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25.06.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 12:11:05.

A noticia ainda não está confirmada, mas já causa uma nova onda de curiosidade nesta redação: mr. Miles parece estar de malas prontas para vir ao Brasil nos próximos dias. Diz-se que, dessa vez, finalmente dará o ar de sua graça aos companheiros de trabalho deste caderno, com os quais há anos comunica-se por vias indiretas. O viajante britânico — como se sabe —, é um grande entusiasta das coisas brasileiras. Desta vez, contudo, viria com o objetivo específico de prestigiar o lançamento do livro de seu velho amigo Ronny Hein, que estará autografando, na próxima segunda-feira, o volume O Olhar do Hipopótamo, coleção de divertidas e emocionantes aventuras de viagem ao redor do mundo. Consta que, em muitas delas, mr. Miles esteve presente, emprestando o brilho de sua experiência.
Procurado por este caderno, Ronny Hein não confirmou a presença do viajante inglês, mas garantiu já ter encomendado um pequeno estoque de garrafas de single malt, caso seja honrado com a sua visita e, eventualmente, a de sua cadelinha Trashie.
A seguir, a pergunta da semana:

Sr. Miles: como classificar lugares como Andorra, San Marino, Luxemburgo, Vaticano e outros quetais, já que eles não são territórios ultramarinos? Poderiam ser países? De qualquer forma, são adoráveis…
Sergio G. Sequeira, por email

Well, my friend, no universo das nações, tamanho não é documento. Por essa razão, chamem-se Principados, Reinos ou Repúblicas, há uma quantidade expressiva de very small places que, in fact, são países. Ou seja: possuem administração oficialmente autônoma, bandeira própria e hino nacional. Emitem selos, passaportes e possuem legações estrangeiras. Alguns deles até participam de competições esportivas internacionais, nas quais invariavelmente obtém resultados pífios.
Na minha modesta opinião, fellow, são apenas uma divertida curiosidade e um interessante anacronismo. Conhecer as condições históricas que propiciaram independência a essas nanonações é, em geral, very amazing. Na raiz de cada uma delas — exceto a de ilhas e arquipélagos minúsculos que permaneceram independentes pela via do isolamento —, sempre há razões curiosas. Algum conde que escondeu-se atrás da perpétua neutralidade, outro que soube beijar a mão de seus vizinhos com lábios de mel, um terceiro que fez seu feudo fingir-se de morto em algum vale esquecido entre montanhas impenetráveis.
Nowadays, dos seis menores países do mundo, quatro ficam na Europa e dois deles são muito poderosos: Monaco, a capital dos milionários who doesn’t like to pay taxes e o Vaticano, séde de uma igreja que, unfortunately, separou-se da Church of England em 1534. Os outros são San Marino — uma colina na Itália —, e Liechtenstein, entre a Áustria e a Suíça.
Por casualidade, tenho muito mais amigos no principado dos Grimaldi (que, confesso, frequentava mais assiduamente quando Grace Kelly insistia em me convidar), do que nos monastérios do Vaticano, onde outrora ia para praticar meu latim, mas já não encontro interlocutores.
O terceiro menor país do mundo fica na Micronésia, as you know. Nauru é, também, a menor República do mundo. Conheço bem seu presidente, o briguento Ludwig Scotty que, in fact, está tentando impedir que seu minguado país diminua ainda mais. O problema é que, por décadas, a ilhota rica em fosfato vem sendo escavada por mineradoras. De tal forma que o seu pequeno interior tornou-se um imenso buraco, obrigando a população a viver em um estreito anel à beira-mar. Se nada mudar, Nauru pode acabar menor que o Vaticano. E, for Christ Sake, não vai adiantar nada reclamar com o bispo.

 


19.06.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 10:28:07.

Após ter voltado de sua curta viagem à Montserrat, o incálculável viajante britânico encontrou, em sua caixa de correio, a edição de Viagem e Aventura com a estréia da coluna Viajante Profissional, de Ric Freire. Do Condado de Essex, mr. Miles envia suas saudações ao novo colunista do caderno, afirmando que “as indicações de um profissional serão, for sure, um desejável e útil contraponto às colocações deste viajador que vos fala, um incorrigível amador movido pela paixão de conhecer e revisitar o imenso quintal que — às vezes esquecemos —, pertence a todos nós. Welcome on board, mr. Freire!”
A seguir, a correspondência da semana:

Querido mr. Miles: vou me casar no segundo semestre e estamos pensando em viajar de lua-de-mel para as ilhas Seychelles. O senhor já esteve lá?
Tainá Sheba, por email

Of course, my dear. Adoro as Seychelles. Permita-me dizer que sua escolha é formidável, ainda que pouco original. Milhares de casais praticam as agradáveis peripécias de honeymoon nesse arquipélago de 115 ilhas, que outrora foi uma base de corsários no Oceano Índico. Inclusive, I must say, a lot of brazilian couples, cuja presença era mais constante logo depois que aquele vosso presidente de breve mandato…Fernando Collor, if I remember, também fez sua viagem de núpcias nas pequenas jóias do Índico.
Tenho visitado Mahé, Praslin e La Digue — as ilhas principais — com alguma frequência. Em parte, porque há poucas praias tão estonteantemente belas quanto a Source D’Argent, em La Digue, que me foi apresentada pela lovely Silvie (N. da.R.: Silvie Kristel, atriz holandesa), que ali filmou a segunda parte de Emmanuelle. Do you remember?
Source d’Argent, a par de suas águas cristalinas e da areia branca como a das melhores praias brasileiras, é emoldurada por rochas muito diferentes, que parecem esculpidas por Rodin.
As outras razões que me fazem voltar às Seychelles são meus velhos amigos. Brendon Grimshaw, que conhecí trabalhando na Fleet Street, em Londres, é, desde 1963, um velho caçador de tesouros. Comprou a ilha Moyenne, quase encostada em Mahé e gasta o tempo cavocando minuciosamente cada pedaço de seus domínios em busca de um suposto tesouro escondido pelos piratas. Sempre lhe digo que a verdadeira riqueza é própria a ilha que adquiriu por oito mil libras. However, my dear Tainá, consigo compreendê-lo. O que seria de um homem sem algo para buscar? Don’t you agree? Se você tiver a oportunidade de vê-lo, envie-lhe minhas recomendações.
Também vou muito para Bird Island — que fica há meia hora de vôo de Mahé —, que é uma ilhota quite wild, com um resort confortável. Você deveria visitá-la, darling. É ali que vive Esmeralda, a mais velha tartaruga do mundo, um simpático quelônio de presumíveis 215 anos. Esmeralda é um dos símbolos nacionais das ilhas Seychelles e, well, tem o tamanho de uma mesa para apoiar copos de whisky. Trashie, minha cadelinha siberiana, dá-se muito bem com ela. Talvez porque, apesar do nome, Esmeralda seja um macho. Nevertheless, garanto-lhe que a relação entre ambos é de pura (e muito vagarosa, I’m afraid) amizade.
Paixões tórridas e juras de amor ficam mesmo para honeymooners como você e seu futuro marido, a quem, desde já, envio meus votos de uma vida feliz, repleta de descobertas como essa.

