19.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 14:52:11.
Nas minhas andanças pelo mundo muçulmano, tive muitos contatos com a noção islâmica de shahadat, que poderia ser traduzido como o martírio, a morte em nome de Deus, que assegura a vida eterna no paraíso.
Eu me lembro do jovem refugiado afegão em Peshawar dizendo, sob o olhar de aprovação de seu pai, que queria se explodir na frente de um tanque americano. Do estudante de medicina em Amã, que deixou uma mensagem no celular de seu amigo, contando que tinha ido para a jihad no Iraque. Do recrutador do Hamas dizendo, na frente de sua mãe, em sua casa em Ramallah, que seria um grande privilégio quando chegasse a sua vez. Do casal que morava na Alemanha, inscrevendo-se como voluntários para o martírio num stand de recrutamento em Teerã, e dizendo que esperava que sua filha de 16 anos seguisse o mesmo caminho.
Nada tinha me impressionado tanto quanto a atitude da família Kourani, que perdeu dois rapazes lutando pelo Hezbollah no Sul do Líbano. A história do enterro de Ibrahim, 17 anos, e de seu primo Hamid, 21, está no Estadão de hoje, e não vou me estender aqui sobre seus detalhes. Queria comentar apenas a atitude de sua mãe, sua avó e suas tias. Do enterro no cemitério de Yatar, cerca de 120 quilômetros ao sul de Beirute, fomos para a casa da avó dos meninos mortos, Ramzia, de 78 anos.
Olhando bem nos meus olhos com uma expressão de familiaridade, Ramzia, que divide seu tempo entre sua casa em Itapevi (interior de São Paulo) e em Yatar, me recebeu na porta, dizendo assim: "Você viu como é a vida da gente? Perdi dois netos muito queridos." Observei que a casa dela tinha escapado por pouco dos bombardeios: a de seus vizinhos do lado esquerdo foi totalmente destruída. “Aqueles vagabundos israelenses, a gente estava andando na rua, e eles bombardeavam tudo”, disse Ramzia, em português. “Nós perdemos nossa gente, mas, graças a Deus, eles perderam a guerra.”
Reduto do Hezbollah, a apenas 6 quilômetros da fronteira com Israel, Yatar foi uma das cidadezinhas mais castigadas pelos bombardeios. Foi ali que o Hezbollah derrubou um helicóptero israelense. Pela forma como morreram, despedaçados por mísseis, Ibrahim e Hamid estavam provavelmente no apoio ao lançamento de foguetes Katiusha, porque no período em que morreram não houve combates terrestres nos arredores de Yatar.
Depois, sentou-se ao meu lado Saqiba, de 43 anos, a mãe de Ibrahim, nascida em Itapevi, para onde seus pais se mudaram em 1960. Perguntei como ela estava. “Graças a Deus, estou muito bem, muito orgulhosa”, começou ela, com a voz serena e firme. “Nesse mundo, não tem nada. A gente acredita que a vida começa no paraíso. E, se Deus quiser, vamos para o paraíso."
Os xiitas acreditam que o shahid, o mártir, garante não só a sua ida ao paraíso, mas a de seus familiares.
Saqiba me contou sobre a infância de Ibrahim, sobre como, desde os quatro anos, ele só queria ganhar armas de brinquedo; não se interessava por carrinhos e bolas. Ele sempre quis ir para a guerra e lutar ao lado do Hezbollah, contou Saqiba.
Então, dez dias depois do início da guerra (em 12 de julho), quando ele veio se despedir e dizer que ia para a luta, Saqiba conta, "foi de bom coração que aceitei". A mãe completou: “Ainda tenho dois (filhos homens), que vão seguir o mesmo caminho, se Deus quiser.”
Na verdade, seu filho mais velho, de 23 anos, já estava lutando quando Ibrahim decidiu ir. Mas só soube que seu irmão tinha morrido quando voltou da guerra, a são e salvo.
Em seguida, trouxeram o retrato de Ibrahim, que eu fotografei, sobre o sofá da sala. É um desses retratos que os grupos armados islâmicos fazem quando alistam seus integrantes, para enviar para a família e colocar em postes e cartazes, depois que eles morrem:

Conhecendo bem o Brasil, a mãe e as tias de Ibrahim estão conscientes da dificuldade dos brasileiros de compreender essa atitude. E se esforçaram por explicá-la. Mas, quanto mais falavam, talvez se tornasse ainda mais difícil para um brasileiro médio compreendê-las.
"Nós, mulheres, só não lutamos porque temos que criar nossos filhos para poderem lutar contra Israel”, me disse, ainda no cemitério, Sara, de 44 anos, irmã de Saqiba, também nascida no interior paulista. "A despedida sempre é triste", admitiu ela, justificando as manifestações de dor durante o enterro. “Mas logo passa. Quem tem um mártir fica muito feliz com ele. Agora, a gente anda de cabeça bem erguida, porque tem um menino que morreu na guerra.”
No caminho para o cemitério, fui conversando com Abbas, de 19 anos, primo de Ibrahim, e que como ele tem passaporte brasileiro (Ibrahim chegou a tirar o seu, gostava muito de futebol e tinha muita ligação com o Brasil, embora nunca tivesse visitado o país natal de sua mãe, o que sonhava fazer um dia). Alto e bonito, óculos Ray Ban e roupas bacanas (pretas, de luto), Abbas se confundiria com qualquer rapaz de classe média de sua idade e faria sucesso em qualquer capital do Ocidente. Perguntei a ele se Ibrahim lhe havia falado sobre seu desejo de virar um mártir, e se ele lhe tinha dado sua opinião a respeito. Falando ótimo inglês, Abbas respondeu, com toda a naturalidade: "Conversávamos sempre sobre o martírio em geral. Não conversamos especificamente sobre o martírio dele. Mas ele sabia minha opinião. Todos nós aqui apoiamos o Hezbollah."
A naturalidade, a placidez com que a família Kourani falou desse assunto, no dia do enterro de dois de seus rapazes - os corpos desfigurados e putrefatos da espera de semanas até o enterro definitivo - me deixaram abismado. Eles não estavam falando em teoria, como tantos teólogos islâmicos que entrevistei. Eles não estavam fazendo discurso, como tantos líderes político-religiosos que ouvi. Eles não estavam falando de um evento distante ou de uma hipótese futura. Eles estavam falando de dois garotos que eles amam, e que tinham acabado de enterrar.
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17.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 16:54:36.
Já falei das crianças na guerra. Falta falar dos velhos.
Uma das figuras mais marcantes que conheci nessa cobertura foi Zakie Hijazi. Zakie não sabe quantos anos tem. Mas com ajuda de seu neto Ali, fixamos a idade dela em pouco mais de 100 anos. Isso porque Zakie era uma mocinha quando começou a Primeira Guerra Mundial, e se lembra de seu pai sendo levado à força pelos militares otomanos, para lutar na guerra. Isso foi em 1914. Então, ela deve ter nascido em 1900 e pouco.
Encontrei Zakie na quarta-feira, no pátio da casa de Ali, em Kabrikha, sul do Líbano, a 10 quilômetros da fronteira com Israel:

Ela estava contrariada. Queria que Ali a levasse para ver sua casa destruída. Mas era impraticável. As casas que ficavam no caminho também foram destruídas, e os escombros se espalharam sobre a única rua de acesso. Por ali não podia passar carro, nem Zakie podia caminhar sobre os destroços. A rua passa aqui:

O avô de Zakie foi o primeiro Hijazi a instalar-se em Kabrikha, no século 19, vindo de Aitit, também no Sul do Líbano. Nesse conturbado pedaço de terra, nesse conturbado século, Zakie viu de tudo.
Depois dos turcos, que levaram seu pai embora para a guerra, vieram os franceses, que tiveram mandato no Líbano entre 1918 e 1943.
Perguntei o que ela lembrava dos franceses, e ela disse que uma vez eles entraram em sua casa e quebraram um espelho grande que havia na sala. Faziam essas coisas quando os moradores não queriam colaborar informando o paradeiro de integrantes da resistência contra o domínio francês. Résistance: a palavra, celebrizada pelos franceses na luta contra a ocupação nazista, soa gozada nesse caso.
Em 1948, surgiu Israel. Zakie se lembra do primeiro problema com os novos vizinhos, naquele mesmo ano. Um vizinho seu escapou de um massacre em Houla, um vilarejo próximo, em que 300 libaneses foram fuzilados na montanha, segundo a memória do lugar. O vizinho ficou surdo com as explosões, mas viveu até dois anos atrás.
Depois, Israel bombardeou, invadiu e ocupou Kabrikha em: 1972, 1978, 1982, 1993 e 1995, contam os moradores.
Kabrikha é um reduto do Hezbollah, e foi severamente bombardeada agora.
Meio surda, Zakie disse que os bombardeios a atordoam, porque ela sente a terra tremer mas não consegue distinguir sua proximidade, de onde eles vêm.
Esse é um dado sensorial fundamental sob um bombardeio: você fica o tempo todo tentando medir se os estrondos estão se distanciando ou se aproximando, porque os aviões despejam sempre várias bombas, e podem estar indo ou vindo.
"Eu ficava num cantinho", disse ela. Depois de alguns dias assim, Zakie foi levada dali, com duas filhas, de 55 e de 65 anos, para Beirute.
Na mesma manhã de quarta, Ahmad Hijazi, de 84 anos, estava revirando o armário de sua cozinha destruída, em Kabrikha. Na verdade, o armário foi a única coisa que ficou mais ou menos intacta, além da geladeira, na parede oposta:

Havia vários outros velhos, em situações parecidas.
Fiquei tentando imaginar como é, para um velho, encontrar sua casa destruída. Alguém no auge da produtividade ainda pode esperar reconstruí-la. Mas, e uma pessoa que está próxima do fim? Ainda que veja sua casa reconstruída, quanto tempo terá para transformá-la em “sua”, para ter uma história nela?
Não tive coragem de perguntar aos velhos de Kabrikha.
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14.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 15:36:39.
No primeiro dia de "suspensão de hostilidades" declarado pela ONU e, em geral, observado nesta segunda-feira por Israel e pelo Hezbollah, as bombas, mísseis, foguetes e combates deram lugar à guerra de palavras.
Beirute amanheceu com algumas ruas cobertas por dois panfletos israelenses. Comecemos pelo mais engraçado, que mostra que Israel está se aperfeiçoando na querra psicológica:

A maneira (de agir) do Hezbollah foi o que destruiu o Líbano.
"Ele me constrói um castelo de ilusão. Eu moro nele por alguns momentos e quando volto para minha mesa não tenho nada... só palavras."
A parte entre aspas é uma citação de uma música famosa da cantora libanesa Majda al-Roumi.
O segundo panfleto é menos divertido. Se parece mais com os outros que Israel tem lançado desde o início do conflito, dia 12 de julho:

Aos cidadãos de Beirute
O Hezbollah, que serve seus mestres, os iranianos e sírios, levou-os à beira do abismo. O Hezbollah, com seus atos enganadores e tolos, trouxe a vocês tantas realizações, tais como a destruição, os sem-teto e a morte.
Vocês podem pagar esse preço de novo?
Saibam!
O Exército de Defesa de Israel voltará e agirá com força contra quaisquer ações terroristas lançadas do Líbano contra o povo de Israel.
Estado de Israel
A resposta não demorou. Enquanto milhares de libaneses voltavam para o Sul do Líbano, em carros e vans lotados de gente, colchonetes e roupas, militantes do Hezbollah distribuíam, nas estradas engarrafadas, cheias de desvios das pontes bombardeadas, este pôster, com a foto do líder do Hezbollah:

Às 20h (14h em Brasília), o próprio Hassan Nasrallah veio à televisão, proclamando uma "vitória estratégica e histórica para toda a nação":

Nasrallah prometeu ajuda para reconstruir as casas destruídas: "Não dá esperar o governo, ele é muito burocrático", disse o líder do Partido de Deus, que construiu um Estado dentro do Estado em seus redutos no Líbano.
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12.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 08:37:03.
Faltavam 15 para o meio-dia de quinta-feira. Yasmine, de 17 anos, estava na frente do prédio da Rua Madame Khoury, no bairro de classe alta de Koraitem, onde seu pai, Fukre el-Zeis, trabalha e mora como zelador.
Não havia avião sobre o bairro. De repente, ela viu um traço vermelho no céu. “Ainda o tenho na cabeça”, contou-me Yasmine. Vinha na direção dela. “Se não tivesse batido na torre, teria caído no nosso prédio.”
Dez minutos depois, outro míssil veio e acertou o mesmo alvo – um farol de navegação desativado, sobre o qual fora instalada uma antena de rádio.
O Minarete Velho, como é chamado em Beirute, fica perto da beira-mar, no lado ocidental – e sunita – de Beirute.
“Achei que o alvo fosse a casa do Hariri”, disse a moça, referindo-se aos seus vizinhos mais ilustres, os familiares do primeiro-ministro morto em março do ano passado, cujo palacete fica a duas quadras dali.
Em frente ao minarete fica a fortaleza da embaixada da Arábia Saudita e, algumas quadras adiante, a Universidade Americana de Beirute, além de um colégio francês.
Os mísseis, disparados por um navio de guerra israelense, que foi embora em seguida, acertaram com precisão o topo do minarete:

Uma moradora e um policial foram feridos por destroços que voaram da torre. Moradores do prédio me disseram que havia policiais e soldados do Exército alojados na torre. Alguns militares do Exército que estavam na praia me contaram que havia grande quantidade de equipamentos de recepção e transmissão lá dentro. Quando perguntei quem os estava usando, um militar respondeu com uma frase que resume o Líbano: “Neste país, ninguém sabe quem está usando as coisas.”
O vizinho Ahmad Arba encontrou o que supôs ser um pedaço do míssil que caiu perto do prédio. Era uma caixa de ferro, com parafusos, parecendo uma peça de motor de carro:

Foi o primeiro ataque israelense fora da área xiita em Beirute, e justamente num bairro chique, cheio de locais que Israel muito provavelmente não gostaria de acertar. “Pensei que nada aconteceria aqui”, disse Yasmine, que nasceu em 1989, pouco antes do fim da guerra civil libanesa (1975-90). “É a primeira vez que vejo guerra.” Quando soube que eu era brasileiro, a irmã de Yasmine, Nisreen, de 10 anos, trouxe uma bandeira do Brasil, lembrança da Copa. As duas meninas e o irmão Raumi, de cinco anos, pousaram para uma foto:

“Nós somos fortes, não temos medo de ninguém”, disse Yasmine, que segundo meu intérprete fala com sotaque palestino, como sua mãe, Mana. “O xeque Hassan (Nasrallah, líder do Hezbollah) está conosco. O mais importante no Líbano é que agora os cristãos e os muçulmanos estão unidos. Eles (os israelenses) querem que a gente fique com medo. Se querem nos assustar, vão ter que fazer muito mais que isso.”
Há uma semana, Nasrallah declarou: “Se vocês bombardearem nossa capital, Beirute, vamos bombardear a capital de sua entidade usurpadora. Vamos bombardear Tel-Aviv.”
Mais Beirute do que Koraitem, impossível.
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11.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 04:04:55.
Eram duas da tarde de ontem, quinta-feira. Meu intérprete e eu vínhamos do bairro de Cheiah, em Dahye, a região ao sul de Beirute onde se concentra a população xiita. Eu vinha meditando sobre o que acabava de ver e ouvir.
Bem, a história está no Estadão de hoje, mas vou resumi-la em duas frases. O pequeno Mustafa, de 10 anos, estava brincando na noite de segunda-feira com os amigos vizinhos quando decidiu ir rezar na mesquita em frente de casa. Poucos minutos depois, quatro mísseis arrasaram o prédio de seus amigos, matando todos eles – no total 56 pessoas e provavelmente também uma mulher grávida que homens com máquinas ainda tentavam encontrar nos escombros.
Mas o que não me saía da cabeça eram os brinquedos ainda no chão da casa destruída ao lado (entre o prédio arrasado e o prédio de Mustafa):
Havia soldadinhos verdes, como os dos meus filhos, um livro infantil e um caminhãozinho da polícia. Imaginei os meninos brincando ali. Talvez brincando de guerra. Quando a guerra de verdade veio e acabou com tudo.
Eu contava a meu intérprete sobre quando fui visitar a cratera aberta por quatro bombas de 900 quilos despejadas pelos americanos em Bagdá, durante a guerra de 2003.
Catorze pessoas de três famílias foram soterradas nos escombros de suas próprias casas. Andando pelos escombros, que exalavam um cheiro de corpos em decomposição (nenhum deles pudera ser retirado), eu vi um carrinho de bebê, almofadas, um pequeno fogão, e fui tentando reconstruir – com mais imaginação que informação – aquela cena doméstica.
Estávamos nisso, quando o céu – aqui estamos sempre olhando para ele – se encheu de pontinhos brancos, que vieram crescendo, até se transformarem numa chuva de papéis.
As pessoas paravam os carros e motos no meio da rua para agarrar um daqueles panfletos. Claro, todos imaginavam do que se tratava. Aí vinham “eles”. Sentamos num café Mövenpick para traduzirmos o panfleto:

