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23.07.08

Link permanente Você cuida do seu filho na web? Pesquisa vai medir
por David , Seção: Iniciativa s 16:27:13.

A ONG SaferNet Brasil está prestando um serviço importante aos pais: disponibilizou uma cartilha com informações e orientações de segurança para quem tem filhos navegando pela web - ou seja, meio mundo -, e deu um passo a mais, iniciando pesquisa sobre hábitos e cuidados entre famílias internautas.

Sofremos de arrepios regulares sobre a segurança dos nossos ciberfilhos. Mas não basta reconhecer o perigo: é preciso conhecer os principais agentes de risco, as brechas que eles aproveitam e as medidas mais adequadas para reduzir a exposição.

A cartilha ajuda a conhecer o pântano escuro dos e-mails maliciosos, das artimanhas de pedófilos, golpistas, disseminadores de vírus etc. É um beabá abrangente e - interessante - em ampliação permanente. Aliás, é fruto de um projeto educacional que capacita a molecada para trabalhar com segurança de computadores, o Hackerteen.

A pesquisa é importante para ajudar a mapear as principais brechas na segurança familiar. Mede a compreensão e participação dos adultos nos cuidados com a navegação dos filhos. Há uma versão da pesquisa para os próprios filhos.

Gasta-se até 10 minutos em cada pesquisa, que tem cerca de 50 questões de múltipla escolha. Uma ou outra questão tem falha, por falta de opção mais adequada, mas o geral permite um bom mapa de hábitos e medidas de segurança mais comumente adotadas.

Para quem não conhece, a SaferNet Brasil é uma organização voltada ao desenvolvimento de mecanismos de segurança na internet. Criou a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos e está trabalhando na prevenção de violações aos direitos humanos na rede.

Acesse:
- SaferNet Brasil
- cartilha 'Diálogo Virtual 1.1'


Participe:
- pesquisa para pais
- pesquisa para filhos

 


20.07.08

Link permanente O motorista manco e a licença para dirigir
por David , Seção: Vias de fatos s 02:38:02.

Nosso herói do post anterior, aquele que saiu tonto do exame de vista do Detran, decidiu ir logo a um ortopedista. Não se tratava mais de se consultar sobre o joelho dolorido apenas, mas uma providência urgente para obter um atestado de capacidade física e convencer o oftalmologista que havia retido a autorização médica para renovar sua carteira de habilitação.

Na clínica ortopédica, a consulta transcorreu normalmente. Nosso herói relatou seu infortúnio futebolístico e a dor que sentia ao andar ou mover a perna em determinadas direções. O ortopedista ouviu o relato e foi muito prático: "Não vamos perder tempo, vamos fazer uma ressonância magnética para saber o que você tem. Conheço médicos que pedem um raio-x e já mandam o paciente para cirurgia de menisco; mas eu não faço isso. Faça a ressonância e volte aqui."

Era bem provável, sim, tratar-se de um menisco rompido. A questão era saber do ortopedista se tal situação o impediria de dirigir. E, mais que isso, se o médico daria um atestado positivo.

"Ok, doutor, vou fazer a ressonância o quanto antes. Mas eu tenho um outro probleminha e gostaria de saber se posso contar com sua opinião e sua ajuda", disse então. Ao saber que o oftalmologista havia retido a avaliação médica exigindo o parecer de um ortopedista, por causa do problema no joelho, o doutor se mostrou surpreso e quase indignado.

"Pô! Mas esses caras exageram!... Não tem problema nenhum em dirigir! Vai querer fazer a coisa direitinho, e só arranja mais trabalho, hein?..."

Nosso herói não se aventuraria a discutir valores com o doutor, principalmente porque havia um pedido importante a fazer a ele: "E o senhor, por favor, hãn..., poderia me dar um atestado para levar para esse oftalmologista?"

Alívio. O médico topou. E enquanto fazia um atestado não-comprometedor - tipo "não apresenta (... ilegível...) esquelética" -, o ortopedista discorria sobre os práticos caminhos da taxa-extra-sem-exames.

"É por isso que eu prefiro pagar. Paguei 350 e não tive dor de cabeça nenhuma. Nem precisei ir buscar a carta: vieram me entregar. E minha mulher pagou menos ainda, em outro bairro."

Com o papelzinho precioso na mão, nosso herói rumou contente de volta ao oftalmologista. Foi um encontro cordial, no qual o doutor reiterou, com um ligeiro constrangimento, que sua exigência era uma forma de proteger o paciente-motorista de riscos que ele próprio não admitiria.

