainda que esteja sob prestigioso e compromissado guarda-chuva do Grupo Estado, é, obviamente, a expressão da leitura pessoal que a blogueira aqui faz do mundo. E de Londres.

E , apesar de estar comprometido com a verdade, ou o que pensamos o que seja a verdade, não trata de um estudo estatístico, jornalístico no sentido de publicar 'matérias perfeitas’. E ainda que o fosse, está sujeito a erros. Porque é um blog e fonte de comentários meus. Comentários, opiniões, crônicas e imperfeições em prosa. E eu, vejam só, erro. E muitas vezes estou mais preocupada em passar a atmosfera que se respira diante de um fato do que os números e informações acuradas sobre o que se passa. E o que pode ser lido com precisão cirúrgica, e jornalística, pode ser encontrada todos os dias com segurança em muitos bons jornais. E certamente no Estadão em que escrevo. Na versão impressa e online.

E, quando erro, vem sempre um leitor me advertir. Ainda bem! Porque não há nada melhor para um blog que a discussão que ele provoca entre o blogueiro e os leitores. Uma das grandes qualidades do blog é acabar com a relação engessada entre 'o jornalista', 'o veículo' e o 'o leitor'. A meu ver, transformar toda a comunicação em algo mais horizontal e menos hierárquico traz ventos de vera democracia de pensamentos.

E vejam só... Uma grande amiga. Uma das jornalistas mais talentosas que eu conheço, me disse assim ontem: "não dá para lamentar o fechamento de um jornal do Murdoch, né. Se vc esqueceu, é o cara da Fox News e do Times. Existe essa discussão faz tempo se jornal gratuito é ou não um bom negócio, e Mr. Murdoch avaliou que não."
Então... Não dá para discordar da amiga. Antenada e politizada e sensata que ela é, tem sua razão de não lamentar o fato.
O mesmo Murdoch 'é o Keith Rupert Murdoch, o cara' que 'manda' na News Corporation, que manda no The Times, no The Sun, na Fox News, no New York Post, no My Space e… no London Paper...

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Murdoch, o homem da mídia!

O mesmo Murdoch, o mesmo grupo, aliás, manda na Sky, a TV Sky, um dos maiores grupos de mídia do globo. Dominante em TV a cabo na Inglaterra, aliás. E um dos poucos grupos de mídia a confrontar abertamente Mr. Silvio Berlusconi, ao lado do L'Espresso que está em guerra contra o presidente italiano. Não que a Sky italiana o faça por somente nobreza de caráter. Há mais mistérios, e interesses midiáticos e empresariais, entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia de leitor, espectador, jornalista... Bom, assim é o mundo. E o ofício de jornalista não deixa de ter sua nobreza por estar condicionado a grupos de mídia. Afinal, mídia, por princípio e definição, deveria ser sempre o meio pelo qual os interesses e opiniões dos cidadãos e/ou leitores deveriam chegar a seus fins. E daí em diante.

Enfim, Murdoch e seu grupo estão longe de levantar sem máculas a bandeira dos preceitos iluministas que fundaram o jornalismo e a comunicação social. Não era para discutir o quanto, infelizmente, nem tudo é tão preto-no-branco no mundo da informação. Não era para afirmar que informação é poder. E um bem raro quando bem apurada, informada. Não era para afirmar que jornais não devam ser muito justamente comprados e pagos por quem quer ter acesso à informação de qualidade. Era mais para pensar no quão triste é ver que cada vez mais o mundo assiste ao Big Brother e lê menos. Que seja o London Paper, o Estadão, o New York Times, o La Reppublica, o Guardian... Mas, como diz Ziraldo, ler ainda é mais importante do que estudar.

A amiga jornalista deixou também um link de uma matéria do New York Times, cujo conteúdo, aliás, pode ser acessado gratuitamente:

http://www.nytimes.com/2009/09/21/business/media/21papers.html?_r=1&scp=2&sq=murdoch%20free%20paper&st=cse

Esta sim faz pensar….

 


21.09.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 07:39:53.

Londres

PRÓLOGO:

Este blog, e esta blogueira, após longa pausa para elaboração de dissertações acadêmicas, coberturas jornalísticas e idéias em geral sobre Londres, volta à ativa.

Um leitor, não identificado, deixou mensagem há pouco afirmando que 'era de se esperar que este blog não progrediria'.

