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20.08.06

Link permanente Vencedores, em decisão dividida
por Luiz Zanin, Seção: Concorrentes às 03:08:13.

E aconteceu que o júri de Gramado não conseguiu se decidir entre Serras da Desordem e Anjos do Sol e acabou premiando os dois. Dividiram o Kikito de melhor filme o trabalho mais experimental, o de Andréa Tonacci, e o mais tradicional, o de Rudi Lagemann. Serras da Desordem fala da extinção das tribos indígenas. Anjos do Sol, das meninas prostituídas. Ambos tratam desse nosso pobre Brasil e seus problemas, e o fazem com linguagem diferente. Vale a pena ver os dois. Anjos do Sol já está em cartaz. Por Serras da Desordem você terá de esperar mais um pouco.

Na parte latina, venceu em todas as linhas o mexicano El Violin, do diretor Francisco Vargas Quevedo. Um belo filme, em preto-e-branco, que logo chegará também ao circuito comercial, pois já foi adquirido pela distribuidora Mais Filmes.

Neste festival, em que as mostras competitivas de longas foram divididas em latinos e brasileiros, Anjos do Sol foi de todos o mais premiado. Além do prêmio de melhor filme, que dividiu com Serras da Desordem, ganhou ator, atriz e ator coadjuvantes, montagem e roteiro.

O júri foi distributivista. Todos saíram com algum prêmio nas mãos, com exceção do muito bom Atos dos Homens, de Kiko Goiffman, que foi esquecido e injustiçado. Por outro lado, o júri entendeu de premiar o oportunista Sonhos e Desejos, que usa o tempo da ditadura militar como uma espécie de parque temático para historinhas amorosas e por isso foi recompensado com o prêmio de melhor atriz para Mel Lisboa e ainda levou o troféu de direção de arte como brinde. Ridículo.

Por sorte, o júri dos latinos foi mais sério e concentrou a premiação sobre o valoroso El Violin. Mas não se esqueceu do criativo Mezcal (troféus de direção e Prêmio Especial do Júri) e também premiou o conjunto do elenco feminino do argentino Cuatro Mujeres Descalzas. Foi uma premiação criteriosa.

A esta hora em que escrevo, no meio de uma madrugada fria (2º) em Gramado, os vitoriosos comemoram pelos restaurantes e bares e os vencidos reclamam pelos cantos. É sempre assim. Mas se já é possível fazer um balanço, assim na bucha, em cima da hora, pode-se dizer que foi um bom festival, apesar dos percalços. Nós, que estivemos aqui, vimos bons filmes e nos divertimos, apesar do trabalho intenso. Alguns debates foram interessantes (os de Andréa Tonacci e de João Jardim, em especial), e a troca de idéias revelou-se mais uma vez fundamental. Festivais valem também por isso, para a gente ficar com menos certezas,e ver que quem discorda de nós muitas vezes tem razões tão boas como as nossas.

Outra coisa interessante foi o sistema de premiação do júri popular, sempre alvo de controvérsias. Este ano, Gramado pediu a vários grandes jornais do País(inclusive o Estado) que selecionasse um dos seus leitores para servir como jurado. Assim formado, esse corpo de jurados votou em Pro Dia Nascer Feliz, El Violin e no curta Manual para Atropelar Cachorros. E sabe qual foi o resultado da votação da crítica especializada? Exatamente o mesmo, para as três categorias: filme brasileiro, filme latino e curta-metragem. Não dá o que pensar essa convergência rara entre a voz dos críticos e a dos espectadores? Confira abaixo a premiação completa:

CURTA 35mm
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI – NO PRINCÍPIO ERA O VERBO, de Virginia Jorge
MELHOR ROTEIRO – VIRGINIA JORGE, de No Princípio Era o Verbo
MELHOR ATRIZ – CAROLINE ABRAS, de Alguma Coisa Assim
MELHOR ATOR – PAULO VESPÚCIO, por Fúria
PRÊMIO CANAL BRASIL: MANUAL PARA ATROPELAR CACHORRO, de Rafael Primo e O PRINCIPIO ERA O VERBO, de Virginia Jorge
MELHOR FILME - JURI POPULAR – Curta 35mm
MANUAL PARA ATROPELAR CACHORRO, de Rafael Primo
MELHOR DIRETOR: ESMIR FILHO, de Alguma Coisa Assim
MELHOR FILME:ALGUMA COISA ASSIM, de Esmir Filho

PRÊMIO DA CRÍTICA
MELHOR CURTA NACIONAL 35MM: MANUAL PARA ATROPELAR CACHORRO, de Rafael Primo
MELHOR LONGA LATINO: EL VIOLIN, de Francisco Vargas Quevedo
MELHOR LONGA BRASILEIRO: PRO DIA NASCER FELIZ, de João Jardim

