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08.02.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 13:23:12.

Não hesito em comentar o que está na capa da concorrência. Tarifa de celular (no Brasil) é a 2ª maior do mundo. Só na África do Sul os usuários do sistema pagam mais. Se dependesse de mim, essa gente morria toda de fome. Oi, Tim, Vivo. Nem por ouro nem por prata uso celular. Morro resistindo. Se é para pagar caro, prefiro gastar dinheiro com outras coisas.

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 12:33:15.

Na sexta, estava em Belo Horizonte, era a estreia de 'Guerra ao Terror', e vi que 'O Estado de Minas' transcreveu o texto de Luiz Zanin Oricchio sobre o filme da poderosa Kathryn Bigelow. Não li, mas não foi por nenhum parti-pris. No sábado, o jornal voltou ao filme da ex-senhora James Cameron, uma matéria enorme, sem assinatura. Achei curioso - afinal, no dia anterior o jornal já tratara do assunto - e comecei a ler. Era a minha matéria do 'Caderno 2'! Queria ter visto o filme de Kathryn ontem, mas me enrolei e perdi a hora. Coloquei visto - e não (re)visto -, porque tenho essa desagradável sensação de que vou ver outro filme ao assistir a 'Guerra ao Terror' na tela grande (vi o filme em DVD, no formato pequeno). Feita a ressalva, volto ao jornal mineiro porque, em Tiradentes, num sábado, descobri a página de Cyro Siqueira no 'Cultura'. Não conheço o jornalista em questão, mas o Cyro escrevia, no primeiro sábado, sobre filmes como 'Delírio de Loucura' (Bigger than Life), de Nicholas Ray, e 'O Cúmplice das Sombras', de Joseph Losey. Oba! Fiquei nos cascos, achando que estavam saindo em DVD, e só depois descobri que o Cyro mantém essa página com informações e reflexões sobre cinema, que não está necessariamente conectada ao circuito (seja de cinema, TV ou DVD). Ele viaja no seu imaginário e, se o jornal banca uma página inteira como material de leitura, no fim de semana, é porque deve ter público, ó xente. Neste sábado, o jornalista abordou, sob o título 'Mistérios Inexplicados de Uma Narrativa', outro filme que me interessa particularmente - 'O Tesouro do Barba Rubra' (Moonfleet), de Fritz Lang. Em Paris, o Action Christine exibia, em suas duas salas, uma retrospectiva de Lang e outra de comédias românticas. Por uma questão de horário, assisti a filmes de George Stevens e Ernst Lubitsch e até revi 'Le Tombau Indien', segunda parte de 'O Tigre da Índia', de Lang, quando queria ter revisto 'Moonfleet'. Vi o filme com Stewart Granger quando garoto, e era só uma aventura de pirataria (mais uma) para mim. No seu livro sobre o grande diretor, 'Fritz Lang in America', Peter Bogdanovich põe 'O Tesouro do Barba Rubra' nas nuvens, destacando o relato gótico - e noturno - como um daqueles pesadelos em que Lang era mestre, ao criar. Pois bem, em Ouro Preto, descobri a loja da editora da UFMG, a Universidade Federal de Minas Gerais e nela uma coleção com vários volumes. 'A Infância Vai ao Cinema', 'A Mulher...' São livros de ensaios. Comprei o livro da infância justamente porque, na contracapa, entre os filmes citados, descobri que estava 'O Tesouro'. Li o texto de um crítico espanhol, Carlos Llosada - acho que é isso -, e achei muito bacana. Ele faz uma leitura atravessada que muito me atraiu. De acordo com ela, o filme de Lang tem seu oposto, mas também complemento, num Minnelli que adoro, 'Papai Precisa Casar' (The Courtship of Eddie's Father). Amanhã, embarco para Berlim e, na volta, espero ficar mais dois ou três dias em Paris, para ver Isabelle Huppert como Blanche Dubvois no teatro. Duvido que a retrospectiva de Lang ainda esteja rodando, mas bem que adoraria (re)ver 'Moonfleet'. Não vou ficar recomendando que vocês baixem o filme na internet, porque não pega bem, mas, para bom entendedor, meia palavra basta.

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 11:48:54.

Até agora não olhei direito a lista de indicados para o Oscar e, por isso mesmo, tenho trocado os pés pela mão em certas observações. mas a verdade é que, no fundo, não ligo muito pro tal maior prêmio do mundo, até porque nunca estou em sintonia com os acadêmicos. É raro eu acertar as indicações e, menos ainda, os vitoriosos. Por exemplo, a Miss Avon, Reese Whiterspoon, foi melhor atriz por 'Johnny e June'. Com meu voto, ela não seria nunca. Até agora, não fiz nenhum comentário sobre uma categoria que me interessa especialmente, a de melhor filme estrangeiro. Vou misturar dois raciocínios. Integrei certa vez a comissão que escolhe o representante brasileiro. Foi no ano em que 'Abril Despedaçado' foi indicado e uma revista semanal fez a grande denúncia sobre a 'conspiração' para indicar o filme de Walter Salles. Justamente naquele ano havia sido voto vencido porque meu candidato era 'Bicho de Sete Cabeças', que talvez também não tivesse concorrido ao prêmio da Academia de Hollywood, mas teria me deixado muito mais contente. Todo ano, é sempre a mesma ladainha. A comissão brasileira tenta pensar com a cabeça do Oscar, seja lá o que isso representa. Eu acho que a gente tem de escolher o melhor, o mais representativo, e f...-se. Entre os indicados deste ano está 'La Teta Asustada', de Claudia Llosa. Decididamente, não tem cara de Oscar, seja lá qual seja, mas está entre os cinco. Os demais indicados são - 'A Fita Branca', de Michael Haneke, que ganhou a Palma de Ouro no ano passado; 'Un Prophète', de Jacques Audiard, que eu amo e pelo qual vou torcer, mesmo que, como filme de gângsteres, por mais forte (e interessante, inovador) que seja seu recorte, possa dar a impressão de percorrer um território já mapeado por Hollywood; o israelense 'Ajami', que teve apoio do World Fund do Festival de Berlim ('La Teta' ganhou o Urso em 2009, não se esqueçam); e, finalmente, o argentino 'O Segredo de Seus Olhos', de Juan José Campanella, do qual gostei bastante, quando o vi no Festival do Rio, no ano passado. O próprio Campanella estava no Rio e fiz uma entrevista longa com ele, conversando sobre 'O Filho da Noiva', que já lhe valera uma indicação para o prêmio da academia - e o assunto, claro, também foram as possibilidades do novo filme este ano -, além de falarmos sobre sua atividade como diretor de 'House'. Pelo que entendi, ele soube da indicação justamente no set de 'House', quando dirigia mais um episódio da série com Hugh Lurie, nos EUA. O legal é que a lista de indicados da categoria neste ano é muito boa. Num certo sentido, o concorrente mais tradicional é o argentino, que se baseia no livro 'La Pregunta de Sus Ojos', de Eduardo Sacheri, sobre aposentado do Tribunal Penal (Ricardo Darín) que decide escrever um romance baseado num caso de assassinato que o perturba há mais de 25 anos. Misturando romance e suspense, Campanella cria um sólido - e sombrio - exemplar de cinema de gênero e o filme carrega um subtexto político perturbador sobre os anos de chumbo no país vizinho. Vi que o cartaz de 'O Segredo de Seus Olhos' já está em exposição no Arteplex, mas não creio que vá estrear antes do Oscar. Tomara que sim. 'A Fita Branca' já entra sexta. E o 'Profeta'? Sinceramente, não sei. Alguém me dá notícias do filme de Audiard?

