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09.02.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 12:50:26.

Falei uma besteira aqui dias atrás.

São Paulo está cheia de blocos de carnaval. Só na Vila Madalena, neste fim de semana, saíram 4. Um deles com o sugestivo nome NÃO INTERESSA.

Os ACADÊMICOS DO BAIXO AUGUSTA, fundado há 1 mês, arrastou milhares pessoas pela Bela Cintra e Rua Augusta no domingo.


FOTOS: FRÂNCIO HOLLANDA E EDER CHIODETTO

O clima estava ótimo. Muitos conhecidos, muitos foliões casuais, gente da "comunidade" [adoro esta palavra, que sempre reaparece em carnavais].

E, como diz o refrão do samba, apavoramos, mas não assustamos.

A banda tocava clássicos: só marchinhas. Nada de axé! E eu, de porta-estandarte, portei o estandarte como um profissional, com a responsabilidade de dar o andamento do bloco: parar quando se adiantava, correr quando as pessoas se espremiam.

De olho no céu, na chuva que se anunciava, recebendo ordens da diretoria, do DSV, de aspones e alguns folgados.

A chuva não veio. E, como dizem todos que desfilam, passou tão rápido...

Claro. Me embebedaram rapidinho. Eu tinha de corresponder e agradar a folia e experimentar todas as latinhas e garrafas que me ofereciam. Como um ritual de batismo.

Não, os Avatares não apareceram. Não tinha uma árvore para eles dançarem em torno.

Mas ainda quero ver aquele bloco que só toca rock. Deveria sair na Pompéia, bairro de tradição, cuja "comunidade" ama o gênero. Nada contra as marchinhas, que nos remetem à infância e são cantadas há quase 1 século.

Detalhe. Perdi a chave do carro na Bela Cintra [desconfiei], o que só descobri horas depois.

Fiz o percurso contrário do bloco de olho nas sarjetas e no asfalto. E a encontrei solitária, amassada, ainda na concentração, no meio da rua. Passou um bloco por cima e muitos carros, mas ela ficou ali, me esperando. Provado: era um bloco light, não assustava ninguém.

+++

E diretamente da Salvador, onde paradoxalmente se encontra a maior comunidade contra o axé deste País, ROBÉRIO, baiano, baixista do CAMISA DE VÊNUS, que voltou e tocou na cidade, começa a campanha:

Tô dentro.

 


07.02.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 13:47:21.

Segunda-feira. Ele acordou e, do nada, como se tivesse desistido, decidiu não ter mais opiniões. Sobre nada.

Já no café da manhã, não soube responder se o pão estava passado, e o queijo, coalhado. Comeu apenas uma fatia de mamão. E não decidiu entre adoçante ou açúcar. O café desceu amargo.

Ao trabalho. O taxista perguntou se ele preferia pela Marginal ou por dentro, pela Lapa. “Qual caminho o senhor sugere?”, perguntou, simulando um contato rotineiro. O helicóptero da rádio informara que a Marginal estava parada, avisou o motorista: “Vamos por dentro?”.

Ele não respondeu. Não sabia responder. Não achava nada. O taxista repetiu: ”Pela Lapa?”. Nada. Nenhuma resposta.

O cara deu a partida, engatou a primeira, foi percorrendo devagar, esperando a decisão do passageiro, que não vinha, e ele mesmo, o taxista, decidiu pela Lapa, mas sempre alerta, esperando a ordem de desviar para a Marginal, que não veio.

No elevador do escritório. “Sobe ou desce?”, escutou. Nenhuma resposta. A ascensorista perguntou o andar. Nada. Ele entrou e ficou no canto, parado. “O andar?”, repetiu. Ele gaguejou apenas: ”Não sei...” Ela, surpresa, esperou.

Até outro passageiro entrar e pedir: “Sobe”. E ele foi, subiu. E desceu. Pois não pararam no seu andar. Só quando coincidiu de alguém pedir o seu andar, ele pode sair do elevador.

Ao entrar no escritório, a secretária logo mandou um: “Bom-dia.” Ele olhou e: “É? Não sei. Pode ser. É, pode ser. Você acha?”

Nem sentou em sua mesa, o telefone tocou. Um instituto de pesquisa. Queriam saber em quem ele votaria.

“Não sei”, respondeu.
“Ah... O senhor não se decidiu entre o governo e a oposição?”
“Não sei.”
“Vai votar em branco?”
“Acho que não.”
“Nulo?”
”Claro que não! Nunca votei nulo!”
“Muito bem, então, o senhor é um indeciso, deixa eu marcar, in-de-ci-so.”
“Veja bem, não sou um indeciso, não sou nada, eu não acho nada.”
“Mas quem não acha nada é indeciso.”
“Não. Indeciso é um cara hesitante.”
“Hesitante?”
“É quem ainda tem dúvidas, não escolheu. Eu não vou escolher, nunca mais, porque não tenho mais opiniões, não acho nada.”
“Não? Por quê?”
“Porque não consigo.”
“Coitado...”

Foi almoçar. Mas pela escada. Evidentemente, não conseguiu escolher a promoção do quilo. O fato de não ter mais opiniões dificultava o de tomar decisões.

Ficou minutos diante do balcão. Até colocar todas na bandeja, da promoção 1 àquela mexicana apimentada. Como não sabia por qual começar, comeu só batatas fritas.

Na volta, a secretária panicou. O telefone não parara. A notícia vazou: descobriram que ele era um homem que não achava nada.

Deu a primeira entrevista. Para uma rádio: “Como se sente não tendo opiniões? O acha de não achar nada?”.

A secretária apontava para fotógrafos que escalavam o prédio em frente para flagrá-lo sem opiniões. O porteiro avisou que equipes de TVs. queriam subir.

Naquele dia, não se falou de outra coisa. E ele foi a chamada de muitos telejornais: ”Daqui a instantes, um homem afirma não ter opinião sobre nada.”