LONGA METRAGEM LATINO
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI :MEZCAL, de Ignácio Ortiz Cruz
MELHOR ROTEIRO : FRANCISCO VARGAS QUEVEDO, por El Violin
MELHOR ATRIZ : MARIA ONETTO, EVA BIANCO, MARA SANTUCHO E MARÍA PESACK, de Cuatro Mujeres Descalzas
MELHOR FILME/JÚRI POPULAR: EL VIOLIN, de Francisco Vargas Quevedo
MELHOR ATOR – LONGA LATINO: Don Angel Tavira, ,por El Violin
MELHOR DIRETOR – LONGA LATINO: IGNÁCIO ORTIZ CRUZ
MELHOR FILME – LONGA LATINO: EL VIOLIN, de Francisco Vargas Quevedo

LONGA METRAGEM BRASILEIRO
PRÊMIO ESPECIAL DO JUÚRI – PRO DIA NASCER FELIZ, de João Jardim
MELHOR MÚSICA – LONGA BRASILEIRO: DADO VILLA-LOBOS, pelo Pro Dia Nascer Feliz
MELHOR MONTAGEM : LÉO ALVES, FELIPE LACERDA E RUDI LAGEMANN, de Pro Dia Nascer Feliz
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: OSWALDO EDUARDO LIOI, de Sonhos e Desejos
MELHOR ATOR COADJUVANTE:OTÁVIO AUGUSTO, por Anjos do Sol
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE : MARY SHEILA, por Anjos do Sol
MELHOR FOTOGRAFIA : ALOYSIO RAULINO, por Serras da Desordem
MELHOR ROTEIRO: RUDI LAGEMANN, por Anjos do Sol
MELHOR ATRIZ: MEL LISBOA, de Sonhos e Desejos
MELHOR FILME PELO JÚRI POPULAR : PRO DIA NASCER FELIZ, de João Jardim
MELHOR ATOR : ANTÔNIO CALLONI, por Anjos do Sol
MELHOR DIRETOR: ANDREA TONACCI, por Serras da Desordem
MELHOR FILME: ANJOS DO SOL, de Rudi Lagemann e SERRAS DA DESORDEM, de Andrea Tonacci

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19.08.06

Link permanente
por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 10:48:40.

ÚLTIMOS DIAS
Gramado encerrou ontem sua mostra competitiva, com a exibição dos últimos filmes concorrentes - o longa latino Quatro Mujeres Descalzas, de Santiago Loza; o brasileiro Pro Dia Nascer Feliz, documentário de João Jardim; e os curtas Beijo de Sal, de Fellipe Gamarano Barebosa; O Anjo Daltônico, de Fábio Rocha; e Quando o Tempo Cair, de Selton Mello. O longa brasileiro e o curta de Selton Mello provocaram comoção, sendo muito aplaudidos (demais, até).
José de Abreu foi um dos piores apresentadores da história do festival. Toda noite a platéia do Palácio dos Festivais foi obrigada a ouvir suas piadas sem graça e suas declarações de amor aos colegas atores. É verdade que ele sempre declarava seu amor aos homenageados e premiados para çlembrar como e quando trabalhou com eles, o que é sempre uma maneira de diuzer 'Estou no mesmo plano'. Ontem, Zé chorou na homenagem que Gramado prestou a Raul Cortez e Gianfrancesco Guarnieri, o que lembrou a muita gente o poema de Fernando Pessoa sobre o artista (um fingidor que finge ser dor a dor que sente de verdade). Por falar nos mortos do ano, o Festival de Cinema Latino poderia ter acrescentado a essas homenagens outras duas - ao argentino Fabián Bielinsky e ao uruguaio Juan Pablo Rebello, o segundo tendo sido premiado aqui mesmo em Gramado.
O longa latino trata da relação entre quatro mulheres. Começa hesitante, mas, aos poucos, as histórias vão se articulando num discurso homogêneo e coerente, no qual sobressai o trabalho das atrizes. O documentário de João trata de situações que o adolescente brasileiro vive na sala de aula. O diretor filmou na cidade nordestina mais pobre do Brasil, na periferia de São Paulo e num colégio de elite no Alto de Pinheiros, também em São Paulo. Existem vários personagens maravilhosos, entre alunos e professoras. Uma menina da 'elite' proporciona o diálopgo-chave. Ela fala do seu estranhamento em relação aos que estão fora de sua bolha e que ela tenta compreender e respeitar, mas diz que são dois mundos, o dela e o dos outros. Uma colega diz que não. É o mesmo mundo, e essa é a tragédia.
Quando Daniel Filho disse a Eduardo Coutinho, aqui mesmo em Gramado, que ele deveria ter encerrado Edifício Master com ol cara cantando My Way, o que sereia para 'cima', Coutinho horrorizou-se. João Jardim deveria ter assimiulado as lições do mestre. Ele termina seu filme com a fala para 'cima' da garota pobre que recria Gonçalves Dias. A platéia aplaude e dá um voto de confiança aos jovens quew, a despeito das difgiculdades, representam o futuro. Mas o filme é sobre o sistema de ensino. Começa com dados estatísticos - 97% de jovens iniciam o primeiro grau, menos de 50% o concluem. Perto do fim, uma garota mata a colega. O filme termina ali. O sistema falido puxa os adolescentes para baixo. O que vem depois é perfumaria. Mas, claro, se O Dia terminasse ali não nasceria feliz. Seria muito baixo.
ZÉ DE ABREU
O mestre de cerimônias de Gramado conseguiu ser inoportuno até quase o último momento. Ontem à noite, em pleno Palácio dos Festivais, parou tudo para que ele mostrasse um documentário sobre seu projeto que investiga a emigração judaica no Rio Grande do Sul. Nada contra o projeto, em si, que é interessante e poderá resgatar uma história pouco conhecida. Mas alguém consegue imaginar Gilles Jacob abrindo espaço no Festival de Cannes para que o apresentador deste ano, Vincent Cassel, exibisse seu novo projeto? É muito provinciano. Deste jeito, Gramado não se profissionaliza e não adquire respeitabilidade.
CURTAS
Foram três curtas sobre homens. Cada um possui sua dose de qualidade e o terceiro, o de Selton Mello, parece o mais interessante. Meia hora depois, quando você pára para pensare, as qualidades vão se diluindo - no filme de Selton, também. A volta de Zé Bonitinho, no elenco de Quando o Tempo Cair, de qualquer maneira, resgata a grandeza de um artista que anda esquecido (e cuja dor, quando ele a manifesta, parece mais genuína na ficção).

