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11.07.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 19:42:04.

a título de despedida

 


06.07.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 15:29:56.

ontem, nos fundos de um anexo do museo del prado

também ontem, nas imediaçoes do bairro la latina, la novía llegando atrasada para o enlace

hoje pela manha, porquinhos mortos enfeitados na vitrine de um restaurante em plaza mayor

fogos de artifício ao final do show do police, na cidade do rock, em arganda del rey, ontem à noite

 


05.07.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 21:53:48.

los viejos espanholes caminham pelo parque del retiro.
saio de uma mostra de goya e caminho com um zunido nos ouvidos.
goya, entre 1792 e 1793, ficou seriamente doente e a doença lhe causou surdez.
ficou um tempo em cadiz, tratando-se, e quando voltou a madri estava doidao.
pintou uns quadros em formato pequeno que sao um arraso.
curral de loucos.
interior de prisao.
el incendio.

é a mais impressionante exposicao que vi em muito tempo, no museo del prado.
o retrato da família de carlos VI é uma obra moderníssima, visionária.
parei na frente do autoretrato de goya e fiquei muito tempo.
ele tinha um nariz de boxeador, cabelos com cachos desleixados, ombros caídos, umas costeletas mal aparadas, sobrancelhas incompletas e a boca pende para baixo nos cantos.
a imagem que fez de si mesmo difere frontalmente da estátua idólatra que lhe fizeram na frente do museo del prado, na qual ele parece um cavaleiro das cruzadas.
falarei mais dessa exposiçao, eu espero.
espanto, espanto, espanto.

 


04.07.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 17:21:15.


amy winehouse dá um gole na primeira taça

Ela chegou trôpega, com o cabelo montado e o coque, e no meio do cabelo tinha um coracao escrito BLAKE.
Ela abracou com carinho o vocalista de apoio que usa dreads.
Ela bebeu uma taça gigante de vinho em menos de três músicas.
Depois de beber o primeiro gole da segunda taça, ela lambeu o líquido que transbordou nos dedos.
No braço da guitarra branca dela está escrito AMY WOO.
Ela ergue a barra do vestido quando canta algumas músicas, e dá medo de ela erguer tudo.
O olhar dela é triste pra cacete, mas ela canta como um anjo (me desculpe, Clarah, por ter duvidado).
A banda dela é do Grand Caralho!
Eis o que ela cantou:
1. addicted
2. just friends
3. tears run dry
4. cupid
5. back to black
6. wake up alone
7. unholy war
8. love is a losing game
9. hey littel rich girl
10. rudy
11. you´re wondering now
12. you know i´m no goog
13. rehab
14. me & mr. jones
15. valerie

 


por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 15:42:58.

verdadeira loucura aqui em madri. a mulher veio. está todo mundo na fissura (verdade que a maioria veio para ver a shakira). muitas garotas vestindo o figurino amy (até o apresentador da TVE espanhola, esse maluco aí da foto de cima).
o stereophonics acaba de tocar e mandou ver numa inédita, it means nothing. o set list da amy jà està na parede e tem 16 músicas. ou ela está sóbria ou enlouqueceu - 16 músicas depois de fugir do hospital?

 


02.07.08

Link permanente LEI
por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 17:18:48.