Aos cidadãos de Beirute
Por causa dos mísseis que a gangue terrorista continua lançando contra Israel, e dos discursos que o líder dessa gangue continua fazendo, jogando com o futuro do Líbano, o Exército israelense pretende ampliar suas operações em Beirute.
Os locais são: Haye al-Sellum, Bourj al-Barajneh e Cheiah (o bairro de Mustafa). Para sua segurança, vocês têm de evacuar imediatamente esses locais ou mesmo evacuar todos os lugares onde o Hezbollah se posiciona e de onde prossegue com suas ações terroristas, com os seus colaboradores.
Saibam que a ampliação das operações terroristas do Hezbollah provocará uma reação muito dura, que nunca se restringirá a Hassan (Nasrallah, o líder do grupo) e sua gangue criminosa.
Pensei nos pais de família que acabara de conhecer em Cheiah. Suas mulheres e filhos foram levados para lugares mais seguros, e eles continuam no bairro, cuidando de seu patrimônio.
Pensei no irmão de Mustafa, Mohammad, que em janeiro completa 18 anos e aguarda ansiosamente para servir o Exército. Enquanto ele me guiava pelas ruas de Cheiah, eu lhe perguntei por que ele não tinha ido com sua mãe e irmãos menores para a casa dos parentes, longe dali.
Mohammad me respondeu, com orgulho: “Eu não deixo o meu pai só.”
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10.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 02:54:08.
O bombardeio aéreo é uma experiência eminentemente sonora e, não sei se esse é o termo correto, táctil. Na maioria dos casos, a gente não vê nada. Os aviões voam muito alto. As bombas e mísseis caem muito rápido. Vou dizer logo o que dá para ver, no Sul do Líbano. Quando a gente está bem perto da fronteira com Israel – o que não é difícil, no Sul do Líbano: lembre-se de aqui as distâncias são nanicas, medem-se em poucos quilômetros –, às vezes sobe uma barragem de mísseis antimísseis Patriot. São aquelas baterias que os Estados Unidos deram para Israel se defender dos Scuds do Saddam Hussein, em 1991, na primeira Guerra do Golfo (que na verdade foi a segunda, porque a primeira mesmo foi a do Iraque contra o Irã, entre 1980-88). Os Patriots tentam interceptar os foguetes Katiucha, lançados pelo Hezbollah. Eles sobem muito alto, explodem e formam cachos de fumaça no céu. E a outra coisa que dá para ver é quando Israel lança bombas incendiárias para iluminar alguma coisa que os pilotos queiram ver à noite.
De resto, como eu dizia, é uma experiência sonora, em primeiro lugar. Tudo começa com os caças-bombardeiros rompendo a barreira do som: ROAARRR. Em seguida, os mísseis descem assoviando. Se são bombas, o som é mais o de um corpo caindo: tóum. E, quando batem no chão, fazem assim: tuf, tuf, tuf, como se fosse a agulha de uma máquina de costura. E explodem: PAM. Aí vem o que eu não sei se é táctil: o chão e as paredes tremem, como se fosse um terremoto. Claro que, quanto mais perto cair a bomba ou míssil, mais forte o terremoto. Na casa onde eu fiquei entre segunda e terça, em Marjeyoun, uma janela inteira, com toda a esquadria de madeira, saltou da parede e caiu no chão, como se alguém tivesse dado um peteleco numa caixa de fósforos. Os vidros das janelas estavam estilhaçados no chão.
Uma noite de bombardeio é algo infernal. A gente não dorme. Às vezes, quando está muito cansado, dá um cochilo superficial. Mas sempre acorda com um impacto muito forte, de uma bomba mais perto. Muitas coisas passam pela cabeça. Mas uma imagem muito freqüente é essa: esses pilotos não estão me vendo. Para eles, é só apertar um botão. E ir embora com o sentimento da missão cumprida. A gente se imagina como um inseto, com um gigante caminhando em cima da nossa cabeça, dando passos a esmo: bum, bum, indiferente a nossa sorte, sem saber que existimos.
Na região de Marjeyoun, ouve-se bem de perto também as baterias dos Katiuchas. Ao disparar, eles fazem bum, e o chão treme. Daí o barulho deles voando no céu é assim: vuuush. E muitas vezes vem a resposta da artilharia de terra de Israel: tom, tom, tom, tom, tom. Os israelenses estão subindo até Al-Amra, um bairro de Khiem, a 4 quilômetros da cidade de Marjeyoun. Disparam e voltam para o lado israelense, segundo me disse o general libanês Adnan Daoud, comandante da Finul, a força de obervação da ONU.
Às vezes, o bombardeio pára por uns minutos, e você respira aliviado, torce para que tenha acabado. Mas logo você ouve: ROAAARRR. E começa tudo de novo. Quando ouve o tuf, tuf, tuf, você pensa assim: será que tinha alguém ali onde caiu a bomba? Será que eu serei o próximo? Quando amanhece, dá um alívio. No caso do Sul do Líbano, não é um alívio racional, porque os bombardeios continuam durante o dia. Mas acho que é o alívio do insone, que não precisa mais tentar dormir. Acabou o pesadelo, você sobreviveu, a vida continua.
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09.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 10:28:15.
Coberturas de guerra são marcadas por cenas e histórias que ficam gravadas para sempre. No meu caso, boa parte delas envolve crianças. Em cinco dias de Líbano, já coleciono algumas. Como a dos irmãos Habib, de seis anos, e Elias, de três. Eles vivem num apartamento em Jdeidet Marjeyoun, cuja vista são os últimos vilarejos do Sul do Líbano, no seu flanco leste: Aadaisse, Kfar Kila, Houla e Aamra. E, alguns metros adiante, o lado israelense da fronteira. A sala-de-estar do apartamento tem uma ampla sacada, e um dos passatempos dos meninos é monitorar os bombardeios israelenses. Quando as explosões são altas, Habib e Elias riem e olham para a reação dos adultos. Quando são muito altas, aplaudem. Habib e Elias tentam perscrutar em que lado a bomba ou míssil caiu. E apontam quando as baterias de mísseis Patriot, que os americanos cederam a Israel na primeira guerra do Iraque (1991), sobem e formam cachos de fumaça no ar, tentando interceptar os Katiuchas que o Hezbollah lança dali. Quando vê os adultos sérios, Habib também fica, e sentencia, em seu excelente inglês: “You know, these Israeli airplanes, they are no good. They do like shuf, boom, paf”, gesticulando com as mãozinhas. “Nós procuramos mandá-los para o quarto, para protegê-los disso, mas não podemos confiná-los lá o tempo todo”, justifica o pai dos meninos, o padre ortodoxo Felipe, como se tivesse de se explicar.
Salim, o brasileiro dono de uma loja de cosméticos em Lala, no Vale do Bekaa, conta que seus três filhos (uma menina de 15, um menino de 11 e outra de 8) também ficam na varanda, acompanhando o espetáculo que se desenrola nas montanhas em frente. Um daqueles aviõezinhos não-tripulados que parecem de aeromodelismo, que Israel usa para reconhecimento do terreno, caiu na montanha de El-Baruk. O Hezbollah, lógico, disse que o tinha derrubado. Israel garantiu que foi acidente. O fato é que os caças israelenses, usando bombas incendiárias para iluminar o local (já eram 9 da noite), vieram nervosamente destruir vestígios do “drone”, aqui chamado de “MK”, que deve guardar alguns segredos preciosos para o inimigo. Foram os filhos de Salim que contaram quantos mísseis os israelenses gastaram naquela câmera com um motorzinho que voa: 7.
E há a filha de seis anos do dr. Hossein, o gastroenterologista de Lala, também brasileiro. Ela perguntou ao pai por que o Hezbollah não tem aviões.
Em Marjeyoun, enquanto entrevistava refugiados na Escola Primária Mihania, em meio aos estrondos e tremores de terra dos mísseis israelenses caindo e dos foguetes do Hezbollah subindo, encontrei um menininho com um curativo na cabeça. Mirei minha câmera, imaginando uma foto triste. Mas o menino abriu um sorriso, encantado porque o homem com quem todos os adultos queriam falar se abaixou para prestar atenção nele. E não deixou que a sua história ficasse triste.
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07.08.06
 Os "redutores de velocidade israelenses"
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 20:59:26.
Na primeira metade da viagem de duas horas do Vale do Bekaa para a cidade de Marjeyoun, vêem-se carros, pessoas e até algumas lojas abertas ainda com que com ar de domingo, e com todo mundo aparentando urgência de sair da rua. Na segunda hora, é diferente.
Entre a cidade de Al-Karaoun, pela qual passamos às 16 horas, e Marjeyoun, aonde chegamos às 17 horas, não cruzamos um carro se quer, nem vimos pessoa alguma nas ruas. A única exceção foi um jipe do exército libanês com cinco militares parados na beira da estrada, que nos advertiram para algo que já tínhamos notado.
Três mísseis tinham sido despejados, havia alguns minutos, cerca de 300 metros adiante, formando uma cratera na rodovia e três colunas de fumaça.
A vegetação rasteira que cobre a montanha a margem da estrada pegou fogo. Observando-se as numerosas crateras ao longo da rodovia que liga o Vale do Bekaa ao sul do Líbano, chega-se a conclusão de que a intenção israelense não é bloquear de vez o tráfego, mas obrigar a passar devagar. É como se os mísseis fossem a versão militar das lombadas. As vezes, o piloto erra um pouco na mão e o motorista precisa subir no pé da encosta que contorna o desfiladeiro para poder passar.
Israel destruiu as auto pistas e pontes das vias principais, e lançou esses "redutores de velocidade" sobre as estradas secundárias, aparentemente para manter o controle sobre a movimentação no Líbano.
Até o Hezbollah sumiu. As entradas e saídas das cidades por eles dominadas no sul estão sem controle algum, mas os símbolos desse domínio continuam intactos. Os arcos de ferro amarelos ornados com fuzis ou foguetes na entrada e saída da cidade; os cartazes com fotos do ex-presidente sírio Hafez Assad, do ex-líder espiritual iraniano Aiatolá Ruhollah Khomeini, e do atual, Ali Khamenei, além do próprio líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah.
Nas ruas principais, os postes exibem cartazes de "mártires" ,ou seja, moradores locais que morreram por causa do conflito com Israel. E as bandeiras amarelas com fuzil pintado de verde. Em Yohmor, no coração do território do Hezbollah, uma bandeira do Brasil tremula no mastro de uma casa. Mas não há a quem perguntar quem a colocou ali.
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06.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 21:03:53.
O único toque pitoresco das coberturas de guerra fica por conta dos que as fazem: os jornalistas. Eles quase sempre estão impacientes, nervosos e julgando-se mais importantes que o resto da humanidade. Na minha vinda para o Líbano, no sábado, deparei-me com uma italiana no posto de fronteira, do lado sírio. Entre os 40 e os 50, cabelos longos e cacheados, tintos de loiro, camisa branca transparente o suficiente para se ver o sutiã azul combinando com as tiras das sandálias de couro, calça bege, uma jaqueta jeans amarrada à cintura e óculos de sol na testa. Os funcionários tentavam lhe perguntar em inglês, com o caracteristico sotaque árabe, em que o "p" vira "b": "Onde seu passaporte foi emitido?" Ela não entendia o sentido da pergunta, que eles fazem para todos: "What's the probleme? I don'te understande."
Quando finalmente respondeu "Milano", eles devolveram com uma pergunta maravilhosa: "Jornalista de moda?" Ela não captou a ironia, óbvio: "Nao vou a Beirute cobrir moda. I ame a correspondente ofe ware." Claro, claro.
O episódio me lembrou um artigo engraçadíssimo numa revista americana, acho que a Vanity Fair, que mandou seu repórter de moda ir “embedded” para a guerra no Iraque. Antes mesmo de embarcar, o cara começou a reclamar para o oficial da unidade do estilo da farda que lhe tinham dado. Lembro da pergunta do oficial, que não fazia idéia da pauta do rapaz: "Is that gonna be a problem, son?" Sim, ia ser um problema. O cara azucrinou os milicos a viagem inteira. Mas acho que ainda prefiro jornalistas de moda na guerra: pelo menos não se levam a sério demais.
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05.08.06
por Lourival Sant'Anna, Seção: no front às 20:35:36.
Guerras são pródigas em profecias auto-realizadas. A do Iraque foi feita sob o pretexto de impedir que Saddam Hussein usasse armas de destruição em massa e se engajasse no terrorismo islâmico. Não só não havia armas de destruição em massa como as evidências de ligação de Saddam com o terrorismo eram no mínimo tênues. Depois de sua derrubada, o Iraque se converteu no maior teatro de atividades terroristas do mundo.
Israel lançou os ataques no Líbano, no dia 12 de julho, com a finalidade de aniquilar o Hezbollah - ou de mitigar sua capacidade operacional, segundo a versão mais modesta - e de mostrar ao Líbano o preço de abrigar uma organização terrorista. Quase quatro semanas depois, ainda não há indícios de redução da capacidade operacional do Hezbollah. Mas uma coisa é certa: os libaneses, que antes pressionavam o Hezbollah a se desarmar, estão muito mais longe do que antes de repudiar a milícia patrocinada pelo Irã e pela Síria.
Na viagem que fiz de Damasco a Beirute, na manhã deste sábado, encontrei, nas estradas libanesas, bandeiras novinhas em folha (portanto recém-compradas) do Hezbollah tremulando sobre as casas. Com um Exército imobilizado pelas divisões político-religiosas e pela falta de meios para travar uma guerra convencional, a milícia emerge como um exército de resistência nacional. Em vez de Estado dentro do Estado, o Hezbollah passa a encarnar o Estado-nação, que o Líbano nunca conseguiu ser. Manchete deste sábado do jornal The Daily Star, editado em inglês em Beirute: “United we stand” (“Juntos ficamos de pé”), sobre o ataque a cinco pontes, na sexta-feira, que atingiu áreas cristãs. Na contracapa, o título de uma página gráfica com fotos da carnificina e da destruição: “A war against all Lebanese” (“Uma guerra contra todos os libaneses”).
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 Israel destrói pontes no Líbano
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 00:34:34.

