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09.06.08
nelson almeida/AE
o agricultor joão régis aos 89 anos (hoje, teria 101, e é pouco provável... mas não é impossível)
JOÃO RÉGIS
Especial para o Estado
Toda minha família vivia em Canudos: pai, mãe, avô, avó e os tios. Do cerco a Canudos, escaparam meu pai e meu avô: tinham saído para buscar o que comer. Naquela época, o Conselheiro mantinha muito criatório de boi e bode fora do arraial. Parecia saber que teria de enfrentar um cerco. Quando meu pai e meu avô voltaram, não conseguiram passar pelo cerco e só por isso escaparam da morte.
Os soldados diziam para todo mundo na região e faziam que isso fosse passado para frente: “A estrada de Uauá está aberta.” Era um sinal para que as pessoas fugissem, porque o couro ia comer brabo. Muitos fugiram, mas minha avó e minha mãe ficaram.
Minha mãe contou que os homem que ficaram, depois da rendição, foram para a degola. Colocaram as mulheres no leito seco do Rio Vaza-barris, num lugar de onde não podiam ver o que estava acontecendo. Então, eles chamavam os homens. Diziam que iam levar para Monte Santo. Lá no alto do morro, debaixo de três juazeiros, deitavam os homens no chão e enfiavam a baioneta no pescoço deles. O infeliz ficava rodopiando e se contorcendo sem poder gritar, até morrer.
Mataram uns 30 homens assim, inclusive o Beatinho, que foi negociar a rendição com o general Arthur Oscar, que prometeu que ninguém ia fazer mal aos rendidos. Foi uma covardia. Diziam para os homens que iam morrer: “Vamos embora, vamos para Monte Santo.” E matavam gente desarmada sem piedade, com raiva.
Da minha casa posso ver a árvore onde, na terceira luta, deixaram o corpo do coronel Moreira César. Largaram ele ali e fugiram. Então veio o povo aqui mesmo da região, colocou lenha em cima e botou fogo.
Mas escapou muita gente. Escapou até um homem que era mudo. Minha avó disse que ele correu amarrado para debaixo de uma moita de espinho e saiu se arrastando. Os soldados tentaram levar a moita no peito e não conseguiram. O homem correu e ficou escondido na serra, até que de noite outros fugitivos o soltaram.
Minha mãe e minha avó foram presas para Salvador. Ficaram lá muito tempo, até que o Lélis Piedade deu passaporte para elas voltarem a Canudos. Elas sabiam que meu pai e meu avô tinham escapado.
Meu pai me contou que as primeiras armas que os jagunços de Conselheiro conseguiram foram tomadas de dois soldados. Os jagunços pegaram os soldados em Juazeiro e levaram para o arraial. O Conselheiro ralhou com eles: “Mas o que lhes fizeram esses soldados?” E mandou soltar os homens, mas disse para ficarem com as armas deles, duas manulixas (como os sertanejos chamam os fuzis austríacos Mannlichner usados na guerra). Uma dessas manulixas foi usada pelo meu tio, Zé Guerra, morto no último combate porque era muito afoito.
Quando Moreira César chegou para o terceiro combate, tudo que os jagunços tinham de armas eram duas manulixas. Foi Moreira César quem municiou Canudos. Teve uma vez que chegou um carregamento de fuzis para o acampamento dos soldados e os jagunços deram alguns gritos e tiros no meio da caatinga e os soldados fugiram, deixando centenas de fuzis para trás.
Era um tempo bom, havia grandeza e fartura, roça, criatório. Canudos produzia tão bem que Antônio Vilanova fez contrato para vender pele de bode em Juazeiro e Feira de Santana. Vilanova tinha uma tropa de 12 burros.
O Conselheiro não gostava que dissessem Canudos. Queria que dissessem Belo Monte, que cortaria a língua de quem dissesse Canudos. Aí um dia chegou um jagunço muito forte e muito invocado e disse que não ia dizer Belo Monte. E repetiu: Canudos, Canudos, Canudos. E ninguém fez nada com ele.
A Força matou 150 cabeças de gado dos criadores da região. Mas os fazendeiros ricos, como Manoel Macambira, fizeram o governador pagar as reses que perderam na guerra. Os pequenos não tiveram um centavo.
Meu pai era Reginaldo José de Matos. Meu avô, pai da minha mãe, era Manoel José dos Santos. Não era gente de guerra, era gente como eu. Queriam comer, plantar e cuidar da vida.
Do que eu me lembre, aquele povo só contava que o Conselheiro era gente boa.
João Régis vivia em Canudos em 1996, quando colhi este seu depoimento. Era uma das grandes fontes para os pesquisadores sobre a Guerra de Canudos. Falou comigo já pela noitinha, sob a luz de um candeeiro, depois de percorrer ao meu lado toda a região a pé. Os filhos e netos todos em volta, com olhares deslumbrados. Nelson Almeida fotografou. Tinha uma vaca magra no terreiro, umas galinhas. Uma secura que só tinha visto em capa de livro do Graciliano Ramos. Já tava indo embora quando me detive, enfiei a mão no bolso, voltei e dei-lhe R$ 20. Só o que tinha. Ele parecia não acreditar no que estava se passando. Quase chorou. Não sei porque cargas d’água, hoje dirigia no trânsito e me lembrei vivamente dele.
Comentários:
Comentário de: Nico [Visitante]
09.06.08 @ 22:18engraçado como a gente lembra das coisas... engraçado como as coisas acontecem... tenho visto alguns filmes de faroeste... uma professora falou sobre a gurra dos canudos hoje... e não é que as histórias tem alguma coisa em comum?
Comentário de: daniel marques [Visitante] · http://www.ferrugemnuncadorme.blogspot.com
11.06.08 @ 18:10Belo retrato da simplicidade do homem frente aos complicados rumos da história. Achei o máximo a definição que João Régis dá ao seu tio:
"Uma dessas manulixas foi usada pelo meu tio, Zé Guerra, morto no último combate porque era muito afoito."
abraço JB
Comentário de: Emily Divino [Visitante] · http://serurbano.mao.art.br
13.06.08 @ 10:05Olá, gostaria de um e-mail para contato, quero falar sobre uma mostra chamada SER-Urbano que vai ocorrer aqui em São Paulo!
Obrigada, abraços!
Assessoria de Imprensa
Emily Divino
emily_divino@hotmail.com
http://serurbano.mao.art.br
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