E, mesclando justificativa com gentileza, recomendou: "Não vá ao Detran mancando assim. Use um despachante, mande alguém no seu lugar... Se chegar lá assim, vão reter sua habilitação."

O motorista-paciente, por seu turno, agradeceu ao oftalmologista pela dica de amigo e por sua atitude responsável quanto ao joelho suspeito, deixando de lado o fato de considerá-lo pouco cuidadoso no exame principal, o oftalmológico - mas, quem sabe, um médico experiente realmente não precise de mais de 10 segundos para sacar que o paciente enxerga bem...

Enfim, nosso herói pensou muitas coisas, teve várias impressões contraditórias, mas estava feliz porque o oftalmologista lhe estendia a mão com o teste aprovado.

Minutos depois, estava na rua, preparando o espírito para enfrentar o Detran. Mas isso é outra história. Longa... Desta vez, ficamos por aqui.

 


16.07.08

Link permanente De joelhos e olhos no exame do Detran
por David , Seção: Vias de fatos s 00:20:13.

Prestes a completar 40 anos, nosso herói vai à luta para renovar a carteira de habilitação: consulta um amigo despachante, declina delicadamente do convite para fazer tudo do jeito mais prático, pagando uma taxa extra que o liberaria de todos os exames; escolhe um dos centros de formação de condutores (CFCs, na gíria), recusa uma nova proposta de taxa-extra-sem-exames, compra uma apostila, estuda, é aprovado nos testes teóricos e segue contente para o exame de vista.

Na clínica oftalmológica que faz "exame do Detran", segundo o cartaz, a espera é pouca. Em minutos, ágil e prático, o médico de nome oriental e seriedade respeitável convoca à sua sala. Seria tudo mais rápido se nosso herói não estivesse com o joelho dolorido, fruto de uma torção futebolística que o faz mancar. "Desculpe, doutor, tenha paciência porque este joelho está um problema... Vou ao ortopedista logo mais."

Instalado na cadeira, depois de caminhar com cuidado e sob o olhar atento do oftalmologista, nosso herói é instado a mirar através de lentes. "Leia as letras na última linha", diz o doutor, fechando a lente do olho direito. "V - B - H..." e vupt! Sempre ágil, o médico tapa o olho esquerdo e abre a lente do direito. "V - B - H - J - C - E..." pronto!

Orgulhoso por demonstrar de forma cabal e rápida sua aptidão visual - menos de 10 segundos para ler com segurança as letras menores e ser aprovado -, nosso herói se levanta planejando o passo seguinte do périplo: correr até o Detran e apresentar a papelada ainda hoje. Quem sabe, com isso, gaste apenas um dia útil neste trabalho.

Mas o planejamento mental é bruscamente interrompido pelo doutor: "Tudo bem com a visão, só não posso liberá-lo com esse joelho."

Passada a vertigem, ele começa a prestar atenção à argumentação do oftalmologista, que pondera que "a lesão no joelho pode ser permanente", algo que o impeça de dirigir. "Veja, eu não posso liberá-lo nessas condições. O senhor disse que vai ao ortopedista, então vá e depois volte aqui. Vamos ver o que ele diz, se o senhor está apto ou não a dirigir. Isso aqui (o exame) vale por cinco anos, já pensou?..."

Diante da reação incrédula do nosso herói, que balbucia "lesão permanente... como assim?... é claro que não...", o doutor define a sentença: "Se o ortopedista disser que o senhor pode dirigir, eu aprovo; se disser que tem de esperar um mês, esperamos um mês; se disser que é permanente, não posso aprovar."

Mancando, com um paquidérmico bico zangado, ele deixa a clínica sem o exame do Detran na mão e meio perdido sobre o que fazer.

Mas o desfecho dessa história vem depois. Por ora, o importante é discutir:

O médico agiu corretamente? Exagerou? Extrapolou suas funções?

 


04.07.08

Link permanente Traumas de guerra na violência paulistana
por David , Seção: Fantasmas, Estudos/estatísticas s 17:52:11.

O paulistano vive tão marcado pela violência como se vivesse na Faixa de Gaza ou alguma outra região de conflito armado pelo mundo.

É o que revela uma pesquisa, ainda em andamento, que quantificou pela primeira vez a incidência de transtorno de estresse pós-traumático entre moradores da cidade que passaram por situações de violência, como assaltos, seqüestros, agressões, ameaças de morte, balas perdidas e coisas do gênero.