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 10:53:31.

Pedro Ferreira me puxa a orelha, e com toda razão. Observa que, na coluna de Filmes na TV do 'Caderno 2', reintitulei o western 'Winchester 73', do grande Anthony Mann, como 'Winchester 53'. Pedro tem toda razão e não há como me defender, mas o curioso é que havia escrito certo, mas aí, ao colocar a data da produção, 1950, fiz sei lá que confusão na minha cabeça e resolvi corrigir o número da Winchester. Um a zero para o Pedro. Já o Marcos Sampaio, que também me cobrou uma informação sobre outro filme, ou diretor, não tem razão. Na entrevista com Elia Suleiman, também no 'Caderno 2', disse que 'Intervenção Divina' não havia sido aceito como candidato ao Oscar porque a academia não reconhecia a Palestina como país. Foi justamente a polêmica originada pela decisão que possibilitou, acho que três ou quatro anos mais tarde, que 'Paradise Now' concorresse ao prêmio. Quem me acompanha sabe que amo o filme de Hany Abu Assad, que me forneceu um complemento indispensável para o 'Munique' de Spielberg. Muito me surpreendeu, tenho de admitir, descobrir recentemente que Abu Assad vai adaptar o Paulo Coelho, já tendo feito inclusive pesquisa de locações no Brasil (no Rio). Não sei se já filmou, mas, enfim, fica saó o registro, porque o tema do post não era esse. Queria só esclarecer os pontos com o Pedro e o Marcos, semopre muito bem-vindos aqui no blog.

 


07.02.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 13:46:03.

Cheguei ontem à tarde e, em casa, zapeando na TV paga, vi que havia um Minnelli na rede Telecine. 'Um Amor do Outro Mundo' (Goodbye, Charlie), de 1964. A comédia com Tony Curtis e Debbie Reynolds se situa entre dois filmes do diretor que me agradam mais - 'Papai Precisa Casar', com o menino Ron Howard, e 'Adeus às Ilusões' (The Sandpiper), com o casal Burton/Taylor. Não resisti e fiquei vendo, mas já estava terminando. Saí e peguei uma condução para o centro. Mal desci do ônibus e desabou o mundo. Corri para uma marquise e fiquei mais de uma hora vendo o mundo passar e a água cair. Eh, São Paulo... À noite, fui rever 'Nine'. Não quero polemizar com o Silva e muito menos com meu colega Ubiratan Brasil, o Bira, que deu de ver o musical pela cartilha da dupla Muller/Botelho, Deus me livre! Mas eu gostei ainda mais de 'Nine'. Marion Cotillard é uma loucura, Daniel Day-Lewis é um arraso e alguns números musicais tocam a perfeição, entre eles, claro, o de Saraghina, com Fergie. Para mim, o filme funciona (muito) e Rob Marshall, sob certos aspectos, vai adiante do próprio Fellini, porque seu musical, mesmo pegando carona em 'Oito e Meio', como a peça que lhe deu origem, tem recuo para falar sobre a totalidade do autor italiano, que morreu há quase dez anos (1991). Há uma discussão muito interessante sobre a moralidade do artista, e não apenas dele, que pode ser aplicada aos personagens fellinianos de 'Os Boas Vidas', 'A Estrada da Vida', 'A Trapaça', 'A Doce Vida' etc. Confesso que a revisão do filme me trouxe uma descoberta - Sophia Loren. Não havia captado a sutileza daquela mamma e o que a persona de Sophia lhe acrescenta, mas quando o menino pula na grua com Daniel Day-Lewis e o aparelho descreve aquele movimento eu estava em êxtase. Tive a mesma sensação de euforia que experimentei ao ver 'Nine' pela primeira vez em Santa Monika, no começo de janeiro. Aliás, maior. Queria mais. Revi 'Nine' na última sessão de ontem do Espaço Unibanco. Se começasse outra sessão em seguida, teriam de me expulsar da sala. Queria ver tudo de novo.

 


06.02.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 09:32:59.

BELO HORIZONTE - Preciso tomar café e arrumar a mala, o que deixo sempre para a última hora, mas não resisto a mais um post. Ao falar sobre o filme de Coutinho no post anterior, não me vinha o título e eu tive de entrar na rede, numa pesquisa, para me lembrar de 'Moscou'. Encontrei a dica - Eduardo Coutinho está no Facebook. Este é um território estranho para mim, mas fica a informação (que muitos de vocês já devem saber). Ao redigir a entrevista de Bong Joon-ho que está hoje no 'Caderno 2', falei nos dois filmes sul-coreanos que participavam da seleção oficial de Cannes no ano passado. O concorrente era assinado por Park Chan-wook, diretor da trilogia da vingança. Escrevi 'Thirsty' e me bateu que não era - é 'Thirst'. Também precisei pesquisar na rede e descobri o site de Park Chan-wook. Vocês conhecem? Quem for tiete do diretor, não sabe o que está perdendo...

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 09:19:18.

BELO HORIZONTE - Daqui a pouco, o motorista passa no hotel e leva a gente para o aeroporto de Confins. Ciao, Minas. Acrescentei o post anterior, enorme, na expectativa de que algumas pessoas - muitas! - ficassem com vontade conhecer o Topo do mundo e a capelinha de Nossa Senhora do Ó, relíquia mineira e tesouro da humanidade. O jantar de ontem foi delicioso. Rodolfo Vaz e Fernanda Vianna nos levaram a um restaurante italiano no bairro Sagrado Família - Osteria? Oratório? -, um lugar muito simples por fora, mas que por dentro é um luxo. E a comida? Deliciosa! Delícia também foi a prosa. Fernanda e Rodolfo são atores do Galpão e participaram do filme de Eduardo Coutinho com o grupo mineiro de teatro. Adoraram a experiência. Ouvi as histórias de bastidores e me bateu uma vontade danada de correr a rever 'Moscou', até porque, com todas as qualidades que possa ter, me parece um Coutinho falho. Em todos os encontros - falo em todos, mas foram só dois -, Coutinho me passava um sentimento de dúvida como nunca senti em relação a seu trabalho. Ele cortou o Rodolfo do filme, como cortou outros atores do grupo. Fernanda, pelo contrário, resplandece. É uma atriz talentosa, com formação de bailarina, sobrinha do lendário Klauss Vianna, e uma mulher muito bonita. Esse Rodolfo não é mole! 'Moscou' mostra, mesmo que não seja um making of, o processo do Galpão preparando uma montagem de 'As Três Irmãs'. A peça, e Chekhov, não fazem parte do repertório do grupo e espero não criar nenhum constrangimento para ninguém - não me lembro de ter conversado sobre isso com Coutinho -, mas quem ia dirigir a peça dentro do filme era Bia Lessa e, como Enrique Diaz, o nome de Gabriel Villela também foi jogado na mesa. Já que se tratava de uma experiência nova, Enrique foi o escolhido (Gabriel já trabalhara com o grupo). Na hora de dormir, fiquei meio que devaneando. Se fosse outro o diretor de 'As Três Irmãs' em 'Moscou', o filme teria mudado? E o que teria mudado? Insisto que estou morrendo de vontade de rever 'Moscou'. De volta a nossos amigos, à tarde, no carro, Rodolfo Vaz nos contara sua experiência como jogador de futebol do Cruzeiro - foi lateral - e a ligação com o clube, que permanece. Seu filho, Lucas, de 12 anos, é bom de bola e também ia seguir carreira no futebol - aonde mais, senão no Cruzeiro? -, mas agora o guri descobriu a street dance e está dividido. Nunca tive desejo de fazer um filme, e continuo não tendo. Minha praia no cinema é outra. Mas, nessas andanças por Minas, tudo vira filme para mim. Este post já teria dado uns três filmes. Quais?

