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26.11.09
Vi na segunda-feira o documentário CIDADÃO BOILESEN, que ganhou o último É TUDO VERDADE. E estreia amanhã nos cinemas.
Saí chapado pelo filme. Mais ainda pelo debate posterior.
Foi uma pré-estreia para convidados. Estavam presentes muitos ex-combatentes da ALN. Digo sobreviventes, pois a organização foi dizimada brutalmente entre 1967 e 1973.
Contam-se nos dedos os que estão vivos para contar.
Entre eles, CARLOS EUGÊNIO DA PAZ, atual professor de música, quem decidiu justiçar BOILESEN em 1971, e deixou no ar, ou melhor, não afirmou nem negou, se participou do fuzilamento do ex-presidente do GRUPO ULTRA.
No debate, disse mais: “Às vezes, precisamos matar, sim.”
Volta tudo. Pois sei muito bem que a maioria não sabe do que estou falando. E não sabe porque o País faz questão que não saiba. Sempre pedem: vamos virar a página. Como se fosse possível...
No bar em que fui em seguida ao filme, descobri que nem meus amigos íntimos sabiam quem foi HENNING BOILESEN, a figura mais controversa da ditadura e simbólica.
O filme não conta grandes novidades para quem conhece a história dos anos de chumbo. Mas faz uma análise completa, corajosa, e traz depoimentos de pessoas falando aquilo que, antes, soavam boatos.



Presta atenção. Na renúncia de Jânio Quadros, o Brasil viveu um período agitado. As esquerdas viram ali, enfim, a chance de impor seu projeto, as reformas de base, uma delas, a reforma agrária, já que o vice-presidente JANGO, que tomou posse, vinha de suas fileiras.
O golpe militar foi preparado. A direita e o empresariado se uniu. Igreja, ABI, OAB, o governo americano, todos se viram na paranoia vigente, a da ameaça comunista. Ou foi a desculpa para não abrirem mão de $eu$ privilégios.
Em 31 de março de 1964, começou o golpe militar. Mas que, na verdade, era também civil, planejado nos gabinetes, corredores das federações industriais, agrárias, mercado financeiro e multinacionais.
E é disso que, no fundo, o filme trata. Aponta a participação da elite brasileira no regime conhecido apenas pela alcunha de DITADURA MILITAR.
O próprio OLAVO SETÚBAL, do ITAÚ, em entrevista para o filme esclarecedora, resignada, à vontade, afirma que era evidente que o golpe era civil, que os militares foram chamados por eles, empresários.
A esquerda se divide. Parte dela opta pela resistência armada.
Organizações clandestinas são fundadas, ALN, VPR, VAR, COLINA, MR-8, MTR... Para arrecadar fundos, assaltam bancos. Começam as ações de guerrilha urbana. Preparam-se as de guerrilha rural.
O governo se assusta. Não estava preparado para uma guerra contra guerrilha. No seu comando, ex-combatentes da Segunda Guerra. Montam uma operação paralela, a OBAN, órgão civil e militar, sob o comando do II Exército. Onde? Em São Paulo, onde estavam e trabalhavam os industriais e banqueiros.
Aliciam os delegados mais durões da Polícia Civil de São Paulo, entre eles, o bando do Esquadrão da Morte, chefiado por Paranhos Fleury, para que combatessem os “terroristas” utilizando os mesmos métodos que combatiam a bandidagem.
O governador ABREU SODRÉ emprestou a delegacia da RUA TUTÓIA, que se tornou o centro de operações e torturas. Os militares pediram uma contribuição do empresariado, para financiar a organização “modelo”. Na verdade, queriam o aval, solidificar a aliança. O Ministro DELFIM NETTO foi o encarregado de fazer a ponte.
Em muitas reuniões na FIESP, empresários passaram o chapéu.
E qual deles mais se empolgou? BOILESEN, dinamarquês que chegou pobre no Brasil, anticomunista ferrenho, com comportamentos estranhos anotados em seu boletim escolar da Dinamarca.
Presidente do poderoso grupo da Ultragás [50% dos lares brasileiros eram abastecidos por gás liquefeito], que fazia acordos escusos com a PETROBRAS e frequentava os bailes e eventos da, como se dizia na época, “alta sociedade”.
Não só era quem “achacava” os empresários que não queriam participar, com ameaças sutis a JOSÉ MINDLIN e JOSÉ ERMIRIO DE MORAIS, que se recusaram, como ficou amigo dos agentes e torturadores e assistia às sessões de tortura.
Um aparelho de tortura com choque tem o seu nome, PIANOLA BOILESEN. Alguns dizem que ele o importou dos EUA.
