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11.05.08

Link permanente Flaubert?
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 10:46:06.

Já falei aqui muitas vezes sobre 'Un Coeur Simple', de Gustave Flaubert, que era o projeto da vida de Vittorio De Sica, em sua fase final. De Sica nunca conseguiu apoio dos produtores - nem de Carlo Ponti, que vivia atirando o filme para depois e o De Sica ficava dirigindo todos aqueles filmes do Ponti para a mulher dele, Sophia Loren... Na tal 'Studio' que comprei ontem, descobri que 'Um Coração Simples' acaba de ser filmado, na França, por Marion Lanie, que centrou sua adaptação na relação da criada, interpretada por Sandrine Bonnaire, com a patroa, Marina Foïs, grande atriz de teatro. Não era uma reportagem nem uma visita ao set. Só uma nota, que li rapidamente. O texto não faz nenhuma referência a De Sica, mas, em compensação, tem uma coisa que adorei ter lido (eu digo – tenho certas iluminações de coisas que preciso ler). Entrevistado pela revista, no lançamento de ‘O Sol’, Alexander Sokúrov disse que a verdadeira teoria da montagem ele não estudou em Eisenstein nem Pudovkin – russos como ele e que abordaram o assunto por meio obras (textos e filmes) influentes –, mas em Flaubert, em ‘Madame Bovary’. Tudo está lá, disse Sokúrov – o ritmo, a musicalidade. Sobre Sokúrov, quero dizer que, apesar do tour de force técnico, não me impressionei muito com ‘A Arca Russa’ e até achei o filme reacionário – aquela coisa de buscar a Rússia eterna por meio de uma tomada única me parecia muito a negação do ardor revolucionário de Eisenstein, que dizia que o filme deve organizar as imagens no inconsciente do público, e isso tinha de ser feito pela montagem –, mas o Sokúrov de ‘O Sol’, ainda em cartaz (horários alternativos) na cidade, e o de ‘Alexandra’, que me parece a obra-prima dele, para este tiro o meu chapéu. Quer dizer que Flaubert é o mestre de Sokúrov? Bom, eu sou louco pelos franceses, Stendhal, Flaubert, o próprio Zola. Não troco Fabrizio Del Dongo atravessando a batalha em 'A Cartuxa de Parma' pelo Pedro, que faz a mesma coisa em 'Guerra e Paz' e a cena magnífica é a melhor da adaptação digna que King Vidor fez do monumento literário de Leon Tolstoi. Depois de ler a nota, me deu vontade de (re)ver ‘O Sol’, para ver se tem Flaubert ali dentro, mas não vai dar. Viajo amanhã no início da tarde para a França (Cannes) e gostaria de ver ‘Desonra’, além da peça de Cleide Yáconis. Estou no jornal, por conta de algumas matérias que tenho de deixar prontas. Onde vou arranjar tempo para tudo? 'O Sol' vai sobrar, mas vocês podem (re)ver o filme por mim.

 


Link permanente Direito de 'olhar'
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 10:32:11.

