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03.07.09
Se alguém me contasse como seria meu almoço de ontem, 2 de julho, em Paraty talvez eu nem tivesse vindo para a Flip, de tanto nervoso. (Na verdade eu teria, sim, claro.) É que se eu realmente soubesse, acho que eu não teria dormido na noite anterior de tanta ansiedade (o exagero é proposital).
Tudo começou com um telefonema do meu colega de Flip (e de China, quase um ano atrás) Daniel Piza. "Vai ter um almoço para os autores na casa do príncipe Dom João, você quer ir?" Essa eu vou ficar devendo para o Daniel durante um bom tempo.
Ele esqueceu apenas um detalhe: de me dar o endereço. Antes que eu pensasse que ele estava virando carioca (diz a lenda que os cariocas convidam você para alguma coisa e não combinam o dia nem o horário, só para deixar os maníacos paulistas malucos), imaginei que aqui é uma cidade tão pequena que seria uma tarefa fácil. Afinal, quantos príncipes há em Paraty?
Antes que você pergunte, o celular dele não estava funcionando. Isso deu origem a uma cena bastante bizarra: tive que sair perguntando pela rua onde era a casa do príncipe. Pode parecer um problema simples para você, mas eu não sou daqueles caras que estão acostumados a sair pelas calçadas de pedra de alguma cidadezinha perguntando para as pessoas onde é a casa do príncipe. Se fosse uma princesa, talvez. Mas o mais surpreendente é que todo mundo sabia.
Quando chego à casa de Dom João, encontro jornalistas, alguns empresários do ramo dos livros e poucos autores. É uma casa grande mas não enorme, pelo menos não como a casa que imaginamos quando se fala em 'casa do príncipe'. Sim, os móveis são rusticamente reais, mas o verdadeiro clima de nobreza está nas paredes, espalhado por telas com retratos de um monte de gente que eu só havia visto nos livros de história do primário.
A casa em si é bastante charmosa, dividida em pequenas e aconchegantes salas decoradas com bustos de madeira, quadros de pássaros brasileiros (Richard Dawkins vai adorar isso, pensei na hora) e outros objetos como revistas importadas de fotografia e livros de arte. Não há ostentação, é tudo o que se pode esperar de um príncipe... brasileiro. No jardim, as mesas estavam preparadas para o almoço e o bar de caipirinhas já abrigava uma respeitável fila formada por estrangeiros curiosos e brasileiros empolgados.
A seguir, finalmente, uma informação objetiva entre tantas divagações: o cardápio.
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Residência Dom João
Paraty, 2 de julho de 2009
Salada do jardim brasileiro
Feijão de Minas
Bobó de camarão com arroz branco
Molho de pimenta
Galinha do campo com quiabo grelhado
Angu de fubá
Couve crocante
Frutas da terra com couli de morango
Abacaxi colonial
(Só um comentário: o 'abacaxi colonial' é um pedaço de abacaxi temperado com uma farta dose de cachaça. Se existir algo mais brasileiro que isso, por favor alguém me avise.)
Estou conversando com um grupo de amigos quando olho para a porta e vejo o Gay Talese com a mulher, Nan. Poucos depois, logo atrás dele, chega o Richard Dawkins, que eu achei que veria apenas na Mesa 'Deus, um Delírio', a última da noite dessa quinta-feira. Daí entra o mexicano Mario Bellatin. Daí chega o Alex Ross com o namorado. Daí vem o afegão Atiq Rahimi. Daí entra a irlandesa Anne Enright. E daí, para minha felicidade ainda maior, entram os chineses Xin Ran e Ma Jian.
Já contei aqui mais de uma vez (e sou sempre criticado pois me acusam de fazer propaganda) que lancei um livro chamado 'Ping Pong', espécie de diário/guia com a minha cobertura na Olimpíada de Pequim. Mas agora não é propaganda, como você vai ver a seguir, mas uma boa história.
'Ping Pong' tem uma característica bastante interessante, que é o design inspirado no pequeno livro vermelho do Mao Tsé-Tung. Inspirado é força de expressão: ele é copiado mesmo, com todos os detalhes como a capa de plástico, a foto do autor adesivada, o título em dourado, etc. O projeto é do meu querido amigo e sensacional ilustrador Daniel Kondo, baseado no próprio livro do Mao que eu já havia trazido da China exatamente com a intenção de fazer essa paródia.
Pois bem, eu havia levado uma mochila com alguns exemplares para o almoço, justamente porque achei que seria a oportunidade de entregá-los para algum contato importante. Quando tirei os livrinhos da bolsa e dei de presente para Xin Ran e Ma Jian, fiquei surpreso com a reação deles: eles ficaram loucos. Começaram a dar risada e a comentar entre eles (em chinês, ou seja, não entendi nada). Apesar de Ma Jian morar em Londres, ele não fala uma palavra em inglês (como ele consegue sobreviver é uma incógnita para mim), mas Xin Ran fala um inglês razoável. Xin Ran me cumprimentou várias vezes, elogiou o livro (aê, Dani!) e me deu seu cartão. Disse que gostaria de me ajudar a lançar o livro na China. Não sei se ela havia tomado muitas caipirinhas, porque nunca imaginei que os chineses sequer cogitassem que um livro que faz gozação com Mao Tsé-Tung poderia ser publicado na China. Digo que vou vê-los mais tarde, na Mesa 'China no Divã', na Tenda dos Autores. Eles agradecem e se despedem. Vou mandar um e-mail para Xin Ran assim que voltar para São Paulo.
O almoço continuou muito bem, obrigado. De repente, me vi numa rodinha conversando com a mulher do Gay Talese, Nan, e a Anne Enright. Perguntei para Nan o que ela achava do próximo projeto do marido, que pretende escrever um livro-reportagem sobre... o próprio casamento. "Mas ele não entende nada de casamento", ela responde, sorrindo. Pergunto se ela já leu alguma coisa do livro e ela dá mais risada ainda. "Toda noite eu leio um pouco, porque ele escreve muito devagar, escolhendo palavra por palavra. Ele pede minha opinião como editora, não como mulher", brinca Nan. Anne (olha a intimidade) entra na conversa e diz que ela também pede para o marido ler seus textos. Mas confessa a decepção com a reação dele: "meu marido conhece 50 tipos de silêncio", completa. Genial. Até penso em me beliscar para saber se estou realmente acordado, mas fico com medo de fazer confusão e beliscar o braço da Nan ou da Anne, minhas novas melhores amigas de infância.
Às 15h, o almoço é servido. Nan Talese pede licença para se servir e fazer o prato do marido: mais uma razão para eu invejar Gay Talese. A comida, servida em louça real por empregados que falam inglês com sotaque carioca, está deliciosa. Ou talvez seja a minha fome mesmo.
Pouco depois, converso com alguns editores e escritores brasileiros antes de me preparar para ir embora. Troco algumas palavras de agradecimento com o príncipe Dom João, e imediatamente me identifico com ele. Não com ele como pessoa física, de barba e camisa branca, mas com o que ele representa. Imagino que eu me acostumaria facilmente à vida de príncipe. Eu adoraria, na verdade. "Dom Felipe, o senhor tem um jantar amanhã na casa da rainha da Suécia; Dom Felipe, o senhor precisa acompanhar a princesa da Dinamarca à ópera", e coisas assim. Uau. Pensando bem, naquele dia, não haveria nenhum outro programa melhor do que receber em casa a família real da literatura mundial, exatamente como o verdadeiro Dom João fez. Obrigado pelo almoço, príncipe. Se souber de uma oportunidade em alguma família real, estamos aí.

Se meu primeiro dia na Flip já foi sensacional, o segundo foi melhor ainda. Começou cedo, às 8h, em um workshop para adolescentes realizado por Daniel Kondo, grande amigo e um dos melhores ilustradores do País na atualidade. Dali eu fui correndo para um dos momentos mais aguardados (por mim) na Flip: a coletiva do biólogo Richard Dawkins.
Não seria difícil imaginar o elegante biólogo britânico tomando chá com seu ídolo, Charles Darwin. Por ironia do destino, até mesmo os nomes dos dois evolucionistas é parecido, como se Dawkins tivesse 'pegado o bastão' e continuado o trabalho iniciado por Darwin há 200 anos, quando nasceu, ou, mais especificamente, há 150, quando lançou a bíblia dos evolucionistas, ‘A Origem das Espécies’.
Dawkins está vestindo uma camisa com estampa de plantas, e fico imaginando se ele não teria também uma com tubo de ensaios e outra com macaquinhos. Seu pensamento é tão racional e lógico que é impossível alguém realista e desprovido de preconceitos não acreditar em sua teoria.
