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08.02.10

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 12:46:27.

Steve Harris
Na última vez que esteve em São Paulo, Steve Harris, baixista do Iron Maiden, montou um time para jogar bola. Joguei contra ele, e posso dizer que o cara é o mestre do Rock & Roll F.C. Steve está agachado, com faixa na cabeça; eu sou o segundo, em pé, da dir. para a esq.

Passei o último fim de semana enfurnado em estádios de futebol. No sábado, vi o show do Metallica no Morumbi; no domingo, vi o show do Corinthians contra o Palmeiras no Pacaembu. Foi cansativo? Foi. Mas me diverti muito. E foi bastante interessante descobrir que há mais semelhanças entre roqueiros e torcedores do que imagina a nossa vã filosofia.

Para começar, são todos fanáticos, apaixonados. E levam suas paixões a sério, como religiões em que o palco e o campo são os altares.

Fazia um bom tempo que eu não ia a jogos no estádio, e confesso que tinha até esquecido alguns rituais. Na hora do gol que deu a vitória ao Corinthians, um cara ao meu lado, um desconhecido suado e sem camisa... me abraçou. Em circunstâncias normais de temperatura e pressão, eu teria empurrado o mano arquibancada abaixo dizendo que aquilo era coisa de boiola. Mas o mais inacreditável é que eu correspondi ao abraço, o que significa que eu devia estar tomado, sei lá, por algum espírito alvinegro. O cara me abraçou como irmão, e acho que naquele momento éramos mesmo irmãos, unidos por um laço familiar artificial e sensacional chamado Corinthians.

Não vi nenhum roqueiro se abraçando no show do Metallica, mas a catarse (adoro essa palavra) provocada pelo som foi semelhante à da vitória: mãos para o alto e gritos de guerra disfarçados de letras de músicas. Corintianos e 'metálicos' idolatram seus deuses, não importa se estão tocando guitarra ou correndo atrás de uma bola.

As músicas da torcida não têm a força das canções do Metallica, mas são bem mais divertidas. Minha favorita é: Aqui tem um bando de louco /Louco por ti Corinthians /Aqueles que acham que é pouco /Eu vivo por ti Corinthians /Eu canto até ficar rouco /Eu canto para te empurrar / Vamo, vamo, meu Timão /Não para de lutar.

Na minha opinião, a letra é um primor digno do Nobel de Literatura (preste atenção à 'liberdade criativa' na utilização da palavra vamo). Agora sério: há uma submissão ao amor linda, pura. Talvez eu estivesse meio sentimentalóide no dia do jogo, mas fiquei com vontade de chorar ao ver aquele povo todo cantando 'Eu vivo por ti, Corinthians'. Como explicar essa paixão? Como explicar a obsessão por algo tão abstrato, o distintivo de um time?

A paixão, aliás, é outro ponto de união entre torcidas e roqueiros. São impressionantes as tatuagens que alguns torcedores/fãs radicais têm de seus símbolos adorados, muitos deles cobrindo boa parte dos seus corpos. Dizem que futebol e rock & roll são só formas que inventamos para sublimar os problemas do dia a dia. Pode ser. Mas que são experiências maravilhosas, ah, isso são.

FM Arquibancada
Aqui tem um louco por ti, Corinthians

 


03.02.10

por Felipe Machado, Seção: Trilha Sonora 11:07:19.

James Hetfield

James Hetfield 2

James Hetfield 3

Fotos: Fernando Favoretto

Metallica, último capítulo:

No último domingo, antes do show, James Hetfield pilotou um Porsche 911 GT 3 Cup no autódromo de Interlagos. Como 'professor', ele teve Max Wilson, piloto consultor do Porsche GT3 Cup Challenge Brasil.

Também me pediram para publicar foto de algum pôster que decorava o camarim do Metallica em 1993; segue o cartaz que ficava na frente da sala onde funcionava o bar. Abs, F.

Segundo a assessoria, Hetfield definiu o Porsche como 'great!'. Mas pelo jeito, Hetfield é meio braço: enquanto pilotava, ele chegou a rodar na Curva do Lago. No box, Max ensinou o cantor a fazer a manobra do 'punta-tacco' (acelerar com o calcanhar e ao mesmo tempo frear com a ponta do pé), bastante usada pelos pilotos de competição. 'Muito bom! Agora eu sei o segredo!', disse Hetfield.

Foi a segunda vez que uma banda de rock dirigiu nesse esquema. Em 2009, foi a vez do Iron Maiden pilotar Porsches em Interlagos - incluindo o vocalista-piloto-de-avião Bruce Dickinson.

OBS. Um amigo me pediu para publicar um dos pôsteres que peguei do camarim do Metallica em 1993. Aqui vai: era a sala onde funcionava o bar. Whiplash!

Metallica Booze

 


02.02.10

por Felipe Machado, Seção: Qualquer nota 14:58:10.

Aqueronte - capa

Se há uma máquina que me impressiona pela complexidade, é o cérebro. Sou fascinado pelo seu funcionamento, pelas ligações nervosas de sua massa cinzenta (como diria Hercule Poirot), pelas incríveis cenas que a memória nos permite reviver quantas vezes desejamos.

Para interessados no assunto, no entanto, tão fascinantes quanto as maravilhas do cérebro são suas deficiências. Por que temos manias? Por que desenvolvemos síndromes de nomes esquisitos? Por que somos obcecados por determinados assuntos? Não estou falando apenas de problemas psiquiátricos, mas de coisas do dia-a-dia... por que não aceitamos a rejeição amorosa? Por que cada um de nós reage de maneira tão única diante de episódios semelhantes, que afetam todos os seres humanos? Por que sofremos por amor?

(Aliás, a forma como o amor atua sobre o cérebro deve ser uma das questões mais interessantes e inexplicáveis da história)

Não sei nenhuma dessas respostas, mas tenho uma amiga que pode apontar caminhos muito interessantes. Cláudia Belfort, editora-chefe do Jornal da Tarde, lança hoje, na Livraria Cultura do shopping Bourbon Pompéia, a partir das 19h30, 'Aqueronte, O Rio dos Infortúnios'.

'Aqueronte' é o rio dos infortúnios na mitologia grega. Era por ele que o barqueiro Caronte levava as almas até a margem onde estava o porto de Hades, o submundo dos mortos, o inferno guardado por Cérbero, o cão de três cabeças. Na 'Divina Comédia' de Dante Alighieri, Aqueronte, é o anteinferno, que faz fronteira com o inferno.

O livro de Cláudia reúne treze contos sobre pessoas loucas, excêntricas ou geniais, dependendo de quem as observa e as classifica. As histórias são fictícias, mas obtidas da experiência da autora com fatos reais. Clique aqui para conhecer o blog de Cláudia, 'Sinapses - A Mente Também Adoece'.

Mais informações sobre o livro, consulte o site da Editora Letras do Brasil.

 


01.02.10

por Felipe Machado, Seção: Trilha Sonora 14:18:21.

James Hetfield
James Hetfield é um dos grandes 'riff makers' da história do rock. Por essas e outras, eu queria ser esse cara

Foto: Leonardo Soares/AE

(A primeira parte do texto é sobre curiosidades e casos sobre o Metallica. Se quiser ler a crítica do show, desça até a segunda parte. Valeu, F.)

Primeira parte

A primeira vez que vi o Metallica ao vivo foi em 1989, quando a banda veio ao Brasil para divulgar o álbum '... And Justice for All' com um show no Ginásio do Ibirapuera. Na época, o Metallica ainda não era conhecido do grande público, mas já era motivo de fanatismo entre os headbangers.

É por isso que uma das lembranças que mais me remetem a essa época é a do meu amigo Edgard Prado levando o guitarrista James Hetfield em seu Uno para visitar a Woodstock Discos num sábado à tarde. O local, o maior reduto dos fãs de heavy metal em São Paulo, ficava lotado de gente trocando discos, vendendo revistas importadas, 'fazendo rolo' com broches e pins das suas bandas favoritas. Ao saber que James estava no carro, a multidão ficou alucinada e a solução foi voltar para o hotel. Sem conhecer a Woodstock, claro.

Em 1993, a situação era bem diferente. O VIPER era uma banda de sucesso, tínhamos acabado de lançar o disco ‘Evolution’ e nossas músicas tocavam nas rádios de rock e na MTV. Daí veio o convite para abrir os dois shows do Metallica no Parque Antártica. Foram os dois melhores dias da minha vida até então: o público não vaiou (até gostou, incrível!), gravamos um clipe e até conhecemos os caras.

'Evolution', gravado na abertura do show do Metallica (1993)


Os caras do Metallica foram muito simpáticos: nos convidaram para ir até o camarim e nos deram camisetas da turnê, bonés, ofereceram até umas cervejas (na época eles ainda bebiam, e muito). Fiquei impressionado com a estrutura do backstage, na época eu achava que camarim com espelho no banheiro era a coisa mais luxuosa do mundo. O camarim deles tinha sofás e aparelhos de TV dentro de cases, e aí entendi que eles viajavam com os móveis e toda a estrutura, justamente para montar exatamente o mesmo camarim não importava se eles estavam em São Paulo ou Timbuktu. Também me chamou a atenção o serviço de catering (alimentação) da banda: tudo do McDonald’s. Eles alegaram que era a única maneira de saber exatamente o que se estava comendo, não importava se eles estavam em São Paulo ou... sei lá, Timbuktu.

Aconteceu um episódio tão inusitado que sou obrigado que contar aqui, perdoe minha indiscrição. Quando nos encontramos com o Metallica, dei de presente ao Jason Newsted, então baixista da banda, uma camisa do VIPER pintada à mão, toda bonitona e exclusiva. Tinha esperança de que ele a usasse no show, já que Jason tinha fama de ajudar bandas novas. Ele não usou, enfim. E eu esqueci o assunto.

Uma semana depois, o VIPER foi fazer um show em Buenos Aires, na Argentina. O Metallica tinha tocado lá depois do show de São Paulo, então durante a tarde de autógrafos que fizemos muitos argentinos vieram nos falar sobre o show deles, etc. Na fila para os autógrafos, estava uma garota. Muito bonita, por sinal. E ela vestia exatamente a mesma camiseta que eu havia dado para o Jason Newsted.