Sua semana foi tumultuada. Revistas de famosos queriam fotografá-lo com o look de quem não tem opinião. Apareceram muitos convites para palestras em departamentos de marketing de grandes empresas. “Mas o que vou dizer, se não tenho nada a dizer, não acho nada?”. Era isso que queriam, apontar que havia falhas no sistema, havia um indivíduo que não era absorvido pela propaganda.

Entidades o criticavam. Um alienado. Foi acusado de mau exemplo à juventude e um estorvo na sociedade de consumo. Mas algumas ONGs ligadas ao movimento antiglobalização passaram a apoiá-lo.

Organizaram uma passeata diante do seu escritório. “Pelo direito de não achar nada”, gritavam, auxiliados por membros do movimento contra a intolerância sexual, anarquistas, punks, chavistas, movimento em defesa do Teatro Oficina, da Mata Atlântica e dois bebuns.

Diante de sua janela, ele apareceu. Aplaudiram. Pediram para se pronunciar. Pararam para escutar. Ele gritou:

“Melhor vocês apertarem o passo! Acho que vai chover!”

 


05.02.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 12:35:53.

Já falei diversas vezes aqui das garotas do Colégio Andrews, do Rio, onde estudei dos 6 aos 12 anos.

E me pergunto sempre o que havia de mágico nelas, além de ciceronearem com carinho um paulistinha recém-chegado, tímido, sotaque italianado, e ainda sem uma identidade carioca.

Um, não, dois. Edu também chegara de São Paulo. 1 ano antes.

Pois elas nos adotaram, já que éramos vítimas da ira bairrista dos veteranos. Mostraram a lanchonete, os rituais, a usar o uniforme, a se esconder na hora do hino.

Roberta [primeira da esquerda] e Isabel [primeira da direita] dividiam mesas conosco, trabalhos, ajudavam nas aulas de música e nos defendiam dos pequenos vândalos.

O que fascina nesse tempo de escola é que as garotas são tão ou mais fortes que os garotos. É um mundo temporário de igual para igual, com pequenas amazonas.

Submissão feminina? Espere a gordinha aparecer no recreio e dar bofetadas em todos.

Na infância, vivemos uma utopia em que os gêneros se unem. Há correlação de forças. Um grupo não domina o outro na porrada. Garotos e garotas são uma coisa só. E tem garota que joga mais bola que muito marmanjo.

Até o sexo aparecer e estragar todo o equilíbrio. Sei lá, aos 12, 13, 14 anos? Então, Isabéis e Robertas se fecham e se apaixonam pelo garoto mais velho, mais esportista, mais rico, e os babacas paulistinhas se deprimem.

Ou se trancam e passam dias olhando o poster do pequeno astro, escutando músicas de pequenos astros, escrevendo no diário “eu amo rick martin” centenas de vezes.

Sexo é uma merda.

Paradoxalmente, afastam as pessoas, isolam as garotas, aterrorizam os garotos. Elas se trancam nos quartos. Nós, nos banheiros.

Tudo passa a ter sub texto. Interesse entra no vocabulário. Nossas amigas agora andam com os caras mais fortes, ameaçadores. Nem dá pra chegar perto.

Jogo, charme, vaidade, ego, insegurança, complexos surgem no universo das antes puras criaturas que só queriam dividir uma mesa com a garota bacana, fumar um cigarro escondido no recreio, fugir e rir da gordinha irada.

Então me mudei pra Santos e nem te conto.

Ah, as santistas... Já te falaram delas?


NÃO SOU O DA FLECHA

 


02.02.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 23:23:39.

Eu ia dizer “caros milicos”. Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?


CABELO PARA TRÁS, SOLDADO!

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do cinema novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?
Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha cinco anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.

Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?

Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.

Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de cinco anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia...


MEU PAI CERCADO POR 3 FILHAS E PELA MÃE, AVÓ CECY, NA EMBAIXADA


NA EMBAIXADA. FESTÃO DE 5 ANOS. COM OS FILHOS DE OUTROS EXILADOS, PREPARADO PARA COMBATER A DITADURA [AO MEU LADO, GLAUCIA, FILHA DE ALMINO AFONSO]

Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de “gorilas”. Ri muito quando a recebi.

Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.

Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.
Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores- ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.

A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.


EU E EDU GASPARIAN, QUE FOI PRO EXÍLIO E DEIXOU TODAS AS GAROTAS DO COLÉGIO ANDREWS - RJ PRA MIM. QUE NÃO ME DAVAM A MENOR BOLA. DEVE SER A GOLA. OU A FRANJA

Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram.

Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.
Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.

Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa [a de que ele tinha fugido] e não se falou mais no assunto.

Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do Segundo Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.

Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para “desaparecido”. Deixei em branco.

Levei uma dura do oficial. Não resisti: “Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo.” Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, “dispensado”, e saí de lá com a alma lavada.

Então, só em 1996, depois de um decreto lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.

Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o Brigadeiro Burnier lhe disse: “Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças.”

Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

 


01.02.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 12:16:53.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, deu um parecer contrário à revisão da Lei da Anistia [de 1979], e o encaminhou ao Supremo, que analisa ação da OAB que contesta o seu primeiro artigo- que considera como conexos e igualmente perdoados os crimes "de qualquer natureza".

Ele defende a abertura e o livre acesso dos arquivos da ditadura. Mas avalia que a lei foi votada depois de um debate nacional promovido por setores da sociedade civil. A revisão seria "romper com o compromisso feito naquele contexto".

"A sociedade civil brasileira, para além de uma singela participação neste processo, articulou-se e marcou na história do País uma luta pela democracia e pela transição pacífica e harmônica, capaz de evitar maiores conflitos", escreveu Gurgel.

"Com perfeita consciência do contexto histórico e de suas implicações, com espírito conciliatório e agindo em defesa aberta da anistia ampla, geral e irrestrita, é que a Ordem saiu às ruas, mobilizou forças políticas e sociais e pressionou o Congresso Nacional a aprovar a lei da anistia", afirmou.

