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03.07.09
Anna Karina em 'Agora ou Nunca', Marina Vlady em 'A Mentirosa', Adorable Menteuse. Os primeiros filmes de Michel Deville testemunham um duplo fascínio, pelo humor e pelas mulheres. Deville foi assistente de 1951 a 57 e, neste sentido, essa formação 'profissional' não o credencia a ser reconhecido como um cineasta nouvelle vague. E, depois, seu primeiro registro foi o humor, e todo mundo sabe que a nouvelle vague teve um só diretor de comédias, e foi Philippe De Broca. Mas De Broca também havia sido assistente - de Henri Décoin, Claude Chabrol e François Truffaut - antes de fazer 'Brincando de Amor' e 'O Gozador', que são simpáticas, mas sua obra-prima é 'O Amante de Cinco Dias', com Jean-Pierre Cassel e Jean Seberg, que tem um dos mais belos diálogos do cinema francês (e mundial). Jean é casada com François Périer e amante de Cassel. Numa cena, o marido cocu põe as crianças na cama, enquanto a mulher está com o outro. E ele diz - 'Eu sei que vocês estão preocupados porque mamãe está atrasada, mas ela está bem. É só que mamãe usa sapatos de salto alto e é difícil caminhar com eles.' Mesmo que não seja característicamente nouvelle vague, Deville integra o atual ciclo da Cinemateca, dedicado à nouvelle vague (e suas 'estrelas'). Deville era um diretor enquanto durou seu casamento com a roteirista Nina Companaez. Quando se separaram, ela própria virou diretora e ele mudou de registro, passando para o drama. Na parceria Deville/Companaez, amo 'Rafael ou Le Débauché', lançado no Brasil como 'O Libertino', com Pierre Clémenti. Vieram depois os filmes 'perversos' que estabeleceram a reputação de Deville sozinho - 'Investigação do Senhor 51', 'Perigo no Coração' e 'Uma Leitora Muito Particular'. O ciclo da Cinemateca tem todos aqueles Godards que você espera ou imagina, mas tem também Deville (e Anna Karina) e 'Adieu, Philippine', de Jacques Rozier, que Antoine de Baecque, no livro 'Nouvelle Vague - Portrait d'Une Jeunesse', considera um dos 20 filmes que fizeram o movimento. Rozier será uma surpresa para quem nunca viu seus filmes. Nenhum outro diretor colocou na tela, em 1960, a França da Guerra da Argélia como ele. Nenhum outro, nem Godard em 'Acossado' (À Bout de Souffle), fez um filme tão jovem sobre a juventude francesa do período. Recomendo que não percam o ciclo da nouvelle vague, que completa 50 anos em 2009. Procurem os horários e datas em que esses filmes serão exibidos. E não percam especialmente o de Rozier.
Felipe Brida pega carona no post sobre o Clint preferido do Henrique - 'Cavaleiro Solitário - para dizer qual é o dele, 'O Estranho sem Nome', segundo filme (e primeiro western) do ator-diretor, após 'Perversa Paixão' (Play Misty for Me), um thriller que antecipa 'Atração Fatal', por meio da história da ouvinte desequilibrada que desorganiza a vida de um DJ (o próprio Eastwood). Mais que o estranho sem nome, personagem que interpretava nos 'spaghetti westerns' de Leone, acho que estranho é o universo de 'High Plains Drifter' - título original do filme -, com aqueles personagens bizarros e o lago (é um lago, não? Faz tempo que não vejo o filme). Mas quero dizer que, na época, o primeiro Clint que realmente elogiei foi 'Interlúdio de Amor' (Breezy), que ele fez em 1973, com William Holden e Kay Lenz. Holden faz o coroa amargurado que tem um romance com uma jovem hippie. Num sentido, é o anti-'Perversa Paixão', mas a relaçãqo não é serena, pelo estranhamento que causa nos outros. Adoro, deve ser minha origem de estudante de arquitetura - na época, minha opção pelo jornalismo era muito recente -, a arquitetura da casa, toda de vidro, propondo uma transparência que não pode ser assimilada pelo 'social' e os personagens vão se encerrando ali dentro, cobrindo-se. Nunca mais revi o filme, não sei como (ou se...) resiste. Gosto de 'Josey Wales', que tenho a tendência de grafar como 'Wells', sei lá por que, mas não tenho boa lembrança de 'Escalado para Morrer', 'Firefox, a Raposa de Fogo' e 'O Destemido Senhor da Guerra'. Gostei de 'Bird' sem me empolgar com a saga do jazzista interpretado por Forest Whitaker (e que deu ao ator o prêmio de melhor em Cannes). O primeiro Clint do qual gostei muito, nessa fase mais tardia, é um em relação ao qual a maioria das pessoas que conheço é reticente - 'Coração de Caçador', inspirado na mítica rodagem de 'Uma Aventura na África', com o próprio Clint encarnando um diretor visionário e aventureiro, mas também autodestrutivo e megalô (Huston, claro). 'Rookie', com Sonia Braga, foi outro osso duro de roer, mas depois de 'Os Imperdoáveis' Clint se estabilizou na carreira de grande diretor. Adoraria continuar escrevendo sobre ele,. mas quero ver 'O Contador de Histórias', de Luiz Villaça, que tem cabine daqui a pouco. Flávia Guerra, em Londres, a essas horas deve estar vendo (ou já viu...) 'Harry Potter e o Enigma do Príncipe', cuja cabine será aqui na terça. Não sei de voc~es, mas eu estou muito afim de ver o que o diretor David Yates fez. Em Cannes, quando a entrevistei por 'Taking Woodstock', Imelda Staunton não deixou por menos e disse que ele é gênio, mas fez a ressalva de que é outro tipo de gênio, de certo para salvaguardar Mike Leigh e Ang Lee, grandes diretores com quem trabalhou (ou vem trabalhando).