Olhei para ela e achei muito esquisito, afinal, não era uma camiseta normal, que ela poderia ter comprado em qualquer loja de rock. Era exclusiva, pintada a mão, etc. Perguntei onde ela tinha comprado a camiseta; ela deu uma risadinha e mudou de assunto. Mas a garota era muito bonita, papo vai, papo vem, acabamos trocando telefones e saímos depois do show do VIPER. Resumindo a história, ela me contou que um roadie do Metallica havia dado de presente. Ou seja, olha só o caminho que a camiseta fez: Do artista que a pintou a mão para mim; de mim para o baixista do Metallica; do baixista do Metallica para um roadie qualquer; do roadie para a garota de Buenos Aires. Fiquei tentado a roubar de volta a camiseta, mas desisti. A argentina com certeza mereceu ficar com ela.

Segunda parte

Onze anos depois de tocar em São Paulo, o Metallica estava de volta. Não me lembro bem do show de 1999, acho que nem fui - embora tenha um amigo que garanta que fui com ele (tem certeza, Rodrigão?). De qualquer maneira, era a fase dos discos 'Load'/ 'Reload', os piores da carreira da banda. Havia uma certa 'bad vibe' ao redor do Metallica, algo que depois ficaria mais claro quando saiu o documentário 'Some Kind of Monster'. No filme, a banda contrata um psicólogo para lavar a roupa suja de drogas, álcool e a saída do Jason Newsted (olha ele aí de novo) da banda. A parte legal do documentário é a escolha do novo baixista, Robert Trujillo. Em um dos melhores momentos, eles chegam para o cara e dizem. "Olha só, a gente gostou do seu teste e quer que você entre na banda. E para mostrar que confiamos em você, aqui está um cheque de 1 milhão de dólares." Uau.

A expectativa para os shows da nova turnê, no entanto, não tinha nada a ver com esta fase. A banda voltou a lançar um disco muito bom, 'Death Magnetic', e parou com as drogas e a bebedeira. O vocalista/guitarrista James Hetfield, o guitarrista Kirk Hammett e o baterista Lars Ulrich (além do baixista Robert Trujillo) estão numa boa, mais amigos, mais focados no som do Metallica. E aí o show sempre rola melhor.

No sábado, às 18h, entrei no Salão Nobre do São Paulo (argh!) para a coletiva da banda. Chegam os quatro seríssimos, todos de óculos escuros, caras de mau e atitude de rockstar profissional. James é um troglodita, alto, fortão, inteiro tatuado. Kirk é um cara, digamos, 'mais sensível': faz ioga, estava de chinelo... deve ser vegetariano. Trujillo deve estar realizando o sonho da vida dele, então pra ele deve estar tudo ótimo. E Lars é o chatinho da banda, arrogante, irônico, mas bastante inteligente. Ele fundou o Metallica ao lado de James, então 'se acha' compulsivamente.

Veja matéria sobre a coletiva do Metallica na TV Estadão:

As perguntas dos jornalistas brasileiros não ajudaram muito, ficaram mais na 'expectativa para o show', etc. Tentei uma pergunta diferente: como eles conseguem mudar tanto de repertório de um show para o outro? Quantas músicas eles têm na manga? E como escolhem se uma vai entrar e a outra vai sair, baseado em quê?

Lars respondeu, com aquele jeitinho de quem se acha: "Temos de 60 a 70 músicas ensaiadas e as escolhemos baseadas na quantidade de shows na mesma cidade, no repertório que estamos a fim de tocar, até na direção do vento." Peraí. Na direção do vento, Lars? Então tá então.

Fim da coletiva, eles ganham discos de ouro (por 'Death Magnetic') e dupla-platina (pelo DVD 'Orgulho, Paixão e Glória', ao vivo no México, sensacional). E ganham camisas do São Paulo com os nomes bordados nas costas. Ainda bem que não usaram no show. Se pelo menos fosse do Corinthians...

O Sepultura entra para a abertura do show e toca um repertório até longo, cerca de uma hora. As músicas mais antigas são legais, como 'Dead Embrionic Cells' e 'Refuse/Resist', mas confesso que o novo repertório não me agrada muito, acho as músicas muito parecidas. Falta um pouco de comunicação entre o vocalista Derrick Green e o público, não sei se o fato de ele ser americano e ainda não dominar o português ainda pesa. Falar 'Sepultura do Brasil' com sotaque gringo não convence.

Hora do Metallica: as luzes se apagam e 'Heavy Metal Thunder', do Saxon, explode nos alto-falantes. O Saxon era uma bandinha meia boca dos anos 80, mas eles fizeram parte da New Wave of British Heavy Metal, escola de bandas inglesas (Iron Maiden, Samsom, Def Leppard, etc) onde o Metallica bebeu grande parte da sua influência.

No telão, cena de 'Três Homens em Conflito' (The Good, The Bad and The Ugly, com Clint Eastwood) ao som do maravilhoso épico 'Ecstasy of Gold’, de Enio Morriccone. É agora.

Metallica! Metallica! Metallica!

A primeira é 'Creeping Death', do disco 'Ride the Lightning'. Sensacional. O poder que o heavy metal tem de transformar em uníssono 68 mil vozes é impressionante. Se não estivesse em um show, daria medo ouvir tanta gente gritando 'Die! Die! Die!' (Morra!). Tem um componente do metal que é muito libertador, catártico, alucinante. Tem outro que é meio assustador, meio fascista até. As mãos para o alto obedecendo cegamente a quem está no palco, as palavras de ordem, o delírio. Ainda bem que as bandas de heavy metal geralmente têm boas intenções, ao contrário do que as pessoas 'de fora' pensam. É muito mais fácil você encontrar confusão em uma festa de rodeio do que em um show de heavy metal, apesar do arquétipo roqueiro ser muito mais, digamos, assustador.

(Para ler o relato de um fanático pelo Metallica, clique aqui e leia o blog do Anderson Bellini.)

James Hetfield cumpre bem esse papel de 'roqueiro do mal', já que tem os braços inteiros tatuados e passa o show inteiro fazendo caretas e cuspindo. Mas isso não é o mais importante nele. Além de ser fundador e compositor principal da banda, é incrível vê-lo tocando e cantando, porque os riffs de guitarra não tem nada a ver com a melodia da voz. Deixa ver se expliquei bem: é bem provável que James seja o cara mais coordenado do mundo. Se você não acredita em mim, tente aprender um riff do Metallica na guitarra (já é bastante complicado). E aí, cante em cima uma melodia totalmente diferente do riff. Se você considera assobiar e chupar cana ao mesmo tempo difícil, tente isso.

Outra coisa impressionante no Metallica é que o show deles é extremamente simples e focado na música. Há um telão gigante, sim, e uma plataforma para James Hetfield passear, bem em cima da bateria. Mas fora isso e os fogos de artifício, não há nada especial. É tudo muito básico, a banda inteira de preto, sem muitas luzes coloridas. A música é 100% do show.

Talvez seja por isso que o repertório é tão inacreditável. Para facilitar, vou fazer como os comentaristas esportivos (afinal o show foi no Morumbi, :-)

'Creeping Death'
Abertura delirante. Impossível ficar parado. 9

'For Whom the Bell Tolls'
Sombria e perfeita: 8

'The Four Horsemen'
Um dos melhores riffs de guitarra da história do rock: 9

'Harvester of Sorrow'
Meio arrastada, a única que poderia ficar de fora: 6

'Fade to Black'
Linda, maravilhosa. Quando quase 70 mil pessoas cantam a melodia de um solo de guitarra, pode ter certeza de que esse solo é incrível. 10

'This was Just your Life'
É a minha favorita do disco ‘Death Magnetic’. Pesada, épica, vocal meio punk. 8

'The End of the Line'
Boa música do disco novo, mas nada de tão sensacional. Preferia que eles tivessem tocado 'Cyanide'. 7

'The Day That Never Comes'
Outra boa do disco novo. Boa música, suingada e pesada. 8

'Sad but True'
Uma das minhas favoritas do disco preto. James dedicou essa música ao Sepultura, dizendo que o Brasil 'gosta de heavy'. Essa deve ser uma das músicas mais pesadas do mundo: pesada e com uma letra muito boa. 10

'Broken Beat Scarred'
A última do disco novo, já está bom. Legalzinha. Se fosse de qualquer outra banda de metal, ganharia nota 10. Como é do Metallica, ganha só 7

'One'
Sem palavras. Em vez de ser no final, os fogos de artifício foram no meio do show (como é que ninguém pensou nisso antes?). Linda, outro solo maravilhoso. A parte do meio é de arrepiar. Uma das melhores do show. 10

'Master of Puppets'
Quem acha que é fácil tocar heavy metal deve tentar tirar as guitarras dessa música. Não é a mais complicada do Metallica (há algumas realmente complexas), mas tem várias partes, mudanças de ritmo. Fora isso, é a música que batiza o melhor disco do Metallica. Pena que não tocaram ‘Battery’. 10

'Blackened'
Adoro essa música. É a música perfeita para abrir um show, um disco... na verdade, para abrir qualquer coisa: é só pôr essa música no volume 10 que até as portas do inferno se abrem. 9

'Nothing Else Matters'
A balada mais importante do Metallica. Não apenas porque ela é do disco preto e fez muito sucesso, mas porque ela explica didaticamente para os fãs que o Metallica faz o que quer, quando quer e a hora que quer. Eles são verdadeiros, honestos. E nada mais importa. Meu amigo Marco Bezzi vai ficar bravo (ele odeia a música), mas aqui vai a nota: 10

'Enter Sandman'
Até quem não gosta de heavy metal conhece essa música, ela tocou muito no início dos anos 90. Não tem o que dizer, é uma das melhores músicas da história do rock e a última do show (antes do bis). Estou ouvindo o refrão até agora, cantado pelo estádio inteiro “Exit, Light...”. 10

(Bis)

'Stone Cold Crazy'
O Metallica sempre volta para o bis com um cover. Dessa vez foi a música do Queen, outra banda que eu amo. A versão original já é super pesada, mas com o Metallica ficou um negócio de outro mundo. No domingo, eles tocaram 'Helpless', do Diamond Head. Em Porto Alegre, tinham tocado ‘Die, My Darling’, do Misfits. As três são legais, mas acho que dei sorte. A do Queen é a melhor delas. 9

'Motorbreath'
Em 1985, quando o VIPER começou, Motorbreath fazia parte do nosso repertório. É uma música tão rápida que tínhamos dificuldade em tocá-la na mesma velocidade do Metallica. Me levou de volta à adolescência, como grande parte do show, aliás. Ver um show do Metallica custou R$ 500 (pista VIP), R$ 250 (pista) e R$ 150 (arquibancada). Voltar à adolescência e gritar como um desesperado: não tem preço. 10

'Seek & Destroy'
Não tinha como acabar com outra, essa é a música mais clássica do Metallica. E é do primeiro disco, o fenomenal ‘Kill’em All’, de 1983. Já faz quase trinta anos, e a música é incrivelmente atual. Antes de começar, James até tirou um barato dos fãs:

"Vocês gostam dessa música?"
"Sim!!!"
"E por quê?"
(Público confuso)
"Eu sei porquê. Porque a letra é fácil!"