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18.08.06

Link permanente Pés no chão, senhoras
por Luiz Zanin, Seção: Concorrentes às 19:43:43.

A organização do festival deixou para o fim o tedioso Cuatro Mujeres Descalzas, da Argentina. Projetado agora à tarde, foi o último dos concorrentes latinos e pouco deve alterar as projeções de premiação – a não ser que dê a louca no júri, o que não se exclui, em absoluto. Quatro Mulheres Descalças é um drama existencial palavroso, dirigido por Santiago Loza, que desmente a (boa) tendência do novo cinema argentino, feito de concisão e objetividade. As tais quatro mulheres se encontram num balneário deserto e trocam idéias a respeito do sentido da vida, das frustrações e esperanças de cada uma, enquanto aguardam um eclipse lunar. Não é o pior filme do mundo, as atrizes são boas, mas pouco acrescenta ao currículo cinematográfico de cada um de nós. E nos empolga menos ainda.

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Link permanente Homenagens merecidas
por Luiz Zanin, Seção: Homenagens às 11:19:26.

Duas merecidas homenagens do Festival de Gramado, além daquela que havia premiado o ator Antonio Fagundes com o troféu Oscarito: Vladimir Carvalho ganhou o troféu Eduardo Abelin, e Nelson Pereira dos Santos recebeu a comenda das Hortências, da Câmara Municipal de Gramado. Vale, para lembrar esses dois grandes profissionais.

Nelson, que acabou de entrar para a Academia Brasileira de Letras, é uma espécie de pai do cinema brasileiro moderno. Com seus filmes Rio 40 Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957) trouxe para o País as idéias do movimento neo-realista italiano. Essa influência iria desembocar no Cinema Novo, em geral associado à figura do seu profeta, Glauber Rocha, mas que tem em Nelson o seu pioneiro e fundador. Emocionado, Nelson lembrou que Rio 40 Graus fora proibido pela censura do então Distrito Federal, o Rio, e teve primeira apresentação pública no Rio Grande do Sul.

Vladimir Carvalho é um dos grandes documentaristas do País. Fez um discurso entre emocionado e cômico, comentando que as homenagens eram perigosas porque envaideciam demais o homenageado. “Ao pisar o tapete vermelho para entrar no cinema e ver a minha foto estampada num pôster, tive um instante de deslumbramento. Mas passou logo, pois tenho um compromisso com o real”.

E que outra expressão – compromisso com o real – poderia definir melhor a atitude desse cineasta que, em ação desde os anos 1960, se empenhou em registrar de preferência a gente pobre do Brasil, em filmes notáveis como O País de São Saruê e Conterrâneos Velhos de Guerra?

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Link permanente Perguntas à sociedade brasileira
por Luiz Zanin, Seção: Concorrentes às 11:01:41.

Tem perfil forte o documentário de Kiko Goifman sobre a violência urbana, chamado Atos dos Homens. Foi apresentado ontem à noite no Palácio dos Festivais e bem recebido pelo público. Filme denso, que poderia ter ainda mais impacto, não fosse a opção (ética) do diretor de esconder as cenas mais chocantes.No lugar delas, o que se vê é a tela inteiramente branca. “Peço a vocês que preencham com imagens mentais o que julgam estar acontecendo”, disse Kiko na apresentação do seu trabalho.

