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31.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 20:13:49.


shane mcgowan, cantor dos pogues

1. a expressão pogue mahone, em gálico, quer dizer o mesmo que "kiss my ass", ou beije meu rabo. foi daí que a banda punk the pogues tirou seu nome.
bolsa de apostas do rock dá conta que shane mcgowan, cantor dos pogues, tem menos de 6 dentes na boca. otimistas falam em 12.
tem uma hora em que você quer fazer com que todo mundo à sua volta ouça the pogues.
http://www.youtube.com/watch?v=w52I72-1FT4

2. nesses dias de blogs & rosas, o que parece mais óbvio é que ninguém mais precisa dos antigos megafones das supostas maiorias (TV e jornais e portais corporativos) para saber o que está acontecendo.
nem para tomar uma atitude.
mas já houve um tempo em que a luta era mais renhida, e ainda assim surgiam caras como gil scott-heron. muito, muito antes de o pessoal do sul do Bronx reinvindicar a invenção do hip-hop.
http://www.youtube.com/watch?v=uTCQSk2l8bc&mode=related&search=

 


29.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 17:19:41.


amiga me pede dicas de um lote de cansongs para ouvir quando estiver aterrisando em sp. adiantei minha lista da semana:

1. tWO wAY mONOLOGUE, Sondre Lerche
http://www.youtube.com/watch?v=AyeHDa0d84g

2. lIKE A rOLLING sTONE, Jimi Hendrix, ao vivo no Monterey Festival
http://www.youtube.com/watch?v=X3WeABKGckc
(o avião descia em atlanta, e começou a tocar jimi no rádio da delta airlines, essa música. chapei. não espanta que ele tenha sido um herói de dois mundos e que atravesse os anos intocado)

3. hEARTBEATS, José González (do disco vERNEER)
http://www.youtube.com/watch?v=s4_4abCWw-w
(toca aqui na semana que vem. estarei lá)

4. bOA sORTE, gOOD lUCK, Ben Harper e Vanessa da Matta
(se tocar no rádio, vira sucesso interplanetário)

5. bICHO DE sETE cABEÇAS, Zé Ramalho (violão solo)
(zé ramalho, meu velho herói nos corredores do campus universário)
http://www.youtube.com/watch?v=4WPck_e-iBA

 


28.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 16:07:42.


o irreverente blowfly, de máscara, e sua trupe

para ser irreverente, não basta querer.
tem de ter o timing, a pegada, a velocidade, o jeito, a doideira.
blowfly, boca-suja, politicamente incorretíssimo, tem tudo isso.
ele, que proclama ter sido o grande inventor do Miami Sound.
ele, que vive há 35 anos atrás de uma máscara de personagem de cartoon, mas não foi sempre assim.
nos anos 60 e início dos 70, ele foi um ídolo emergente do R&B com seu próprio nome, Clarence Reid. Foi gravado por KC & the Sunshine Band, Betty Wright e Gwen MacRae. em 1969, foi top ten nos Estados Unidos com o hit soul Nobody but You Babe.
um belo dia, vestindo uma máscara de telecatch, cercado de figuras bizarras e mulheres peladas, ele incorporou um personagem, Blowfly, cujas especialidades eram paródias sujas de músicas de sucesso.
por exemplo: Ramones (I Wanna be Fellated) e Clash (Should I Lay this Big Fat Ho) foram “pervertidos” pelo porno freak Blowfly.
Seu apelido, contam, lhe foi dado pela avó, que o pegou, ainda garoto, falando um monte de barbaridade enquanto ouvia uma música que fazia sucesso na época.
blowfly nunca deixava cair a máscara publicamente. por quê? bom, dizem que é porque, apesar da boca-suja, é superfamília, cristão praticante, não fuma e não bebe e ajuda nas pregações em sua igreja.
outra era por causa da infinidade de processos que pegou, de gente como os ex-parceiros do 2 Live Crew e de Stanley Adams (esse último, autor do standard de jazz What a difference a day makes, teve de ouvir o cara que processava cantando para todo lado uma versão suja, What a difference a Lay makes).
pois bem: a notícia é que Clarence voltou a excursionar com sua própria pele.
Ele tocou no fim de semana em Miami, ainda como Blowfly, o show Against All Authority.
Tem um disco novo, lançado pelo selo Alternative Tentacles, de Jello Biafra, do Dead Kennedys, que Blowfly chama de "Jello B. Afrika".
O homem é inacreditável, acreditem em mim.
"Meu show é um pervertido e funky freak show para toda a família. Então estou feliz em tocar para todas as idades aqui no Studio A, porque os
garotos podem aprender sobre a verdadeira sujeira - não aquela da Paris Hilton, aquela sem-bunda que nem mesmo pode comprar um juiz ou operar uma câmera de cinema enquanto dá o rabo".
Essa foi a mais amena que pude encontrar entre as declarações de Blowfly.
Por que não trazem logo esse cara para cá?