(Pô, James, não precisa humilhar, né?)

Bom, não sei se é só por isso, mas eu gosto, sim, dessa música. Muito: 10

O show acabou e muitos amigos meus decidiram voltar no dia seguinte. Eu acabei optando por outro show, Corinthians 1 X 0 Palmeiras, no Pacaembu. Mas passei o domingo lembrando do show do Metallica, de cada solo de guitarra, de cada virada de bateria do Lars. E não apenas porque meu ouvido continuava zumbindo: acho que é possível dividir a vida de todo mundo em fases musicais. Desde a minha adolesência, o Metallica está sempre presente. Cada fase é de um jeito, claro, mas acho legal constatar que mesmo megabandas de rock como o Metallica também têm suas fases. Suas vitórias, suas derrotas; suas 'bad vibes', suas 'good vibes'. No fundo, apesar da fama e do dinheiro, as pessoas são muito parecidas. E o Metallica é uma banda que dá orgulho de ser fã, porque eles são sempre verdadeiros, sempre honestos. E nada mais importa.

 


25.01.10

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 05:32:37.

Céu

Com seu jeitinho criativo e contemporâneo, a cantora Céu é a cara de São Paulo. Com uma diferença: Céu é muito mais bonita

Hoje é aniversário de São Paulo, mas muita gente acha que a cidade não merece festa. Motivos para os críticos não faltam: enchentes, trânsito e violência são as primeiras das várias razões que me vêm à cabeça. Mas permita-me discordar um pouco desse pessimismo e dizer com todas as letras: apesar dos problemas, eu amo São Paulo.

Claro que tudo isso me incomoda. Mas é justo criticar a cidade? Não seria mais honesto admitir que ela é o reflexo do que fazemos dela? Por mais que São Paulo esteja linda como 'personagem' da novela das sete, é bom lembrar que suas ruas são apenas o palco onde nós, cidadãos, encenamos nossos próprios dramas, alegrias, fracassos, sucessos.

Não, não esqueci dos nossos políticos ridículos e incompetentes, responsáveis por muitos desses problemas. Mas até nesse caso a culpa também é nossa: eles não chegaram lá por acaso; foram eleitos. Se as eleições fossem em janeiro em vez de outubro, os candidatos pensariam duas vezes antes de dizer tanta besteira.

Dito isso, peço que você guarde a raiva na gaveta por um momento e reflita. Você não acha que a culpa pelas enchentes também é do cara que joga lixo no bueiro ou das empresas que poluem o Tietê? E o trânsito, não fica pior graças ao preguiçoso que tira o carro da garagem até para ir à esquina ou dos ricos que compram outro carro para fugir do rodízio? E o que você acha da garotada (de todas as classes sociais) que usa drogas na balada e daí é assaltada e reclama da violência do tráfico?

São Paulo não tem culpa. Voltando à metáfora do início do texto: a culpa nunca é do palco, mas dos atores. E os atores somos nós.

Vi uma pesquisa que diz que 57% dos entrevistados deixariam São Paulo se pudessem. Não entendi a expressão 'se pudessem'. Quer dizer que são todos prisioneiros acorrentados aos pés de suas camas?

Quem quer ir embora de São Paulo, deve ir. Se eu quisesse uma vida mais fácil, com certeza me mudaria para o interior ou para a praia, sem problema nenhum. A verdade é que São Paulo não precisa de gente que odeia a cidade. São Paulo precisa de gente que quer fazer daqui o melhor lugar do mundo. Não só para nós, mas para nossos filhos. E se esses 57% de entrevistados deixassem mesmo a cidade, São Paulo ficaria como nas férias: mais vazia. E muito mais gostosa.

A minha São Paulo é maior do que os problemas que a afligem: é a cidade onde nasci, onde cresci, onde estão meus amigos e minha família. É por isso que eu te amo, São Paulo. Parabéns para nós, por termos você como palco das nossas vidas.

 


18.01.10

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 11:17:47.

AFP Photo/Mauricio Lima

Alessandra Ambrósio, Alessandra Ambrósio, Alesssandra Ambrósio: Escrevi o nome dela várias vezes porque assim meu texto aparece quando ela digitar o próprio nome no Google. Costumo publicar pelo menos uma foto da Alessandra Ambrósio toda vez que ela vem ao Brasil. E não só porque ela é linda: tenho a esperança de que a Alessandra leia meus textos e me mande um e-mail dizendo o quanto este blog é bom. Não sei por que, mas isso ainda não aconteceu

Todo ano, entre o réveillon e o carnaval, acontece o segundo evento que eu mais gosto do ano: a São Paulo Fashion Week / Inverno (o primeiro é a São Paulo Fashion Week / Verão, por razões óbvias – é a temporada em que ocorrem os desfiles de biquíni).

Sabe por que eu gosto tanto da Fashion Week, mesmo sem entender nada de moda? Porque a Bienal atinge altos índices de MBDM², o tradicional indicador que mede a quantidade de Mulheres-Bonitas-e-Descoladas-por-metro-quadrado.

A Fashion Week número 28, que começou ontem, tem como tema 'Linguagens'. Adoro quando escolhem palavras aleatórias e totalmente subjetivas que podem significar basicamente qualquer coisa. Moda pode ser considerada uma forma de linguagem? Tenho certeza de que pode, sim. Pena que, para mim, é como se fosse russo. E com sotaque em aramaico.

Se eu pudesse escolher uma linguagem para a moda, eu escolheria o braile, aquela leitura feita com as pontas dos dedos. Será que com o tato eu descobriria o que as modelos estão querendo dizer? Tentarei descobrir, mas não sei se os seguranças vão me deixar chegar tão perto. Eu não deixaria.

O primeiro desfile da temporada foi o da Cavalera. E o local foi perfeito para o estilo rock and roll que sempre esteve presente na marca: Galeria do Rock, no centro de São Paulo. Para completar o clima roqueiro, a trilha sonora foi feita pelo baterista Iggor Cavalera, ex-Sepultura, que tocou ao vivo versões percussivas-eletrônicas de clássicos como 'For Whom The Bells Tolls', do Metallica, e 'Sweet Child of Mine', do Guns 'N' Roses. Foi divertido ver modelos e gente fashion andando pelos corredores da Galeria, um lugar predominantemente masculino. Nunca vi tanta mulher na Galeria do Rock. Fica aqui a sugestão: as próprias marcas que já têm lojas poderiam fazer desfiles aos sábados para agitar o local. Pena que não chamaram a Raquel Zimmemann. A top brasileira é a mulher perfeita: linda, toca guitarra e gosta de rock and roll.

O ator Cauã Reymond já desfilou para a Colcci, mas acho que o público feminino está mesmo esperando o desfile do Jesus Luz. Posso ser ingênuo, mas não entendo por que tratam o Jesus Luz como se ele fosse, sei lá, Deus. Eu sei, em terra de apagão, quem tem Jesus Luz é rei. Mas aposto que se ele se chamasse Zé do Breu nem a Madonna ia querer papo.

Gisele Bündchen, infelizmente, não vem porque acaba de ter um filho. Mas acho que isso foi uma desculpa: mesmo grávida de nove meses a Gisele tinha menos barriga que eu – não que isso seja um elogio. Aliás, não é.

No lugar de Gisele, vem a 'anja' Alessandra Ambrósio. Além de ser ainda mais bonita, eu e a Alê (olha a intimidade) temos algo em comum: já jantamos juntos. Quer dizer, ela mordeu um pedaço de pizza e o deixou na mesa – eu comi o resto. Tecnicamente, isso é 'jantar juntos', não? Eu considero que sim. Pelo menos é o que vou contar para os meus netos.

Se em 2009 tivemos a top britânica Agyness Deyn, agora é a vez da holandesa Lara Stone. Não, ela não é parente da Sharon Stone. Mas eu não reclamaria se ela desse uma cruzada de pernas ao estilo 'Instinto Selvagem' no meio do desfile. Sonhar pode, né?

E moda é isso mesmo, sonho. Sei que está meio longe, mas sugiro que esse seja o tema da próxima edição da SPFW Verão: 'sonho'. Se alguém aceitar minha sugestão, exijo direitos autorais. E já tenho até pronto o título da matéria: 'Sonhos de uma Noite de Verão'. Mas não se preocupe: mesmo que essa noite esteja muito escura, eu prometo não chamar o Jesus Luz.

 


11.01.10

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 17:24:03.

Tony Soprano

Tony Soprano (James Gandolfini): A série 'Família Soprano' é a mistura perfeita entre 'Os Simpsons' e 'O Poderoso Chefão'

Tenho uma personalidade bastante compulsiva em relação a determinados assuntos. Quando me interesso por algo específico, me dedico ao tema de corpo e alma. Coitados dos amigos, que são obrigados a aguentar meus papos monotemáticos durante um bom tempo.

Não vou listar aqui os assuntos sobre os quais me debrucei nos últimos anos. Só digo que vão do estudo sociobiológico dos grandes primatas à vida do diretor Stanely Kubrick. Ou seja, qualquer coisa.

Minha mais nova obsessão é uma série de TV americana que terminou em 2007: Os Sopranos. Tenho ficado horas em frente à TV e estou até reduzindo o ritmo para não acabar rápido demais: são só seis temporadas, cerca de 80 horas de conteúdo. Muito pouco, infelizmente.

Embora oposta do ponto de vista estilístico, a série é, ao lado de Seinfeld, a melhor coisa que já se fez para a TV. Não é só o texto maravilhoso; o elenco é incrível, a direção é sensacional. Os personagens são inteligentes, os roteiros são bem amarrados. É uma 'dramédia', mistura perfeita de drama e comédia. E existe algo mais difícil do que equilibrar esses dois mundos? Eu achava que isso só era possível na vida real.