Brinco com minha colega Leo, Leonirce Brito, que todo dia diz que reza para o Senhor pela minha conversão. Não creio que possa me definir como ateu, sou mais agnóstico e a verdade é que não recebi nenhum tipo de educação religiosa. Fui batizado, mas não segui na doutrina, não fiz a primeira comunhão, o que não me impede de visitar igrejas, um pouco por interesse arquitetônico – fiquei maluco lá dentro da Catedral de Toledo e outra das coisas mais belas que existem é assistir, no domingo, à missa de orgão na Notre Dame, em Paris – mas também porque, por exemplo, quando passo pela igreja de Santa Ifigênia, no Largo Paissandu, acho linda a devoção dos fiéis. Passei lá hoje, antes de vir para o jornal. A comunidade é predominantemente negra, o padre é negro. Me lembra Leo McKern. Ele fez hoje uma homilia em homenagem ao Dia das Mães que foi muito bonita e aí entrou o culto – ‘Senhor/Tende piedade de nós...’, cantado por uma comunidade fervorosa. Houve uma época em que a minha geração, de esquerda, deplorava a religião como ópio do povo, mas eu nunca subestimei o valor da religião na construção da cidadania, por aquilo que ela pode levar a pessoas que, de outra maneira, não encontrariam nenhuma forma de elevação, e não apenas espiritual. Acho emocionantes os documentários do Coutinho e do João Moreira Salles sobre religiões. Sempre me lembro do Érico Verissimo, de ‘O Tempo e o Vento’, no qual o personagem do comunista, na parte contemporânea da história, põe tanto fervor na descrição da Passionária que viu, durante a Guerra Civil Espanhola, e acho que... quem? O Floriano? – não, tinha de ser alguém mais cínico –, dizia que ele teve ali a sua visão de Nossa Senhora. Agora que já devaneei bastante, vamos às coisas práticas da vida. Depois de cortar o cabelo, ontem, percorri todas as bancas do Centro atrás das revistas francesas de cinema, mas elas não chegam mais, agora que mudaram de distribuidor. Não são revistas que tenham grande consumo – ‘Cahiers’, ‘Positif’, ‘Première’, ‘Studio’ –, mas elas chegavam via uma distribuidora pequena, a Leonardo da Vinci. Mal comparando, é como esses filmes de arte que a Lume e a Versátil distribuem e que vendem algumas centenas de unidades e não se comparam aos blockbusters, mas são importantes pelo resgate de clássicos. Já pensaram se a Sony e a Warner comprassem essas distribuidoras para impedir a circulação? Pelo visto foi o que ocorreu no mercado editorial. Já disse que nem leio as revistas. Às vezes, dou uma folheada e só, mas esta coisa de colecionador é fogo. Depois que a gente inicia uma coleção, é difícil largar no meio. Mas, enfim, consegui ontem uma ‘Studio’, que folheei agora de manhã, em casa. O número em questão tem uma entrevista de Brian De Palma, sobre ‘Redacted’, que não li, mas cujo título me pareceu muito atraente – De Palma, pelo visto, substitui o conceito do direito de ‘autor’ pelo direito de ‘olhar’. Interessante... Segui folheando e descobri - vocês vão descobrir no próximo post, porque este já ficou enorme.

 


10.05.08

Link permanente Elisa, vida de quem?
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 17:10:10.

Fui olhar os comentários. Roberto reclama da 'salada'. Sorry, Roberto, mas quem acompanha o blog sabe que é assim mesmo. Preocupo-me, sim, em formular um pensamento coerente, mesmo que por linhas tortas. E acho que, no limite, esta opção vem do fato de que eu já escrevo bastante no jornal - de um jeito mais ordenado, menos 'confessional'. Pode ser que me engane, mas a diferença (uma das...) do blog vem por aí. Rapidinha - vim ao Centro hoje pela manhã para cortar cabelo. Passei pela galeria, aquela que eu sempre falo, para olhar os DVDs. Dei de cara com o de 'Elisa Vida Minha', de Carlos Saura. Na hora pensei uma coisa que espero não pareça preconceituosa, porque não é. É mais uma constatação. Vivo sempre dizendo que Woody Allen é ótimo - 'O Sonho de Cassandra' é legal -, mas a grande fase já passou. Adoraria que o Woody Allen me surpreendesse, mas filmes como os que ele fez no passado, com Mia Farrow - 'Hannah e Suas Irmãs', 'Crimes e Pecados', 'Zelig', 'A Rosa Púrpura do Cairo' -, nunca mais. O caso de Saura é parecido. Mesmo que não fosse um entusiasta do Saura, o fase dele com Geraldine Chaplin era muito mais audaciosa, e polêmica - 'Mamãe Faz Cem Anos', 'Cria Cuervos', 'Elisa' -, do que os filmes cantados e dançados que vieram depois. Esses caras poodem estar muito felizes na vida, mas do ponto de vista 'artístico', sei não. Não me peçam para tirar nenhuma ilação disso. Estou só constatando.

 


Link permanente Lavar os olhos
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 16:55:47.