 


16.06.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 23:21:06.

Da Redação:
A inaguração da companhia aérea Pet Airways lança um novo conceito de voar. Dedicada única e exclusivamente ao transporte aéreo nacional de animais de estimação, a empresa investe em luxo e conforto para os pets. Adeus compartimentos apertados e pouco arejados. Na companhia, que já conta com 20 aeronaves, os animais são tratados como hóspedes cinco estrelas. As passagens custam a partir de US$149 para rotas que ligam Nova York, Chicago, Denver, Washington e LA

" Achei very interesting a criação de uma companhia aérea para pets. Seus donos, I presume, devem viajar dentro de caixas especiais no porão das aeronaves. Am I right?
A idéia é, in fact, inovadora, embora, eu ainda não tenha entendido sua real serventia. Será que há mastins voltando para Nápoli? Ou Lulus buscando sua
origem na Pomerânia? Servirão as aeronaves para viagens de lazer ou de negócios? Minha fidelíssima cadela Trashie — uma raposa das estepes siberianas —, não vê a menor graça em viajar sem a minha companhia. É verdade que sou eu que forneço o seu single malt de cada dia, o que, of course, me torna muito mais atraente. O que servirão as aeromoças
dessa Pet Airways? Barrinhas de carne moída? Well, tenho que pensar um
pouco mais a respeito. Se o prezado leitor tiver comentários sobre o tema, por favor não hesite em escrever."

 


10.06.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 12:05:29.

O inusitado calor de 41ºC que assolou a capital da Inglaterra ainda na primavera, alguns dias atrás, levou mr. Miles a considerar que a velocidade do aquecimento global superou em muito as suas expectativas. Impressionado com o evento, o bravo viajante decidiu visitar, com mais assiduidade, lugares que correm risco iminente de desaparecer, para “registrá-los em minha memória — um arquivo, so far and thank God, imune aos efeitos deletérios das alterações climáticas.” Foi assim que nosso bravo viajante decidiu incluir uma nova ilha em seu currículo, a pequena Montserrat, território ultramarino britânico, nas imediações de Antigua e Barbuda, no Caribe.
Instalado na guesthouse de seus velhos amigos Shirley e Lou Spycalla, o correspondente britânico saciou uma antiga curiosidade ao visitar os restos da capital de Montserrat, semissoterrada por uma erupção vulcânica.
Plymouth, my friends, é muito pouco lembrada em todo o mundo. Trata-se, however, da mais moderna versão de Pompéia. A pacífica e pequena capital de Montserrat ficava aos pés das montanhas Soufrière, onde existia um vulcão adormecido desde a Antiguidade. Eis que, nos anos 90 do século passado, a atividade sísmica recomeçou. Primeiro com fumaça, depois com tremores e cinzas. Até que, em 1997, uma grande explosão fez com que os habitantes de Plymouth abandonassem suas casas e estabelecimentos comerciais, em busca da relativa segurança da porção setentrional da ilha. Unfortunately, that was the end of the city. Plymouth chafurdou em lama vulcânica e cinzas.
Hoje fui fazer um tour pela área, na companhia de um guia e dois geólogos ucranianos que estão fazendo um doutorado sobre a atividade sísmica nas ilhas caribenhas. Não se pode chegar a capital destroçada, que é área de risco. De Jack Boy Hill, entretanto, vimos um cenário grandioso: o vulcão fumegante no background e a cidade enterrada no vale.
Ainda é possível reconhecer alguns edificios, com as inúteis janelas de seus andares superiores abertas para as cinzas.
Silente, o Soufrière parecia um espectador inofensivo, produzindo nuvens brancas no céu intensamente azul desta manhã. Terá sido, unfortunately, meu último avistamento desta Pompéia esquecida: cada vez que chove na ilha, outros detritos vulcânicos são despejados sobre as ruínas, que logo vão desaparecer.
Agora, fellows, escrevo-lhes de Little Bay, sentado à mesa do mais conhecido restaurante local, cujo nome é uma sugestiva ironia: Good Life Restaurant. Yes, indeed: a vida é muito boa sempre; e parece melhor ainda quando recomeça. Don’t you agree?A seguir, a pergunta da semana:

Mr Miles, gostaria de saber se o senhor já se hospedou em um albergue da juventude. Gostaria que relatasse essa experiência, pois tenho intenção de viajar para a Itália no ano que vem e queria ficar num albergue, já que é mais em conta.
Maria Fernanda Migliorini, por email

Well, my dear, lamento desapontá-la, mas por motivos que fogem a minha compreensão, não tenho sido aceito em youth hostels há um considerável número de anos. That’s very unfair, isn’t it?

 


04.06.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 17:57:45.

Nosso intimorato viajante anuncia que pretende ir à Pyongyang, na Coréia do Norte, com o a intenção de passar uma carraspana nos belicosos líderes locais. Desaconselhado por amigos e por sua prima Guinevere, mr. Miles parece irredutível em seu objetivo. “Não sei se Kim-Jong II vai me receber, mas a intenção é trocar suas pretensões nucleares por uma permanente na Disney World. Aposto que ele vai ficar tentado com a possibilidade de desfrutar indefinidamente de novos brinquedos”, explicou o correspondente britânico.
A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: acabo de voltar de minha primeira viagem à Escócia e sinto-me como que apaixonada pelo país. Sonho de olhos abertos com a paisagem das Highlands, os castelos e vilarejos que só imaginei existirem em filmes. Escrevo-lhe como quem confessa um novo amor.
Mariangela Antonucci, por email