O criador da série se chama David Chase, e ele garante que se baseou em membros da própria família para criar a série. Chase, no entanto, diz que seus parentes não têm nenhuma ligação com a Máfia. Então tá. Na minha opinião, ele chegou para o presidente da HBO e fez uma proposta que ele não poderia recusar'.

Eu sei, o tema 'Máfia' agrada mais aos homens. Mas a série não é sobre violência. É sobre as contradições da vida, as motivações que nos movem e os valores que nos moldam, a complexidade da mente humana e suas consequências no cotidiano.

Os Sopranos são uma família de classe média alta de mafiosos que vive em Nova Jersey. O legal é que os personagens não são apenas os criminosos, mas também suas mulheres, filhos, mães... e eles têm que conviver com os problemas do dia a dia, como funcionários de baixo escalão que têm que ser 'demitidos' e coisas assim. Não há o glamour de O Poderoso Chefão (a não ser quando os hilários personagens fazem imitações dos colegas da família Corleone). Os Sopranos estão mais para os confusos criminosos de Os Bons Companheiros do que para os milionários de Coppola.

(Como diria Michael Corleone em 'O Poderoso Chefão 3': "Nunca odeie seus inimigos. Isso afeta o seu julgamento".)

Tony, o líder da família, é um personagem tão rico, tão multifacetado, que fico imaginando realmente se ele não existe. Ele não tem nada de maniqueísta: é violento com os inimigos e carinhoso com a família, como qualquer um de nós poderia ser (se fosse da Máfia). Faz análise para curar suas noites maldormidas – e acaba tendo pesadelos com a analista. É surpreendente constatar que, se estivéssemos em sua situação, provavelmente agiríamos da mesma maneira.

O instinto de sobrevivência a qualquer custo, a felicidade que vem com o sucesso, o amor incondicional pela família... No fundo, somos todos iguais. Alguns mais obcecados do que outros, mas isso já é uma outra história.

 


05.01.10

por Felipe Machado, Seção: Eu Queria Ser Esse Cara 19:08:27.

Richard Price/Ralph Gibson
Richard Price: O colega Dennis Lehane acha que ele é o melhor escritor de diálogos dos EUA. Quem sou eu para discutir?

Ao contrário da matemática, a literatura está longe de ser uma ciência exata. É por isso que, para gostar de um livro, pouco nos importa se o autor ganhou o Prêmio Nobel ou se ele foi considerado o melhor escritor do mundo pelo melhor crítico do mundo. O que nos toca, no sentido emocional – e até na influência sobre nossa capacidade de abstração do texto em si – é a linguagem. Gostamos de livros onde há uma identificação entre a narrativa do autor e a nossa forma de pensamento. É uma ligação muito próxima entre os olhos que correm as letras e o cérebro que as escreveu.

Escrever é ritmo, já disse alguém. E ler também, por consequência. Por isso acho tão importante encontrar autores com os quais me identifico, não apenas em termos de temática, mas principalmente em relação ao ritmo da narrativa.

Após esse início de texto chamado no jornalismo de 'nariz de cera' ('enrolação de linguiça' em português mais claro), pretendo falar sobre um dos livros que acabo de ler no feriado de início de ano: 'Vida Vadia', de Richard Price.

O tamanho assustou um pouco, já que é um tijolo de 500 páginas. Mas fiquei empolgado e o encarei porque li que a trama se passava em Manhattan, mais especificamente no Lower East Side, região onde fiquei hospedado recentemente durante minhas férias. O livro se passa numa época um pouco distante, levemente indefinida, provavelmente nos anos 80, quando a região ainda era um pouco detonada e o crime corria solto. Hoje Nova York é tão segura que mesmo nos locais citados no livro é difícil imaginar que havia uma degradação espalhada como uma metástase em um paciente terminal. 'Vida Vadia' é uma coleção de personagens ferrados, todos meio sem saída, presos a um dia a dia sem futuro e a um passado que seria melhor esquecer.

Voltando ao início do texto e à importância do ritmo no literatura, confesso que logo de cara achei a narrativa de Richard Price um pouco caricata e sem fluidez para um romance policial. Depois fui perceber que a culpa não era dele, mas minha, por ter lido a edição em português. Nada contra o excelente trabalho feito por Paulo Henriques Britto ou pela edição caprichada da editora Cia. Das Letras. O problema é da língua mesmo. Como traduzir what’s up, brother? sem cair no ridículo ou no, como se diz em português... fake? A expressão em português se tornaria algo como 'e aí, brother?' ou 'como estão as coisas, irmãozinho?', ou 'fala, mano?'... Ou seja, tão difícil traduzir 'Vida Vadia' para o português como seria traduzir, sei lá, 'O Invasor' ou 'Cidade de Deus' para o inglês. É possível, mas não é crível, com o perdão da rima.

Apesar desse problema inicial, depois de assimilado o ritmo, o livro engata uma segunda e fica bastante interessante. Violento, sujo, intenso, cortante são alguns dos adjetivos que eu poderia aplicar a ele. Os diálogos são sensacionais, como aponta o também famoso escritor Dennis Lehane na orelha: 'Richard Price é o maior escritor de diálogos, vivo ou morto, que este país jamais produziu. Maluco, profano, hilário e trágico, às vezes tudo isso numa única frase'.

Meio exagero, mas tudo bem... afinal, quem sou eu para discutir com o autor de ‘Sobre Meninos e Lobos’? O livro de Price, inclusive, também deve ir parar rapidinho nas telas: esse professor de Yale que cresceu no Bronx já escreveu 'Irmãos de Sangue', dirigido por Spike Lee em 1995, e séries como 'The Wire' (HBO). Antes, em 1986, havia escrito o roteiro de 'A Cor do Dinheiro', indicado ao Oscar pelo filme com Paul Newman e Tom Cruise, dirigido por Martin Scorsese.

É bem provável, portanto, que 'Vida Vadia' esteja em breve nas telas. A trama é simples, poderia ocupar bem menos papel. Mas Price gosta de passear por Nova York, ir e voltar aos lugares, como fazem os policiais de seus romances (e alguns criminosos também, já que ‘todo criminoso volta ao local do crime’). O livro é baseado na descrição de algumas histórias simultâneas (eu poderia usar a palavra 'cenas' com a mesma propriedade), todas decorrentes do assassinato de Ike Marcus. O jovem barman saía de um bar acompanhado por outros dois amigos quando foi morto após reagir a um assalto. Entram em cena a complicada família da vítima, os dois amigos que sobrevivem, dezenas de imigrantes ilegais, donos de bares 'risca-faca', bandidos de várias etnias (os adolescentes negros com medalhões no peito são tão reais que você acredita que eles vão brotar das páginas como hologramas para cantar um rap na sua cara), e, claro, os policiais (honestos e desonestos). 'Vida Vadia' é um livro sobre uma investigação policial; detalhado, vivo, elétrico, perigoso.

Apesar do livro ser longo, quando as letras The End surgiram ao final confesso que fiquei com aquele gostinho de 'quero mais'. Se não for transformado logo em filme, vou ter que esperar ansioso pelo próximo livro de Richard Price. Será que vem aí 'Vida Vadia 2'?

 


01.01.10

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 01:59:03.

Marjorie Estiano
Marjorie Estiano: Ela ganha um apelido novo todo réveillon

Mesmo que você não seja o maior fanático por tecnologia do mundo, tenho certeza de que passou 2009 ouvindo falar sobre Twitter, Facebook e outras novidades tecnológicas que adoramos odiar e, para falar a verdade, odiamos adorar.

Acabei me rendendo a praticamente todos eles, pelo menos para testá-los e descobrir quais são legais e quais vão desaparecer antes que você possa dizer algum velho ditado. Tudo depende, afinal, 'quem iPod, iPod'.

O meu favorito é o Twitter porque permite divulgar mensagens rápidas para um grande número de pessoas. Costumo usar o site para informar fatos jornalísticos com agilidade, mas confesso que, na maioria das vezes, uso mesmo para publicar frases divertidas. Como estamos na primeira coluna de 2010 e bom humor nunca é demais, separei algumas delas para dividir com você nesse início de ano. Vamos lá:

1.O cara é tão moderninho que o mapa astral dele foi feito com um aparelho de GPS.

2. Sabe como chamam o melhor amigo do cara que só bebe Campari? Campadri.

3. Não sei se ela pôs silicone, mas a Via Láctea da Miss Universo é sensacional.

4. Ricos não enchem a cara: fazem degustação.

5. O jogador de basquete chinês Sun Ming, de 2,36 metros, anunciou que vai lançar um livro de alto-ajuda.

6. O cara roncava tanto que os personagens do sonho não conseguiam conversar por causa do barulho.

7. Fernanda Young é do contra. Ela posou para a Playboy porque não quer ser apenas mais um rostinho feio na TV.

8. É correto dizer que todo personal trainer é uma pessoa física? E todo advogado, seria uma pessoa jurídica?

9. O mundo masculino se divide assim: Os homens nascem bebês, tornam-se garotos e, depois, crescem e viram adúlteros.

11. Desde hoje, o novo apelido da cantora Marjorie Estiano é Marjorie 2010.

12. O elevador deu um tranco meio forte e a mulher falou: "se o elevador cair, pelo menos não terei que trabalhar no fim de semana". Adoro gente positiva.

13. Os generais da ilha do Chipre são patriotas autoritários que passam o dia repetindo: 'Chipre é uma coisa que põem na sua cabeça'.

14. Meu gorro do Timão traz bordada na parte interna a inscrição 'Essa é uma touca por ti, Corinthians'.

15. Em Brasília, o último apaga a luz no fim do túnel.

16. A empresa que será criada para explorar o pré-sal vai se chamar Pré-Trobrás.

16. Tenho um amigo que não faz nada, bebe o dia inteiro. Mas ele só toma pinga, vive em lugares péssimos. Ou seja, é um mau-vivant.

17. Conheço um ator que é tão quebrado que o sonho dele em 2010 é interpretar papel-dinheiro.

Feliz 2010!

 


28.12.09

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 11:44:23.

Antes que você me ache maluco, eu digo que sim, eu sei que o Natal foi sexta-feira passada. Mas o que estou pedindo aqui não cabe no saco de nenhum velhinho barbudo. Para falar a verdade, não sou Papai Noel, mas eu é que estou de saco cheio das coisas que acontecem no Brasil.

