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26.01.10
TIRADENTES - Ando tão envolvido com a Mostra de Tiradentes - desculpem se não estou postando sobre os filmes, mas o fato de integrar o júri da crítica me impede de falar da competição -, que ando meio desligado dessa história de Oscar e até do Festival de Berlim, que este ano divulgou - está divulgando? - sua seleção à base de conta-gotas. Não sei nem a data exata do anúncio das indicações para o Oscar, se ainda será em janeiro ou começo de fevereiro (a premiação de 2010 será em março). Mas tenho acompanhado alguns indicadores. O Producer's Guild escolheu 'O Horror da Guerra', de Kathryn Bigelow, como melhor filme do ano e isso fortalece a candidatura da ex de James Cameron para os prêmios de filme e direção, depois que ela perdeu para ele o Globo de Ouro. O Actor's Guild escolheu Jeff Bridges ('Crazy Heart', que vi em Los Angeles) e Sandra Bullock ('O Lado Cego' - é assim mesmo que vai se chamar 'The Blind Side'?). Jeff é bom e há anos persegue o prêmio, mas eu confesso que tenho uma vaga implicância com ele. Reconheço que se trata de um dos atores mais conscientes de Hollywood, mas justamente por isso ele se toma excessivamente a sério. O cara que fez o psiquiatra de 'O Espelho Tem Duas Faces' tinha de ter mais noção do próprio ridículo, mas enfim... A disputa será entre Jeff Bridges e George Clooney? Xokito postou outro dia um comentário dizendo que acha que eu vou gostar de Meryl Streep em 'It's Impossible', pelo qual ela também deverá concorrer. Já vi, Xokito, em Paris, e acertaste - gostei. Aproveito o post para comentar os novos números de 'Avatar'. O filme já ultrapasssou a receita internacional de 'Titanic', do próprio James Cameron - US$ 1,28 milhão no último fim de semana, contra US$ 1,24 bi do outro filme. Só no mercado doméstico 'Titanic' ainda continuava à frente, mas a essa altura já era - uma diferença de US$ 2 ou 3 milhões, apenas. Cameron é f..., senhoras e senhores e já que o post está uma miscelânea vou acrescentar mais uma observação. Tenho pensado muito na floresta de 'Anticristo', de Lars Von Trier, como espaço interior, relacionando-a com a exuberante floresta de 'Avatar', que é um espaço da imaginação. Soube, por meio de Dib Carneiro Neto, que Gabriel Vilella, ficou louco pela floresta de Cameron como espaço 'cenográfico' e até vaticinou. Este ano, é tarde demais, mas no ano que vem com certeza a floresta de 'Avatar' estará proliferando seus clones nos sambódromos do Rio e de São Paulo. E vocês viram, né? O Vaticano está contra Cameron, acusando de querer criar uma religião da natureza em 'Avatar'. Se pelo menos a Sé acusasse o diretor de querer voltar à natureza... As primeiras religiões, eu acredito - posso estar enganado -, foram baseadas na força na natureza. Vi ontem um filme aqui em Tiradentes, 'Terras', de Maya Da-Rin, em que a índia fala da Terra como um espaço sagrado. Chega - vou terminar falando do filme de Maya, da competição de Tiradentes e não posso. Religiosamente, fiz meu voto de silêncio.
TIRADENTES - Há quase três anos, em abril de 2007, fiz um post intitulado 'A Proósito de Rod Steiger', no qual falasva sobre 'O Homem do Prego'. É o meu Sidney Lumet favorito, mais do que 'Serpico' e 'Um Dia de Cão', ambos com Al Pacino; 'Rede de Intrigas', sobre os bastidores da TV (de onde ele veio), com Peter Finch e Faye Dunaway; e 'Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto', do qual aprendi a gostar. Na época, lamentava que "The Pawnbroker', título originmal, parecvia um daqueles filmes que haviam entrado no buraco negro. Não passava na TV, nem na paga, e eu não tinha registro de que houvesse sido lançado em DVD nos EUA, pois nunca o vi à venda em lugar nenhum. Dois comentários em posts recentes, do Laércio e do Paulo Pacheco, me levam de volta ao 'Homem do Prego' e seu magnífico ator, Rod Steiger. O primeiro diz que conseguiu comprar e o segundo reitera que viu. Ficou compreensivelmente siderado. LUmet já era um diretor com alguma quilometragem quando fez 'O Homem do Prego' e, embora irregular, sua carreira já tinha seus pináculos - o longa de estreia 'Doze Homens e Uma Sentença', sobre os bastidores de um júri, com Henry Fonda, e 'Limite de Segurança', em que contou a mesma história de 'Doutor Fantástico', de Stanley Kubrick, de novo trabalhando com o pai de Jane Fonda. 'O Homem do Prego' foi um tremendo upgrade para Lumet, que contou a história desse homem que sobreviveu aos campos de extermínio dos nazistas, na Europa, e se estabeleceu em Nova York com sua loja de penhores. Sol é seu nome e não existe sujeito mais sombrio. Sol já morreu, por dentro, e agora, totalmente destituído dee humanidade, depois de perder a família, humilha e brutaliza os outros. O filme tem alguma coisa de 'O Cheiro do Ralo' - mais certo seria dizer o inverso, que o filme de Heitor Dhalia tem alguma coisa do de Lumet -, mas é muito mais complexo, até como linguagem, porque incorpora conquistas recentes (na época) de Alain Resnais na utilização do tempo e do espaço. Sol é perseguido por esses flashes do seu passado na guerra. Ao funcionário porto-riquenho, ele dá sua receita de sobrevivência - coma pão duro, bata nos filhos se estiverem chorando de fome e guarde todo o dinheiro que puder para um dia ter sua lojinha (e poder descontar nos outros). Claro que o filme não é só isso, porque seria insuportável - no sentido literal, de difícil de aguentar. O desfecho vem numa cena de grande intensidade, em que a humanidade represada de Sol vem à tona. Sempre pensei neste desfecho como 'kazaniano'. O tema da natureza humana que se recusa a ser reprimida é dominante na obra de Elia Kazan e ele ofereceu a Rod Steiger um de seus mais belos papéis, em 'Sindicato de Ladrões' (On the Waterfront). Cinéfilo dee carteirinha sabe de cor o monólogo de Brando, o ex-pugilista que lamenta para o irmão, na trazeira daquele carro, que poderia ter sido grande, se Rod Steiger não o tivesse forçado a perder aquela luta, destruindo sua carreira. Rod Steiger era um ator do método e muitas vezes foi excessivo e até maneirista, mas, além de ter sido casado com Claire Bloom - que eu amava -, fez esses filmes que ninguém pode desmontar da história. O de Kazan, o de Lumet e 'Le Mani sulla Città', de Francesco Rosi. (Na Itália, com a mulher, ele também fez o episódio 'Pecado à Tarde', no filme em esquetes 'Alta Infidelidade', que é maravilhoso - o curta, não o longa inteiro.) Não me lembro agora se o Laércio esclareceu onde comprou 'O Homem do Prego'. O filme saiu em DVD no Brasil? Foi importado? O importante é que Rod Steiger não é a exceção em 'O Homem do Prego' e o elenco impressionante tem Geraldine Fitzgerald, Juano Hernandez, Brock Peters e, não creditado, num pequeno papel como homem na rua, o jovem Morgan Freeman.
