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04.11.09
A identidade de mr. Miles é uma curiosidade recorrente dos leitores desta coluna. Eis porque se faz necessário repassar alguns pontos de sua nebulosa biografia publicados quando da aparição de sua primeira coluna neste caderno: cidadão inglês, natural do condado de Essex, nosso colaborador viajou longamente durante a juventude (a data ele não revela) torrando a herança inesperada de uma longínqua contraparente. Conheceu, ao menos, 132 países e sete territórios ultramarinos, tornou-se fluente em nove idiomas e diz-se capaz de “virar-se bem” em outros 36. Entusiasmado, curioso e cordial, fez amigos por toda a parte, tornando-se padrinho de concierges e donos de hotel ao redor do mundo. Casou-se algumas vezes, apaixonou-se muitas e, aos poucos, viu a herança minguar em proveitosas experiências. Quando isso ocorreu, porém, já tinha se tornado sócio-remido de oito programas de milhagem, de modo que continuou — e continua — peregrinando — pelo planeta.
Mr. Miles jamais é visto em público e dele só se conhece uma única fotografia — , essa que ilustra a seção, que, em sua versão integral, mostra-o de pé, apoiado a uma bengala. Não se sabe qual é a sua aparência de hoje e o máximo que conseguimos obter, entrevistando amigos e afilhados, foram vagas definições do tipo “nem alto, nem baixo”, “charmoso”, “inconfundível e indescritível”. Sua implausível existência foi checada por repórteres de O Estado de S. Paulo, que ouviram comentários sobre ele em diversas partes do mundo. Maîtres, bartenders e mordomos de regiões tão diferentes quanto Antananarivo, em Madagascar e Whitehorse, no Canadá confirmam que mr. Miles existe e é um contador de histórias de carisma incomparável.
A autenticidade de Miles também é confirmada pelos registros de companhias aéreas, linhas de navegação e por um certo especialista de Aleppo, na Síria, que, há décadas, é o responsável pela encadernação de seus passaportes carimbados. E, claro, pelas cartas que ele responde todas as semanas. Como a que segue:
Mr. Miles: o senhor parece sempre fazer viagens luxuosas. Sempre foi assim ou senhor já ficou em hotéis turisticos?
Clara Michaels, São Paulo, SP
Well, my dear Sandra, in fact andei cometendo meus excessos muitos anos atrás quando ainda me beneficiava do pecúlio de tia Henriette, que herdei e gastei generosamente nos rompantes de minha juventude. Hoje, as you know, hospedo-me, quase sempre, nas casas e hotéis de velhos amigos que fiz naqueles idos — e essas podem ser tanto hospedarias de luxo quanto acanhadas pensões, it doesn’t matter. Na verdade, dados os países remotos que resolvi conhecer, confesso que passei a maior parte das noites de minha vida em situações opostas a que você imagina: dormí em catres, redes, tatamis, sacos de dormir e até num confortável caixote de cascas de arroz em Namtu, no Myanmar (que, à época, ainda atendia pelo nome Birmânia). Pernoites assim têm seu charme a meu ver e agradam-me mais do que hotéis ditos turísticos, bolorentos e sujos, onde incautos turistas acabam sendo depositados quando compram pacotes de empresas pouco sérias.
Confesso, todavia, que não desdenho de belos hotéis, com serviço impecável que, sometimes, aparecem em meu caminho. Assim como, I presume, a prezada leitora também não o faria.
Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista do caderno Viagem
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