Ou o procurador-geral desconhece a história ou, que pena, agiu influenciado por princípios ideológicos. Acontece.

A Lei da Anistia foi aprovada durante a ditadura. Não houve um debate democrático.

Primeiro, porque parte considerável da liderança política estava no exílio [e voltou justamente depois da anistia].

O Congresso vivia estrangulado por um sistema bipartidário criado pela ditadura. Nas campanhas, ARENA versus MDB, mostravam-se apenas os rostos dos candidatos, não suas ideias, planos.

Senadores biônicos compunham parte da bancada. Partidos tradicionais foram cassados. Parte da imprensa ainda vivia sob a pressão e o trauma da censura. Os sindicatos não eram livres. As organizações estudantis, como a UNE, estavam sendo refundadas naquele ano.

Não se debatiam tais ideias, pois a Tropa de Choque caía matando nas ruas e praças, dispersando passeatas com bombas e cassetetes, e nas universidades, como na invasão da PUC.

Não, procurador, a lei não é democrática.

Os ministros da STF terão que decidir se cabe punição para quem praticou tortura durante o regime militar, e se a mesma seria um crime imprescritível.

O jornalista e deputado estadual, João Melão Neto [que foi ministro do Collor e secretário do Maluf], também se declara contra a revisão, no artigo A REVANCHE, publicado na página A2 do ESTADÃO de sábado.

Ele relembra a sua participação no movimento estudantil do final dos anos 70, que defendia a Anistia, e afirma que “não existia nenhuma corrente de pensamento, ao menos nos meios acadêmicos, que tivesse como bandeira a redemocratização”.

“Todos sabiam que o grupo x respondia ao MR-8, que o grupo y tinha laços com o PC do B”.

Mais ou menos. Sim, o grupo Caminhando tinha laços com o PC do B. O MR-8 não tinha laços com ninguém.

Os maiores grupos [e dominantes], Refazendo e Libelu, não tinham laços com as organizações que participaram da luta armada.

Ao contrário, eram contra a “geração meia oito”, como chamavam, propunham um debate democrático e saíam às ruas carregando as faixas PELAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS e ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA.

Na verdade, como em qualquer movimento democrático, tinha de tudo, anarquistas, trostskistas, comunistas, socialistas, direitistas, até pousadistas, corrente que defendia que deveríamos nos preparar para o contato com ETs.

Era um movimento dividido, múlti ideológico, mas que se unia fortemente sob a única bandeira: exatamente a da redemocratização. E as decisões eram tomadas em assembleias, congressos e pelo voto.

Alguns sugeriam que gritássemos ABAIXO A DITADURA. Os mais moderados preferiam PELAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS, para não assustar setores que se engajavam aos poucos.

No final das contas, depois de anos de luta, virou ABAIXO A DITADURA.

Tais grupos, chamados de “tendências”, surgiram no vácuo político, renegavam a opção armada e alguns até faziam campanha para candidatos do antigo MDB. Líderes estudantis, como Geraldo Siqueira e Marcelo Barbieri, foram eleitos pelo MDB.

A inspiração não era Lenin, apesar da repressão afirmar que sim, mas os tropicalistas, Gandhi, flower power, Woodstock e, sim, a democracia acima de tudo.

Mais informações: http://reconstrucaodaune.blogspot.com/

Mellão concluiu: “Deixemos que os mortos, de ambos os lados, descansem em paz”.

Se conseguíssemos...

Mas como? Que mortos? Onde eles estão? Eles até podem descansar, nas valas anônimas, esquartejados, mas a consciência descansa?

A História é revista todos os dias. A História não descansa.

A História tem insônia.


 


31.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 14:46:02.

Carnaval nunca foi o forte de São Paulo. Era focado em bailes nos clubes, e naquele desfile que imita o do Rio.

Porque paulistano viaja no Carnaval, tem grana, carro, estradas e bons médicos de rim.

Sumiram os blocos de São Paulo? Cadê o REDONDO, do velho PLINIO MARCOS?

Os amigos boêmios resolveram fundar um bloco de Carnaval, os ACADÊMICOS DO BAIXO AUGUSTA. Sob o comando de LU-BARBEIRO-CALCOLARI, ALE YOUSSEF, BETO LAGO, FRÂNCIO HOLLANDA e mais alguns maus elementos.

Olha o samba aí [do PLINIO PROFETA]:

https://www.yousendit.com/transfer.php?action=download&ufid=MVNkUXVoZEtveE5MWEE9PQ

Sai no domingo dia 07/02, na Bela Cintra, e desce até a Augusta, que se acende como o melhor da noite paulistanas [please, não espalhe].

Sai no domingo anterior, porque somos playboys e viajamos na festa. Garanto que a maioria do bloco estará em Trancoso ou Olinda durante o Carnaval.

Então, numa reunião, ZECARRATU, amigo há 25 anos, sugeriu que eu fosse o porta-estandarte.

Imaginaram que eu jamais aceitaria. ZE me conhece. Já enlouquecemos por aí nos anos 80, 90. Me ligou, e topei na hora, para a surpresa dos organizadores. Lógico.

Quando o ZE me contou que ninguém acreditava, rimos juntos.

Só não sei o que faz um porta-estandarte. Porta um estandarte e o que mais?

Ontem, passei o dia com MARCÃO, um serralheiro, preparando um suporte para o estandarte de mais de 2 metros, que será instalado na minha cadeira de rodas. E hoje tem ensaio no STUDIO SP.

Me sentirei a LUMA DE OLIVEIRA da Pompéia? Escalo a fama. Será que rola um ensaio pra TRIP, e o próximo BBB me convida?

Preciso agora correr atrás de um empresário, um coach, um coreógrafo e um personal styler.