A informação de que havia caixinha para financiar a tortura e que a Ultragás estava por trás vazou entre os guerrilheiros. Em muitas prisões, havia um caminhão da empresa. E torturados falavam da presença do industrial nas sessões.
CARLOS LAMARCA sugeriu o seu sequestro, para servir de exemplo a outros empresários. A ALN decidiu pelo fuzilamento. CARLOS EUGÊNIO DA PAZ comandou a operação, uma emboscada na esquina da CASA BRANCA, nos JARDINS.
Seu Galax foi fechado pelos guerrilheiros, que deram um tiro de fuzil. O empresário correu pela BARÃO DE CAPANEMA. Outros guerrilheiros o esperavam e o metralharam.
Enfim, o Alfa, guerrilheiro que dá o tiro de misericórdia, para “completar” a operação, se aproximou calmamente e deu um tiro de fuzil na cabeça do empresário. Depois, espalharam panfletos, explicando a ação ao “Povo Brasileiro”.

Em poucos dias, foram descobertos. Todos que participaram da ação foram mortos. Exceto PAZ, que se exilou.
No filme, BRILHANTE USTRA, então chefe da OBAN, e um agente confirmam que BOILESEN era um chegado. O agente afirma que, sim, ele participava das torturas.
Mindlin confirma o achaque, e que era BOILESEN quem passava a caixinha. Uma guerrilheira conta o que conversaram depois da sessão de tortura. Paz dá detalhes da operação. Dinamarqueses amigos falam de seu envolvimento com a polícia política. Seu filho nega tudo.
Dom Paulo Evaristo Arns explica, irônico, com uma desculpa bem esfarrapada, por que não rezou a missa de sétimo dia.
Erasmo Dias confirma o envolvimento de empresários. Os nomes de algumas empresas que participaram da caixinha são citados, como a GM e FORD.
Falam dos famosos caminhões da FOLHA, que teriam sido emprestados para a OBAN, história obscura, que nunca se provou, mas que levou as organizações de esquerda a queimarem alguns caminhões da empresa.
CHAIM LITEWSKI, diretor do filme, levou mais de uma década para fazê-lo.
Conseguiu diversas imagens de arquivo esquecidas na CINEMATECA. A montagem é moderna, a trilha sensacional. Em nada se parece com as trilhas enfadonhas de documentários do gênero.
E a grande surpresa do filme é o depoimento de um lúcido e direto FERNANDO HENRIQUE CARDOSO [o sociólogo, ele uma vítima do regime que o cassou].
Diz, claramente: “O empresariado não precisava participar, o governo tinha dinheiro de sobra.” Participou porque quis eliminar um inimigo. Financiou nos corredores da FIESP, de que BOILESEN era diretor, consciente dos métodos. É uma mancha mais que escura na nossa história, de que pouco se fala.
Afinal, parte desse empresariado está ainda aí na ativa, comanda a indústria, e, como no mercado financeiro, muitos cresceram durante o período, especialmente os colaboracionistas.
Aliás, ninguém nunca comentou, mas a união ITAÚ-UNIBANCO é bizarra.
Enquanto o primeiro era gerado por uma família declaradamente golpista, o segundo era gerado por uma família que foi cassada pela ditadura [Walter Moreira Salles foi ministro da Fazenda do governo João Goulart].
Assistir ao filme é uma oportunidade de entender por que parte da sociedade civil, com o aval do presidente do STF, anuncia que é contra repensarmos na LEI DA ANISTIA, de 1979, promulgada durante ainda a ditadura, que perdoou torturadores.
PAZ causou polêmica ao dizer no debate que às vezes é preciso matar. Citou a Revolução Francesa, a Americana, a Resistência Francesa. E disse: “Eu fiz algo para protestar contra aquela ditadura assassina. Desde os 15 anos lutei contra ela.”
Mas foi FHC, que chegou a ser levado para a OBAN encapuzado, quem deu a voz final no documentário. “Os empresários querem esquecer, porque se veem em Boilesen.”
+++
Amanhã tem pré-estreia com debate do ótimo e aguardado documentário ENTRE A LUZ E A SOMBRA, também há anos sendo produzido, da minha amiga LUCIANA BURLAMAQUI.
Dia 26, às 20 horas, no Cine Bombril - Conjunto Nacional. Após a sessão, debate com a diretora Luciana Burlamaqui, Oded Grajew (Movimento Nossa São Paulo), Domingos Dutra (deputado federal, PT-MA) e Gilberto Dimenstein, colunista da Folha. Senhas na bilheteria (Av. Paulista 2073) uma hora antes da sessão.