* 26% sofreram desse transtorno alguma vez na vida
* 9,7% sofreram desse transtorno no último ano

Os índices levam em conta critérios internacionais, daí a equivalência segura com zonas de guerra, segundo explica Sergio Andreoli, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um dos coordenadores do estudo.

"Esse tipo de transtorno é descrito por soldados", conta ele. "É um sofrimento grande, que prejudica o relacionamento com os outros, a pessoa tem medo de vivenciar de novo aquela situação, então se retrai, não sai de casa... É como se estivesse vivendo outra vez o momento do trauma."

Não é toda vítima da violência que sofre desse transtorno. Felizmente, porque:

* 63% sofreram algum tipo de violência direta

E não são somente as vítimas de violência direta que podem sofrer de estresse pós-traumático. Aliás, como informa Andreoli, grande parte dos paulistanos com esse transtorno é gente que presenciou agressões, roubos e atrocidades contra terceiros:

* 56% sofreram violência indireta

Somando vítimas de violência direta e indireta, a pesquisa chega à impressionante cifra:

* 86% sofreram algum tipo de trauma

Um dos dados que chamaram atenção dos pesquisadores foi o peso da violência intra-familiar no desenvolvimento do transtorno.

* 6,8 sofreram violência conjugal

A pesquisa envolveu cerca de 2,5 mil paulistanos, ouvidos desde meados de 2007, e muitos deles participarão de um estudo clínico mais aprofundado, incluindo o uso de ressonância magnética.

Os pesquisadores querem medir o impacto desse transtorno no cérebro, entre outros efeitos. Estudos anteriores já demonstraram que há morte celular no cérebro de vítimas do TEPT: uma redução de 5% a 10% do hipocampo.

A pesquisa da Unifesp se estende também à população do Rio de Janeiro, mas os resultados ainda não foram fechados. Há dificuldade para fazer as entrevistas, porque moradores das áreas pesquisadas têm medo de receber os pesquisadores.

 


24.06.08

Link permanente Zilda Arns e a rede que ensina pais
por David , Seção: Iniciativa s 03:02:02.

Cerca de 267 mil pessoas estão hoje tentando fazer com que crianças de zero a 6 anos de idade tenham uma infância minimamente saudável e alguma perspectiva de vida digna. A cada mês elas conseguem visitar 1,5 milhão de famílias de baixa renda, com 1,9 milhão de crianças, em 4.066 municípios brasileiros. Também tentam ajudar 97 mil gestantes a serem mães em pleno exercício da maternidade, reduzindo os riscos para si e para seus bebês.

Mais que isso, esses milhares de voluntários da Pastoral da Criança procuram levar a essas famílias, em 43 mil comunidades de diversas regiões, um estímulo a mais para que as crianças cresçam capazes de ter planos e sonhos na vida, e não apenas táticas de sobrevivência.

"Nesse convívio, a gente passa valores importantes para a crianças. Respeitar, não mentir...", diz Zilda Arns Neumann, 74 anos, médica e sanitarista, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança. "E ajudamos os pais a educar para os limites, a ensinar valores culturais, como a solidariedade - coisa que as famílias nem sempre conseguem."

O resultado mais conhecido do trabalho dessa pastoral é a redução da desnutrição infantil e da mortalidade de bebês e parturientes, mas os efeitos vão além. "Com autoestima mais elevada, os garotos não vão se meter com drogas", diz ela, baseada numa experiência de 25 anos.

A ação simples dos voluntários tem impacto duradouro na comunidade, que reduz sua geração de fatores de violência. Pena que esse benefício cubra hoje apenas 20% da população pobre brasileira, segundo cálculos de Zilda. Faltam 80% dos pobres.



E é bom que se acrescente: falta atender também um porcentual razoável de não-pobres.

A Pastoral da Criança não se dedica a ricos e remediados, por assim dizer, mas a coordenadora concorda que falta algo aos pais em geral. "A família precisa de diferentes áreas de apoio, precisa de um trabalho multi-setorial", e o foco deve ser o mesmo em todas as faixas de renda: "incentivo dos valores culturais".

"O ar que se respira tem de ter aroma de valores", defende Zilda, e isso precisa ser aprendido, seja com a ajuda das escolas ou das igrejas. "Até a OMS, a ONU, ressaltaram que a espiritualidade faz parte do desenvolvimento da criança, que é bom ser educado na fé, seja qual for a religião. É necessário que o indivíduo pense 'eu não posso fazer isso porque isso está errado'."