Uma nova perspectiva profissional se abre pra mim. É bom, escrever dá trabalho...

+++

Duvida que eu seja playba?

Meu programa de ontem, sábado à noite, foi jantar no FASANO. Meu brotherzinho MARCELO SERRADO estava hospedado lá. Coisa de galã.

Ganhamos a companhia da ALESSANDRA NEGRINI, de volta a São Paulo, para falarmos de projetos [nosso filme NO RETROVISOR], peças inéditas.

Estava lá o amigo MANOEL BEATO, sommelier da casa, novo homem da mídia [tem um excelente programa na RÁDIO ELDORADO]. Que nos embebedou com os mais incríveis vinhos e não cobrou.

A banda METALLICA estava hospedada lá. Fãs se espalhavam pelos corredores e calçada.

SERRADO foi para o piano do bar e começou a tocar TOM JOBIM. O restaurante parou. Garçons, seguranças, até algumas groopies heavy metal se instalaram ao redor e cantaram bossa nova.

Integrantes da banda vieram se juntar. Ouviam surpresos aquela maravilha. METALLICA who?! Viva TOM JOBIM! Eterno, universal...

 


29.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 17:25:50.

Estes caras são da banda INSTITUTO, que tocam de tudo [ontem foi funk no STUDIO SP].

Esses caras aí tocaram PINK FLOYD agora no meio do mês no SESC POMPÉIA.

Fotos minhas do gargarejo. Não reclame. São artísticas.

Foi o show imperdível, para começar o ano! Lotado.

Sem arranjos modernos ou abrasileirados. Usaram até os timbres originais. E praticamente só o lado b da banda que entrou na minha adolescência [e na de muitos da minha geração] como uma droga pesada!

Entraram no palco, disseram "nós somos o Instituto, mas queríamos ser o Pink Floyd". E, lógico, atacaram de SUMMER 68 [que, ninguém se lembra, é o tema original da abertura do Jornal Nacional; o de hoje é estilizado].

E mostrou de onde saiu RADIOHEAD, COLDPLAY, MUSE, BLUR, para aonde caminhou o rock, a origem, junto com os Beatles, de tudo que se escuta hoje em dia.

Eles precisam repetir a dose. Me ajude a convencê-los.

 


28.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 17:16:50.

Chora, Caufield. Não saberemos para aonde vão os patos do Central Park no inverno.

Chora, Fernandinha, quem me apresentou toda a obra dele, livros que lemos juntos no começo dos ano 80, e que me inspirou a escrever.

Chora, Paulo Francis, quem afirmava a todos os pulmões, que Peixe Banana era o maior conto norte-americano já escrito, enigmático, profundo, delicado.

Chorem Franny e Zooey, na estação de trem, em desespero!

Morreu o maior autor de todos! Sempre relegado a secundário, por ser um best seller [vendeu mais de 60 milhões de cópias].

Morreu a maior influência literária de todos os autores do pós-guerra.

Recluso, estranho, indefinível, 4 livros apenas!

Títulos esquisitos, que nunca entendemos.

Sem escrever há 40 anos.

Jerome David Salinger.

JD.

Veterano da Segunda Guerra Mundial, invadiu a Normandia.

E nunca superou a morte do irmão, Seymour.

Pra cima com a viga moçada!

Eu choro.

 


por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 11:40:34.

Apesar de um bom patriota, cumpridor dos meus deveres, alistamento militar em ordem, nome limpo [por enquanto], em dia com a Receita e o TSE, poucos pontos na carteira e orgulho de ser brasileiro, costumo decepcionar meus amigos gringos, quando os levo para jantar.

Peço vinho, uísque ou caipirinha de vodka, nunca de pinga, bebida que me enlouqueceu nos tempos de faculdade e me fazia falar sem parar, dar shows desagradáveis e foras, passar mal em muitos banheiros e perder o melhor da festa.

Cheguei até a ganhar um apelido: Marcelo Rubens Mala.

Sou chegado numa capirinha russa. Dizem que não engorda [sem açúcar]. E nunca acerto o termo. Caipirosca? Em alguns lugares, funciona.

Porém achei um lugar no Rio, ao lado do meu escritório local [a Academia da Cachaça, fora do roteiro turístico, cuja a empadinha ganhou o prêmio de melhor petisco da cidade, que meus amigos já chamam de Academia da Cara%$#, pois só marco reuniões lá], que definiu bem: caipivodka.

Foto depois de beber umas com meu parceiro há mais de 25 anos, que mudou a minha vida e me levou para o teatro [produziu 4 peças minhas].

+++

Falando nisso, minha produtorazinha paulista, Anna Junqueira, se casou com meu ator, Alex Gruli. O namoro engatou firme quando começamos a produzir a peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO.

Na cerimônia, colocaram um painel com textos de peças, de Tennessee Williams a Jorge Andrade.

Não é que bem no meio encontro uma frase minha? Faz bem se sentir um clássico eventualmente... Especialmente num casamento.

+++

Me mandaram essa. Sapatos feminino ideais para os dias de hoje.

ps> se alguém souber de quem é a foto, me avisa, para eu colocar crédito. chegou por email.

 


26.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 22:30:28.

Os cariocas têm um humor peculiar.

São especialistas em dar apelidos, nomes inusitados e engraçados, gozar de tragédias, rir da vida.

Eu nunca tinha entrado neste tradicional restaurante do Leblon, DEGRAU, por razões óbvias, que afastam um cadeirante. No entanto, anos depois, descobri: não existe um degrau dentro dele. Virei freguês, apesar do nome pouco convidativo.

Pois neste ano, eles abriram um anexo simpático. O nome não poderia ser outro:

 


22.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 00:55:36.

O ex-coronel Erasmo Dias, que morreu há duas semanas, não teve velório de um herói, nem foi homenageado por populares. Apenas alguns membros da família, que reclamaram da falta de reconhecimento.