Não, eu também não tenho a intenção de estragar seu réveillon. Nessa época costumo escrever sobre aquelas resoluções de fim de ano que a gente quase nunca consegue cumprir, como dedicar mais tempo à família ou ter uma vida mais saudável. Hoje, não. Se pudesse pedir um presente de fim de ano, eu queria o Brasil de volta.

Como assim? Alguém roubou o Brasil e ninguém ficou sabendo? Exatamente. 2010 é importante para todos nós, e não estou falando da torcida pela Seleção Brasileira na África. Copa do Mundo é a época em que os brasileiros adoram mostrar seu patriotismo. Estamos errados, veja só. A gente deveria mostrar que ama e se preocupa com o País no dia 3 de outubro.

O ano que começa daqui a alguns dias será marcado pela eleição para vários cargos, de presidente a deputados, em todo o País. Quero que os corruptos que tomaram os governos de todo o Brasil devolvam o País para as pessoas que trabalham, que pagam os impostos em dia, que lutam para ganhar um dinheiro honesto para sustentar suas famílias. Não dá para a gente continuar assistindo a essa gente debochada rindo da nossa cara, como se no Ordem e Progresso da bandeira estivesse escondido o complemento Ordem e Progresso – desde que esse progresso seja superfaturado e minha empresa toque a obra.

Esta é a última coluna do ano. Lutei para manter o bom humor mesmo vendo alguns escondendo dinheiro sujo na cueca e outros dizendo que fortunas não declaradas eram, na verdade, para comprar panetones para os pobres. Que caras legais, não? Dá orgulho de ser brasileiro e ver essa gente no poder, escolhidos ... por nós mesmos. Tivemos de aguentar até gente agradecendo a Deus na belíssima Oração da Corrupção. É demais.

Esse desabafo serve para a gente entrar em 2010 com o coração limpo, pensar bem em quem vai votar e tirar do poder quem está levando o Brasil para casa. O Brasil não é deles, por mais que pareça.

Um amigo brincou que em vez de Feliz Dois Mil e Dez a gente deveria dizer Feliz Dois Mil e Dez Por Cento. Eu não concordo. Eu não aceito. Esse papo de 'sou brasileiro, não desisto nunca' é uma besteira fatalista. Sou brasileiro, ponto final. Não preciso desistir de nada, não preciso nem pensar em desistência. Eu tenho um País maravilhoso. Só quero que ele seja um lugar melhor para mim e para a minha família. Espero que isso seja possível em 2010. Só depende da gente.

 


25.12.09

por Felipe Machado, Seção: Trilha Sonora, Top 10 15:45:48.


'I Gotta Feeling': A música do Black Eyed Peas é a síntese do pop perfeito

Para aproveitar que o ano acabou, que tal mais uma daquelas listinhas que todo mundo vai criticar? Tudo bem, acho que a função de fazer listas é exatamente essa: um olha e diz que não concorda com isso e aquilo; o outro tem certeza de que eu fiquei maluco; um terceiro reconhece que tem algumas coisas certas, mas a maioria é totalmente absurda.

Este não foi um ano muito bom para o rock. Não vi nada que me chamasse realmente a atenção no estilo. O disco do Arctic Monkeys foi legalzinho, o do U2 também. O Them Crooked Vultures veio como uma promessa, mas sabemos que é apenas um projeto sem muito futuro. Essa geração 'long tail' não tem produzido nada muito interessante, pelo menos em termos de artistas que ‘vão ficar’. Há muitas bandas em termos genéricos, mas quase nenhuma que você olha e fica com vontade de saber como eles vão estar soando no próximo disco.

Sem ficar enchendo lingüiça, aqui vai minha lista das melhores músicas de 2009. Não inclui nenhuma música brasileira porque acho que não dá para misturar maçãs com laranjas e porque reconheço que não ouvi o suficiente para emitir uma opinião justa. Portanto, estão aqui apenas artistas internacionais. Espero que você discorde. Numa boa, claro. E que 2010 seja melhor.

1. 'I Gotta Feeling' (Black Eyed Peas)
2. 'New Fang' (Them Crooked Vultures)
3. 'Empire State of Mind' (Jay-Z e Alicia Keys)
4. 'Moment of Surrender' (U2)
5. 'Crying Lightning' (Arctic Monkeys)
6. 'Just Dance' (Lady Gaga)
7. 'Wrong' (Depeche Mode)
8. 'We Are Golden' (Mika)
9. 'All is Love' (Karen O & The Kids)
10.'Your Decision' (Alice in Chains)

 


22.12.09

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 19:26:57.

Carla Bruni

Carla Bruni: O melhor amigo da primeira-dama francesa é um morador de rua. Estou pensando em me mudar para a Champs-Elysées

Na próxima quinta-feira é véspera de Natal, e mais uma vez me vejo obrigado a escrever sobre o tema. Já abordei nessa coluna vários assuntos ligados à data, desde os tios que ficam bêbados em reuniões familiares até a overdose de luzinhas espalhadas pela cidade, passando, claro, pelo sempre 'inédito' especial de fim de ano do Roberto Carlos.

Hoje resolvi falar de um tema que não é diretamente ligado ao Natal, mas que tem a ver com os sentimentos que tomam nossos corações durante essa semana especialmente repleta de emoções.

Acaba de sair pela Editora do Autor o livro 'Sempre às Terças', coletânea de crônicas bem-humoradas escritas por um grupo de amigos que se reúne no mesmo bar há mais de trinta anos. Entre eles está meu querido tio Reolando Silveira, que me presenteou com o livro. E daí veio a ideia: por que não tratar de amizade no tradicional texto sobre o Natal? Afinal, o Natal é um evento familiar... e os amigos são a família que a gente escolhe.

Nada mais valioso do que um amigo de verdade, alguém que você sabe que vai atender o telefone mesmo quando você ligar de porre às quatro da manhã para reclamar de tudo que te incomoda na vida (e coitada da mulher dele, aquela santa que é obrigada a aguentar os amigos do marido).

'A amizade é um comércio desinteressado entre semelhantes', disse o irlandês Oliver Goldsmith em mil setecentos e alguma coisa. Definição interessante. 'Comércio' pressupõe uma relação de compra e venda, de troca. E talvez seja isso mesmo que me atraiu nessa frase: nossos amigos têm algo que queremos, assim como temos algo que eles querem. Relações humanas são, sim, baseadas em interesses mútuos. Claro que estou falando de desejos subjetivos e interpessoais, não de algo vantajoso do ponto de vista material (a não ser numa amizade entre políticos, se é que você me entende).

Meus amigos, imagino, querem o que tenho de único, minha personalidade, minha experiência, minhas histórias. Pelo menos é isso o que busco neles: quero que sejam exatamente como são, essas pessoas maravilhosas e divertidas que eles são quando estão comigo.

Essa relação de 'parentesco-opcional' cai como uma luva (de Papai Noel) nessa época, porque o Natal é um bom momento para homenagear quem conviveu conosco o ano inteiro. É a hora em que aceitamos as pessoas queridas como elas são, com todas as suas qualidades, mas também com suas eventuais imperfeições e defeitos.

Feliz Natal para sua família de verdade e para essa outra da qual você também faz parte – por escolha. Aproveite que é Natal e lembre-se: não há presente melhor do que um amigo de verdade.

 


18.12.09

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 16:36:13.

Como a maioria dos homens, só me lembro que existe algo chamado 'par ou ímpar' quando estou disputando uma partida de futebol e alguém precisa decidir quem vai dar o pontapé inicial. Confesso que não tenho jogado muita bola (infelizmente), por isso, de uns tempos para cá, descobri que esse tradicional joguinho tem outra aplicação, bem mais abstrata: ele pode ser usado como metáfora do comportamento humano.

Sim, é isso mesmo que você leu. Não estou viajando, mas antes que você me acuse de ser o cara mais 'cabeça' do mundo, vou tentar explicar o que isso quer dizer.

Outro dia, só para variar, eu estava com dois amigos tomando uma cerveja na Vila Madalena. Um deles é um solteiro convicto; o outro é recém-separado. É claro que rolou a tradicional discussão sobre casamento, namoradas, etc. E aí o solteiro perguntou ao separado se ele já estava namorando alguém. Meu amigo respondeu que sim. E o solteiro retrucou, com sarcasmo: "Eu sabia, você tem isso no sangue". Antes de perguntar o que 'isso' queria dizer, me veio à cabeça a ideia de que algumas pessoas têm, sim, 'isso' no sangue. E outras, não.

Acho que meu amigo solteiro quis dizer que algumas pessoas foram feitas para viver acompanhadas, enquanto outras se dão melhor em um estado de solidão consciente. A partir disso, imaginei que o mundo poderia ser dividido em pessoas 'par' e pessoas 'ímpar'.

Pessoas 'par' não conseguem viver sozinhas. Precisam de alguém para se sentirem completas. Mal saem de um relacionamento, engatam outro, automaticamente. Dormir sozinho? Pesadelo na certa. Elas têm 'isso' no sangue, uma necessidade incontrolável de viver a dois.

Já as pessoas 'ímpar' não precisam de ninguém: elas se bastam. Algumas tentam viver acompanhados, mas desistem. Talvez seja falta de paciência, talvez seja apenas incapacidade de compartilhar a vida. A longo prazo, só aguentam a si mesmas.

Para o bem da humanidade, é bom que exista um número maior de 'pares' do que de 'ímpares', até porque isso garante a nossa preservação como espécie. Mas na prática temos que respeitar as decisões das pessoas. E eu arriscaria dizer que há uma outra metáfora aí: no par ou ímpar, assim como nos relacionamentos, nunca sabemos como o outro vai jogar.

Ganhar ou perder não depende só de você ou do outro 'jogador'. E é aí que a metáfora sobre o comportamento humano faz mais sentido: o resultado (no jogo, no relacionamento) depende da soma dos números que os jogadores colocam, certo? Ou seja, não importa se você é par ou ímpar... o jogo só existe quando há dois jogadores.

 


16.12.09

por Felipe Machado, Seção: Trilha Sonora 09:47:43.

Todo ano é a mesma coisa: filas nos shoppings, luzinhas nos prédios e especial de Natal do Roberto Carlos. De alguns anos para cá, uma outra coisa tem se repetido: a jornalista Helô Machado (o sobrenome igual não é mera coincidência, ela é minha mãe) vai ao show do Rei e escreve um texto para este blog.