Em primeiro lugar, ele é completamente ateu. Não apenas isso, ele é um ativista ateu. Em um momento, ele diz que os ateus deveriam 'sair do armário', numa referência à popularização do movimento gay ocorrida quando os homossexuais decidiram abrir o jogo e assumir sua condição. Dawkins usa um outro termo, bright, que significa 'brilhante'. Entre outras interpretações, a expressão indica que quem não acredita em Deus é mais inteligente que o resto da população.
O problema é que, sem emoção, é quase impossível discordar de Dawkins. Seus pensamentos são baseados em evidências, enquanto a religião é composta por tudo, menos evidências. Acreditar em Deus é um ato de fé e, como tal, não é inspirado por provas concretas. Pois é aí que Dawkins ataca: "Deus provavelmente não existe", ironiza, em referência à campanha que ele ajudou a bancar em Londres, com a frase estampada em ônibus e outdoors.
Não apenas Dawkins diz com todas as letras que Deus não existe, como ele ainda diz que Deus é um delírio (variação do título de um de seus livros mais famosos, publicado aqui pela Cia. das Letras). Deus é um mal para a sociedade, Deus é a causa de guerras em todo o mundo, Deus inspira extremistas assassinos e egoístas. Analisando os conflitos espalhados pelo mundo, é difícil defender que alguém consciente defenda a religião.
O maior problema é que acreditar em Deus nos faz, invariavelmente, escolher uma religião. E aí, diria Darwin, é que o 'bicho pega': se temos que escolher um lado, somos obrigados a colocar todas as outras crenças no outro. Daí para esse outro virar um opositor, e daí um inimigo, basta acender um fósforo.
A verdade é que Dawkins é um gênio da oratória, e é uma delícia ouvir gênios falando. Durante a coletiva, ele praticamente convoca os jornalistas a refletirem profundamente sobre a existência de Deus, e convenhamos que fazer isso em uma sala de um hotel em Paraty às 10 da manhã com o sol brilhando lá fora só pode ser realizado por alguém com talento divino.
Pergunto sua opinião sobre inteligência artificial: cito o filme '2001, Uma Odisséia no Espaço', do meu grande ídolo Stanley Kubrick. Lembro Dawkins que, no filme, o ser mais inteligente na espaçonave é justamente o computador HAL 9000 – personagem que, em outro ponto para se refletir, é mau como só um ser humano pode ser. Dawkins me responde de maneira um pouco evasiva, dá a impressão de que ele deve estar preparando algum material mais profundo sobre inteligência artificial ou algo do gênero. Afinal, o assunto tem tudo a ver com ele: seria a inteligência artificial a forma mais natural de evolução humana? Os Darwins e Dawkins do futuro poderão responder melhor.
Na saída, levo uma pilha de livros (sim, tenho todos os seus livros e sou fã assumido de Dawkins) para ele assinar. Explico que meu nome se soletra 'F...E...L...' , mas antes que eu termine a frase, ele me interrompe. "Eu não faço isso, escrever o nome das pessoas. Escrevo apenas o meu nome." Ele rabisca Richard Dawkins e me entrega a pilha. Parece um ato rude, mas ele faz isso de maneira tão elegante, tão British, que me deixa desarmado. Ainda peço para tirar uma foto, o que ele concorda de maneira simpática e ainda faz questão de sorrir. Espero que Deus não me castigue por ter uma foto de Richard Dawkins no porta-retrato da minha sala.
Após assistir à coletiva de Dawkins, fica difícil encarar algo que a supere. Mas daí chega a hora da coletiva de Gay Talese, outro gênio e o mestre definitivo dos jornalistas literários. Comparar os dois homens é uma tarefa impossível: o que Dawkins tem de racional e cartesiano nos pensamentos, Talese compensa em longas e detalhadas divagações. Ambos estão acostumados a brilhar em eventos como este, vão muito bem com o público, são o que Darwin chamaria de 'macacos-velhos'. Aos 77 anos, Talese tem a vitalidade de um repórter no início da profissão. Ele chega à mesma sala de onde Dawkins acaba de sair e começa a falar no microfone, praticamente organizando a própria coletiva. "Quem está no comando aqui?", pergunta logo de cara. Os jornalistas se sentam e surge a primeira pergunta, alguma coisa sobre a profissão. Talese não se senta, fica de pé elegantemente vestido, de terno e gravata, como sempre. A primeira resposta – que é tudo, menos uma resposta no sentido literal da palavra – dura 35 minutos, metade da coletiva.
Talese conta o caso da reportagem que fez sobre uma jogadora de futebol chinesa que tinha perdido um pênalti na final da Copa do Mundo. Ele confessa que é movido pela curiosidade, e que isso pode significar basicamente qualquer assunto do mundo. Ele vai até a China para encontrar a garota, porque repórteres "têm que estar pessoalmente no local para fazer uma boa reportagem". Ele explica então que, ao desembarcar na China, conheceu a garota mas desconfiou que mais interessante seria contar a história da mãe dela e, por que não, da avó também, que passou pela Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, etc. Ele quer dizer com isso que o repórter tem que ter o olho e o discernimento para compreender que a reportagem pode mudar durante o curso dos acontecimentos, que o importante é a história ser interessante e bem contada. E lembra que acabou ficando três meses por lá, até conseguir descobrir tudo sobre as três gerações de mulheres chinesas.
A segunda resposta (nem me lembro qual foi a pergunta, não importa) dura outros 30 minutos. Talese conta como começou sua carreira: após cursar a universidade no Alabama, ele desembarcou na sede do The New York Times dizendo que tinha estudado com o primo do Diretor de Redação. Incrivelmente, o xaveco funcionou e ele ganhou um emprego duas semanas depois. Os segredos de Talese são básicos e imortais: ir atrás do que você quer, perseverar, ser bem-educado; vestir-se bem; ser sincero e honesto. É incrível que alguém tenha que vir de Nova York para dizer isso em Paraty, mas é mais incrível ainda perceber que são características cada vez mais ausentes da sociedade mundial.
Talese encerra a palestra (não daria para chamar isso de coletiva) e corro mais uma vez para pegar autógrafos que faltam nos livros que eu não havia levado no primeiro dia, por pura vergonha de sobrecarregá-lo. Ele olha para mim e sinto orgulho de dizer que ele me reconhece da noite anterior, e começa a assinar "To Felipe..." sem eu precisar dizer quem sou. Aproveito para garantir a foto que esqueci de tirar no hotel durante a entrevista do Estadão. Pelo jeito, essa FLIP será uma boa desculpa para eu comprar novos porta-retratos.
E isso tudo foi antes do almoço.
02.07.09
O primeiro dia da minha primeira FLIP começou, digamos, após um delicioso peixe à base de ervas e azeite devidamente devorado em um dos charmosos restaurantes de Paraty. Em relação à cidade, inclusive, é bom dizer que o clima é perfeito para um evento como a FLIP, não apenas porque há um quê de poesia em suas casinhas pintadas de branco e azul, mas porque as pedras onde pisamos tortuosamente quando caminhamos pelo centro parecem personagens acostumadas há séculos a ver, ouvir e sentir as emoções que nos tornam humanos. Como se nossos passos escrevessem histórias belas e invisíveis pelas ruas, como frases em um labirinto (eu adoraria ver Borges na Flip, falando nisso).
Durante a tarde deste primeiro dia, centenas de pessoas vão chegando e chegando e chegando. O centro de Paraty começa a ficar lotado, com gente que normalmente a gente não vê em eventos populares e lotados de gente. Senhoras bem arrumadas dividem as ruas com universitários idealistas; garotos usando óculos estilo John Lennon enfrentam filas ao lado de jornalistas gringos loiros e pingando filtro solar. É bonito ver as pessoas unidas apenas pelo amor aos livros, até porque não há espaço para gente que veio à Paraty atrás apenas 'do agito'.
Encontro meus colegas do Estadão (Ubiratan Brasil, Antonio Gonçalves Filho e Daniel Piza) na Sala de Imprensa e retiro minha credencial. Até domingo, esse crachá será meu documento mais importante, bem mais que meu RG.
Como estou aqui fazendo vídeos para a TV Estadão, acompanho Toninho na primeira entrevista do dia: o mexicano Mario Bellatin. O papo é na Pousada da Marquesa, onde estão hospedados vários autores convidados desta 7ª edição da FLIP. Bellatin é simpático, não se incomoda que eu filme a entrevista. Ele está com uma camisa branca fechada até o pescoço, como se fosse um padre. Mas essa não é a característica que mais chama a atenção quando se olha para ele: no lugar de sua mão direita, uma prótese de alumínio faz com o autor do elogiado 'Flores' (2001) nos lembre um personagem de David Croenenberg ou David Lynch. Ele costuma trocar a prótese de vez em quando, sempre com alguma conotação artística. Antes do gancho/pinça metálica, ele já teve ali um celular, por exemplo (sua namorada, uma bela morena, é uma das artistas que criam suas próteses).