Se ele dizia que cumpria ordens, quem as comandou não apareceu.
Anticomunista convicto, desempenhou o papel de salvar os valores da família e propriedade, que seriam “tolhidos” por aqueles terroristas jovens cabeludos e maconheiros, manipulados pela Internacional Comunista.

Era a sinopse da sua vida. Ajudou a implantar uma ditadura sanguinária que se mantinha não pelo debate, mas pelo terror, e declarava que era contra a tortura.

Em 1968, descarregou o revólver ao redor do ex-líder estudantil e amigo Luiz Travassos, preso no congresso clandestino da UNE em Ibiúna. Em 1969, no Vale do Ribeira, jogava numa cova os guerrilheiros da VPR presos e descarregava a automática ao redor.

Perguntei-o uma vez se isso não era tortura. Teimoso, dizia que não.

O coronel tinha um mérito; se “mérito” é a palavra apropriada. Era dos poucos do regime que defendiam seus métodos e a forma equivocada e desproporcional da luta, como invadir uma universidade católica, a PUC, já durante a Abertura.

Tirou estudantes e professores das salas para colocá-los sentados no estacionamento em frente e reprimir a reunião que ocorria no TUCA, para a reconstrução da UNE. Gritava no estacionamento: “Onde está a Veroca! Eu quero a Veroca!”


VEROCA NO CONGRESSO DA UNE [SALVADOR, 1979]

Veroca é minha irmã mais velha. Líder estudantil, era a alma do movimento que retomou a luta pelas liberdades democráticas e anistia no final dos anos 70- que representou a estaca que romperia com as artérias do regime miliar e o afastamento definitivo de parte da sociedade civil que o apoiava e financiava.

Num encontro clandestino de estudantes também reprimido, Erasmo encontrou na triagem minhas irmãs e estudantes da USP, Eliana e Nalu, e as levou.

Aqui o relato da Nalu, que hoje mora em Paris, na troca de e-mails familiar em que anunciei a morte do ex-coronel.

“Nesse dia ele prendeu mais de cem estudantes que estavam na Paulista de Medicina. Liberou, depois de ter fichado todo mundo. Menos dois: Eliana e eu.”

“Fomos interrogadas com revólver na cabeça em salas separadas, e diziam: ‘Onde está sua irmã Veroca? A Eliana já falou tudo e foi liberada, e se você não falar, vai acabar como o seu pai.’ Era mentira, pois Eliana não tinha falado nada, mas fiquei apavorada, eu sabia onde ela estava e não falei.”

“Fomos liberadas graças à intervenção do governador Paulo Egídio. Nunca vou esquecer da cara lívida da mamãe, que veio nos buscar.”

Anos depois, o ex-coronel se beneficiou da democracia pela qual lutávamos e se elegeu deputado.

Entrevistei várias vezes como repórter. Foi minha fonte em matérias em que eu investigava, com Cláudio Tognolli, a presença da CIA no Brasil durante a ditadura.

Me abriu os arquivos e deu horas de depoimento para o meu livro Não És Tu, Brasil (1996), sobre a Guerrilha do Vale do Ribeira; ele comandou a fracassada repressão.

Eu via nele um combatente confuso, como um histérico diante dos seus erros. Suas convicções eram facilmente derrubadas. Ele sabia que participara de uma missão insana. Como profissional, eu respeitava o repertório da minha fonte. Como democrata, desprezava.

Em 1999, Serginho Groisman teve a ideia genial de juntar Veroca e o ex-coronel num programa de TV. E sempre me lembra que foi um dos mais marcantes que fez.

Veroca perguntou ao vivo: “Como o senhor se sentiu depois de ter sido eleito, usufruindo de nossas conquistas democráticas? Porque nos massacrou por isso, entrou na PUC jogando bombas em mulheres grávidas, com cavalos em sala de aula, gritando o meu nome enlouquecido.”

“Tinham meninas que estavam com meias de seda e nem participavam da manifestação. Viraram tochas humanas, nunca mais puderam andar de saia ou maiô, meses de hospital para curar as queimaduras.”

Ela lembra: “No estacionamento estavam alunos e professores aterrorizados pela violência. Meus colegas que me encontraram no dia seguinte explodiram em choro de alívio, achavam que eu estava morta.”

Sob vaias da plateia, Erasmo respondeu: “Eu era autoridade! Tinha que fazer valer o princípio de autoridade, não importa se eram meninas comunistas ou baratas, o que fosse, tinha que reprimir.”

“Eu disse depois que achava que ele era gente, por isso tinha defendido o direito a liberdade democrática. Inclusive a dele, de ter suas posições políticas defendidas num parlamento”,

Veroca conclui. “Morreu achando que gente que pensa diferente é barata. Perdeu completamente a compostura quando fiz a pergunta. Minha impressão é que ele estava querendo passar para a história de outra maneira. Tinha levado um recorte de jornal que falava de Rubens Paiva. Não chegou a mostrar, eu vi na mão dele.”

Erasmo Dias era assumido. No Brasil, a direita costuma pensar de um jeito, mas dedetiza o discurso. Na Europa, a direita é declaradamente racista. É bom, porque o eleitor lá sabe quem é quem. Já aqui..

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Na edição de Réveillon de telejornal da Band, depois de mostrar imagens de lixeiros desejando felicidades, Boris Casoy, sem saber que o áudio estava aberto, mandou: "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho."

O vídeo caiu na internet. Simboliza o discurso reprimido de parte da sociedade brasileira, que cria elevadores de serviço e social em condomínios, mas avisa que é ilegal discriminar.
A mesma que se deslumbra pelo Réveillon dos VIPS de Trancoso ou coberturas de Copacabana e ignora os milhões de cidadãos nas areias e avenidas.

No País em que garçom não come a mesma comida que o cliente, nem na mesma mesa, Boris disse num lapso (e se desculpou apenas depois da repercussão) o que está no inconsciente da nossa formação.