Como sou muito apegado às tradições de Natal, em 2009 não poderia ser diferente.

Obrigado, Helô.

Bjs, F.

O presente de Natal é o mesmo. E a gente adora

Helô Machado

Quantas vezes você já viu o seu filme predileto? O preferido entre todos, aquele que só de lembrar você se emociona, chora, ri, quer ver de novo, a qualquer hora? E de preferência sozinho, para ninguém pôr defeito ou fazer um comentário ridículo bem naquela hora máxima, em que você está morrendo de emoção. Aquele filme que, para você, apenas para você, é uma verdadeira obra-prima? Aquela película – como estou antiga hoje! - que nenhum Oscar de ouro maciço cravejado de diamantes seria suficiente para premiá-lo em todas as categorias?

Você sabe bem do que eu estou falando. Quantas vezes você já viu 'o seu' filme? Aquela fita - nossa, estou antiga mesmo! - que parece ter sido feita somente para você? Várias vezes, claro.

Eu tinha uns 13 anos quando vi 'Melodia Imortal' pela primeira vez. E posso garantir que até hoje ele é 'o meu filme', o melhor da minha vida. Trata-se da história do brilhante pianista americano Eddie Duchin - na pele do belo ator (lindo mesmo) Tyrone Power - e da sua amada Marjorie, vivida pela igualmente linda Kim Novak.

Assisti a este filme nada mais nada menos do que quinze vezes. No cinema. Fora as vezes que vi o vídeo em casa, sem legendas, presente do meu filho Felipe, comprado no lugar onde ele nasceu: Hollywood. (O filme, não o Felipe.)

Em um só dia no cinema, assisti 'Melodia Imortal' nas sessões das duas, das quatro e das seis! E me lembro que cheguei em casa com um gostinho de 'quero mais'.

Mas confesso que já fazia um bom tempo que não me lembrava de 'Melodia Imortal'. A não ser quando alguém falava de filmes antigos, românticos ou comentava sobre a beleza dos artistas de cinema, de qualquer época... Ou ainda quando eu ouvia alguma música do filme: 'Noturno', de Chopin, ou 'Manhattan', por exemplo. Se fosse ao piano, então, a imortalidade do 'Melodia' revivia...

Nesta terça-feira, sem Tyrone, Novak, sem Nova York ou o cassino do Central Park do meu festejado filme, sem a menor nostalgia, em pleno Ginásio do Ibirapuera lotado na São Paulo de trânsito engarrafado, eu me lembrei de 'Melodia Imortal'. Ou do que ele representou e representa na minha vida, apesar do tempo.

Diante de uma platéia absolutamente lotada e ansiosa, me dei conta de que todas aquelas pessoas estavam ali para ver e rever e ver novamente, mais uma vez, o que já viram dezenas de vezes, como se assistissem felizes ao mesmo filme, com pouca variação de figurinos e do avanço da tecnologia: o show de fim de ano de Roberto Carlos.

As mesmas músicas, as mesmíssimas frases, o mesmo sorriso tímido, as mesmas rosas brancas e vermelhas, entregues para o público no final do espetáculo, a mesma orquestra afiada com os mesmos músicos, o mesmo maestro e uma orquestra de cordas, que também já é a mesma - uma vez que já foi incluída em diversas apresentações do Rei. De novidade, apenas as presenças de Ana Carolina, do cantor Daniel, do grupo Calcinha Preta - que Roberto chamaria de Calcinha Azul - com o seu sucesso em 'Caminho das Índias' e da própria protagonista ou musa deste sucesso: a atriz Dira Paes, a Norminha da novela, que, linda num vestido azul (para agradar o Rei), deu um show cantando com Roberto.

Mesmo assim, os convidados artistas, todos súditos-fãs de Sua Majestade Roberto Carlos, são apenas detalhes deste e de todos os especiais, que encerram o ano com o cantor. A gravação do show desta terça, presente de Natal que a Globo oferecerá aos seus telespectadores na noite de 25 de dezembro, não foi diferente... mas foi especialíssima.

A gente já sabe de cor o que vai ver, mas parece sempre que é a primeira vez. A orquestra toca uma seleção de seus sucessos, as luzes vermelhas e brancas que piscam sem parar mudam de cor: azul, claro! Luz, mais luz! Seguem-se os primeiros acordes de 'Emoções'. A mesma voz masculina de todos os shows do cantor anuncia pausadamente: "Senhoras e senhores, com vocês, Roberto Carlos!

Aplausos, gritos, sussurros. Ele surge de mansinho do fundo do palco do mesmo jeito. Terno azul claro sem gola, ombreiras grandes, camisa estampada de azul clarinho, tênis branco de solado alto. A gente aplaude, se emociona por vê-lo ali. Já sabe o que ele vai dizer, mas ri e aplaude como se ele fizesse uma surpresa. Como se ele fosse uma surpresa.

Há 50 anos é assim. Desse mesmo jeito. Muitas emoções, apesar do cabelo um pouco mais curto, das risadinhas mais contidas e do rosto um pouco abatido. Talvez a coluna ainda incomode um pouco o Rei. Ele teve de adiar o show de quinta=feira para ontem... Mas ele é um artista. 'O' artista. E o show tem que continuar. "Olha aqui, presta atenção: nas curvas da estrada de Santos, além do horizonte, é proibido fumar. Como vai você? No fundo do meu coração, eu te amo, te amo, te amo. Olha: as jovens tardes de domingo. Outra vez, cama e mesa, eu amo demais a mulher que eu amo... Como é grande o meu amor por você... A namoradinha de um amigo meu, eu te proponho: se o bem ou o mal existem, é preciso saber viver."

"Ainda somos os mesmos. E vivemos como nossos pais... Os mais velhos poderão filosofar sobre os versos de Belchior... Mas depois de duas horas, 'Jesus Cristo' avisa que o show já está no fim. E, como num ritual religioso, as rosas são beijadas por Sua Majestade, uma a uma, e entregues com carinho (e muita calma nesta hora) às mãos mais fervorosas. Um monte de flores. Mas poucas, muito poucas para tantas mãos agitadas.

Roberto caminha para o fundo do palco e desaparece. A multidão sorridente vai deixando vagarosamente o ginásio. Sem pressa de ir embora. A ansiedade da entrada se transforma em estado Zen na saída. Todos parecem ter entrado em alfa: aparentam calma, serenidade. Muitos até se despedem dos seguranças, como se fossem amigos de fé, irmãos camaradas... Polícia? Para quê, se o clima é só de amor e cumplicidade?

Já vi este filme. E adorei! Que bom se a vida fosse sempre assim... Na rua, alguns ainda cantam baixinho o refrão da última música do show: 'Jesus Cristo, eu estou aqui'. De novo e mais uma vez, estivemos aqui. E, com certeza, voltaremos. Se Deus quiser.

 


14.12.09

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 11:45:18.

Moranguinho
Eu queria fazer uma festinha com o tema 'Heavy Metal Kids' para minha filha, mas ela exigiu a Moranguinho

No dia 7 de novembro, os roqueiros de São Paulo puderam optar entre dois festivais: Iggy Pop e Sonic Youth em um palco, Faith No More e Deftones em outro. Nesse mesmo sábado, também assisti a dois shows, embora um pouquinho diferentes: a peça Charlie & Lola de manhã, o musical da Pucca à tarde. E com direito a batatas fritas com milk-shake de morango entre um e outro.

Se você acha que fiquei chateado por ter trocado dois megashows de rock por dois espetáculos infantis, você não me conhece. (Prazer, Felipe Machado). Na verdade, há poucos programas no mundo melhores do que passar o dia com minha filha.

Hoje ela faz três anos. E não passa um dia sem que eu acorde cada vez mais apaixonado. É um sentimento diferente daquele que tomava meu coração na época do seu nascimento. Acho que o amor de um pai se transforma e evolui organicamente, da mesma maneira que o pequeno corpo dela cresce e seu pequeno cérebro se torna mais complexo.

Todo dia aprendo alguma coisa nova sobre minha filha – e tenho a impressão de que ela também. Adoro quando ela vem me mostrar suas recém-adquiridas habilidades ('papai, olha o que eu sei fazer'); chego a chorar de emoção quando a vejo pronunciar com certa insegurança uma palavrinha nova. Ela já tem uma voz, a voz dela. E é o máximo quando essa voz começa a me contar uma história, baseada nas ilustrações de algum livro. Nem sempre a trama entre os personagens tem muita lógica, mas, para mim, é melhor que qualquer texto de Shakespeare.

Dizem que eu a 'mimo' muito. E eu lá tenho alternativa diante de tanta fofura? O corpinho dela vai parar de crescer em algum momento de sua ainda distante adolescência, mas meu amor não vai parar de crescer nunca.

Três anos. Uau. Se você me permite um clichê ('mais um, Felipe?'), o tempo passa muito rápido. Mas os clichês são clichês exatamente porque são verdadeiros, não? Ontem ela estava na maternidade; hoje já exige festa da Moranguinho e pizza com azeitonas nas noites de domingo. O que será no ano que vem? Não, não quero saber, deixa eu aproveitar minha bebê mais um pouco. Se existe concurso de 'pai mais coruja do mundo', considere este texto a minha inscrição.

Minha filha está se tornando uma pessoa, e assistir a isso é mágico. Quem ela será quando crescer e se tornar uma garota, uma mulher? Não sei. Esse é o mistério da vida. Mas há um elemento da sua personalidade que começa a aparecer agora e que será uma característica só dela, incrivelmente única. A vida é assim. Mais do que minha filha, ela será... ela.

Parabéns, Bebel. Papai ama você mais do que tudo.

 


08.12.09

por Felipe Machado, Seção: Top 10 19:43:23.

L.C.LEITE /AE
Dave Grohl: O cara foi baterista do Nirvana, canta e toca guitarra no Foo Fighters e ainda encontra tempo para fazer shows com um projeto com o ex-baixista do Led Zeppelin. Dave Grohl é demais

Eleger os ‘melhores do ano’ antes do ano acabar é arriscado. Mas quem disse que não devemos arriscar na vida? A revista Rolling Stone escolheu o premiê italiano Silvio Berlusconi como ‘Rockstar do Ano’. Acho meio forçado escolher um cara fora do meio musical, por isso aqui vai uma lista dos Top 10 Rockstars de 2009:

1. Michael Jackson. Atolado em dívidas e decadente, ele anunciou a volta por cima em uma turnê monstruosa, morreu de overdose antes do primeiro show, voltou a vender milhões de discos, lançou um filme sobre seus últimos dias... se isso não é o roteiro perfeito para a vida de um rockstar, então eu não sei o que um rockstar é.