02.07.09
Henriqe Rodrigues revela qual é seu Clint preferido e é o de 'Cavaleiro Solitário' (The Pale Rider), western de 1985 que integrou a competição de Cannes naquele ano, competindo, se não me engano, com o Hector Babenco de 'O Beijo da Mulher Aranha'. Nunca me esqueço de uma cena do filme. A ação começa naquela comunidade dominada por Richard Dysart. Seus homens provocam um pandemônio. A filha de Carrie Snodgress, Sydney Penny, reza pedindo um milasgre e Deus atende a suas orações. Clint entra em cena usando o colar branco de pregador religioso. Mas ele é um homem de armas e o filme é o remake disfarçado de 'Shane' (Os Brutos Também Amam), de George Stevens, com Cliont no papel de Alan Ladd, Carrie no de Jean Arthur e Michael Moriarty, que ama a mulher, no de Van Heflin. A garota, Sydney, é o equivalente feminino de Brandon de Wilde, que faz Joey na obra-prima de Stevens. 'Shane' é um dos filmes míticos da história do cinema, e não apenas do western. Paulo Perdigão dissecou-o num livro maravilhoso - 'Shane: Western Clássico, editado originamente pela L&PM. Minha lembrança de 'Cavaleiro Solitário' é boa, mas não creio que o filme consiga chegar ao patamar de seu modelo, 'Shane'. Em seu 'Guide for the Film Fanatic', Danny Peary observa que, se 'Pale Rider' tem um problema, é justamente essa obsessão de Clint e seus roteiristas, Michael Butler e Dennis Shyrack, de ficar buscando, o tempo todo, aproximações com o velho 'Brutos Também Amam'. Mas há uma diferença fundamental. Clint não encarna, aqui, o mito, como Alan Ladd. Seu personagem é misterioso, um tanto místico, mas não tem um Van Heflin a seu lado, para tentar disputar com o mito a atenção da mulher e da criança. O final é sacrificial, como o de 'Shane'. O cavaleiro solitário restaura a ordem na cidade e parte. É o mesmo, mas é diferente. Shane cavalga na sua mitologia e a nuvem que passa pelo olhar do menino, ao perdê-lo, marca a sua passagem para a condição de homem. O Pale Rider cavalga, talvez, para a morte. Nunca havia feito essa ponte antes, mas acho que se pode buscar, ou encontrar, em 'Cavaleiro Solitário', em toda a obra de Clint, a origem do seu sacrifício - cristianismo puro - em 'Gran Torino'. Não me lembro agora se 'Cavaleiro Solitário' está na homenagem do TCM ao xerife Clint. Se estiver, será um programão. Tenho vários Clints em DVD, incluindo 'Josey Wells', mas não 'Cavaleiro Solitário'.
Gabriel Vilela não se conforma que, no texto sobre Pina Bausch para o jornal, eu tenha preferido 'Hable con Ella', do Almodóvar, a 'E la Nave Va', do Fellini. Segundo ele, Almodóvar apenas reproduz uma coreografia famosa de Pina, enquanto Fellini a faz reinventar o mito, e a expressividade, dos clowns, além de utilizá-la realmente como atriz, por meio do olhar morto da bailarina cega que sintetiza o sentido do filme. Ia dizer, sintetiza segundo ele, mas não é só Gabriel que manifesta esse entusiasmo. Num texto especial para o 'Caderno 2', que sai amanhã, Caetano (Veloso, o irmão de Bethânia) também analisa a grande arte de Pina Bausch quase que exclusivamente a partir de sua contribuição com Fellini (e olhem que Caetano teve o privilégio de conviver com a artista. Ele chega a dizer que não acredita que tenha sido seu amigo...) Amanhã, no 'Caderno 2'. Faz tempo que não vejo 'E la Nave Va'. Depois do que me disse o Gabriel e do que escreve Caetano, rever o filme tornou-se uma necessidade, pelo menos para mim.
Acho que foi José Onofre, o grande, mas nem me lembro mais se li isso em algum de seus textos ou se ele me disse pessoalmente, nas muitas vezes em que trabalhamos juntos – no Colégio Israelita Brasileiro e na ‘Folha da Manhã’, em Porto; no ‘Estado’, aqui em São Paulo. José Onofre dizia que Brando encarnava o herói masoquista, que só conseguia se redimir pelo sacrifício. Poucos atores apanharam mais do que ele na tela. Brando levou surras memoráveis em ‘Sindicato de Ladrões’, ‘A Face Oculta’ e ‘Caçada Humana’. O segundo foi por ele próprio dirigido. Vai gostar de apanhar assim no inferno... Pensando bnem, ninguém precisava mandar Brando para o inferno, nunca. Ele construiu seu inferno pessoal, seu apocalipse. Os ‘entendidos’, psiquiatras e quetais, dizem que seu estilo de vida excêntrico, com base na família disfuncional em que surgiu, minaram sua psique e o levaram a reproduzir um modelo que implodiu a outra família – a filha se matou, o filho foi condenado por assassinato. Cinéfilo que se preze sabe que a filmagem de ‘A Face Oculta’ foi uma das mais complicadas da história. A produção decolou em meados de 1957. O filme estreou no começo de 1961. Foram quase quatro anos, durante os quais o diretor original, Stanley Kubrick, não aguentou os caprichos do astro, mas como Brando tinha cacife em Hollywood, Kubrick, e não o ator, foi demitido. Brando assumiu a direção, mas se enganava quem achou que ele puydesse fazer um western minimamente convencional. Brando fez seu western com vista para o mar – é, de resto, o título de um memorável texto de Ruy Castro no ‘Caderno 2’: Um bangue-bangue com vista para o mar –, impos ao filme um ritmo lento e introspectivo que, na época pelo menos, era novidade. Você sabe a história. Brando e Karl Malden são assaaltantes, ambos são pilhados num golpe, Malden foge e Brando é preso. Anos mais tarde, ele persegue o antigo companheiro para se vingar, mas Malden é agora é xerife numa cidadezinha da fronteira mexicana, adquiriu uma fachada de respeitabilidade e não vai permitir que Brando o destrua em sua nova vida. Malden casou-se com Katy Jurado. Ela tem uma filha, Pina Pellicer, que Brando conquista, por amor ou parte da vingança (os sentimentos são ambivalentes). O primeiro roteiro foi escrito pelo jovem Sam Peckinpah, que depois viraria diretor (e foi aprovado pelo astro). Kubrick, que havia sido contratado – depois – para a direção, demitiu Peckinpah e resolveu reescrever o material. Começaram aí suas dificuldades com Brando. Os dois não se acertavam na direção a dar aos personagens. Brando queria que eles não tivessem caráter, Kubrick discordava. Demitido da produção, Kubrick assumiu o leme de ‘Spartacus’, um épico do qual o diretor original – Anthony Mann – fora defenestrado por outro astro, também produtor, Kirk Douglas. A lenda conta como Brando refuilmou 160 vezes um plano que não foi aproveitado, como tomou um porre de verdade para uma cena de bebedeira – e deu ordens ao fotógrafo Charles Lang que continuasse filmando –e como gastou 1 milhão de pés de filme, recorde absoluto, exigindo que 250 mil pés fossem revelados (outro recorde em Hollywood). A lista das excentricidades é interminável, incluindo o desfecho, que, como coelho sacado da cartola de um mágico, foi rodado mais de um ano depois que toda a equipe tinha sido dispersa. Tudo isso poderia – deveria, segundo a ótica de Hollywood – condenar ‘A Face Oculta’ ao fracasso. Bem – houve fracasso, de público –, mas o filme virou cult e é poderoso. A cena da surra é memorável, mas o momento de ‘A Face Oculta’ que faz parte do meu Olimpo é um diálogo entre mãe e filha, Katy, que havia sido um caso de Brando, e Pina, com quem ele estava tendo um affair, têm essa conversação tensa. Katy era, como Brando e Malden, uma atriz do ‘método’. Ouço até hoje quando sussurra, mais do que pergunta – ‘Por qué lo hiciste, Luísa?’ (é o nome da personagem de Pina e a interrogação refere-se ao fato de Luísa haver cedido à ofensiva sexual de Brando na ficção; na realidade, era outra história, mas é possível que o verdadeiro significado da conversa fosse esse). E Pina não responde, balbucia - ‘Porqué creí que me amába.’ Neste momento em que escrevo, sou tentado a dizer que, em toda a história do western, a despeito de Ford e outros grandes do gênero, não conheço momento mais doloroso. Pungente, mesmo. Pina Pellicer matou-se em 1964. Logo após ‘A Face Oculta’, de volta ao cinema mexicano, fez ‘Macário’, de Roberto Gavaldón, com Ignacio López Tarso como o camponês que tenta enganar a morte (como o cavaleiro de Bergman em ‘O Sétimo Selo’, mas os dois filmes são muito diferentes). Pode ser fantasia minha, mas Pina, tão frágil, sempre me deu a impressão de haver começado a morrer naquela cena do western de Brando. Até isso acrescenta um elemento a mais de fascínio a ‘A Face Oculta’, que Ruy Castro, voltemos a ele, define como um bangue-bangue, não sob o signo de Ford, mas de Freud.