BEIRUTE - Aviões israelenses bombardearam pela primeira vez desde o começo da guerra várias pontes na região norte de Beirute e mataram mais de 40 pessoas em todo o Líbano.
No Vale do Bekaa, perto da fronteira síria, um ataque aéreo matou 30 trabalhadores e feriu 20 - incluindo muitos sírios e curdos - quando carregavam um caminhão refrigerado com frutas e legumes na vila de Qaa. Os bombardeios destruíram um armazém próximo, que os militares israelenses aparentemente concluíram ser um depósito de armas do Hezbollah.
Israel tem atacado caminhões que suspeita de transportar armas para o Hezbollah. Nos bombardeios, já atingiu comboios de suprimentos médicos e ônibus levando refugiados. No sul do Líbano, um ataque da aviação a uma casa em Taibe matou 7 civis e feriu dez. Na madrugada deste sábado, aviões voltaram a bombardear o sul de Beirute e, pela primeira vez, Israel usou helicópteros para atacar alvos na cidade de Tiro. Depois, comandos israelenses desembarcaram perto de Tiro.
BEIRUTE
Os habitantes da capital acordaram nesta sexta-feira com os locutores de rádio pedindo que evitassem sair de casa. Os ataques às quatro pontes afetaram a principal ligação entre Beirute e o norte do país, a única grande estrada usada para sair do Líbano que ainda estava intacta, já que a rodovia de ligação com Damasco está danificada em vários pontos. Era por essa rota no norte que o Líbano estava sendo abastecido por caminhões vindos da Síria. No mínimo, cinco pessoas morreram nesse ataque às pontes e dez ficaram feridas, segundo a imprensa libanesa.
Com medo de mais mortes, o governo ordenou por algumas horas o fechamento de estradas vicinais. A região xiita no sul de Beirute - já bastante devastada - foi bombardeada mais uma vez na quinta-feira e na madrugada de sexta-feira. Antes, aviões israelenses haviam lançado folhetos avisando que a área deveria ser esvaziada. Um soldado libanês morreu e seis civis ficaram feridos.
Os bombardeios das pontes atingiram áreas cristãs - raramente afetadas no atual conflito - e espalharam o medo. O tráfego na capital voltou a diminuir de ritmo nesta sexta-feira. No começo da semana, a movimentação nas ruas tinha aumentado, dando a impressão de que a população não acreditava em novos ataques. “Logo no início da guerra, todo mundo foi embora pois temia ser morto por uma bomba. Quando as pessoas viram que o alvo de Israel eram os bairros xiitas, começaram a voltar. Agora todo mundo fugiu mais uma vez”, disse George Khoury, dono de um pequeno supermercado em Ain Al-Roumaneh, um bairro cristão de Beirute. Nas regiões cristãs do Líbano é forte a oposição ao Hezbollah, principalmente por ter iniciado o atual conflito.
Funcionários de organizações humanitárias estão preocupados com a falta de estradas para receber e distribuir alimentos e remédios. Com a destruição das quatro pontes na principal artéria do norte, aumenta a insegurança dos funcionários e diminuem as opções para a entrada de caminhões em Beirute. Até agora, poucos comboios receberam garantias de segurança de Israel. A principal via de acesso entre Beirute e o sul, onde estão as pessoas mais necessitadas, já está toda danificada. Em parte de sua extensão, viadutos e passagens de pedestres destruídos são uma barreira para os veículos. A viagem é longa por causa dos desvios e perigosa em função dos ataques.
Na sexta-feira, na região xiita no sul de Beirute, foram raros os estabelecimentos que abriram as portas. Um deles foi a loja de sapatos de Moh Ali Hassan, a poucas quadras da área bombardeada: “Tínhamos seis filiais. Três já foram destruídas. Se não abrirmos, vamos acabar matando nossas famílias de fome.” Hassan viu os folhetos lançados por aviões israelenses, mas decidiu ficar no bairro. “Ir para onde? As escolas estão cheias, e Israel está atacando os abrigos na nossa área”, diz.
Os únicos três clientes nos últimos dois dias foram xiitas que saíram correndo da região próxima à fronteira com a roupa que tinham no corpo e chegaram a Beirute de sandálias. Não há pesquisas sobre a opinião dos xiitas a respeito do papel do Hezbollah na guerra. Hassan e seus dois assistentes têm muitas críticas a Israel e nenhum comentário negativo sobre o comportamento do grupo. “Israel continuaria atacando o Líbano de qualquer jeito. Faria isso mesmo que o Hezbollah parasse de atingir o território israelense com foguetes. Liberdade não vem sem sangue”, diz.
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04.08.06
 Decepção libanesa com árabes torna jogo fácil para o Irã
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 00:13:29.
BEIRUTE- O jornalista Ghassan Tueni, de 80 anos, é uma das personalidades mais influentes do Oriente Médio. Ele é o dono do An-Nahar, jornal libanês publicado em árabe e considerado um dos mais independentes da região. Tueni foi presidente do L’Orient Le Jour, jornal libanês escrito em francês, de 1965 até 1971, e ainda hoje é um dos acionistas e membros do conselho. Bem-humorado, orgulha-se do fato de o An-Nahar ter leitores de todas as religiões. “A maior prova é a seção necrológica. Diariamente temos sobrenomes cristãos, sunitas, xiitas e drusos. E olha que não matamos todos eles na mesma quantidade.”
Tueni foi ministro de quatro pastas diferentes, vice-primeiro-ministro e embaixador na ONU. Hoje é deputado, mandato que conquistou pela primeira vez em 1951. Quem o conhece diz que uma de suas características é o otimismo. “É preciso ser otimista. Caso contrário, a opção é desistir de tudo. Qual é o problema em ser otimista?”, perguntou ele no final da tarde de quarta-feira na moderna sede do An-Nahar. Essa faceta de Tueni chega a ser surpreendente. Ele perdeu a mulher, a famosa poeta Nadia Tueni, que morreu de câncer. O mesmo tinha acontecido antes com sua filha de 7 anos. Um de seus dois filhos, Makram, morreu em um acidente de carro na França em 1987. O outro, Gebran, um jornalista de 48 anos, diretor do jornal, foi morto em dezembro por uma explosão que acabou com seu carro blindado.
Nos meses anteriores, o An-Nahar vinha adotando uma posição crítica em relação à Síria. “Avisaram para não atacar o governo e incitar a população síria a se rebelar. Criticar os aliados sírios no Líbano, tudo bem. Gebran não aceitou o acordo”, afirma Tueni. Leia a seguir trechos da conversa com o Estado:
Futuro da Guerra
Israel pede mais três semanas para acabar o trabalho de limpar a área perto da fronteira antes da chegada das tropas internacionais, mas não acho que conseguirão. Os americanos não vão dar todo esse tempo. Os Estados Unidos impuseram alguns limites. A eletricidade e a água não foram cortadas em todo o país, por exemplo. Se deixarem o Líbano explodir, colocarão em perigo todo o Oriente Médio. Por isso, os limites.
O papel dos EUA
Não culpo os americanos, mas a posição dos EUA não ajuda a resolver nenhum problema no Oriente Médio. O Iraque é uma catástrofe, e o Líbano é um cheque em branco que eles deram para Israel. Estão criando mais problemas do que resolvendo. Primeiro precisamos de um cessar-fogo. E, toda vez que se fala no assunto no Conselho de Segurança da ONU, os americanos pedem alguns dias para estudar a proposta. Dizem que darão apoio a um cessar-fogo quando as bases para uma solução de longo prazo estiveram dadas. Não existem bases para uma solução de longo prazo numa região que vive em constante fluxo. E quando falam em um novo Oriente Médio, o que querem dizer? Um novo mapa? Uma nova classe governante? Um novo sistema? Uma democracia imposta por tanques não é uma democracia.
Israel quer água