TIRADENTES - Cheguei cedo ao centro de imprensa da Mostra de Cinema. Tenho a capa de amanhã do 'Caderno 2' - aguardem que as entrevistas serão legais -, outra entrevista marcada para daqui a pouco e ainda quero assistir ao debate do primeiro filme da mostra Aurora, da qual sou jurado. Justamente por isso, não poderei escrever sobre 'Terras', o documentário de Maya Da-Rin nem sobre os demais filmes da competição. Sorry, mas no final dou um geral do que for - espero que boa - essa mostra organizada pelas 'meninas', como todos a elas se referem, carinhosamente, da Universo Produções. Mas o detalhe, e por isso não resisti a acrescentar logo o post, é que abri minha caixa de correspondência e encontrei o e-mail com o comunicado de Christine Aymée, attachée de presse do Festival de Cannes. Tim Burton será o presidente do júri na próxima edição do evento, que começa em 12 de maio. Antes disso, Burton exibe em Berlim, em fevereiro, sua versão de 'Alice no País das Maravilhas', que adaptou do livro cult de Lewis Carroll. Numa mensagem, explicando por que aceitou o convite de Gilles Jacob e Thiérry Frémaux, respectivamente, diretor geral e diretor artístico do maior festival do mundo, Burton diz uma coisa muito legal. 'Depois de passar meus jovens anos assistindo a programas triplos e fazer maratonas de 48 horas de filmes de horror, sinto-me pronto para Cannes. É uma grande honra e eu já estou impaciente para me encontrar com meus camaradas jurados e ver belos filmes vindos do mundo todo. Quando a gente pensa em Cannes, pensa no cinema do mundo.'
Junto com o e-mail veio um link para entrar no site do festival - www.festival-cannes.com. De cara, encontrei um texto muito bacana, que recomendo e que deve ter versões em inglês e francês. Li a primeira, francesa, mas a página do festival é bilíngue e a outra opção deve estar lá. É um texto sobre Eric Rohmer. Sob o título 'Rohmer, o Gosto da Liberdade', segue-se a informação, o briefing do enfoque, que me deixou com água na boca. 'Ele foi um imenso cineasta moderno, inventivo, lúdico, sensual e político. Muito maior do que os motivos pelos quais costuma ser incensado hoje.' Não deu vontade de ler? Vamos lá...
25.01.10
TIRADENTES - Nada como o tempo para recolocar as coisas em perspectiva. ÀS vezes, até tento ler o que os outros escrevem, mas em geral me desinteresso. Nas abordagens sobre o cinema brasileiro, a crítica dominante é hoje ao formato 'televisivo' dos filmes, como se isso fosse suficiente para matar o assunto. Não é, até porque, na maioria das vezes, o apelo ao tal formato é a forma mais preguiçosa de se desembaraçar de alguns títulos que os sujeitos, ou sujeitas, obviamente não estão achando dignos de suas luzes. Antigamente, os clichês eram outros e os críticos justamente falavam em estereótipos. Em Paris - preciso voltar a São Paulo para ver se touxe o folheto na mala, ou entre livros e revistas -, pegando carona na reprise de 'Quanto Mais Quente Melhor', encontrei esse texto de um cretino qualquer que caiu matando no clássico de Billy Wilder. Humor raso, situações estereotipadas, homofobia - numa época em que o termo ainda não era empregado -, o texto, além de um modelo de lugares comuns, poderia se referir a não importa que comédia, como em certos textos atuais se pode mudar o título do filme e o resto continua tudo igual. Ah, sim, por que estou escrevendo isso? Porque achei engraçado, mas também me surpreendo porque até hoje entram certos e-mails com comentários sobre posts antigos. Só hoje entraram dois sobre 'Canções de Amor', de Christophe Honoré, de pessoas que devem ter visto 'Non, Ma Fille' e quiseram conferir o que já havia escrito sobre o autor. Homófobo, antiquado, ultrapassado, mais gente quis me aposentar. E eu gosto tanto do Homoré, de 'Canções de Amor', inclusive, mas no texto estava tirando sarro de meu amigo Rodrigo Fonseca, machão de carteirinha, que se horrorizara ao ver o belo Louis Garrel - o belo é definição minha, Rodrigo não admitiria nem sob tortura - ceder ao garoto gay, quando tinha todas aquelas gostosas à mão. Na verdade, arrisco-me a ganhar novas pauladas, mas quero falar rapidinho de 'A Moda da Casa', que vi no sábado à noite, em Sampa, antes de viajar, no HSBC Belas Artes. O filme é sobre esse chef gay cuja maior preocupação na vida é adquirir a estrela do guia Michelin para seu restaurante. Ele vive para este mítico dia em que o enviado do guia vai se sentar em seu restaurante, mas aí sua ex-mulher morre e ele tem de assumir o casal de filhos, em meio a uma tempestade no seu local de trabalho (e na vida pessoal). Um amigo tinha ido vir e me disse que quase morreu de rir. Fui - e naquela sessão a plateia também se divertia imensamente. Clichês, piadas homofóbicas - tive a curiosidade, agora, de zapear na rede para ver o que haviam escrito sobre o filme de Nacho G. Velila. As críticas seguem nesse diapasão e poderiam ser sobre 'Quanto Mais Quente Melhor', pelo menos segundo aquele modelo de abordagem denunciado no folheto que descobri em Paris. Confesso que achei o diretor mais inteligente do que seus críticos. As piadas mais homofóbicas de 'À Moda da Casa' se baseiam sempre em aparências ou mal-entendidos e, como nós, o público, sabemos o que está ocorrendo, a reação das pessoas expõe o preconceito e, ao rir, é o próprio preconceito que temos de encarar (e o riso fica nervoso, quando não engasga). O problema do filme, e é um problema, é que o espectador antecipa o momento em que o protagonista vai rever suas expectativas e chegar a bom termo com o filho adolescente, que também vai aceitá-lo como é, percebendo o bom pai que tem, a despeito dos trejeitos e do affair de papi com o ex-jogador de futebol - argentino! - que sai do armário. Cinematograficamente, esse desfecho é débil, o que enfraquece - dilui? - a força do filme, mas eu acho que só de muito mau humor o espectador não vai curtir o que três atores 'almodovarianos' acrescentam aos papéis. Javier Cámara, de 'Fale com Ela', Lola Duenãs e Chus Lampreave são muito engraçados, sem deixar de ser humanos (todos!) e quem já entrevistou 'Pedrito' sabe que ele tem uns pitis parecidos com os do chef e até os exagera porque sabe que, no fundo, é o que se espera dele, como marketing, independentemente de ser um dos maiores e mais maduros homens de cinema do mundo. Espero não estar exagerando as 'virtudes' de 'À Moda da Casa', só deixando vocês com um 'pouquinho' de vontade de ver o filme de Nacho Velila. Que, a propósito, quem é?
TIRADENTES - Em Paris, encontrei como oferta – apenas 6,50 euros, na verdade foi na livraria do Beaubourg – um livro que achei que poderia ser interessante, “Eisenstein at 100, a Reconsideration’. Trata-se de uma coletânea de ensaios organizada por Al LaValley e Barry P. Sherr, tomando como gancho o centenário de nascimento de Sergei M. Eisenstein, comemorado com um seminário no Dartmouth College, em 1998. O livro vinha numa embalagem fechada, mas olhei a contracapa e os autores informavam que o fim do império soviético e a abertura de arquivos permitiam uma nova abordagem de temas antes proibidos sobre o autor. Comecei a ler no avião, entre São Paulo e Belo Horizonte e, depois, na van que fazia o transporte entre o aeroporto e Tiradentes. Consegui ler bastante e foi uma ótima aquisição, principalmente considerando-se a relação custo/benefício. Fala-se tanto em Eisenstein, mas não com essa abordagem. Por exemplo, a maioria da crítica analisa o primeiro e o segundo Eisensteins, destacando a importância da teoria da montagem expressa em ‘Greve’ e ‘O Encouraçado Potemkin’, para em seguida se concentrar nas dificuldades do artista não apenas com o regime, mas também em suas andanças pelo exterior, quando visitou os EUA e filmou o inacabado ‘Que Viva México’. Uma das novidades do livro é que resgata o Eisenstein final, destacando a importância da montagem atonal de ‘Ivan’ e também ressaltando os elementos autobiográficos que permeiam o díptico sobre o tsar que entrou para a história como o ‘terrível’. Esse último Eisenstein se preocupa mais com a mise-en-scène e transforma seu cinema em ópera, buscando a arte total.Vamos por partes. É muito difícil alguém discutir a homossexualidade ou, vá lá que seja, a bissexualidade de Eisenstein, mas é o que faz o próprio Art LaValley. Ele começa fazendo uma colocação interessante. Eisenstein é um dos autores de cinema mais estudados do mundo, mas não são muitas as mulheres, e menos ainda feministas de carteirinha, interessadas em se debruçar sobre ele. O motivo é simples – o cinema de Eisenstein é parco nem figuras femininas marcantes e, menos ainda, fortes. O homoerotismo, porém, transparece em ‘Que Viva México’ e ‘Ivan’, a ponto de permitir uma abordagem específica do assunto nesses filmes mais do que nos demais, embora a simbologia fálica de ‘A Regra Geral’, também conhecido como ‘O Velho e o Novo’, mereça uma análise em separado. (É um dos poucos filmes de Eisenstein que tem uma mulher forte, mas a inspetora é andrógina, quando não masculina. A mãe que conspira em ‘Ivan’ é outra coisa, inspirada que foi na madrasta de ‘Branca de Neve’.)