Neste mês de julho, o canal TCM homenageia dois ícones de Hollywood, Marlon Brando e Clint Eastwood. A homenagem a Brando começou ontem, dia 1º, quando se completavam cinco anos da morte do astro. Passou no fim da noite um documentário sobre ele e, na sequência, o drama 'O Selvagem', de Laslo Benedek, que imortalizou Brando como rebelde, montado no lombo daquela motocicleta, prenunciando 'Juventude Transviada' e, mais de uma década mais tarde, a geração 'Easy Rider'. A homenagem a Brando vai prosseguir durante todas as segundas-feiras de julho, às dez da noite, mas 'A Face Oculta', sobre o qual Mauro Brider quer saber minha opinião, não é um dos títulos programados ('Uma Rua Chamada Pecado', 'Sindicato de Ladrões', 'Caçada Humana' e 'O Poderoso Chefão'). A outra homenagem, a Clint, começa no sábado, com um documentário, 'Eastwood by Eastwood', que será seguido pelo western 'Josey Wells, o Fora da Lei'. Durante todas as terças e sábados de julho teremos, às dez da noite e, depois, às 23h45 (ou Oh10), uma variedade maior de filmes dirigidos e/ou interpretados por Clint, incluindo 'Os Guerreiros Pilantras' e 'O Desafio das Águias', dois filmes de ação que ele fez com Brian G. Hutton e que eu adorava, até hoje lamentando a vertiginosa decadência desse diretor que parecia tão talentoso. Quando Quentin Tarantino disse em Cannes que Enzo G. Castellari e Robert Aldrich foram suas referências para 'Inglorious Bastards', bem que gostaria de ter tido mais tempo para lembrá-lo do duelo, ao som de Ennio Morricone, dos soldados em 'OS Guerreiros Pilantras'. E Clint e Richard Burton formam uma dupla sensacional em 'Where Eagles Dare', que pode até ser um subproduto de 'Os Doze Condenados', de Aldrich, mas é ótimo (e, no fundo, também foi referência, nem que inconsciente, para Tarantino). 'Os Guerreiros' passa sábado, dia 18, às 23h45, no TCM. 'O Desafio', na terça, 21, no mesmo horário. O post ficou longa e 'A Face Oculta' fica para o próximo.
Consegui, hoje, finalmente, validar os comentários que ficaram parados ontem, por problemas com a minha caixa de e-mails. Mauro Brider me lembra, senão exatamente cobra que Karl Malden, que morreu ontem, integrou o elenco de 'A Tortura do Silêncio', de Alfred Hitchcock - estava escrevendo 'A Tortura da Suspeita', mas este é outro filme, de Michael Anderson, com Gary Cooper e Deborah Kerr -, como o padre que acusa Montgomery Clift. Na verdade, dei-me conta de que havia esquecido o Hitchcock no blog e o incluí no necrológio que escrevi para o jornal (e está na edição de hoje do 'Estado', mas não no 'Caderno 2', que já havia fechado). Mauro aproveita e me pergunta o que acho de outro filme com Karl Malden, 'A face Oculta', o western mítico dirigido por Marlon Brando. Dedico em seguida um post inteiro a 'One-Eyed Jacks', até porque quero falar nessa homenagem que a TV paga está prestando a Brando e a Clint Eastwood. Marcelo Magalhães quis ser solidário comigo no episódio sobre Mario Lanza. Validei o comentário dele, mas o Marcelo - sinto te informar, cara - comprou uma briga. Ele diz que mais ridículo do que o Mario Lanza só o Miguel Aceves Mejia. Ai, Marcelo! Miguel Aceves tem um fã-clube danado aqui no blog. O post sobre ele, quando morreu, foi o maior sucesso e até hoje tem gente que pinga alguns comentários sobre o 'mariachi'. Aliás, é impressionante como certos posts estão sendo sempre revisitados. As pessoas, com certeza, procuram no índice remissivo para ver o que escrevi sobre determinado assunto, e postam seus comentários muito tempo depois. Hoje mesmo, validei o comentário do Ivan sobre 'Os Aventureiros'. Há, realmente, um culto ao filme de Robert Enrico com Delon e Ventura, que ainda tem aquela trilha e a Johanna Shimkus como Laetitia, cuja morte - 'O Funeral Submarino' - é sempre viva na minha lembrança (e na de outros cinéfilos). Posts sobre westerns também sempre rendem comentários tardios. Pode ser carência. Ninguém fala muitos nesses gêneros, ou filmes. Eu falo e espero continuar falando.
01.07.09
Estou conseguindo postar, mas não salvar os comentários. Só para dizer que um monte de gente já comentou os posts sobre Pina Bausch, 'Som e Fúria' etc. Aguardem!
Morreu Karl Malden, aos 97 anos, de causas naturais. Pelamor de Deus! Mas é um tal de já vai que não acaba mais... Sempre tive implicância com ele porque tinha aquela espécie de batata presa na ponta do nariz. Era um ator excessivo, característico do 'método', e Kazan, de quem foi aluno no Actor's Studio, com Lee Strasberg, gostava de utilizá-lo sempre numa histeria imensa, em filmes como 'O Justiceiro', 'Uma Rua Chamada Pecado' - que lhe deu o Oscar de coadjuvante -, 'Sindicato de Ladrões' e 'Baby Doll'. Mas Karl Malden não foi ator só de Kazan. Trabalhou com muitos outros grandes diretores. Preminger ('Passos na Noite'), Henry King ('O Pistoleiro'), King Vidor ('Fúria do Desejo'/Ruby Gentry, um dos filmes-faróis da minha vida), Delmer Daves ('A Árvore dos Enforcados'), Marlon Brando ('A Face Oculta'), John Frankenheimer ('O Homem de Alcatraz'), John Ford ('Crepúsculo de Uma Raça'), Richard Quine ('Hotel de Luxo'), Franklin Schaffner ('Patton, Rebelde ou Herói?'). Não me lembro de nenhum filme em que Karl Malden tenha sido protagonista, mas como coadjuvante ele muitas vezes roubou a cena. E todos esses que citei são filmes impressionantes, até, ou principalmente, os de Kazan, com todo o excesso que possam ter. Só filmes bons, e de um perfil nada convencional. Mesmo 'Hotel de Luxo', adaptado do best seller de Arthur Hailey, era muito interessante como amostragem do capitalismo em ação, concentrado no tal hotel. Como curiosidade, porque nunca vi o filme, acho que vale citar também sua única experiência como diretor, 'Time Limit', de 1957. Não tenho certeza de como o filme se chamou no Brasil, mas na América Latina de língua espanhola era 'Lábios Selados'. Sei porque 'quase' assisti ao filme do Malden em Montevidéu, certa vez. Richard Widmark fazia o protagonista e 'Time Limit' é muito citado por sua direção imaginativa, mas a reputação, apesar disso, não é boa. Como seu mestre Kazan, que colaborou com o macarthismo, Karl Malden conseguiu fazer, após a derrocada do famigerado McCarthy, um filme de tribunal impregnado do seu espírito, sobre militar levado a corte marcial, acusado de haver colaborado com os comunistas durante a Guerra da Coréia. Não resisto a fazer aqui uma brincadeira final. Anti-comunista de carteirinha, Karl Malden não entendeu ou deve ter se arrependido de fazer o filme de Quine. Numa folha corrida de bons serviços prestados ao capitalismo, não ficava bem um filme como aquele. A prostituta, o ladrão, o especulador, os trabalhadores explorados. E, no meio dessa gente, Karl Malden, truculento, como sempre.