 


Link permanente BOB
por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 14:58:11.

foto: jotabê medeiros

duas ou três coisas sobre o show do roberto carlos em miami.
não, chega do papo sobre a biografia, aquilo já encheu.
curioso notar a fluência como roberto transita entre dois mundos, o da sentimentalidade nacional e o do coração hispânico.
e ele não faz o mínimo esforço.
a maior parte dos espectadores no ziff ballet opera house, em miami, na quinta-feira, era formada por chilenos, colombianos, mexicanos, argentinos, cubanos, porto-riquenhos.
claro, os brasileiros compareceram, mas não chegavam a metade.
o secular divórcio cultural entre o brasil e seus vizinhos de língua espanhola por vezes parece uma barreira quase intransponível.
caetano tentou, com cavaleiro de fina estampa, superar essa aversão de uns e outros. foi bem-sucedido, mas às vezes acho que ele forçou a barra, chega a mimetizar as grandes vozes latinas para conseguir sua façanha.
admitimos, de vez em quando, uma shakira, e eles parecem incorporar a ivete em um ou outro momento.
charlie garcia e fito paez, jamás!
roberto cantou insensatez em espanhol, e aquarela do brasil em português.
uma senhora colombiana ao meu lado, na fila E, chorou.
ela olhava desesperada para trás para focalizar visualmente o marido, que tinha ficado na fila N.
sim, há um bocado de cafonice nisso tudo, e por que não?

 


22.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 20:41:45.

Chove na baía de Miami, Bay Biscayne, de onde escrevo nesse momento. A vista da minha janela é bacanérrima. Andei pouco pela cidade, que não conheço, sempre passei pelo aeroporto no máximo. Vou escrever do que mal vi, mas é uma tentação irresistível fazer isso. Temos sacramentada a idéia de que Miami é a essência do excesso, do novo-riquismo, daquilo que devemos evitar a qualquer custo. Não é raro alguém, quando fala mal da Barra, dizer que é uma miamização do Rio de Janeiro. Sim, esse lado existe, mas não é só: a meca linguística que vive aqui é de secar a língua e entortar a cabeça.
Sim, vocês têm razão, o juiz Lalau tinha apartamento por aqui. Mas o Iggy Pop também mora aqui. E diz que escolheu Miami justamente porque é uma cidade que dribla a tradição e a pose de aristocrata.
Bom, aqui, Rosa Chá é a grife brasileira que marca presença. Tem uma churrascaria Porcão no lobby do meu hotel. As novelas na TV são Chocolate com Pimenta e Puerto de los Milagros. Aqueles canais de venda ininterrupta anunciam, por US$ 17, o disco Grandes Éxitos, de Roberto Carlos. Na entrevista coletiva de Roberto Carlos, no hotel Intercontinental, da qual participei agora pouco, os técnicos testavam o som da mesa. Um deles começou a falar nos microfones: “One, two, three...!. Um gaiato lá nos equipamentos gritou: “En español, por favor!”. Risos gerais na sala. O técnico reiniciou: “Uno, dos, três...”. O gaiato emendou: “Depois, faz em português!”. Todo mundo rachou o bico.