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 08:42:31.

BELO HORIZONTE - Preparem-se que o post vai ser longo, e sem parágrafos. E de início, um esclarecimento. Escrevi este post ontem à noite, sexta, enquanto aguardava, no lobby do hotel, a chegada de meus amigos, os atores Rodfolfo Vaz e Fernanda Vianna, para jantarmos. Não consegui salvá-lo no blog e, por via das dúvidas, copiei como e-mail para mim, para tentar postar mais tarde, o que faço somente agora, já na manhã de sábado. Vamos ao post.
Quantos dias sem dar notícias? Desde que deixei Ouro Preto, na segunda-feira, sem conseguir validar os comentários que estavam chegando... Viemos, meu amigo Dib Carneiro e eu, para BH. No caminho, passamos por Sabará e eu pude rever a capelinha de Nossa Senhora do Ó, que conheci há 34 anos, por aí. Brinquei com a funcionária que tomava conta do local - ela não era nascida, quando lá estive pela primeira vez. E não era mesmo. Vi coisas belíssimas nessa viagem a Minas, mas nada, nem a estatuária do Aleijadinho em Congonhas do Campo nem as pinturas de mestre Ataíde em OP, supera o impacto que, para mim, tem essa mistura rara de barroco mineiro e 'chinesice' que é a capelinha do Ó. Quando me despedi dela, jovem ainda, achei que nunca mais voltaria. Nunca mais é uma palavra muito dura, ainda mais para quem, como eu, mesmo atraído pelas descobertas, gosta sempre de retomar velhos caminhos, velhos lugares. Na minha vida, estou sempre querendo voltar aos lugares que me marcaram, e tenho conseguido. Assisti a um filme, 'O Fim da Escuridão', a outro filme, 'High School Musical - O Desafio', e a uma peça, 'Chico Rosa', aqui na capital de Minas. Pretendo falar sobre todos, mas agora quero relatar um pouco o que foi meu dia de hoje. Desde o tempo de 'Salmo 91', e através de Gabriel Villela, Dib Carneiro fez amizade com uma mineirada bacana. Queríamos ir a Inhotim e Rodolfo Vaz, o grande ator do Galpão que venceu o Shell pelo 'Salmo 91', nos levou de carro. Rodolfo fez não sei se o caminho mais longo, mas o mais belo, com certeza. Fomos pela Serra da Moeda, passando pelo restaurante que é ponto de largada para vôos livres. O restaurante tem o sugestivo nome de Topo do Mundo. Na ida para Tiradentes, na van da Mostra, acho que escandalizei meus companheiros de viagem. Sou um cara 100% urbano, não curto serra nem mar. Olho uma vista bonita, registro o que vi e pronto. Hoje, queria que todo o povo daquela van estivesse no Topo do Mundo comigo - ave, James Cameron! - para viajar naquela imensidão de verdes. Um mundaréu de serras sem fim, diferente das coxilhas e lhanuras do Rio Grande. E a descida da Serra da Moeda, rumo a Inhotim, teve direito a trilha sonora do grupo Uakti. Rodolfo caprichou no translado. E ele ainda contava histórias de teatro e cinema. Rodolfo foi ator de 'As Tentações do Irmão Sebastião', de José Araújo e contou histórias da filmagem, episódios dignos de Werner Herzog em seus momentos mais delirantes. O filme trabalha com sincretismo religioso e o diretor José Araújo rodou cenas inteiras com médiuns incorporados com as entidades do candomblé, como se estivessem em transe hipnótico. Não me sinto autorizado aqui a repetir aqueles relatos, muitos deles bastante íntimos sobre pessoas que não conheço, mas o Rodolfo falava e eu ia visualizando os filmes, como se tudo aquilo fosse um cinema falado. Quantos filmes ele nos contou? Pelo estranhamenmto, seriam programas para o próximo Festival de Tiradentes... Inhotim foi uma descoberta. Jotabê Medeiros fez uma matéria de denúncia no 'Caderno 2', coisas de verbas, favorecimentos, mas o que Inhotim oferece não está no gibi. Os pavilhões montados no meio da mata encerram experiências audiovisuais únicas. Você já pensou em ouvir o som da terra? Vá a Inhotim. Aproveite e ouça a trilha que Steve McQueen, homônimo do astro de 'Bullitt' e diretor de 'Hunger', criou para imagens que a Nasa selecionou para lançar ao espaço, como cartas a outras civilizações, com testemunhos sobre a raça humana. Minha imaginação começou a funcionar. Alguns pavilhões são tão futuristas que poderiam servir de cenário para as aventuras de James Bond. Eu já via o Daniel Craig solto por ali, batendo e arrebentando. De volta ao hotel, vou jantar daqui a pouco com Rodolfo Vaz e sua mulher, a atriz Fernanda Vianna, que acaba de fazer uma participação no novo filme de Eryk Rocha. Espero ouvir muitas mais histórias de cinema. Amanhã, volto para São Paulo, mas será por pouco tempo. Na terça. já estarei voando para Berlim. Embora oficialmente em férias, não deixei de fazer os filmes na TV do 'Caderno 2' nem numerosas entrevistas. Entre outras, com Elia Suleiman, diretor de 'The Time That Remains', no 'Caderno 2' de hoje, e Bong Joon-ho, de 'Mother', no de amanhã. Não percam o filme de Suleiman nem o de Joon-ho. Haviam dois filmes sul-coreanos no Festival de Cannes do ano passado. O melhor, o de Joon-ho, estava na mostra Un Certain REgard. Uma história sobre maternidade levada a extremos, estrelada por Kim Hye-jo (ou ja?), a Fernanda Montenegro da Coreia do Sul, famosa por seus papéis de mãe, mas que nunca fez uma heroína como a desse filme forte, raro e, no desfecho,sombrio. E aí? Mexam-se! Saiam de casa para ver Suleiman e Joon-ho. Vai ser bom...

 


03.02.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 09:10:20.