A entrevista segue bem, Antonio Gonçalves é um mestre e as respostas de Bellatin são tranquilas, complexas e extensas. De repente, ao meu lado, vejo uma garota meio loira, de jeans justos e decote generoso. Ela tira fotos de Bellatin com um celular, e sorri de vez em quando em momentos que não têm nada de engraçados ou irônicos. Depois de reparar um pouco mais, percebi o quanto eu fui ingênuo: trata-se de uma autêntica groupie literária. O termo é usado normalmente para definir as fãs que lotam os camarins dos rockstars atrás de algo mais que autógrafos, mas acho que nada mais natural do que considerar os escritores como os rockstars deste festival literário.
Na sequência, acompanho Ubiratan Brasil na entrevista com o mestre Gay Talese. Eu queria ser esse cara e já falei bastante dele por aqui, até porque é um dos maiores jornalistas de todos os tempos e um dos criadores do New Jornalism, estilo que utiliza técnicas de ficção em textos de não-ficção. Vou tentar dar uma mostra de seu estilo:
"Sr. Talese está sentado em uma poltrona mal-iluminada, vestindo um terno cinza e gravata amarela. Ele tem a pele levemente rosada e seu nariz parece um pouco mais vermelho que o resto do rosto, talvez vítima do mesmo resfriado que o inspirou a criar um dos perfis mais famosos de sua carreira, o de Frank Sinatra ('Sinatra has a cold', publicado originalmente na revista Esquire). Ele cumprimenta a todos com mais veemência do que seria necessário, talvez pela empolgação de estar em uma cidade sistematicamente oposta à Nova York, um lugar charmoso como Paraty. Antes da entrevista, ele chega a chamar pela mulher duas ou três vezes, como se sua ausência o incomodasse. Ele quer que ela lhe traga sua garrafinha metálica com whisky que ele costuma lever no bolso interno do paletó. "Gosto de dar alguns goles de vez em quando", ele confessa, quase em tom de vonfissão. Numa pequena mesa de xadrez exatamente na frente do Sr. Talese está um chapéu cinza, daqueles que se usavam em Nova York no início do século e que estamos mais acostumados a ver em filmes de Martin Scorsese sobre a Máfia. O jornalista que já escreveu a biografia do maior de todos os jornais, The New York Times, gosta de se vestir como na época em que a imprensa era publicada apenas em papel, e não em telas de computadores insensíveis e exageradamente brilhantes."
Esse era mais ou menos o seu estilo (claro que ele teria feito muito melhor, mas não é esse o ponto): criar uma cena, um clima em que o leitor entrasse na história. E quando isso acontece de maneira bem-sucedida, perde-se a noção do que é realidade ou ficção. Isso não é para alienar o leitor, muito pelo contrário: é para mostrar que, se a arte imita a vida, a vida também pode imitar a arte.
Talese falou uma coisa que me marcou: ele disse que a imprensa matou Michael Jackson. Na opinião dele, Michael passou por um processo de humilhação pública em conseqüência das matérias sobre seus supostos abusos sexuais. Ele discutiu, inclusive e semanticamente, o significado da palavra 'abuso'. "O que é abuso? O que exatamente foi provado contra ele? Os jornalistas deviam ter essas provas antes de publicar qualquer matéria, exatamente como em qualquer outra reportagem", alfinetou o mestre.
Fim da entrevista, hora dos autógrafos. Levo uma edição de 'Aos Olhos da Multidão', de 1973. O livro foi relançado pela Cia. Das Letras com o nome 'Fama & Anonimato', mas é o mesmo texto com um título diferente. Na primeira página, ele vê o nome do meu pai, assinatura que é fruto de um costume de um passado não tão distante assim. Talese pergunta se aquele é meu nome, eu respondo que é o do meu pai. "Ele também é jornalista, by the way, assim como a minha mãe", eu arrisco. "Uau, uma família de jornalistas. Great!". Pronto: meu primeiro dia na Flip está melhor do que eu jamais sonharia.
Acompanhamos Gay Talese e sua mulher até a Tenda dos Autores, onde Davi Arrigucci Jr. faz a conferência de abertura sobre o poeta homenageado da Flip este ano, Manuel Bandeira. Na saída, uma pausa nos livros para comemorar o titulo do Corinthians na Copa do Brasil. Timão, ê ô... Paraty, à noite, parece uma Vila Madalena localizada em uma pequena cidade do litoral do Rio de Janeiro, com muita gente na rua e um clima geral de descontração. Há no ar aquilo que se chama em inglês de 'good vibe', um sentimento agradável de amigos reunidos em um lugar paradisíaco com um objetivo comum e positivo. Ao contrário do que dizem, não é a primeira, mas a última impressão é a que fica. Mesmo assim, posso dizer que minha primeira Flip começou com uma ótima impressão. Pelo jeito, as pedras desta cidade ainda terão muitas histórias para contar nos próximos dias. Eu também.
30.06.09
Este ano vou realizar um sonho: vou pra Flip.
Esta é a 7ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, evento sobre o qual eu sempre ouço falar muito bem e nunca consegui comparecer. Todo ano, meus amigos me provocam: 'e aí, não vai pra Flip?' E eu, sempre com cara de bobo, respondo: 'Não, acho que não vai dar'. Por isso, agora posso encher a boca e dizer: eu vou!
(Opa, acho que ficou um pouco deslumbrado. Vamos voltar para a realidade.)
Entre os autores que vêm para a Flip, eu destacaria o biólogo Richard Dawkins. Seu livro 'Deus, um Delírio' é a prova de que mesmo um ateu pode escrever um livro... divino. Gosto de Dawkins não apenas porque ele é um apóstolo de Darwin, mas porque ele ajuda a divulgar a tese de que as religiões são, no fundo, grandes fantasias criadas pela humanidade que acabam gerando mais mal do que bem.
Gosto também, claro, do Gay Talese. O criador do New Journalism é um mito para mim desde que meu pai me deu o livro 'Fama e Anonimato'. Vai ser emocionante vê-lo ao vivo. Gostarei também de conhecer Alex Ross, crítico de música clássica da revista New Yorker. Ele fala principalmente de música erudita, mas também adora nomes como Radiohead e Björk.
Destacaria também a escritora chinesa Xinran, que escreveu o divertidíssimo 'O que os Chineses não Comem', que li antes de viajar para a China e me fez entender um pouco da cabeça desse povo tão diferente.
Se você quiser saber quem são os destaques dos críticos do Caderno 2, Ubiratan Brasil e Antonio Gonçalves Filho, clique aqui.
Entre os brasileiros, os óbvios que brilharão serão Chico Buarque e Milton Hatoum, além do premiadíssimo Cristovão Tezza. No sábado, o Estadão promoverá uma mesa com debate sobre a obra de Euclides da Cunha, outro momento que deve ser bem legal - e não apenas porque eu trabalho no Estadão, mas porque Euclides é um nome para o qual sempre devemos prestar atenção, por diversas razões.
(Veja aqui o trailer do documentário 'Um Paraíso Perdido')
Prometo escrever coisas de lá. Sugeri a criação de um blog chamado 'Flip Machado', mas ninguém me ouviu. Quem sabe o ano que vem... será que eu vou em 2010?
28.06.09
Uma das últimas fotos de Michael, durante ensaios da turnê 'This is it', que aconteceria em Londres. Quem me enviou foi Kevin Mendelsohn, da comunidade MJ Beats. Para ver uma entrevista com ele, clique aqui
Michael Jackson is dead.
Die Welt trauert um Michael Jackson.
Il re del pop Michael Jackson e’ morto ucciso da un infarto.
Li a notícia sobre a morte de Michael em vários idiomas. Por que nem assim eu consigo acreditar que isso aconteceu? Talvez porque seja uma coisa irreal demais, até mesmo para alguém como Michael.
Eu tinha outro texto pronto para postar aqui. Você já deve estar cansado de ler sobre Michael desde quinta-feira, quando ele deixou de dançar por aqui. Mas me perdoe: tenho que fazer uma última homenagem a esse artista magnífico que marcou a vida de tanta gente. Escrevi o post anterior no momento em que ouvi falar da morte, então foi meio emotivo. Espero agora ser mais racional - pero no mucho.
Pensando bem, não preciso de psicólogo para entender porque não acredito que ele morreu. É que sua morte me leva de volta aos tempos do vídeo de Beat It no Fantástico, ao dia em que ouvi Billie Jean no rádio pela primeira vez.
(Especialistas falam sobre a morte de Michael na TV Estadão)
A morte de Michael mexe com a minha memória, que no fundo é a matéria-prima que nos torna quem somos. A morte de Michael é, de certa forma, a morte de uma pequena parte de quem eu era e, portanto, de quem eu sou. Indo mais longe, ela altera inclusive quem eu serei, já que nunca mais assistirei a cenas inéditas de Michael dançando por aqui.