Em 1956, Philip K. Dick publicou um conto chamado Minority Report, cuja história consiste no seguinte: numa sociedade futurista, os assassinatos são prevenidos antes que eles ocorram, graças ao auxílio de alguns sujeitos conhecidos como precogs, que podem ver o futuro. Virou filme, com Tom Cruise.
A fantasia de Dick projetava um mundo sombrio no qual o livre arbítrio seria posto em xeque – o sujeito era preso por um crime que nem sequer cometera, mas que porventura pensara em cometer. O problema, veriam mais adiante, é que o sistema era falho.
Qualquer semelhança com essa “lei seca” que instauraram no País seria mera coincidência?
Vivemos a seguinte situação: a Autoridade Suprema enxerga o perigo de alguém beber demais antes de dirigir e, nessa condição, atropelar alguém. Brande estatísticas em seu favor. Então, projetado esse futuro nefasto, proíbe peremptoriamente que se beba.
A Autoridade Suprema cuida das pessoas para que não machuquem ninguém, nem se machuquem. Tira das pessoas a capacidade de autogestão, de decidir o que é “beber demais”, de decidir que já se bebeu o suficiente para que não se possa mais dirigir. “Ah, mas eu conheço um cara que fica fora de si com um chope!”. Caramba, e por que esse imbecil bebe um chope? Além de cretino é retardado?
Vejo os articulistas que se colocam furiosamente a favor de tal lei nos jornais. Um deles, eu já vi, anda de calção branco, meias brancas e tênis branco pela Vila Madalena, como se fosse um síndico de todo o bairro. Tem aquele ar meio bovino de quem gostaria que a humanidade inteira fosse forjada à sua semelhança beatífica. Não quero ser amigo desse cara. Não quero NÃO beber com ele.
Acho essa lei exagerada. Ela pune gente de bem com os rigores da lei e até com cadeia por causa do comportamento de uma minoria. Pune pelo “perigo” do excesso.
Tutelar, monitorar, vigiar, e depois eventualmente achacar. É o lema da Autoridade Suprema. A própria polícia disse que acha exagerada a lei e que pretende aplicar o “bom senso”. E desde quando a polícia tem bom senso?
Isso, considerando-se o fantástico sistema penal que temos, redunda num estado de temeridade – os três sujeitos de calção branco, meias brancas e tênis branco que têm uma vida monástica, irreprensivelmente direita, protocolar, querem colocar todo o resto sob vigilância.
Não quero NÃO beber com esses caras. Prefiro a companhia de Hemingway, Bukowski, Maiakovski, Fitzgerald, Wander Piroli, Vinicius de Morais, entre outros.

 


27.06.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 17:53:51.

Desde o atex, desde as antigas máquinas de tela verde, tenho me acostumado com mensagens de despedida pipocando na tela do meu computador. É um mundo em veloz mutação este nosso, e nenhuma paisagem permanece, nem humanóide nem coisificada.
Tenho dois sentimentos em relação a isso, como todo mundo: sinto muito, porque é um movimento inesperado e é sempre compulsório de um lado. Em relação a empresas & firmas, confesso também que nunca gostei de relações paternalistas, por isso não encaro uma empresa como uma coisa familiar (muita gente considera o empregador uma extensão de sua casa, de sua vida). Not me. Vejo como um erro. Esse computador no qual escrevo não é meu, esse telefone não é meu, esse bloco de papel não é meu. Tenho um contrato, faço a minha parte com aplicação e profissionalismo, e só o que exigo é que o outro lado faça a sua parte. Também não admito essa coisa de tratamento “sinhozinho & sinhazinha” que alguns dedicam a seus patrões. É ridículo. Respeito recíproco, é o que se deve exigir.
Mas há sempre as mensagens, e elas invariavelmente soam tristes.
Recolhi algumas delas nos últimos tempos – infelizmente, não todas que queria.
Não fui amigo íntimo de nenhum dos articulistas das mensagens abaixo. Apenas colega. O que não impediu de sentir sua emoção. Não leiam isso como um manifesto de lamúrias operárias, um melô da mais-valia perdida. O mundo não é só aqui, como diria o Dominguinhos. O fato é que ficamos tocados quando um sujeito grande e beirando os 60 anos se despede da gente chorando. É natural. Faltava muito pouco para ele se aposentar.

Caros,
Peço desculpa por invadir o computador de quem não me conhece, mas gostaria de me despedir dos amigos que fiz por aqui em oito anos. Estou deixando o Grupo e quero agradecer pela convivência, pelo aprendizado, pelas risadas, pelas boas lembranças. Além dos colegas com quem trabalhei diretamente, deixo um abraço especial para o pessoal da Arte, da Foto e da Diagramação, e também para o eficiente R. do Arquivo. Todas essas pessoas tornaram meu trabalho melhor e mais divertido muitas vezes.
Meus contatos estão abaixo, não só para futuros trabalhos, mas para chopes e bate-papo.
Beijo grande,
N.