País do futuro com esse passado e presente? Se liga!

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Saiu a lista de livros da Fuvest. Nem GUIMARÃES, nenhum MODERNISTA. Literatura estrangeira então... Quem é a anta que decide isso?

•Auto da barca do inferno - Gil Vicente;

•Memórias de um sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida;

•Iracema - José de Alencar;

•Dom Casmurro - Machado de Assis;

•O Cortiço - Aluísio Azevedo;

•A cidade e as serras - Eça de Queirós;

•Vidas secas - Graciliano Ramos;

•Capitães da areia - Jorge Amado;

•Antologia poética (com base na 2ª ed. aumentada) - Vinícius de Moraes.

 


19.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 13:25:12.

É a foto mais enigmática que tirei na vida. O que significa?


PARIS [2010]

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A Fuvest anuncia que vai unificar a lista de livros para os vestibulares da USP e da Unicamp para os próximos 3 anos.

Será o eixo do ensino de literatura das escolas paulistas e influenciará todos os Estados. Espero que, enfim, cedam espaço para a literatura não escrita em Português.

Costumam dividir autores em estilos literários- romantismo, realismo, simbolismo, modernismo-, uma xaropada que afasta leitores e comete injustiças [Lima Barreto vive neste limbo teórico].

Literatura é muito mais do que tal reducionismo.

Deixo aqui a minha lista. Terão 3 anos para ler, reler e debater.

1. Odisséia, de Homero [o big bang do pensamento ocidental]

2. Dom Quixote, de Cervantes [o começo do romance]

3. Hamlet, de Shakespeare [no comments]

4. Crime e Castigo, de Dostoievski [o personagem dialético]

5. Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis [precisa dizer?]

6. O Triste Fim de Pilocarpo Quaresma, de Lima Barreto

7. O Processo, de Kafka

8. Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway [o diálogo na literatura]

9. Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa [nada a temer, é um livro lindo]

10. Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade [reinventou tudo]

11. Vidas Secas, de Graciliano Ramos

12. Capitães de Areia, de Jorge Amado

13. Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia

14. O Apanhador no Campo de Centeio, de J D Sallinger [pro universo teen]

15. O Complexo de Portnoy, de Philip Roth

16. Pé na Estrada, de Kerouac [o começo da contracultura, que mudou o mundo]

17. Orlando, de Virgina Woolf

Eu sei, faltaram Camus, Proust [chatinho que dói, mas...], Joyce [os contos], Flaubert, Thomas Mann, Tosltoi, Mário de Andrade, Conrad, Nelson Rodrigues e especialmente poesia. Fazer o quê? Lista é assim, não cabem todos.

 


17.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 16:43:19.

Há exatamente 1 ano eu começava este blog.

O primeiro post foi uma homenagem aos meus amigos. Sem eles, não sou o que sou, não escrevo o que escrevo, nada faria sentido.

Viver em muitas cidades, estudar em muitas escolas e faculdades, me forçou a aprender a fazer amigos [e a gostar do exercício].

Afinal, o moleque paulista chegando no Rio com 6 anos, depois em Santos com 12, depois voltando pra São Paulo com 15, depois Campinas com 17, depois São Paulo de novo com 20, e até uma parada pela Califórnia com 35, precisava se adaptar rapidamente.

Pois agora decido homenagear as AMIGAS.

Que curam minhas dores, ressacas, doenças, crises, dúvidas, feridas, queimaduras, com quem falo frequentemente, aprendo, rio, choro, vivo.

São a matéria-prima da minha obra cheia de personagens femininos. E o perfume da minha vida.

Caras me veem com mulheres e acham que sou mulherengo. E nunca acreditam quando digo que são minhas amigas. E são. Por quê, não podemos ter amigas? Não podemos falar merda, rir, passar uma noite com uma mulher sem ter sexo envolvido? Em que século você vive?

Não, não entendo nada de mulheres. Mas me esforço, convivendo com elas, as minhas lindas AMIGAS:


MARIANA MELGAÇO, QUE ENTENDE TUDO DE RELAÇÕES


CACA, LU E RENATA, NA BEBEDEIRA


LÍGIA FAGUNDES, QUE ME CONHECE DESDE MOLEQUE


ATRIZES, ATRIZES, ATRIZES...


CLAUDIA PRANDINI, DIRETAMENTE DE LONDRES


LUCIANA VENDRAMINI, AMIGA HÁ... DESDE QUANDO ELA TINHA 16


MARINA MORAES, COMO COZINHA!


DÉBORA, A MAIS CORINTIANA DAS CORINTIANAS, COM XICO SÁ, OUTRO AMIGÓLAGO DELAS


ALEJANDRA, A NOSSA GARÇONETE ETERNA! BAITA ATRIZ


CATARINA, AFILHADA VALE?


ROSA, AMIGA DE INFÂNCIA [SEU PAI SALVOU A VIDA DAS MINHA IRMÃS NA DITADURA]


PARCERINHA BARBARA PAZ E PATRICIA COELHO


LILIAN PACCE, QUE NESSA FOTO DE UM SITE VIROU MINHA MULHER, SEGUNDO A LEGENDA - ENQUANTO CORTARAM O MARIDÃO DELA, MEU AMIGO DE INFÂNCIA LEÃO SERVA, QUE ESTAVA AO LADO


PRISCILA BORGONOVE, SEMPRE ME CONVIDADO PRAS BALADAS FORTES [COM O FILHÃO]


MARIETA, ANA CIÇA E LARA ME PAPARICANDO - QUEM DISPENSA UM PAPARICO?


