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01.12.09

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 12:46:50.

Hoje, vamos falar de Raffaello Matarazzo. Raffaello quem? Antes disso quero agradecer ao Maurício pela (valiosa) informação - 'Eva', de Losey, será lançado pela Lume no começo de 2010? Que venha logo o novo ano e um dos grandes filmes desconhecidos da história do cinema. Aliás, tenho de fazer mea culpa. Durante tanto tempo - anos - falei de 'Vagas Estrelas da Ursa' e aí o filme de Visconti saiu em DVD. Antônio Gonçalves Filho contemplou-o com uma resenha - minúscula - no 'Telejornal' e isso queimou as chances de nos debruçarmos mais longamente sobre essa obra fundamental, que mereceria uma capa. Espero que tenha(mos) oportunidade de debater com mais propriedade 'Eva', que Jean Tulard contrapõe, equivocadamente, como projeto mais 'comercial', ao que seriam os filmes mais pessoais do grande diretor. Todo Losey está em 'Eva' - sua crítica ao capitalismo, a transformação da luta de classes em luta dos sexos, a análise social por meio do estudo de indivíduos e o distanciamento crítico que ele assimlou de Bertolt Brecht, com quem trabalhou no teatro. 'Eva' traz Jeanne Moreau num dos grandes papeis de sua carreira e o filme, inclusive, é a matriz para 'Modesty Blaise', que o próprio Losey fez, baseado na heroína dos quadrinhos, mas isso pede uma análise mais apurada, que vou deixar para quando o filme sair. Volto a Raffaello Matarazzo. Raimundo me pediu, e não foi de agora, que falasse sobre um velho filme com Amedeo Nazzari, 'Filhos de Ninguém'. Os jovens não devem saber, mas Nazzari foi um dos grandes galãs da história do cinema italiano e, por isso mesmo, Fellini fez dele o astro que leva Giulietta Masina para sua casa e depois a dispensa em 'As Noites de Cabíria'. Em 1951, Nazzari fez este melodrama, 'I Figli di Nessuno', ao lado de Yvonne Sanson. Raffaello Matarazzo dirigia. Seu nome nem aparece no 'Dicionário de Cineastas' de Rubens Ewald Filho. Jean Tulard pelo menos o cita no 'Dicionário de Cinema', dizendo que Matarazzo deve sua fama ao culto que cerca seu melhor filme, o sádico 'La Nave delle Donne Maledette', A Nave das Mulheres Malditas, idolatrado pela revista francesa 'Positif'. Matarazzo foi crítico e se iniciou fazendo documentários e, depois, comédias. Como Riccardo Freda, outro grande italiano, não se incorporou ao neo-realismo e, em 1949, com produção da Titanus, substituiu o humor pelo melodrama e fez 'Catene', também com Amedeo Nazzari. Foi o ano de 'Stromboli', de Rossellini, De Sica preparava-se para fazer 'Milagre em Milão' e Raffaello Matarazzo virou o mais bem sucedido diretor da Itália, com um sucesso que arrebentou em toda a península. A crítica reagiu banindo-o do mapa. O público, ignorante, deveria ter preferido o neo-realismo, mas não o fez. Só nos 70, após sua morte (em 1966), houve um movimento para reabilitar Matarazzo. Aí surgiu o culto não apenas à sua 'Nave', que se inscreve na vertente do 'peplum' histórico, mas também ao seu 'Giuseppe Verdi'. Fui consultar, no arquivo do 'Estado', o verbete do diretor na velha 'Enciclopedia General del Cine', da Editora Labor, de Barcelona e o verbete elogioso diz que Matarazzo desenvolvia seus melodramas com 'precisão milimétrica e imperturbável seriedade'. Que definição, hein? Nunca vi 'Os Filhos de Ninguém', mas presumo que vocês, que adoram navegar, se forem à rede talvez consigam achar o filme. Não estou recomendando que pirateiem, mas pode ser o único acesso a 'Os Filhos de Ninguém', a menos que a Versátil siga sua trilha. De minha parte, prefiro esperar que a Versátil cumpra antes sua promessa de nos devolver, em sua plenitude, os melodramas de Mauro Bolognini.

 

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Comentários:

Comentário de: Mário Kawai [Visitante]
02.12.09 @ 11:05
A Lume promete para o início do próximo ano três grandes lançamentos:
Para janeiro:“O Espírito da Colméia”, de Victor Erice, “O Intendente Sansho”, de Kenji Mizoguchi (grafado como “O Intendento Shando”)
Para fevereiro: “O Segundo Rosto” (Seconds), de John Frankenheimer, com a melhor atuação de Rock Hudson e sobre o qual Merten já escreveu no blog.
Há um outro filme prometido para janeiro e gostaria que Merten, se possível, fizesse algum comentário. Trata-se de “O Amor” (Szerelem), produção húngara de Károly Makk, considerado obra-prima e que desconheço.
Comentário de: Raimundo [Visitante]
02.12.09 @ 23:38
Grato por sua resposta. Você consegui esclarecer o que eu precisava para formar um quadro a respeito de "Filhos de Ninguém". Lembro-me de tê-lo visto, ainda criança, no Cine Teatro Cliper de propriedade de meu pai (meu Cine Paradiso). O cinema que ele construiu em Ipirá, Bahia por volta de 1956, se não me falha a memória. Não época, eu não sabia o que era um melodrama, mas percebia que todos no cinema estavam muito emocionados. A sequência final ainda estão gravadas nas minhas retinas: uma freira, do alto da janela convento, de maneira furtiva, joga flores sobre o caixão que passa. Flores que ela retira do pequeno altar da Virgem Maria. Penso que o morto era um adolescente seu filho. Grato, muito grato. Quanto a Mauro Bolognini, assino embaixo. Tem gente que afirma ser ele um subVisconti. Discordo radicalmente dessa visão reducionista. Que tal escrever os primeiros filmes dele?! Gosto de "A Longa Noite de Loucuras" e também de "Metelo", de "A Herança dos Ferramonti e de "A Dama das Camélias". Acredito que resistiram ao tempo. Por hoje é só. Ah, não posso me furtar: gosto muito quando você escreve sobre as peças que aprecia. Parece-me que o crítico de cinema não abomina a velha arte do teatro.
Comentário de: Rubens [Visitante]
29.12.09 @ 09:04
- "Os Filhos de Ninguém" exibido em São Paulo por volta de 1954 com Folco Lulli, Amedeo Nazzari, Ivone Sanson e outros foi um filme que ficou em cartaz por muito tempo nos cinemas da Capital.
Narra a vida de uma empresária de uma grande marmoraria em Carrara, cujo filho "Guido" Amedeo Nazzari, se apaixona pela filha de um empregado.
A mãe dêle se opôem tenazmente contra o romance, contando com a ajuda do capataz Folco Lulli que simula um incêndio em cuja casa estava a criança que nascera fruto daquele amor.= A mãe desolada, vai para o convento e torna-se freira, pensando que o bebê morrera no incendio
Levam o bebê para ser criado longe dali, mas o destino quiz que quando ficou adolescente sem saber veio trabalhar na mamoraria do pai....
- Bem daí prá frente, o filme torna-se mais
comovente, levando muito telespectador
ás lágrimas.. !!
Obs: uma cena marcante... quando na estrada a criança encontra a freira e dá-lhe de beber sem saber que se tratava da sua própria mãe....

Rubens

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