Se vocês viram o 'Caderno 2' de hoje, muito provavelmente encontraram meu texto sobre o lançamento em DVD, pela Lume, de dois autênticos clássicos do cinema japonês. 'O Anjo Embriagado', de 1948, era considerado pelo próprio Kurosawa o verdadeiro início de sua carreira. Embora ele já estivesse dirigindo desade 1943, a rígida censura durante a guerra e, depois, no clima de caos que dominava o país, impedia-o de fazer os filmes como queria. Como ele próprio disse mais de uma vez, 'O Anjo' foi o filme que ele quis fazer, e fez do jeito que queria. Mas existe ainda alguma coisa melhor do que este Kurosawa no pacote de maio da Lume. É 'Contos da Lua Vaga', de Kenji Mizoguchi, que tem aquele acréscimo - o título completo é 'Contos da Lua Vaga após a Chuva'. O filme é de 1953 e foi premiado no Festival de Veneza, no ano de 'Os Boas VIdas', de Federico Fellini, e do brasileiro 'Sinhá Moça', de Tom Payne. (Naquele ano, só como curiosidade, o júri não atribuiu o prêmio máximo, substituindo o Leão de Ouro por vários de Prata. O filme do Brasil ganhou um prêmio especial.) Mizoguchi forma com Yasujiro Ozu a dupla dos grandes mestres japoneses cujas carreiras vinham do período silencioso. Ozu construiu toida uma estética para expressar na tela as transformações da família tradicional japonesa do ângulo de um observador, sentado na esteira de tatame. É matéria de comjetura o porquê desta localização da câmera, levemente baixa. Significava uma contemplação, acaso uma vontade de atribuir mais importância àqueles personagens anônimos que o seduziam e, afinal, paradoxalmente, eram filmados em contraplongê, ângulo reservado para os heróis - será? Heróis do cotidiano? Pode ser. Ozu morreu no dia em que completava 60 anos e a mim sempre impressionou muito o fato de que ele quisesse que, na sua lápide, constasse somente o ideograma japonês para 'nada'. Grande como era, Ozu era alcoólatra e talvez não tivesse muito apreço pela própria fragilidade, não sei. Esse desejo de anulação não impediu que ele fosse consagrado como um dos grandes do cinema japonês (e do mundial...) de todos os tempos. Apenas demorou mais um pouco porque, como diziam os críticos, Ozu era muito oriental para ser assimilado pelo Ocidente. Seu contemporâneo Mizoguchi viveu ainda menos, 58 anos - nasceu em 1898, morreu em 1956 -, mas de alguma forma pode-se dizer que a sua última fase na empresa Daiei, constituída só por obras-primas, obteve reconhecimento imediato, no Ocidente, inclusive. Estava escrevendo sobre 'Contos da Lua' - uma história de fantasmas, mas não no sentido do cinema de terror ocidental, com fantasmas assustadores; os de Mizoguchi integram-se com naturalidade ao mundo dos vivos - e comentei, no 'Caderno 2', o método dele - onde cut/one shot. Mizoguchi filmava, geralmente só uma tomada, depois de ensaiar muito, e ele já sabia o lugar que a cena ia ocupar na montagem. O que eu amo, em Mizoguchi, é a frase dele, que dizia que é preciso lavar os olhos, entre uma tomada e outra. Trocando em miúdos, ele defendia um cinema livre de todo ornamento - embora tenha feito filmes plasticamente suntuosos para celebrar a imperatriz e a prostituta (a mulher é a grande personagem de seu cinema, mesmo em 'O Intendente Sansho'). Confesso que eu mesmo às vezes me interrogo - como posso gostar do rigor de Mizoguchi, de Ozu, de Robert Bresson e, ao mesmo tempo, absorver (e considerar válido) o artifício assumido de filmes como 'Moulin Rouge', de Baz Luhrmann, ou agora 'Speed Racer', dos irmãos Wachowski? Dei uma entrevista quinta-feira para o jornal da ABI, a Associação Brasileira de Imprensa, e eles me cobraram justamente isso. Sei que tem gente que me critica e até acha, por isso, que não tenho uma 'visão' do cinema, mas o próprio pessoal da ABI que me entrevistou lembrou-se de uma coisa que, segundo eles, eu disse aqui no blog - eu tenho uma teoria do cinema, sim, e é a minha. Está expressa principalmente no livro 'Cinema - Entre a Ralidade e o Artifício', título que, para mim, tem valor de um manifesto. E a verdade é a seguinte - quem não gostar que invente outra (teoria). Enquanto eu viver, vou defender - depois ficarão os escritos - que é possível, sim, harmonizar métodos distintos e até opostos, mas que não são tão diferentes assim no que os autores estão querendo dizer. Acho que, basicamente, é isso - a afinidade eletiva vem muito mais do que o autor me diz sobre o mundo do que sobre o cinema. O olhar do outro me fascina e eu quero dialogar com ele, não insistir que o meu método é melhor.