Pronto – abri outro parágrafo para que vocês possam respirar. Outra coisa a que o cinéfilo está acostumado é a discussão sobre o ateísmo de Eisenstein e sua crítica à Igreja e aos padres, mostrados como corruptos e venais. Rosamund Bartlett propõe outra leitura. Ela faz uma conexão muito original entre a obra de Eisenstein e o pensamento de um propagandista e teórico ortodoxo que foi seu contemporâneo, Florensky. A trajetória desse último foi oposta à de Eisenstein, que foi hiperreligioso quando jovem e, mais tarde, progressivamente se afastou da religião. Florensky foi um pândego que virou místico e religioso a partir de suas teorias sobre a busca do êxtase no rito ortodoxo e o que Rosamund propõe é que a busca de Eisenstein pela arte total, na verdade, segue os passos estabelecidos por Florensky em seus escritos. Para quem duvida, ela faz uma análise muito detalhada dos blocos de filmes e como o êxtase entra neles, exatamente como Florensky buscava, ou sugeria. E há, ainda, o estudo de Andrew Barrett, que num texto sugestivamente chamado ‘In the Name of the Father’, faz a conexão entre Eisenstein e Andrei Tarkovski. Preocupado em esculpir o tempo, por meio de planos longos etc, Tarkovski minimizava, quando não contestava, as teorias de montagem de Eisenstein. Barrett prova, por A + B, que sem Eisenstein não haveria ‘Andrei Rublev’ – que eu, particularmente, prefiro a ‘O Espelho’ e ‘O Sacrifício’. Foi uma aquisição bem interessante, a deste livro sobre Eisenstein, que ainda tem capítulos dedicados ao construtivismo, às relações do diretor com o regime comunista (e Stálin), sua influência sobre o cinema russo, o europeu de maneira geral e o mundial. Todo Eisenstein num volume. Belo poder de síntese, o dessa ‘reconsideração’.
TIRADENTES - Apesar da procedência, este post não tem nada a ver com a 13ª Mostra, mas não resisto a incluí-lo. Como vivo na contracorrente de meus colegas críticos, gosto de Ridley Scott ou de muita coisa que ele fez ('Alien', 'Blade Runner', 'Falcão Negro em Perigo' etc). Portanto, é muito provável que termine gostando do filme, quando estrear, mas me surpreendeu saber que ele acaba de fazer uma nova versão de 'Robin Hood', com Russell Crowe na pele do herói da floresta de Sherwood e Cate Blanchett como sua Lady Marian. Em princípio, me parece muito sem imaginação, mas não duvido que Ridley Scott vá imprimir sua marca e fazer, quem sabe, 'o' Robin Hood definitivo, embora eu goste muito do de Michael Curtiz e William Keigley, com a dupla clássica Errol Flynn/Olivia De Havilland, e tenha gostado, moderadamente, do dos dois Kevins, o Reynolds e o Costner. Mas eu confesso que o 'meu' Robin Hood é o de Richard Lester, com Sean Connery fazendo o herói envelhecido, e cansado de guerra, que volta para descobrir que Lady Marian (Audrey Hepburn) entrou para um convento. Como é bonito, e triste, aquele filme!
TIRADENTES - Sinto decepcionar o Marcelo, mas não vi o 'Quatro Cavaleiros do Apocalipse' em DVD, mas em Paris, numa cópia nova - celulóide! - na Filmoteca do Quartier Latin. Mas não sei se seria tão difícil assim conseguí-lo. Já tentaste a Amazon? Ou, quem sabe - nunca tentei -, a Carlota? É a distribuidora francesa que relança nos cinemas e em DVD filmes raros e de arte. Deve ter um site, com certeza. Sobre os 'Cavaleiros', havia um folheto com texto de Patrick Brion, autor de famosos livros sobre Vincente Minnelli e John Huston. Brion deve ser louco por 'Quatro Cavaleiros'. As cenas em que eles aparecem cavalgando em meio à bruma colorida, tem um tom artificial que é a própria essência do drama. Lembro-me que, em Porto Alegre, quando o filme estreou - deve ter sido em 1963 ou 64; as produções não chegavam tão rápído na época -, P.F. Gastal caiu matando no que lhe parecia simplesmente kitsch. Brion conta que nada foi mais difícil no cult de Minnelli do que a rodagem daquelas imagens. Os cavalos, todos campeões de saltos e obstáculos, foram treinados durante 60 dias para galopar e correr a velocidades controladas, em sincronia. As imagens não receberam nenhum tratamento posterior e o treino incluía os fogos e fumaças de diferentes cores. Dois meses! Hoje em dia, com o desenvolvimento dos efeitos 'pós', nada disso teria sido necessário. Me pergunto o que será mais criativo - o 'artesanato' dos caras, antigamente, ou as modernas tecnologias que tudo permitem? (James Cameron que o diga...)
TIRADENTES - Saí ontem no final da manhã de São Paulo e consegui chegar aqui em TIradentes às 6 da tarde. Mal tive tempo de fazer o check-in do hotel e já corri à tenda para minha primeira sessão da 13ª Mostra. Já perdi das vezes em que aqui estive, participando de debates e/ou assistindo a filmes. No ano passado, não vim. Adoro MInas e tenho boas recordações, inclusive aqui mesmo de Tiradentes, que visitei há muitos anos, antes que a Lúcia nascesse, com minha ex, Doris Bittencourt. Vi ontem dois filmes - estou aqui como jurado da crítica, mas a mostra Aurora começa somente hoje. O evento decolou na sexta, com uma hoimenagem a Karim Ainouz e prosseguiu sábado com a exibição de dois filmes que não encantaram muito - 'Insolação', de Felipe Hirsch e DAniela TYhomas, e 'Os Inquilinos', de Sérgio Bianchi. O seguindo, apesar de tudo, me interessou mais, mas implico com aquela imagem do final. Marat Descartes que vai à casa ao lado e vê seu pequeno mundo do ângulo dos inquilinos. Pela janela, sua mulher dá aquele sorriso enigmático que me incomoda demais ne desmonta tudo o que tento construir sobre o filme. Preciso revê-lo antes da estreia, de qualquer maneira. O próprioo Bianchi me disse que a estreia foi jogada para 26 de fevereiro, quando, teoriocamente, estarei chegando de Berlim - e isso se não emendar a Berlinale com a junkett de 'Alice no País das Maravilhas', em Londres. Volto às sessões de ontem. Assisti, de novo, a dois filmes que já conhecia. Foi ótimo. 'Morro do Céu', de Gustavo Spolidoro, e 'Os Famosos e os Duendes da Morte', de ESmir Filho, dialogam entre si e terminaram se iluminando, e enriquecvendo, de uma forma que me javia escapado. Gostei bem mais de ambos, que possuem muitas similaridades - feitos na mesma região do Rio Grande do Sul, falando sobre jovens, e tendo como protagonistas um garoto que, no fundo, quer fugir daquilo tudo. Em ambos existem trilhos, trens, os amigos, as mães indagadoras e, a despéito de 'Morro' ser documentário e 'Os Famosos', ficção, o tema dos dois, no fundo, é a linguagem. Os garotos de 'Morro' falam um portugês italianado que muitas vezes obriga a gente a seguir as legendas em inglês. São estudantes precários como os do filme de Esmir e o que seria uma diferença maior - maior que a morte - é o elemento homoerótico, mais intenso em 'Os Famosos', cuja linguagem é a do computador - mas, no fundo, as pessoas secretam e fabulam em ambos. Gostei muito das intervenções do garoto de 'Morro', tentando se comunicar com a sua 'borboletinha' pela via do rádio e, desta vez, finalmente, fui tocado pela fragilidade das personagens femininas de Esmir, a garota suicida e a mãe que não consegue superar a ausência (morte) do marido. Minha amiga Margarida Oliveira me confessou, na Mostra, que havia chorado na cena em que a mãe dança com o filho. Ontem, entrei no clima. Quando ele a abraça, e chora, na verdade está se despedindo. Mais uma ou duas vezes - já vi três - e eu termino gostando de verdade de 'Os Famosos'. O filme, por sinal, vai a Berlim, na mostra Gerações, que é competitiva. Vamos lá.