Disse ainda mais: que às vezes o espectador iria notar que a câmera treme. “Não é opção estética, era medo mesmo que sentíamos durante a realização deste filme”. E havia motivo para tal. Atos dos Homens foi realizado na Baixada Fluminense, em particular em Nova Iguaçu e Queimados, cidades onde em 2005 ocorreu um massacre de 29 pessoas, provavelmente executadas por policiais.

A pretexto de registrar os bastidores dessa tragédia, Kiko e sua equipe fazem uma espécie de corte transversal da sociedade da Baixada e de suas contradições. Do colunista social local a comerciantes e populares, o que se tem é um retrato bastante fidedigno da desigualdade social brasileira e como ela se associa à violência. Uma das entrevistas mais impressionantes é feita com um dos matadores da região. Para não mostrar a cara dele, a tela fica em branco. Mas o que diz é de assustar.

Outro depoimento, este pungente ao invés de assustador é o da mãe de um travesti, que morreu no massacre. Ela lembra do filho e se pergunta: “será que a dignidade da pessoa está no que veste, ou como se apresenta, ou em seu caráter?” Uma boa pergunta, dirigida ao conjunto da sociedade brasileira.

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17.08.06

Link permanente Violino afinado
por Luiz Zanin, Seção: Concorrentes às 19:13:29.

O melhor dos concorrentes latinos, pelo menos até agora, foi apresentado agora à tarde no Palácio dos Festivais. El Violin, do mexicano Francisco Vargas Quevedo, teve casa cheia para acompanhar uma história de camponeses e guerrilhas, contada em tom minimalista e em preto-e-branco. O destaque fica para o personagem Dom Plutarco (Don Angel Tavira), o velho tocador de violino, com seu ar pacato e toda a experiência da vida no rosto. Ele sabe que uma caixa de violino pode transportar seu instrumento, mas também outros tipos de objetos. Enquanto traça, em silêncio, seu plano de apoio aos rebeldes, Dom Plutarco encanta com sua música um capitão do exército, que está lá justamente para desbaratar a oposição ao governo.

Há muitas entradas de entendimento para este filme, inclusive aquela que mostra pessoas pobres oprimindo outros pobres porque assim é a “ordem natural das coisas”.

Mas há muito mais, porque este O Violino toca em muitas notas, e todas afinadas. A boa notícia é que sua passagem pelo Brasil não se limita ao Festival de Gramado. O distribuidor Adhemar Oliveira já o havia comprado durante o Festival de Cannes e deve lançá-lo em circuito comercial ainda este ano. Quem gosta do cinema menos convencional, porém denso de humanidade, não deve perdê-lo quando chegar às salas. Já é forte candidato ao kikito de melhor filme latino, embora ainda falte ver 4 Mujeres Descalzas, que passa amanhã.

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Link permanente O vermelho e o negro
por Luiz Zanin, Seção: Concorrentes às 16:17:58.

Se você leu a nota anterior do Luiz Carlos Merten, sabe que ele registrou a debandada de parte da crítica da sessão noturna de Anjos do Sol para acompanhar o jogo entre Internacional e São Paulo. Visto a carapuça: fui um desses críticos e não me arrependo da decisão. O jogo foi tão emocionante quanto alguns dos melhores filmes que já vi. Gostei de ver a alegria dos torcedores do Inter, que fizeram uma festa em vermelho, madrugada adentro aqui em Gramado, não dando a mínima bola para o frio e a chuva. De modo que cumprimento o Merten, e a todos os colorados, e passo a comentar Anjos do Sol, que assisti na sessão da manhã de hoje, em companhia do público jovem que a freqüenta, pois é gratuita.

Pois bem, o filme nada tem de comparável à euforia de uma vitória no futebol. Muito pelo contrário: trata de um dos males mais perversos do País, a prostituição infantil. E o faz de maneira correta, sem apelação, sem pieguice, de modo direto, mas sem aquele intenção de chocar desnecessariamente as pessoas. O diretor Rudi Lagemann parece se dirigir à emoção do público, mas a uma emoção contida, que também solicita a sua reflexão sobre esse tema.

A história, diz ele, é ficcional, mas rigorosamente baseada em fatos reais que constam dos arquivos do governo e das ONGs que se ocupam desse crime. Meninas vendidas como escravas por pais carentes e que vão parar em bordéis nos recantos mais longínquos do País, vizinhos a garimpos, terras sem lei, das quais é muito difícil fugir. Duas meninas-atrizes, Fernanda Carvalho e Bianca Comparato, são muito bem dirigidas, com toda a delicadeza, mas também com toda a intensidade por Rudi, gaúcho radicado no Rio de Janeiro, e que o pessoal por aqui conhece como Foguinho.

Rudi tem também o cuidado de não apresentar um final redentor, porque seria fraudulento. Sabe que poucas dessas meninas conseguem dar a volta por cima depois de jogadas nesse tipo de vida. No entanto, sempre existe uma possibilidade de saída, e esta é insinuada na saga de Maria (Fernanda Carvalho). Duro de agüentar são os personagens adultos, todos puxados para a caricatura.