How nice, my dear! Você acaba de colocar no papel uma de minhas mais antigas sensações. Não conheço metáfora mais apropriada do que comparar uma nova descoberta com um novo amor. Desde moço, I must say, compreendi que cada país que visitava era como uma mulher disposta a desvendar seus segredos. Todas elas diferentes, como vocês mesmas sempre o são. Algumas tímidas e recatadas, como nações orientais, cismavam em fugir de um primeiro contato. Evitavam olhares fugidios, sumiam aos primeiros acordes da orquestra de um baile mas, aos poucos, iam cedendo. Eu as estudava com o afinco meticuloso de um pesquisador, tentava entender seus hábitos, explorava seus caminhos. Até que um dia — don’t ask me when —, brotavam as primeiras palavras. Então, só então, eu já tinha o que dizer e, melhor que isso: estava pronto para escutá-las.
Na hora de partir, of course, nosso entendimento havia se tornado tão pleno, que a despedida já embutia a certeza da volta.
Outros lugares, as women, são temperamentais; even frightening, eu diria. Países de alma latina, de sangue quente, são mulheres desse tipo. Atemorizam, sometimes, os que pretendem entender sua natureza contraditória. São demasiadamente francas e certeiras em suas respostas. Mas por trás da fúria que alardeiam, exalam uma sensualidade irresistível. Pedem beijos arrancados à força, carícias que lanham a pele. Oh, my God, quantas vezes me perdí por mulheres assim.
Há países, as well, que são como uma donzela que se entrega fácil — ou será que eu é que sou imediatamente seduzido por seu fascínio? Já no desembarque ela está me esperando e torna-se a companhia permanente do que se supunha uma estadia solitária. De mãos dadas, acompanha-me nas ruelas e nas pontes, com ela compartilho jantares à luz de vela. Sua ausência seria a própria ausência da viagem.
Do you know what I mean?
Indeed, my darling: sou cúmplice de seus sentimentos, porque também já passei noites em claro rememorando esses amores; as ruas, as vozes e os aromas redivivos na insônia mais que bem-vinda.
Há um outro fato, however, que é preciso considerar. Conheci muitas mulheres nessa minha vida peregrina; gostei de algumas, apaixonei-me por outras, mas, in fact, amei de verdade a muito poucas. O mesmo, for sure, ocorrerá com os países. Você talvez tenha se apaixonado pela Escócia (apesar do awful english que eles usam) e provavelmente terá gostado de alguns outros países que visitou. Mas é preciso continuar viajando, na busca incessante por amores inesquecíveis. Keep going, my dear.

 


27.05.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 15:18:24.

Nosso bronzeado viajante retornou da Tunísia e encontrou a Grã-Bretanha mergulhada em uma grave crise política, com denúncias de corrupção envolvendo o gabinete do Primeiro Ministro, as lideranças do Parlamento e toda a classe política. Shame on us, indignou-se o bravo viajante, para quem os problemas de compostura têm sido tão danosos para nosso Reino quanto a saúva foi para o Brasil.
Sobre o fato de que se tornou público o hábito de Gordon Brown maquiar-se, mr. Miles comentou que a piada corrente nos condados ingleses é a de que o Primeiro Ministro atende agora por Gordon Rose.
A seguir, a correspondência da semana:

Prezado Mr. Miles: acabo de passar por uma terrível experiência de hospedagem em Mestre, na Itália. O hotel, que escolhi pela internet, ficava ao lado de um inferninho, com música insuportável a noite toda. Fui reclamar e o gerente me disse para lamentar-me com o dono do inferninho. Como evitar experiências assim?
Vasco Ruiz Pomares, por email

Well, my friend, I'm very sorry about you. Sua experiência me faz lembrar uma série de outras, ocorridas com alguns amigos e leitores indignados. São situações recorrentes. A mais divertida delas (ainda que very disgusting) aconteceu com um casal de amigos alemães. Wolfgang e Heidi, viajantes econômicos e autosuficientes, encontraram, na net, um pequeno hotel em Veneza por acaso bem ao lado da cidade de Mestre que você citou. Era, of course, um prédio antigo. O apartamento que ocuparam, no quarto andar, tinha o piso de tal forma inclinado que Wolfgang e Heidi acabaram tendo relações sexuais não-planejadas. Mas esse foi um benefício inesperado para o casal já de há muito entrado nos sessenta. O que os incomodou foi descobrir que a parede de seu quarto era toda grafitada com frases e desenhos obscenos, como se fosse a cela de uma penitenciária. O casal foi pedir que trocassem seu apartamento para a noite seguinte e, believe me, ouviu do gerente que todos os quartos tinham inscrições parecidas. “Mas vocês não limpam essa sujeira?”, protestou Wolfgang. “Ma che sujeira”? replicou o funcionário ?, “Questo e stilo!!!”.
Em outras palavras, fellow, bons conselheiros, agentes de viagem confiáveis e publicações com credibilidade ainda são um caminho mais seguro para evitar roubadas. Be careful com home pages repletas de jactância e websites que não exibam opiniões de hóspedes que já visitaram o estabelecimento. Você corre o risco de dormir ao lado de um ninho de camundongos (aconteceu com minha pobre tia Henriette), ou de reservar um seaview room que fica a cinco quilômetros da praia e oferece lindos posters da orla pendurados nos apartamentos. Do you know what I mean?
Ainda assim, é preciso ter cautela. O gerente de meu pub predileto em Dover, Todd Rivers, relatou-me, certa vez, que, foi para Toledo na Espanha com sua beloved Nancy e elegeu um hotel bem avaliado em um website por sua localização, limpeza e tamanho dos apartamentos. Quando chegou ao local, com a reserva devidamente paga, descobriu, however, um banheiro de dimensões tão diminutas que só lhe permitia usar o vaso sanitário com a porta aberta, com os pés, as tíbias e os perônios invadindo o sleeping-room. O pobre Todd, by the way, tem 2 metros e 3 centimetros de altura...

 


21.05.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 16:27:49.

Aparentemente ainda em Sidi Bou Said, na Tunisia (não há nada, em sua mensagem, que indique mudança de localização), nosso intrépido viajante continua abrindo sua caixa postal e respondendo às questões de seus leitores.
A propósito de sua última coluna, na qual se refere às viagens dos parlamentares brasileiros, mr. Miles informa que achou especialmente espirituoso o email de Lúcio Tavares, de Belo Horizonte, segundo a qual “ a única diferença entre um político e um ladrão é que o político a gente escolhe enquanto o ladrão escolhe a gente”. Tavares, aliás, confessa que a ilação não é de sua autoria e supõe que, pelo brilho, deva ser da lavra de Millôr Fernandes.