 


18.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 13:19:22.

j.f.diorio/AE

estudantes fazem greve na universidade de são paulo e reinvindicam a manutenção da autonomia nas instituições, ameaçada por um governo centralista e que tem demonstrado certa vocação autoritária.
os alunos querem mais professores, mais moradia estudantil, mais investimentos.
os governos parecem ansiosos para entregar todo ensino à iniciativa privada (ou ao primeiro beletrista que escreva livros de auto-ajuda em cascata).
parecem querer toda a verba na mão de um único xerife, muito mais fácil de ser direcionada oportunisticamente.
e os principais jornais e a principal TV caem de pau nos estudantes:
vândalos!
baderneiros!
afrontam a Justiça!
não têm bom desempenho escolar!
parece que estamos de volta ao 1968.
os argumentos contra a mobilização dos estudantes são típicos de tempos cinzentos recentes. são argumentos brandidos em coro, e sem dar o direito ao contraditório.
os governos mandam e desmandam, quase sempre contra o interesse público, e ninguém faz nada.
quando faz, é taxado de subversivo ou bagunceiro.
de minha parte, eu digo: garotos, toda força pra vocês!
reinvindiquem!
retomem a chave da vanguarda, da utopia, do seu próprio futuro.

 


16.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 15:13:50.

foto: fernanda lopes

acompanho há dias nos blogs a agonia dos amigos por marisa.
marisa, que não conheci, está muito mal.
tem apenas 28 anos.
a morte a enlaça muito cedo, e não quer largar, não vai largar.
fico mais angustiado pela situação dos amigos, que estão chorando agora.
ninguém mais escreve coisas delirantes, nem faz campanhas civilizatórias, nem rema contra a maré dos colaboracionistas, nem anuncia as peças de teatro, os shows, não festeja os gols dos seus times.
está todo mundo pensando na marisa.
e ela se foi à meia-noite e um pouquinho.
fico pensando que às vezes deixamos de conhecer gente muito interessante por pura preguiça.
hoje, o pinduca postou uma foto dela.
dio mio: era linda a marisa.
também fui ao blog dela e pesquei umas frases.
Meninas, acostumem-se a passar num buteco sozinhas. Bebam o que quiserem, pois ninguém vai enchê-las, eu garanto. E olhem de vez em quando para o céu. É piegas, mas ele te dá mais respostas que os florais de bach...
É isso aí. Keep walking.

cheio de textos bacanas o blog da marisa lobo.
aos 28 anos, eu me tornava o orgulhoso pai de matheus, que agora está fascinado por clarice lispector.
e marisa morreu aos 28 anos, o que é uma crueldade do destino.
pensei em ligar para alguém, mas nem sei o que dizer. nem conhecia marisa. talvez ela tivesse chegado no exato momento em que eu tava saindo da mercearia são pedro. que azar o meu!
então, saquei de novo um trecho de um dos meus poemas favoritos de todos, cissy, de raymond chandler. sempre volto a esse texto, mas é tudo que me ocorreu. keep walking!

há um momento após a morte
em que o rosto se torna belo
e os suaves olhos fatigados se fecham;
em que a dor acabou
e a antiga, antiga inocência do amor
gentilmente retorna e fica por perto
apenas por mais um instante
há um momento após a morte (que sequer é um momento)
em que as coloridas roupas penduradas no armário perfumado
e o sonho perdido esvaem-se lentamente;
em que os vidros e o copo de prata e o espelho vazio
e os três compridos fios de cabelo na escova
e o lenço dobrado e a cama refeita
com seus gordos travesseiros (onde nenhuma cabeça repousará) é tudo que restou de um grande sonho selvagem

 


15.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 16:54:13.