Do ponto de vista musical, ele era um gênio. Compositor, cantor, arranjador, coreógrafo, dançarino. Michael não criou apenas um estilo que influenciou todos os artistas que vieram depois dele, mas foi a primeira – e a maior – das super-mega-ultra celebridades da nossa época. Ele levou a música negra para o mundo inteiro, e isso não é pouco. Às vezes a gente achava que ele era louco, e provavelmente ele era mesmo. O que a gente esquece é que ele foi a única celebridade-mirim que manteve (e ampliou) o sucesso durante toda a sua existência.
Michael nunca teve sequer um dia normal em toda a sua vida; ele nunca soube o que era entrar em um ônibus e ir para a escola. Ele nunca teve um amigo de sua idade. Quem acha que isso é pouco está subestimando o poder que a nossa sociedade tem de sugar a personalidade de seus ídolos. Somos, sim, egoístas, inconsequentes, canibais.
Desculpe se o texto é triste para um domingo, não foi minha intenção. Michael não merecia isso, já que viveu nos alegrando com sua arte. Sei que é um clichê, mas a verdade é que ele nunca vai morrer porque permanecerá vivo em seus discos, em seus vídeos. E na cabeça de milhões de pessoas como eu: lutaremos contra nossas memórias para mantê-lo dançando por aqui, mesmo sabendo que agora ele está dançando nas nuvens.
25.06.09

Morreu Michael Jackson. Morreu Michael Jackson. Morreu Michael Jackson.
Continuo sem acreditar. Nunca pensei que eu fosse escrever essa frase, não porque ele seria uma pessoa imortal (sua música definitivamente é), mas porque é uma frase tão irreal quanto foi a existência desse incrível artista.
Sempre fui fã de Michael Jackson, antes que você pergunte. Portanto, tudo o que eu escrever aqui está sendo fruto de uma forte emoção. O dia da morte de Michael Jackson, o momento em que a gente ouve a notícia pela primeira vez, vai ficar marcado para sempre na nossa memória, da mesma forma que sempre lembramos onde estávamos quando John Lennon morreu, quando Elvis Presley morreu, quando Frank Sinatra morreu.
Nos últimos anos, a carreira de Michael ficou relegada a segundo plano, principalmente graças aos escândalos sexuais em que ele se meteu. Ele foi absolvido, sim, mas ficou marcado pela ideia bizarra de que um cara de 40 e poucos anos dormia com crianças na própria cama, além de brincar com elas em seu parque de diversões particular. Isso tudo fez com que as pessoas esquecessem do artista genial que ele foi no passado, do sucesso igualado apenas pela Beatlemania, dos números superlativos de vendas de discos.
Não cheguei a ver o Jackson Five ao vivo, não era da minha época. Mas vi a ascensão do Michael Jackson em carreira solo, quando ele lançou 'Thriller', em 1982. Só se falava de Michael, só se tocava Michael nas rádios, era uma febre como eu nunca vi e como nunca surgirá de novo. Hoje o sucesso é tão fragmentado entre milhões de pessoas que não há mais espaço para um artista tão grande quanto Michael Jackson. Ele é maior do que a soma de todos.
Michael nasceu em 29 de agosto de 1958 em Gary, Indiana, e foi o sétimo de nove filhos. Sua genialidade foi reconhecida logo cedo, quando começou a gravar com o Jackson Five, banda formada com seus irmãos. Em 1972 ele lançou o primeiro disco solo, 'Got to be There'. Sucesso total. Mas foi em 1979, com 'Off the Wall', que ele virou um gigantesco ídolo mundial. Dois anos depois, sua parceria com o produtor Quincy Jones deu à luz o disco mais vendido da história da música: 'Thriller'. Como imaginar um disco que teve sete de suas nove músicas no Top 10 das paradas? Como imaginar que um simples disco venderia mais de 100 milhões de cópias?
Por uma razão muito óbvia: 'Thriller' não era um simples disco, assim como Michael Jackson não era um simples artista. O 'Rei do Pop' lançou, cinco anos depois, o também bem-sucedido ‘Bad’, e em 1991 veio o ótimo 'Dangerous'. Esses discos são tão bons, mas tão bons, que ficarão para sempre gravados na história da música. Em 2001 ele ainda lançou 'Invincible', mas já estava claro que não tinha mais a força e a energia de antigamente.
É importante ressaltar que Michael Jackson não foi apenas um cantor; ele foi um performer, talvez o maior que já existiu. Michael cantava, compunha, dançava, gravava vídeos incríveis e originais – Michael surgiu na época do nascimento da MTV, e provavelmente o canal musical não teria alcançado o mesmo sucesso se não fosse por ele.
Vi Michael Jackson ao vivo duas vezes, nos dois shows que ele fez no Morumbi em 1993. Foi mágico. Vê-lo em pessoa, mesmo sabendo que algumas de suas bases/vozes eram pré-gravadas, foi algo inesquecível. Infelizmente, não tão inesquecível quanto esse triste dia de hoje. Michael Jackson morreu. A música – e uma parte da vida de milhões de pessoas – morre um pouco com ele.

Para dividir com os outros Beatlemaníacos como eu: vejam abaixo a abertura do The Beatles Rock Band, videogame que permitirá que os usuários 'toquem' as músicas da maior banda de todos os tempos.
O game sai dia 9 de setembro. Mais informações, clique aqui.
24.06.09

Fazia um tempão que eu não ouvia falar do Live, banda americana que fez bastante sucesso nos anos 90. Eu era bem fã deles, mas confesso que parei de acompanhar um pouco a carreira do Live em 2003, quando saiu o disco 'Birds of Pray'. Depois eles ainda lançaram o 'Songs From Black Mountain' em 2006, mas aí eu não cheguei a ouvir direito.
Fiquei bem feliz quando soube do lançamento de 'Live - Live at Paradiso / Amsterdam', primeiro registro da banda no palco. Sim, o Live foi formado em 1988, mas nunca tinha lançado um CD/DVD ao vivo. No mini-documentário que acompanha o DVD, o vocalista Ed Kowalczyk explica que eles sempre deixavam o DVD para a turnê seguinte, até que a turnê chegava ao fim... e eles deixavam para a turnê seguinte.
A pergunta óbvia que se faz é: por que o Live, uma banda superamericana (eles fizeram até uma música em homenagem ao 11 de setembro, 'Overcome') decide gravar um disco ao vivo em Amsterdã? Eles explicam que os fãs holandeses sempre foram muito fiéis à banda. Quem vê o DVD percebe uma outra razão: o testro Paradiso, palco do show, é simplesmente maravilhoso. O prédio era uma igreja, o que cai como uma luva para o som messiânico-espiritual-poderoso do Live.
A banda é uma espécie de mistura de U2 com Led Zeppelin, com pitadas de religiosidade e cultura nerd (no bom sentido). Do repertório do show, maravihoso, eu destacaria 'All Over You', 'The Dolphin's Cry', 'Selling the Drama', Lightning Crashes', 'I Alone', 'Operation Spirit'... esquece, são várias legais. Infelizmente, a mais famosa, pelo menos no Brasil, não está lá: 'Pain Lies on the Riverside', do disco 'Mental Jewelry'. Tenho certeza de que você lembra dela 'heeey, hey, hey, hey.. pain lies on the riverside...'. A canção ficou conhece porque tocava o dia inteiro em um comercial de Hollywood. Ficou tão famosa que trouxe o Live para uma apresentação meio pocket show em São Paulo em 1992, no saudoso Aeroanta, em Pinheiros.
Para uma banda que se chama Live, nada melhor do que vê-los... live (ao vivo). Com vocês, Live tocando 'All Over You'. Sem o perdão do trocadilho, o Live está mais vivo do que nunca.
22.06.09
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Gisele Bündchen: Tem gente que diz que não aguenta mais a Gisele. Olha bem essa foto e me responde: você acha que é possível enjoar dela?
Foto: Sérgio Castro/AE
Ufa! Hoje termina mais uma São Paulo Fashion Week. Se eu pudesse destacar apenas um momento entre todos do evento, ele teria acontecido na quarta-feira, 17 de junho de 2009.
São 22h, tudo pronto para o desfile da Colcci com Gisele Bündchen e Jesus Luz, namorado da Madonna. Na primeira fila, Carolina Dieckmann, Maytê Proença, Constanza Pascolato... e eu. Como é que eu fui parar lá?
Assistir a um desfile da Gisele é uma aventura, mais ou menos como conseguir ingresso para um show do U2 – se eles tocassem em um barzinho. Horas antes de seus maravilhosos pezinhos pisarem na passarela, a fila na porta da sala do desfile dava voltas pela Bienal.