OURO PRETO - Havia dito ontem à noite que meu próximo post seria acrescentado de BH, mas não. Levantei-me cedo para fazer os filmes na TV de amanhã. Aproveitei e dei uma conferida nos e-mails e não estou conseguindo postar comentários como o da Xokita, sobre as indicações para o Oscar (e para o prêmio Framboesa). Apareceu para mim aqui uma mudança de formatação da qual não estava informado. Vamos ver do que se trata. Enquanto isso, Xokita e Paulo aguardem, por favor Aproveito para fazer uma retificação. Estava no banho quando me caiu a ficha. 'Vivacious Ladyu', Que Papai não Saiba, de George Stevens, com Ginger Rogers, não é com Cary Grant e sim, com James Stewart. Assisti ao filme, e também aos dois de Lubitsch a que me referi no texto, num ciclo sobre comédias românticas dos anos 1930 e 40, no Action Christine um pequeno cinema de arte da Rive Gauche que é um dos meus favoritos, quando estou em Paris. Tenho de agradecer ao meu trrabalho, que me tem permiotrido viajar tanto, conhecendo o Brasil o mundo e, principalmente, conhecendo gente, que é o que mais importa. Volto sábado a São Paulo - não, Xokita, não participo de nenhum evento em BH de hoje a sexta. Fico um pouquinho em São Paulo e, na terça, já embarco para Berlim. Embora deva ir a Londres para a junkett de 'Alice' - não entendo por que tenha de entrevistar Tim Burton e JOhnny Depp na capital inglesa, se ambos estarão na Berlinale -, espero passar mais dois ou três dias em Paris, onde Isabelle Huppert estreia em fevereiro 'Um Bonde Chamado Desejo', d'après Tennessee Williams.

 


02.02.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 22:53:22.

OURO PRETO - Pela procedência, vocês já viram onde estou. Desde ontem. Cheguei no fim da tarde, depois de deixar Tiradentes de manhã e passar por Congonhas do Campo, onde visitei, mais uma vez, o santuário de Bom Jesus de Matosinhos. A igreja estava fechada, as capelas continuam em reforma, como no ano passado, quando estive no local com a Lúcia, minha filha. Mas pelo menos duas já estão prontas e se pode conferir a genialidade do trabalho de Aleijadinho. Não sei dizer dizer exatamente quando - o ano -, mas já estive ali, e me hospedei no Hotel Cova de Daniel em companhia de minha ex, Doris Bittencourt. O ano devia ser 1973 ou 74, porque eu recém havia visto 'Irmão Sol, Irmã Lua', de Zeffirelli, sobre São Francisco de Assis, e me encantou, como no filme, assistir a uma missa, de manhã cedo, em que cachorros e aves, até um galo - me lembro -, entravam na igreja, e ninguém ficava a expulsá-los (o irmão cachorro, o irmão galo). Ontem, me senti como parte de um enredo de Dan Brown, com aquele guia que tecia histórias de conspiração, sobre como o Aleijadinho escolheu os profetas, e alguns nem eram profetas de verdade, para que as iniciais dos nomes formassem o dele. Além das referências à maçonaria, presentes na arte sacra mineira, existem elementos que ligam os profetas de Congonhas aos inconfidentes. Tudo aquilo me excita a imaginação. Hoje, fiquei sabendo do Oscar via um telefonema de Gabriel Villela. Então é certo - 'Avatar' e 'Guerra ao Terror' estão entre os indicados para melhor filme; 'Up, Altas Aventuras', também. James Cameron e sua ex, Kathryn Bigelow concorrem ao prêmio de direção; Casey Mulligan, de 'An Education', que entrevistei na sexta, ao de melhor atriz; e 'Um Profeta', de Jacques Audiard, representando a França, briga pelo prêmio de melhor filme estrangeiro (com um da Argentina e outro da Alemanha, justamente 'A Fita Branca', de Michael Haneke). Vamos ter oportunidade de falar sobre todos esses filmes, mas agora quero dizer que assisti, à noite, no único cinema de Ouro Preto, a 'Quelque Chose às Te Dire', longa de Cécile Telerman que, fui pesquisar na internet, deve ter estreado no País em 2 de outubro do ano passado. Onde estava que não o vi? No Festival do Rio? Achei muito legal o filme, que no Brasil se chama 'Algo Que Você Precisa Saber', sobre segredos de família. 'Quelque Chose' tem duas atrizes que amo, Mathilde Seigner e Charlotte Rampling e a cena em que Charlotte diz para a filha que sente muito, mas não consegue expressar o amor que sente por ela, é de uma beleza que me tocou profundamente. Valente (Eduardo?) me pede que comente os demais filmes que integraram a Mostra Aurora, em Tiradentes, e não apenas o vencedor, 'Caminho para Ythaca', como fiz aqui. Pretendo fazê-lo, Valente, mas não agora. Também não tive tempo, ainda, de comentar vários filmes a que assisti em Paris - 'A Oitava Esposa do Barba Azul' e 'Angel', de Ernst Lubitsch; um de George Stevens que me escandalizou pelo teor racista da representação do negro, 'Que Papai não Saiba', com Cary Grant e Ginger Rogers, e eu desconfio que ele fez depois 'Assim Caminha a Humanidade' e 'O Diário de Anne Frank' para se purgar; e 'Paixões Que Alucinam', Shock Corridor, de Samuel Fuller, sobre o qual havia falado, recentemente, a propósito da preferência que os 'autores' da nouvelle vague tinham por Fuller. Foi uma experiência e tanto rever o cinema demencial e essencialmente físico de Fuller. Ando em êxtase com tantos filmes bons que tenho visto. Mesmo aqueles de que não gostei muito em Tiradentes e Paris levantaram questões interessantes sobre o próprio cinema e elas permanecem comigo. Cada vez me convenço mais que não são só os filmes de que a gente gosta que nos acompanham. Não resisto a provocar o Silva - quer dizer que o enfadonho 'Nine' ficou entre os dez indicados para o prêmio da academia? Como era mesmo? Enfadonho e que não funciona? Achei excessivo que o musical de Rob Marshall tenha candidatado Penelope Cruz para o Oscar de coadjuvante. Quem deveria ter sido indicada era a Marion Cotillard, mas, enfim, vejam que não é todo mundo que acha 'Nine' enfadonho e eu continuo insistindo naquele número da Saraghina como coisa de louco. Enfim, é tarde, tive um dia cheio - andei até em minas, falo em minas de verdade, o que me reativou a lembrança de filmes que amo, especialmente 'Ver-Te-Ei no Inferno', The Molly Maguires, de Martin Ritt. Mas é misturar demais as coisas. Muitos de vocês já devem ter desistido desse post tão caótico (e longo, e sem parágrafos. É para ser um desafio mesmo.) Quis só dar notícias. Amanhã eu volto a postar. Em BH.

 


01.02.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 10:20:18.