Israel não consegue destruir o Hezbollah. Primeiro disseram que precisavam de uma semana. Depois, duas semanas. Já entramos na terceira semana e nada. Israel quer uma linha de segurança que comece no Rio Litani. Quer controlar o rio porque precisa de água. A primeira invasão do Líbano em 1978 foi batizada de “Operação Litani”. Agora diz que quer um vácuo militar que chegue até o rio. As tropas estão expulsando as pessoas. No Líbano, isso é inédito. Além disso, é contrário a todas as leis humanitárias.
Desarmamento
Faço parte da comissão que trata do desarmamento no Líbano. Penso que o Hezbollah tem de entregar suas armas e seus combatentes devem entrar nas fileiras do Exército. Não podemos tolerar uma milícia independente do Estado. O governo do Líbano não tem condições de pressionar pelo desarmamento sozinho. Mas com a ajuda das tropas internacionais, sim. Não com o uso da força. Mas tirando a desculpa usada pelo Hezbollah para manter suas armas. Se (o primeiro-ministro libanês Fuad) Siniora conseguir que Israel desocupe a região das Fazendas de Shebaa pela via diplomática, o Hezbollah provavelmente aceitará se desarmar. O grupo não vai atirar nas tropas internacionais. O que vai fazer é evitar que as tropas tenham a permissão de vir. É isso o que já estão fazendo ao pedir à Síria e ao Irã que se oponham à idéia.
Temor
Algumas pessoas com as quais converso temem que o Hezbollah sobreviva, saia desse conflito dizendo que foi o vencedor e queira governar o país. Para mim isso é impossível. Nenhuma comunidade pode governar o Líbano sozinha.
Decepção
A Síria diz que o confronto atual é parte da guerra entre árabes e israelenses. Tudo bem. Mas então por que os árabes não vêm para o Líbano e confrontam Israel daqui? Hosni Mubarak (o presidente egípcio) disse que nunca entraria numa guerra pelo Líbano. Sabemos disso. Ele não precisava nem ter dito. Mas por que ele não retirou seu embaixador de Israel ou pediu que o embaixador israelense no Cairo se retirasse para pelo menos protestar? Os libaneses estão decepcionados com os árabes.
É por isso que esse jogo está fácil para os iranianos. Isso está se tornando cada vez mais uma sessão nostalgia de dois antigos impérios. Os iranianos sonham com o império persa e os turcos, que devem vir com as forças européias, com o império otomano. Já os árabes se desligaram do papel histórico que deveriam desempenhar.
Previsões erradas
Israel já tinha esse plano de invadir mais uma vez o Líbano há três anos. Especialistas israelenses foram aos Estados Unidos discutir o plano, saiu até nos jornais americanos. O que aconteceu foi que o Hezbollah não foi esperto o suficiente para não cair na armadilha. O Hezbollah não soube prever qual seria a reação israelense, e Israel não enxergou a força que o grupo xiita poderia mostrar durante a guerra. Os dois lados fizeram cálculos errados.
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03.08.06
 Exército libanês dá apoio moral ao Hezbollah
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 01:02:22.
BAABDAT, LÍBANO - “Tenha a certeza de que o sangue dos mártires, das crianças, das mulheres, dos idosos, dos heróis da resistência e dos bravos militares, que foi misturado no campo da dignidade e da resistência, serão as pedras que construirão o futuro do país.” O fragmento da ordem do dia lida nos quartéis esta semana para comemorar o 61º aniversário das Forças Armadas do Líbano não deixa dúvidas de que a instituição apóia moralmente o grupo xiita Hezbollah.
“Já faz três semanas que os combatentes do Hezbollah enfrentam o Exército israelense e só isso já é uma vitória. Israel gosta de guerras curtas. Nenhuma força árabe resistiu mais de duas semanas. Em 1967, o conflito durou seis dias”, diz Adnan Al Sayed Hussein, professor da academia militar libanesa e autor de uma tese de doutorado sobre o conflito árabe-israelense.
Na cúpula do Exército libanês, a reação da milícia foi uma surpresa. Primeiro porque o grupo mantém o comando e os sistemas de controle. Segundo porque consegue esconder e lançar seus foguetes, apesar dos ataques e da vigilância das forças israelenses. E, principalmente, porque ninguém vê os combatentes se movimentando. Nunca antes o território israelense foi atacado de forma tão intensa e por tanto tempo.
As Forças Armadas libanesas são formadas por cristãos, sunitas, xiitas e drusos e espelham as divisões da sociedade civil sobre a guerra entre o Hezbollah e Israel. Uma parte acha que o grupo xiita não deveria ter capturado os dois soldados israelenses - o que deu início ao conflito no dia 12 -, e outra parte argumenta que foi questão de autodefesa. “Mas o apoio moral vem de todos os setores”, diz Kameel Habib, outro professor da academia, especialista em estratégia militar israelense.
Forças de Israel entraram no Líbano, a infra-estrutura do país foi destruída por bombardeios, no mínimo 617 civis e 26 militares já morreram e as Forças Armadas ainda não deram um tiro contra soldados israelenses. “Não temos força aérea. Assim, não há como lutar”, diz o general reformado Kamal Karam. A Aeronáutica libanesa consiste de 24 helicópteros que não levam armamento. Sem proteção de aviões, a movimentação de tropas regulares de um Exército fica comprometida.
A força militar do Hezbollah é a sua estratégia de guerra de guerrilha. Mesmo sem aviões e barcos, os membros do braço armado do grupo têm poder de destruição porque não são reconhecidos facilmente. Além disso, foram bem armados com o apoio do Irã e da Síria, têm experiência nos embates contra Israel e disciplina. “Os combatentes começam a ser treinados quase desde que nascem”, diz Habib. Essa coesão é uma barreira para a entrada de espiões.
Nos últimos dez dias, o Estado ouviu, além dos dois professores e do general reformado, um membro da cúpula da polícia nacional e um general do Exército. Os dois últimos falaram sob a condição de que seus nomes não fossem revelados. Os cinco foram unânimes: se houver cessar-fogo enquanto o Hezbollah ainda estiver lutando contra as forças terrestres de Israel e lançando foguetes contra o país vizinho, o vencedor do conflito será o grupo libanês. Isso porque a guerra acabaria com o Hezbollah dando sinais de vigor.
Pelo menos parte das Forças Armadas sonha em contar com os combatentes do Hezbollah. “O braço militar do grupo deve ser integrado às Forças Armadas depois da entrega dos mapas das minas no sul do Líbano, da devolução das Fazendas de Shebaa e da libertação dos prisioneiros de guerra libaneses que estão em Israel. Queremos manter esse poder para o Líbano sob comando do governo”, resume o general.
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02.08.06
 A trágica Qana vira cidade fantasma
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 00:05:14.
Quando Mohammed acordou na madrugada de domingo, ele estava voando. Mohammed era uma das pessoas que dormiam num prédio de quatro andares quando uma bomba israelense matou 56 pessoas, na maioria crianças. Isso foi no sul do Líbano, em Qana, onde no começo da tarde desta terça-feira não havia ninguém. Apenas o ruído alto de aviões e o barulho de explosões distantes.
Mohammed, de 41 anos, caiu com o peito no chão e não conseguia ver nada em meio à escuridão. Só ouvia os berros por socorro. Rabab, 30 anos, a mulher de Mohammed, também foi coberta pela poeira e as pedras. Logo procurou pelos filhos Hassan, de 4 anos, e Zaynab, de 6. A família dormia no térreo. O menino estava bem, mas a menina parecia molhada em sangue. “Logo vi que estava morta porque não se mexia”, lembrou Rabab, deitada na cama ao lado de Mohammed e de Hassan no Hospital Jabal Amel, em Tiro, a 15 minutos de carro de Qana. Os três têm ferimentos provocados pela estrutura de cimento que veio abaixo e por partículas da bomba. “Não vamos enterrar nossa filha enquanto essa guerra não acabar”, disse a mãe.