 


09.05.08

Link permanente Fim dos tempos
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 23:31:45.

Não resisto a acrescentar um post sobre dois assuntos que estão me consumindo. Ontem cheguei a comentar com meu colega Luiz Zanin Oricchio - cara, que doideira, este caso da Isabella acirrou os piores instintos das pessoas. Aquele povo todo na saída do pai e da madrasta de casa, gritando para linchar; as detentas, hoje, ameaçando a madrasta de morte. A realidade supera o Fritz Lang de 'M, o Vampiro de Dusseldorf'. Me lembrei de Milton Gonçalves em 'Carandiru - O Filme': todo mundo aqui é inocente. Não é, mas até as presidiárias, que não são santas, acho que se sentem reconfortadas, na sua pequenez, às vésperas do Dia das Mães, ao perceber que existem pessoas piores do que elas. Fui ver hoje 'O Amigo da Noiva' no RoboCop, que aloja a cabine da Sony. Na volta, peguei um trânsito do cão na Marginal. Estava no carro do 'Estado', o motorista sintonizou numa rádio que apresentava uma dessas salas de redação sobre futebol. Um bando de homens que acha que a vida é só tirar sarro e uma ex do Ronaldo que vive no Japão (e pelo que entendi entrou na indústria pornô). A mulher admitia que usou Ronaldo, o fenômeno, como escada e defendia-se - Xuxa (com Pelé), Adriana Galisteu (com Ayrton Senna) fizeram a mesma coisa, mas agora todas têm um trabalho para mostrar, não precisam mais desses trampolins. Em breve, ela também não vai precisar... Na hora me veio a Divine Brown, lembram dela? Aquela prostituta de rua que foi pega com Hugh Grant, num boquete (sorry...) que entrou para a história. Divine fez um filme pornô e veio ao Brasil para divulgar o trabalho. A assessoria que a trouxe disse que ela não ia falar do episódio Hugh Grant, só da sua 'arte'. E eu que pensava que a arte dela era aquilo! Mas, gente, acho que, de alguma forma, o assassinato de Isabella e o episódio do fenômeno com os travestis ficou lincado. As duas histórias ocorreram simultaneamente e, repito, liberaram o que há de pior nas pessoas. Sou um cara bem desbocado (admito), mas fiquei envergonhado com as baixarias que ouvi na tal sala de redação. A ex-senhora Ronaldo fingia que tinha compreensão por ele, mas aproveitava para umas observações malévolas que vou te contar... Vingança, diz o ditado, é um prato que se come frio. Aquela estava comendo gelado. Ronaldo errou, ou por outra, ele poderia ter feito o que quisesse, mas ninguém acredita, em sã consciência, que seja possível confundir não um, mas três travestis (nem se fosse a 'delicada' da Roberta Close), com mulheres de verdade. A explicação saiu pior do que o conserto. Agora ele só 'conversou'? Ah. bom,... O problema é que não basta a humilhação do cara. De repente, baixou um moralismo geral e todo o mundo quer o linchamento moral (até físico) do fenômeno. Insisto que os dois casos, por terem ocorrido simultaneamente, confundiram-se no imaginário do público. Não foi por acaso que aquela revista que eu não ouso dizer o nome deu capa para os dois episódios, e não para analisar jornalisticamente, mas para incentivar a cruzada moralista. Sei que me exponho ao falar sobre isso. Não estou querendo defender o pai e a madrasta - as provas são tão concludentes, mas eu ainda me pergunto o porquê de tanto horror - nem mesmo o Ronaldo. Me horroriza, no caso dele, que o herói de ontem tenha de ser destruído com verdadeira volúpia, e por gente que não sei se resistiria ao preceito bíblico (aquele do 'atire a primeira pedra'). Por que este episódio ofende tanto as pessoas? Por que colocaram o Ronaldo num pedestal? A questão talvez não seja o despreparo dele, mas o vazio das pessoas que precisaram colocar virtudes sobre-humanas em quem, obviamente, não é um herói (e isto o pobre Ronaldo há tempos já vinha demonstrando). Lembrei-me de Maio de 68. Não de Maio mesmo, mas do espírito. Há 40 anos, 'Pasquim' estava numa cruzada pela liberalização da imprensa - e dos costumes - em plena ditadura militar. Anselmo Duarte, Maria Bethânia, Lenny Dale e Madame Satã deram entrevistas antológicas. Não sei se foram o Lenny ou Madame Satã, mas alguém, naquela época, disse - tenho certeza - que para curar a homofobia dos brasileiros só se surgisse um grande jogador de futebol que encantasse a massa em campo e admitisse, fora dali, que era gay. O amor do público seria tão grande que ele ia aceitar. Será? Entendo que o episódio do Ronaldo seja diferenciado - não é isso -, mas o que está ocorrendo neste País, neste maio, é uma coisa horrorosa Lá no Pará, o pistoleiro que matou a freira norte-americana mudou o depoimento dele e o júri popular absolveu o fazendeiro que foi o mandante do crime. Tenho certeza de que, se os três casos fossem levados a votação popular, o terceiro terminaria passando despercebido. Afinal, é isso que as pessoas acham que ocorre numa sociedade de classes, na qual a Justiça, até por uma questão de consciência, favorece os ricos. Jure que você não pensa assim? Se eu fosse apocalíptico, diria que tudo isso é o fim dos tempos.