TIRADENTES - Não passei bem a noite - tive problemas de intestinos, mas vou poupá-los dos detalhes - e agora de manhã já redigi os filmes na TV de terça. Ainda não consegui, por problemas de espaço, emplacar uma matéria sobre o encerramento da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que terminou sábado à noite. Ontem, postei rapidamente, antes de tentar dormir, algumas impressões gerais. Mas não assinalei o que talvez mais me tenha impressionado aqui em Tiradentes. Muitos, se não todos os filmes da Mostra Aurora, mostraram personagens solitários ou ilhados. Três mulheres que quase não se comunicam numa casa ('Mulher à Tarde'), os moradores de coberturas ('Um Lugar ao Sol'), gente num cruzeiro ('Pacific'), habitantes numa terra de ninguém, a fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru ('Terras'), os próprios garotos que caem na estrada em 'Ythaca' e que não interagem com o mundo que segue estagnado, enquanto eles vão passando. São filmes pós-modernos (a maioria) e pós-utópicos (todos) e o que me ganhou em 'Ythaca', a par da reinvenção formal (e como método de produção) do Cinema Marginal, foi o tema da amizade entre aqueles garotos. Eles choram a morte de um companheiro, mas não se desagregam. Permanecem solidários, talvez sem um projeto de verdade, mas unidos no companheirismo e os quatro atores, produtores, diretores, roteiristas e montadores, entre um porre e outro, um choro e outro, permanecem unidos como os dedos de uma mão, à qual falta agora um integrante (um dedo?). 'Ythaca' irritou a algumas pessoas, a amigos inclusive - 'um filme sem assunto', tive de ouvir muito -, mas nunca vi filme sem assunto que tivesse tanta coisa a dizer. Os quatro (anti)heróis passam pelo filme barbudos. Num determinado momento, ocorre uma ruptura (uma transformação?) e eles avançam mudados para a câmera. Na ideia original, estariam nus, mas os irmãos Pretti e seus cúmplices, os primos Parente, acharam que seria excessivo e propõem outra coisa. Aquele pequeno exército de Brancaleone me tocou muito. A reinvenção do mundo e do cinema, a reinvenção do mundo pelo cinema. Chorei que foi uma beleza.
Estou abrindo um parágrafo. Ia acrescentar outro post, porque o assunto vai mudar muito, mas o carro me apanha daqui a pouco para seguir para Ouro Preto, com passagem por Congonhas do Campo. Tenho pressa. O recado é para o Silva, que tira sarro. O que seria de filmes enfadonhos e que não funcionam, como 'Nine', se não fosse eu. Acreditem que, com todas as diferenças, ouvi exatamente isso, a parte do enfadonho e do não funciona, sobre o filme do coletivo de Fortaleza? Ainda bem que existimos, meus colegas de júri e eu. Espero que tenhamos ficado também amigos, solidários. Adorei-os. E, Silva, sem querer polemizar. Tanta gente falou mal de 'Nine', acho que todo mundo. Fica com eles, que fornecem o respaldo de uma confortável maioria. Eu, quando todo o mundo é contra, desconfio. Era, aliás, o tema do Simenon que estava lendo, nos raros momentos de folga. 'O Amigo de Infância de Maigret'. Todas as evidências apontam que o cara teria cometido um assassinato. Maigret nem gostava dele na escola. Acha que o cara ficou ainda mais abjeto do que já era. Mas ele rejeita, acha excessivo, o acúmulo de pistas. De minha parte, tenho é pena de quem não capta, no musical, a espessura dramática das cenas de Daniel Day-Lewis e da sublime Marion Cotillard - ele, confesso, me surpreendeu mais do que no filme do petróleo, que lhe deu o Oscar; lá, Day-Lewis exibiu o que eu esperava de um grande ator fazendo seu número -, isso para não falar de Stacy Ferguson como Saraghina. Ninguém me tira da cabeça que o próprio Fellini teria amado aquela coreografia na falsa praia.

 


31.01.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 22:13:08.

TIRADENTES - Ontem à noite, precedendo a cerimônia de premiação da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, foram exibidos dois longas fora de concurso. O novo documentário de Marília Rocha, 'A Falta Que nos Faz', que aborda o universo feminino, como o anterior, 'Aboio', falava do masculino, e 'Elvis e Madonna'. Conheço o diretor do segundo desde que integramos, Marcelo Laffite e eu, uma comissão da Petrobras que avaliava roteiros. Não vou lhe fazer a ofensa de dizer que não esperava nada do longa, mas a história da lésbica que engravida do travesti me surpreendeu, e encantou. 'Elvis e Madonna' é transgressivo sem deixar de ser sedutor para o grande público. Passou no Cine-Tenda, mas foi visto com o mesmo carinho que 'Bailão', o curta de Marcelo Caetano, na praça. 'Elvis e Madonna' é muito simpático. Não é perfeito, o que, no limite, 'Estrada para Ythaca' também não é, e no final talvez recorra a facilidades para se 'solucionar'. Afinal, é um filme sobre gente que persegue seu sonho e nós, o público - eu, pelo menos -, torcemos para que dê certo. 'Elvis e Madonna' é inteligente, bem realizado - Luiz Carlos Lacerda, que ministrava aqui uma oficina, provocou: disse que o filme de Marcelo Laffite, seu ex-assistente, era um corpo estranho no universo experimental da Mostra de Tiradentes, justamente por ser um filme com roteiro, com começo, meio e fim -, mas eu acho que o que realmente faz a diferença é o elenco. Simone Spoladore, mais uma vez maravilhosa, agora no papel de lésbica, e Ivo Cotrim, que faz o travesti. Simone está na Record, na novela 'Bela, a Feia'. Ivo também está na Record, no reality show 'Fazenda'. São bons demais da conta, como se diz aqui em Minas. As cenas de sexo dão um nó da cabeça do público e pode até parecer voyeurismo, mas quando Simone acusa a penetração, você não precisa ver para perceber o que está ocorrendo. Simone é f... em tudo o que faz. E o Ivo, que não conhecia, vai fundo na sua Madonna, vivendo o papel com, absoluto despudor. Encontrei Marcelo Laffite na festa de encerramento e ele me disse que está conversando com Adhemar de Oliveira, do Espaço Unibanco. Seu filme também não tem distribuidor. Embora com começo, meio e fim, é outro filme sem circuito. Não é 'mainstream' e não tem cara de cinema de invenção. Quem vai defendê-lo? Eu, e espero que vocês. Um circuito para 'Elvis e Madonna'. E, depois, quando estrear, me digam se não é bom...

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 21:45:02.