Prezado Mr. Miles: sou uma fã de suas viagens e ficaria muito feliz de, um dia, hospedar-me em um de seus hotéis preferidos. Existe algum que guarde registro de suas passagens?
Ivonete Mendes Lima, por email

Well, my dear, agradeço a gentileza de sua admiração e espero continuar a merecê-la. Como você sabe, however, tenho por hábito jamais citar hotéis, pousadas e outros refúgios, exceto quando eles são protagonistas de alguma das histórias que tenho para contar. Não o faço por egoismo ou para preservar minha privacidade. Isto seria disgusting. O fato é que grande parte dos que se consultam comigo fazem-no em busca de recomendações pontuais. “Mr. Miles: dê-me uma dica sobre uma pousada bem localizada na praia do Espelho ou Mr. Miles: estou indo para Capri e gostaria muito de uma indicação de hospedagem” são mensagens recorrentes às quais não posso responder. Let me explain why not: o objetivo destas linhas é inspirar e motivar viajantes renitentes, com a intenção de que troquem suas prioridades materiais (um carro novo, uma televisão de plasma e todas essas gadgets irrelevantes) pelo valor intransferível e imorredouro que é conhecer as gentes, os hábitos e as esplêndidas atrações desse planeta que nos pertence.
Tento fazê-lo através de minha vivência, com o humor possível e, of course, jamais escondendo o encantamento de minhas descobertas and the funny side of my mistakes.
Não sou, therefore, um consultor de endereços. Besides, com a oferta crescente de hospedagem, considero qualquer indicação desse tipo leviana. Acho que para ter alguma chance de não frustrar a expectativa do consulente, é preciso conhecê-lo profundamente. Ou, por outra: para escolher aonde ficar em suas férias, talvez seja melhor perguntar ao seu analista do que a um estranho — o que, by the way, não é o meu caso, já que há anos sinto-me próximo de meus leitores.
Last, but not least, espero que você, my dear Ivonete, compreenda meus pruridos éticos. Tenho, as you know, amigos e afilhados em quase todos os estabelecimentos que frequento. Mencionar um deles significa magoar os demais — e essa é uma atitude que não faz parte de meus princípios.
Quanto a lugares que guardem indícios de minha passagem (físicos, I presume), sim, existem muitos. Alguns têm bowler hats que deixei, outros guardam garrafas de whisky para quando eu voltar, e há os que, generosamente, emolduraram alguns manuscritos que produzi durante a estadia. Para descobrir quais são esses estabelecimentos, meu conselho de sempre, darling: viaje. Viaje muito e boa sorte!

 


13.05.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 11:45:44.

Nosso célere viajante está em Sidi Bou Said, na Tunisia por duas razões bem distintas. Uma delas, “de cunho militar”, segundo suas palavras, para celebrar o aniversário da derrota imposta ao Afrika Korps, naquele país, pelas tropas de Montgomery, no meio das quais ardia de calor um certo Lieutenant Miles. O outro motivo — porque ninguém é de ferro —, foi aproveitar o já generoso calor levantino para deliciar-se nas águas do Mediterrâneo. Miles, sempre discreto, não revela se está ou não na companhia de sua famosa amiga tunisina, a atriz Claudia Cardinale.De lá, ele enviou a correspondência da semana:

Mr. Miles: todo mundo sabe que você é um defensor radical do direito de viajar. Agora, por pressão popular, nosso Congresso “cortou” o festival de viagens que nossos representantes faziam, ofereciam para seus amigos e, em alguns casos, até vendiam. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
Dr. Paulo Mello Savoia, por email

Well, my friend, trata-se, again, de um convite para que eu me intrometa em assunto interno da política brasileira, ingerência que sempre me soa indelicada. However, fiquei sobejamente surpreso ao saber que vossos representantes conquistavam, junto com o mandato, essa extraordinária regalia. Compreendo agora porque há tantos candidatos nas eleições brasileiras…
Unfortunately, não tenho tempo de acompanhar o desempenho da Câmara dos Comuns em Brasília, mas sou levado a supor que, tendo viajado abundantemente mundo afora, vossos legisladores são todos homens muito cultos, com vasta referência internacional. Devem falar, of course, vários idiomas e possuir notáveis bibliotecas com relatos de soluções bem sucedidas em outras nações nas áreas de saúde, educação, cultura, saneamento, obras públicas etc. Am I right?
Por outro lado, a sua noticia me dá conta de que o incomum benefício foi cortado por pressão popular. O que isto significa? Estariam os nobres deputados e senadores brasileiros desprezando a infinita sabedoria que o conhecimento de outros povos, costumes e idéias poderia lhes proporcionar? Oh, my God! Será possível que, ao invés de utilizar o mais valioso dos benefícios para adquirir estofo e ilustração, os egrégios representantes optaram por banhar os sufrágios de seus eleitores nas águas tépidas do Caribe? Ou por arriscar seu estipêndio e seus jetons nas mesas de jogo de Las Vegas?
It would be disgusting, isn’t it?
Viajar, como já disse e repeti, não é o ato de locomover-se de um lugar para o outro. É, em minha modesta opinião, uma forma de arte, que envolve sonho, bom-senso, estudo, observação e reflexão. Aqueles que viajam às próprias expensas têm até o direito de sonhar mal, estudar pouco, observar errado e fazer reflexões pouco brilhantes. At least, eles estão pagando por seu próprio prejuizo.
Já os que ganham esse direito às custas de toda uma nação, deveriam usá-lo apenas e sempre em proveito dela mesma.
E se assim o fizerem estarão auferindo, de qualquer maneira, todo o engrandecimento pessoal reservado aos viajantes. Don’t you agree?

 


07.05.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 14:14:37.

O advento do novo tipo de gripe fez com que nosso grande viajante recebesse um sem número de cartas e emails, instando-o a posicionar-se sobre os conselhos que daria aos viajantes em uma situação como essa. Mr. Miles manda dizer aos consulentes que é preciso agir com bom-senso e evitar as regiões atingidas pelo pânico, “porque o pânico, indeed, faz mais estragos em uma viagem do que uma gripe”.
Lembra, entretanto, que o mundo é muito grande e o prazer de viajar, segundo estudos da Universidade de Oxford, aumenta consideravelmente a quantidade de anticorpos na circulação sanguinea. “So keep traveling, friends. And enjoy”.
A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: já ouvi falar em hotéis em cavernas, hotéis submarinos e, até, hotéis-cápsulas no Japão. O que o senhor acha dessas invenções e qual foi o hotel mais estranho em que já se hospedou?
Breno Hideo Sensini, por email