 


Link permanente 'Cão sem Dono'
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 16:45:08.

Não, o título que vocês acabam de ler não se refere ao filme de Beto Brant, mas a 'O Amigo da Noiva'. Acho, de qualquer maneira, que eu peguei um detalhe da comédia romântica com Patrick Dempsey para falar de uma coisa que tem me escapado desde segunda-feira. Naquela noite, ocorreu a entrega dos prêmios da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Artes, aos melhores de 2007. Subi ao palco com Frantchesco Ballerini, do 'Jornal da Tarde', para entregar os prêmios aos melhores do cinema e até agora não consegui postar nada sobre o assunto. Embora admire muito o trabalho de Wagner Moura em 'Tropa de Elite' - e o filme do Padilha com certeza não teria tanto impacto com outro ator na pele do Capitão Nascimento -, confesso que batalhei para que Selton Mello fosse o vencedor da categoria, por 'O Cheiro do Ralo'. Senti-me recompensado. Selton fez um discurso de agradecimento dizendo que a vida toda sonhou com o prêmio da APCA e brincou com o Wagner, na platéia - foi melhor ator de TV, pela novela 'Paraíso Tropical' -, acrescentando que ele achava que o troféu seria do amigo, mas que agora nem a tropa de elite arrancava dele a bela escultura de Brennand que dá forma à estatueta. Quando subiu ao palco, Wagner foi cavalheiresco e disse aquilo que eu acho - que se existe um ator que deu cara ao cinema brasileiro da Retomada, em tantos filmes, foi o Selton e que ele não ia querer tirar o prêmio do cara porque Selton era uma referência para todos os atores brasileiros. Grande Wagner. Antes disso, Walter Carvalho, premiado pela fotografia de 'O Baixio das Bestas', já dedicara o prêmio a Beto Brant (que recebeu, com Renato Ciasca, o prêmio de roteiro, por 'Cão sem Dono'). Queria até saber o por quê da dedicatória, embora, independentemente de qualquer motivo particular, ela tenha sido o reconhecimento de um nome importante do cinema paulista por um grande fotógrafo (e agora também diretor - depois de 'Cazuza', há grande expectativa por 'Budapeste', que o próprio Walter Carvalho, sem entrar em detalhes, me disse que vai surpreender). E isso me traz ao outro 'Cão sem Dono'. Quem viu o trailer de 'O Amigo da Noiva' sabe que Patrick Dempsey faz este sujeito que banca o garanhão, trocando de mulheres como quem troca de roupas, até descobrir que a melhor amiga vai se casar com outro e ele a ama. Numa cena do filme, Dempsey está desistindo de batalhar por ela quando topa com o cão sem dono e percebe que a vida dele vai ser assim, dali para a frente, se ele não reagir. Para dar algum sentido a este post quero dizer que me surpreende como atores que não deram certo no cinema viram astros e estrelas na TV. Expliquem-me, por favor, mas me parece uma prova de que nada é definitivo e de que o fracasso é relativo. Não posso, de qualquer maneira, deixar de achar curioso. Patrick Dempsey virou astro na série 'Grey's Anatomy', Sarah Jessica Parker arrasou em 'Sex and the City' - e o filme promete ser uma das sensações de público do ano, embora eu, que não conheço muito a série, pelas fotos, ache que vá ser um outro 'Diabo Veste Prada' - e até o Kiefer Sutherland ganhou uma sobrevida em '24 Horas', isso depois de amargarem carreiras que não foram exatamente brilhantes em Hollywood. As voltas que o mundo dá!