Na entrevista, Foguinho justifica: “As meninas têm uma interpretação naturalista, mas aos adultos preferi dar um tom operístico, exagerado mesmo”, diz. Pode ser uma opção. Mas esta às vezes aparece como assimetria da direção. Há outro aspecto. A cada vez que uma situação dramática é apresentada, o filme coloca certo distanciamento entre ela e o espectador, seja pela inserção de uma cena cômica, seja por uma música que nada tem de lacrimogênica. Isso é de caso pensado: o distanciamento causado leva à reflexão e impede a catarse, que nada mobiliza senão as lágrimas do público, que em seguida vai para casa em paz consigo mesmo.

Desse modo, Anjos do Sol se apresenta como filme sobre uma realidade tristíssima, mas que não produz tristeza no espectador. Produz, sim, inquietação, desejo de refletir sobre esse crime hediondo e o leva a se perguntar como pudemos chegar a esse ponto. Esse convite ao pensamento é um mérito a mais e não um defeito do filme. Pelo menos eu assim o vejo.

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por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 13:15:23.

PAIXÃO
Havia dúvida ontem à noite. Gramado era um festival de cinema ou um campeonato de futebol? Metade da crítica abandonou o Palácio dos Festivais pouco antes da apresentação de Anjos do Sol, deixando para ver o filme de Rudi Lagemann agora de manhã. Formaram-se torcidas para assistir ao jogo decisivo que deu ao Inter o título de Campeão da Libertadores. Há 26 anos, o time chegou à final, mas foi derrotado. Abel conquistou, agora, o maior time da história do time gaúcho. O tapete de Gramado nunca foi mais vermelho. Houve buzinaço a noite toda, em Gramado e no Rio Grande do Sul inteiro. O Inter foi como Seabiscuit, no filme sobre o cavalo americano azarão. Tanto sofrimento, tanta euforia. Não adiantou nada a torcida do Grêmio unir-se à do São Paulo. O Festival de Gramado foi ontem vermelho como a paixão colorada.

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por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 12:29:55.

O QUE VOCÊ FARIA? (2)
Rudi Lagemann, o Foguinho, é prata da casa, em Gramado. Ele pertence à geração de superoitistas que surgiu no Rio Grande do Sul, há quase 30 anos, e da qual evoluíram nomes fundamentais do cinema gaúcho e brasileiro (Giba Assis Brasil, Nelson Nadotti, Carlos Gerbase, Werner Schünnemann). Foguinho deveria ter estreado na direção no começo dos anos 1980, mas o projeto foi cancelado. Ele foi para o Rio, virou assistente de Cacá Diegues, Ruy Guerra e Tizuka Yamasaki, ligou-se à Videofilmes, na qual fez documentários e, como realizador de comerciais, foi eleito Diretor do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda.
Foguinho está aqui em Gramado mostrando, na competição, o longa Anjos do Sol, sobre prostituição infantil. Ele próprio escreveu o roteiro, baseado em depoimentos que colheu em centros de documentação. Tudo é rigorosamente verdadeiro em Anjos do Sol, mas Foguinho não adotou o formato documentário porque não poderia revelar a cara das menores prostitutas e ele acha fundamental que o público olhe nos olhos dessas meninas, mesmo que sejam, no filme dele, personagens de ficção.
Anjos do Sol tem duas atrizes maravilhosas (Fernanda Carvalho e Bianca Comparato), escolhidas num longo processo de seleção. É honesto ao não propor nenhum final feliz. Todas as mãos que parecem apoiar a menina vendida pelo pai e que vira prostituta num garimpo na verdade se estendem para empurrá-la um pouco mais para baixo. O diretor fez um filme barato, não exatamente de baixo orçamento (R$ 1,5 milhão). Teve gente que tirou dinheiro do próprio bolso para apoiá-lo, por acreditar no filme. Foguinho espera que Anjos do Sol dê o suficiente na bilheteria para que essas pessoas não percam seu dinheiro, mas é decente a ponto de se horrorizar com a expectativa de sucesso para seu filme. "Seria como explorar mais uma vez a prostituição infantil."

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por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 12:01:33.