Com uma pequena mãozinha de uma amiga glamourosamente influente, venço o primeiro obstáculo. Antes que eu possa dizer 'Gisele-Caroline-Nonnenmacher-Bündchen', estou no backstage, pertinho do camarim.
Modelos correm de um lado para o outro. Zeca Camargo espera para entrevistá-la para o Fantástico; os caras do CQC também.
Gisele sai do camarim, passa na minha frente e entra na sala de desfile, para ensaiar. (Não consigo entender por que é necessário ensaiar, ela vai apenas andar de um lado para o outro). Acho que é como um craque que entra antes do jogo para fazer o reconhecimento do gramado.
Já fiz a analogia com futebol antes. Para mim, ver Gisele desfilando é como ver o Pelé jogando: entra para o currículo e vira história para contar para os netinhos.
Showtime. Entro na sala e encontro amigas e amigos. Um papo aqui, outro ali, quando vejo estou sentado na primeira fila, perto do local onde os fotógrafos se amontoam. Na minha frente, do outro lado da passarela, são tantos globais que por um minuto acho que estou no meio de uma novela.
Gisele surge. Não é a primeira vez que a vejo desfilando, mas não sou louco de dizer que não dá um friozinho na barriga. A coisa mais interessante de vê-la em ação é não conseguir saber se ela brilha tanto porque é a Gisele ou se ela é a Gisele porque brilha tanto. Explico melhor: ela nos fascina porque sabemos que ela é a Gisele Bündchen, mas, ao mesmo tempo, ela só é a Gisele Bündchen justamente porque tem algo que nos fascina.
Ela caminha com o olhar seguro de quem sabe que é a melhor do mundo. As pernas são fininhas, Gisele é bem mais magra do que se imagina. O incrível é que ao olhar para suas pernas, descubro que não caminham como as outras, mortais. Gisele flutua. Chega ao final da passarela, se vira e volta. Meus olhos imploram por sua atenção, mas é claro que ela não me vê. Não importa: Gisele está a apenas três metros de distância. Já é o suficiente para alimentar meus sonhos até a próxima Fashion Week.
19.06.09
A apresentadora de TV Aline Hauck desfila pelo lounge do Grupo Estado durante a SPFW Verão 2010. Foto de Gildo Mendes
Apareci pouco por aqui essa semana porque estou envolvido na cobertura da São Paulo Fashion Week, evento que vai até a próxima segunda-feira. A equipe do Grupo Estado produz um material bastante completo, com vídeos, matérias, entrevistas ao vivo na Rádio Eldorado, um blog dedicado ao assunto, etc. Esse material é produzido a partir do lounge do Estadão no evento, o que nos dá uma base para trabalhar de maneira rápida e ágil.
É a quinta vez que participo da cobertura do evento, e tenho aprendido cada vez mais sobre o assunto - provavelmente, por osmose. A SPFW não é um evento apenas para quem gosta de moda, mas um local onde se respira comportamento, tendências, cultura. E o melhor é que isso tudo ocorre em meio a uma multidão de mulheres lindíssimas, não apenas nas passarelas. As mulheres mais bonitas da Fashion Week estão desfilando pelos corredores da Bienal e bebendo champagne nos lounges. Uma vida muito dura, como se vê.
É complicado escolher os destaques entre as marcas que participam da SPFW, até porque não sou um especialista em moda. Mas posso dizer que será difícil ver um desfile melhor do que o apresentado pela Cia. Marítima, ontem à noite. É uma marca de biquínis, se você não conhece. E um desfile com modelos como Isabeli Fontana, Raíca, Juliana Imai, Ana Cláudia Michels e outras garotas maravilhosas passando de biquíni na sua frente é uma experiência bem difícil de ser batida.
Na saída, uma amiga me perguntou: 'os tecidos eram bonitos, não?' Eu achei que era piada. 'Que tecidos?', perguntei. Essa é uma diferença básica entre homens e mulheres. Elas conseguem ver um desfile e prestar atenção apenas nas roupas, enquanto nós não conseguimos separar a embalagem do conteúdo. Se uma mulher é linda, (quase) qualquer coisa que ela vestir estará OK para um homem. E o contrário acontece se a mulher não for das mais bonitas (se bem que isso é quase impossível na SP Fashion Week). Homens estão interessados no pacote completo, mulher e roupa. E antes que alguma mulher me critique, duvido que alguma prestou muita atenção na roupa que o galã global Rodrigo Hilbert estava usando no desfile da Colcci. Pelo menos nenhum homem gritou quando a Gisele apareceu na passarela, e olha que somos muito mais primitivos que vocês.
Vi outros desfiles também, e sempre procuro me informar com minhas colegas especialistas antes de emitir uma opinião. O problema é que nem elas chegam a um consenso: já ouvi gente que entende pra burro de moda ter opiniões totalmente contrárias após ver um determinado desfile. Por isso eu sempre pergunto: 'e aí, eu gostei desse desfile?' Elas respondem por mim e, aos poucos, eu vou aprendendo. A Fashion Week é uma sala de aula bastante agradável.
16.06.09

Kristin Davis: Minha favorita é a Charlotte (a primeira da esq. para a dir.): Será que, por amor, ela trocaria Nova York por São Paulo?
Não sou tão fã de Sex and the City, mas gosto de assistir para (tentar) compreender como as mulheres pensam. Detalhe irônico: os textos são escritos por homens. Darren Star escrevia a série, Michael Patrick King escreveu o filme. Surpresa? Não para mim. Tudo bem, os roteiristas são gays. Mas apesar dos exageros estilísticos e do consumismo caricato, acho que as quatro personagens se comportam exatamente... como homens.
Carrie, por exemplo, é o líder, o capitão do time de futebol. Samantha é a cafajeste, aquela que não pode ver na frente um representante do sexo oposto – às vezes até do mesmo sexo – que já sai dando em cima. Miranda é o mal-humorado da turma, o cara mais chato do mundo. E Charlotte é o certinho, o idealista que acredita em tudo que lhe dizem. E que ainda está em busca eterna pelo amor perfeito, veja só que ingenuidade.
Ontem vi o filme em DVD emprestado por uma amiga (não, não era cópia pirata, antes que você pergunte). Sex and the City, o Filme tem o maior caso de perdão da história do cinema. Você voltaria com um namorado que te abandonou no altar? Só em Hollywood mesmo. Ou em Nova York.
O filme é praticamente igual à série da TV, mas com um timing diferente. Parece que você está vendo três episódios emendados um no outro, sem comerciais. Mas tenho que reconhecer que o trabalho dos roteiristas é muito bom, com alguns diálogos antológicos. "Caras maus costumam fazer coisas ruins. Caras bons também" é um desses pensamentos que nos obrigam a refletir sobre a condição humana. Outro comentário sobre a diferença de comportamento nas diversas idades – e aí não serve apenas para as mulheres – também é um direto no estômago: "Os 20 anos são para se divertir, os 30 são para aprender lições. E os 40 são para pagar drinques para os amigos". Sei lá, acho que tem alguma coisa estranhamente verdadeira nessa frase aparentemente incompreensível.
Costumam me perguntar qual é a minha Sex and the City favorita. Samantha e Miranda estão fora de cogitação; uma é muito vulgar, a outra é irritantemente cerebral. Embora eu tenha mais coisas em comum com Carrie (afinal, guardadas as devidas proporções, também escrevo uma coluna sobre relacionamento, como ela), prefiro a Charlotte.
Ela pode ser ingênua, até meio bobinha, mas pelo menos acredita no amor. E para quem mora em uma metrópole gigantesca e impessoal, como nós e elas, acreditar no amor é quase como acreditar em um deus: a gente tem que ter fé, mesmo sem ter nenhuma prova de que ele existe.
15.06.09
10.06.09
Mais um Dia dos Namorados está chegando. Na teoria, muito amor e romance no ar. Na prática, shoppings lotados, alta no preço da dúzia de rosas e filas de carros nos motéis. Sem contar aquela enxurrada de comerciais na TV que poderiam vender celulares, bichinhos de pelúcia ou pastas de dente: está todo mundo sempre sorrindo.
É normal haver uma apreensão entre os namorados na hora de escolher o presente. Recomenda-se uma certa equivalência de valores para ninguém ficar comparando e pensando que o sentimento de um é maior que o do outro. A não ser que um dos dois tenha bastante dinheiro, porque daí é praticamente obrigatório dizer o quanto se ama com o maior número possível de quilates. Lembre-se: apesar de os gays terem conquistado um bom espaço, o diamante ainda é o melhor amigo de uma mulher.