Recebi o livro ‘A Idade Média no Cinema’, coletânea de ensaios organizada por José Rivair Macedo e Lênia Márcia Mongelli, lançamento da AteliêEditorial. O livro foi idealizado a partir do curso de extensão ‘A Idade Média no Cinema’, realizado no primeiro semestre de 2001, o que explica por que títulos recentes como ‘Cruzada’, de Ridley Scott, sequer são citados no índice remissivo. Confesso que me aproximei do livro, senão com o pé atrás, pelo menos um tanto enfadado. Os filmes de sempre, pensei. Mas por que o mundo acadêmico não se interessa senão pelos filmes que já foram dissecados pela crítica? ‘A Paixão de Joana d’Arc’, ‘O Sétimo Selo’, ‘O Incrível Exército de Brancaleone’... Já era uma surpresa para mim que Tarkovski fosse apenas citado e não merecesse um capítulo inteiro de estudo com seu ‘Andrei Rublev’, com aquele extraordinário episódio do sino... É curioso que, na maioria das vezes, ao falar sobre a Idasde Média - ou qualquer outra fase da história –, os diretores o façam não apenas com a perspectiva atual, o que afinal é justificado, mas também para falar sobre o aqui e o agora, sobre o mundo no qual vivem(os). ‘Alexandre Nevski’, de Eisenstein, é sobre o personagem histórico – e a batalha no gelo –, mas é prinmcipalmente sobre Stálin. Neste sentido, eu até acho que o épico de Anthony Mann, ‘El Cid’, é melhor e mais puro. O filme é, em definitivo, sobre o herói das gestas medievais e da tragédia de Corneille, cujos diálogos Mann e seus roteiristas, ..., reproduzem às vezes na íntegra. Achei muuito interessante a análise de outro filme com Charlton Heston, do qual gosto bastante, ‘O Senhor da Guerra’, de Franklin J. Schaffner, adaptado da peça do também diretor Leslie Stevens. Mas quero dizer que o meu pé atrás foi sendo substituído por um interesse cada vez maior e eu não li o livro. ‘Devorei-o’. Só fiquei baratinado com uma coisa. Há um capítulo inteiro sobre ‘Kristin Lavransdatter’, de Liv Ullman. fiquei com a maior vontade de ler o rtomabnce de Sigrid Undset, escritora norueguesa que recebeu o Nobel e que a própria Liv definiu para mim como ‘a maior história de amor já escrita’. Foi quando a entrevistei aqui em São Paulo. Ela havia vindo mostrar justamente ‘Kristin – Amor e Perdição’, numa mostra do cinema da Noruega. Incrível. Havia-me esquecido completamente dos detalhes do filme. Fuio ao arquivo do Estado e localizei, impressa, como papel, a entrevista com Liv. Não resisto na reproduzir o final. Apaixonado que sou por ‘Gritos e Sussurros’, conversei com Liv sobre o último plano da obra-prima de Bergman. as trës irmãs e a aias passeando bno jardim, sob o sol. É como se Bergman dissesse que, a despeito de todo tormento, a vida vale a pena, nem que seja por um momento. Disse isso para Liv, e olhem a resaposta dela, que me fez chorar. A lágrima escorreu, fazer o quê? ‘Devemos fazer esses momentos eternos. Nós dois aqui conversando, agora. Acho que a arte de viver é transformar estes momentos precisos, fazer com que sejam eternos, mesmo quando fugazes.’
Fui ver ontem ‘O Som e a Fúria’ no estúdio da Mega, em Higienópolis. Achei muito legal. Por força da minha convivência com amigos como Dib Carneiro Neto e Gabriel Vilela, tenho acompanhado de perto – e de dentro -– o processo de criação de teatro. Tenho ido, inclusive, muito mais ao teatro do que fui em toda a minha vida. Às vezes penso o que diria disso meu amigo Tuio Becker que, pelo fato de escrever sobre cinema, nunca deixou de acompanhar o movimento teatral de Porto. O especial de Fernando Meirelles versa sobre isso. Pedro Paulo Rangel faz um diretor de teatro que morre e cujo espírito assombra o também ator e diretor de teatro Felipe Camargo, que no passado pirou durante uma montagem de Rangel para o ‘Hamlet’ e agora dirige, ele próprio, uma nova versão da tragédia noturna do príncipe da Dinamarca, com um astro de TV (Daniel de Oliveira) no papel. Ao contrário do experimentalismo cênico de Luiz Fernando Carvalho – ‘Capitu’ –, Meirelles pretende ser mais direto. Ia dizer mais simples e direto, mas simples não é exatamente o termo, pois o segredo de ‘O Som e a Fúria’ consiste em propor complexidades, inclusive na discussão sobre a criação. Achei divertido o crítico se chamar ‘Bárbaro’ – qualquer aproximação com Bárbara Heliodora não é mera coincidência – e aquela divisão do ‘Hamlet’ em seis solilóquios, cujo novelo Daniel (no palco) e Felipe (na coxia) vão desenrolando conjuntamente. Elogiar Daniel de Oliveira... E precisa? Em pouquíssimo tempo, e na TV e no cinema – nunca o vi no palco –, Daniel construiu para si uma reputação ‘sólida’. Ele é bom demais e não teme ir fundo em personagens como Cazuza ou o Santinho de ‘A Festa da Menina Morta’. Daniel talvez seja o recém chegado nessa geração de novos atores brasileiros que tem o Selton (Mello), Wagner (Moura), Lázaro (Ramos) e o João (Miguel). Bons para caralho, desculpem pelo palavrão. Aqui, Daniel dá um baile como o ator que a princípio sofre o preconceito que tantas vezes, e de forma às vezes injusta, estigmatiza astros de TV. Havia gente que também não acreditava no Thiago Lacerda em 'Caqlígula' e, no entanto, ele foi maravilhoso, dando conta da complexidade (física e verbal) de Camus. Adorei Andréa Beltrão, Maria Flor, Ary França, mas a surpresa para mim – e imagino que será para o público, quando ‘O Som e a Fúria’ for ao ar – foi o Felipe Camargo. Não me lembrava, sinceramente, como ele consegue ser bom, embora talvez esteja sendo injusto, porque Felipe já havia sido ótimo em 'Filhos do Carnaval'. Eu, que sou um velho tolo – e romântico –, me emocionei com o Felipe naquela coxia, recitando os versos imortais, e quando ele, na euforia do trabalho bem realizado, rouba um beijo de sua ex (Andréa), na rápida visita ao camarim, após a apresentação. Felipe pode agradecer a Fernando Meirelles pelo presente do papel, mas o diretor também está em débito com seu ator. Felipe saiu melhor do que a encomenda, com certeza. 'O Som e a Fúria' vai ao ar na terça. Só ainda não entendi muito bem o formato. A versão que assisti, com 102 minutos, é uma condensação de seus episódios. Cada um tem uma hora, é isso? Nem vi Rodrigo Santoro, mas sei que ele participa. Está nos seis episódios, versão ampliada, ou em outra série? Volto ao assunto, mas, por enquanto, por favor, olho em 'O Som e a Fúria' (e no agora grande Felipe Camargo).