Quem é do interior sabe: o cabra cagão que vem de fora é sempre mais valorizado do que o herói que vive dentro. Morre um escritor americano de segunda, ganha uma, duas páginas. Ganha fechamento de telejornal com direito a narração compungida, de luto interplanetário.
Acontece que nessa segunda-feira morreu Marinês.
Quem?
Marinês, minha gente. Perguntem a Elba Ramalho, Lenine, Dominguinhos, Genival Lacerda, Chico César, Geraldo Azevedo, Cecéu, Moraes Moreira, Alceu Valença, Zé Ramalho, Margareth Menezes e Ney Matogrosso quem é Marinês.
Na música brasileira, ela foi o equivalente feminino de Luis Gonzaga. Lenine e Siba, do Mestre Ambrósio, compuseram pra ela o Coco da Mãe do Mar. Em 1999, Elba Ramalho a levou ao Canecão para uma homenagem pelos 50 anos na estrada, e produziu um disco, Marinês & Sua Gente (nome da banda dela, que não compunha, era só a maior intérprete do sertão nordestino).
Duas notas breves nos jornais marcaram a passagem de Marinês desta para melhor.
Marinês tinha 71 anos. Começou a se apresentar aos 8 anos em quermesses de Campina Grande, na Paraíba, onde foi criada. Aos 10 anos, escondida do pai, ela resolveu se inscrever num concurso de rádio. Genival Lacerda ficou em primeiro lugar como cantor. Marinês ficou em segundo, como cantora.
Marinês estava internada no Hospital Português, recuperando-se de um acidente vascular cerebral. Ninguém foi atrás de repercussão, mas o ministro da Cultura, que conhecia a obra de Marinês como poucos, soltou uma nota que pouca gente leu.
Ei-la, a nota:

O Brasil perdeu hoje sua rainha do forró, nossa querida Marinês, a primeira grande cantora nordestina que aparece nos anos 50, inaugurando um ciclo de ouro da voz feminina na música do Nordeste. Teve um papel extraordinário com profundas raízes na alma do povo brasileiro.
Era uma pessoa muito próxima, cativante e autêntica, casada com Abdias, um grande sanfoneiro nordestino e filha de cangaceiro. Fez do forró sua alforria para a criação plena, enfrentando todos os preconceitos com sorriso largo, intenso, firme e verdadeiro.
Com as bênçãos do mestre Gonzaga, que a ajudou a colocar a voz feminina de uma forma decisiva nas canções brasileiras, Marinês parte e deixa conosco o testemunho da força da mulher brasileira. Nossa Maria Bonita da música nordestina.
Gilberto Passos Gil Moreira
Ministro de Estado da Cultura

 


14.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 12:03:18.

>

é o filme-porrada do ano.
dedo na ferida, cisco no olho, pé na bunda: mesmo quem não quer enxergar é obrigado a ver na marra.
baixio das bestas, o filme.
é a aridez humana em seu nível mais elevado, a bestialização de toda humanidade num retrato quase cancerígeno da devastação social do País.
claudio assis, o diretor, faz uma alegoria das regiões esquecidas, das vidas esfoladas dos cortadores de cana, examinando esse mundo onde tudo é nivelado pelo lucro.
tudo que não queremos enxergar: a miséria consumindo qualquer pingo de solidariedade, prostituindo as emoções, cavando fendas abissais entre classes.
o homem é o lobo do homem.
as fogueiras da cana crepitando de noite, queimando os olhos no escuro do cinema, esvaindo os olhos secos dos cortadores de cana, deixando o ar irrespirável.
o pequeno burguês acovardado, superprotegendo os filhos (e a bolsa) enquanto o mundo desmorona ao seu redor.
quem pode mais, escraviza o que pode menos.
o velho sertão nordestino, historicamente célebre por sua solidariedade (maior que a miséria crônica), mudou. para pior: está esmagado em sua ética, em seu orgulho. sua resistência, para claudio assis, foi sangrada até a inanição.
as mulheres-damas (que, em regionalistas folclorizantes como jorge amado, são personalidades influentes da localidade), agora são mostradas apenas como trastes. não sobrou espaço para o erotismo transgressivo.
a cultura se mercantilizando para sobreviver. a vida humana valendo menos que nada. a violência como hobby.
(um amigo disse que o filme é uma espécie de "laranja mecânica" sertanejo, com os drugues saindo em gangue para barbarizar na terra arrasada. achei tão perfeita a observação que mudei o título deste post. a cana mecânica).
matheus nachtergaele dá uma baforada em seu baseado e olha fixamente para a câmera, no escuro de um cinema abandonado, e diz: gosto do cinema por causa disso, porque aqui a gente pode fazer tudo que não pode fazer na vida real.

