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13.11.09
Existe um filme sobre o qual fantasio muito. Nunca vi 'O Preço de Uma Vida' (Give Us This Day), que Edward Dmyrtryk realizou em 1949. P.F. Gastal volta e meia citava este filme nas suas colunas do 'Correio do Povo' e da 'Folha da Manhã' e eu acho que fui criando uma obra idealizada no meu imaginário. O filme com Sam Wanamaker e Lea Padovani também é conhecido como 'Christ in Concrete'. Acho até que saiu em DVD no Brasil, por uma dessas firmas pequenas, de arte, mas nunca o vi. Trata de trabalhadores, imigrantes ilegais, em Londres. Um operário é atingido por uma betoneira e é emparedado como Cristo, no concreto. Dmytryk depois colaborou com o macarthismo - como Elia Kazan - e, ao contrário do outro, que se alimentou do ódio, era mais frágil, sua carreira se diluiu e mesmo assim ele fez grandes filmes, especialmente o western 'Warlock' (Minha Vontade É Lei) e 'Os Insaciáveis', que dá de dez em 'O Aviador', de Martin Scorsese (a proximidade é porque ambos contam a história de Howard Hughes). Por que estou falando tudo isso sobre 'O Preço de Uma Vida'? Por causa de 'O Cristo Proibido'. Não sei se é o título, mas sempre fiz uma ponte entre o filme de Dmytryk, que nunca vi ('Cristo de Concreto') e o de Curzio Malaparte, que muito me impressionou e agora sai pela Platina em DVD. Em primeiro lugar, o autor. Malaparte foi um escritor italiano que flertou com o fascismo, virou comunista e escreveu livros polêmicos como 'Kaputt' e 'A Pele', que Liliana Cavani filmou (com Marcello Mastroianni, Burt Lancaster e Claudia Cardinale). 'O Cristo Proibido' foi o único filme que ele dirigiu, em 1951. Demorei muito para ver esse filme, mas também aprendi a amá-lo pelos olhos do Gastal e de Pauline Kael. A crítica norte-americana via similaridades entre Malaparte e Pasolini e dizia que 'O Cristo' antecipava 'L'Accatone' (Desajuste Social). a história se passa após a 2ª Guerra. Raff Valone faz o protagonista, que volta à cidade em que nasceu para tentar descobrir quem entregou seu irmão aos fascistas. Seu objetivo é a vingança e a presença do herói irado provoca sobressalto na cidadezinha que está saturada de guerra (e sonha ver cicatrizarem suas feridas). No desespero, seu melhor amigo, interpretado por Alain Cuny, confessa o crime que não cometeu - não foi ele o delator - para que Vallone realize logo seu desejo de vingança e o mundo possa voltar à normalidade. Sempre achei que Federico Fellini escolheu Alain Cuny para o papel do suicida Steiner, em 'A Doce Vida', por causa de sua participação no cult de Malaparte. O filme, como diz Pauline Kael, é aborrecido, tem defeitos, mas é fascinante. Malaparte foi excomungado pela Igreja Católica, que julgou o filme ofensivo, recebeu pedradas dos fascistas e se você acha que ele teve algum apoio dos comunistas, em cujas hostes se situava naquela fase de sua vida, bem, está enganado. 'O Cristo Proibido' adquiriu a fama de filme maldito, como seu autor. Malaparte era duplamente maldito, como escritor e cineasta. E era autor completo, porque, além da direção, assina sozinho o roteiro e fez até a música de seu filme. Não sei se deixo vocês com vontade de ver 'O Cristo Proibido', ou pelo menos curiosos. É uma porrada. Malaparte vem tardiamente enriquecer minha série dos 'italianos'.
Comentários:
Comentário de: Liú [Visitante]
15.11.09 @ 14:18Merten, a firma pequena que lançou o Preço de uma Vida é a Lume Fimes, responsável pelo lançamento no Brasil de filmes como Short Cuts, Madre Joana dos Anjos, Discreto Charme da Burguesia, Um Sopro no Coração, Vermelhos e Brancos, O Conformista, If..., Felizes Juntos, O Fundo do Coração e muitos outros de igual importância e qualidade. Lançou também a coleção Cinema Marginal Brasileiro agora em 2009.Já está no mercado há mais de dois anos e no site informa que em 2010 serão lançados Paisagem na Neblina, Lola, a Flor Proibida, Viagem do Capitão Tornado, Antes da Chuva, Intendente Sanshô, Corações Loucos e muita coisa boa mais. Fiquei surpreso e até mesmo decepcionado por você, um profissional da área do cinema, desconhecer a existência dessa distribuidora, que nada fica a dever à Vesátil ou Imovision. Talvez pelo fato dela localizar-se fora do eixo Rio-S.Paulo, pois fica em S. Luís do Maranhão. Sou do Recife, leio sempre o seu blog, gosto do seu jeito pessoal e afetivo de falar de cinema, por isso a minha surpresa e decepção quanto à sua ignorância a respeito dessa distribuidora tão diferenciada e importante para quem gosta de cinema autoral, que foge do padrão habitual dos multiplexes. O site dessa distribuidora é www.lumefilmes.com.br. Dê uma olhada lá e vc vai se surpreender com a qualidade dos filmes por ela lançados. Abraços.
Comentário de: sylvia.heluy [Visitante]
16.11.09 @ 11:34Liú, vou bancar a advogada de defesa do Merten sem ter sido contratada. Mas, há uns 2 anos ele fez menção a essa distribuidora de São Luis. Gravei o fato por ser de lá (morando no Rio), e de ter ficado toda orgulhosa por ler uma notícia sobre minha terra que não tratava do clã Sarney.
Comentário de: Marcos Sampaio [Visitante]
17.11.09 @ 13:01Vou ser advogado de Mertem também. Ele tambémfalava por aqui daquela ótima e infelizmente finada distribuidora de DVD sediada em Recife, a Aurora Filmes. Tenho certeza que no caso do "Preço", ou ele não sabia ou esquecera que a Lume Filme lançou o filme no Brasil.
Comentário de: Cabral [Visitante]
17.11.09 @ 16:47Merten nem precisa de advogados - ele se defende com as palavras, como sabemos - mas ele já falou não só uma mas várias vezes da Lume. Que, agora digo eu, não está no mesmo nível da Versátil e Imovision, mas sim da Continental e quejandos. Ele não merece receber os comentários levianos do sr. Liú.
Comentário de: Frederico Machado [Visitante] · http://www.lumefilmes.com.br
23.11.09 @ 11:51Calma minha gente! Na medida do possível, o nosso amigo Merten fala de nós! É bom vermos admiradores que não conhecemos e também pessoas que não tem o mesmo gosto que nós pelo cinema. Não somos tão grande como as citadas Versatil e Imovision, simplesmente por não possuirmos tanto capital de giro e sermos realmente independente. O que nos move é o fato de amarmos muito o cinema e tentarmos de todas as maneiras respeitar os filmes que lançamos e nosso público, tendo sempre um trabalho de curadoria forte. O Merten já comentou sim nossos filmes, não tão incisivamente, por não termos um trabalho de assessoria tão forte como essas outras empresas. Obrigado Liú, pelos comentários positivos acerca da nossa Lume, Merten, pelos comentários inteligentes sobre cinema e vida e de todos que debatem tão avidamente por cinema.
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