O QUE VOCÊ FARIA? (1)
Tirando o título brasileiro idiota, que se aplica a exatamente todos os filmes da história do cinema - o que você faria com o trem dos irmãos Lumière avançando em sua direção, em 1895? -, o novo trabalho de Marcelo Piñeyro é espetacular (no sentido de ótimo). Seria muito mais adequado, mesmo que talvez não fosse tão chamativo, manter o original El Metodo, O Método. O diretor de Plata Quemada e Kamchatka queria fazer um filme para discutir o novo mundo da economia globalizada. Encontrou o material muma peça sobre o processo de seleção de candidatos ao cargo de executivo numa multinacional. Mas a peça forneceu-lhe só o título e o ponto de partida. Piñeyro e o roteirista Mateo Gil, dos filmes de Alejandro Amenábar, basearam-se muito mais nas entrevistas que fizeram com executivos (e candidatos a) na Argentina e na Espanha.
Na entrevista que me deu para o 1º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, o diretor disse que pediu ao roteirista que assistisse a 12 Homens e Uma Sentença, de Sidney Lumet, de 1957, sobre as discussões de um grupo de jurados quanto a um veredito, mas que as verdadeiras referências para O Que Você Faria? foram dois outros filmes que, aparentemente, não tinham nada a ver - A Chinesa, de Jean-Luc Godard, e A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack. Um sobre um grupo de estudantes maoístas que discutem a revolução dentro de um apartamento, em Paris, o outro sobre os candidatos num concurso de dança durante a depressão econômica, nos EUA. Ambos tratam do micro como forma de chegar ao macro e Pollack, que se baseou no livro Mas Não Se Matam Cavalos?, de Horace McCoy, forneceu a Piñeyro, na relação entre Jane Fonda e Michael Sarrazin, o modelo de dureza que ele queria desenvolver.
Por uma questão estética, mais do que econômica, Piñeyro fez o filme em digital, porque queria concentrar toda a mobilidade da câmera (pequena) sobre os personagens, num ambiente exíguo. A pós-produção foi complicada porque a paisagem da cidade que se vê da janela foi feita depois, no computador, praticamente quadro a quadro. A estética é poderosa, mas o que impressiona é o drama humano, o embate (até físico) entre os candidatos. Até onde os homens são capazes de ir? Falo nos homens porque a mulher é a chave para a discussão sobre a desumandade que O Que Você Faria? provoca. O mundo pode ter ficado pior, no processo de globalização, mas o cinema argentino, qued Piñeyro representa, continua muito bom.

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16.08.06

Link permanente O mercado brasileiro
por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 15:53:56.

Correção da correção é fogo, mas a atriz boliviana presente em Gramado chama-se Paola Dias e é publicitária. É maravilhosa, como se espera que os internautas deste blog venham a confirmar quando Dí Buen Dia a Papá estrear no País (se é que o filme de Fernando Vargas vai mesmo estrear). Isto posto, ocorre aqui em Gramado, simultaneamente, um encontro para discutir o mercado de DVD no País. Wilson Cabral, diretor da Sony Home Entertainment, foi um dos painelistas de ontem. Apresentou números atualizadíssimos sobre o mercado de vídeo e DVD no Brasil. O primeiro está em queda de 98%, já o de DVD está em alta, mesmo assim com números que podem surpreender. O rental (aluguel) sofreu uma queda geral de 9%, quase a mesma (9 e um pouquinho por cento) correspondente ao aumento de sell thru, a venda direta para o consumidor. A grande questão embutida nesta discussão é - como os filmes brasileiros podem pasrticipar deste mercado milionário? Os críticos discutem a estética do cinema, produtores, distribuidores e exibidores discutem o mercado. Não se trata de defender filmes para o mercado - num festival, o cinema de autor é sempre preferido -, mas se a Lei do Audiovisuial, prorrogada até 2010, cessar um dia, a questão do patrocínio, leia-se da produção, voltará a ser crucial. Sem o contribuinte, por meio das leis de incentivo, baseadas na renúncia fiscal, para financiar o cinema brasileiro, a resposta estará no mercado, com todas as distorções que o caracterizam. Promovendo essas discussões, Gramado, na verdade, está querendo preparar-se (e preparar o cinema nacional) para questões que não parecem tão futuras assim.

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Link permanente O Falcão de MV Bill
por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 14:28:13.

Quem fez sensação, agora de manhã, aqui no Gramado Cine Vídeo, evento paralelo ao Festival de Cinema Latino e Brasileiro, foi o rapper MV Bill, que veio denbater com o público seu filme Falcão. MV tem um discurso muito politizado sobre a utilização da violência pelos meios audiovisuais (cinema e TV). Falando para jovens da rede escolar de Gramado e admiradores que subiram a serra gaúcha só para vê-lo, ele confirmou seu carisma e foi além - Falcão tem qualidades estéticas que vão forçar um debate muito interessante sobre suas propostas.
Uma retificação - a atriz Isabel Dias, do belo filme boliviano Dí Buen Dia a Papá, de Fernando Vargas, é natural da Bolívia e não cubana. Na coletiva do filme, falando sobre a dificuldades de sobreviver como atriz em seu país, Isabel fez uma revelação inesperada - a interpretação é, para ela, uma segunda atividade. Nossa atriz - ela é maravilhosa em Dí Buen dia a Papá - é profissional de comunicação, jornalista.
A primeira noite da competição de curtas em 35 mm mostrou que eles estão cada vez mais profissionais, o que não equivale necessariamente a dizer que andam melhores. A seleção de curtas, aliás, despertou polêmica desde a primeira hora por não incluir nenhum curta gaúcho, o que não seria bairrismo pelo simples fato de que a expressão curtas gaúchos virou uma redundância, graças a Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo, Gustavo Spolidoro e outros talentosos realizadores do Rio Grande do Sul. Vermelho Rubro no Céu da Boca, de Sofia Federico, rodadíssimo em festivais nacionais, tem o luxo de trazer um diretor de fotografia como Antônio Luiz Mendes, o que explica a beleza e acabamento de suas imagens, mas a história do viúvo que começa oferecendo rosas a uma jovem ribeirinha para, depois, oferecer-se ele próprio não vai muito mais longe em termos de ousadia estética. Sr. e Sra. Martins, que Laine Milan adaptou do original de Edla Van Steen - a ex-atriz de Walter Hugo Khouri em Na Garganta do Diabo -, vale sobretudo pela interpretação da atriz gaúcha Araci Esteves, que foi Anahy de las Missiones. O mais interessante foi o terceiro e último, No Princípio Era o Verbo, da cineasta capixaba Virginia Jorge, que candidata Emiliano Queiroz ao Kikito de melhor ator da categoria. Ele é, no mínimo, tão bom quanto Araci Esteves, o que não representa pouco elogio.