 


08.05.08

Link permanente Olhem só que lançamentos...
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 19:59:31.

Tive um dia agitado - estou tendo -, que incluiu vários textos, uma longa entrevista (que eu dei) e uma visita aos estúdios de mixagem de som da Álamo, que completa 35 anos. Conversei com a equipe que mixou 'Blindness' e 'Tropa de Elite' - e 'ouvi' partes do filme que Fernando Meirelles adaptou do romance de José Saramago, 'Ensaio sobre a Cegueira'. Fiquei nos cascos para ver o filme que abre Cannes, na semana que vem. Queria rever 'As Mil e Uma Noites', que acho o filme mais bonito (visualmente) de Pasolini, mas perdi a hora. Que pena... Hoje não terei mais tempo para postar, mas quero repassar as informações que recebi de Fernando Machado, da Lume. Ele informa os novos lançamentos em DVD da sua empresa. Já estão nas lojas 'Contos da Lua Vaga', de Kenji Mizoguchi; 'O Anjo Embriagado', de Akira Krosawa; 'Eraserhead', de David Lynch; e 'Os Imorais', de Stephen Frears, No mês que vem chegam - 'O Discreto Charme da Burguesia', meu Buñuel preferido, em edição especial; 'Vermelhos e Brancos' - e eu vou poder enfim falar sobre Miklos Janczo! -; 'Stroszek', do Herzog; e O Sucesso a Qualquer Preço', de James Foley, adaptado de David Mamet. Espero poder falar muito sobre esses lançamentos, antes da ida para Cannes (na segunda-feira).

 


Link permanente Joan... quem?
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 15:17:24.

Permitam-me falar mais um pouco sobre 'Um Homem Difícil de Matar', agora sobre a atriz Joan Hackett, que eu adorava. Não sei exatamente quando, mas Joan morreu de câncer, de um tumor no cérebro. Era uma atriz na linha de Lee Remick, que Elia Kazan definiu como a mulher mais terna que ele conhreceu no mundo do cinema - e por isso dirigiu aquelas cenas dela com o Motgomery Clift em 'Rio Violento', depois de anos de análise (e do casamento com Barbara Loden...) que pacificaram sua interioridade atormentada, após o episódio da delação durante o macarthismo. Ainda como conseqüência desse movimento, Kazan explicou a Michel Ciment, no livro copm a entrevista que lhe comncedeu, que fez 'Clamor do Sexo'. O roteirista (vencedor do Oscar) William Inge e ele se haviam analisado e resolveram fazer aquiele filme sobre como devemos perdoar a nossos pais para seguir em frente. De volta a Joan Hackett, acho as cenas dela com Charlton Heston algumas das mais belas, pelo intimismo, apresentadas no western. Aquele caubói é um bronco, não sabe como lidar com uma mulher. Ela necessita da proteção dele e quer algo mais, mas teme arriscar, se abrir. Há ali uma tristeza que sempre me comoveu e ainda por cima aquela paisagem gelada, aquele 'inverno da nossa desesperança' (duvido que o diretor Tom Gries não tenha pensado nisso). Joan Hackett morreu no começo dos 80, uns 15 anos depois de haver feito 'E o Bravo Ficou Só'. Sua estréia no cinema - ela vinha do teatro - foi em 'O Grupo', que Disney Lumet adaptou do romance de Mary McCarthy e é um filme que eu gostaria de rever, um pouco pelo elenco de grandes mulheres (candice Bergen, Elizabeth Hartman - que se suicidou -, Shirley Knight Barbara Walter, mas acho que Joan era a melhor de todas) e também pela dimensão política, que Lumet ressaltou, numa época - 1966/67 - em que o mundo mudava rapidamente. Joan ainda fez mais um filme legal, que lhe deu o Globo de Ouro - como é mesmo que se chamava em português 'Only When I Laugh', adaptado de Neil Simon, com Marsha Mason - na época em que era casada com o autor -, James Coco e não me lembro quem mais. Joan era, de novo, a melhor, como a bonitona de Manhattan que começava a sentir o peso dos anos. É impressionante como o cinema - mas na vida também é assim - existem figuras com um potencial imenso, mas que, por isso ou aquiolo, não conseguem concretizá-lo. Os franceses têm uma expressão para isso - dizem que fulano ou fulana tem 'la mauvaise étoile', a má estrela a iluminar seu caminho. Não podia deixar de acrescentar este post sobre 'E o Bravo Ficou Só'. Joan Hackett... É verdade que ainda estou sensibilizado pela morte do meu amigo Tuio Becker - e ontem recebi um e-mail com o belo texto que Maristela Bairros, jornalista de Porto Alegre, escreveu sobre ele. Só espero que não seja o único a me lembrar de Joan.