A blogueira aqui, que anda se perguntando o que anda sendo progresso nos tempos atuais, gostaria de ressaltar sempre que concisão não é um de seus pontos mais fortes. Mas que anda aprendendo mais do que nunca que, como dizem os ingleses, Silence is Gold. Ou, com o nosso jeito brasileiro de ser sábio, quando não se tem nada a dizer, melhor ficar calado. Um amigo inglês comentou, sobre a pressa de se ter sempre algo novo a dizer a todo momento nos blogs (cuja premissa básica é que sejam diariamente alimentados) que vivemos o fim do processo de 'input' e 'output'. Para ele, o momento do input é a hora de 'botar para dentro' o tanto de informação que anda circulando pela Europa nestes tempos. O output é a hora de botar para fora. Tem lá sua razão... Blogueiro tira férias escolares? Quando tira, tem de avisar o leitor, right?
Enfim...voltemos a Londres.

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Ultimo exemplar do London Paper distribuído na última sexta-feira

QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA? Ou ‘O Fim do London Paper’

Entre outros eventos, o London Paper, o fast food news mais amado e odiado da capital inglesa, parou suas máquinas na semana passada. Em tempos internéticos e blogueiros, perder um dos poucos prazeres ao andar de metro pela cidade é algo de fato triste.

Não só pelo fato de que, jornalista que sou, o prazer de folhear um jornal jamais vai ser comparado com o de navegar pela internet. São naturezas complementares, mas diversas.

De fato o triste é ver que, por mais ‘barato’ que tenha sido o London Paper em seus três anos de vida, era fonte inesgotável de ‘inputs’ sobre o British way of life. Como vivem, trabalham, namoram, paqueram (o correio elegante do London Paper era concorridíssimo), divertem-se, fofocam os ingleses podia ser lido e relido todos os dias em viagens intermináveis pelas linhas do metro londrino.

Neste mundo vasto e rápido, cada vez mais pergunta-se: Quem lê tanta notícia? Os londrinos liam. Distribuído gratuitamente, o London Paper competia diariamente com o London Lite e com o Metro.

Eu, particularmente, prefiro ‘pegar de graça’ um London Paper a pagar 25 centavos por um The Sun que estampa na nobre página 04 a foto de uma pelada (e não é a do futebol…) todos os dias. Detalhe, não é o nobre Guardian o jornal mais lido da Inglaterra. É o The Sun. Mais de dois milhões de pessoas compram o ‘Notícias Populares série B’ todos os dias na terra da Rainha...

Enfim, ver um jornal morrer é sempre triste. E ainda mais pelo fato de que NÃO foi por falta de notícia que o London Paper fechou suas portas. Foi por falta de anúncio. É… dizia-se semana passada, o ‘credit crunch’ chegou até aos jornal gratuitos nosso de cada dia…

Já que anda se falando que a crise já está passando, e indo embora com os ventos que também levam a ‘febre da gripe suína’, quem sabe as vendas não voltem a aquecer logo o Mercado inglês. Quem sabe as máquinas do London Paper voltam a rodar mais rápido que os trens…

Em tempos de crise, informação, ainda que seja ela uma inútil fofoca sobre a nova roupa da Victoria Beckham, é sempre necessária.

 


18.08.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 10:40:15.

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PORTA DA ESPERANÇA: Barricada controla a entrada ao Excel Center durante o encontro dos G20 em abril

Londres

Aconteceu em Londres. Aconteceu nas Docklands, à beira do Tâmisa, em frente ao Excel Center, onde, em abril, os G20 do mundo se reuniram para discutir o futuro do planeta.
Quatro meses depois, o cenário que parecia mais a entrada de um mega show (poderia ser o de Madonna, poderia ser o de Michael Jackson, que seria realizado literalmente ‘do outro lado do rio’ na Arena O2) era pura calmaria e tranquilidade.
Em uma cidade que tem muitos parques, tantas igrejas, outras tantas mesquitas, e quase nenhuma colina, estar perto de Deus é algo de fato subjetivo. O brasileiro Paulo achava que estar perto de Deus era estar perto da água. E foi para as docas à beira do Tâmisa, na porta do Excel, falar com Deus.
Paulo acabara de se converter ao Evangelho. Tinha acabado de chegar da Itália, onde era mais um no imenso exército de ‘viados’ que servem nas ruas de cidades como Milão, Roma, Bolonha... ‘Viado’ é a forma como os italianos aprenderam a chamar os travestis brasileiros. ‘Eles todos se tratam por viados, a gente acabou aprendendo também”, me explicou um dia um taxista romano que me perguntou também “por que tinha tanto viado brasileiro”. Lembro que me detive a contra-perguntar: “Por que tem tanto cliente italiano?”