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Link permanente Política rala, a missão
por Luiz Zanin, Seção: Concorrentes às 14:02:43.

Na entrevista coletiva de Sonhos e Desejos, o diretor Marcelo Santiago admitiu que enxugou, e bastante, o caráter político de Balé da Utopia, o livro de Álvaro Caldas que deu origem ao filme. "Queria apenas filmar uma história de amor, que tivesse a luta armada como pano de fundo", disse. Sonhos e Desejos concentra-se no triângulo amoroso formado entre dois guerrilheiros (Felipe Camargo e Sérgio Marone) e a bela Cristiana (Mel Lisboa).

O filme foi questionado por ter estética televisiva (de fato, parece uma novelinha das seis, mas com cenas de sexo), o que ocasionou a ira do "produtor artístico" Fábio Barreto: "Esse é um clichê da crítica de cinema no Brasil", disse, visivelmente irritado.

Curiosamente, um filme que se deseja apolítico (apesar do pano de fundo da ditadura militar), provocou uma discussão predominante política. Na qual o produtor artístico teve ocasião de teorizar, dizendo que tudo era culpa da ditadura, inclusive o fato de "vivermos hoje sob um outro tipo de ditadura, a do PT".

Sonhos e Desejos é o típico exemplo de uma tendência que vem se esboçando no cinema brasileiro - tomar períodos históricos, de preferência conturbados, como se fossem parques temáticos nos quais se desenrolam histórias de amor açucaradas. Olga, de Jayme Monjardim, é o exemplo acabado. A pretensa "reflexão sobre o período", que aparece em cada debate de festival, não passa de pretexto para dignificar esses filmes, que passariam bem sem esse tipo de coisa.

Não por acaso, quando perguntaram ao diretor por que não haviam mantido o título original do livro, ouviu-se a resposta: "Porque poderia dar a impressão de que se trata de um filme-cabeça". Tudo está dito ai.

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por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 11:40:42.

Com o nevoeiro típíco do inverno na serra gaúcha transformado em chuva, Gramado iniciou seu terceiro dia com algumas mudanças no cronograma. A equipe do concorrente brasileiro Sonhos e Desejos, exibido ontem à noite, sdubstituiu o debate por uma entrevista coletiva, o que é, no mínimo, estranho. O longa de estréia do mineiro Marcelo Santiago reabre a vertente da guerrilha no cinema brasileiro. Como Cabra Cega, de Toni Venturi, mostra guerrilheiros isolados num apartamento, o chamado 'aparelho'. Um professor de litewratura, sua aluna, transformada em mulher, e um guerrilheiro ferido em ação. Santiago substitui a discussão sobre política pelos dramas existenciais. Seu filme é um thriller erótico centrado na perturbação que o guerrilheiro mascarado causa na mulher. Isso provoca ciúmes no professor, que se recrimina por ceder a um sentimento tão pequeno-burguês.
Curiosamente, o embate entre dramas políticos e existenciais também está no centro do superior Dí Buen Dia a Papa, de Fernando Vargas, exibido ontem à tarde. O concorrente boliviano estrutura-se por meio de uma estrutura temporal algo semelhante à de Os Dias - três gerações de mulheres, cada uma com seu tempo e todas ligadas à figura mítica do Che, que morre (é executado) no começo. Segue-se uma busca às vezes hilária sobre seus ossos. As mulheres substituem a grande revolução pelas transformações individuiais. Libertam-se, o que é, em pequena medida, o que já pregava o Che. Alguns críticos dizioam que Dí Buen Dia a Papa era uma vergonha e desonrava a curadoria de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz. Devem estar loucos. O filme vergonhoso é, na verdade, muito digno. Relaciona-se melhor com o público do que o mexicano Mezcal, da noite de abertura. Foi calorosamente aplaudido pelo público jovem, prioritariamente formado por estudantes da rede escolar de Gramado, que lotava o Palácio do Festival.