Well, my friend: a criatividade humana não tem limites. O que, unfortunately, quase sempre resulta em desastres. Don’t you agree? Hotéis e similares são, historicamente, lugares preparados para dar hospedagem aos viajantes. Podem fazê-lo discretamente, podem oferecer mais ou menos conforto, podem ser melhor ou pior localizados. Quando, however, decidem fazer da estadia uma “experiência” — palavra, aliás, muito em voga no setor —, aproximam-se, dangerously, da tortuosa estrada do ridículo.
Fato, aliás, que frequentemente não abala suas finanças, porque, for sure, há sempre uma quantidade grande de hóspedes igualmente desprovida de limites para o bom-senso. Veja o caso dos hotéis de gelo, fellow. Eu não poderia acreditar, mas o fato é que há milhares de pessoas capazes de trocar o conforto de uma cama pelo incômodo prazer de pagar para dormir sobre uma lápide de gelo, em quartos (sem banheiros, of course) com temperatura inferior aos cinco graus negativos.
Isn’t it amazing?
Tenho uma velha amiga que tornou-se gerente de um hotel-guindaste no bairro de Harlingen, em Amsterdam. A crane hotel!!! Os hóspedes pagam nada menos que 500 dólares americanos para dormir na cabine da geringonça, com direito a acionar as alavancas que podem elevar o “apartamento” até 49 metros de altura. E, believe me, é preciso reservar com enorme antecedência!
De minha parte, já dormi em cavernas na Capadócia, que, entretanto, eram confortáveis como hotéis de alto-padrão e reservavam vistas maravilhosas daquela estupenda maravilha geológica. Pernoitei, também, em tendas de beduínos na Jordânia, sentindo-me uma espécie de Lawrence das Arábias falsificado. Mas, confesso, jamais me senti tão ridículo quanto em Cottonwood, no estado de Idaho (EUA), para onde minha mascote Trashie insistiu que fossemos há algum tempo — motivada por uma foto que viu na internet. Trata-se do único apartamento em todo o planeta construido no, digamos, interior de um beagle gigante, ligeiramente assemelhado com o célebre Cavalo de Tróia. O estabelecimento chama-se Dog Barg Park Inn e, of course, é decorado com pinturas e esculturas de beagles e outros cães. Trashie, vaidosíssima, fez questão de que eu colasse uma foto dela na parede. Foi verdadeiramente disgusting. A única boa noticia é que, ao contrário das expectativas, o hotel, thank God, não latiu a noite inteira

Dog Barg Park Inn

 


05.05.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 11:38:20.

Olá Mr. Miles. Li outro dia em uma reportagem que alguns aeroportos do mundo se transformaram em verdadeiros parques de entretenimento para os passageiros. Alguns têm cinemas, salas de jogos interativos, shopping centers e até parques aquáticos. Na sua opinião, isso torna mesmo as longas esperas por atrasos de voos ou por quaisquer outros motivos menos penosas para os passageiros?
Andreia de Mattos Caldeira, Barueri, SP

In fact, Andreia: a necessidade de povoar os aeroportos de atividades suplementares é um resultado direto do crescimento da burocracia e da ineficiência no despacho de passageiros. O aeroporto de Frankfurt, by the way, oferece até um cassino para quem perdeu a esperança de embarcar — e, of course, ainda quer perder uns trocados.

 


29.04.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 14:20:56.

O homem mais viajado do mundo comemorou, na semana passada, o octagésimo terceiro aniversário de sua monarca e, como sempre, fez com que ela recebesse um buquê de raras rosas colombianas produzidas na propriedade de seu amigo Don Borquez Acuña de J. Daniels, 2615 metros acima do mar. Na oportunidade, contou à Rainha Elizabeth sobre suas últimas peripécias.
A seguir, a carta da semana:

Mr. Miles: o prefeito de Paris acaba de reduzir o espaço dos célebres cafés da rue Montorgueil. O que o senhor tem a dizer sobre o tema?
Miguel Kostiuk, por email

Well, my friend: a razão pode conduzir os governantes, mas, most of the time, é a falta dela que conduz os viajantes. Há poucos anos, extirparam-nos os legítimos doubledeckers de Londres. Os burocratas, of course, tinham calhamaços de motivos razoáveis para suprimir os ônibus de dois andares de nossa paisagem urbana. A cidade, however, viverá eternamente amputada de uma de suas mais notáveis marcas registradas. É o que se prenuncia, agora, na lovely rue de Montorgueil, em Paris. Tenho todos os motivos para crer que um bando de topógrafos competentes, auxiliado por uma chusma de urbanistas bem-intencionados hajam ceifado a superfície carroçável ocupada por cafés, bistrôs e restaurantes que, há intermináveis décadas, adornam o simpático logradouro parisiense.
Que importa, anyway, se a rue de Montorgueil, do jeito que era na prática e no coração de todos que a conheceram, fosse um dos endereços mais visitados de Paris?
Os tecnocratas, como todos sabemos, sempre têm razão. Haverá, em Istambul, um grupo de trabalho estudando com afinco a substituição do precário e charmosíssimo Grande Bazar por um magnífico shopping center nos arrabaldes da cidade. Don’t you agree? E em Roma, my God, como é que ainda toleram aquelas motonetas trafegando entre fusili e caneloni pelas vielas? Definitivamente é preciso suprimir esse clima de Dolce Vitta que nada acrescenta à Cidade Eterna.
E quanto aqueles canais infernais que atravancam a rotina de Amsterdã? Não resta dúvida de que urge criar uma comissão cuja meta seja canalizá-los, com incontáveis vantagens para a fluidez do trânsito e para o erário público.
A necessidade do silêncio, I presume, deve ser uma excelente razão para que o alcaide de Salzburgo determine, de uma vez por todas, o cancelamento de concertos e demais audições que entopem os ouvidos dos munícipes com acordes de Mozart. Quem sabe não seja uma boa idéia transferí-los para uma porção erma dos Alpes — desde, of course, que o Partido Verde esteja de acordo.
E o café com churros de Madri? Não haverá um órgão público que, após quantificar o excesso de calorias e gorduras saturadas presentes na tradicional iguaria, resolva proibí-los definitivamente?
And so on… que sejam abolidas as práticas anacrônicas como os beefeatears da Torre de Londres, a siesta da Espanha, os tartans escoceses e as gafieiras da Lapa. Que o brave new world cantado por Miranda em a Tempestade de Shakespeare seja um conjunto de normas ajustadas e pertinentes para pessoas que, finally, nunca mais vão querer sair da casa.

 


28.04.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 17:55:47.

Mr. Miles, sou um viajante assíduo e observo que, a cada dia, as aeromoças se tornam mais azedas com os passageiros. Ao contrário das doces e gentis senhoritas de outrora (tanto que a profissão era considerada mitológica para as moças e uma fantasia para os homens) hoje muitas delas não passam de matronas que, com rudeza, tratam passageiros como pedintes, mesmo que, em alguns casos, sejam passageiros de classe executiva ou primeira classe. O senhor já notou isso? Por que essa mudança tão desagradável?
Ramiro da Cunha, Rio de Janeiro, RJ

Well, Ramiro, ainda sobraram algumas agradáveis exceções a essa regra que, indeed, se estabeleceu nos nossos céus cada vez mais poluídos. Comemore quando encontrá-las. Quanto às comissárias adeptas ao azedume, my friend, trate-as com o carinho de que puder dispor. Suponho que elas vivem no ar, porque não há na terra quem as suporte. Don't you agree?

 


27.04.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 14:27:39.