 


09.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 12:22:33.

o papa chega hoje.
não aguento mais ouvir o pianista que vai tocar para o papa dando entrevista na TV.
não aguento mais as reportagens sobre o papamóvel e seus vidros à prova de bala, a menina que vai ver o papa, o monge que teve de se mudar para o motel porque o papa vai ocupar o seu mosteiro de são bento.
eu não gosto desse papa, e minha antipatia é primeiramente lombrosiana - não tem boa cara (tirando a homofobia, o discurso retrógrado e a confusão de papéis).
estou entre os 3% que não crêem em nada, embora tenha feito primeira comunhão e minha mãe tenha me ensinado o ritual católico.
já fui a juazeiro, sei o que a fé representa no nordeste.
já me peguei boquiaberto olhando o teto de Notre Dame.
já enchi os olhos andando sozinho na capelinha deserta enfeitada por Volpi em Piracicaba.
adoro igrejas, mas não gosto da missa. vou pela arte de mestre piranga, mestre athayde, aleijadinho.
lembrei de manhã da antiga canção dos titãs, igreja:

Eu não gosto de padre
Eu não gosto de madre

Eu não gosto de frei

Eu não gosto de bispo
Eu não gosto de Cristo

Eu não gosto de amém

Eu não gosto do presépio
Eu não gosto do vigário

Nem da missa das seis, não,

Não

Eu não gosto do terço
Eu não gosto do berço

De Jesus de Belém

Eu não gosto de Papa
Eu não acredito na graça

Do milagre de Deus

Eu não gosto de igreja
Eu não entro na igreja

Não tenho religião

Não, não gosto

Eu não gosto

Não, não gosto

Eu não gosto

 


07.05.07

Link permanente BI
por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 12:28:12.

Éramos 60 mil almas cantando.
No meio da muvuca, consegui encontrar o Pinduca, o Baits e a Carol.
Só discordávamos em alguns pontos: o melhor em campo era o Maldonado. Não, era o Rodrigo Souto. O Zé Roberto esnobava em campo. O Moraes, filho do Aluisio Guerreiro, matou a pau assim que entrou.
Que bonito é ser campeão no Morumbi lotado!
Sei que os sãopaulinos vão dizer que isso é rotina na vida deles, mas eu não gosto de rotina. Gosto da exceção.
Depois de 14 horas de New Orleans Jazz Festival, 22 horas de avião em uma semana, mais 10 horas de Skol Beats, dois fins de semana sem dormir direito, eu peguei meu ingresso para o jogo e rumei para o setor azul. O Santos precisava fazer dois gols, mas o domingo estava eletrificado, tudo apontava para a nossa festa. Saí do fechamento direto para o jogão. Engoli um sanduíche de calabresa no estacionamento ali perto da banca de jornais, e a calabresa parecia fazer OINC no meu estômago.
Os colegas advertiram: se o Ginas estiver no estádio, vamos perder.
Não sabíamos se o Ginas tinha comparecido, então arriscamos.
Ao final, soubemos da notícia fabulosa: o Ginas ESTAVA no estádio!
Então, não existe isso que se chama pé-frio?
Nada, é que o Santos foi categoricamente superior. O São Caetano chutou uma única vez a gol.
Glorioso alvinegro praiano!!!