24.01.10
Tenho de me apressar e fazer mala para correr ao aeroporto. Embarco daqui a pouco (meio dia) para Belo Horizonte e, de lá, sigo para Tiradentes, onde começou na sexta - com uma homenagem a Karim Ainouz - o festival de cinema. Vou integrar o júri da crítica na mostra competitiva que começa amanhã e prossegue até sexta (o festival termina sábado). Depois, permaneço uns dias em Minas (re)visitando as cidades históricas - Ouro Preto, Congonhas do Campo, Mariana, Sabará etc. Mas não resisto a acrescenta um post que, há dias, me consome. Já disse que, em Paris, me lembrei de meu amigo Jefferson Barros, quando vi, na 'Cahiers' de janeiro, a lista de Jean Douchet, crítico que Jefferson reverenciava, com os melhores filmes da década. Lembrei-me de novo de Jefferson, e foi revendo 'Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse', suntuoso melodrama de Vincente Minnelli, do qual meu amigo havia sido um solitário defensor em Porto Alegre, no começo dos anos 1960. 'Quatro Cavaleiros' sempre desfrutou de uma má reputação, mas depois de rever o filme numa cópia nova, zero bala, tenho de dar razão a Jefferson. Barroco - e flamboyant, para usar uma definição bem francesa -, 'Quatro Cavaleiros' carrega nas tintas políticas e, neste sentido, se assemelha a outro melodrama familiar, 'Imitação da Vida', de Douglas Sirk, com o qual compartilha não apenas o tema da família, mas também o choque de dois mundos. No melodrama de Sirk, o tema em discussão é o racismo e o enterro final representa, simbolicamente, o fim de uma época. O de Minnelli se constroi na dialética das bipolaridades - os personages vivem divididos entre a Argentina e a Europa, entre a paz e a guerra (a 2ª), entre o casamento e o adultério, entre a neutralidade e o engajamento (antinazista). Pairando sobre tudo - as cores, o vermelho e o verde -, Minnelli mostra, fantásticos e destrutivos, os cavaleiros bíblicos (a conquista, a guerra, a peste e a morte) como representações da loucura humana, que se instala no seio dessa familia, dividida entre seus dois ramos, o francês e o alemão. A presença dos quatro cavaleiros merece uma reflexão à parte. Minnelli incorpora elementos de 'Casablanca' - o triângulo marido, mulher e amante tem como um de seus vértices, no papel de patriota, o mesmo Paul Henreid do clássico de Michael Curtiz -, mas agora eu fiz uma leitura diferente da herança expressionista sobre 'Quatro Cavaleiros'. Acho, inclusive, que a sueca Ingrid Thulin não está ali por acaso. Bergmaniana de carteirinha, Ingrid faz a ponte com o filme que o próprio Bergman amava mais do que todos os outros - Bergman já homenageara Victor Sjostrom, fazendo do grande diretor de 'A Carroça Fantasma' o professor Isak Borg de sua obra-prima 'Morangos Silvestres'. A maneira como os cavaleiros aparecem e são filmados remete à carroça fantástica de Sjostrom ou, pelo menos, foi assim que revi o filme, emocionado. E o Glenn Ford, gente? Seus papéis em filmes de Fritz Lang, Delmer Daves e Minnelli, para citar só alguns dos diretores importantes com que trabalhou, lhe garantem um lugar de honra na historia do cinema. Glenn Ford não tinha a 'dureza' dos grandes machos - Gary Cooper, John Wayne, Humphrey Bogart etc - e, pelo contrário, representava uma face mais humana. Lembro-me de que ele foi hospitalizado em estado grave, há alguns anos. Ainda estará vivo? Vou pesquisar na internet, mas já deixo vocês com este post sobre Minnelli. A Filmoteca do Quartier Latin também exibia em horários alternados - mas eu não consegui encaixar - dois de seus maiores musicais: 'Sinfonia de Paris' e 'Brigadoon' (A Lenda dos Beijos Perdidos). Minnelli tinha aquele caso de amor com Paris, que lhe forneceu o cenário de grandes filmes - 'Sinfonia...', 'Gigi' e 'Quatro Cavaleiros'. Seu balé inspirado na suíte 'An American in Paris' reconstitui a cidade pelos olhos de grandes pintores, incluindo Duffy e Renoir. Tanto refinamento, tanta voltagem dramática. Imagino que algumas pessoas, revendo Quatro Cavaleiros', vão achar o filme excessivo e até ridículo. Lee J. Cobb, supermaquiado, faz o patriarca argentino, Madariaga. Seu personagem, na verdade, é expressionista como os cavaleiros do título. Eu também achei o filme excessivo, e gostei por isso.
Redigia o post anterior, sobre Jean Simmons, que foi casada com meu querido Richard Brooks, e não resisto a repassar logo a informação que encontrei na revista francesa 'Positif', numa entrevista com os irmãos Coen, cujo gancho era a estreia parisiense de 'A Serious Man'. Não gosto muito dos tais irmãos, mas numa hora ela estão falando de projetos e revelam que há anos eles têm um roteiro pronto, adaptado de um clássico da literatura e que esperam realizar um dia. Sabem que filme é esse? 'Lord Jim', baseado no romance de Joseph Conrad.Em 1965, Richard Brooks fez uma belíssima adaptação do livro, com Peter O'Toole no papel do marinheiro sonhador, que vacila e se acovarda - e deserta - quando seu navio, o Patna, cheio de peregrinos, está naugrafando e depois passa a vida edemoniado, clamando por uma segunda chance. Tudo bem que eu não reze muito perla cartilha dos Coen, mas tenho até curiosiodade de ver o que eles fariam (ou farão) de 'Lord Jim', tendo em vista o patamar tão elevado do filme de Brooks. Concedo, o que é verdade, que não é muita gente que compartilha comigo desse entusiasmo. Que venha, então, o 'Lord Jim' de Joel e Ethan Coen.