Então, se entende o mal que a DITADURA fez a este País.
Comentários:
Comentário de: Camila [Visitante]
26.11.09 @ 12:32Putz, eu tava "babando" pra ver esse aí, mais ainda por causa do debate. Tomara que seja um extra no DVD.
Ei, sabe se, ou quando estreia "Perdão Mister Fiel"?
Comentário de: Michelle [Visitante]
26.11.09 @ 14:02eu tbm desconhecia a existência do BOILESEN. ou nunca me ative a ela. chorei ao final do texto. e, sinceramente, não sei se leviana e emocional, mas concordo com a afirmação de PAZ. o FHC me surpeendeu, e muito. farei de tudo pra ver o doc.(o título me fez lembrar de outro, o MUITO ALÉM DO CIDADÃO KANE).
Comentário de: Nani [Visitante]
26.11.09 @ 14:06ô assuntinho pra render pano pra manga... qto mais achamos que já sabemos de tudo, sempre tem mais sujeira debaixo do tapete.Uma amiga minha fez uma participação no filme Cabra Cega, aquele que teve entre outros o Jonas Bloch.Teve uma época que eu li muito sobre o assunto, foi a partir dai que conheci a história de seu pai e posteriormente vc.Particularmente acho que a luta contra a ditadura andou na bicicleta ergométrica. Acho que nunca teve o fundamento que tentam passar pra gente, os envolvidos na maioria eram peixe grande e os estudantes e intelectuais entraram movidos pela energia e vontade de mudança que esta idade causa.Também acho deprimente ver hj, os que levantaram bandeira contra a ditadura tão alienados.Chego a conclusão de que todos tem o seu preço.
Comentário de: Mônica [Visitante]
26.11.09 @ 14:20Nossa, Marcelo, muito, muito bom esse texto! Vou ver o filme. Bj
Comentário de: bibi [Visitante]
26.11.09 @ 14:57Marcelo, vc está certíssimo!
O que houve foi um golpe civil-militar.
E na verdade, houve o" golpe do golpe ".
Essas parte da sociedade que aliciou os militares para realizar o golpe, esperava reassumir em 1965, mas os militares deram o golpe neles e ficaram 20 anos no poder.( falo dos políticos de direita )
A sociedade civil apoiou sim , " a ordem e o progresso " da ditadura militar, e só começou a ir pra rua com o fim do " milagre econômico ", quando o bolso da classe média foi mexido.
Bjs
Comentário de: Cláudia [Visitante]
26.11.09 @ 15:06São os filmes e os documentários que vêm fazendo o papel que a rigor pertenceria aos historiadores. Especificamente este documentário sobre o Boilesen parece ter conseguido avançar em um ponto interessante ao mostrar que a adesão ao sistema não era a única opção possível e por isso automática, como provam Mindlin e Antonio Ermirio. A verdade é que muitos empresários usaram o pretexto do autoritarismo do governo para poder exercer um autoritarismo que lhes era próprio.
Comentário de: Amanda [Visitante]
26.11.09 @ 16:14" Cidadão Boilesen" e "Perdão Mister Fiel" me causaram a impressão de que um "tabu" está caindo: o silêncio acerca da colaboração da sociedade com o golpe.
" Marchou com Deus pela democracia/ agora, chia, agora chia..." ( Zé Ketti)
Comentário de: paulo blanchet [Visitante]
26.11.09 @ 16:29devagar e sempre, mas caminhando e assim a história vêm sendo recuperada.
esse heroismo do Ermírio de Morais, eu não tinha idéia.
a do Mindlin sim...
do pai, certo?
Comentário de: Mariana [Visitante]
26.11.09 @ 16:51Meu pai estava em sampa e assistiu, ficou q nem um doido, eu queria muito ver, mas não rolou. Provas e provas. Tudo bem, espero chegar em Campinas e vejo a prévia aqui e com meu pai...
Comentário de: paulo blanchet [Visitante]
26.11.09 @ 17:13yep!
Comentário de: Puebla [Visitante]
26.11.09 @ 18:23A vida não tá facil, mas era bem pior.
A memória é fundamental pra que não ocorram novamente as barbaridades, humilhações que o ser humano adora inflingir aos menos afortunados.
Comentário de: José Ricardo Lima [Visitante] · http://www.literaturaeshow.com.br; www.leituraeshow.blogspot.com
26.11.09 @ 21:39Excelente texto, como sempre. Quero muito assistir ao documentário. Pena que em Uberlândia, onde moro, não temos essas pré-estreias com debate. Sou professor, um super fã dos seus textos. Não vou nem dizer que te conheci através de “Feliz Ano Velho”, pois isso é chover no molhado. Falando no livro, ele foi escolhido por um grupo de alunos meus para a confecção de um vídeo que incentivasse a leitura. Caso queria assistir, entre no blog www.leituraeshow.blogspot.com. Está logo na primeira página, de tão bom. Mais uma vez, parabéns demais...
