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Luiz Horta
Luiz Horta

20.06.09

Link permanente Orientalismos

por Luiz Horta , Seção: Harmonizações modernas às 06:01:02 .

Fiz a minha refeição mais prazerosa do ano, só isto, e com um vinho que combinou perfeitamente. Não é uma frase que gostaríamos de dizer todo dia?

Desde o Prêmio Paladar do ano passado queria voltar a este lugar, tão fora do circuito, excêntrico, no sentido original da palavra.

Combinei jantar com um casal de amigos, pretexto para experimentarmos o Salton Volpi Gewürztraminer (não errei a grafia desta vez!). A uva tem aparecido bastante nos vinhos brasileiros e eu estava curioso para beber a novidade.

Cheguei antes, por capricho do trânsito. Na salinha lotada de japoneses, só eu ocidental. Só eu falando português, na verdade. Gosto deste desamparo, estar num local estranho, órfão de significado, completamente invisível, irrelevante, desorientado e sem entender nada do que está escrito. É uma insegurança que anuncia descobertas, ficar disponível para entender. Fiz um esforço e me lembrei do nome do prato que concorrera ao Prêmio. Mas troquei a carne de porco do PF por uma anchova. PF mesmo, pois é um simples prato feito, de trabalhador japones.

São 8 potinhos, arroz, sopa, peixe... Os legumes têm um ponto tão perfeito que parecem cozidos um a um, uma vagem, uma rodela de cenoura, pedacinhos de nabo. Todos cheios de sua verdade, a mais pura cenoureidade e tal. O caldo com tofu é como um vinho complexo, pode ser cheirado, bebido, lambido. A anchova grelhada era tão saborosa que me mostrava um sabor novo, como a intuição de uma essência. Eu sorri. Raramente, comida, coisa tão material, toca no espirito e alegra.

Minhas companhias chegaram, pedimos mais umas porções, o peixe prego, espécie de foie gras písceo, pura untuosidade e o ouriço, um absurdo, como morder o mar. Consegui finalmente explicar a razão por não considerar comida japonesa como gastronomia. Tem a ver com o modernismo no Ocidente, com a busca de aniquilação do autor e aperfeiçoamento de modelos no Oriente, vetores totalmente inversos e excludentes. Mas não vale aborrecer um momento tão equilibrado de mastigação com teses.

Resolvemos ampliar o jogo de vertigem, pedir algo das plaquinhas manuscritas pela parede, que não oferecesse decifração alguma, só pelo som, com o risco de pedir um guardanapo... Vieram dois peixinhos minguados, como mini sardinhas muito fritas e retorcidas. Mordidos, eles estavam gordos de ovas, pareciam dois pequenos frascos de caviar, comidos com cabeça e cauda.

O vinho deu conta de todos estes desafios, para minha surpresa, muito floral, acidez perfeita, aquele leve amargo final. O lugar é tão simples que só dão o saca-rolhas para que o cliente mesmo abra a garrafa. Por alguma razão, este detalhe de simplicidade tornou a bebida ainda melhor, como beber despojadamente em casa. E eu estava em casa, na dos outros, na sala deles: a menina jogando ping pong, o garoto ensaiando malabarismos com os copos, a mãe servindo as mesas, o pai na cozinha.

A Liberdade estava cheia de vida, animada, trio elétrico, samba, mas ali, dentro daquela casinha de esquina era um bairro sem nome de Tóquio, a comida "não gastronômica" mais deliciosa, um prato de 28 reais. Gesticulei exaltado: "este é o mais hábil chef atuando em São Paulo!". Meus amigos riram do exagero.

Mas eu não estava exagerando, saí de lá pensando exatamente isto.