Mauro Brider nos deu a notícia que muito me entristeceu - Jean Simmons morreu ontem, de cÂncer no pulmão, aos 80 anos, em Los Angeles. Que coisa! Nesta última viagem a LA, fiquei no Four Seasons, em Beverly Hills. Ali perto, na avenida La Cienaga, tem um 'mall' com cinemas. Na ida e na volta, caminhando - LA parece cidade fantasma, não se vê ninguém na rua, só carros, e muitas limusines -, passei pelo Cedars Sinai e pensei comigo. Quanta gente querida, quantos grandes artistas morreram neste hospital. Fiz até uma pequena viagem mental, pensando nos 'meus' velhinhos. Lembrei-me de Jean Simmons e agora ela se fui. Inveja branca pode, como disse a Cecília comentando um post, e eu sempre tive inveja de Rubens Ewald Filho, que, entre 'trocentas' entrevistas, fez duas que seriam verdadeiros sonhos para mim - copm o diretor George Sidney, que ele encontrou já velhinho, e com Jean Simmons, que achou classuda e disse que, ao falar de Richard Brooks - de quem se havia divorciado no fim dos anos 1970; ele morreu em 1992 -, ela ainda se emocionava. Jean Simmons era Jean Marilyn, inglesa, de Londres. Começou cedo, acho que descoberta por Val Guest, e participou de alguns filmes cults - foi Estella em 'Grandes Esperanças', de David Lean; a Ofélia de Laurence Olivier ('Hamlet'); e entre os dois teve um papel importante em 'Narciso Negro', da dupla Powell/Pressburger, como a nativa intoxicada pelo perfume inebriante que desperta o desejo das freiras, naquele monastério do Himalaia que antes abrigava um harém. Não sei exatamente quando Jean foi para os EUA, acho que inicialmente acompanhando o então marido, Stewart Granger, que foi astro na Metro. Em 1952, Otto Preminger lhe deu um papel emblemático junto a Robert Mitchum em 'Alma em Pânico' (Angel Face), um clássico noir da mesma envergadura dramática de 'Laura'. Jean co-estrelou com Richard Burton o primeiro cinemascope ('O Manto Sagrado', de Henry Koster), cantou com Marlon Brando em 'Elas e Eles', de Joseph L. Mankiewicz, e fez aquele western de William Wyler que não me canso de (re)ver, sempre que passa na TV paga, e ainda bem que passa sempre, 'Da Terra Nascem os Homens'. E aí ela copnheceu e se casou com Richard Brooks, que lhe ofertou dois belíssimos papeis - como a missionária que dividia seu apostolado com o charlatão Burt Lancaster de 'Entre Deus e o Pecado', que valeu o Oscar ao ator, e a dona de casa amargurada de 'Tempo para Amar, Tempo para Esquecer' (Happy Ending). É um dos mais belos filmes sobre o casamento e sobre a relação homem/mulher. Jean faz uma personagem que acredita na visão hollywoodiana e ela fica vendo e revendo na TV aqueles filmes que terminam com um 'THe End' feliz. Mas a vida não é assim e o casamento naufraga. No final, o marido, John Forsythe, vai atrás dela e Jean pergunta se ele seria capaz de dizer que ainda sente o ardor do tempo em que eram jovens e experimentavam a urgência do amor. Sua personagem é uma romântica que não se contenta com pouco. Ela busca o absoluto que é difícil, senão impossível encontrar no outro. A chave do filme é a cena em que Lloyd Bridges, o pai de Jeff, explica porque as pessoas se casam, mesmo sabendo que um percentual muito grande dessas uniões vai terminar em seguida. O casamento é um ato comercial, faz a economia andar. Quem casa, precisa de casa, cama, colchão, fogão, refrigerador etc, e quando vêm os filhos as roda viva faz novas demandas. E sobre tudo isso é preciso colocar as exectativas das pessoas, as suas necessidades de afeto e de sexo. Sempre fui louco por 'Happy Ending', mas faz tempo que não revejo o filme. Continuará tão bom? Quero crer que sim. Não estou esquecendo, não. Em 1960, Jean Simmons fez 'Spartacus', de Stanley Kubrick, ao lado de Kirk Douglas. SUa personagem, Varinia, era um objeto destinado a servir os gladiadores da escola de Batiatus (Peter Ustinov). Mas Kirk Douglas se apaixonava por ela e, como Spartacus, liderava a revolta dos escravos contra o poder de Roma. A cena em que ela está grávida e ele brinca, tocando a barriga da amada e sonhando com m mundo de liberdade para seu filho é de uma beleza que corta o fôlego. As falas foram escritas por Dalton Trumbo, um homem de esquerda, célebre vítima do macarthismo, que readquiria ali - e em 'Exodus', de Preminger - sua identidade, depois de anos sendo obrigado a escrever sob pseudônimo, por estar na lista negra. Poderia ficar horas falando de Jean Simmons e do meu carinho por ela. O cinema faz dessas pessoas distantes seres muito próximos da gente. Choro a perda de Jean como a de um ente (muito) querido.
23.01.10
Retorno à 'Cahiers de dezembro, com sua capa dedicada a 'Tetro' - boa a entrevista de Coppola, que tece loas ao James Gray de 'Amantes', revelando que gostaria de ter tido Joaquin Phoenix em seu filme, mas o problema é que 'ele não é mais ator...' Em dezembro, 'Cahiers' publicou sua lista com os melhores filmes de 2009. Mesmo discordando de certas ewscolhas, a lista me pareceu melhor que a da década, em janeiro - 'Ervas Daninhas', de Resnais; 'Vincere', de Marco Bellocchio, maravilhoso; 'Bastardos Inglórios', de Tarantino; 'Gran Torino', de super-Clint; 'Singularidades de Uma Rapariga Loira', de Manoel de Oliveira; 'Tetro'; 'Démineurs', o poderoso filme sobre a guerra do Iraque de Kathryn Bigelow; 'Le Roi de l'Évasion', de Alain Guiraudie, que também procurei nos cinemas de Paris, mas estava muito longe, na banlieue; 'Tokyo Sonata', de Kiyoshi Kurosawa; e 'Hadewijch', de Bruno Dumont. Sobre Kiyoshi Kurosawa, vale destacar que 'Cahiers', em janeiro, publica dois textos dele. Quer dizer, um texto sobre Steven Spielberg, 'cineasta do século 21', e um bate-papo muito rico e estimulante dele com Bong Joon-ho. O autor coreano revela, entre outras coisas, gostar muito do Paul Thomas Anderson de 'Embriagado de Amor', que eu, particularmente, prefiro ao filme do petróleo, com Daniel Day-Lewis. 'Embriagado' tem a leveza de um filme de arte 'espontâneo'. O outro tem o peso - a má consciência - de um filme de autor que fica nos dizendo 'Vejam como é importante o que estou dizendo!'
Volto à 'Cahiers' de janeiro e sua lista dos melhores filmes dos anos 2000. A revista publica as listas individuais de seus colaboradores. Lembrei-me de meu amigo - e mentor - Jefferson Barros, que amava Jean Douchet. Confesso que, das listas individuais, me senti mais próximo da de Douchet, embora ele não inclua 'Guerra dos Mundos', que eu substituiria tranquilamente pelo seu número 2 - 'Redacted', de Brian De Palma. A lista de Douchet começa com 'Tetro', de Francis Ford Coppola - que foi capa de 'Cahiers' em dezembro, Retour au Sommet -, salto o De Palma e prossigo com os demais. 'Sarabanda', de Bergman; 'Café Lumière', de Hou Hsiao-hsien, tão pouco conhecido e valorizado no Brasil; 'Os Fantasmas de Goya', um grande Milos Forman; 'Belle Toujours', de Manoel de Oliveira; 'Os Amores de Astrée et Céladon', de Eric Rohmer; 'Notre Musique', de Jean-Luc Godard; e um Sokúrov que não me faz muito a cabeça, 'Arca Russa', e que eu também substituiria por 'O Sol', do próprio diretor. Douchet pelo menos não se deixa enganar por Lynch e Van Sant...