As famílias, diz a especialista, precisam de uma rede de suporte, envolvendo toda a comunidade, as empresas e o poder público. As secretarias municipais precisam ser articuladas e trabalhar juntas para oferecer subsídios aos pais nos centros e postos de saúde, nas escolas, centros comunitários e associações de bairros.

As escolas, por seu turno, têm de assumir a função. Além de ampliar o espaço e o tempo para o esporte, a cultura e o lazer - sobretudo para os adolescentes -, é necessário acolher os pais. "Já se tem provado que precisa trabalhar com a família."

"A associação de pais e mestres poderia ser mais ativa e receber capacitação. Não apenas cuidar da merenda da escola, mas também ter uma biblioteca com livros bons para os pais."

Os professores necessitam de fomação adequada e estímulo, diz Zilda. "Não basta ter diploma da faculdade, tem de humanizar, tem de ter matérias transversais, com valores, e uma educação de qualidade, além de um plano de cargos e salários."

E as universidades têm no que ajudar: "Deveriam fazer mutirões nas férias para atualização de professores, com apoio e dinheiro do governo."



"Seria bom que fosse tudo ao mesmo tempo, ter em toda parte animadores, ensinadores de família."

Mas ainda não é assim. Dentro das próprias prefeituras predomina o despreparo dos gestores e a ação fragmentada de secretarias que trombam e perdem dinheiro.

"Tem prefeituras que procuram fazer um planejamento dessas ações, mas muitas delas ainda não conseguem focalizar a questão dos valores. Na maioria, sequer há conversa entre secretários de educação e de saúde."

A pastoral, explica Zilda, vai trabalhar mais uma vez com as comunidades e seus candidatos às eleições municipais, como faz em todo ano de pleito. "Indicamos temas prioritários e ajudamos as comunidades a obter o compromisso de seus candidatos quanto a essas prioridades para gestantes e crianças."

As comunidades já estão sendo mobilizadas para a convocação aos candidatos.

A coordenadora é moderadamente otimista. Sua percepção é de que os políticos eleitos estão mais firmes em seus compromissos assumidos, fruto de um amadurecimento do eleitorado e de sua postura mais crítica. Mas, admite Zilda, a cultura da corrupção e do uso da máquina pública em benefício próprio ainda é endêmica no País.

 


15.06.08

Link permanente Diversão indigesta para crianças
por David , Seção: Cuidados e descuidos s 15:37:46.

A sessão vai começar, e a sala está cheia de animadíssimos pais com seus filhos, que esperaram ansiosos pelo lançamento do filme.

A primeira cena é de um parto. Dor, gritos de dor, e um bebê sendo exibido à mãe extenuada. A cena corta para uma conversa obscura entre dois homens, que combinam algo sinistro.

A sala tem crianças de 3 anos, 5 anos, 8 anos. A classificação indicativa é para públicos a partir de 12 anos.

Os nenês, garotinhas e menininhos assistem a tudo munidos dos parcos recursos que a natureza lhes deu até agora. Seguem-se guerras e matanças, perpetradas por vilões e heróis.

Aquelas crianças foram levadas ali pelos seus pais, que parecem ver com naturalidade o fato de oferecerem esta experiência aos pequenos. Talvez porque não haja nenhuma diferença com o que já fazem em casa, assistindo juntos a novelas e filmes de temperatura máxima.

Em casa, no cinema, na vida real, crianças pequenas assistem a tudo simplesmente como o que são: como crianças pequenas, que olham para tudo e todos como seus modelos. Elas não vêem o filme como diversão, como um sujeito que já tem a capacidade de abstrair, e sim como um filhote capturando os sinais da realidade à qual só pode pertencer se conseguir se adaptar.

É dispensável discorrer sobre as marcas que essa exposição à violência pode deixar, como fermento para a hostilidade e para a agressão autorizada, em casa, na escola, em todo lugar.

Sem contar as associações perigosas que os pequenos farão a partir desse aprendizado atravessado. Que tal levar para a vida a idéia de que o nascimento é sofrimento e medo?

Vale lembrar que o tempo em que as crianças estão submetidas a essa diversão é um tempo em que estão sozinhas, um tempo em que poderiam e deveriam estar se relacionando, aprendendo efetivamente a viver e conviver.