Apesar de isso soar como pão-durismo (e provavelmente é mesmo), acho que o valor do presente não é tão importante. O mais legal é o outro constatar que você presta atenção aos seus gostos. Não vejo o menor problema em dar apenas um CD de presente de Dia dos Namorados, desde que seja aquele CD que ela mencionou há três meses durante um jantarzinho qualquer. Sou da época em que se gravava fitinhas-cassete com as músicas favoritas da namorada. A cada canção voltava uma memória, uma lembrança de algum acontecimento legal.
Hoje isso é até meio ingênuo, ainda mais numa época em que qualquer MP3 player armazena 2 mil músicas. Quem viveu 2 mil acontecimentos legais? E olha como o preço não é importante: melhor do que comprar um CD de presente seria... compor uma música para ela. Quanto valeria isso?
Dia dos Namorados também é bom para definir o relacionamento que você tem. Sempre defendi que quem é casado não deve comemorar a data. Casado é casado, namorado é namorado. Você sofre pra burro para tomar uma decisão na vida, daí vem uma marca de lingerie e diz que vocês são eternos namorados? Besteira. Noivos e noivas também estão fora: noiva não é namorada, assim como esposa também não. Não queria ficar noiva? Agora aguente.
Para evitar confusão, uma boa notícia: o Dia dos Namorados cai no meio do feriado de Corpus Christi. Assim, em vez de comprar aquele sapato que ela estava 'precisando tanto', você pode presenteá-la com uma viagem – e aproveitar para ir junto. Nada de troca de presentes: seria um presente só para os dois curtirem juntos. Tem coisa mais romântica?
Um feliz Dia dos Namorados... e uma boa viagem.
09.06.09
Roger Federer: O tenista-e-bom-moço é uma espécie de 'Ayrton Senna' da Suíça
Não é preciso ser muito inteligente para saber por que eu gostaria de ser Roger Federer. Ele é apenas um bilionário de 28 anos considerado pela maioria dos especialistas como o maior tenista de todos os tempos. E que acaba de ganhar seu 14º torneio Grand Slam, justamente no templo sagrado de Roland Garros, Paris.
Aproveito para contar um episódio engraçado, que aliás eu conto com mais detalhes em 'Ping Pong - Chinês por um mês', livro que relata minha experiência na cobertura da Olimpíada de Pequim. O episódio aconteceu no ano passado, mas serve como base para falarmos um pouco sobre tênis...
(Aqui vai uma propaganda nem um pouco subliminar: O livro 'Ping Pong' está à venda nas melhores casas do ramo ou pela internet e é muito interessante :-)
Tudo aconteceu quando cheguei, sem ingressos, ao complexo esportivo onde ficavam as quadras de tênis. Não acreditei quando vi no telão que o primeiro a jogar seria o espanhol Rafael Nadal, de quem eu também sou fã. Nadal, na época o número 2 do mundo, jogaria contra o russo Igor Andreev, o então número 23. Jogaço.
O tênis é um esporte de cavalheiros e cheio de rituaizinhos. É um jogo tão civilizado, mas tão civilizado, que tem lixinho e frigobar dentro da quadra. Você vai achar que eu estou exagerando, mas juro que eu vi dois guarda-chuvas encostadinhos num canto, um para cada jogador. E o silêncio, então? Dá nos nervos. Até desliguei o celular para não pegar mal. Quando a torcida começou a gritar 'Nadal', a juíza, uma gordinha inglesa supermetida a besta, começou a fazer 'shh' e pedir em inglês para as pessoas fazerem silêncio. Parecia até uma professorazinha primária pedindo para os alunos não conversarem. Ela é que devia ter feito a lição de casa, e aprendido a falar 'silêncio, por favor' em chinês.
Os tenistas colaboram para essa imagem sofisticada do tênis. A cada jogada, por exemplo, eles param e secam o rosto. Qual é o problema, é possível suar tanto assim a cada dez segundos? Será que eles têm algum problema com as glândulas sudoríparas? Ou é só frescura mesmo? Mas o mais divertido é ouvi-los dar umas gemidinhas cada vez que batem na bola. É 'ah' para cá, 'uh' pra lá; se alguém fechar os olhos, pode até pensar que eles estão tendo algum tipo de relação sexual em câmera lenta.
Uma coisa que acho meio humilhante no tênis são aqueles garotos com as toalhas na mão, esperando para entregá-las aos seus 'patrões'. Parece até que são os mordominhos dos jogadores, apáticos e irritantemente submissos.
Nadal venceu por 6-4, 6-2, e despachou o mal-humorado Andreev para a Sibéria em menos de duas horas. Foi muito legal ver um jogo de tênis desse nível ao vivo, com Nadal no auge da forma. Mesmo assim, continuo achando que o tênis é um esporte bastante metido a besta. Por exemplo: dá para acreditar que os juízes de linha são uns mauricinhos de camisa pólo que ficam o jogo inteiro sentados numas cadeirinhas de praia ao lado da quadra? Se algum deles pedisse um Dry Martini aposto que ninguém ia estranhar. Onde já se viu um esporte ter mais juízes que jogadores, não é? Os tenistas também fazem muita pose, mas na verdade eles correm muito pouco em quadra, se a gente parar para analisar friamente. Quantos passos um jogador dá numa partida? Faça a conta. Tenho a impressão de que os grandes atletas do tênis são os catadores de bolinhas.
Fim de jogo, saí para dar uma volta e descobrir quem mais jogaria naquele dia. Adivinha? Ninguém mais ninguém menos que Roger Federer. E o suíço ia enfrentar Tomas Berdych, da República Tcheca e, na época, número 20 do mundo. Justamente o mesmo adversário que o havia eliminado da Olimpíada de Atenas, em 2004. Ou seja: outro jogaço.
Federer joga com mais elegância do que Nadal, que é um exemplo de raça (se é que dá para chamar um jogador de tênis de raçudo). Federer é o craque das jogadas de efeito, como deixadinhas e bolas no contrapé do adversário que levam a platéia ao delírio. E foi isso que aconteceu: Berdych não foi páreo para o número 1 do ranking e perdeu por 6-3, 7-6.
Para comemorar mais um dia olímpico, eu e meus amigos saímos para jantar em um dos lugares mais legais que já fui na noite de Pequim: o bar/restaurante tailandês Purple Haze, na avenida Sun Li Tun. Pedi uma 'binde pijiu' (cerveja gelada) e fiquei só curtindo o lugar, ouvindo a música e observando o ambiente. Pode ser que eu esteja errado, mas tenho certeza de que vi um dos juízes do tênis no balcão. Tomando um Dry Martini.
08.06.09
Pera aí, pera aí! O que um cara que gosta de heavy metal foi fazer em um show do George Benson cantando Nat King Cole?
Bom, vamos por partes. Em primeiro lugar, eu gosto de música boa, independente da idade. Em segundo, eu acabei conhecendo o pessoal da produção e aceitei o convite para o show. E em terceiro, a abertura estava a cargo da cantora/baixista Esperanza Spalding, que é uma figura sensacional.
Essa americana com ares de brasileira é realmente incrível. Seu repertório é baseado em um som de jazz super suingado, complexo, moderno, com toques de música brasileira (deve ser o sotaque brasileiro da banda, o guitarrista Ricardinho). Mas apesar de ela cantar muito bem, o que chama a atenção é sua performance como baixista/cantora: a garota de apenas 25 anos detona no baixo elétrico, mas é no acústico que ela realmente chama a atenção. Esperanza não é apenas talentosa; ela consegue transformar um objeto gigantesco que é um baixo acústico de dois metros em um instrumento sensual. Ela age como se tocar, para ela, fosse um verdadeiro ato de amor.
Não posso deixar de mencionar a versão maravilhosa que ela fez de 'Wild is the Wind', que ficou famosa nas vozes de Nina Simone e, mais tarde, de David Bowie. Olha só como é o destino: eu fui embora do show de ontem sem saber qual era o nome dessa música, que foi a minha favorita do show. Mas volto do almoço hoje, aqui no Estadão, e dou de cara com quem? Esperanza Spalding no elevador. Achei que ela tinha vindo me encontrar, mas infelizmente ela estava apenas saindo de uma entrevista na Rádio Eldorado. Conversamos um pouco e perguntei a ela o nome da canção que havia me hipnotizado na noite anterior. Ela me disse que era 'Wild is the Wind', e que estaria no seu próximo disco. Daí ela se virou para o empresário e disse: "Não falei que essa era a melhor música do show?" Ou seja, eu e Esperanza temos o mesmo gosto musical. Sem escapar do trocadilho, há esperanza para mim.
(Nossa, essa foi realmente péssima.)