30.06.09
Morreu Pina Bausch. A coreógrafa alemã trabalhava num projeto com Wim Wenders. Ele queria filmar em 3-D, para colocar o espectador no centro das coreografias dela. Presumo que esse projeto tenha morrido com Pina, porque parece que ainda não estava filmado e não se trata simplesmente de fazer uma substituição. Era o espírito de Pina que Wenders queria captar. Era também o espírito da dança que a própria Pina encarnava para Almodóvar em ‘Café Müller’, na abertura de ‘Fale com Ela’. Bem antes disso, Pina fazia uma cega no cruzeiro de ‘E la Nave Va’, em que Fellini embarcou – e enterrou – a Belle Époque, em seu último (para mim) grande filme. Não era só o adeus a uma diva do canto lírico. Era já o adeus de Fellini a si mesmo. A morte de Pina Bausch vem na sequência da de Michael Jackson. Não quero fazer comparação nenhuma, mas foram dois artistas de gênio. Acho que foi a Monique Gardenberg, ouvida pelo Jotabê Medeiros, quem disse que Pina Bausch fosse a maior arista (mulher) do século. Do ponto de vista midiático, de qualquer maneira, o 'Moonwalker' teve mais apelo (e, claro, ganhou mais páginas). Passei minha manhã ouvindo piadinhas. Morreu a ‘Tina’. Carrego essa cruz. Numa das vezes em que Pina esteve no Brasil, eu estava na edição do ‘Caderno 2’, num domingo. Redigi um texto inteiro com informasções que me iam sendo repassadas pelo pessoal da sucursal do Rio. Era Pina para lá, Pina para cá, o texto inteiro. Na hora de fazer o título, me baixou sei lá que mau espírito e eu tasquei ‘Tina’. Sei que essas coisas acontecem, mas certamente não são agradáveis. Outro dia, na concorrência – segundo me contaram –, ‘1984’ foi atribuído a Orson Welles e hoje a ‘Folha’ assinala o nascimento de um grande documentarista, um tal de Rouche. Entendo essas coisas e não atiro pedras porque carrego o meu carma com a ‘Tina’. Sempre tem alguém para me lembrar do episódio. Eu o cito aqui, mas estou pensando é no ‘Fale com Ela’. Fico em dúvida sempre que me perguntam qual é meu Almodóvar favorito. Tenho a impressão que é ‘Carne Trêmula’, que amo, mas também gosto muito de ‘Tudo Sobre Minha Mãe’ e ‘Fale com Ela’. Neste momento, se me perguntassem, acho que ficaria com “Hable con Ella’. Duas mulheres em coma e dois homens que se conhecem num teatro, um enfermeiro gay e um escritor hetero. Eles se sentam lado a lado para assistir a uma coreografia de Pina Bausch. Na verdade, não se conhecem ali, mas mais tarde, no hospital.O enfermeiro é devotado a uma bailarina que está inconsciente. Ele fala com ela, lhe faz massagens. Há algo de erótico nesses contatos que, de qualquer maneira, não são sexuais. O escritor vela pela amante, uma toureira que foi agredida pela besta na arena e também entrou em coma. O hetero, ao contrário do homo, tem dificuldade para compartilhar sua emoção. Essa dificuldade é o tema da coreografia de Pina Bausch. Até como uma homenagem pessoal – e uma retratação, quem sabe –, fiquei morrendo de vontade de (re)ver ‘Hable con Ella’.
29.06.09
Mauro Brider me pede que comente dois filmes de Delmer Daves. Já falei aqui como Daves, o chamado documentarista do western, é respeitado por seus bangue-bangues, mas não dispõe da mesma reputação por seus outros filmes. No 'Dicionário de Cinema', Jean Tulard assinala que a fase final do diretor, marcado por seu gosto por melodramas considerados 'atrozes', explica a reticência de muita gente em aceitar a entrada de Delmer Daves no rol dos grandes. Até recentemente, conhecia 'Prisioneiro do Passado' (Dark Passage, de 1947) somente de ouvir falar. O filme integra uma caixa de Humphrey Bogart que permanecia intocada na minha estante. Assisti-o, finalmente, e acho que Tulard não exagera ao definir o noir de Daves como 'admirável'. A história adaptada de David Goodis mostra Bogart como esse fugitivo que troca de rosto por meio de uma cirurgia plástica e se esconde no apartamento de Lauren Bacall. Daves havia se iniciado como roteirista de filmes de prestígio como "A Floresta Petrificada', de Archie Mayo, e 'Love Affair', a primeira versão - 'Duas Vezes', de 1938 - de 'Tarde Demais para Esquecer', de Leo McCarey. faz décadas, literalmente, que não vejo 'Demetrius e os Gladiadores'. Confesso que até comprei o DVD, que deve andar perdido nas pilhas de DVDs espalhadas pela minha casa. Mas a minha visão desse filme é uma coisa muito antiga. Ou eu me engano ou devo ter visto num festival, quando foram reprisados 'O Manto Sagrado' e sua sequência. Ah, sim. A palavra 'festival' tinha outro sentido para a gente, naquele tempo. Reuniam-se westerns, filmes de guerrra, melodramas, sucessos dessa ou daquela distribuidora em 'festivais' que, em geral, duravam uma semana. Sete filmes, um por dia... Nem 'O Manto Sagrado' nem 'Demeterius' dispõem, de boa reputação. 'O Manto', de Henry Koster, entrou para a história como o primeiro cinemascope e só. Lembro-me de Fritz Lang ironizando o formato e dizendo que só era bom para enquadrar caixões de defunto. Mas eu gosto, ou pelo menos me lembro da cena de Jean Simmons desafiando o imperador Calígula (Jay Robinson) para ser condenada à morte com seu amado tribuno Richard Burton. Na sequência, o imperador tenta localizar o manto que pertenceu a Cristo. Demetrius, Victor Mature, que acompanhava o tribuno, agora virou gladiador e se envolve com Susan Hayward. É um épico sobre os primitivos cristãos, como 'Quo Vadis?', de Mervyn LeRoy. Todas aquelas cenas de martírio na arena do Coliseu... Não tenho uma lembrança clara de 'Demetrius'. Ou me engano ou Victor Mature, de posse do manto, e antes de também assumir que é cristão, joga o tecido no sádico imperador, que se acovarda (e encolhe). Estarei delirando? Se localizar o filme, vou revê-lo. Lembro-me que o grande elenco inclui Michael Rennie, Debra Paget, Anne Bancroft, Richard Egan e Ernest Borgnine. Mas vou dever ao Mauro uma opinião sobre 'Demetrius'.