Além deles, o Hospital Jabal Amel tem outros dois pacientes que estavam no prédio. As duas mulheres, irmãs na faixa dos 20 anos e em bom estado de saúde, estão entre os 15 sobreviventes, mas perderam os pais e os irmãos. Os corpos deles e o da filha de Mohammed e Rabab estão junto com os demais no Hospital Governamental, a algumas quadras do Jabal Amel. É lá que está a câmara frigorífera com 60 lugares. Para a direção do hospital, é improvável que o desejo de Rabab seja atendido. Ninguém pode prever quanto tempo essa guerra vai continuar, e as câmaras precisam ser liberadas à medida que chegam novos mortos.
O Hospital Najem é o mais próximo de Qana. Também fica em Tiro, mas a apenas 10 minutos de carro da cidade que se tornou o símbolo do atual conflito. Há quatro dias, o pequeno hospital não recebe nenhum paciente porque simplesmente as áreas ao redor estão vazias. Às 14h30 desta terça-feira, na porta do Najem, havia apenas uma mulher, três crianças e um senhor. Os que saíram de Qana no domingo foram direto para os dois hospitais maiores.
A contar pela aparência que tinha nesta terça-feira, Qana se transformou numa cidade fantasma. Na entrada, carros e caminhões atingidos por bombardeios. Para chegar ao prédio onde morreram as 56 pessoas é preciso sair da rua principal e dobrar à esquerda numa via estreita. Ao final da rua, não é possível seguir de carro. Em meio às ruínas, uma casa intacta exibe uma pequena bandeira do Brasil. Mohammed e Rabab garantem que não havia brasileiros na vizinhança e que a bandeira deve ser um resquício da Copa do Mundo. O abrigo destruído na madrugada de domingo fica mais acima.
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01.08.06
 Moradores do sul desistem de fugir para Beirute
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 23:51:37.
TIRO - A estrada entre Sidon e Tiro estava vazia nesta terça-feira. A “janela” já tinha sido fechada. Após as mortes em Qana, o governo israelense anunciou que não faria bombardeios por 48 horas. Isso funcionou nas primeiras 24 horas, e a estrada ficou movimentada nos dois sentidos na segunda-feira, dia em que a ONU recebeu o sinal verde de Israel para a saída de dois comboios de ajuda humanitária, uma para Tiro e outro para Qana. De manhã, as TVs árabes mostravam imagens da retomada da operação terrestre de Israel, e só um comboio partiu rumo à região da fronteira.
A maioria dos que estavam no sul do Líbano e ainda queriam pegar a estrada para Beirute entendeu o fim da “janela” e ficou em casa. Em Sidon, perto do meio-dia, havia cinco pessoas tomando banho de mar. Nas ruas, várias pessoas e carros. As lojas estavam fechadas e havia filas na frente de postos de gasolina. Comparada com Beirute e o norte do Líbano, estava semideserta. Comparada com Tiro, estava cheia. Em Tiro, a maioria dos veículos é de caminhões a serviço da ONU, táxis e carros da imprensa.
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 Em Qana, o único ruído forte era dos aviões israelenses e de explosões
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 17:25:18.
A cidade de Qana estava deserta hoje. No começo da tarde não havia sinal de ninguém nas ruas e nas casas. O único ruído forte era o dos aviões israelenses e, ao longe, o barulho de explosões. A alguns metros do prédio bombardeado domingo onde morreram mais de 50 (das quais 27 crianças), uma badeira do Brasil.
Ao contrário de ontem, as estradas estavam vazias entre Saida e Tiro. A "janela" já tinha sido fechada. Após as mortes, o governo israelense anunciou que não faria bombardeios por 48 horas. Isso funcionou nas primeiras 24 horas. Hoje de manhã as TVs árabes mostravam imagens da retomada da operação terrestre de Israel.
Ontem, a ONU recebeu o sinal verde de Israel para liberar dois comboios de ajuda huminatária. Um para Tiro e outro para Qana. Hoje só saiu um para Tebnine.
Entre Saida e Tiro o que se vê é muita destruição: viadutos no chão, buracos provocados por bombas nas estradas, restos de carros atacados e prédios destruídos. Em Saida, perto do meio-dia, havia cinco banhistas dentro do mar. Nas ruas, várias pessoas e carros. Comparado com Beirute e o norte do Líbano, estava deserta. Comparada com Tiro, estava cheia. Em Tiro, a maioria dos veículos é de caminhões a serviço da ONU, táxis e carros da imprensa.
É possível que o som de bombardeios ouvidos em Qana hoje ao meio-dia tenha vindo da cidade de Aita-Al-Shaab, que foi duramente atacada por Israel.
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 Nem todos os negócios vão mal
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 01:03:01.
BEIRUTE - Em meio ao conflito e às queixas unânimes por causa da destruição do país, alguns empresários libaneses estão ganhando, até agora, com os embates entre o Hezbollah e as forças israelenses. Os ganhadores não podem ser divididos por ramos. Na área da alimentação, por exemplo, há quem esteja faturando e existem também os que perdem diariamente.
 O gerente de supermercado Tony Sleiman
Na rede de supermercados Spinney’s, uma das maiores do país, com seis hipermercados, as vendas deram um salto nos primeiros quatro dias do conflito e depois se estabilizaram no patamar anterior. “Olhando apenas para os números, dá para dizer que os negócios vão bem”, diz o gerente Tony Sleiman, da filial no norte de Beirute. Logo depois do início dos bombardeios, os libaneses encheram os supermercados para estocar comida, lâmpadas, roupas de cama, lanternas, velas e pilhas. Temia-se, naqueles dias, uma guerra que não permitisse a ninguém sair de casa e, por isso, achava-se que era necessário estocar. O resultado foi um aumento de 100% nas vendas de alimentos e 30% nas dos demais produtos.
Como aviões israelenses começaram a bombardear a região onde fica um dos depósitos do Spinney’s, a empresa foi obrigada a transferir seus produtos para a área de um estacionamento mais ao norte. “Todos os preços estão os mesmos”, garante Sleiman. O que sobe todo dia é a preocupação com o estoque, que deve durar mais dez dias. Os primeiros itens a faltar, caso o tráfego de caminhões continue restrito dentro e nas fronteiras do país, são leite, arroz e comida enlatada.
Na quitanda de Rani Akike, a poucas quadras do supermercado, o drama já começou. Todas as frutas que vinham do sul aumentaram de preço. O do limão, que chegou a subir 1000%, só teve uma ligeira queda porque alguns caminhoneiros resolveram se arriscar e trouxeram um grande carregamento do sul. Já começaram a chegar caixas de limão importadas da Argentina por países do Golfo Pérsico. Os legumes e verduras são produzidos em grande quantidade no Vale do Bekaa, que fica a leste de Beirute, entre a costa e a fronteira com a Síria. “Duas picapes carregando alface e espinafre foram bombardeadas na quinta-feira e está difícil convencer os produtores a fazer a viagem”, reclama Akike.
 O quitandeiro Rani Akike: "Está difícil convencer os produtores a fazer a viagem"
Quem sai para comprar frutas, verduras e legumes nunca sabe os preços que vai encontrar. É tudo definido pela lei da oferta e da procura, tudo depende dos carregamentos que conseguem chegar. Para complicar, os sírios, que constituíam grande parcela dos trabalhadores rurais no Bekaa, estão indo embora. “Os clientes não querem saber mais de frutas, que tiveram uma queda nas vendas de 50%. Agora só pensam no essencial: batata, cebola, tomate e pepino”, explica Akike, que estima suas perdas em toda a temporada em mais de US$ 50 mil. “Forneço para os melhores restaurantes de Antelias e, se não estão fechados, recebem poucos clientes.” No sábado à noite, um deles, o Al Halabi, tinha apenas quatro mesas ocupadas.
Se as quitandas estão reclamando, algumas das grandes padarias nunca venderam tanto. A Keyrouz, uma das de melhor reputação em Beirute, aumentou as vendas de pães em 70%. Com a chegada de milhares de pessoas do sul, a demanda por comida aumentou muito em Beirute e no Vale do Bekaa, onde a Keyrouz vende para supermercados e pequenos armazéns. Os estoques de farinha de trigo ainda estão cheios. “Temos nossos próprios carros e, por enquanto, nenhum foi atacado”, disse o gerente Jean Michel Finianos na sexta-feira, antes de voltarem as longas filas nos postos de gasolina. A partir de domingo, vários deles amanheceram fechados e ainda é incerto se continuarão assim e que efeito isso terá na distribuição e no consumo.