TIRADENTES - Passei um dia hoje delicioso, aqui em Tiradentes, pós-mostra. Meu amigo Dib Carneiro estava em Ouro Preto, concluindo sua nova peça, adaptada do romance 'Crônica da Casa Assassinada', de Lúcio Cardoso - uma encomenda de Gabriel Villela - e veio ao meu encontro. Fomos a São João del Rei, andamos de maria fumaça e agora, de volta ao hotel - à pousada -, tenho tempo de acrescentar este post. Me coube ontem, em nome do júri da crítica, ler o texto que justificava nossa premiação. Fi-lo, como diria o Jânio, com gosto porque desde a primeira hora não tive dúvidas de que 'Caminho para Ythaca' era a coisa mais estimulante que a 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes estava me propondo. Ia vendo os demais filmes - 'Ythaca' passou no segundo dia - e ficava sempre ruminando a obra de um coletivo cearense, os irmãos Pretti e os primos Parentes, que apresenta quatro amigos que caem na estrada para celebrar sua amizade e purgar a perda de um quinto elemento do grupo. No final da história, que não é uma 'história', um poema do poeta grego Constantin Sefardis fala de Ythaca como esse lugar mítico que não interessa muito como objetivo. Mais importante é a estrada, o deslocamento, e o ibjetivo, como metáfora da própria vida, passa a ser prolongar o prazer que a estrada - a existência? - proporciona. Numa cena, o amigo morto reaparece como barbudo, num filme dentro do filme, numa encruzilhada, reproduzindo o discurso famoso de Glauber Rocha em 'Vento Leste', de Jean-Luc Godard. A estrada assume ali uma bifurcação. Por esse lado, diz Júlio, o amigo, profético como Glauber, segue o cinema da aventura; do outro, a via do 3° Mundo. A sessão foi maravilhosa. Um sujeito gritou - 'Mata Glauber, pega a via da direita', a da aventura. Mas os irmãos e os primos, os camaradas, seguem a via do 3° Mundo, o que não significa que o quarteto Pretti/Parente esteja reinventando Glauber, ou o Cinema Novo. Uma das coisas que ficaram claras para mim, aqui em Tiradentes, assistindo não apenas aos longas da Mostra Aurora, que tem curadoria de Cleber Eduardo, mas também aos curtas da mostra acho que Foco, cujo curador é Eduardo Valente, tive essa sensação de que a garotada - Tiradentes é uma mostra de primeiros e segundos filmes - dialoga muito mais com a herança do cinema marginal do que com a do Cinema Novo. E, por isso mesmo, acho que 'eles' - Sganzerla, Bressane, Andrea Tonacci - venceram e o cinema marginal, mesmo que Bressane considere a etiqueta 'negativa', está muito vivo. Conversei com meu amigo José Carlos Avellar e ele me corrigiu uma informação. Os filmes da empresa Belair, os sete que Rogério Sganzerla e Júlio Bressane fizeram durante 3 meses de 1970, não permanecem inéditos, como fui induzido a crer, a partir do que foi dito no debate. Eles foram lançados, sim, mas tiveram uma circulação reduzida, como em geral ocorre com esse cinema de invenção, que não é o de mercado. Nem me passa pela cabeça que o cinema de invenção substitua o de mercado, o que eu quero, e acho que qualquer pessoa comprometida, engajada, vai querer, e defender, é que ele tenha um espaço. Se depender de mim, 'Ythaca' vai ter um distribuidor, vai passar no Espaço Unibanco, na Reserva Cultural ou no HSBC Belas Artes, que são os espaços para essa produção mais alternativa. Não gostaria que ocorresse com 'Ythaca' o que houve com 'A Fuga da Mulher Gorila', que ganhou a Mostra Aurora do ano passado e até hoje está inédito. Francisco César Filho, o Chiquinho, que coordenava os debates, teve o mesmo encantamento que eu por 'Ythaca' e por sua abordagem do universo masculino, da amizade. Chiquinho jura que 'Mulher Gorila' é tão bom quanto. Me disse ele que se trata de outro filme de estrada, com duas mulheres. Quero 'A Mulher Gorila', como amei 'Ythaca', mas não me passa pela cabeça que o filme do coletivo de Fortaleza ambicione o público, ou o circuito, de 'High School Musical - O Desafio', que estreia na próxima sexta-feira. Mas clamo aqui por um circuito para a invenção, para 'Ythaca', pelamor de Deus.

 


30.01.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 10:12:33.

TIRADENTES - Não se esqueçam de que tem Resnais, 'Stavisky', daqui a pouco, aí em São Paulo, na Sessão Cinéfila do Espaço Unibanco, ao meio-dia. Leiam também minha crítica sobre 'Nine', no 'Caderno 2' de hoje. Sei que um monte de gente caiu matando no musical de Rob Marshall, mas uma oplhada na internet me deu a medida que as objeções - luxo, kitsch, superficialidade - são as mesmas que foram endereçadas a 'Moulin Rouge' e o filme é aquele monumento que eu, pelo menos, defendo. Acho até que 'Chicago' se beneficiou do esquecimento de 'Moulin Rouge' pela Academia de Hollywood, que resolveu se purgar dando o Oscar ao primeiro musical que surgiu depois, e foi o de Marshall. Vou cometer o sacrilégio de dizer que 'Nine' me interessou muito mais e ouso dizer que o próprio Fellini teria am,ado o número sobre Saraghina, com Stacy Ferguson (e também o de Kate Hudson). Para concluir, uma terceira indicação. Encontrei meu amigo Rodrigo Fonseca e lhe disse que, após uma semana de 'experimentação', estava louco para ver o novo Mel Gibson, 'O Fim da Escuidrão', que estreou ontem em todo o País. Rodrigo é mais punk que eu e me disse que o filme é genial, acrescentando que os coleguinhas não têm capacidade - por seus preconceitos? - de captar toda a potência formal e a multiplicidade de subtemas presentes no relato. Fiquei, como se diz, nos cascos.

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 09:58:52.

TIRADENTES - E a 13ª Mostra de Cinema termina hoje à noite, com a entrega dos prêmios aos vencedores. Falo em prêmios, no plural, porque existem aqui três júris - o da crítica, na Mostra Aurora, que integro; o da crítica jovem; e o do público. Somos orientados a outorgar um prêmio, apenas, embora, eventualmente, possa ser conferida uma menção especial. Daqui a pouco nos reunimos para as deliberações. Acredito que serão tranquilas, precedidas, como foram, por outras discussões que já apontaram para uma definição. Vai acabar meu voto de silêncio. Arre! Do que posso falar, sobre os filmes fora de concurso, já disse quanto adorei o filme de Gustavo Spolidoro 'Morro do Céu', o único a bagunçar minha preferência pelo que considero melhor na Mostra Aurora. Mas eu também gostei muito de 'Bel Air' e gostei principalmente de ter revisto o documentário de Bruno Safadi e Noa Sganzerla (a que assisti pela primeira vez no Festival do Rio) sobre a produtora fundada pelo pai dela, em parceria com Júlio Bressane, e que em três meses fez sete filmes. O ano era 1970. o País vivia sob uma ditadura feroz e as pesquisas de Rogério Sganzerla e Bressane foram consideradas perigosamente subversivas, integrantes de um plano com ramificações na guerrilha urbana. A Belair estaria lançando suas bombas no cinema, o que não deixa de ser verdade (mas não a aliança da guerrilha artística com a guerrilha armada). A pressão foi tanta que Sgarnzerla, Bressane e Helena Ignez partiram para o exílio. Todos esses filmes permanecem inéditos, embora já tivessem sido parcialmente resgatados em 'A Miss e o Dinossauro', espécie de making of que Helena fez de 'Sem Essa, Aranha' e 'Cuidado, Madame', dois marcos da Belair. Seria interessante recolocar todos esses filmes em circulação, em DVD, se não necessariamente nas salas, como tantos resgates que têm sido feitos ultimamente. Na verdade, acho que merecem voltar ao cinema e serão descobertas enriquecedoras, embora não para todos os gostos, claro. O próprio fato de ter percebido o potencial de biscoito fino desses filmes da Belair não me leva a defender que o cinema brasileiro tenha de ser assim. Deus me livre! Não quero fazer uma defesa babaca da diversidade, mas também não vou entrar nos tais 'paradoxos da contemporaneidade', tema da Mostra de Tiradentes deste ano, com direito a debate que ocorre agora à tarde. Seria como tentar defender Sundance como alternativa a Hollywood, quando Sundance já engendrou uma nova fórmula, ou novo academicismo, enquanto o cinemão se renova com muito mais vigor e inteligência. (A relação entre cinema de autor e comercial no Brasil não é a mesma, ressalte-se.) Mas vejam 'Precious', no caso do embate Sundance/Hollywood, e depois me digam se não. Sei que Júlio Bressane é reticente ao rótulo de marginal, que considera pejorativo para o cinema que Sganzerla e ele faziam no começo de suas respectivas carreiras, mas Bressane rompe seu véu de silêncio - talvez por causa de Noa Sganzerla - e desembesta a falar coisas muito legais sobre a Bel-Air. (Aliás, se faço agora uma crítica negativa é ao número de entrevistas listadas no final, com 1001 pessoas. Onde foram parar?) Gosto demais do filme e apoio muitas coisas que Daniel Caetano disse no debate, como crítico convidado para debater 'Belair', substituindo Inácio Araújo, que não deu as caras. Não fiquei até o fim do debate, porque tinha compromisso, mas gostei da abordagem de Caetano - seu foco foi na Belair como representação de um cinema de resistência e, falando de ontem, na verdade ele falava de hoje, tomando posição -, mas não concordo com seu sentimento de derrota. Ele disse que chegou ao final de 'Belair' triste. Encontrei Bruno Safadi à tarde e lhe disse que meu sentimento foi inverso, de júbilo. O filme resgata coisas ótimas, imagens que me impactaram e traz aquela Helena Ignez divina-maravilhosa, e na verdade 'eles' venceram, sim. Bressane foi o homenageado de Gramado, no ano passado, recebendo o maior prêmio de carreira do festival que antes o ignorava. Helena venceu o Kikito e com um filme, 'Canção de Baal', na melhor tradição do cinema marginal. Esta tradição está viva aqui em Tiradentes, num filme que amei particularmente. Vou ter um dia cheio, não poderei postar muita coisa. Espero retomar a conversa amanhã.