Abri agora minha caixa de e-mails e encontrei um comentário de João Silva, que presumo seja gaúcho, me esculhambando. Como o comentário do João refere-se a um post muito antigo, sobre Mário Lanza, de número 9 mil e pouco - meu post atual é 37 mil, por aí -, a chanche de alguém lê-lo é mínima (só numa pesquisa remissiva). Vou dar uma força para o João. Não é masoquismo, não, mas me encanta a devoção dos fãs de Mário Lanza. O cara podia ser um gênio cantando, mas como ator não podia ser mais canastra, só que o João, como outros tietes, não consegue enxergar isso. Aquele filme que o Anthony Mann adaptou de James Cain, 'Serenata', em que Mario Lanza é o protegido de Joan Fontaine, amado por Sara Montiel e hostilizado por Vincent Price, é o ó. Mann foi um grande diretor de westerns e o seu filme sobre Glenn Miller é, digamos, legal. Deve ter sido por isso que ele foi escolhido para dirigir Mário Lanza em 'Serenata', pela parte musical, mas o melodrama, além de atroz, ainda tem aquela 'edulcoração' do tema do homossexualismo, tudo isso agravado pela inexpressividade do Lanza, que chega a ser patético. O único mérito de 'Serenata' foi ter aproximado o diretor de Sara Montiel. Mann casou-se com ela e sempre fantasiei que foi seu casamento com a bela Sarita que o aproximou da Espanha e ele fez meu épico de devoção - 'El Cid', com Charlton Heston na pele de Rodrigo Diaz de Bivar e Sophia Loren esplendorosa como a sua Ximena. Vão lá no post antigo...
Havia visto ‘Transformers 2’ no sábado e, na saída do Shopping Borbon, fiquei preso sob a marquise, por conta daquela chuvarada. Fiquei ali deglutindo o filme de Michael Bay, pensando na humanização daqueles robôs – os autobots –, que tanto me encanta e até de forma irracional, sem que eu consiga verbalizar direito porque aquela máquina que chora mexe tanto comigo. Às vezes acho que eu próprio estou pirando, porque escrevo e falo da ‘expressão’ dos robôs. Mas é isso – os autobots têm expressão, um olhar que diz coisas e o que diz faz sentido, não é só pipoca, não. Mas será que só eu percebo isso? Por conta da chuva, tive dificuldade para pegar um táxi e terminei chegando molhado como pinto em casa. Mal me sequei e troquei de roupa, fui ver ‘Turismo Infinito’ no Sesc Pinheiros. Só eu para sair da parafernália de efeitos de Michael Bay para o rigor da palavra de Fernando Pessoa, cujos heterônimos o diretor português Ricardo Pais coloca em cena num espetáculo que alinhava o verbo do poeta com cartas de sua namorada Ofélia Queirós. Fiquei siderado pela concepção visual de Ricardo Pais, que entendi como um píer de onde sai a nau para a viagem interior do poeta, e também pela forma como seu ‘roteiro’ faz interagirem os heterônimos, por blocos, às vezes com o próprio Pessoa (Álvaro de Campos) ou então Alberto Caieiro, que tenta resolver os impasses entre o poeta e suas variantes. Adoro Pessoa, o que conheço dele, mas nunca fui especialista em suas variantes. O espetáculo não me esclareceu e a viagem muitas vezes me pareceu árdua, porque não é fácil para a gente, ou não foi fácil para mim entender o português de Portugal, por melhores que sejam os atores portugueses. Eles são muito, muito bons! A maneira como colocam/projetam a voz! Acho que poderia ficar mais uma hora a ouvi-los, ou tentar ouvir, por mais que a articulação daqueles temas me parecesse cifrada, quase impenetrável. Não creio que tenha conseguido ‘entender’, esse flagelo que tanto cobram do crítico. No teatro ou no cinema, a gente faz uma viagem interior. O entender é relativo. Tem gente que entende tudo e não desfruta nada. Eu saí do teatro querendo mais. Adorei os versos que Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc, escolheu para a apresentação. ‘E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa/ Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem/ E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro/ E passa para o outro lado da minha alma.’ Foi o que senti – o verbo de Pessoa entrando por mim dentro. É o tipo do espetáculo que acho que valeria (re)ver. Duas, três vezes. Mas é tarde. A nau de Dias e Pessoa já partiu...
Encontrei ontem Marcelo Pestana na entrada do estacionamento do Teatro Alpha. Ele saía com um grupo da sessão da tarde de ‘A Noviça Rebelde’. Eu chegava. Foi como uma mudança de guarda. Conversamos rapidinho, Marcelo me disse que eu ia gostar mais do filme de Robert Wise, depois. Ele gostou da montagem, eu também – já disse que achei o melhor musical da dupla Moeller/Botelho. Isso não quer dizer que tenha achado 10. Gostei demais das cenas com a madre superiora, que canta divinamente, e também de certos momentos de ‘Maria’ com as crianças. O curioso é que, embora muitas vezes os cantores sejam os mesmos, nenhum outro desses musicais da ‘Broadway made in Brazil’ me parece tão bem ‘cantado’, ou ‘encantado’. O score de Rodgers e Hammerstein é maravilhoso e as versões muito boas. No caso de ‘Amor, Sublime Amor’ (West Side Story), havia implicado com certas escolhas do diretor Jorge Takla. Tudo bem que ele não quisesse usar as versões conhecidas de ‘Maria’ e ‘Tonight’, mas as antigas eram muito melhores (e eu consigo cantá-las até hoje). Mesmo assim, entendi o que me disse o Marcelo. Por melhor que seja a Maria de Kiara Sasso, a personagem é excessiva. Quando, na volta da lua de mel, ela diz à garota que sabe que ama o capitão porque pensa nele antes do que em si mesma, pensei comigo: mas que xarope, purgante mesmo! Menos, gente, gente. E a pretendente do capitão não tem nem de longe a finesse da personagem de Eleanor Parker no filme, que sabe sair de cena sem precisar ser fdp carreirista. Elanor Parker! Vou ter de fazer um post qualquer hora dessas sobre essa bela atriz! Feitas as ressalvas, achei legal ‘A Noviça Rebelde’. E insisto. O espetáculo é muito bem cantado. Por todo o elenco.