Na entrada do cinema, nenhum funcionário impediu os adultos de introduzir crianças abaixo da idade permitida. Talvez porque não seja um problema da empresa, ou porque os pais sabem-o-que-fazem, ou porque já tenham sido ameaçados por alguns que se sentiram ofendidos em seu direito de levar os filhos aonde bem entendem.

Há resistência às determinações do Estado, muitas vezes injustas. Temos uma memória ruim da censura dos militares. Lembra de ‘Laranja Mecânica’? Quando os personagens apareciam nus, um borrão preto na película cobria as genitálias.

Era estúpido, mas os censores – muitos deles agentes do SNI e professores de Educação Moral e Cívica nas escolas e faculdades – achavam que assim impediam a perdição dos bons costumes e consolidariam a idílica sociedade sem-conflitos dos regimes de exceção.

Aquilo acabou, ainda bem, mas no vácuo da des-autoritarização do Estado não ficou uma ação reguladora e protetora de um Estado cuidador. Aliás, quem de nós tem este registro? Estamos sob a lei exclusiva das oportunidades de mercado e da conveniência individualista dos pais consumidores.

‘Laranja Mecânica’ foi chocante, e fazia um alerta para o surgimento de hordas de adolescentes sem limites e sem leis, gratuitamente violentos e cruéis. Anos depois, países da Europa foram obrigados a criar programas e até secretarias especiais para estudar soluções – nem sempre bem aplicadas.

Talvez valha a pena refazer o alerta – desde que os adultos não levem seus pequenos para ver crueldades, com ou sem borrões pretos. E não bastará cobrar responsabilidade apenas dos pais, muitos deles perdidos num vazio de cultura.

Um pouco dos milhões gastos pelas autoridades em anúncios e pajelanças políticas em torno de obras – que são nada mais do que a sua obrigação –, poderia ser investido em ações sistêmicas de orientação a famílias.

(com Angela Minatti)



Trailer de 'Laranja Mecânica' (ATENÇÃO: CENAS DE VIOLÊNCIA): clique

 


12.06.08

Link permanente Idéia coletiva: cocô de cachorro fica melhor em casa
por David , Seção: Boas idéias, Balanço s 23:55:07.

Tivemos propostas e observações muito interessantes para o problema dos saquinhos com cocô de cachorros. Agrupei os mais de 80 comentários pertinentes em cinco grupos, e com quatro deles é possível compor uma idéia coletiva sobre o tema proposto.

Por mais óbvia que seja esta idéia, acho importante registrá-la. Afinal, é para isso que debatemos: tratamos de ética no cotidiano, e as diversas visões podem ajudar a definir melhor as nossas atitudes.

Em síntese, pode-se propor que os donos saiam de casa com saquinhos de papel ou plástico biodegradável - e não com sacolinhas de supermercados -, recolham os dejetos de seus pets e levem para o lixo ou vaso sanitário em suas próprias casas, sem deixá-los nos cestos das calçadas - nem mesmo nos cestinhos improvisados para receber os pacotinhos dos cães.

A isso, podem ser adicionadas duas propostas: habituar os cães resolver tudo em casa mesmo, antes de sair para o passeio, e avaliar o viabilidade de transformar as cacas em adubo. Segundo biólogos e veterinários consultados pelo blog, o material produzido pelos pets pode ser aproveitado sem contra-indicações.

Gostaria de deixar uma questão:

Como fazer para que mais pessoas recolham os dejetos de seus cães, com os cuidados que sugerimos acima?



A seguir, algumas das contribuições feitas ao debate em maio:

1 - PARA ONDE VÃO OS SAQUINHOS

"Sou síndica de um condomínio em SP e resolvo o problema de cocô dos cachorros instalando na saída de serviço um porta saco de plástico biodegradável, que compro em milheiros. Abaixo deste suporte temos a lixeira. O dono do cachorro traz e joga ali o cocô. É importante lembrar que o saco de plástico de supermercado demora 100 anos para se decompor, e o cocô, uma semana." [Eliane Vieira]

"O que fazer com o saquinho? Ora levem para casa e joguem no seu lixo. É isso que eu faço com o cocô da minha cachorra. E fico furioso com quem deixa cocô de cachorro no suporte de lixo da minha casa. Se algum dia eu pegar alguém fazendo isso, vou armar o maior barraco." [Severino Toscano do Rego Melo]

"A solução mais lógica é levar o cocô recolhido em saquinhos pelos donos dos cães de volta às respectivas casas para jogá-los nas privadas (sem os saquinhos!), e não depositar os sacos em lixeiras. Lugar de cocô é na privada. Se o cachorro fizer cocô em casa, qual o local em que será jogado o dejeto? Suponho que na privada." [miriam]