 


29.01.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 09:30:49.

TIRADENTES - Estava ontem entre sessões da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes quando liguei, por volta das 8 da noite, para meu colega - e editor interino - Ubiratan Brasil, para discutir algumas pautas, e ele me disse que estava na pauleira, porque havia morrido J.D. Salinger. Na hora, não tive tempo de processar a informação e embarquei numa viagem de filmes, um após o outro, que durou até passado da meia-noite. Só no hotel, bem mais tarde, lembrei-me da morte e fiquei ruminando... Salinger! Era muito jovem quando lki, no começo dos anos 1960, 'O Apanhador no Campo de Centeio'. Salinger captou tão bem o sentimento de revolta da juventude, a sensação de sentir deslocado no mundo 'quadradão', que cheguei a pensar que seu personagem, Holden Caulfield, era eu. Li depois os contos com os geniozinhos da família Grass em 'Pra Cima com a Viga, Moçada!' e continuei achando que ele era um grande escritor. Nos anos e décadas seguintes, acompanhei a saga do misantropo das letras norte-americanas, que se afastou do convívio social e estaria escrevendo, na surdina, o grande romance de seu país. Pois a verdade é que sempre ouvi dizer que Salinger, noi seu exílio interno, nunca dreixou de escrever, embora não publicasse. 'O Apanhador' surgiu em 1951, antecipando um mal-estar e uma revolta da juventude - 'transviada' - que o cinema iria explorar largamente. Não me lembro, sinceramente, se houve uma adaptação do 'Apanhador', e se houve não a vi, mas a influência do filme atravessa obras importantes, incluindo 'O Colecionador', de William Wyler, e com certeza Gus Van Sant teve Salinger como modelo do escritor recluso que Sean Connery interpretava em 'Encontrando Forrester'. Essa reclusão somente aumentou o mito do escritor, que ele próprio cultivava. Lembro-me da controvérsia quando aquele cara matou John Lennon e levava junto um exemplar de 'O Apanhador', que teria lhe dado as respostas para as interrogações que o consumiam. (Na época, produzia o programa de rádio de Tânia Carvalho na Rádio Gaúcha. Havia chegado muito cedo, pois o programa começava às 9 ou 9 e pouco, e a notícia desmontou a pauta que já estava definida. Nem dava para pensar em nada, correndo atrás de gente que pudesse falar, e refletir sobre o fato. Essa adrenalina é o que até hoje me move no jornalismo, mesmo que seja o cultural, que trabalha muito com agenda e, neste sentido, é mais tranquilo que o político ou econômico.) Mas volto ao Salinger. No hotel,. antes de vir para a sala de imprensa da Mostra de Tiradentes, li o texto com o obituário de Salinger no 'Estado de Minas'. É assinado por João Paulo, que não conheço, mas é um belo texto, o texto que eu gostaria de ter escrito sobre ele. Ele destaca que não era só a visão de mundo que seduzia e faz, até hoje, do livro uma das obras mais publicadas do mundo. Todo ano vendem-se pelo menos 250 mil exemplares. A escrita de Salinger também é sedutora, uma simplicidade que não é pobreza nem simplificação, mas, pelo contrário, resultado de uma grande elaboração. João Paulo fala da epifania tocada por meio de gírias. Suas palavras ficaram aqui gravitando na minha cabeça e não resisti a acrescentar logo o post.

 


28.01.10

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 16:09:51.

TIRADENTES - Se estivesse em São Paulo, teria endereço certo no sábado, meio-dia. Já contei da emoção que foi rever, no começo do mês, 'Hiroshima, Meu Amor', que abriu a série de homenagens que a Sessão Cinéfila do Espaço Unibanco presta a Alain Resnais, em janeiro de 2010, pegando carona na estreia de 'Ervas Daninhas'. 'Hiroshima' é um dos meus cults, um dos filmes que carrego comigo, num panteão muito particular. Neste sábado, a Sessão Cinéfila resgata outro Resnais que me encanta. 'Stavisky', com Jean Paul Belmondo, é considerado o filme mais 'comercial' do autor. O personagem existiu e foi um escroque que marcou a vida francesa nos anos 1930. Há muita controvérsia sobre quem de fato foi esse emigrado russo que se instalou na França e, à custa de golpes, conseguiu dominar/influenciar o sistema bancário, com repercussões na vida das pessoas comuns. Resnais trabalhou sobre um roteiro de Jorge Semprun, seu roteirista na obra-prima 'A Guerra Acabou'. Quero dizer que, mesmo adorando 'La Guerre Est Finie' - e me arriscando a tomar porrada - meu fascínio por 'Stavisky' é maior. Tecnicamente impecável, o filme explora todo o carisma de Belmondo no papel principal, mas o que me encanta em 'Stavisky' é a presença de Annie Duperey, bela e misteriosa como a Delphine Seyrig de 'Marienbad', e mais ainda a partitura de Stephen Sondheim. Fecho os olhos e sou capaz de 'ouvir' a trilha de 'Stavisky'. Com ela, vem as imagens suntuosas do filme, exatamente como quando penso em 'Hiroshima' (e 'ouço' os temas de Giovanni Fusco e Gerges Delerue). Vejam ou revejam 'Stavisky', por mim. Duvido muito que alguém vgá se arrepender, depois.

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 15:52:35.

TIRADENTES - Nossa capa de hoje, no 'Caderno 2', é a entrevista que havia feito com Michelle Pfeiffer e com a dupla criadora por trás das câmeras de 'Chéri' - o diretor Stephen Frears e o roteirista Christopher Hampton -, no Festival de Berlim do ano passado. Nessa história de viajar para cá e para lá - Los Angeles, Paris e agora Tiradentes - perdi a estreia de 'Chéri' e, quando vi, o filme já estava em cartaz. Só muito superficialmente o longa adaptado de Colette pode ser visto como 'Relações Perigosas 2', mas foi assim que foi recebido na Berlinale de 2009. Gostei de 'Chéri', gostei de Michelle Pfeiffer e simplesmente surtei com a musicalidade dos diálogos, muito bem escritos, que Hampton, mesmo quando teve de modificar, atribuiu à escritora, afirmando que ela é muito maior do que a fama que ostenta. Vocês já viram 'Chéri'? ESpero que sim. Mal refeito da descoberta de que o filme de Frears estreara, descobri também que já está em cartaz 'O Fada do Dente'. Nâo há comparação possível entre ambos, mas a nova comédia de Dwaynne Johnson, o ex-The Rock, me permitiu entrevistar Julie Andrews. Mary Poppins! A noviça rebelde! Victor/Victoria! A entrevista estará no 'Caderno 2' de amanhã. Não percam!