 


03.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 09:47:00.

TODOS OS JOGOS CONTÉM A IDÉIA DA MORTE
comprei num sebo, em nova orleans, o livrinho the lords and the new creatures, de jim morrison, numa edição esgotada bacaninha (na mesma estante, tinha esse original aí datilografado e assinado pelo beat Lawrence Ferlinghetti).
no livro, jim fala de lee oswald, gropius, muybridge.
VOCÊ NÃO PODE TOCAR ESSES FANTASMAS
ele ataca a imagerie, a diluição do sentido das coisas em significados dados pela mídia, pelo espetáculo, pelo cinema e pelo voyeurismo.
algumas imagens são particularmente bonitas.
muita coisa discursiva, confusa, mas nunca mal-elaborada.
"o voyeur é um punheteiro
o espelho, seu distintivo
a janela, sua presa
"
e agora, um poema escolhido:

há muito não há mais os que dançam, os possuídos.
a transformação dos homens em ator e espectadores
é o fato central do nosso tempo. Somos obcecados
com heróis que vivam nossas vidas e que possamos punir.
Se todas as rádios e televisões fossem privadas
de suas fontes de poder, todos os livros e pinturas
queimados amanhã, todos os shows e cinemas fechados,
todas as artes da nossa emprestada existência...

ficamos felizes com o que nos é "dado" na questão das sensações.
nos metamorfoseamos de um corpo ruim dançando nas encostas das montanhas a
um par de olhos estatelados no escuro.

 


01.05.07

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 13:27:12.


a cantora de country-rock lucinda williams, em foto minha mesmo

Daqui a pouco vou para o aeroporto. Escrevo num café às margens do Mississippi, o sol está de rachar, e sinto que essa cidade tem algo de indefinível, um jeito de pegar o sujeito e não deixá-lo mais esquecer de nada, nem um detalhe.
Fui a todos os grandes clubes de jazz: vi o velhinho Henry Gray na noite passada na House of Blues, um filho de escravos que toca piano e canta ladeado por um séquito de admiradores fantásticos, alguns deles mais conhecidos que o próprio Gray.
Fui ao Snug Harbor, para ver Terence Blanchard, e ele tocou When the Levees Broke Down, e foi de arrepiar.
Fui ontem ao Maple Leaf, que turista não conhece, apenas quem está no ramo da música. E também ao Tipitina`s, famoso pela mulherada e pelo funk no palco. Tinha dois caras do Funkymeters na banda.
Tomei cerveja Abita, muitas, e estive em lugares fantásticos. Quando me apresentaram a Donald Harrison como "J.B", ele gracejou: "James Brown?".
Comprei o vinil de Grace, o único disco do Jeff Buckley, que morreu justamente aqui, antes de completar 30 anos. Buckley estava passeando aqui pelo rio, disse a um amigo que ia dar um mergulho, pulou nas águas barrentas e nunca mais foi visto.
Aqui no JazzFest tambem perdi alguns preconceitos. Eu achava que a cantora Lucinda Williams, por exemplo, era apenas uma country momma de botina, mas a mulher fez um dos meus shows preferidos. Ela tem uma voz meio áspera, e se faz acompanhar por uma banda de pegada punk, tipo Patti Smith. Adorei Lucinda Williams. E ainda por cima a encontrei no bar do hotel, de madrugada, e ela me convidou para sentar e me falou de sua vida em Los Angeles, da banda que a acompanha e da música brasileira, que ela acha uma das mais melódicas do planeta.
Um beijo, Lucinda.
New Orleans, um dia eu volto.

 


 





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