 


07.05.08

Link permanente E o Bravo Ficou Só
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 14:00:58.

Ao redigir ontem pela manhã os filmes na TV da edição de hoje do 'Caderno 2', pensei que não poderia perder a oportunidade de postar alguma coisa sobre 'E o Bravo Ficou Só', que passa hoje às 22 horas no CNT. Não sei se vocês vão ver, mas não poderia perder a oportunidade. Charlton Heston foi tão vilipendiado por Michael Moore em 'Fahrenheit 11 de Setembro' e olhem que MM, por maior que tenha sido a repercussão alcançada por 'Tiros em Columbine' e pelo citado 'Fahrenheit', nunca vai ter a mesma importância do grande Heston para a história do cinema. Já falei bastante sobre o ator, quando ele morreu, há algumas semanas. Quero falar agora de Tom Gries, que dirige 'Will Penny', título original de 'E o Bravo Ficou Só'. É um dos mais belos filmes que se inscrevem numa das tradições mais nobres do western - a dos caubóis solitários, representada por filmes como 'O Homem sem Rumo', de King Vidor, e 'O Cavaleiro Solitário', de Clint Eastwood, que não deixa de ser a reinvenção de 'Shane' (Os Brutos também Amam), de George Stevens. Sempre gostei de 'E o Bravo Ficou Só' e o filme surgiu naquele quadro do western crepúscular, pós Sam Peckinpah ('Pistoleiros do Entardecer') e John Ford ('O Homem Que Matou o Facínora'). Nos anos 60, o mundo estava mudando e a tradição do western foi submetida a uma dura revisão. Havia até um filme que se chamava 'Quando Morrem as Lendas', com Richard Widmark. É mais ou menos o tema de Tom Gries, sobre caubói iletrado que está envelhecendo e encontra viúva com um filho, a quem protege do bando selvagem de Donald Pleasence. A paisagem é invernal e a trilha foi composta por David Raskin, compondo um retrato intimista e meio nostálgico de um Oeste que estava morrendo. O próprio Tom Gries morreu há bem uns 30 anos. Todo mundo vai dizer que virou um diretor medíocre, e eu até concordo, mas ele fez dois filmes pelos quais tenho verdadeira fascinação. Um é este western e o outro, 'O Sistema', um duro ataque ao sistema carcerário norte-americano, sobre um jovem que vai preso e prefere se matar a servir de mulher para o criminoso que controla a cadeia. "E o Bravo Ficou Só' é de 1967. Tom Gries voltou ao western no ano seguinte com 'Cem Rifles', com Raquel Welch e Jim Brown, e o filme não era bom, embora causasse sensação ao explorar uma relação multirracial, bem de acordo com as transformações da época. Na minha cabeça, o 'Bravo' é indesligável de outro grande western fúnebre que William Fraker fez em 1970, com Lee Marvin e Jeanne Moreau. O título original era 'Monte Walsh' e no Brasil ficou 'Um Homem Difícil de Matar'. Lee Marvin vê o mundo todo desmoronar ao seu redor. Morre a garota de saloon que ele ama (Jeanne) e com quem poderia ter refeito sua vida. Apesar do título brasileiro, o filme narra a trajetória dele para a morte. E as cores! William Fraker foi um dos maiores diretores de fotografia de Hollywood ('Bullitt', 'O Bebê de Rosemary' etc). Ele trabalhou a cor como áreas de sombra, à Rembrandt. E que filme mais triste! perto de 'Monte Walsh', até 'Will Penny' fica mais luminoso. São obras importantes do crepúsculo de um gênero que não sobreviveu às mudanças operadas pela estética dos efeitos especiais em Hollywood, a partir dos anos 70.