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 15:51:26.

TIRADENTES - Nossa capa de hoje, no 'Caderno 2', é a entrevista que havia feito com Michelle Pfeiffer e com a dupla criadora por trás das câmeras de 'Chéri' - o diretor Stephen Frears e o roteirista Christopher Hampton -, no Festival de Berlim do ano passado. Nessa história de viajar para cá e para lá - Los Angeles, Paris e agora Tiradentes - perdi a estreia de 'Chéri' e, quando vi, o filme já estava em cartaz. Só muito superficialmente o longa adaptado de Colette pode ser visto como 'Relações Perigosas 2', mas foi assim que foi recebido na Berlinale de 2009. Gostei de 'Chéri', gostei de Michelle Pfeiffer e simplesmente surtei com a musicalidade dos diálogos, muito bem escritos, que Hampton, mesmo quando teve de modificar, atribuiu à escritora, afirmando que ela é muito maior do que a fama que ostenta. Vocês já viram 'Chéri'? ESpero que sim. Mal refeito da descoberta de que o filme de Frears estreara, descobri também que já está em cartaz 'O Fada do Dente'. Nâo há comparação possível entre ambos, mas a nova comédia de Dwaynne Johnson, o ex-The Rock, me permitiu entrevistar Julie Andrews. Mary Poppins! A noviça rebelde! Victor/Victoria! A entrevista estará no 'Caderno 2' de amanhã. Não percam!

 


por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 15:37:15.

TIRADENTES - Cá estou em em Minas, acrescentando estes posts com procedência local, mas impossibilitado de falar sobre os filmes da competição da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, justamente por integrar o júri da crítica que vai atribuir os prêmios da Mostra Aurora. Tenho assistido aos debates e ando nos cascos para meter a minha colher, falando de 'Terras', de Maya Dar-Rin; de 'Viagem para Ythaca', de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti; e 'Um Lugar ao Sol', de Gabriel Mascaro, os três longas a que já assisti. Me aguardem, quando acabar esse voto de silêncio. Foi muito interessante - vou tentar falar sem emitir nenhum juízo de valor - assistir ontem a 'A Alma do Osso', de Cao Guimarães, e ao filme de Mascaro. Ambos são documentários. 'Um Lugar ao Sol' entrevista integrantes da elite brasileira, pessoas que moram em coberturas no Recife e no Rio e em São Paulo. Numa cena, uma das personagens diz que entre outras coisas, a cobertura lhe permite falar diretamente com Deus, basta olhar para cima, para a imensidão do céu. O filme de Cao conta a história de um ermitão que mora numa caverna de Minas. Ele também olha para o céu e vê a imensidão do cosmo, mas não tem esse delírio de estar falando diretamente com o todo-poderoso. Seria interessante ver a tal madame se instalar na caverna para ter esse momento di-vi-no. Estou jogando conversa fora, e tentando não opinar, embora nada me impeça de comentar o documentário de Cao Guimarães, que já tinha visto no É Tudo Verdade, há alguns (vários?) anos. Cao retomou 'A Alma do Osso' porque entrou num edital, ganhou uma verba para lançamento e agora promete lançar o filme em março ou abril. O filme não foi remontado, mas Cao efetuou uma mudança no quadro, para dar a seu filme o formato de cinema. Não acredito que tenha sido isso que mudou substancialmente 'A Alma do Osso'. Talvez tenha mudado eu, porque o filme não me havia impressionado muito, anteriormente, e desta vez me deixou chapado, desde a citação inicial de Guimarães Rosa - 'Solidão é eu demais'. O filme tem muito silêncio, mas quando o ermitão fala - a história que justifica o título e o encontro dele com o morto, na ponte - suas frases incompreensíveis, que necessitam de legendas, me produriram o mesmo encantando que o dialeto dos adolescentes de 'Morro do Céu', de Gustavo Spolidoro. Pretendo voltar aos filmes da Mostra Aurora, tão logo me desincompatibilize do voto de silêncio a que me obriga a posição de jurado. Posso falar, em compensação, sobre os curtas e ontem vi três nos quais estava particularmente interessado. Integraram o mesmo programa, passando, às 9 da noite, na praça central de Tiradentes. Não gostei do curta gaúcho 'Quarto de Espera', que dialoga com o cinema marginal, por meio de 'Bang Bang', de Andrra Tonacci, que me havia sido vendido, o curta não o longa de Tonacci, como o melhor filme brasileiro, independentemente de duração, dos últimos tempos. Estão loucos? Talvez tivesse uma expectativa exagerada por 'Bailão', que foi premiado em Brasília, porque conheço seu jovem diretor, Marcelo Caetano, da casa de minha amiga Leila Reis. Marcelo é amigo da filha de minha amiga, a Ana Terra, e eu já sabia do furor que seu filme provocou na comunidade dos 'ursos', na internet. Gostei, mas sem paixão, e o filme terminou me impressionando muito mais como fenômeno 'comportamental' do que estético. O próprio Marcelo definiu seu curta como tratando de 'sobreviventes', velhos gays que sobreviveram a tudo - ao preconceito, à aids - e se encontram nesse bailão de São Paulo. O filme passou na praça, com crianças, adolescentes, famílias inteiras formando a plateia. Homens abraçados, dançando de rosto colado e contando histórias de 'pegação'. Não ouvi uma piada, o povo permaneceu atento e aplaudiu bastante. Marcelo Caetano é mineiro. Talvez tenha feito uma pequena revolução ao voltar para casa, para mostrar seu trabalho. O respeito com que as pessoas receberam 'Bailão' sinaliza para alguma coisa. Uma mudança, pequena que seja? Na sequência veio 'Faço de Mim o Que Quero', de Sérgio Oliveira, que metaforiza a própria proposta na magnífica sequência de créditos, no final. Os nomes dos integrantes da equipe são escritos no próprio corpo dos personagens desse documentário que, embora diferente - um sobre gays, outro sobre bregas -, não deixa de oferecer um contraponto (ou será complementação?) a 'Bailão'. Finalmente, 'Recife Frio', de Kleber Mendonça Filho. O filme foi superpremiado em Brasília, recebeu, sei lá, oito prêmios na categoria de curtas, mas não o principal. Uma mudança climática, um fenômeno local, uma nuvem que paira sobre a cidade, modifica a paisagem do Recife. Sai o calor e entra o frio, o inverno substituindo o verão. Kleber deu a seu filme o formato de um falso documentário do Discovery Channel. Numa cena, um francês que possui uma pousada diz que o tempo estragou seu negócio. Ele ainda continuou recebendo pedidos de reservas de europeus, mas aí o canal Discovery enviou uma equipe e... Bye bye! 'Recife Frio' teve a maior ovação da Mostra de Tiradentes, até agora. Me disseram que, em Brasília, a reação foi a mesma. Que júri terá resistido a atribuir a 'Recife Frio' o Candango de melhor curta? Kleber deve estar, me desculpem, c... Ele está levando seu filme a Roterdã, onde recebe a homenagem do festival.

 


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