[endereço no post seguinte]

 

Link permanente Permalink 16 comentários

Comentários:

Comentário de: Nico Ravel [Visitante] · http://www.spgastronomia.blogspot.com
20.06.09 @ 11:30
Claro que não fui o único que passou o post inteiro esperando o nome do restaurante... então faça-me o favor, né! Nem que seja por email! Mas, putz, que post!
Comentário de: Luiz [Visitante]
20.06.09 @ 13:21
Parabéns pelo texto. Devia escrever mais sobre restaurantes. O blogueiro, enfim, vai voltando.
(a propósito, tinha copo de vinho lá?
Comentário de: Helô [Visitante] · http://esoumdiario.blogspot.com
21.06.09 @ 01:45
quando um dia eu for a são paulo te conhecer, tu me levas nesse pedacinho de céu? promete?

beijo de fogão a lenha.
Comentário de: Ruben Duarte [Visitante] · http://winebroker.wordpress.com
21.06.09 @ 09:29
Prezado: Cadé o nome do restaurante?
Comentário de: Flávio [Visitante]
22.06.09 @ 10:16
Estava tudo tão divino que você comeu até a tábua que tinha o nome do restaurante. É isso?
Comentário de: Ikuyo Kiyuna [Visitante]
22.06.09 @ 11:20
Adorei todo este despojamento e engajamento à comida de verdade. Senti todos os sabores da comida em fotos.

Solicito encarecidamente, por e-mail, o endereço da casa pois sou estudante/estudiosa da harmonização vinho & comida japonesa.

Arigatô Gozaimashita (muitíssiomo obrigada)
Comentário de: denise [Visitante]
22.06.09 @ 15:37
Descobri!!! Kidoairaku (11) 3207-8569 R. São Joaquim, 394 Liberdade São Paulo - SP
Comentário de: Carlão [Visitante]
22.06.09 @ 18:21
O N D E ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
Comentário de: Juliana [Visitante]
22.06.09 @ 19:08
Por favor, me passe urgente este restaurante. Preciso ir hoje!
Comentário de: Tetsuo (visitante) [Visitante]
22.06.09 @ 19:38
Realmente um texto admirável e adorável.
Comentário de: Rogerio Francisco [Visitante]
22.06.09 @ 19:54
Sou fa do Paladar e de outros blogs e sites sobre o mesmo tema. Poucas vezes, ou nenhuma vez na verdade, li algo tao leve e sutil mas tao cheio de sentimento e com tantas sensaçoes tao bem descritas sobre comida... Parabéns pelo texto. E parabéns à Família Kidoairaku pelo restaurante.
Comentário de: Yoko [Visitante]
22.06.09 @ 22:08
O nome do tal peixinho cheio de ovos é 'shishamo".
Comentário de: Clarissa [Visitante]
22.06.09 @ 22:33
Olá Luiz,
Eu já conheci o Kidoairaku e seu blog me fez retornar lá esta noite.
Comentei com a família sobre o seu post, e logo eles imprimiram a sua página. Ficaram contentes!
Pra variar, a refeição foi uma delícia. Recomendo a berinjela assada com missô e gergelim e o espinafre cozido com temperinhos japoneses.
Comentário de: Helio Ciffoni [Visitante] · http://www.ciffoni.com
22.06.09 @ 23:38
É de dar água na boca. Costumo praticar, aqui em Tóquio, o gostoso exercício de pedir o que está na plaquinha, numa espécie de saborosa roleta-russa, quando às vezes a relação entre o que se lê (ou melhor dizendo "o que sei ler")e o que significa é muito distante. Anotei o endereço passado em um dos comentários, na próxima visita a São Paulo, se a fila não virar quilométrica, visitarei.
Comentário de: Marcel [Visitante]
23.06.09 @ 13:24
Desculpe pelas chatices quanto à grafia. Mudando de assunto, achas que a Gewürz brasileira pode ser uma resposta a Torrontés argentina?

abs.
Comentário de: F. S. Monteiro [Visitante]
24.06.09 @ 03:58
Luiz: sua descrição trouxe-me lembranças de velhos aromas e sabores da infância. E muitas saudades da minha querida obátian. Muito obrigado e um abraço.

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