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Se eu quiser falar com Deus, vou para as Docklands...

De volta às docas, o Paulo havia deixado os clientes na Itália, trocado os cílios postiços e as unhas de porcelana por camisas de algodão barato comprados na Fashion Street do East London, que de ‘fashion’ (no sentido que Vivienne Westwood dá ao fashion style) não tem muito e mais parece uma filial indiana (ou bengali...ou paquistanesa, e muçulmana) da paulistana Rua São Caetano.
Vestido de novo homem, Paulo, segundo amigos de culto de domingo da Igreja Batista de Plaistow (bairro do far far East London, muito longe de Notting Hill e muito perto do Excel Center), ainda desmunhecava um pouco. “Mas ele tava progredindo. É força do hábito, né?”, explicou um ‘irmão’ da igreja.

Já que o hábito faz o monge, ou o evangélico, Paulo pegou o hábito de botar sua bíblia na mochila e ir orar na beira do Tâmisa, em frente ao Excel.
Na semana passada, estava um dia bonito e o Paulo foi orar de novo. Agradecer pela nova vida e pedir um emprego, já que seu antigo ofício tinha já entrado para a história e para as estatísticas dos motoristas de táxi italianos.
Pense em um cenário dos novos tempos. O Excel Center, alvo das atenções dos ativistas de todo o mundo em abril. Pense no medo deixado pelos anarquistas italianos que bagunçaram o coreto durante as passeatas anti-G20 e quebravam várias fachadas na City (o coração financeiro londrino), pense na policia inglesa que até hoje está tentando se explicar sobre o assassinato de Jean Charles há anos, sobre a morte súbita de um inglês em plena passeata anti-G20 em abril. Pense no mês do Ramadan, que está para começar no próximo dia 21. Pense no medo. Medo de bagunça, medo de terrorismo, medo do outro.
Agora pense em um brasileiro, de mochila nas costas, lendo a bíblia, ajoelhado em frente ao Excel Center, emocionado com sua nova vida. De longe, o Paulo poderia parecer mais um Mohammed lendo o Alcorão e se preparando para o mês do jejum. Em se, vez do Alcorão, ele tivesse uma bomba na mochila? Bom, foi assim que os oficiais ingleses que faziam a ronda nas docas pensaram. E foram tirar a prova.
Paulo levou um ‘guenta’ da polícia. ‘Guenta’ no bom sentido porque a polícia inglesa não chega batendo, obviamente. Muito bem preparados, perguntam primeiro. Mão na cabeça não tem, mas os documentos.... Os documentos... Como milhares de imigrantes brasileiros (a maior comunidade latina de Londres é brasileira), o passaporte de Paulo estava com o visto mais do que vencido. E, como a grande maioria de seus patrícios, o Paulo mal fala inglês.

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Policiais e 'protestantes' em frente ao Banco da Inglaterra durante o encontro dos G20 em abril

Com o pouco que aprendeu na igreja, pediu para ligar para a missionária inglesa da igreja, que veio em seu socorro. Em tempos de crise, como explicar que o Paulo merecia uma segunda chance, que havia encontrado Jesus e agora estava tentando encontrar também trabalho em Londres.
Seja em inglês, italiano ou português, há coisas que não se explica. E a polícia, muito educadamente mandou o Paulo para o Home Office. E o Home Office, muito compreensivelmente, mandou o Paulo se retirar da terra da Rainha e cair na real. Quer dizer, voltar para o Brasil. Sabe-se lá o que o Paulo vai encontrar agora do lado debaixo do Equador. Mas os irmãos dizem que ele está até feliz de voltar para casa. Um amigo dos cultos de domingo ponderou: “Deus sabe o que faz. E o Brasil está melhorando. O País está crescendo na crise e agora, pelo menos, quando for rezar na beira do rio, vai ser, no máximo, confundido com algum maconheiro.”
Amem!

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As Docklands, e o Excel, em dia de G20

 


12.08.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 19:58:48.