Queridos,
Chegou a minha hora de partir. Agradeço a todos pelo apoio durante os sete anos e meio que trabalhei no Grupo. O tempo realmente voou e jamais vou esquecer de cada momento que passei aqui com vocês. Desde os tempos de estagiária até a realização do grande sonho: fazer parte da equipe do Caderno.
Aos amigos do Caderno, meu agradecimento especial, por terem acreditado e apostado em mim. Aprendi muito com vocês. Saudades do Pan do Rio, do Mundial de Basquete, das etapas da Copa do Mundo de ginástica artística, da natação, do rali dos sertões, dos Gps do Brasil de Fórmula 1...
Obrigada por tudo!!!!
Um beijo, já com saudades
G.

Pessoal,
Nos últimos 20 anos, diariamente, marquei ponto neste Grupo. Agora vou fazer coisas que sempre tive vontade (como não trabalhar de fim de semana ou feriado). Continuarei em outros lugares. Obrigado
A.

Amigos,
Depois de cinco anos de empresa, saio para novos desafios. Foi muito bom trabalhar com vocês!
Grande abraço,
A.

Então, chegou a minha vez...
Depois de 10 anos, deixo o jornal com um apertinho no coração e certeza de que amigos fiéis valem mais do que qualquer coisa, bj. e até a próxima
E.

Caros
Depois de sete anos e meio de muito trabalho e aprendizado deixo o Estadão. Parto para uma nova fase profissional que é muito bacana. Vou sentir falta dos amigos que fiz aqui. Vamos nos esforçar para não perder contato. Agora terei as noites livres, viva!!
Para comemorar convido vocês para um bota fora na terça-feira.
seguem os contatos
Sejam felizes, tudo de bom
bjs
A.

Caros, em sete anos e meio de Grupo, ao receber semanalmente a mensagem de despedida de algum colega, eu ficava me perguntando como redigiria a minha, caso deixasse o Grupo. Pois é, por esse nariz de cera dá para ver que não adiantou pensar. Deixei a casa ontem, com saudades e um aperto o coração. Entre meus muitos agradecimentos, deixo um em especial à equipe do Caderno.
Sejam muito felizes e cuidem do nosso jornal porque ele merece.
M.

Depois de 15 anos de bairro, chegou a hora de desbravar o mundo além-Tietê. Levo comigo um longo aprendizado e muitas amizades.
Um grande abraço,
I.

Orgulhoso. É assim que eu me sinto agora. Depois de 22 anos e cinco meses, quatro Copas do Mundo, quatro Copas Américas, várias finais de Brasileiro e dezenas de finais de Campeonatos Paulistas.
O que eu poderia fazer mais? Não sei.
Conheci gente maravilhosa.
Deixo dois irmãos.
Agradeço meus chefes. Cada briga, cada bronca, cada vez que acreditaram em mim e lutaram para colocar as matérias . E eu sei que não se arrependeram. Saio sabendo que fiz bem para a carreira deles também.
Estou indo. Se preparem para tomar um monte de furos...Grande beijo em todos...
C.

 


24.06.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 15:47:08.


júlio barroso, aríete vocal e intelectual da gang 90

então, conforme prometido, trago textos que júlio barroso (um pop star elétrico dos anos 1980 que viveu pouco e ficou meio esquecido, mas que era brilhante) escreveu mencionando chuck berry.
ei-los:

as gravadoras brasileiras estão marcando bobeira: o genial guitarrista chuck berry, cuja música foi enviada ao espaço na nave norte-americana explorer (como uma mostra do som do planeta Terra para os alienígenas), não tem nenhum disco em catálogo por aqui.
já era tempo de editarem alguma coisa – nem que fosse um the best of.
afinal, carinhas como john lennon e keith richards não cansam de dizer ao mundo que devem tudo o que sabem de música ao genial guitarrista black dos anos 50.
(texto publicado na revista pop, 1979)
é bom saber assim, de maneira moderna, bacana e espiritual, que somos filhos culturais da grande mãe áfrica, e de gilberto gil a duke ellington, de chuck berry a bob marley, de miles davis ao maestro machito, cartola, etc..., a música nos tem sido entregue por nossos black soul brothers espalhados ao redor do mundo pelo sistema escravagista do esquema europeu, o mesmo esquema que massacrou as nações indígenas do nosso continente.
(...)
é manifestar na era eletrônica nossa eterna gratidão pelo gentio do mundo inteiro que com sua beleza e força de amor pela vida sobreviveu malandramente às santas inquisições e está aí correndo solto na veia da juventude internacional.
elvis, na verdade, era uma encarnação televisiva de chuck berry, que adentrou a sala de jantar da cultura ocidental, com seu gingado insolente que mudou os costumes de todas as futuras gerações.
(texto publicado na revista somtrês, 1981)

 


20.06.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 12:32:26.


chuck na quarta-feira, no antigo tom brasil, em foto de moi même

já disse o que penso sobre o show do chuck.
mas outro dia eu fuçava nos meus livros que vieram em caixas por causa da mudança e achei "a vida sexual do selvagem", do julio barroso.
ele era fissurado no chuck. e escreveu texto muito bacana sobre o velhote.
vou cometer um pequeno estelionato: eu não tô com o livro aqui hoje, mas amanhã eu posto o texto do julio. juro.

 


16.06.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 13:19:08.

o trânsito de sp é barbárie pura.
a vida em sp é bárbara, mas também estafante.
encurtemos esse papo: lá perto da praça panamericana, esta manhã, um cara deixou o carro na garagem pública das ruas.
e a rua, que geralmente é tão bruta com a gente, deu um presentaço para o carro do cara.
bela cena no caminho de casa até o trampo.

 


13.06.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 15:22:18.

ousaria dizer a vocês que é uma recomendação.
primeiro, porque é a série de shows mais barata do ano esse tal de bridgestone music festival.
eu estarei lá, e aposto meu soldo de centurião como o rodrigo carneiro também estará.
segundo, porque não é todo dia que baixa por aqui um músico do naipe de dr. lonnie smith.
o cara do turbante, mestre do órgão, é um prestidigitador dos grooves.
soul-jazz, soul-funk, acid jazz.
ele já era moderno nos anos 1960, mas só veio a ser redescoberto com a devida atenção nos anos 90.
embora pareça que saiu de um gibi do mandrake, lonnie nasceu em buffalo, no estado de new york.
alguns gênios como ele reinvindicam o doutor antes do nome, como nina simone o fez. ambos merecem. ouçam por si mesmo nesse vídeo amador:
http://www.youtube.com/watch?v=C4M8-kO5-jo&feature=related

 


09.06.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 15:57:52.

nelson almeida/AE

o agricultor joão régis aos 89 anos (hoje, teria 101, e é pouco provável... mas não é impossível)

JOÃO RÉGIS
Especial para o Estado

Toda minha família vivia em Canudos: pai, mãe, avô, avó e os tios. Do cerco a Canudos, escaparam meu pai e meu avô: tinham saído para buscar o que comer. Naquela época, o Conselheiro mantinha muito criatório de boi e bode fora do arraial. Parecia saber que teria de enfrentar um cerco. Quando meu pai e meu avô voltaram, não conseguiram passar pelo cerco e só por isso escaparam da morte.

Os soldados diziam para todo mundo na região e faziam que isso fosse passado para frente: “A estrada de Uauá está aberta.” Era um sinal para que as pessoas fugissem, porque o couro ia comer brabo. Muitos fugiram, mas minha avó e minha mãe ficaram.

Minha mãe contou que os homem que ficaram, depois da rendição, foram para a degola. Colocaram as mulheres no leito seco do Rio Vaza-barris, num lugar de onde não podiam ver o que estava acontecendo. Então, eles chamavam os homens. Diziam que iam levar para Monte Santo. Lá no alto do morro, debaixo de três juazeiros, deitavam os homens no chão e enfiavam a baioneta no pescoço deles. O infeliz ficava rodopiando e se contorcendo sem poder gritar, até morrer.