Após o furacão Esperanza, entra no palco uma orquestra composta por umas 30 pessoas, que acompanhariam George Benson em seu tributo a Nat King Cole. Tudo pronto, o locutor típico de shows 'on Broadway' anuncia que o vencedor de 10 prêmios Grammy está pronto para o show. E Benso entra 'em campo' elegante, charmoso... e meio botocado, para falar a verdade. Ele explica que seu sonho era cantar como Nat King Cole, seu artista favorito... e manda a ver em 'Mona Lisa'. Daí vem uma série de sucessos, como 'Stardust', 'Route 66', 'Looking Back', e, claro, 'Unforgettable'. Vou ser sincero: acho 'Unforgettable' uma música careta pra burro, mas não dá para negar que a melodia, quando a gente esquece que já ouviu bilhões de vezes, é... inesquecível.
Benson transformou o Via Funchal em um palco da Broadway. E durante todo o show, além de crooner ele ainda ataca como o velho (no bom sentido) mestre da guitarra que é, fazendo sua Gibson 335 cantar uma melodia aveludada, gostosa. O som de Benson é único: são belas frases que parecem contar uma história, uma história de um homem de 66 anos que é um dos últimos ícones de uma turma que mudou a música e ajudou a popularizar o jazz.
No final da apresentação , o artista ainda detonou o que ele chamou de 'Benson's Party', com sucessos como 'Give Me The Night', 'Moody's Mood' e 'On Broadway'. Como disse um amigo meu da produção, Benson is 'the last of his kind', o último da sua geração. É uma pena, quando lembramos disso. Mas, ao mesmo tempo, ao ver o gás da garota que abriu o show, eu sou obrigado a repetir mais uma vez o trocadilho: há Esperanza.
Como não há registros de Esperanza Spalding cantando 'Wild is the Wind', segue uma versão que encontrei no YouTube cantada por David Bowie. A de Esperanza é mais groove e dissonante; a de Bowie é mais dramática e arrastada. Mais abaixo, Esperanza apresentando 'She Got to You' em um programa de TV. De qualquer maneira, enjoy.
05.06.09
Desculpe-me pela escassa produção durante a semana; além da queda do avião da Air France, estive envolvido na cobertura de dois eventos organizados pelo Estadão que tomaram quase todo o meu tempo. Dois eventos, aliás, muito legais: o lançamento do novo site do LINK (vídeo abaixo) e o início do 'Paladar - Cozinha do Brasil', um verdadeiro laboratório gastronômico que reúne chefs de todo o País (e alguns de fora) para discutir os rumos da culinária brasileira. Se tudo der certo, ao final deste evento terei engordado três deliciosos quilos.
Já que estamos perto do fim de semana, aqui vai uma das minhas canções favoritas. A letra, maravilhosa, pode ser lida em formato de texto corrido, como uma carta. É linda, assim como a melodia. Para acompanhar 'Trovoa', de Maurício Pereira, segue abaixo o vídeo realizado no estúdio da TV Estadão em que ele é acompanhado pelo tecladista Daniel Szafran. Sugiro que você veja o vídeo acompanhando a letra - e vice-versa. Poucas músicas mexem tanto comigo quanto essa, por que será? Por que será que algumas canções conseguem tocar o fundo da alma como se tivessem sido escritas especificamente para a gente?
Trovoa
Maurício Pereira
Minha cabeça trovoa sob meu peito te trovo e me ajoelho, destino canções para os teus olhos vermelhos. Flores vermelhas, vênus, bônus, tudo o que me for possível. Ou menos (mais ou menos) me entrego, ofereço, reverencio a tua beleza física também, mas não só. Não só
Graças a Deus você existe, acho que eu teria um troço se você dissesse que não tem negócio. Te ergo com as mãos, sorrio mal, mal sorrio. Meus olhos fechados te acossam fora de órbita, descabelada diva. Súbita, súbita...
Seja meiga, seja objetiva, seja faca na manteiga. Pressinto como você chega, ligeira, vasculhando a minha tralha e bagunçando a minha cabeça. Metralhando na quinquilharia que carrego comigo (clipes, grampos, tônicos): toda a dureza incrível do meu coração feito em pedaços.
Minha cabeça trovoa, sob teu peito eu encontro a calmaria e o silêncio. No portão da tua casa no bairro famílias assistem TV (eu não) às 8 da noite. Eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e, como você, eu sei, quer dizer, eu acho que sei, eu acho que sei...
Vou sossegado e assobio e é porque eu confio em teu carinho mesmo que ele venha num tapa. E caminho a pé pelas ruas da Lapa (logo cedo, vapor… acredita?). A fuligem me ofusca, a friagem me cutuca, o nascer do sol visto da Vila Ipojuca. O aço fino da navalha me faz a barba, o aço frio do metrô, o halo fino da tua presença...
Sozinha na padoca em Santa Cecília no meio da tarde, soluça, quer dizer, relembra. Batucando com as unhas coloridas na borda de um copo de cerveja, resmunga quando vê que ganha chicletes de troco.
Lembrando que um dia eu falei 'sabe, você tá tão chique' meio freak, anos 70. Fique, fica comigo. Se você for embora eu vou virar mendigo. Eu não sirvo pra nada, não vou ser teu amigo. Fique, fica comigo...
Minha cabeça trovoa sob teu manto me entrego ao desafio de te dar um beijo e entender o teu desejo, me atirar aos teus peitos. Meu amor é imenso, maior do que penso, é denso. Espessa nuvem de incenso de perfume intenso e o simples ato de cheirar-te me cheira a arte, me leva a Marte, a qualquer parte. A parte que ativa a química, ignora a mímica e a educação física. Só se abastece de mágica explode uma garrafa térmica por sobre as mesas de fórmica de um salão de cerâmica onde soem os cânticos. Convicção monogâmica, deslocamento atômico, para um instante único em que o poema mais lírico se mostre a coisa mais lógica.
E se abraçar com força descomunal até que os braços queiram arrebentar toda a defesa que hoje possa existir e, por acaso, queira nos afastar... Esse momento tão pequeno e gentil e a beleza que ele pode abrigar, querida nunca mais se deixe esquecer onde nasce e mora todo o amor.
01.06.09

Dennis Hopper, Peter Fonda e Jack Nicholson: O importante é cair na estrada
Sábado, seis da manhã. Lá fora está um frio dos diabos. Em algum lugar da cidade, um homem pula da cama sem pensar duas vezes e pega o casaco de couro. Ele desce até a garagem, sobe na moto e vai se encontrar com um grupo de amigos. Juntos, pegam a estrada até Campos do Jordão.
O vento no rosto o faz se sentir vivo, o caminho é lindo. Chegando a Campos, o grupo estaciona e toma um café. Meia hora depois, as motos voltam à estrada. Algumas horas depois, estão em São Paulo.
Para algumas pessoas, esses caras são parte de um grupo de loucos. Como assim, viajar duas, três horas de moto até Campos apenas para tomar um cafezinho? Apesar de não fazer parte desse grupo, eu respondo: o interessante para eles não é chegar a algum lugar, mas curtir a viagem até lá.
Apesar dessa historinha estar longe de ser uma fábula, ela também tem um significado escondido. Uma metáfora, podemos dizer. Há homens que gostam do caminho, outros gostam do destino. Da mesma maneira que há homens que gostam de ser solteiros e homens que gostam de ser casados.
Solteiros convictos têm um pouco dessa turma que sobe na moto apenas pelo prazer de andar de moto. Eles não pensam em chegar a algum lugar, no caso, a uma família tradicional. Outros pensam apenas no destino: mulher, filhos, sogra – o pacote completo. E antes de você, mulher, criticar o comportamento do primeiro tipo de homem, saiba que também existe um monte de mulheres assim por aí.
Apesar de a sociedade geralmente criticar quem tem a solteirice como estilo de vida, acho que ninguém tem o direito de julgar o outro. É comum a gente achar que os solteiros são pessoas 'erradas', porque não tem o desejo de formar uma família. Discordo. Em primeiro lugar, porque não se pode julgar ninguém. Em segundo, porque quem gosta de ser solteiro gosta mais do caminho até o relacionamento do que do relacionamento em si. Como a turma de motoqueiros que gosta mais do trajeto do que do destino, o solteiro gosta da sedução. Depois que a conquista é concretizada, o interesse diminui. Quando se chega ao destino, é hora de começar outra viagem.
Como diz a filosofia tibetana, 'cada um, cada um' (a filosofia tibetana diz isso? Duvido). Como diz outro clichê, a vida é muito curta, e é uma só. O importante é ser honesto e deixar a situação clara desde o início.
Um solteiro convicto ao extremo não seria o par perfeito para uma mulher que sonha em ter doze filhos, mas isso é um assunto entre eles. Nunca se esqueça de que toda moto tem uma garupa. E quando a gente gosta de alguém, qualquer viagem é uma delícia.
27.05.09

De vez em quando, minhas amigas acessam este blog e reclamam que eu ando muito machista. É Borracharia pra cá, Filosofia de Boteco pra lá... temas que não interessam às mulheres e, pior ainda, escritas com um tom que volta e meia é criticado.