RACHELZINHA, A EX QUE VIROU SUPER AMIGA E CONSELHEIRA E BALADEIRA


NANA DE RECIFE, QUE CUIDOU DE MIM NA UTI [PERSONAGEM DE FELIZ ANO VELHO], A PRINCESA DA PRAIA DOS CARNEIROS


A TURMA ANIMADA [CERCADO PELAS IRMÃS RODINI, MORTS E PODRES], TADEU, UMA "AMIGA" PRA LÁ DE DIVERTIDA, E FABI [DE CAMISETA REGATA BRANCA], QUEM DEU O TÍTULO MAIS BONITO DE TODOS OS MEUS LIVROS: "A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI"


MARIA MANOELLA, AMIGA QUE MEXE COM O CORAÇÃO DA SOBRINHADA. E ESTÁ MARAVILHOSA NO FILME "MALU DE BICICLETA"


ROSANA, EX QUE VIROU MINHA MASSAGISTA


VERO E FRANCIO. DE QUEM SOU PADRINHO DE CASAMENTO. MEUS INSEPARÁVEIS. E CLAUDIA NO MEIO


JERUSINHA...


PAULA E HELENA, NO COMMENTS. MUSAS

E se faltou alguma [e faltou], espere eu comprar um scanner novo. Essas são as fotos que eu tinha. Beijão pra todas vocês.

Obrigado por fazerem parte da minha vida. Espero nunca decepcioná-las. Não sumam.

 


14.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 20:21:47.

Muita gente acha que a vida de escritor é cheia de glamour e prazer.

Mas na maioria das vezes estamos sós. Procurando entender por que somos assim, por que tem famílias desunidas, teimosia, ódio, solidão, incompreensão, mal-entendidos, guerras e um olho amigo [o leitor].

Ou gente que desperdiça histórias de amor, construídas tijolo por tijolo com muita paciência, justamente quando poderia viver o seu auge. Daquelas histórias que não se encontram em qualquer esquina.

Material farto para um escritor. Pode até dar em comédia. Problema é um se arrepender. Aí vira drama mexicano. Ou, pior, filme de terror.

 

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13.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 12:34:37.

Depois da reforma da PAULISTA, em que mudaram o piso da calçada, pensando nos cadeirantes, o MAC perto da AUGUSTA, que antes era acessível, e em que me empanturrava, ficou com este degrau.

Então, passeando por lá num raro dia de sol, reparei que encontraram uma solução simpática: uma rampa dobrável, discreta, no canto esquerdo.

Pensei em comer um Mac'Fish, tentei desdobrar a rampa. Mas ela estava trancada.

Chamei o segurança. Ele me pediu para esperar e disse que ia chamar o responsável que tinha a chave.

É o famoso TIOZINHO DA CHAVE, o terror dos cadeirantes brasileiros.

Ele existe em todos os cantos, uma praga.

Se o cara está apertado, corre para o banheiro reservado a deficientes em postos de estrada, teatros, lojas, cinemas, e o encontra trancado, tem que ir atrás do misterioso TIOZINHO DA CHAVE.

Em rampas, plataformas e elevadores que sobem ou descem uma cadeira de rodas, sempre há uma chave a ser encontrada no bolso de algum TIOZINHO DA CHAVE.

No metrô e shoppings, para ir e vir, diferentemente o cidadão comum, o cadeirante aprende a esperar.

Horas do dia estamos o aguardando. "QAP, uma prioridade precisa da chave" [é assim que nos chamam, "prioridade", o que me deixa orgulhoso].

Ele aparece às vezes rapidamente. Outras, o TIOZINHO DA CHAVE tem seus afazeres e demora. E a prioridade deixa de ser uma.

Odeio todos os TIOZINHOS DA CHAVE deste País! E sempre pergunto por que trancam banheiros e plataformas. "Porque se não outras pessoas podem usar."

Isso quando não guardam seus baldes, rodos, vassouras e apetrechos no espaçoso banheiro pra deficiente.

Os TIOZINHOS DA CHAVE são aquelas pequenas autoridades que querem nos manter sob o seu poder e dominar nossas necessidades fisiológicas e de ir e vir. São uns sádicos!

Já uma loja de PARIS oferece uma solução mais prática [e leve]. Il n'a pas d'oncle de la clé.

 


12.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 00:50:10.

Paris estava assim [foto do CAETANO VILLELA, que também estava lá].

Mas quem tem uma irmã dessa, se sente aquecido.

Aliás, nesta praça, morou o meu pai e seus 3 irmãos, no final dos anos 40. Minha irmã contou. Dos 4, 2 viraram de esquerda [exatamente os 2 à direita]. Tinham tudo para ser os playboys de SANTOS.


CLÁUDIO, JAYME, RUBENS E CARLOS PAIVA

Mas só no Brasil se vê essa cena: sábado quente, meio-dia, som na caixa do carrão, forró na pista, em frente a uma insuspeita estação de metrô.

E só consigo trabalhar assim. Apesar do carioca ser ele [MAURO MENDONÇA FILHO]. Enfurnados, finalizamos o último tratamento de NO RETROVISOR. Depois de anos. Peça que vira filme. Logo, logo. Agora vai...

 


09.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 22:33:27.

Não sei o que acontece comigo.

No ano passado, fui rato de museu.

MUSEU PICASSO, DALI e FUNDAÇÃO MIRÓ [Barcelona]
SOFIA e PRADO [Madrid]
MOMA, DISCOVERY, HISTÓRIA NATURAL E METROPOLITAN [Nova York]
VERSAILLES, DE ORSEY, POMPIDOU e LOUVRE [Paris]

Além dos nossos MASP, MAM, MAC e Pinacoteca.

Coisa de babaca ficar listando os museus que frequentou.

Mas o que é estranho: nessas viagens, não fui a nenhuma BALADA. Idade? Que nada. Pagar caro pra ficar num ambiente escuro, apertado, esfumaçado, com músicas que escuto aqui, pessoas que dançam como as daqui e luzinhas piscando?

Aliás, sabe qual é a moda em Paris? Forro. Já são 3 casas com bandas ao vivo. E dançam como se fosse salsa.