Mataram uns 30 homens assim, inclusive o Beatinho, que foi negociar a rendição com o general Arthur Oscar, que prometeu que ninguém ia fazer mal aos rendidos. Foi uma covardia. Diziam para os homens que iam morrer: “Vamos embora, vamos para Monte Santo.” E matavam gente desarmada sem piedade, com raiva.

Da minha casa posso ver a árvore onde, na terceira luta, deixaram o corpo do coronel Moreira César. Largaram ele ali e fugiram. Então veio o povo aqui mesmo da região, colocou lenha em cima e botou fogo.
Mas escapou muita gente. Escapou até um homem que era mudo. Minha avó disse que ele correu amarrado para debaixo de uma moita de espinho e saiu se arrastando. Os soldados tentaram levar a moita no peito e não conseguiram. O homem correu e ficou escondido na serra, até que de noite outros fugitivos o soltaram.

Minha mãe e minha avó foram presas para Salvador. Ficaram lá muito tempo, até que o Lélis Piedade deu passaporte para elas voltarem a Canudos. Elas sabiam que meu pai e meu avô tinham escapado.
Meu pai me contou que as primeiras armas que os jagunços de Conselheiro conseguiram foram tomadas de dois soldados. Os jagunços pegaram os soldados em Juazeiro e levaram para o arraial. O Conselheiro ralhou com eles: “Mas o que lhes fizeram esses soldados?” E mandou soltar os homens, mas disse para ficarem com as armas deles, duas manulixas (como os sertanejos chamam os fuzis austríacos Mannlichner usados na guerra). Uma dessas manulixas foi usada pelo meu tio, Zé Guerra, morto no último combate porque era muito afoito.

Quando Moreira César chegou para o terceiro combate, tudo que os jagunços tinham de armas eram duas manulixas. Foi Moreira César quem municiou Canudos. Teve uma vez que chegou um carregamento de fuzis para o acampamento dos soldados e os jagunços deram alguns gritos e tiros no meio da caatinga e os soldados fugiram, deixando centenas de fuzis para trás.

Era um tempo bom, havia grandeza e fartura, roça, criatório. Canudos produzia tão bem que Antônio Vilanova fez contrato para vender pele de bode em Juazeiro e Feira de Santana. Vilanova tinha uma tropa de 12 burros.

O Conselheiro não gostava que dissessem Canudos. Queria que dissessem Belo Monte, que cortaria a língua de quem dissesse Canudos. Aí um dia chegou um jagunço muito forte e muito invocado e disse que não ia dizer Belo Monte. E repetiu: Canudos, Canudos, Canudos. E ninguém fez nada com ele.

A Força matou 150 cabeças de gado dos criadores da região. Mas os fazendeiros ricos, como Manoel Macambira, fizeram o governador pagar as reses que perderam na guerra. Os pequenos não tiveram um centavo.
Meu pai era Reginaldo José de Matos. Meu avô, pai da minha mãe, era Manoel José dos Santos. Não era gente de guerra, era gente como eu. Queriam comer, plantar e cuidar da vida.
Do que eu me lembre, aquele povo só contava que o Conselheiro era gente boa.

João Régis vivia em Canudos em 1996, quando colhi este seu depoimento. Era uma das grandes fontes para os pesquisadores sobre a Guerra de Canudos. Falou comigo já pela noitinha, sob a luz de um candeeiro, depois de percorrer ao meu lado toda a região a pé. Os filhos e netos todos em volta, com olhares deslumbrados. Nelson Almeida fotografou. Tinha uma vaca magra no terreiro, umas galinhas. Uma secura que só tinha visto em capa de livro do Graciliano Ramos. Já tava indo embora quando me detive, enfiei a mão no bolso, voltei e dei-lhe R$ 20. Só o que tinha. Ele parecia não acreditar no que estava se passando. Quase chorou. Não sei porque cargas d’água, hoje dirigia no trânsito e me lembrei vivamente dele.

 


por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 13:16:57.