Mr. Miles, pretendo fazer uma viagem enogastronômica e pensei em três destinos: Mendoza, na Argentina, Napa Valley, na Califórnia ou Franschhoek, na Africa do Sul. Em qual delas poderia aproveitar melhor a combinação destino-romance-degustação de vinhos?
Helio Gaspar Jr., Sorocaba, SP

Nihil obstat, fellow. Três rotas realmente inebriantes. Exceto, of
course
, pelo excesso de argentinos em Mendoza. Pessoalmente, eu recomendaria que você considerasse subir alguns graus na latitude e no teor alcoólico explorando o delightful circuito das destilarias escocesas.

 


22.04.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 23:19:09.

De volta à Inglaterra, nosso indiscutível viajante surpreendeu-se com a quantidade de comentários sobre a coluna que escreveu sobre o nome dos países, na qual comprovava que o Perú e a Turquia, por vias tortuosas, eram países homônimos. Mas eis que o leitor Carlos Pacheco, de São Paulo, acrescenta um novo elemento a esse enigma. Segundo ele, no idioma hebraico, a palavra “hodu” serve tanto para designar a Índia como, também, para batizar a célebre ave que é muito apreciada na ceia de Natal. Em outras palavras: há um terceiro país quem também significa Peru, estabelecendo, definitivamente, a supremacia dos meleagridideos no universo da nomenclatura das nações.
Intrigado, Carlos Pacheco quer saber de nosso correspondente de onde, afinal, provém, a mencionada ave.
Se da Turquia, da Índia ou do Peru? Mr. Miles, divertido com a polêmica esclarece: “Well, my friend: sinto desapontá-lo, mas o legítimo peru está fora dessas questões semânticas. Ele é originário, segundo consta, da América do Norte, lugar onde adoram devorá-lo no Dia de Ação de Graças.”
A seguir, a pergunta da semana:

Acompanho sua coluna e me sinto compartilhando suas viagens maravilhosas e colecionando seus conselhos de maior viajante do mundo! Minha família está programando para o próximo mês de julho uma viagem para a Europa. Gostaríamos de conhecer a Alemanha, passar por Praga e finalizar na costa da Croácia, mais precisamente em Dubrovnik. O senhor acha viável esse itinerário?
Teresinha de Lisieux Franco Miranda

Well, my dear Teresinha, não existe itinerário inviável: existem viajantes incapazes. O roteiro a que sua família se propõe é absolutamente factível. Um toque de Alemanha — sugiro, enfaticamente, que Dresden não fique de fora, agora que está completamente recuperada — , a sustentabilíssima beleza de Praga e, em um outro universo, a beleza confinada de Dubrovnik. Confinada, I must say, porque a “pérola do Adriático” é, in fact, apenas a interminável beleza contida no interior de suas muralhas, uma espécie de museu vivo das rotas venezianas, da cobiça bizantina e da resistência local.
Trata-se, darling, de território confinado — sujeito, portanto, à exploração obrigatória. It doesn’t matter quantas lojas modernas você encontrará encravadas nesse torrão do passado. A essência, as you will see permanece intacta. Como, as well, em Praga ou em Dresden, esta última cidade completamente reerguida em quinze ou vinte anos, seguindo, however, seu projeto original.
Não deixe, entretanto, de preocupar-se com a logística de suas férias. Carros alugados na Alemanha dificilmente podem ser devolvidos em Praga sem sobretaxas caríssimas. Vôos entre Praga e Dubrovnik devem, seguramente, incluir escalas em Zagreb, com a exiguidade de frequencias de praxe.
Be careful, my dear. Oriente-se com um agente de viagens confiável para que seus destinos adquiram a compatibilidade necessária. Mas não deixe de ir: houve um tempo — e nem tão longínquo —, que transitar entre a Alemanha, a República Tcheca e a Croácia era tarefa para grupos de paraquedistas armados ou comandos de elite. Hoje, thank God, as fronteiras estão abertas, como se espera de um mundo que precisa de nações para cuidar de suas partes, mas, indeed, pertence a todos nós.

 


17.04.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 12:01:55.

Mr. Miles, o que o senhor acha da mania que os turistas têm de comprar
souvenires em viagens? São uma maneira interessante de guardar uma viagem na memória?

Ada Dias Bastos, Juiz de Fora, MG

Well, my dear: não importa o que eu acho. O verdadeiro turista sempre compra alguma lembrança do lugar que visitou. Fair enough, isn't it? Como, by the way, quase todos os souvenirs do planeta são feitos na China, a aquisição tem a vantagem de lembrar dois lugares diferentes, isn't it? Só recomendo cuidado com as tentações... well... grandes demais, que vão ser um estorvo na viagem de volta — e para as quais
nunca haverá espaço em sua prateleira. Exemplos? Sombreros mexicanos são um clássico. Mas não há nada que supere, em matéria de inutilidade e desengonçamento, os berimbaus de Bahia. Don't you agree?

 


15.04.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 19:02:22.

O homem mais viajado do mundo anuncia que, em esforço inusitado, decidiu escrever estas linhas “em um desses minúsculos computadores que me convenceram ser especialmente adequados para utilizar em espaços exíguos, como, for instance, a mesinha de um avião. In fact, sobrevôo agora o Estreito de Ormuz tentando dedilhar a geringonça. Jamais, however, consigo produzir os caractéres desejados. É preciso ter os dedos delicados de um gafanhoto para lidar com esse microteclado, dádiva que, unfortunately, não possuo. Thank God, não deixei de trazer o caderno pautado e o lápis, para poder lhes contar sobre a viagem que ora fiz. Pois vejam só, my friends: estive em Delhi para testemunhar o casamento de meu bom amigo Zameer Khan com a linda Mumtaz.
Já fazia alguns anos que não ia à capital da India que, I must say, continua tão caótica e fascinante quanto nos tempos da dinastia moghul. A cerimônia foi bela e -- ao menos para os ocidentais convidados --, ligeiramente spicy. Até os docinhos, my God, vinham carregados com coentro, cardamomo e as diversas pimentas que alegram a rotina gastronômica dos hindus. Unfortunately, a India vive dias de paranóia extrema depois dos recentes atentados que sofreu. Todos os hotéis e atrações turísticas estão severamente vigiados. Apenas para exemplificar: meu inofensivo bowler hat foi submetido a tantas inspeções que, por pouco, não se esfacelou.
Enquanto isso, nas ruas, as multidões descontroladas seguem assediando indivíduos de aparência caucasiana no encalço de rúpias para sua sobrevivência. Compreendo, indeed, a legítima preocupação das autoridades com a segurança, mas poucas coisas enfeiam tanto um país quanto a presença ostensiva de homens armados e ameaçadores. Don’t you agree?
Com um pouco de nostalgia dos tempos em que viví por aqui, trafegando entre a India e a Birmânia, ouvindo lindas histórias contadas por Rudyard ( N. da R.: Rudyard Kipling, escritor inglês nascido em Bombaim), visitei os becos sempre cheios de novidade de Chandni Chowk, com sua unbelievable densidade de transeuntes, comerciantes, artesãos, sadhus e pickpockets. Yes, my friends: existe beleza no próprio caos, mas é preciso ter olhos para enxergá-la. Não é a beleza evidente do Taj Mahal, com sua linda história de amor e os detalhes de mármore trabalhados em pachikari — uma técnica ainda cultivada em Agra, que fica a parcos 200 quilômetros de Delhi. Estive lá também, guiando meu Ambassador alugado — uma das vantagens da Índia é o fato de que ali se conduz na mão correta. E, what a shame: o inofensivo mausoléu que é o cartão postal dessa nação tão populosa também está cercado de barricadas. Um exército para guardar o que restou de uma história de amor no Taj Mahal.
Unfortunately, outro evento me espera nos próximos dias em Londres. Volto ligeiramente incompleto pela brevidade desta passagem. Mas já tenho novos planos: assim que as monções passarem, por volta de outubro, retornarei a Delhi para rever my old friend Jiggis Kalra, um mago da gastronomia hindu. E prometo-lhes novas histórias. Is it all right for you?