Finianos em sua padaria: crescimento de 70% na venda de pães
No setor do entretenimento, a localização geográfica é essencial. Os negócios em regiões consideradas seguras vão bem. Os demais estão fechados. Em Brumana, na área cristã do Monte Líbano, todo dia é sábado. “Se não fosse a guerra, as pessoas viriam para cá, mas também iriam para a costa. O normal nesta época do ano seria ver mais turistas e alguns libaneses. Os melhores dias seriam sexta, sábado e domingo. Agora só tem libanês e todo dia é movimentado”, diz Aida Saadé, a caixa do Manhattan Center, um bar e restaurante de Brumana.
Pela TV, Beirute parece uma cidade em pânico. O medo existe, mas parte das pessoas sai, trabalha e se diverte. Como sunitas, cristãos, drusos e xiitas vivem em bairros separados e a ofensiva de Israel é direcionada à base de apoio do xiita Hezbollah, a população se sente segura na maior parte da cidade, principalmente nas montanhas, longe de portos, aeroportos, viadutos e caminhões.
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 No setor do vestuário, faltam clientes
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 00:56:44.
Um dos exemplos dos que estão mal independentemente da localização e dos estoques é o ramo do vestuário. Poucos libaneses parecem estar dispostos a tirar a carteira do bolso para sair com uma calça ou camisa nova. Assim como acontece todos os anos nesta época, as lojas promovem grandes liquidações.
Apesar disso, as duas lojas da Armani Jeans no Líbano ainda não conseguiram resolver o problema da falta de clientes. A loja do shopping center ABC de Dbayeh, na região norte de Beirute, deveria estar vendendo o equivalente a US$ 5.500 por dia, mas não passa de US$ 1.300. A situação é parecida nas lojas de Joseph Eid, que vende a marca Polo Ralph Lauren com exclusividade no Líbano.
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30.07.06
 Manifestantes invadem sede da ONU em Beirute
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 22:38:18.
BEIRUTE - Manifestantes invadiram neste domingo, 30, a sede das Nações Unidas em Beirute. Estavam todos furiosos com o ataque israelense em Qana, na região sul do Líbano, que matou mais de 50 civis, a maioria mulheres e crianças. Dentro do prédio, quebraram vidros e provocaram fogo, logo controlado.
Na hora da invasão, havia 80 funcionários das Nações Unidas no prédio, libaneses e estrangeiros. Nenhum ficou ferido. Os manifestantes conseguiram chegar ao segundo andar destruindo o que viam pela frente.
Em seguida, tropas do Exército libanês chegaram, e os manifestantes se uniram aos que já estavam na praça em frente, a Riad al-Solh, na área central da cidade, onde dirigentes do Hezbollah pediam calma e faziam discursos com a ajuda de alto-falantes. “A resistência é terrorismo? Está certo pedir o desarmamento da resistência? Viva o Hezbollah, viva o Hezbollah”, gritava um dos representantes do grupo xiita após a invasão.
De acordo com um dos organizadores, um dos homens que carregavam rádios de comunicação e não quiseram dar seus nomes, o protesto foi o maior do Hezbollah em Beirute desde o começo da guerra, no dia 12. Pelos seus cálculos, havia 10 mil pessoas na praça, embora a maior parte das estimativas tenha ficado em torno de 5 mil.
Pelo menos dois carros foram atacados quando tentavam sair do prédio. O ministro do Interior libanês, Ahmed Fatfat, que se deslocou ao local depois de saber do tumulto, foi seguido por simpatizantes do Hezbollah na saída, mas seguranças evitaram a abordagem.
Em um comunicado, a ONU disse entender a raiva provocada pelo ataque em Qana, mas também ressaltou que “está preocupada com os atos destrutivos de um pequeno grupo de manifestantes”. Ainda assim, não pretende mudar suas operações no Líbano.
Sob um calor de 32 graus na sombra, os manifestantes empunhavam bandeiras de várias cores. Estavam lá, além da do Hezbollah, as bandeiras da maior parte dos partidos que apóiam o movimento fundamentalista xiita: o grupo xiita moderado Amal, o pró-sírio Al- Kawmi, e o Movimento Patrótico Livre, o do general cristão Michel Aun.
Entre a multidão, dezenas de cartazes com a imagem do xeque Sayyed Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, muitas bandeiras do Líbano e algumas palestinas.
“Se as Nações Unidas não servem para proteger civis inocentes, então servem para quê?”, perguntou o bancário Hussein el-Khateeb.
Mona Taleb, dona de uma loja de material esportivo na cidade de Chahabia, no sul, que divide uma sala de dois cômodos com 12 parentes em Beirute, disse: “Eu beberia o sangue de Condoleezza Rice em um copo depois do que aconteceu em Qana.”
Segundo a agência Associated Press, dois de seus cameramen foram feridos no empurra-empurra no prédio das Nações Unidas. Apesar disso, o clima entre os manifestantes e a imprensa era bom. Todos queriam expressar o seu apoio incondicional ao Hezbollah e à resistência contra as forças israelenses.
“Eu vim por causa das mortes das crianças”, disse Mohi al-Mousawi, um carpinteiro de 21 anos, segurando uma bandeira verde do Amal.
“Quando será o próximo protesto?”, repetiu, ao ser indagado, um dos homens que carregavam rádios de comunicação e não quiseram dar seus nomes. “Quando o partido decidir.”
Em comparação com os últimos 11 dias, hoje foi aquele em que se viu a presença mais ostensiva das tropas do Exército libanês nas ruas de Beirute. Entre o centro e Antelias, no norte da região metropolitana, havia vários pontos de controle nos quais os carros não paravam, mas eram obrigados a reduzir a velocidade. Além de soldados das tropas comuns, o contingente contava com membros dos grupos de elite. À noite, uma vigília com velas lembrou os mortos de Qana.
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29.07.06
 `É a vez de os xiitas perderem'
por Eduardo Salgado, Seção: no front às 21:44:39.
BEIRUTE - O economista Boutros Labaki, de 64 anos, tem forte ligações com o Brasil. Além dos parentes que emigraram e vivem em São Paulo, Labaki conviveu com muitos brasileiros quando era estudante em Paris, nos anos 60. Foi até aluno de Fernando Henrique Cardoso na Sorbonne. Depois de mais de duas décadas como professor de desenvolvimento econômico na Universidade Libanesa, hoje ensina na St. Joseph University de Beirute. Por dez anos foi o vice-presidente do Conselho Libanês para o Desenvolvimento e a Reconstrução, o órgão responsável pela recuperação do país após o fim da guerra civil.
Casado e com duas filhas, vive em Baaddat, nas montanhas próximas a Beirute. A seguir, os principais trechos de sua entrevista ao Grupo Estado.
HEZBOLLAH
O Hezbollah é uma filial libanesa de uma organização internacional com sede em Teerã. De certa forma, se parece com a organização da Internacional Comunista, a Comintern. Foi fundado pela revolução islâmica iraniana e tem várias filiais espalhadas pelo mundo, como a União Soviética tinha os partidos comunistas. É um movimento xiita fundamentalista. Tem um partido político, uma milícia, ou seja, um braço armado, e uma extensa rede de serviços sociais, como escolas, hospitais, programas de microcrédito, editora, canal de televisão, jornal, rádio e instituto de pesquisa. Essa rede fez com que ganhasse apoio. Recebe a ideologia, a ajuda financeira e militar dos iranianos e, ao mesmo tempo, tem raízes fortes entre a comunidade xiita do Líbano. Possui uma bancada no Parlamento e ministros no governo. A sua principal função militar é contra Israel. É usado pelo Irã como parte de sua estratégia contra o Ocidente.
FUNDAMENTALISMO XIITA
O fundamentalismo é uma ideologia de protesto contra a dominação ocidental no Terceiro Mundo. Durante boa parte do século 20, as principais ideologias de protesto eram o marxismo e o nacionalismo. Naquela época, o fundamentalismo era usado pelas potências ocidentais contra a expansão comunista e contra o nacionalismo. Com o final da Guerra Fria, o fundamentalismo se voltou contra o Ocidente. Foi o efeito bumerangue. No caso específico do fundamentalismo xiita, ele está centrado no Irã após a chegada ao poder do aiatolá Khomeini em 1979.
XIITAS LIBANESES
Os xiitas são mais de 1 milhão de pessoas no Líbano (as estimativas variam de 25% a cerca de 40% da população). Têm laços fortes com os xiitas do Iraque e do Irã. O centro religioso dos xiitas está no Iraque, mas isso mudou com a guerra entre Saddam Hussein e o Irã (nos anos 80). Houve um deslocamento para o Irã. Os iranianos foram convertidos à vertente xiita por clérigos xiitas libaneses no século 17. Portanto, há antigas ligações entre as duas comunidades.