2 - FAZER EM CASA

"Tenho duas cadelas, ex-viralatas. Uma delas já chegou em casa com o hábito de fazer cocô na rua. Quando saio com ela, preciso levar o saquinho e a sacola. Já a outra, foi educada a fazer cocô em casa. Saio com saquinho por precaução, mas raramente preciso usar. Se o dono só sair com o cachorro depois de feita a necessidade, por mais que o cão insista, lata, ele aprenderá que o passeio é recompensa por fazer o cocô no lugar certo." [Yoko]

"Tenho também uma cachorrinha que, por incrível que pareça, sai pra passear, mas se sente mais à vontade fazendo suas necessidades num jornal, em lugar preparado para isso." [Ana Claudia]

3 - CUIDADO AMBIENTAL E COM OS OUTROS

"Tem mais uma complicação: a sacola plástica não é biodegradável, ao contrário do próprio cocô do cachorro. Então, se recolhemos o dejeto do chão de terra da praça e o levamos dentro de uma sacola plástica para a lixeira, estamos retirando a sujeira de um local onde ela vai se degradar naturalmente e aumentando a quantidade de lixo não biodegradável nos aterros. Vou logo avisando que sempre recolho a sujeira do meu cachorro, mas me pergunto se não estou apenas afastando o problema, ao invés de resolvê-lo." [Hélio]

"Gente, pior que o cocô do cãozinho são os tais saquinhos de plásticos. Está mais que na hora de utilizar os saquinhos de plástico bio-degradável. O cocô acaba em alguns dias, já o saquinho ficará no aterro por muitos anos." [Gilberto Ribeiro]

"Jogar no lixo também é um problema (...). Ainda temos muita gente que vive do que acha no lixo e imagino como deve ser achar um desses saquinhos." [Eduardo]

4 - EXEMPLOS DE OUTROS PAÍSES

"Moro nos Estados Unidos há 10 anos. Aqui o cachorro é um 'ser humano' como outro qualquer. Existem cestinhas estrategicamente colocadas por onde, em tese, há circulação de cães. Recolher o cocô dos cachorros e jogar no cestinho é uma regra tão comum quanto parar no sinal vermelho. Mas, como em todo lugar do mundo, existem aqueles espiritos de porco que não estão nem aí. Apesar disso, posso dizer que é uma prática seguida por 99% dos donos de pets. As chances de pisar em cocô de cachorro aqui são quase zero." [Marcelo - Phoenix-Arizona]

"Estive na Suíca recentemente. Ao parar em uma área de descanso na beira de uma estrada, encontrei ao lado de uma lixeira um 'porta-saco' abastecido com saquinhos especiais para pegar o cocô dos pets. Temos MUITO que aprender..." [eu mesmo]

"Em Londres, o dono flagrado paga uma multa de 50 libras, se não retirar o cocô das calçadas e até mesmo dos parques. [Della Rocca]

"Aqui na Alemanha, o dono do cachorro tem que recolher o dejeto e jogar ou nos lixos apropriados ou levar pra casa (sim! levar pra casa e jogá-lo no lugar certo!). Se há escolha por ter um cachorro, vc tem que arcar com as responsabilidades adquiridas por sua escolha, como por exemplo, passear com o cachorro, esteja nevando ou não. Meu irmão tem um pastor alemão que NUNCA fez xixi ou cocô sem ser no seu cantinho no quintal da casa, e ele nem precisou treiná-lo pra isso, ele simplesmente fez isso desde filhote. Quando vai passear, só faz suas necessidades quando chega em casa." [juliana]

5 - TEM GENTE QUE AINDA NÃO RECOLHE

"moro num bairro de classe média alta em santo andré. na minha rua, tem muito cocô de cachorro, muito muito mais que o comum. costumo inclusive andar pela rua, não pela calçada, pra não ser acometida por uma surpresa." [Ana]

"Dê uma volta no quarteirão formado pela Al. Campinas, Rua São Carlos do Pinhal, Rua Pamplona e Al. Ribeirão Preto. É uma nojeira. O cheiro de cocô e xixi dos cachorros ficam impregnados nas calçadas. Hoje em dia, ao chegar em casa , deixo o sapato na entrada da cozinha. Pois, sei que deve estar cheio de bactéria na sola do sapato." [Jorge]

 


10.06.08

Link permanente Dias de alta tensão para pais de adolescentes
por David , Seção: Datas & festas s 01:27:45.