Não sei se vocês já sabem, mas 'Cahiers du Cinéma' estampa na capa de sua edição de janeiro uma chamada - 'Os melhores filmes dos anos 2000'. A foto já dá uma pista. Embora não muito clara - meia face de cada uma, apenas -, Naomi Watts e Laura Harring sinalizam para a escolha da revista, 'Mulholland Drive', de David Lynch, que no Brasil se chama, como é mesmo, 'Cidade dos Sonhos'? Lá dentro, a lista completa de dez. O 1 e 2 não me interessam muito, tenho de admitir, mesmo com o risco de levar pedradas, mas vocês sabem que não sou devoto de são Lynch nem de são Van Sant. 'Mulholland Drive' e 'Elefante' encabeçam a lista. Para não ser acusado de preconceituoso - burro, talvez -, aproveitei que 'Cidade dos Sonhos' estava numa sessão, num ciclo dedicado ao autor na Filmoteca do Quartier Latin, e lá fui rever o filme. Faço aqui um parêntese (nada a ver com o pobre George Clooney de 'Amor sem Escalas', referência que só vai entender quem tiver visto a 'comédia' de Jason Reitman). Alain Resnais é a capa de 'Cahiers' em novembro, que tambem consegui comprar em Paris. Resnais é cinéfilo de carteirinha. Vê em média três filmes por semana, e gosta de vê-los no cinema. Resnais revela que ama Zhang Yimou ('Viver' como 'O Clã das Adagas Voadoras') e, interpelado pela revista, diz que viu três vezes 'Mulholland Drive'. Confessa que é fascinado pelo filme, mas seria incapaz de fornecer um motivo preciso. E ele se faz uma pergunta - como e por que alguns filmes conseguem ser atraentes mesmo quando não se gosta da trama nem dos personages? É o caso dele em relação a 'Mulholland Drive'. Confesso que entendo perfeitamente seu ponto de vista porque me senti mais ou menos assim revendo o filme. Nada daquilo me interessava, mas eu tinha um prazer até mesmo perverso e acredito saber por quê - como resistir a Naomi Watts, de quem gosto tanto? Via a atriz chez Lynch e me lembrava dela em 'King Kong'. De volta à lista de 'Cahiers', passando olimpicamente pelo 1 e pelo 2, a coisa começa a melhorar no 3, 'Mal dos Trópicos', de Apichatpong Weerasethakul, e segue boa até o 6 - 'O Hóspede', de Bong Joon-ho; 'História de Violência', de David Cronenberg; e 'O Segredo do Grão', de Abdellatif Kechiche. Salto o 7, que não conheço - e até procurei para ver se o filme passava em alguma sala, mas é mais antigo, 'À l'Ouest des Rails', de Wang Bing. Amo o 8, 'Guerra dos Mundos', de Spielberg, acho bonito o 9, 'O Novo Mundo', de Terrence Malick - mas não gosto muito, não - e sobre o 10 tenho de fazer uma confissão. Sempre gostei muito de '10', de Abbas Kiarostami, mas depois da decepção provocada por 'Shirin', que vi na Mostra do ano passado, já não estou mais tão seguro das virtudes do 'experimentalismo' do diretor. Teria de rever o filme ('Shirin' não revejo porque achei um tédio). Sobre 'Guerra dos Mundos', acrescento que o filme estreou em São Paulo quando eu estava fora, não me lembro onde nem por quê. Quando cheguei, o filme estava contemplado com uma bola preta atribuída por Luiz Zanin Oricchio. Fui ver e tive aquela reação de entusiasmo que vocês sabem. O filme é o episódio intermediário da admirável trilogia de Spielberg sobre o 11 de Setembro, sem que uma referência seja feita ao ataque às torres gêmeas não apenas nesse filme, mas também em 'O Terminal' e 'Munique'. Dei a cotação máxima para levantar as estrelas e garantir que o filme fosse bom. Meu editor até perguntou se eu gostava mesmo tanto assim de 'Guerra dos Mundos' ou só estava querendo melhorar a cotação. 'Cahiers', a Bíblia do cinema de autor, agora faz justiça a Steven e eu fico contente, mesmo que a revista, em si, não me mereça tanto crédito. O entusiasmo de 'Cahiers' por Lynch e Gus Van Sant, por outro lado, me parece excessivo. Enfim, ninguém é perfeito...
Sai do filme - 'Amor sem Escalas' - meio deprimido e fui levantar o astral jantando com amigos. Comemorávamos, no restaurante francês da Capote Valente, o aniversário de Leila Reis. Parabéns! Vir de Paris e cair aqui diretamente num 'restaurant' pode parecer pouco imaginativo, mas foi ótimo e eu acrescento - vive la France! - que descobri somente ontem, no HSBC Belas Artes, onde assisti ao filme com George Clooney e a maravilhosa Vera Farmiga, que o conjunto de salas homenageia Eic Rohmer neste mês de janeiro. Não entendi muito bem, pela data, se a homenagem é póstuma ou se é mera coincidência e Romer já era o homenageado da casa em janeiro, com quatro filmes, um para cada semana do mês. Lembrei-me da entrevista com Christophe Honoré, o mais nouvelle vague dos diretores franceses atuais. Honoré me disse que não me iludisse e que boa parte do cinema francês que agora lamenta a morte de Rohmer na verdade o detestava e aos seus filmes, que mostravam que se pode ser inteligente, autoral e ter público fazendo filmes com poucos recursos (porque os filmes dele não precisavam mais). O cinema francês tem hoje a síndrome de Hollywood, observa Honoré, apostando em 'grosses comédies' e filmes de ação feitos com muitos recursos (e menos inteligência). Hélas! A caminho do aeroporto, na quinta-feira, correndo de um cinema para uma livraria e outra livraria, vi que havia saído a edição semanal de 'Telerama' com Rohmer na capa - 'A Eterna Juventude do Cinema Francês' -, mas não comprei e, após o check-in, me esqueci completamente. A revista talvez acrescentasse informações que pudessem ser úteis, mas de qualquer maneira recomendo o ciclo do Belas Artes. Na série 'Lamento', além do 'Telerama', tenho de acrescentar uma descoberta que fiz, já no avião. Havia comprado as edições de janeiro das revistas francesas de cinema - 'Cahiers', 'Positif', 'Première' e 'Studio' - e também numeros antigos de 'Cahiers' e 'Positif' que consegui encontrar em livrarias especializadas. 'Positif' tem uma seção intitulada Cinéma Retrouvé e o cinema reencontrado de janeiro é o de Gordon Douglas, num texto assinado por Jean-Pierre Coursodon, parceiro de Bertrand Tavernier na série '30 (e, depois, 50) Ans de Cinéma Américain'. Coursodon compartilha do mesmo entusiasmo que eu por Douglas, o menos conhecido e mais desvalorizado dos grandes diretores do cinema (e não apenas Hollywood). Peguei a revista para ler suas observações sobre os westerns, policiais, biopics e até ficção científica que tanto amo, filmes como 'Resistência Heróica', 'Rio Conchos', 'Revólver de Um Desconheciodo', 'Crime sem Perdão' (The Detective), 'O Mundo em Perigo' (Them!) e até uma obra tão difícil de classificar como 'Corações Enamorados' (Young at Heart). Grande Gordon Douglas. Durante a semana que permaneci em Paris, quatro noites na Opéra e três no Quartier Latin, me concentrei nos numerosos cinemas, inclusive de arte e ensaio, que por ali existem. Nem me preocupei em verificar o que apresentava a Cinemateca Francesa, pois Bercy me parece muito fora de mão. Idiota. Algum motivo devia haver para 'Positif' estar 'recuperando' Gordon Douglas. Descobri no avião que de 6 de janeiro a 8 de fevereiro a Cinemateca Francesa realiza a mais completa retrospectiva jamais dedicada ao diretor, em todo o mundo. Nem me arrisquei a conferir no 'Pariscope' o que perdi. Ia ficar provavelmente mais deprimido do que na saída de 'Amor sem Escalas'. Todo Gordon Douglas! E eu perdi!