Reconheço que sou muiito impulsivo e saio escrevendo sem pesquisar. Volta e meia ocorre de eu ter de fazer correções e é curioso que muitas vezes eu já as fiz antes de ler os comentários em que alguns de vocês me desancam. Sei que me exponho, mas fazer o quê? Prefiro errar e me corrigir – ou ser corrigido, o que é uma forma de conversa, ou não? – do que mudar meu ‘método’, como se diz. Tudo isso para dizer que errei feio no post sobre as ‘imagens’. Henri Decae realmente foi um grande da fotografia e trabalhou com Clément e Truffaut, mas o raciocínio talvez devesse ser o inverso. Disse que nunca entendi como Truffaut, que detestava o cinéma de qualidade, havia buscado o fotógrafo de Clément, que era um dos máximos representantes desse cinema, para fazer ‘Os Incompreendidos’. Na verdade, ‘Os Incompreendidos’ é anterior a ‘O Sol por Testemunha’ e foi Clément quem buscou Decae justamente porque queria desmoralizar os jovens da geração nouvelle vague, mostrando que ele, um veterano de ‘regras fixas’, poderia fazer um filme liberto de regras, mas para isso ele precisava de um grande fotógrafo, habilitado às filmagens externas (e em alto-mar), necessárias para a sua adaptação de Patricia Highsmith. Cheguei ontem à noite em casa, após o teatro – fui ver ‘A Noviça Rebelde’, o melhor (menos ruim) musical da dupla Moeller/Botelho – e vi um pouco de TV paga, o horroroso ‘Desejo de Matar 2’, com Charles Bronson. É impressionante como o filme precisa ser tendencioso na sua exposição da violência do mundo para tornar o espectador solidário com o vigilante Bronson. E o filme é muito malfeito, ou usa essa falta de acabamento plástico e dramático, para reforçar a precarierdade do mundo no inconsciente do espectador. Cansado daquelas imagens repulsivas, deitei-me, mas não consegui conciliar o sono. Fiquei pensando nas imagens de ‘Os Amantes’, que acaba de sair pela CultClassic, nas de ‘As Duas Faces da Felicidade’, lançado pela mesma distribuidora. Não creio que tenha de mudar nada na parte do texto sobre o preto e branco de Decae no filme de Malle ou sobre as cores impressionistas no de Varda. Mas vamos à exatidão. Decae foi o fotógrafo eleito da geração pré-nouvelle vague. Foi ele quem fotografou ‘Le Silence de la Mer’ e ‘Bob le Flambeur’ para Melville, considerado um dos precursores do movimento de renovação/transformação do cinema francês nos anos 50. Decae fotografou até ‘O Samurai’, também para Meville e com Delon (o astro de ‘Plein Soleil’). Também fotografou os primeiros filmes de Malle, outro precursor, e os de Chabrol, esse sim um autor ‘nouvelle vague’. Decae fotografou ‘Ascensor para o Cadafalso’, ‘Os Amantes’, ‘Nas Garras do Vício’, ‘Os Incompreendidos’ e ‘Os Primos’ e só então foi chamado para Clément para ‘Plein Soleil’e, na sequência, ‘O Dia e a Hora’. No embalo, levantei-me e coloquei o DVD de ‘Les Amants’ (da Cult Classic). Peguei a cena em que Jeanne Moreau e Jean-Marc Bory – espero não haver digitado anteriormente Jean-Marc Barr, o que quase fiz agora... – saem para seu ‘passeio noturno’. Me emocionei, não sei se pelo filme ou pelo seu significado. No fim dos 50, Malle, e não apenas ele, mudava o cinema, enfrentava tabus. Mudando completamente de assunto, quando vinha hoje para o jornal, ouvia no táxi as lembranças da final da Copa de 58 – em 29 de junho, dia de São Pedro –, nos primórdios das transmissões diretas de rádio. Sempre ouvi o Flávio Alcaraz Gomes, jornalista polêmico, mas figura fuindamental do rádio no Rio Grande do Sul, contar a história de como a Guaíba, em Porto, liderou a transmissão - ‘heróica’ como a própria batalha da seleção, quando enfiou aqueles 5 a 2 nos suecos, exorcizando os flagelos do Maracanã e da Copa de 54 (a derrota contra a Hungria, não?). Ou seja, tudo mudava naquela época. O cinema, a comunicação. Sei que misturei tudo, mas olhando aquela Jeanne Moreau, tão maravilhosa, tão intensa... Deus! Que o cinema nos oferece sensações e experiências que podem ser inesquecíveis!
28.06.09
Mudando completamente o assunto. Recebi o DVD do filme de Louis Malle, 'Os Amantes'. Malle carregou pela vida a etiqueta de cineasta do escândalo e ela começou justamente com 'Les Amants', em 1958, quando o filme fez sensação no Festival de Veneza e o Vaticano ameaçou excomungar o diretor e sua atriz, Jeanne Moreau. Malle tratou depois de muitos temas que foram considerados tabu - a linguagem obscena de Raymond Queneau ('Zazie'), o suicídio ('30 Anos Esta Noite'), o colaboracismo dos franceses com os nazistas ('Lacombe Lucien'), a prostituição infantil ('Pretty Baby') etc. O curioso é que a permisssividade tomou conta de tal maneira do cinema que o famoso plano de Jean-Marc Bory desaparecendo da imagem para fazer sexo oral em Jeanne Moreau e ela tendo seu grande orgasmo hoje podia passar na sessão da tarde e no máximo alguma menininha de 3 anos ia perguntar o que está ocorrendo com ela. Jeanne Moreau é a Madame Bovary de Malle em 'Os Amantes'. Na autobiografia da atriz, ela conta que namorava o diretor e viveu um dilema na hora da rodagem. Se fizesse a cena com intensidade, ela sabia que Malle não ia aguentar. A relação amorosa dela terminaria naquele dia, no set. Mas, como atriz, Jeanne não podia recuar. Fez a cena como devia, o diretor gritou corte e, na verdade, estava cortando a união afetiva. Permaneceram amigos (e ela fez outros filmes com ele). Sempre achei a história muito reveladora. Do quê, cada um é livre para interpretar. Mas quero falar uma coisa. Henri Decae é o fotógrafo de 'Os Amantes'. Decae era - é? Estará vivo? - um mestre da imagem composta e bonita. Fotografou para Malle e François Truffaut ('Os Incompreendidos') como para René Clément, que era um diretor da ancienne vague e da tradição de qualidade que Truffaut detestava. Decae foi o fotógrafo de 'O Sol por Testemunha', por exemplo. Malle nunca foi caracteristicamente nouvelle vague, embora possa ser consdiderado um dos precursores do movimento. Já Truffaut era um dos chefe de fila do grupo (com Godard). Sempre me surpreendeu que Truffaut compartilhasse o fotógrafo dos diretores que desprezasse, mas foi só em 'Les Quatre-Cents Coups'. Logo em seguida ele aderiu a Raoul Coutard, para 'Jules et Jim', e Coutard foi o grande fotógrafo da nouvelle vague. Volto a 'Os Amantes'. Há algo de misterioso na beleza da imagem em preto e branco do filme. Depois que fazem sexo, Jeanne e Jean-Marc saem para o passeio noturno naquele jardim. Há algo de poético naquilo. Me lembra, mas é uma viagem muito subjetiva, alguma coisa do mistério de 'O Mensageiro do Diabo', de Charles Laughton. Havia revisto outro filme (francês) completamente diferente, 'As Duas Faces da Felicidade', de Agnès Varda. É um dos mais belos filmes em cores já feitos. Antônio Gonçalves filho, que também reviou Varda esta semana, conversava comigo sobre issooutro dia, no jornal. É verdade que a beleza não é só da imagem, propriamente dita. Claude Zidi (futuro diretor) era um dos fotógrafos (são três). Ao contrário da beleza 'composta' de Decae, a foto de 'Le Bonheur' é puro impressionismo e, assim sendo, me parece mais nouvelle vague. Tergiverso. Só recomendo que (re)vejam 'As Duas Faces' e 'Os Amantes', dois lançamentos em DVD.