Esta semana é especialmente difícil para adolescentes, e quem tem filhos nessa faixa precisa ficar atento ao que se passa.

Esta é a semana do Dia dos Namorados, e as pressões se multiplicam sobre a moçada. Garotos e garotas, que já vivem atolados em angústias, são torturados pela obrigação sazonal de ter alguém com quem trocar presentes, jantar romanticamente, dançar sensualmente etc.

Para as meninas, a coisa chega a ser medieval. Assim como os meninos, elas são submetidas àquela pressão diária constante para conhecer - inclusive no sentido arcaico da expressão - e ficar com alguém. É a rotina na escola, no condomínio, em qualquer lugar onde haja amigos e colegas. Mas, enquanto os garotos simplesmente amargam frustrados os seus insucessos naturais diante da mulherada, as garotas são obrigadas a acreditar que o dia 12 de junho tem de ser triste se não forem capazes de atrair um namorado para chamar de seu.

E a pressão aumenta: estamos a X horas do Dia dos Namorados, esta data de importância cósmica, e "ainda dá tempo de conseguir um amor para comemorar", diz a revistinha, lembrando que "nenhuma missão é impossível".

Já é cruel com adultos, imagine então com adolescentes - e crianças, porque já há seres humanos com menos de 11 anos sendo convencidos de que ter namorados e namoradas é mais legal que brincar.

Seu universo turbulento, típico deste período da vida, acaba invadido por questões tão complexas como a perspectiva de uma relação a dois. Para piorar, a visão corrente é a do namoro utilitário. O foco está sutilmente desviado para o ato de ter alguém, e não no fato de gostar de alguém.

Ah, claro, meio mundo diz que não é bem assim, que não tem sentido namorar sem amar, que ter alguém é amar esse alguém etc.

Quando o foco está em gostar, pouco importa se tem namoro, se o beijo é de língua e se vai ter presente no dia 12; não importa o que vão fazer ou não juntos, e sim o que estão sentindo um pelo outro. Esta é a paixão que ensina os adolescentes, que pode levá-los à construção de relações de amor num futuro próximo ou mais distante.

Isso não quer dizer que adolescentes não devam namorar. Se fosse assim, a vigília moral dos pais e avós do passado contra as beijocas e mãos-bobas teria produzido os casamentos mais felizes da história humana, coisa que parece não ter ocorrido.

O importante, porém, é permitir que a experiência do sentimento não seja sufocada por uma relação pesada demais para a idade.

Talvez esta seja a maior ajuda que os pais possam dar nestes dias de alta ansiedade. Ter alguma clareza sobre o que realmente importa no coração da filharada, e ajudar a desfazer essa idéia forçada de arranjar um coadjuvante.

 


04.06.08

Link permanente Os ônibus ganharam TVs. Falta o controle remoto
por David , Seção: Vias de fatos s 01:03:08.

É legal a programação da BusTV. Passageiros de ônibus urbanos podem aproveitar seus trajetos por 11 linhas de São Paulo recebendo uma série de informações úteis, dicas para o lar e para a vida profissional, toques de cidadania, além de curiosidades divertidas. Mas tem um problema quando chega na hora dos clipes e dos trailers de estréias de cinema.

O público no ônibus é heterogêneo. Tem desde senhores & senhoras até crianças no colo da mãe, gente de todas as crenças, costumes, preferências e gostos. Enfim, é um público que não decidiu entrar numa sala para ver cenas sensuais ou de violência erotizada, como as que apimentaram as telinhas no dia 6 de maio passado - registradas no vídeo abaixo.


Trailer que nenhuma sala exibiria antes de uma sessão para crianças

Quem está num ônibus também pode não estar, digamos, no clima para o clipe sexy-teen de Jesse McCartney, que começou a rolar às 5 da matina, num recente dia de labuta. E nem todo mundo curte a venenosa diversão das videocassetadas sado-faustônicas.

Em casa, em situações assim, muda-se o canal ou desliga-se a TV; nos 140 ônibus paulistanos que circulam com dois monitores LCD de 19 polegadas transmitindo em wi-fi a programação da BusTV, das 5 horas à meia-noite, o público não tem opção senão desviar constrangidamente o olhar ou descer na próxima parada.

Motorista e cobrador nada podem fazer, nem mesmo puxar o fio da tomada.

O diretor de Comunicação da BusTV, João Coragem, concorda com a crítica e, de antemão, pede desculpas pelo que considera um eventual descuido de sua equipe de conteúdo.