Olá! Cá estou eu de novo de volta, em casa. Mas será por pouco tempo. Viajo amanhã para Minas, para o Festival de Tiradentes, e permaneço lá por alguns dias, antes de retomar o caminho da Europa, para ir ao Festival de Berlim e, depois, espero, Paris, para mais alguns dias. Vou começar pelo fim. Cheguei ontem pela manhã e corri ao jornal para fazer uma página sobre 'Um Segredo em Família, incluindo entrevistas que fiz com o diretor Claude Miller na França, no Rendez-vous du Cinéma, e no Festival do Rio, e também com os atores Patrick Bruel e Ludivine Sagnier. Gosto do filme adaptado do livro de Philippe Grimbert, que se baseou numa história de sua família, abordando a Shoah - o Holocausto - por meio de um recorte bem intimista, mostrando seus judeus não como vítimas, embora eles o tenham sido, claro, mas como gente como a gente, que amava, mentia, traía. Na cena chave, uma mulher vinga-se do marido, à Medeia, mas será que ela está realmente se vingando? Depois do jornal, saí para resolver uns problemas, almoçar (mas já eram 4 da tarde!). Às 18h30 fui ver 'Amor sem Escalas', a comédia de Jason Reitman com George Clooney, que candidatou o ator para o Globo de Ouro, mas ele não ganhou, não? Sei de alguns vencedores - 'Se Beber não Case', Sandra Bullock, Meryl Streep, ontem meu amigo Dib Carneiro me disse quem ganhou como ator de drama, mas confesso que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Sobre o filme, vendido como comédia, achei um drama, e bem depressivo, cujo personagem talvez pudesse ser incluído no documentário 'Capitalismo, Uma História de Amor', a que assisti em Paris e, neste caso, pode muito bem ser que eu tivesse morrido de rir com ele. Michael Moore é um grande manipulador, mas eu, no fundo, adoro que ele exista e tenha coragem, ou despudor, de mostrar coisas que são irrefutáveis, mas sobre as quais todos calamos. Por que, mesmo? Em nome da imparcialidade e da isenção jornalística? Do bom gosto? Ou simplesmente da sensatez perante o (abuso do) poder? Agora vou misturar as coisas, mas tem um momento em que Moore entrevista o editor do 'The Wall Street Journal' e o cara explica porque confia mais no capitalismo do que na democracia. Existem países democráticos que exibem os piores indicadores de qualidade de vida do planeta. Não é um sistema confiável, ele sugere. Moore pega uma fala de George W. Bush, um de seus alvos preferidos (sempre), em que o ex-ocupante da Casa Branca (xô!) diz que o capitalismo é o melhor sistema do mundo, da história. Moore, a esta altura, já mostrou o que fazem certas empresas dos EUA. Elas fazem seguros de vida em que são beneficiárias no caso de morte de funcionários. Escolhem mulheres, e jovens, porque são as que têm a maior expectativa de vida, mas, enfim, tragédias ocorrem e uma empresa ganha sei lá quantos milhões de dólares com a morte inesperada de uma jovem mãe, enquanto a família, os filhos, ficam descobertos. Et voilà! Moore vai às origens da 'América' e discute se a justificativa para o lucro está na Constituição, no Bill's Right ou, antes disso, naquele grande livro, a Bíblia. Radicalizando, ele pega imagens de 'Jesus de Nazaré' e dubla o épico religioso de Franco Zeffirelli. Mestre, qual é o caminho para o Céu? E Cristo responde que é aplicando na Bolsa, terceirizando funções etc. Ri mais do que em 'Amor sem Escalas', mas, enfim, 'Capitalismo, Meu Amor' pode ser visto como comédia - uma espécie de comedia, pelo menos, o horror filtrado pela inteligência e pela poesia, que é a mais clássica de todas as definições de humor -, enquanto o novo filme de Jason Reitman é um drama. Ou, pelo menos, uma espécie de.
20.01.10
PARIS - Quase uma semana sem dar noticias. Acho que isso eh inedito no blog e, de qualquer maneira, nao me agrada. Mas acontece que estou em Paris, sob frio e chuva e ateh segunda (inclusive) participava do Rendez-vous du Cinema Francais, vendo filmes e fazendo entrevistas em tempo integral. Cheguei na quinta passada e, a noite, jah estava assistindo a 'Gainsbourg, Vie Heroique', de Johann Sfar, com Eric Elmosnino. A riqueza e complexidade do personagem clamavan por uma biopic menos tradicionaal do que a de Edith Piaf por Olivier Dahan, mas Sfar, que define seu filme como 'conto', nao teve a audacia de Todd Haynes e se perde a meio caminho entre uma dramaturgia forte, mas classica, e inovacoes estilistas para expressar a duplicidade Jekyll/Hyde da figura. Honestamente, achei uma m... e ateh as escolhas do diretor para destacar momentos dessa vida me pareceram discutiveis. Jane Birkin tem o mesmo peso que Brigitte Bardot na vida do artista e cah comigo isso nao eh verdade, mas Sfar com certeza espera se beneficiar da presenca de uma estrela como Laeticia Casta no papel da segunda para faturar na bilheteria (o filme estreia hoje). Laetitia eh um mulherao, mas sua BB nao me convenceu e, no fundo; a achei tao parodica quanto a Noema Bengell de 'O Homem do Sputnik', mas sem o mesmo humor. Vou voltar a falar sobre o filme quando estiver de volta no Brasil, na sexta-feira. estou agora postando soih para dar noticias (e uma geral). Alem do mais, estou sofrendo nesse clavier (teclado) frances, que troca o A pelo Q e o M por virgula, um horror. Na sexta a noite, assisti a entrega do premio Lumiere, o Globo de Ouro da Franca, atribuido pelos correspondentes estrangeiros e o grande vencedor deste ano foi 'Welcome', de Philippe Lioret, a quem fui cumprimentar depois e ele foi muito caloroso, lembrando do pûblico de Sao Paulo (e do debate que realizamos na Reserva Cultural). Entrevistei um monte de gente legal - Claire Denis, Bruno Dumont, Anna Mougaglis, Christophe Honore, Marina Fois, Francois Ozon etc - e tenho visto um monte de filmes, aproveitando que classicos de Minnelli, Visconti, George Stevens, Ernst Lubitsch e Fritz Lang estao de volta ao cartaz, integrando ciclos que corro de um lado para outro para ver. Isso aqui eh um sonho de cinefilo. Vir a Paris para discutir filosofia com Bruno Dumont durante 40 minutos excedeu toda expectativa que pudesse ter e o filme dele, ²Hadewijch', eh poderoso. Claire Denis foi uma revelacao, digo a pessoa, porque a diretora eu jah admirava de '35 Doses de Rum'. Conversamos sobre aquezle filme e o novo, 'White Material', que passou em Veneza e no Festival do Rio do ano passado (nao tenho certeza se passou tambem na Mostra). Daqui a pouco, espero assistir a 'Reliquia Macabra', o Falcao Maltes de John Huston, relancado numa copia restaurada, zero bala. Alias, jah estou atrasado. Ciao, mas antes de ir me desculpo pelos erros de digitacao, a falta de acentos etc. Alguns vao entender, mas jah imagino a quantidade de malas que vao reclamar...