Só para arrematar o 'Transformers 2'... Minha filha foi ver o filme antes que eu. Perguntei à Lúcia o que tinha achado? Ela respondeu que o primeiro era melhor, que esse tem ação (e barulho) demais, mas minha filha, que é sábia, matou a charada - 'tu' vai gostar. É filme de guri, me disse...
Finalmente, consegui assistir ontem a ‘Transformers 2’. Não vou recomendar a ninguém, porque pelo visto estarei passando atestado de incompetência ou loucura, mas quero dizer que me diverti bastante e até me emocionei. Na sexta, ao chegar na cabine de ‘A Era do Gelo 3’, tive de ouvir os coleguinhas zoando sobre a coletiva de Michael Bay e Shia Laboeuf, via satélite, no sábado anterior. Perdi porque estava no Rio, por conta do Cine-Sul (e da homenagem a Carlos Hugo Christensen), mas confesso sinceramente que lamentei. Não tinha visto o filme, de qualquer maneira, mas conhecendo a idiossincrasia de Michael Bay, voltei a ficar perplexo, como no primeiro filme. Michael Bay gosta de filmar em cenários naturais – perseguições de carros, colisões, tiroteios. Como ele consegue conciliar isso com o fato óbvio de que as transformações – de carro e caminhões em autobots e decepticons – só podem ser produzidas em computador, ou com a tal tecnologia de ponta? Eu confesso que, de toda essa parafernália de Hollywood, a única coisa que realmente me impressiona é essa ‘passagem’ de um estado a outro na série ‘Transformers’. Tudo o mais é bobagem. Mas, enfim, sou eu, com meu parafuso a menos, ou a mais, não sei. Estranho que as pessoas não consigam se divertir. Acho até que as coisas fazem sentido no filme. No começo, Shia está indo para a faculdade. É o primeiro da família a conseguir isso e ele está empenhado em ser um adolescente ‘normal’. Tirando o prólogo – a apresentação do elo entre humanos e transformers, há 17 mil anos –, as primeiras cenas do herói são em ‘família’. A mãe encontrou seu sapatinho e chora porque ele está indo embora. O pai dá conselhos – na faculdade, ele vai encontrar uma mulherada ávida por experiências. Não adianta Shia dizer que é homem de uma só mulher – quer dizer, Megan Foxx é o que Stanislaw Ponte Preta chamaria de mulher para 400 talheres, ou para concentrar em uma todas as mulheres do mundo. (E os dois têm uma ótima química. Eu confesso que relaxo e gozo como voyeur vendo Megan e Shia em cena. Aquela mulher é a uma cavala, no bom sentido, sem ofensa, e ele segura o tranco. E depois tudo o que ocorre é para que ele diga que a ama, não é?) O curioso é que, no final, vamos ter uma inversão. Quando o herói, no fim, precisa se arriscar, é a mãe que o empurra para a ação, enquanto o pai tenta tratá-lo como a uma criança. Essa relação ‘familiar’, a construção da identidade de Shia pela ruptura consentida pela mãe – a sociedade norte-americana é matriarcal, ou não? –, me parece bem interessante, mas o que me encanta nos ‘Transformers’ é a mitologia criada em torno das máquinas. Kubrick sacramentou a máquina como inimiga do humano em ‘2001’, com aquele computador que enlouquecia, Hal-9000. O carro/robô de Shia é de uma devoção canina ao herói. Aliás, é uma das piadas mais bem construídas do filme. O carro/robô ocupa esse lugar – reassumindo a condição de bicho doméstico nas primitivas comédias da era muda – porque os cães de verdade estão muito ocupados 'fornicando'. Bumblebee chega a chorar quando Shia diz que, como calouro, não tem direito de levá-lo para a escola. A máquina humanizada, a máquina que chora é uma grande piada (ou será que só eu sinto assim)?). Na verdade, Michael Bay é over do over, mas li em algum lugar que Spielberg havia elogiado ‘Transformers 2’. Claro que sempre tem alguém para dizer que ele fez isso porque é produtor, para ganhar dinheiro, mas Lucas, Spielberg, Scorsese e Coppola formam um grupo que respeito muito. Posso nem gostar dos filmes, mas acho que não são meros comerciantes. São visionários, construtores de sonhos, e acreditam no que dizem e fazem. Quando não gosta, eles se calam e existem filmes que produziram sobre os quais não falam. Havia gostado de ‘Star Trek’, mas saí do cinema com a cabeça formigando depois de ver ‘Transformers 2’. Aquela união da máquina com o homem, criando uma nova mitologia para desautorizar os militares, que estão querendo cercar o presidente, me parece a pá de cal na era Bush. E essa mitologia, fantasiosa como é, me parece bacana. Os autobots se identificaram com o o homem porque, de todos os planetas do universo, foi aqui que eles descobriram uma raça capaz de compaixão. Um credo humanista? Ora, pois... O filme é barulhento? É. É Longo? É – mas as duas horas e meia passaram voando para mim. Michael Bay veio da publicidade e filma Megan Foxx como se ela pertencesse ao universo da propaganda. E não pertence? Aquela mulher é perfeita demais, com seu sorriso Colgate e os olhos que brilham mais do que diamante em propaganda de cartão de crédito. E o primeiro ângulo dela, trepada na moto – se fosse 3-D a bunda estaria jogada na cara da gente –, sacramenta essa elefantíase do sexo que percorre a narrativa. Michael Bay celebra a estética publicitária ou ela faz parte do mesmo movimento quando Shia grafita em cima do pôster de... 'Bad Boys II'? O filme é patriótico? Tem excesso de bandeiras dos EUA? Tem, mas John Turturro, que é o mais – ou único – patriota da trama liga-se àquele espanhol como se fossem unha e carne e a relação de superioridade vira de igualdade. Chega – desse jeirto vou virar fã de Michael Bay, o que, evidentemente, não é o caso. ‘Transformers 2’ não é uma obra de arte. O filme é um objeto de consumo, e como tal compõe um fenômeno. Me divertiu bastante, e com mais inteligência do que duas ou três críticas que tentei ler na internet. Entrei no Google, digitei ‘Transformers 2’ críticas, e tentei ler algumas. Desisti, porque a segunda e a terceira repetiam a primeira e cada uma era mais preconceituosa do que a outra, batendo todas na mesma tecla e a tecla em questão é que todo mundo sabe como é Michael Bay. Pois bem - quero dizer que me diverti (e bastante). Quase chorei numa cena – como se humaniza o olhar de um robô? Michael Bay conseguiu. Bumblebee e Optimus Prime têm aquele olhar angustiado que Nicholas Ray perseguia para expressar seus personagens atormentados (e para justificar a máxima de que o cinema é a melodia do olhar). Agora, podem jogar suas pedras.
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