Train Tracks, quadro de Bob Dylan

Então Bob Dylan também pinta, hã?
Esta paisagem aí é um dos seus quadros. Não estão à venda, e até o final deste mês estão em exposição na Galeria Halcyon, em Londres (são 93 trabalhos).
Dylan é figurativo, quase naïf em alguns momentos. Suas pinturas não são memoráveis, como não são memoráveis as pinturas de Tony Bennett e de Joni Mitchell. Como são irrelevantes as pinturas de Marilyn Manson. Gosto muito mais das pinturas de Kim Gordon, do Sonic Youth.
Mas não lhes nego o direito de fazerem isso. Manson vende suas pinturas, assim como Bennett, o que também é um direito. Comprar é estupidez, não têm valor artístico intrínseco – apenas a assinatura é que vale no mundo especulativo mediado pelo e-Bay.
Dylan foi influenciado pelo cantor folk Woody Guthrie. Barbaramente influenciado: Guthrie também fez desenhos que ilustraram seu livro Bound for Glory. Os desenhos são terrivelmente similares aos de Dylan.
Na metade final da vida, o cara vai se reencontrando com seus modelos.

 


06.06.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 17:52:02.

muito tempo que não vejo o nelson sato, então foi com prazer que encontrei uma série de poemas dele de tempos idos, que o pessoal da revista coyote garimpou e publicou no seu número 16.
sato sempre foi a figura mais doce de londrina. uma das mais inspiradas. uma das inesquecíveis.
além do sato, esse número 16 (gosto desse número 16, gosto dessa coyote). a edição também traz um poeta de tirar o fôlego: marcos prado, um cara que só viveu 35 anos, um poeta que dormia na praça.
pesquei dois poemas, um do sato, outro do prado.

DO SATO

em sua baliza
espiar o sol
além das tatuagens
além do pior
que se detém

soltar lírios
soltar a sorte

nos dentes
girar violinos elétricos
misterioso
beijo pirata

DO MARCOS PRADO

todo dia encontro um artista novo
eu escrevo, eu pinto, eu desenho, eu canto
mas todos têm aquela cara de ovo
trato-os humildemente mas com espanto
isso não está escrito na cara deles
não vejo em nenhum o ar de sua graça
nem o trato nobre ou o ímpeto reles
raro o dono da própria desgraça

tenho por eles, porém, um amor triste
um amorzinho vagabundo, menos que inho
que de tão diáfano não sei como resiste
um dia pego um deles pelo colarinho
estrangulo no balcão aos gritos: despiste
não fique roxo, não obre, isso é um carinho

coyote 16 (52 páginas, R$ 10, à venda nas livrarias ou pelo site www.iluminuras.com.br)

 


04.06.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 13:42:43.


o retorno das bodas (1810-1815), de nicolas-antoine taunay

estupenda exposição a de taunay no museu nacional de belas artes, no rio.
nicolas-antoine taunay, o pintor neoclássico francês que chegou ao brasil em 1816, contrariado com a guerra na europa.
morou na tijuca, e pintou paisagens de tirar o fôlego.
fez alguns comentários mordazes também sobre o brasil de d. joão e dona carlota joaquina.
gostei particularmente do quadro retorno das bodas, esse que está aqui reproduzido.
reparem no sorriso dançarino do rapaz e na cara de pilantrinha da moça, chegando das núpcias. ela é branquinha e coradinha, ele é um dínamo de felicidade (e colheu flores do campo pra ela, o malandro).
o cortejo está passando por uma estrada erma, e é uma verdadeira força-tarefa que eles levaram para a lua-de-mel.
tem uma banda inteira para fazer a trilha sonora.
a bagagem jamais passaria pelo balcão da american airlines.
caramba, que quadro bacana!

 


29.05.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 16:38:37.