Museu é como um clássico [parodiando Italo Calvino], deve ser visitado e revisitado durante toda a vida. A experiência adquirida nos faz reler obras que já conhecemos.

Cony ia a Pompéia todos os anos. Era um ritual. Vou ao de História Natural sempre que posso. Lembra J D Sallinger [O Apanhador no Campo de Centeio, outro clássico que sempre visito].

Mas me incomodou a recente visita ao LOUVRE. A quantidade de gente é insana. A ex-residência de LUIZ 13 é o museus mais famoso e mais visitado do mundo.

Sua estatura é simbólica. Um dos primeiros atos da Revolução Francesa foi transformar o palácio em museu e vender os móveis de Versailles, cuja construção trouxe a bancarrota do país e, ironicamente, colaborou com os princípios revolucionários- e o rei contruira para fugir do povo.

É o que um dia conseguiremos fazer com BRASÍLIA.

Então, de repente, uma tentação: fazer babaquices. E levar o cunhado e o sobrinho juntos.


PARIS, 2010

E de repente, olhando arquivos, descobri que esta cara de doidão do Van Gogh tento há tempos imitar. Sem resultado. Muito canastrão.


AMSTERDAM, 1989

Acho que sou um babaca na vida.

+++

Uma notícia que passou desapercebida.

Morreu jovem ainda a linda cantora e compositora Lhasa de Sela, americana que se criou no México.

Sua música, DE CARA A LA PARED, era a base da trilha e a alma da minha peça, A NOITE MAIS FRIA DO ANO.

http://www.youtube.com/watch?v=AOLg_XY2cWA

Que triste...

Como Chico Science e Jeff Buckley, era daquelas musas que não deveriam morrer e nos deixar uma obra incompleta.

 


06.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 15:24:04.

Pior que a bagaça é boa...
Essa pode, Marião?

O Hugo é muito jovem pra essas coisas.

 


05.01.10

por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 21:17:42.

Slogan preciso.

Não é scotch
Não é bourbon
É Jack

Essa vai pro amigo baixista ROBÉRIO, que se exilou em Salvador, com a sua tatuagem JD no braço e o cachorro mais famoso, boêmio e elegante da Praça Roosevelt, o Jack Daniels, que, aliás, adora a bebida.

ROBÉRIO anuncia a volta da sua banda CAMISA DE VÊNUS. Saiu até no blog da IVETE. Esses baianos são unidos da porra.

Adivinha qual dos 4 ele é.

Ia pro MARIÃO também. Mas ele disse que vai parar de beber JD.

Só cerveja agora.

Isso aí, MARIÃO. Porres diuréticos. Cicratizes curadas. Renovado.

Continue esse cara autêntico que você é. Que não se entrega, não faz concessões, não se vende e não abre mão dos seus princípios.

E nosso conselheiro sentimental favorito.

 


por Marcelo Paiva, Seção: Crônica 01:06:55.

"Tio Marcelo é Lucky!"

Foi a frase dita pelo meu sobrinho Chico, quanto tinha uns 8 anos, e morávamos na Califórnia [EUA], no mesmo bairro- perto do estádio da Universidade de Stanford.

Disse ao me ver correr para o meu apê, que era mais perto do que a casinha dele; enquanto ele teria que andar mais alguns minutos.

Chico já morava lá um ano antes de mim com o irmão Juca e os pais.

Aliás, fui parar lá graças a eles, que souberam de uma bolsa para escritores e jornalistas, me mandaram os formulários, me apliquei e ganhei.

Coincidentemente, ofereceram pra mim um apê no mesmo bairro deles, Escondido Village.

Eles moraram 4 anos lá. Eu e a Adriana, a santa que me aturou por 9 anos, na fase mais heavy da minha vida, se é que você me entende [mergulhei fundo nas virtudes e defeitos daquela década], 1 ano.


EU E ADRIANA NO MOJAVE DESERT, 1995

Assim que cheguei, comprei uma van adaptada e peguei uma licença para parar em vagas de deficientes, todas próximas das entradas dos supermercados, cinemas, teatros, shoppings.

E em estádios e ginásios, não pagava e ainda ficava no melhor lugar. Com direito a acompanhantes.

Aquilo deixava meus sobrinhos fascinados. Tio Marcelo, sim, que era sortudo.

A frase paradoxal virou um slogan na família. Tio Marcelo é Lucky!

E, em viagens, fura filas, não paga museus, para nas melhores vagas e ainda pode levar um acompanhante.

No Louvre, em Paris, agora no fim de ano, com a família, tio Marcelo provou o quanto é lucky.

Meu sobrinho Juca insistiu para vermos a Monalisa. É dele outra frase que move a minha família, dita quanto ele tinha 3 anos: "Todo mundo junto que é bom!"

Não era a primeira vez no Louvre de muitos de nós, sabíamos do mico que é ver o quadro com dezenas de turistas se apertando. Eu mesmo já tinha visto há duas décadas.

Mas, em viagens, devemos sim pagar micos. A graça é essa. E cumprir alguns rituais. Ver a Monalisa é um deles.

Enfiei a minha cadeira de rodas com parte da família atrás. Fomos abrindo espaço por entre turistas mais interessados em fotografar do que admirar o sorriso tão peculiar da Gioconda.

Tive que esperar uma família de espanhóis fazer fotos para eu passar. Eu empurrava turistas. Uma alemã enorme se recusava a me deixar passar. Até o segurança do museu me acudir e apontar: "Você pode ficar ali".

O ali era o espaço vago entre a massa e o quadro. Tive por minutos a Monalisa diante de mim. Apenas para mim.

TIO MARCELO NÃO É LUCKY?
Mas achei o quadro tão opaco...
As reproduções são melhores [sintoma do pós-modernismo].

O ano começou bem para ele.

 


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Marcelo Rubens Paiva é escritor, dramaturgo e colunista do Caderno 2





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