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Londres

O gato subiu no telhado na Flórida, mas veio mesmo miar na Inglaterra. Deu no Guardian. Sempre o Guardian. Justiça seja feita. A imprensa inglesa, infelizmente, pouco se assemelha ao Guardian em sua maioria. Em geral, a maioria é muito mais próxima do The Sun (como assim? basta dizer que o The Sun, em vez do editorial, tem sempre 'a peladona do dia' na página 3).
Mas, quando o assunto é conseguir extrair o supra-sumo do irônico, o English humor não deixa para ninguém. E deu no Guardian: Homem culpa seu gato por fazer downloads de pornografia infantil.
Bem, se o porquinho é o culpado pela gripe... Se, como bem começou o texto da notícia no Guardian, o cachorro é sempre o culpado por ter comido o dever de casa, agora o gato tinha de aprontar alguma.
Enquanto o dono, Keith Griffin, foi, vai saber, tirar água do joelho, o gato subiu no teclado e, ops!, mais de 1000 imagens de pornografia infantil rapidamente se 'materializaram' no seu computador.
Agora, Griffin está preso e sua fiança é de US$ 250mil. Já contra o gato nenhuma acusação foi feita. E, por ora, o bichano não terá de pagar nenhuma fiança também.

quem quiser conferir a matéria original, acesse: http://www.guardian.co.uk/world/deadlineusa/2009/aug/07/cat-download-child-pornography

 


09.08.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 14:33:55.

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Londres
Deu no Guardian. Veja bem, no Guardian. Deu que, desde o advento da gripe suína, o numero de faltas ao trabalho tem aumentado absurdamente na Inglaterra. E os patrões e empresas andam desconfiando que o porquinho, na verdade, esteja servindo mesmo è de bode expiatório para funcionários a fim de esticar seu verão.
Em recente, digamos, investigação, descobriu-se que, alem de toda gripe agora ser suina, toda falta anda sendo também culpa da gripe. E pelo visto, os ingleses andaram aprendendo a arte do jeitinho. E estão dando um jeito de fugir do chuvoso verão londrino. Quem gosta mesmo de frio e chuva parece ser o vírus, que de suíno não tem nada. Já muitos ingleses, em vez de arder de febre, andam preferindo passar suas quarentenas ardendo sob o sol das rivieras francesa, espanhola, italiana...

 


27.07.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Daily Mirror News 14:50:54.

kjhjh
O pequeno suíno do jornal The Independent está a postos!

Londres

Recomecemos. Enquanto o mundo se apavorava com a gripe suína, que de suína não tem muito mas de ‘influenza’ tem bastante, eu fazia uma pequena
peregrinação pelos campos da Toscana, onde assuntos suínos estão reservados aos sabores dos incríveis salumi que a região produz. Em seguida, uma parada em Milão para discutir assuntos de ‘prima importância’ para a saúde mundial como a próxima semana de moda da Itália.
E no meio de toda esta agenda merecidamente fútil, o assunto sério do momento serve para lembrar que nem tudo (aliás, poucas coisas são) são flores no verão europeu.

Em jantar com profissionais da mídia italiana, o assunto suíno surge. E desta vez não eram os salames toscanos o alvo da conversa. “É um absurdo o que os ingleses estão fazendo! E não é só o Berlusconi que está ofendido com isso. Como assim parar todo mundo na alfândega? Como assim fazer todo mundo passar por um monte de exames? É constrangedor”, dizia um.
“E no Brasil? Dizem que o país está sofrendo com esta pandemia…”
E eu, lembro que há uma semana, uma febre (fruto de uma insolação Toscana) foi o suficiente para que amigos no Brasil se mobilizassem para me perguntar se eu ‘got a gripe’, e respondo: “É. A gripe se alastra, mas o medo é mais rápido que ela.”

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Para falar a verdade, os criadores de suínos, compreensivelmente, não estão gostando nada do adjetivo mal empregado a seus bichinhos

A mesma febre foi suficiente para amigos em Londres perguntarem se eu estava com ‘A’ gripe, mas nada comparado com a preocupação brasuca.
No meio do jantar, o telefone toca: “A chefia de reportagem de Internacional queria te pedir para escrever, de Londres, sobre as confusões que estão rolando na cidade por conta da pandemia de gripe suína.”
Respondo: “Estou na Itália. Posso escrever sobre o lado italiano da gripe. O clima aqui também está literalmente quente.”
Escuto: ‘Não, obrigada. Mas fique de olho no movimento da alfândega quando voltar.”

