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02.05.08

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 17:53:27.

RECIFE - Encontrei aqui no Cine PE o Roger, de 'Zero Hora', e ontem mesmo lhe pedi notícias de meu amigo Tuio Becker, ex-crítico do jornal e que, nos últimos anos, vinha mergulhando no esquecimento provocado pelo Mal de Alzheimer. A mesma coisa, me disse o Roger. Hoje, no fim da manhã, ele chegou para mim, na sala de imprensa do festival, cheio de dedos e começou - 'Sabe o nosso papo de ontem, sobre o Tuio?' Intuí o pior. Meu amigo morreu, ontem à noite, em Porto Alegre. Tive de sair para um almoço do Cine PE, meio atordoado, confesso, e ainda tem este dente que não devia estar me doendo. Tuio Becker morreu! Imediatamente vieram-me lembranças. Tuio era de Santa Cruz, no Rio Grande do Sul, cidade de colonização alemã na qual nasceu meu pai. Os dois cursamos arquitetura - foi onde nos conhecemos, na Faculdade de Arquitetura da UFRGS - e o Tuio se formou arquiteto (eu larguei o curso), mas acho que nunca exerceu, porque a prioridade dele, como a minha, era o cinema e logo nos demos conta disso. Também compartilhamos o que foi meu primeiro emprego - ele já havia sido carteiro! -, no departamernto de audiovisual do Colégio Israelita-Brasileiro, criado pelo professor Ruy Carlos Ostermann. Preparávamos, Tuio e eu, material didático para utilização em sala de aula, sob a chefia do José Onofre. Naquela época, já era o início dos anos 70, viajávamos muito a Montevidéu para ver filmes proibidos no Brasil. Embora eles também estivessem sob uma ditadura, os uruguaios tinham mais cultura cinematográfica que os brasileiros e muitos filmes que a censura proibia aqui a gente via lá. 'A Laranja Mecânica', 'Decameron', 'Estado de Sítio'... Nunca fomos de falar muito de grandes autores. Nosso amor comum era pelos pequenos grandes diretores - Riccardo Freda, Edward Ludwig, Joseph H. Lewis, Gordon Douglas. Muitas vezes, ainda na Faculdade de Arquitetura, saíamos para almoçar e íamos parar na minha casa, principalmente nos dias em que a Dona Cecília, minha mãe, preparava as melhores almôndegas do mundo. No caminho, comprávamos um garrafão de vinho, de dois litros, Sangue de Boi, e comíamos e bebíamos. Não sei como conseguimos sobreviver a tanto vinho ruim. Tuio morava numa pensão. Certa vez adoeceu e eu fui visitá-lo em casa. Não tinha nada para beber, mas havia aquele vidro de Biotônico Fontoura. Tomamos como se fosse vinho. Foi o pior porre da minha vida. Tenho muitas histórias sobre Tuio que quero contar. Já tentei - mas na hora de salvar, deu pane na sala de imprensa do Cine PE e eu perdi tudo. Vim a uma lan house aqui perto, em Boa Viagem, mas ela fecha daqui a pouco, às 6. Confesso que me baixou uma tristeza infinita. A gente envelhece, os amigos vão morrendo... Sempre tive a maior dó de que Tuio tenha sofrido de Alzheimer, afundando no esquecimento. Mais de uma vez fantasiei - será que em algum compartimento, lá no fundo do inconsciente dele, permaneciam as lembranças de cinema? Meu amigo morreu. Cara... ca!

 

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Comentários:

Comentário de: maristela bairros [Visitante] · http://www.clinicadapalavra.blogspot.com,www.coletiva.net
02.05.08 @ 18:32
Pois é, Merten. Antes de sair para aquela tristeza toda de me despedir do Tuio, ainda passei no teu blog e vi teu post sobre a dor no dente. Como eram 15h, eu tinha de enviar meu artigo para o Coletiva e tudo terminaria às 17h, fui no meu caminho. Voltei há pouco, fiz minha homenagem pra ele no meu blog e vim te ler. Dividimos, então, esta tristeza. Um abraço forte
Comentário de: bruno [Visitante]
02.05.08 @ 18:50
Ohh, desculpa aí senhor-só-bebe-vinho-fino...rs...
Mas há sabores especiais que só a memória pode saboreá-los...

Este seu e de seu amigo por exemplo...Acho que é a memória que nos faz (sobre)viver apreciando ou não um bom vinho...o que em situações como essas é o que menos importa...

Dá-lhe Proust....mas tu é um proustiano mesmo em Merten...Que saudades tuas.
Comentário de: paulo moreira [Visitante]
02.05.08 @ 19:42
Merten, todos nós jornalistas que, de uma maneira ou outra, convivemos com o Tuio, estamos desolados. Como trabalhei dez anos (!!!) na Rádio Gaúcha como produtor (Lembra??), convivi diretamente com o Tuio no andar de cima, na Zero Hora. Era uma figura maravilhosa, na dele, mas muito engraçada que fazia julgamentos fulminantes de filmes, às vezes, superestimados. Lembro da última vez que o vi, já com a doença, no lançamento do seu livro em Gramado. Lá, ele já tinha dificuldade de lembrar os nomes de muitos dos seus amigos. Fiquei constrangido de ir pedir o autógrafo para que ele não passasse pela real possibilidade de não me conhecer. Estamos todos muito tristes. Não sei se sabes, mas nós cinéfilos e jornalistas gaúchos acabamos de fundar a Associação dos Críticos de Cinema do RS, cuja presidente é a Ivonete Pinto e o Roger Lerina é o vice. Eu faço parte da chapa como 2º tesoureiro - logo eu que não consigo nem gerenciar meu próprio dinheiro !! No nosso próximo encontro, vou sugerir algum tipo de homenagem ao Tuio. Abraços tristes do Paulo Moreira
Comentário de: Mateus Silva [Visitante]
05.05.08 @ 10:32
A sessão de domingo, 4, do Clube de Cinema, na Sala PF Gastal, na Usina do Gasômetro, foi em homenagem ao grande crítico Tuio Becker.
Comentário de: Roberto [Visitante]
05.05.08 @ 22:40
Lindas (apesar de evocadas por tristes notícias) estas tuas lembranças que, generosamente, compartilhou conosco.

É o que me encanta e me faz sempre lembrar com prazer - Puxa, ainda não visitei o blog do Merten, hoje.

Não só o seu conhecimento "indecente" de cinema, mas a forma com que escreve, num fluxo de pensamento muito bonito de se acompanhar.
Comentário de: Marcelo Lyra [Visitante] · http://www.rapaduradehumor.zip.net
06.05.08 @ 17:19
Lindo texto sobre o Tuio, que conheci num almoço em Gramado, apresentado por você. De vez em quando leio textos dele, no livro Sublime Obsessão.
Pena que desta vez eu não fui a Recife. Sempre conseguia salvar os textos que vc perde por ser meio estabanado virtual.
abração!
Comentário de: eron duarte fagundes [Visitante]
07.05.08 @ 19:42
No universo de camaradagem e de política da hipocrisia da crítica de cinema gaúcha e brasileira, Tuio Becker é certamente um dos três ou quatro pensadores cinematográficos brasileiros em que a paixão crítica pelo cinema é o que de fato informa o pensamento fílmico.
Comentário de: eron duarte fagundes [Visitante]
07.05.08 @ 19:44
No universo de camaradagem e de política da hipocrisia da crítica de cinema gaúcha e brasileira, Tuio Becker é certamente um dos três ou quatro pensadores cinematográficos brasileiros em que a paixão crítica pelo cinema é o que de fato informa o pensamento fílmico.

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