"Vou verificar com nosso editor, não tenho conhecimento de que isso tenha ocorrido, mas, se ocorreu, foi porque escapou ao nosso controle, e pedimos desculpas", disse ele ao blog.

Segundo Coragem, a empresa segue as normas do Conselho de Auto-regulamentação Publicitária (Conar) e também respeita diretrizes mais rígidas, baseadas na legislação européia. Conteúdo político-partidário, sindical, erótico ou sensual, ofensivo à Nação e a seus símbolos, tudo isso é proibido na programação da BusTV, afirmou.

São bons princípios, que precisam ter aplicação assegurada.

A empresa é nova no Brasil. Instalou-se em São Paulo e abril de 2006, trazendo uma idéia da Europa. O plano agora é instalar os monitores em 150 coletivos do Rio de Janeiro. Curitiba, Salvador, Recife e Brasília são as seguintes.

Ou seja, também nessas capitais os usuários do transporte terão de fiscalizar e denunciar os eventuais descuidos da equipe de conteúdo.

Para reclamar:
- BusTV, via fone: 11 3078 9888
- BusTV, via e-mail: http://www.bustv.com.br

 


31.05.08

Link permanente Amazônia é nossa, mas discurso não basta, diz Cristovam Buarque
por David , Seção: Hábitat s 13:02:33.

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) fez em Nova York, em setembro de 2000, um pronunciamento que virou jargão contra a tese da internacionalização da Amazônia.

"Se a Amazônia deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia é para o nosso futuro", disse o senador em resposta a um estudante que o questionou sobre o tema.

Hoje, Cristovam acha que a pressão sobre o Brasil vai se intensificar, e admite que seu discurso não será suficiente para o País responder ao mundo.

"Com o aquecimento global, a opinião pública mundial está ligada no assunto, a pressão vai aumentar e vai deixar de ser feita só por políticos", afirma ele.

Para o senador, a opinião pública tem razão quando se afirma que a Amazônia não pode ser deixada aos cuidados de brasileiros que não saibam cuidar dela. Cristovam acha que o Brasil precisa dar respostas concretas, e diz que tem cinco propostas, uma delas já em discussão no Senado.

O projeto de lei 008/08, de fevereiro passado, cria os royalties verdes sobre a produção nacional de petróleo. Parte dos royalties pagos hoje a Estados e municípios que abrigam plantas de produção petrolífera seria destinada a um fundo de conservação florestal, que somaria cerca de R$ 4 bilhões por ano. Cristovam calcula que, com otimismo e pressão, o Congresso aprove o projeto em dois anos.

O senador acha que o fundo pode receber também investimentos estrangeiros, de organismos como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), desde que o programa de conservação seja totalmente brasileiro.

"O Brasil deve ser capaz de cuidar sozinho da Amazônia, mas, se vier ajuda externa é bom", avalia. "Se o programa é brasileiro, isso não afeta a soberania nacional."

Outras três propostas do senador são: definir claramente as áreas de aproveitamento de recursos da floresta e as áreas intocáveis, mobilizar as Forças Armadas para policiar essas áreas e classificar o desmatamento nelas como crime hediondo. Cristovam também propõe criar o Dia Internacional da Soberania da Amazônia.

O pronunciamento que Cristovam fez no State of World Forum, em Nova York, rendeu artigos e argumentos que circularam por vários anos na internet. Foi citado num dos últimos discursos do senador Jefferson Pérez (PDT-AM) - morto no dia 23 de maio -, que rebatia com veemência uma reportagem do The New York Times questionando o direito exclusivo do Brasil sobre a Amazônia.

O tema, aliás, foi tratado recentemente por outros veículos como o britânico The Independent, retomando a questão levantada em 1998 pelo então senador norte-americano Al Gore. “Ao contrário do que pensam os brasileiros, a Amazônia não é propriedade deles, pertence a todos nós”, disse Gore.

Para Cristovam, se a Amazônia é do mundo, "da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado", porque "queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais."

Também os arsenais nucleares deveriam ser objeto de cuidado internacional, porque põem o mundo em perigo; as crianças pobres, mal cuidadas em vários países, também deveriam estar sob responsabilidade do mundo inteiro; os grandes museus e belas cidades seriam um patrimônio do mundo, e não apenas dos países em que estão localizados.

ouça a conversa com o senador Cristovam Buarque

 


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* Jornalista do estadao.com.br





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