Eu nunca peço nada para comer antes de você chegar ao bar. Mas eu bebo. Então, quando você chega, eu já posso estar ligeiramente alto, balãozinho – o estômago vazio ajuda a embaralhar as coisas.
Vejo na mesa ao lado um colega de copo que já ficou. Digo, ligeiramente alto. Ele tem um topete de sabiá grisalho e ri compulsivamente para os convivas em sua mesa. Bêbados costumam se achar mais espirituosos e engraçados do que são na realidade. No bar, o briaco em geral acha que sua voz só pode ser ouvida se ficar alguns decibéis acima da comemoração do gol do Corinthians.
O sabiá grisalho ri um pouco além da conta e seus movimentos agora são lentos, o olho parece que foi colado com cola Pritt nas extremidades. O som se propaga com mais vagar antes de chegar ao ouvido de um sujeito grogue, e deve ser por isso que ele demora para responder às perguntas dos que o acompanham. Perde também o senso de discrição: olha para as garotas na mesa ao lado babosamente, como se olhasse para uma TV desfocada (ainda existem TVs desfocadas?).
À despeito dessas anotações, adoro os bebuns. Não gosto é de ir a bares ou restaurantes onde o maître te interpela para perguntar: “O senhor conhece o nosso sistema?”. Ué, não é tudo no Sistema Solar? Não é do tipo paga-se e recebe-se a mercadoria?
Meu sonho é um dia virar um bêbado inderrubável, tipo meu irmão Jack ou o Mário Bortolotto. Morro de medo de ser patético, de me achar um Woody Allen de ocasião, então deve ser por isso que eu nunca fico bêbado o suficiente (se ao menos eu já tivesse pedido antes o arroz de carreteiro e a picanha de cordeiro...).
Mas garotas bêbadas me deixam enternecido. Peço a Deus para que tudo corra bem pra elas na cidade até chegarem a um colchão macio, o seu ou o do seu sortudo.

E então você chega e, com um sorriso fabuloso, faz com que eu me sinta subitamente um bêbado cool. Um bêbado de respeito, um bebum de memória privilegiada, que repentinamente se lembra com precisão de quando você saiu daquele clube cheio de leões-de-chácara em volta com seu vestido vermelho e olhos pintados e entrou no meu carro sorrindo com delicioso hálito de champanhe.
Uau!
Efeito parecido a um conto de Wander Piroli, um blues de T-Model Ford, um filme antigo de Sydney Pollack.
Uau!

 


20.05.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 18:01:03.

cansado do mainstream?
cansado da pose e da arrogância do rock atual?
então, prepare-se: vem aí uma cantora com voz de menina sonolenta e uma banda que tem uma pegada básica irresistível.
ela é emily haines, a banda é a metric.
músicas deliciosas, como empty e monster hospital.
vêm de toronto, mesma terra da feist e do broken social scene.
rock para arrepiar como trilha sonora de um passeio sem rumo pela cidade, ou para tornar épica uma partida em um bar de sinuca.
ouçam a cover de between the bars, de elliott smith:
http://www.youtube.com/watch?v=yM5kCRrZ2ZE
eles vêm aí para o motomix, em 28 de junho.

 


15.05.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 18:17:37.


a poeta inglesa elizabeth barrett browning

Uma única vez estive em Florença. Foi no ano 2000. Estava na Itália a trabalho, li no Corriere della Sera que haveria uma megaexposição de Giotto na Accademia de Florença. Peguei o trem, estava com idéia fixa. Consegui uma pensão nas imediações da estação de trem de Florença. Trabalhei, entrevistei, olhei as dezenas de quadros e afrescos e painéis, coisas que foram arrancadas até de murais de igrejas para a exposição.
Dois dias de museu, e eu tava meio cansado. Quente pra cacete. Comprei um colar com um pendurricalho igual aos que Giotto pintava nas vestes de suas Madonnas para dar de presente.
Subi a rua para ver se achava uma sorveteria. Nada. Nem refrigerante achei. Continuei subindo, até que vi um grande parque muito arborizado e que estava aberto. Entrei. Não era um parque, era um cemitério. Bonito cemitério, e pequeno, delicado. Era o Cemitiro degli Inglesi, o cemitério dos ingleses, na Piazzale Donatello. Sedento, tomei água numa torneira que pingava debaixo de uma árvore e comecei a ler as lápides.
Numa delas, levei um susto. Estava escrito: Elizabeth Barrett Browning.
Rapaz, pouco antes de embarcar de São Paulo rumo ao aeroporto de Veneza, eu tinha trazido uma coletânea de poemas para ler e fiquei sentado no saguão do aeroporto lendo aquele livrinho. A doideira era que eu tinha gostado muito de um deles, e era justamente da britânica Elizabeth Browning. Brrrrrr. E daí eu vi a foto dela, e ela me lembrava muito uma versão vitoriana das nossas meninas góticas. Será que Elizabeth seria emo se vivesse nos dias de hoje?
Consta que um dia, quando adolescente, ela caiu de um cavalo e foi então que começou a escrever. Boa parte de sua obra foi forjada num quarto escuro, nos dias de convalescença. Foi casada com Robert Browning e morreu em Florença.
Juro: no creo en nada, nada, nada. No creo en las brujas, no creo en los marxistas, no creo en los desenvolvimentistas, no creo en los academicos, no creo en los quarto-zagueiros. Mas esse foi um dia em que senti um certo tremor. O que foi aquilo?
Lembrei disso outro dia, olhando o jeito tranqüilo como você surge de repente, quando aparece quando eu menos espero, e aí resolvi fazer uma tradução picaresca de um poema da Browning. Para não soar muito reverente (seria uma falsificação, porque eu não conheço bem a obra dela), fiz a coisa como se ela fosse uma cantora emo, uma Amy Lee vitoriana.