Após a Revolução Islâmica iraniana, o governo começou a enviar para o Líbano membros dos Guardiães da Revolução. Com o apoio da Síria, entraram na região do Vale do Bekaa no começo dos anos 80 e iniciaram a sua organização militar e social. Naquela época, o sul estava ocupado pelos israelenses.
RESISTÊNCIA
Os comunistas, os xiitas do Amal, um grupo mais moderado, e o partido nacional e social sírio começaram a resistir à ocupação israelense. Seguindo diretrizes do Irã e da Síria, o Hezbollah foi para a região sul do Líbano no começo dos anos 90, com a permissão velada de Israel. O objetivo israelense era exacerbar o conflito entre os xiitas moderados do Amal e os do Hezbollah, o que de fato aconteceu. Com o apoio dos sírios, os donos do poder no Líbano, o Hezbollah passou a dominar a resistência. Quem não foi atraído acabou esmagado. Assim, o movimento contra a ocupação começou como algo nacional e se transformou numa resistência xiita.
A luta do Hezbollah contra a ocupação acabou sendo o único exemplo de grupo árabe que conseguiu vencer as tropas israelenses. Os últimos soldados israelenses voltaram para casa em 2000. Isso teve um efeito muito forte no mundo árabe, especialmente na Palestina (os territórios ocupados).
DESARMAMENTO
Com o fim da guerra civil libanesa, que consumiu o país entre 1975 e 1990, todas as milícias (cristãs, drusas, sunitas, palestinas e xiitas) aceitaram entregar as armas. Todas menos o Hezbollah, que tinha o apoio da Síria, os controladores do governo libanês.
Até 2000, ano da retirada israelense, todos apoiavam o Hezbollah. Depois começaram os problemas. A única região que continuava ocupada era a das Fazendas de Shebaa, uma minúscula área que o Líbano tinha cedido à Síria e que se mantinha, junto com a Colinas de Golan, sob controle israelense. Pois essa região montanhosa, pequena, que serve apenas para pastores levarem suas cabras no verão, acabou servindo de desculpa para o Hezbollah manter suas armas e impedir a entrada do Exército libanês no sul do país. O Exército não tinha condições de impor o desarmamento à força e ainda corria o perigo de se desintegrar, já que parte das tropas é xiita.
RESPONSABILIDADE
DE ISRAEL
Se Israel tivesse aceitado sair das Fazendas de Shebaa, teria acabado com a desculpa do Hezbollah para não se desarmar. Há também a questão dos prisioneiros libaneses em Israel e a das minas no sul do Líbano. Israel nunca entregou o mapa com a localização delas. Volta e meia, há gente ferida e morta por essas minas. Isso tudo é parte do contencioso que precisa ser examinado. Não dá para colocar toda a responsabilidade em apenas um lado. Essa é a essência do que o governo libanês disse na conferência de Roma na semana passada.
AS CAUSAS DA GUERRA
Não é preciso fazer essa guerra para resolver todo o contencioso (a ocupação das Fazendas de Shebaa por parte de Israel, o silêncio sobre a localização das minas no sul do Líbano e os prisioneiros libaneses nas prisões israelenses). Para mim, trata-se claramente de uma guerra entre o Irã e os Estados Unidos que está sendo travada no Líbano entre os guerrilheiros do Hezbollah e as tropas israelenses. O Irã abriu essa frente para desviar a atenção dos Estados Unidos da questão nuclear (nos últimos meses, o Conselho de Segurança da ONU intensificou a pressão sobre o Irã para que o país aceite parar de enriquecer urânio por temer que o governo iraniano esteja interessado na fabricação de bombas).
Há outro fator: Israel foi humilhado pelo Hezbollah em 2000. Um dos mais bem equipados Exércitos do mundo, "os invencíveis israelenses" correram dos guerrilheiros do Hezbollah. Os militares nunca engoliram isso e queriam vingança. O Hezbollah também é, na visão israelense, um mau exemplo para os palestinos. Fora isso, Ehud Olmert, o primeiro-ministro israelense, e Amir Peretz, o ministro da Defesa, tinham de provar que são durões.
REAÇÃO ISRAELENSE
ERA ESPERADA
Francamente, não sei dizer se os membros do Hezbollah no Líbano esperavam essa resposta israelense (ao seqüestro de dois soldados, o estopim da guerra).
Quanto aos iranianos, duvido que não soubessem. Todo mundo que tem acesso à internet e aos jornais de todo mundo sabia do clima em Israel nos últimos meses. Pouco tempo antes, grupos palestinos tinham seqüestrado um soldado. E a reação dos israelenses na Faixa de Gaza já tinha sido desproporcional.
SOCIEDADE LIBANESA
Como quase todas as sociedades árabes do Oriente Médio, a libanesa é multirreligiosa (muçulmanos sunitas e xiitas, cristãos e drusos). Cada grupo tem a sua crença e as suas práticas religiosas. Isso se dá obviamente no plano pessoal e das famílias. Acima disso, cada grupo tem a sua rede de escolas, de organizações voltadas ao bem-estar social, jornais, televisões e partidos políticos. Dividem o governo num sistema de cotas, assim como na Suíça. No Líbano, esta divisão de poder é explícita e consta na lei. Em outras partes do Oriente Médio, não é oficial, mas também existe. Isso já vem do tempo do Império Otomano.
Antes do início da guerra civil no Líbano, as várias comunidades eram mais misturadas. Havia a predominância de um ou outro grupo, mas também a presença de pessoas de diferentes crenças. Com o conflito, houve várias tentativas de limpeza étnica e comunidades foram deslocadas. Assim, os bairros e os vilarejos passaram a ser mais homogêneos.
Entre os cristãos, há mais de 15 subdivisões. Apesar disso, é uma comunidade mais integrada e se vê casamentos entre cristãos de diferentes orientações.
Já a comunidade muçulmana é mais segregada. São raros os casamentos entre xiitas e sunitas. As duas comunidades brigam pelo poder no Líbano e também refletem os conflitos entre xiitas e sunitas na região, como no Iraque, por exemplo.
NÃO É UMA
GUERRA DE CLASSES
Antes da guerra civil, na década de 70, os xiitas já vinham conquistando grandes progressos. Os anos de estudos aumentaram, assim como a presença no funcionalismo público. Parentes que emigraram mandavam dinheiro e houve o crescimento de uma classe burguesa xiita. Com o apoio dos sírios e iranianos, essa mudança continuou e, com o fim da guerra civil em 1990, eles passaram a dividir o poder com os sunitas. Por isso, tinham todas as benesses do poder à sua disposição. Não dá mais para descrever a situação como uma guerra de classes. Na região oeste de Beirute, onde há vários prédios novos, os inquilinos são árabes do Golfo e xiitas.
QUEM GANHA NO LÍBANO
SE O HEZBOLLAH PERDER
Ninguém. É uma situação em que todos perdem. Da parte do governo libanês, parece já haver uma decisão implícita de ir adiante com o desarmamento e integrar o Hezbollah ao Exército. E parece que os ministros do Hezbollah estão ouvindo esse plano sem protestar. Se o governo conseguir que o Hezbollah se desarme e tomar o controle da região sul, todos no Líbano irão ganhar, inclusive os xiitas, que são parte fundamental do país e já deram enormes contribuições, como a libertação do sul em 2000. Com o conflito atual, estão perdendo a admiração de outros grupos libaneses.
É DIFÍCIL O HEZBOLLAH
VOLTAR A SE ARMAR
Se, ao final do conflito, o Hezbollah tentar se rearmar, será mais difícil, mas não impossível. Já há países falando em uma força internacional para vigiar a fronteira com a Síria. Em termos políticos, também será menos aceitável. As pessoas vão lembrar que as minúsculas Fazendas Shebaa nos custaram a destruição do Líbano. Os cristãos e os sunitas já estão fazendo esse cálculo.
É cedo para dizer se os xiitas vão cobrar o Hezbollah pela destruição. Quanto mais tempo durar a guerra, acho que mais gente irá responsabilizar o grupo.No século 19, os drusos perderam o poder. Na primeira metade do século 20, foi a vez dos cristãos. Com a guerra civil, os sunitas perderam. Agora está chegando a vez dos xiitas. Nenhum grupo religioso pode impor sua vontade no Líbano. Qualquer futuro governo dependerá de um grande acordo.
MEDO DO PÓS-GUERRA
O perigo de que o influxo de xiitas vindos das áreas atacadas cause problemas em Beirute por quebrar o balanço demográfico é real. Por ora, eles estão em escolas em áreas sunitas e cristãs. E quando as aulas começarem, em outubro? E quando o inverno chegar? Falar em invasões de casas e edifícios é um exagero agora, mas o governo já deveria estar pensado em onde colocá-los, já deveria estar montando casas pré-fabricadas.
ORGULHO ÁRABE
Nas ruas, mesmo gente que critica o Hezbollah e quer o seu desarmamento de qualquer jeito está orgulhosa com a maneira como o grupo está reagindo no sul. Sem aviões, sem tanques, o Hezbollah já é a organização que por mais tempo atacou o território israelense e o conflito nem acabou. Nenhum país fez isso. As críticas e essa admiração são um exemplo de como os seres humanos às vezes têm sentimentos contraditórios.
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