13.01.10
Cheguei pensando em escrever um texto - o que vocês vão ler agora -, mas a morte de Eric Rohmer me impulsionou a escrever outro. Volto agora ao meu plano original. Robert B - acho que foste tu, não? - sugere ou é mais incisivo e pede (ordena?) que eu me aposente, por ter defendido 'Lula', o pior filme da Retomada, segundo ele. Aleluia! Fábio Barreto vai voltar feliz do coma ao saber que pelo menos alguém defende 'Jacobina' e 'Nossa Senhora de Caravaggio'! Brincadeiras à parte - não sei como está o Fábio -, tenho pensado bastante no 'Lula', o filme, embora parte dessa reflexão também se deva ao personagem. Somente em Los Angeles descobri, via um jornalista francês, que Lula, o presidente, foi escolhido o homem do ano, acho que pelo 'Le Monde'. Ha-ha. É curioso, mas ao defender o que acho defensável no filme me distancio um pouco da figura real e o que me atrai é o personagem de ficção, definido através das cenas que me encantam e que já analisei aqui (e também na crítica publicada no 'Estado'). Mas o detalhe é o seguinte. 'Invictus', o novo Clint Eastwood, é sobre Nelson Mandela num momento decisivo de sua vida (e carreira). Eleito presidente da África do Sul, ele assume o poder num país rachado pela herança do apartheid. No filme, a sacada de gênio de Morgan Freeman, isto é, Mandela é usar o hóquei para unir brancos e negros no mesmo projeto de nação. Temos experiência disso. Na América do Sul, as ditaduras, no Brasil e na Argentina, usaram a vtória na Copa do Mundo (de futebol) para se legitimar. O projeto de Mandela é mais generoso. Ele quer usar o esporte justamente para enterrar a herança do apartheid. Pergunto-me quantas críticas negativas receberá o novo Clint? Os seguranças de Mandela chegam para acompanhá-lo em sua tradicional caminhada matutina. Encontram o político caído no solo, desmaiado. O estresse da função - administrar um país em frangalhos - o derrubou. O médico diz que ele precisa descansar, se afastar de tudo e a secretária retruca - quem vai conseguir isso? Ele vai querer voltar imediatamente a trabalhar, e é verdade. Como definiríamos isso - Mandela, o Grande Irmão? E o filme - chapa branca? O curioso é que Mandela, como personagem, é um espelho do que o próprio Clint interpretou em 'Gran Torino', que escolhi como um dos melhores filmes do ano passado. Outro exemplo, de outro filme. Quem é contra Lula, o personagem - e, automaticamente, contra o filme -, cobra o que o diretor Fábio Barreto não colocou em cena. Até quem é simpático apresenta suas cobranças. É raro um filme feito para ns atender, exclusivamente. Tyrese Gibson disse um,a coisa que não deixa de ser interessante, na junkett de 'Legion'. Os críticos batem pesado porque tem sempre os próprios filmes na cabeça. Por que eles nao fazem os 'seus' filmes ideais? E como reagiriam quando alguém desse porrada neles? Tive outro dia um pensamento 'herético'. Gandhi, o Mahatma, era um defensor tão radical da não violência que se posicionou contra ela mesmo no caso extremo dos judeus que se levantaram contra o nazismo. Isso não estava no filme de Richard Attenborough, muito mais hagiográfico do que o de Fábio Barreto. E por que não estava? Vamos imaginar - todo mundo sabe a importância dos judeus em Hollywood. Há até um livro - de Neal Gabler - que trata justamente disso. Chama-se 'An Empire of Their Own: How the Jews Invented Hollywood'. Se o filme tivesse uma cena dizendo que os judeus deveriam ir para o forno sem protestar, em nome de pressupostos 'éticos, será que o filme teria recebido o Oscar? Sorry, Roberto B. Ainda não vou me aposentar. Vou ficar por aqui, te aporrinhando mais um pouco.
Estou de volta a São Paulo, mas só por algumas horas. À noite, embarco para Paris, onde fico uma semana, regressando na sexta-feira, dia 22. Ontem passei o dia viajando e, pela diferença de horário, ao sair de Los Angeles, mesmo dando uma viajada rápida na internet, não vi a noticia que me deixiou agora em choque, dada por vocês. Morreu Eric Rohmer. Ou eu me engano muito ou ele era o decano da nouvelle vague, mais velho do que o próprio Alain Resnais e só um pouquinho mais novo, coisa de dois/três anos, do que Jean-Pierre Melville, que, como Rohmer, usava pseudônimo. SEu nome de verdade era Maurice Sherer, mas foi como Eric Rohmer que ele se tonou uma referência para cinéfilos de todo o mundo. 90 anos! Lembro-me de uma rara entrevista do dirtor, qe detestava 'aparecer'. Para o tipo de filme que fazia, ele era o primeiro a reconhecer a importância do anonimato. Isso lhe permitia andar de metrô, frequentar bares e restaurantes ou, simplesmente, sentar-se numa praça para observar as pessoas e, depois, roubar alguma coisa do seu comportamento, dos seus gestos, que colocava nos filmes, sempre tão exatos. Rohmer talvez tenha sido o autor mais singular das nouvelle vague. Seu cinema é quase abstrato - pelos temas, pelo rigor da realização - e não existe diretor mais 'concreto'. Esse paradoxo não é tão surpreendente se lembrarmos que Rohmer, crítico nos Cahiers du Cinéma', co-escreveu com Claude Chabrol um livro sobre Alfred Hitchcock cujo dogma é justamente o paradoxo como motor da mise-en-scene do mestre do suspense.
Vou abrir um parágrafo. Jean Tulard, no 'Dicionário de Cinema', que estou podendo consultar - estou em casa -, diz que, no começo de sua carreira, ele foi levado pela nouvelle vague, mas não se impôs de imediato, pelo menos não do mesmo modo que François Truffaut, Jean-Luc Godard ou seu parceiro Chabrol. E por que? Justamente por ser discreto, reservado. Rohmer era cultuado por poucos e sua consagração foi tardia. Mas ela veio. Sua obra se construiu em torno de dois ciclos, o dos contos morais e o das comédias e provérbios. À margem de ambos, Rohmer exercitou seu gosto pela adaptação literária, vertendo para a tela Kleist ('A Marquesa d'O') e Chrétien de Troyes ('Perceval le Gaullois'). Tulard observa que a obra de Rohmer faz alusões a F.W. Murnau e Kenji Mizoguchi, mas acima de tudo ela carrega a marca do autor. Rohmer era rigoroso, minimalista, elegante, mas também frio. Imagino que cada um de seus admiradores terá seu Rohmer preferido. O meu é 'Minha Noite com Ela', Ma Nuit chez Maud, em que Jean-Louis Trintignant resiste à sedução que, sobre ele, exerce Françoise Fabian. Trintignant assume que é comprometido e não vai trair a mulher, mas no final do filme, como fina ironia, vem a revelação de que, enquanto ele resistia, ela o estava traindo. Essa preferência, eu sei, é puramente pessoal e até arbitrária, e tem muito a ver com o fascínio que Françoise Fabian, a viúva de Jacques Becker - depois, se não me engano, ela se casou com Lino Ventura -, sempre exerceu sobre mim. A reconhecida obra-prima de Rohmer costuma ser 'Les Nuits de la Pleine Lune'. Não havia gostado muit de 'Triple Agent', seu filme de espionagem, que me pareceu um tanto bizarro no conjunto da obra, mas, em compensação, me apaixonei por 'Les Amours d'Astrée et Celadon', que pertence à linhagem de 'A Marquesa d'O' e 'A Inglesa e o Duque'. Tenho aqui em casa o livro da coleção Champs Contre-Champs, da Edtora Flammarion, que faz uma seleção de textos de Rohmer, escolhidos e comentados por Jean Narboni. O título é maravilhoso, 'Le Gout de la Beauté', O Gosto da, ou pela, Beleza. É perfeito para definir a própria obra do autor. A capa é ilustrada por uma imagem de 'Le Genou de Claire', O Joelho de Clara, com Jean-Claude Brialy. Alguns textos são clássicos - 'Le Celluloïd et le Marbre', no qual Rohmer interroga o cinema a partir das outras artes, e o que exprime sua teoria, 'L'Age Classique du Cinéma', cuja tese é a de que, no cinema, o classicismo nao representa o passado, mas a vanguarda. Em 1983, quando o livro saiu, Rohmer deu uma entrevista - para Narboni - dizendo não estar mais tão certo de que isso seria verdade. Hoje eu arrisco a achar que ele voltaria a crer na própria tese. E o livro tem um texto que me encanta. Num capítulo com o título sde 'Por Um Cinema Impuro', Rohmer justifica seu voto para 'Ao Sul do Pacífico', de Joshua Logan, um dos musicais mais execrados da história do cinema, mas que ele colocou entre os melhores do ano (deve ter sido em 1958, ou 59, quando ele estava fazendo seu longa de estreia, 'Le Signe du Lion.'
11.01.10
LOS ANGELES - Naoh resisto a acrescentar mais um post, rapidinho, para dizer que Martin Campbell, de `Cassino Royale` e dos filmes sobre `Zorro`, comeca a filmar em marco, em Louisiana, `Lanterna Verde`, com Ryan Reynolds no papel e a Gossip Girl Blake Lively como Carol Ferris. Campbell ainda nao escolheu os viloes, Dr. Hector Hammond e o alien Sinestro, mas a Warner jah fixou a data de estreia - 17 de junho de 2011. Soh para juntar e colocar o titulo, acrescento que Scarlett Johansson, a sra. Reynolds na realidade, participa, na Broadway, do revival de uma peca classica de Arthur MIller, `Panorama Visto da Ponte`, que Sidney Lumet filmou com... Quem mesmo? Raf Vallone?
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