No final da semana, de volta à ‘terra da garoa’ européia, a alfândega parecia mais a fila do GP (espécie de posto de saúde inglês) em dias normais.
Pergunto à oficial de saúde (profissionais que muitas vezes fazem com que os imigrantes ‘tirem um raio-X’ completo assim que desembarcam em Heathrow, a ‘porta de entrada’ de muitos dos expatriados que se espalham pelo Reino Unido) se havia algum procedimento especial para quem entra no reino.
Escuto: “Não. Já passou. Cá entre nós, acho que esta pandemia está sendo overated (superestimada). A coisa está feia no México e até no seu Brasil. Aqui está sério também. Mas aqui não é que seja tão grave assim. Agora toda gripe é suína. Agora todo espirro é pandemia.”

hits

Ok. Passo rápido pelo controle. Passaporte carimbado mais uma vez. E não ganhei nenhuma máscara de brinde. Mas ganhei o número da Swine flu Hot Line.
Dor-de-cabeça persistente? Dor na garganta que não passa? Febre?
Ligue djá: 1802007

Não liguei, mas uma amiga minha ligou para o número mais quente do momento. Minutos depois, a minha line toca: “Nosso jantar de hoje está cancelado. Acho que estou com ‘A’ gripe. A gente se vê só daqui 15 dias. Por ora, sinto como se estivesse engolindo vidro. E não posso ver ninguém.”

Enquanto isso, a Swine Flu Hot Line tem recebido cerca de 200 mil telefonemas diariamente.

 


16.07.09

por Flávia Guerra, Seção: Para brasileiro ver 18:09:16.

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Jean Charles, o Filme

Londres

Jean Charles, o filme, dirigido pelo brasileiro Henrique Goldman, teve sua primeira sessão em Londres no ultimo fim-de-semana. Quatro anos depois da tragédia que abalou, muito mais pelo seu simbolismo que pela sua dimensão ‘númerica’, tanto ingleses quanto brasileiros, finalmente chega ao cinema um filme brasileiro sobre a história.

Filmes ingleses, entre documentários, docu-dramas e ficções, foram vários. Mas filme que consegue prestar atenção ao fato de que, para agradar a um primo com quem havia brigado, o personagem de Jean Charles oferece um pacote de pão-de-queijo pré-pronto, só mesmo uma produção tabajara seria capaz. Vale lembrar que o filme é uma co-produção Inglaterra-Brasil, mas o diretor… O diretor sabe que, mesmo em Londres, na mesa do brasileiro não pode faltar feijão com arroz e farinha.

http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowVideos.action?destaque.idGuidSelect=9DC7F77412CD49069B2C38772BFAAA58
Em video da TV Estado, o diretor Henrique Goldman fala de como é mostrar seu filme na cidade onde Jean Charles viveu e morreu

E Tabajara aqui não se encaixa nem na categoria Casseta&Planeta nem na pejorativa forma de definir o produto brasuca. Na verdade, a brincadeira que os cassetas começaram ganhou um significado tão amplo quanto a comunidade brasileira na capital inglesa. Toda vez que um goiano (digamos que, grosso modo, 80% dos imigrantes que chegam de Goiás a Londres acabam caindo na ilegalidade depois que os vistos de turismo vencem) quer brincar sobre o fato de seu inglês não ser assim uma brastemp, é para o ‘inglês tabajara’ que apelam.
“Aqui é o lugar onde a gente parca as bikes”, diz Karl Max de Almeida, o motoboy e personagem principal de Karl Max Way, pequeno documentário dirigido por esta blogueira que vos escreve em parceria com o jovem diretor Maurício Osaki. Parcar? “É, uai. A gente tem de parar as bikes nos espaços onde tá escrito: Parking. Então a gente ‘parca’ as bichas, entendeu?”

Ah tá. Entendi. Max, ao saber que eu assistiria a Jean Charles, perguntou: “Será que o diretor vai conseguir mostrar como é a vida aqui dos brasileiros? O que o pessoal vive, come, o que ele passava?”

E eu respondo: “Conseguiu sim, Max. Conseguiu. E sem apelar para o pieguismo e muito menos para o drama, que seria fácil, exagerado.”

Em breve, Max e os tantos outros brasileiros que vivem em Londres poderão ver que estão todos na tela. Inclusive os couriers (como os ingleses chamam nossos tão simbólicos motoboys).

kj

Selton Mello,Vanessa Giacomo, Luiz Miranda e Patrícia Armana (prima de Jean na vida real) em cena do longa-metragem

 


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Flávia Guerra é repórter do Estadão e dá dicas de cultura na Rádio Eldorado. Atualmente vive em Londres, onde está aprendendo a se entender com o "britt mood", com a lógica do trânsito "ao contrário" e descobrindo que nem só de "fish & chips" se vive na Inglaterra. Para isso, percorre cada canto de Londres em busca do que faz com que a capital inglesa seja hoje também capital cultural do mundo





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