 


13.04.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 10:33:10.

A propósito de recente menção de mr. Miles à Holanda, o leitor Richard Overgoor pede que se esclareça que o nome correto do país conhecido pelas tulipas e pelos moinhos é Países Baixos, tradução literal de De Nederlands, em flamengo ou Netherlands, em inglês. Explica o leitor que esse nome deriva do fato de que cerca de 40% do território do pequeno país europeu situa-se abaixo do nível do mar e só pode ser habitado graças a um notável sistema de diques. “Holanda — explica o atento leitor —, é apenas o nome de uma província, da qual se originava grande parte dos navegadores que desbravaram novas fronteiras nos séculos 16 e 17. Perguntados de onde vinham, eles diziam: ‘Da Holanda’ — e o nome pegou.
Nosso incansável viajante agradece a intervenção de mr. Overgoor e aproveita para mencionar que “a questão da nomenclatura dos países é, indeed, deveras complicada e pouco criteriosa, resultando em fenômenos curiosos. Os alemães, por exemplo, que todos sabemos viver em um lugar chamado Germany, ganharam o curioso apelido de Alemanha e termos parecidos por parte dos povos de língua latina. However, eles têm certeza de que seu país chama-se Deutschland! It’s amazing, isn’t it? Ainda mais curioso é o caso de dois países sem qualquer compatibilidade étnica, histórica e geográfica que, mesmo ocupando continentes distintos têm o mesmo nome, que é também o nome de uma ave da familia dos meleagridideos muito apreciada nos grandes banquetes. Refiro-me, of course, à Turquia, que no idioma de Shakespeare, Bernard Shaw e James Joyce chama-se Turkey, ou peru, na língua de Camões, Machado de Assis e, my God, Paulo Coelho. Em outras palavras, my friends, pela estranha via da transliteração dos nomes dos países, a Turquia e o Peru são nações homônimas… E mais não digo porque vocês hão de pensar que exagerei no scotch.”
A seguir, a carta da semana:

Mr. Miles: gosto muito de sua coluna e gostaria de saber: o senhor é mesmo o homem mais viajado do mundo?
Matheus Cohen de Francesco, por email

Revestida em diferentes embalagens, my friend, a sua pergunta vive aparecendo em minha caixa postal. Volto a dizer que não tenho a menor idéia sobre a legitimidade desse epíteto, a mim atribuido por diferentes publicações around the world. Não me consta de que meu nome apareça no Guiness Book of Records, uma bem-sucedida idéia de meu saudoso amigo, sir Hugh Beaver, à época diretor-administrativo da indústria de cervejas Guiness da qual, by the way, alguns amigos irlandeses quebram diariamente o recorde de ingestão. Não sou um colecionador de países, nem desperdiço meu precioso tempo de viajante calculando as milhas que percorrí, as cidades que visitei ou os lugares onde estive. O própria frase que ilustra essa coluna, indicando o número de países e territórios ultramarinos supostamente no meu curriculo é uma divertida alegoria dos editores com o objetivo de valorizar meus modestos feitos.
Devo presumir, however, que fatores como a minha extraordinária longevidade e a indesmentível curiosidade que tenho pelo desconhecido fazem desse modesto súdito de Sua Majestade, a Rainha Elisabeth, um viajante invulgar.
Há, in fact, os que se impressionem com os passaportes que guardo na casa de tia Abigail — catorze volumes encadernados, com uma espessura ligeiramente maior do que a Enciclopédia Britânica —, mas esse parâmetro também tem pouco valor desde que muitas nações aboliram o carimbo de recepção.
Meu conselho, dear Matheus, é que você dê menos atenção a esses detalhes e, as soon as possible, parta também mundo afora. Se você aprecia a minha coluna como diz, esse será um ótimo caminho.

 


por Mr. Miles, Seção: Geral 10:23:14.

Nosso obstinado viajante retornou ao Condado de Essex para saudar o início da primavera. Contou-nos apenas que suas begônias já estão dando sinal de vida, mas anda preocupado com as petúnias “que estão necessitando de um pouco mais de luz e cuidado, como tudo nessa vida”.
De lá, enviou-nos a correspondência da semana:

Querido mr. Miles: sou dessas pessoas que gostam de viajar em grupos organizados e, em minha opinião, os guias turísticos fazem toda a diferença. O que o senhor acha deles?
Egle Conceição Mateus, por email