Comentário de: Benê [Visitante]
27.11.09 @ 00:29Que o filme sirva de catarse. Porque não acredito que ao se rever a lei de anistia alguém venha a ser punido. Não alguém realmente importante. Não consigo acreditar que algum empresário vá ser preso por algum crime de assassinato ou tortura, ou por colaboração. Eles têm dinheiro, colaboram financeiramente com os políticos, seja de esquerda ou direita. Não é do interesse “político” acabar com os financiadores de suas campanhas e fortunas pessoais.
Já o militares, que vai encarar? Que vai entrar na casa de Generais e levar os velhos em cana?
A Policia Federal? A guarda municipal?Quem?Se eles baterem com o pau na mesa, falando que nenhum deles vai em cana, quem vai dizer o contrário ?
E o pessoal de esquerda que torturou e matou? Sou de esquerda, então tenho direitos divinos sobre a vida e a morte de outros!
Aquele que bateu, torturou, apertou o gatilho, matou, pode se dar mal, ( e deve!!!) mas quem mandou, nunca. Empresários, políticos, e militares importantes, nunca serão julgados.
Gostaria muito, que fossem! Eu sentiria orgulho da justiça do meu país. Mas a verdade ( ou pelo menos a minha) é que isso vai ficar por conta da justiça divina.Dos homens eu espero o apagão!
Abs!
Comentário de: Jessy [Visitante]
27.11.09 @ 07:36Grande Marcelo!!!! vou fugir um pouco do assunto do tópico... acabo de ler seu livro "Feliz Ano Velho" e estou verdadeiramente encantada com sua forma de expressão, me chamou a atenção que fatos que antes narrados em sua livros eram coisas praticamente impossíveis de acontecer hoje acontecem....
Sou sua mais nova fã, não só eu como minha família que acabou por literalmente devorar sua obra!!!
Parabéns!!!!! admiro seu trabalho deveras....
Comentário de: claudia [Visitante]
27.11.09 @ 10:09Marcelo,
Fazia tanto tempo que não lia nada seu... na verdade só me lembro do feliz ano velho na minha adolescência.
Foi bom te reencontrar... adorei o texto...adorei poder saber isso...temos tanto pra aprender! Que bom que tem gente boa pra nos ajudar nisso!
Comentário de: Suelen Gajus [Visitante]
27.11.09 @ 11:41Sobre a fusão Itaú-Unibanco...
Dizem as conversas de corredores, que a fusão só se efetivou depois da morte do Sr. Olavo Setubal, pq ele era terminantemente contra essa fusão.
Agora com o que eu li no seu post, faz bastante sentido...
Até a história faz eu gostar mais do Unibanco que do Itaú...rs
Comentário de: Carolina [Visitante]
27.11.09 @ 19:36Vi o filme na segunda-feira, achei excelente e espero que ele provoque uma maior discussão do tema. Boilesen era, infelizmente, somente um dos muitos empresários que financiaram a OBAN. Havia muitos outros, só que a maioria das pessoas somente fala dele. Saber quem eram e puní-los é essencial para a construção democrática brasileira.
Comentário de: b [Visitante]
27.11.09 @ 21:57cadeia pro assassino Paz tb ou só pro outro lado?
Comentário de: Michelle [Visitante]
28.11.09 @ 10:25Marcelo, tá sabendo? Acho que vai ficar contente. Dá uma lida:
https://secure.jurid.com.br/new/jengine.exe/cpag?p=jornaldetalhejornal&id=73275&id_cliente=58111&c=5
Abração!
Comentário de: Vólia Santos Nielsen [Visitante]
28.11.09 @ 16:52Filha de comunista (meu nome corrobora a afirmativa) e casada com dinamarquês preciso mencionar meu interesse no anormal "Cidadão Boilesen"? Aqui na Dinamarca o assunto é meio tabu e a grande maioria finge desconhecer a história. Aguardo ansiosamente o lançamento em DVD para que eu possa refrescar a memória dos "esquecidos" e/ou apresentar o verme Boilesen a nova geração.
Beijos da leitora fiel,
Comentário de: Lia [Visitante]
29.11.09 @ 15:06E quando falamos mal do Delfim Neto, que o cara é um filha da puta, todo mudo defende.
todo mundo quem?
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Marcelo Rubens Paiva é escritor, dramaturgo e colunista do Caderno 2
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