2. Lady Gaga. Fazia tempo que não aparecia uma cantora tão talentosa, barulhenta e divertida. Ela compõe, toca piano superbem e canta melhor que Amy Winehouse – e nem precisa ser pega com drogas para aparecer na mídia. A sucessora de Madonna vai a festas vestindo maiô e salto plataforma e inventou que era hermafrodita só para ser deixada em paz. Teve gente que acreditou, uau. Se quiser votar na cantora ou cantor da década, clique aqui.

3. Angus Young. Se você foi ao show do AC/DC, nem preciso explicar porque ele está aqui. O cara detona nos palcos há 36 anos. Imagina quando tirar a roupa da escola.

4. Dave Grohl. O cara foi batera do Nirvana, é vocal e guitarrista do Foo Fighters... e agora voltou a detonar a bateria no Them Crooked Vultures, dividindo o palco ‘apenas’ com John Paul Jones, ex-baixista do Led Zeppelin. Se você quiser votar na melhor banda da década, clique aqui.

5. Bono. Qualquer lista de rockstars desde 1980 tem de incluir o Bono. Tudo bem, sou suspeito porque sou fã do cara. Mas a nova turnê do U2 é a maior da história e, mesmo assim, ele ainda encontra tempo para salvar o Planeta. É o Super-Bono.

6. Paul McCartney. Paul fez turnê nos EUA, lançou disco ao vivo, ajudou a elaborar o videogame Rock Band e relançou a coleção completa dos Beatles. Paul é Paul, o resto é Rolling Stones.

7. Mika. Se tem alguém que merece pegar o cetro de Freddie Mercury (sem malícia, por favor), é ele. Mika é um dos artistas mais talentosos dos últimos tempos.

8. Scarlett Johansson. A gata de 25 aninhos é uma atriz maravilhosa (em todos os sentidos, inclusive nesses que você está pensando). Como cantora, já lançou dois disquinhos bem legais.

9. Billy Corgan. O líder do Smashing Pumpkins é o autor da frase do ano. Perguntado sobre o que ele achava do videogame Guitar Hero, respondeu: “Você não joga Guitar Hero quando você É um Guitar Hero”. É isso aí, Billy.

10. Ronaldo. Ele está mais para samba do que para rock. Mas se a Rolling Stone pode escolher o idiota do Berlusconi como Rockstar, eu posso escolher o Fenômeno, certo? Timão, ê ô!

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06.12.09

por Felipe Machado, Seção: Palavra de Homem 22:08:22.

REUTERS/Alessandro Garofalo
Silvio Berlusconi: O premiê italiano também está atolado em escândalos até o pescoço, mas tem algo melhor do que os políticos brasileiros: está bem longe daqui

Cena 1. Brasília, apartamento funcional. O político chega em casa de madrugada e encontra a mulher esperando no sofá.

“Hummmm, oi, querida... Acordada a essa hora?”

“É. Onde o senhor estava?”

“Eu? Você está falando comigo? Eu? Bom... É, eu estava numa reuniãozinha...”

“Até as 6 da manhã?”

“Nossa, já é tarde assim? Nem olhei no relógio...”

“Deu na TV, Sérgio. Todo mundo viu. Minha mãe, nossos filhos, os vizinhos.”

“Mas como? Isso é impossível! Me garantiram que o local era 100% seguro!”

“Pelo jeito não era, né? Pode se preparar: daqui a pouco essa sua cara de pau estará estampada na primeira página de todos os jornais do País.”

“Isso é um absurdo! É tudo culpa da imprensa! Precisamos acabar com esse poder deles! É armação da oposição para acabar com a moralização que estou fazendo!”

“Sérgio, para cima de mim? Moralização, você? Tem vídeo, Sérgio! Tem você falando no vídeo, tem você dando risada... era do que, da minha cara, Sérgio?”

“Não, querida, não fala uma coisa dessas. Você sabe que eu te amo...”

“Eu te amo o escambau! E agora? Como é que a gente vai sair na rua? Como é que você deixou isso acontecer?”

“Mas é tudo mentira, eu juro! A fita foi editada para parecer que o cara era eu! Eles fazem isso, é tecnologia! Eu tenho álibi! Pode ligar para o partido, eu estava lá no momento que alegam ter filmado essa história!”

“Sérgio, não fala besteira, por favor. Você nem sabe quando fizeram esse vídeo.”

“Não sei mesmo, admito. Mas tenho certeza absoluta de que estava em outro lugar naquela maldita hora!”

“Vamos ter que tirar as crianças da escola, mudar de cidade, de país, de vida. Acabou, Sérgio. Acabou.”

“Mas não pode ser. Eu sempre fui um homem de bem. Não era eu nesse vídeo, era outro homem. Sei lá, talvez eu possa alegar múltipla personalidade!”

“Não tem jeito. Eles filmaram você pegando o dinheiro e colocando nos bolsos, Sérgio. Maços e maços de notas. Você vai falar que aquele dinheiro era para quê? Para comprar panetone? Isso é pior do que acreditar em Papai Noel!”

“Peraí. Do que você está falando. Dinheiro? É isso? Eles me filmaram pegando dinheiro de propina?

“É, Sérgio. Acabou.”

“Yupiii! Ha ha ha! Ufa!”

“Como assim, ‘ufa’? Ficou maluco, Sérgio?”

“Ah, querida. Não precisa se preocupar. Aqui é o Brasil, lembra? Não vai acontecer nada. Que alívio, pensei que tinham me filmado saindo do motel com a Sandrinha, secretária do...”

“Como é que é? Quem é Sandrinha, Sérgio? Fala!”

“Ihh, falei demais... Não é nada, querida! Juro que lá no motel também não era eu!”

 


04.12.09

por Felipe Machado, Seção: Borracharia 19:26:14.

Marcio Fernandes/AE

Ela está entre nós. A tenista russa Maria Sharapova esteve hoje em São Paulo e vai participar amanhã de uma partida de exibição contra Gisela Dulko em Porto Feliz, interior do Estado. A russa é a minha tenista favorita, embora, para falar a verdade, eu nunca tenha visto ela jogar.

Sharapova, que já foi campeã de Wimbledon, tenta voltar ao topo do ranking - ao topo do meu ranking ela nunca saiu. Decidi que não assistirei a partida ao vivo porque acho que meu coração não aguentaria. Talvez seja também porque não tenho convite. Mas verei a minha querida Sharapovinha no canal SporTV às 11h30.

Para terminar, gostaria de te deixar uma mensagem em russo:

Я люблю Шарапова. Я люблю играть в теннис с вами дома, когда вы принимаете?
Большой поклонник Kiss, Фелипе Мачадо

 


30.11.09

por Felipe Machado, Seção: Trilha Sonora 18:03:01.

AC/DC por Marcelo Rossi
Uma homenagem do AC/DC às groupies gordinhas: 'Whole Lotta Rosie' montada no 'Rock and Roll Train'. Fotos de Marcelo Rossi

Conheço o AC/DC há anos, mas o show de sexta-feira foi uma surpresa para mim. Mesmo sabendo que 'Black Ice' era o disco mais vendido do ano e que a turnê dos australianos só era menos lucrativa que a do U2 e Madonna, eu ainda achava que seria apenas um show a mais. Quanta ignorância (minha).

Confesso que o AC/DC nunca foi a 'minha' banda. Eu preferia Led Zeppelin, Beatles, Queen. Achava o AC/DC muito simples, simplista. Meio raso. Mas o AC/DC ao vivo é uma coisa tão sensacional que fiquei sem palavras. Eu, que achava o show do Kiss ao coisa mais incrível do rock and roll, vi que o AC/DC deu de 100 a zero.

Vamos começar pelo palco: enquanto todo mundo está investindo em telões, ou seja, imagens maravilhosas em 3D, etc, o AC/DC coloca uma locomotiva gigante soltando fogo e fumaça. Não é modo de dizer: era uma locomotiva gigante mesmo no palco logo na introdução do show, com 'Rock and Roll Train', do disco novo. E daí você tem uma ideia do que é um show do AC/DC. Em 'Hell's Bells', um sino enorme desce no palco e aí, novamente, há o impacto de uma coisa verdadeira, não de uma imagem em um telão. Em 'Whole Lotta Rosie', uma boneca inflável gigantesca monta no trem e faz uma homenagem às groupies gordinhas (sim, macho que é macho não liga se a mulher é gordinha). Sem esquecer, claro, os canhões em 'For Those About to Rock', explodindo a cada refrão como uma bomba de rock and roll (o clichê é intencional).

É tudo muito orgânico, verdadeiro, vintage. Não há bullshit, para usar uma expressão em português. Há tecnologia, sim, como luzes e telões de alta definição. Mas o principal ali é o som, perfeito e altíssimo, e o culto à guitarra e, por consequência (ou por intenção mesmo) a Angus Young. Ele não é apenas um cara que agita tanto quanto Mick Jagger (ou mais). Ele é um dos melhores guitarristas da atualidade (há 36 anos, diga-se de passagem). Eu achava que Angus era um bom guitarrista de blues rock, com riffs vigorosos e solos memoráveis. Mas ele é mais que isso: ele toca muito, muito. Toca rápido quando é preciso, abusa dos licks de blues na sua tradicional guitarra Gibson SG quando a música urge. E faz isso não apenas uma pequena parte do show: ele toca duas horas de solos incendiários (o clichê é intencional). Quando ele mostra os chifrinhos em 'Highway to Hell', dá para acreditar que o cara tem um pacto com o capeta. Em 'The Jack', ele faz um strip tease e, na hora de mostrar a bunda, revela uma cueca com o logotipo do AC/DC. Agora me diz uma coisa: quantos caras podem fazer isso em um estádio de 70 mil pessoas sem serem apedrejados? Pois o público idolatra Angus. E com razão. O cara é demais.