Well, my dear: concordo que os guias, comandantes de excursões turísticas, fazem toda a diferença em uma viagem. O poder que a eles é conferido, in my opinion, chega a ser atemorizador. É claro que não me refiro aos guias ciosos, que realmente conhecem seu ofício. Esses, by the way, costumam ser mestres exemplares e suas narrativas, com forte embasamento, são indispensáveis para que o viajante entenda a atração que está visitando, o contexto histórico em que ela surgiu, as vidas que ela comemora ou as mortes que pranteia. Minha amiga Covadonga, uma solerte cicerone espanhola é, in fact, uma enciclopédia viva da história ibérica.
Durante os meses em que não está no assento dianteiro do ônibus distribuindo informações de microfone em punho, dedica-se a estudar novas regiões, submete-se a exames rigorosos e amplia seus conhecimentos. Jamais aceita conduzir um grupo em lugares que não conhece a fundo, para evitar informações superficiais ou temerárias.
Unfortunately, Egle, não se pode atribuir as qualidades de Covadonga a todos os guias. Pelo que pude perceber durante minhas jornadas pelo mundo, há vários tipo de guia em ação. Os criativos são, perhaps, os mais perigosos. Eles conhecem a matéria — vê-se logo. Mas cansam-se de repetir sempre a mesma história (porque, afinal, ela não muda) e começam a adicionar cacos. É assim que, suddenly, uma catedral qualquer torna-se “a mais esplêndida obra de arquitetura gótica do século 15” e o obscuro cardeal enterrado em uma de suas criptas passa a ser “o amante secreto da Rainha Fulana de Tal, castrado e decapitado em uma emboscada atribuida a ciganos, mas que, de fato, foi ordenada pelo próprio soberano”. A viagem torna-se mais excitante, isn’t it?
Mas é tudo apenas diversão de um guia entediado.
Existem, também, os patriotas. Eu mesmo fiz um tour pela República Tcheca sob a liderança da inesquecível Nádia. Todos os números que ela passava aos incautos viajantes — o tamanho da ponte, a altura do campanário, a largura do rio, a quantidade de habitantes —, eram exatamente 30% maiores do que a realidade. Can you believe me?
Existem, também, os francamente embusteiros. São uma espécie difícil de distinguir unless you have previous information. Em geral falam muito, mas nada faz sentido. As datas estão sempre erradas. Os nomes ligados aos castelos, igrejas e fortalezas que mostram soam verossímeis, mas são completa bobagem. Quando confrontados por algum turista mais atento, sempre tem uma resposta evasiva na ponta da língua. They are really dangerous!
É por essa razão, darling, que eu chego a ser cansativo ao sugerir que jamais se deve viajar sem literatura confiável ao seu lado. Melhor ainda é quando o viajante estuda antes o destino para o qual se encaminha. Se o guia for ruim, você estará protegida. Se for bom, however, sempre haverá algo mais a aprender com ele. Do you know what I mean?

 


25.03.09

por Mr. Miles, Seção: Geral 19:23:35.

Nosso extremado viajante está, nesses dias, exultante pelo nascimento de Tito, herdeiro de uma de suas mais queridas afilhadas, a bela e geniosa Natty, a quem ele viu crescer às margens do Lago de Annecy.
A chegada do pequeno delfim fez com que mr. Miles abandonasse uma programada incursão à Caxemira e voasse para Amboise, na França, onde a mãe deu Tito à luz uma noite após ter jantado um memorável spaguetti à carbonara. Convidado pela familia regozijante a segurar o recém-nascido, mr. Miles jura ter visto o menino olhando em seus olhos, a balbuciar, em oito idiomas, a palavra vovô. Ninguém acreditou nele, é claro. Mas, mais tarde, naquela noite, nosso correspondente foi visto sentado às margens do Loire com oito garrafas e uma taça de vinho ao seu lado.
A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: sendo o homem mais viajado do mundo, se pudesse, qual o país e cidade o senhor escolheria para morar com a família, considerando todos os aspectos, como segurança, estabilidade de governo, beleza do lugar, custo de vida, emprego, etc...Koiti Takeushi, por email

Well, my friend: como você sabe, sou um cidadão do mundo. Minha cidade é aquela em que estou. Meus concidadãos são as pessoas que vejo nas ruas, com as quais compartilho um copo e uma conversa, tenham elas a crença que lhes dê conforto e o idioma que lhes dê poesia.
However, Koiti, é de se supor que seres menos errantes do que eu tenham maior afinidade, always, com as cidades onde nasceram ou onde escolheram viver. Eu poderia citar-lhe inúmeros exemplos desta situação, mas basta-me falar de Steve Lockland, que não troca sua sombria Manchester por nenhum lugar no mundo ou Gonzalo Barrios, que não vê, no planeta, cidade mais bela do que sua querida Assunción, no Paraguai.
Atendo-me aos aspectos mencionados em sua correspondência, eu diria, by the way, que segurança é muito mais um estado de espírito do que uma qualidade urbana. Tenho amigos que sentem-se absolutamente tranqüilos vivendo em Cabul, no Afeganistão. Nevertheless, há outros que caminham sempre atentos e assustados mesmo morando na paz de Helsinque. A estabilidade do governo também conta pouco, dear Koiti. Cuba e a Coréia do Norte, for instance, são um primor nesse quesito. Nem por isso, I presume, Havana e Pyongyang são cidades especialmente agradáveis. A beleza do lugar, I agree, conta muito. Mas mesmo essa variável depende claramente de gosto pessoal. Não há metrópole geograficamente mais bela do que o Rio de Janeiro — embora Sidney, Hong Kong, Vancouver e a Cidade do Cabo disputem essa primazia. Mas o que pensará quem prefere o espanto das montanhas?
Custo de vida? Of course, my friend: quem não gostará de viver numa em que tudo é economico? Unfortunately, esse fenômeno está intrinsicamente ligado à pobreza do país. Ou seja: vantagens de um lado, desvantagens de outro. Don’t you agree?
Anyway, Koiti, o assunto que você me propõe é fascinante e polêmico. Como as pessoas, as cidades têm personalidade. Como nas pessoas, as well, o temperamento das cidades combina mais com alguns do que com outros. Minha sugestão, as always, é que você viaje muito. Passe pelas cidades e deixe que elas passsem por você. Irrite-se com algumas delas, apaixone-se por outras. Em algum momento, I’m sure, você descobrirá aquela que ocupou seu coração.

 


por Mr. Miles, Seção: Geral 19:15:10.

Well: because they are lovely,my friends. Essa região, no limiar do colorido deserto de Gobi, na Mongólia, é ideal para se atravessar a cavalo. É possível ir a pé, of course, mas quem o fizer vai adquirir, for sure, doloridas bolhas nos pés. Besides, montar em um cavalo mongol é sentir-se parte do poderoso exército de Gengis Khan. E, mais que isso, ter a oportunidade de fazer contato com um dos povos mais hospitaleiros do mundo. Durante a jornada, fellows, irão surgir curiosas cabanas redondas, à semelhança dos iglús. Não se confundam: são os gers, as casas dessa população nômade como os beduínos do Saara. Viajantes são sempre bem-vindos em um ger. Basta que sigam algumas normas da etiqueta local. Primeiro, a saudação aos presentes, não importa em que idioma for. Assim que entrar na cabana, contudo, é imperioso sentar-se. Se nós, ocidentais, demonstramos respeito permanecendo de pé, para eles o ato de por-se à vontade em suas casas é que tem esse significado. Mas não ponha uma perna sobre a outra, que é sinal de menosprezo. Cumprida essa simples liturgia, my friends, o ato seguinte será um sorriso amistoso e, probably um prato de byaslag, o curioso queijo de cabra local. Quando lhe servirem a vodka feita em casa, tenha cuidado. Se ela chamar-se arz, será fraquinha; se for harz, o teor alcoólico aumentará. Porém se alguém mencionar a palavra horz, beba com moderação. Ou prepare-se para alguns dias de ressaca.

 


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Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista do caderno Viagem





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