 


Link permanente E o Bravo Ficou Só
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema s 13:49:44.

Ao redigir ontem pela manhã os filmes na TV da edição de hoje do 'Caderno 2', pensei que não poderia perder a oportunidade de postar alguma coisa sobre 'E o Bravo Ficou Só', que passa hoje às 22 horas no CNT. Não sei se vocês vão ver, mas não poderia perder a oportunidade. Charlton Heston foi tão vilipendiado por Michael Moore em 'Fahrenheit 11 de Setembro' e olhem que MM, por maior que tenha sido a repercussão alcançada por 'Tiros em Columbine' e pelo citado 'Fahrenheit', nunca vai ter a mesma importância do grande Heston para a história do cinema. Já falei bastante sobre o ator, quando ele morreu, há algumas semanas. Quero falar agora de Tom Gries, que dirige 'Will Penny', título original de 'E o Bravo Ficou Só'. É um dos mais belos filmes que se inscrevem numa das tradições mais nobres do western - a dos caubóis solitários, representada por filmes como 'O Homem sem Rumo', de King Vidor, e 'O Cavaleiro Solitário', de Clint Eastwood, que não deixa de ser a reinvenção de 'Shane' (Os Brutos também Amam), de George Stevens. Sempre gostei de 'E o Bravo Ficou Só' e o filme surgiu naquele quadro do western crepúscular, pós Sam Peckinpah ('Pistoleiros do Entardecer') e John Ford ('O Homem Que Matou o Facínora'). Nos anos 60, o mundo estava mudando e a tradição do western foi submetida a uma dura revisão. Havia até um filme que se chamava 'Quando Morrem as Lendas', com Richard Widmark. É mais ou menos o tema de Tom Gries, sobre caubói iletrado que está envelhecendo e encontra viúva com um filho, a quem protege do bando selvagem de Donald Pleasence. A paisagem é invernal e a trilha foi composta por David Raskin, compondo um retrato intimista e meio nostálgico de um Oeste que estava morrendo. O próprio Tom Gries morreu há bem uns 30 anos. Todo mundo vai dizer que virou um diretor medíocre, e eu até concordo, mas ele fez dois filmes pelos quais tenho verdadeira fascinação. Um é este western e o outro, 'O Sistema', um duro ataque ao sistema carcerário norte-americano, sobre um jovem que vai preso e prefere se matar a servir de mulher para o criminoso que controla a cadeia. "E o Bravo Ficou Só' é de 1967. Tom Gries voltou ao western no ano seguinte com 'Cem Rifles', com Raquel Welch e Jim Brown, e o filme não era bom, embora causasse sensação ao explorar uma relação multirracial, bem de acordo com as transformações da época. Na minha cabeça, o 'Bravo' é indesligável de outro grande western fúnebre que William Fraker fez em 1970, com Lee Marvin e Jeanne Moreau. O título original era 'Monte Walsh' e no Brasil ficou 'Um Homem Difícil de Matar'. Lee Marvin vê o mundo todo desmoronar ao seu redor. Morre a garota de saloon que ele ama (Jeanne) e com quem poderia ter refeito sua vida. Apesar do título brasileiro, o filme narra a trajetória dele para a morte. E as cores! William Fraker foi um dos maiores diretores de fotografia de Hollywood ('Bullitt', 'O Bebê de Rosemary' etc). Ele trabalhou a cor como áreas de sombra, à Rembrandt. E que filme mais triste! perto de 'Monte Walsh', até 'Will Penny' fica mais luminoso. São obras importantes do crepúsculo de um gênero que não sobreviveu às mudanças operadas pela estética dos efeitos especiais em Hollywood, a partir dos anos 70.

 


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