Lembrando, claro, que Angus tem 54. Se eu fosse dono de academia, criaria o workout 'Angus', que consistiria no seguinte: você corre com uma guitarra no ombro durante uma hora e meia batendo a perninha como Chuck Berry e balançando a cabeça. Tudo isso vestindo um terno e gravata. Quando você estiver encharcado de suor, você tira a camisa e faz isso por mais meia hora. Daí você se joga no chão e roda, sem parar. Daí você pula algumas vezes. Faça isso a cada três dias. Durante 36 anos.

O resto da banda vale apenas porque eles são do AC/DC. Malcolm Young, irmão de Angus, é um bom guitarra base, mas também vamos ser justos. Ele não toca nada de mais. Cliff Williams é um baixista OK, assim como o baterista Phil Rudd (lembro que nos discos o Phil Rudd era tão limitado e sem criatividade que a gente chamava ele de 'Phil Ruim'.)

Quanto ao vocalista Brian Johnson, permita-me dedicar um parágrafo à parte. É um caso raríssimo de vocalista de banda de rock que não sofre de egolatria. Ele entrou na banda após a morte de Bom Scott por overdose causada pelo próprio vômito (ele engasgou após dormir uma noite bêbado no banco de trás de um carro; dizem também que ele morreu de frio porque estava sem camisa em um inverno europeu daqueles). Isso aconteceu em 1980, e até hoje chamam Brian de ‘o vocalista novo do AC/DC’. E o pior é que ele não parece estar nem aí para isso. Ele não parece estar aí para nada, inclusive para o seu próprio visual. Brian Johnson deve ser, de longe, o cara mais feio do rock. Ele ainda se veste com um caminhoneiro de quinta categoria, com um bonezinho ridículo e uma camisa com as mangas cortadinhas. Ele parece um cara que cantava no bar da frente do Morumbi e chamaram para dar uma canja porque o vocalista titular não apareceu. Sua voz é tão esganiçada que não sei nem se podemos chamar de voz. E, no entanto, ele é perfeito para o AC/DC. Ele é tosco e verdadeiro; ele é autêntico e fala a linguagem de seu público. Ele é popular, mas não populista. Ele é simplão mesmo. Suas letras são clichês puros. E o público quer exatamente isso: algo que seja previsível, confiável. Brian Johnson é um tipo de presidente do sindicato dos roqueiros - e essa analogia que você está fazendo não é culpa minha.

Os fãs do AC/DC não querem comprar um disco e descobrir que a banda 'está misturando ritmos eletrônicos' ou 'incorporando novos elementos ao seu som'. Não. De jeito nenhum. Eles querem o AC/DC de sempre: Angus com os riffs exatamente iguaizinhos ao primeiro disco 'TNT', de 1975; e Brian esganiçado como um corvo inglês. Imagine se o AC/DC gravaria uma canção chamada 'Onde as Ruas não tem Nome'. Nunca. "Como assim, 'as ruas não têm nome', cara? É só olhar na placa, seu idiota", diriam.

Os títulos das músicas do AC/DC, aliás, são tão clichês quanto todo o resto (e isso não é uma crítica): se não tem 'rock and roll', tem 'hell' ou alguma outra coisa do tipo. Se trocar os nomes, inclusive, não faz a menor diferença: 'Rock and Roll Train' e 'Hell’s Bells'’ poderiam facilmente ser 'Hell Train’ ou 'Rock and Roll Bell', certo? E 'Highway to Hell' poderia ser 'Highway to Rock and Roll', não? Isso não importa nem um pouco, aliás. Do contrário, como explicar 70 mil pessoas cantando alegremente 'Estou na auto-estrada para o inferno'’…?

Só sei que o AC/DC provou que são a banda de rock mais poderosa do mundo. O U2 mesmo já assumiu que pode ser uma banda de pop em alguns discos, assim como os Rolling Stones já lançaram 'Emotional Rescue'. Com o AC/DC não tem essa de balada com violãozinho, não tem sons pré-gravados, nem 'climas'. Tem uma influência de blues, mas o lance todo é o rock and roll puro, visceral e no volume mais alto possível. O clichê é intencional, sim. Graças aos deuses do rock and roll.

AC/DC foto de Marcelo Rossi

 


23.11.09

por Felipe Machado, Seção: Trilha Sonora 13:53:29.


'When You Were Young': Não é estranho um cara escrever uma música chamada 'Quando Éramos Jovens' aos 22 anos? Brandon Flowers é talentoso, mas esquisito

Antes de falar sobre o ótimo show do The Killers, um pequeno comentário sobre o Chiqueiro do Jockey, quer dizer, a Chácara do Jockey.

Já reclamei aqui que uma cidade como São Paulo, que já entrou definitivamente para o circuito das turnês internacionais, merece lugares de show melhores do que temos hoje. O Chiqueiro do Jockey, quer dizer, a Chácara do Jockey não é um lugar tão ruim. Tudo bem, é longe e o trânsito infernal dificulta o acesso. Mas o som normalmente é muito bom, o local é bonito e lembra aqueles tradicionais festivais do verão britânico. A Pista Premium permite uma excelente visualização dos shows; os banheiros são em número suficiente. As áreas de alimentação são OK, assim como os bares e serviços essenciais (postos médicos, etc). O que estraga tudo mesmo é a chuva.

Chuva não é culpa da organização; o que é culpa, sim, é tratar um público que pagou de R$ 200 a R$ 350 como porcos. Por que os shows em estádios têm uma cobertura sobre o gramado? Porque os estádios obrigam a produção a fazer isso, justamente para não destruir o campo. No Chiqueiro do Jockey, quer dizer, na Chácara do Jockey não tinha cobertura nenhuma sobre a grama. Ou seja, a grama molhada e mal cortada vira um lamaçal nojento. Repito: isso não é maneira de tratar quem paga R$ 350 por um ingresso. Não adianta dizer que o preço do ingresso no Brasil é barato e a cobertura inviabilizaria a produção. Não é barato e os shows em estádio têm isso. E R$ 350 é um ingresso caro em qualquer lugar do mundo. É um absurdo, a produção TEM que colocar placas de borracha ou tapumes de madeira sobre a área onde fica a maior parte do público. Se eles colocam esse material em estádios, por que não no Jockey? Só porque o Jockey não obriga a fazer isso? Mas isso deveria estar no custo da produção desde o início, assim como banheiros químicos, ambulância... Custa mais para a produção? Custa. Mas tem que ser feito. Não é possível ver essa falta de respeito com quem paga tão caro para ver um show. Não estamos mais na época de Woodstock, caramba.

Agora ao The Killers: Eles são sensacionais. Vi a banda ao vivo pela primeira em 2006, em um show no Madison Square Garden, em Nova York. Foi muito bom ter visto uma banda decolando, no exato momento em que ela se transformava em uma das maiores do mundo. Não é segredo para ninguém que a turma do vocalista Brandon Flowers sempre teve como objetivo ser o 'novo U2'. Digamos que eles são bons, mas ainda têm que comer muito fish and chips para isso. Mas os caras são bons, talvez seja a melhor banda 'nova' do mundo (eles se formaram em 2002 em Las Vegas. E eu chamo de nova toda banda formada depois do ano 2000).

A característica mais legal de um show do The Killers é que eles têm muitas músicas famosas, apesar da curta carreira. E esses hits funcionam perfeitamente ao vivo porque tem refrão, letras fáceis, tocam direto nas rádios e têm melodias perfeitas para serem cantadas por multidões. O show começou com ‘Human’, depois veio ‘Somebody Told Me’, ‘Read My Mind’, ‘Bones’... são todas muito legais. A presença de banda no palco também é boa. O estilo do guitarrista David Keuning é uma mistura dos dedilhados de Johnny Marr (The Smiths) e os solos de Brian May (Queen); o baixista Mark Stoermer é tímido como a maioria dos bons baixistas); e Ronnie Vannuci é criativo, tem bons arranjos de batera e ainda mantém o tempo como um relógio.

Queria dedicar um espaço para a grande estrela da banda, Brandon Flowers. É um cara bastante especial, talentoso e bom cantor. Sua voz é excelente e ele também sabe como agitar uma plateia ao vivo: pede para cantar junto, arrisca expressões divertidas em português ('essa noite está molhada'), dança pelo palco. Mas tenho que admitir que ele não me convence totalmente. Não sei se é o fato de ele ser (ou ter sido) Mórmon e, portanto, ter um estilo de vida oposto ao que se espera de um rockstar de verdade. Algo nele tem um caráter meio, sei lá, planejado demais, muito de acordo com o script. É preciso agitar a plateia? Ele agita. Só como exemplo, vamos compará-lo com vocalistas lendários como Bono ou Mick Jagger. Eles também são carismáticos, também sabem lidar com a plateia. Mas tem uma emoção real que não consigo sentir em Brandon, algo como a diferença entre um tomate orgânico e um transgênico. Bono e Mick cantam com o coração na garganta, enquanto Brandon canta com o coração... no peito, mesmo. Brandon é tão perfeito que parece nem suar no palco. Não quero ser injusto – eu gosto do Brandon. Só acho que ele é muito esquemático. Parodiando o sucesso do The Killers, talvez Bono e Mick sejam 'Human', enquanto Brandon é 'Dancer'.

Foi legal ver também que as músicas de 'Day & Age', disco novo da banda, funcionam bem ao vivo. Analisando friamente, The Killers estaria em decadência criativa: O melhor disco é 'Hot Fuss', de 2004. O segundo melhor é 'Sam’s Town', de 2006. E o terceiro melhor é 'Day & Age', de 2008. Ou seja, eles foram piorando. Mas esse show foi mais legal que o do Madison Square Garden, em 2006, porque as músicas de 'Day & Age' ('Human', 'Spaceman', 'Joyride') funcionam bem melhor ao vivo do que no disco. Acho que elas são meio insossas no disco, talvez fruto da produção perfeitinha-demais de Stuart Price (Madonna, Seal): o produtor é bom, mas tirou a alma rock and roll do The Killers: em 'Day & Age' eles soam como o Depeche Mode, se o Depeche Mode precisasse de uma transfusão de sangue.

Espero que eu não tenha passado a impressão de que não gosto da banda. Eu sou fã do The Killers e estava na primeira fila (com chuva e tudo) cantando todas as músicas. Esquecendo a parte da lama, o show foi, com o perdão do trocadilho... matador.

 


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Felipe Machado é jornalista, músico e passa o dia tentando entender o que se passa na cabeça das mulheres





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