O SIM DA GAROTA
(de Elizabeth Barret Browning)

“Sim”, respondi a você na noite passada;
“Não”, meu garoto, eu disse esta manhã

As cores, quando vistas à luz de vela
Não parecem as mesmas do dia
Quando os violinos solaram no seu melhor
Lâmpadas se ergueram, e risadas baixaram
O amor me soou como se fosse zoeira
crave-se um SIM ou crave-se um NÃO

Me chame falsa, ou me chame livre
qualquer o jeito que as luzes brilhem
Nenhum homem deverá ver isso na sua cara
Nenhuma aflição vai mudar a minha
Ainda que a safadeza esteja em mim e em você

O tempo para dançar não é o mesmo tempo para azarar
A luz do paquerador torna a lealdade inconstante
O desprezo de mim é rechaçado em você

Aprenda a ganhar a confiança de uma garota
Com nobreza, como a coisa mais elevada
Com bravura, na vida como na morte
Com uma leal gravidade
Conduza a mina pelas pistas festivas
Erga-a aos céus estrelados
Guarde-a em suas palavras sinceras
Pura, longe da azaração do agito
Pela sua Verdade ela deverá ser verdadeira
Para sempre verdadeira, como as viúvas de mil quinhentos e bolinha
E o SIM dela, uma vez que ela lhe tenha dito
Será SIM para todo o sempre.

 


12.05.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 16:53:12.

no momento, a frança está debatendo este clipe aqui, da dupla de música eletrônica JUSTICE.
é uma espécie de clube da luta mais realista, um 'laranja mecânica' do terceiro milênio, e o filme é dirigido por romain-gavras (da família do famoso cineasta costa gavras).
foi proibido na frança, por insuflar a violência.
é uma polêmica antiga: o que veio antes, a arte que retrata a violência ou a violência que é retratada na arte?
um causa o outro ou um apenas reflete o outro?
o vídeo é mesmo forte:
http://www.youtube.com/watch?v=zOP0IECS2FY
o JUSTICE pode ser uma das atrações a desembarcarem no Brasil nos festivais do segundo semestre. boato forte dá conta disso.

 


09.05.08

por Jotabê Medeiros, Seção: PÁSSARO Q COME PEDRA 18:38:11.

uma listinha de canções para deixar radiante o fim de semana:

1. dream sequence, do arab strap
http://www.youtube.com/watch?v=WJ43xoJ0zas&feature=related

2. a wild rumpus, dos old blind dogs

3. louisiana, do walkmen
http://www.youtube.com/watch?v=l9NIPDeoPvM

4. two time loser, da rhiannon giddens
http://www.youtube.com/watch?v=78qd3RtjmWA

5. Are you going to Scarborough Fair, Simon and Garfunkel
http://www.youtube.com/watch?v=nIoGOgqs_20

 


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