OK, vocês venceram. (Batata frita)
Cansada dos meus posts monotemáticos (segundo ela), minha colega Ana Lúcia Araújo escreveu um texto emocionante sobre o que as mulheres realmente querem na vida. Quem quiser ler outros textos dela pode acessar o blog Publicáveis, sobre coisas da vida com uma pitada de literatura, ou sobre a vida prática no Cabana Bacana.
A imagem acima foi escolhida pela Analu; no final do texto, uma imagem para os caras (só para mostrar quem ainda manda por aqui. ;-)
Enjoy.
Eu só queria um litro de leite
Ana Lúcia Araújo
Mês passado, li em várias revistas femininas e nos jornais da cidade teorias interessantes sobre o que querem as mulheres. Linhas e mais linhas para tentar explicar afinal de contas por que somos tão insatisfeitas. Em alguns momentos tenho a sensação que somos o Mal do Século, ou pior: o Mal de TODOS os Séculos.
Os chavões vão nessa linha: as mulheres são independentes financeiramente, fizeram dos homens uns bananas, mas ainda querem que eles abram a porta do carro. É verdade? É. É mentira? É também.
Eu não sei o que as mulheres querem, até porque é uma questão pessoal. Mas o que eu percebo, entre minhas amigas, minha mãe, amigas da minha mãe, minhas primas mais novas, amigas das minhas primas mais novas é que nós só queremos um litro de leite.
Entendeu? Então explico. Outro dia um amigo me contou uma história bobinha, mas que me deu a luz para esse texto. Durante uma conversa normal do dia-a-dia com a namorada, por telefone, ela lamentou: "Estou trabalhando tanto que nem tive tempo para comprar leite". Meu amigo (que ganhou muitos pontos comigo por isso) não pensou duas vezes. Passou na padaria, comprou uma caixinha de leite, colocou num envelope do trabalho e deixou na portaria do prédio da namorada. Simples assim.
Não precisamos de diamantes, de mansões ou viagens ao redor do mundo. Um litro de leite (na hora certa) tá bom demais.

Roberto Carlos e Elas: Fãs no palco... e na plateia (foto de José Patrício/AE)
Mais uma vez apelo para o lado jornalístico-maternal de Helô Machado, que compareceu ao evento em homenagem aos 50 anos de carreira Roberto Carlos ontem à noite no Teatro Municipal, em São Paulo.
Divas cantam o Rei
Helô Machado
O Rei gostou tanto que quase chorou. Afinal, foi a primeira vez que, mesmo sendo Sua Majestada, Roberto Carlos dividiu o palco com 20 fãs (muito) conhecidas do público, ou melhor, 20 mulheres totalmente apaixonadas por ele. Melhor ainda, 20 cantoras brasileiras cantando os sucessos que ele angariou com justiça nos primeiros 50 anos de sua carreira.
O show 'Elas Cantam Roberto: Divas', promovido pela Rede Globo e parte do Projeto RC 50 Anos, teve renda totalmente revertida para a Américas Amigas, instituição de prevenção ao câncer de mama (a R$ 1.200 o convite, deve ter arrecadado uma bela soma). O evento reuniu no Teatro Municipal de São Paulo um público variado de celebridades, socialites, jovens, casais elegantes e, no palco, uma seleção de mulheres, cantoras e intérpretes dos mais variados estilos e preferências, unidas por uma característica unânime: a admiração pelo Rei.
Com a tradicional orquestra RC ao fundo e um cenário de módulos variados e brilhantes, digno de uma noite de estrelas, o desfile de cantoras - e de vestidos à moda de cada uma - foi espetacular. Como a lista é grande, aqui vai apenas um registro da performance de cada uma e a música escolhida:
Hebe Camargo (a maior estrela): 'Você Não Sabe'
Luiza Possi (a mais simplezinha): 'Canzone per Te'
Zizi Possi (a mais estilosa): 'Canzone per Te' e 'Proposta'
Alcione (a mais simpática): 'Sua Estupidez'
Fafá de Belém (a mais irreconhecível): 'Desabafo'
Celine Imbert (a mais nada a ver): 'À Distância'
Daniela Mercury (a mais convencida): 'Se Você Pensa' e 'Esqueça'
Wanderléa (a mais gata): 'Esqueça' e 'Você vai ser o meu Escândalo'
Rosemary (a mais elegante): 'Nossa Canção'
Fernanda Abreu (a mais descolada): 'Todos Estão Surdos'
Paula Toller (a com look mais jovem): 'As Curvas da Estrada de Santos'
Marília Pêra (a mais dramática): '120, 130, 150 por Hora'
Marina Lima (a mais certinha): Como Dois e Dois'
Sandy (a mais sem sal): 'As Canções que você fez pra mim'
Martinália (a mais na dela): 'Só você não sabe'
Adriana Calcanhoto (a mais meiga): 'Do Fundo do meu coração'
Cláudia Leite (a mais nada): 'Falando sério'
Nana Caymmi (a mais séria): 'Não se Esqueça de mim'
Ana Carolina (a mais aplaudida): 'Força Estranha'
Ivete Sangalo (a mais convencida parte 2): 'Os Botões da Blusa' e 'Olha'
Ao final, Roberto emplaca mais uma vez sozinho com as suas 'Emoções'. Público de pé. Ele emenda um emocionante 'Como é Grande o meu Amor por Você', com todas as Divas no palco, cada uma cantando um trecho com ele. Fecham-se as cortinas e se abrem novamente para o bis: 'É Preciso Saber Viver', com as 20 cantoras e... Sua Majestade.
Apesar do esforço tamanho e da belíssima homenagem às mulheres (e das mulheres), chega-se a uma conclusão rápida: ninguém canta Roberto Carlos como Roberto Carlos. Mas valeu. E se alguém duvidar do que foi dito aqui, que veja esta noite de gala na TV, no Especial da Globo, no próximo domingo, logo depois do Fantástico. Eu estarei lá. Roberto, espero ansiosa para ver as canções que você fez para mim. E para todas nós.
26.05.09

Nicole Kidman: A atriz foi a estrela de 'Os Outros'. O filme não tem nada a ver com fofoca, mas a Nicole tem tudo a ver comigo
Como todo grande primata urbano, adoro shopping center. Mas de uns tempos para cá, esse ex-templo voltado para o consumo virou apenas um lugar onde ficam salas de cinema, restaurantes e áreas com atrações infantis – pelo menos para mim.
Lembrei que o shopping é um lugar onde se faz compras na semana passada, quando encontrei umas amigas e descobri que as mulheres adoram se olhar no espelho e arrumar o cabelo quando estão experimentando... sapatos. Não me pergunte qual é a lógica por trás disso. Nunca entenderei como a decisão de comprar ou não um sapato está relacionada ao penteado da consumidora.
Mais tarde, já no restaurante, passei o almoço inteiro praticamente quieto, só ouvindo conversas que poderiam ser tiradas de qualquer episódio de Sex and the City. Como o mundo ficou parecido, não? Como as pessoas falam e desejam as mesmas coisas, não importa em qual grande metrópole do mundo elas vivem...
As pessoas, aliás, de uma maneira geral, conversam apenas sobre dois assuntos: a própria vida e a vida dos outros. Falar sobre a própria vida só é interessante quando a pessoa em questão é extraordinária; na maioria das vezes, o assunto dura pouco e fica restrito a fatos específicos de interesse geral. Agora, quando a conversa é sobre pessoas que não estão lá...
"Lembra daquele fulano da nossa classe? Pois é, acaba de se separar..."
"Sério? E ele tem filhos?"
"Ouvi falar que a mulher foi embora de casa."
"Não foi esse que viajou para Paris com a secretária?"
Todo mundo sempre tem uma informação adicional sobre o assunto em questão. E daí eu fiquei me perguntando: falar dos outros é fofoca? Ou só é fofoca quando falamos mal dos outros?
O costume faz parte da natureza humana – e não me refiro à brincadeira que fiz aqui outro dia (Mulheres fofocam; homens conversam). Falar sobre amigos em comum humaniza a conversa, traz essas pessoas para a mesa da gente. Às vezes rola uma maldade; confesso que até eu faço isso de vez em quando. Mas quando alguém 'traz' um amigo para o papo, geralmente é porque o personagem poderia estar ali, opinando e dividindo o assunto com a galera.
Estou sendo ingênuo? Estou esquecendo as milhares de pessoas que só se lembram dos amigos na hora de criticá-los? No dicionário Aurélio, a fofoca é definida como "difamação, murmuração, maldizer; dizer mal; blasfemar; falar mal de alguém". Que absurdo. Vou convidar o Aurélio para almoçar e provar que ele está completamente errado.
Felipe Machado é jornalista, músico e passa o dia tentando entender o que se passa na cabeça das mulheres
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