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Link permanente Política rala
por Luiz Zanin, Seção: Concorrentes às 01:03:39.

Em tese, a noite de terça-feira deveria ser dedicada à política. Tratam do tema o concorrente brasileiro Sonhos e Desejos, de Marcelo Santiago, e Caracazo, do venezuelano Roman Chalbaud, que passou fora de concurso, na sessão da meia-noite.

Tudo em tese, porque o filme brasileiro transforma uma trama política em uma espécie de thriller erótico, um ménage à trois no interior de um aparelho, numa época em que os grupos armados já estavam em sua fase de desmanche pelos órgãos de repressão. Felipe Camargo é apaixonado pela candidata a militante vivida pela ninfeta Mel Lisboa. No entanto, Saulo (Camargo), para sua desgraça, é obrigado a levar para casa um mix de guerrilheiro e bailarino (Sérgio Marone), de codinome Nijinsky, sim senhor.

O entorno convulsivo dos anos de chumbo é ralo como caldo de galinha e o que vale mesmo é o processo de enamoramento entre a garota e o guerrilheiro-bailarino e o concomitante processo de ciúmes que se abate sobre Saulo. O filme tem alguns momentos ok, mas falta-lhe intensidade, frisson, idealismo, qualidades que, bem ou mal, se encontravam naquele tempo em que as pessoas, sobretudo as envolvidas com a luta armada, viviam no limite.

Sonhos e Desejos é mais um filme que cava seu enredo num tempo trágico e contraditório, porém muito rico e cheio de possibilidades, e não dá conta do seu intento. Por incrível que pareça, foi uma minissérie de TV, Anos Rebeldes, que melhor retratou aquela época tão intensa. O cinema, até aqui, tem deixado a desejar, com ressalva de algumas exceções.

Para a sessão da meia-noite permaneceu na sala meia dúzia de gatos pingados. A coisa piorou quando o diretor subiu ao palco e comunicou que a cópia em 35 mm não havia chegado e portanto a exibição seria em DVD.

Ora, não existe coisa mais deprimente do que assistir DVD numa sala de cinema com mais de mil lugares e quase vazia, ainda por cima. Com mais razão quando se trata de um projeto grandiloqüente e cansativo como o de Roman Chalbaud. De modo que pouca gente viu a encenação dos acontecimentos de 1989, quando a população se amotinou e enfrentou a polícia, na sempre convulsiva Venezuela.

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15.08.06

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por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 19:30:22.

Depois do começo com um filme difícil, exigente, mas rico em densidades e conteúdos - Mezcal, de Ignacio Ortiz Cruz -, a mostra latina do 34° Festival de Gramado prosseguiu agora à tarde com Di-le Buen Dia a Papa, do boliviano Fernando Vargas, produção do argentino Pablo Trapero. É um filme mais palatável e foi aplaudidso com calor no fium da projeção. Não se entenda por isso que é um filme mediano ou de apelo mais comercial. Vargas fez um filme muito digno, com um roteiro criativo (de autoria dele) contando as histórias de três gerações de mulheres que se unem em torno à mítica figura de Ernesto Che Guevara. O título encerra múltiplosd significados. Tem a ver com essa garota, que vira mulher sempre à espera do pai ausente, a quem deverá dizer bom-dia. Mas papa também era o codinome do Che, na operação montada pelo Exército boliviano para prendê-lo. E dizer-lhe bom-dia, no jargão militar, equivalia à licença para que ele fosse executado, outorgada pelo presidente da Bolívia, em 1967. Há algo de Os Dias, de Stephen Baldry, na estrutura narrativa de Di-le Buen Dia a Papá. Flash-backs que se abrem em três diferentes tempos, as mulheres acompanhadas em diferentes fases de sua vida, a libertação, senão política, existencial, já que cada uma delas faz a sua revolução particular. E o filme é bonito. Tudo o quiew evoca o Che guarda aqui o sentido do amoroso. Estamos a léguas de distâsncia de A Cidade Perdida, de Andy Garcia, que, além de tudo, é malfilmado.

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Link permanente Que o Che repouse em paz
por Luiz Zanin, Seção: Concorrentes às 18:22:58.

Primeiro grande erro de curadoria do Festival de Gramado, o filme boliviano Dí Buen Dia a Papá, de Fernando Vargas, foi apresentado agora à tarde no Palácio dos Festivais. O título se refere à frase usada pelo governo da Bolívia aos carcereiros de Che Guevara para dizer que o guerrilheiro, que fora capturado vivo, deveria ser morto. Ernesto Guevara foi executado em 9 de outubro de 1967 e seus ossos estiveram enterrados durante 30 anos em Vallegrande, até serem descobertos.

O filme poderia ter explorado de maneira melhor o veio riquíssimo que foi a adoração mística que a gente simples do lugar passou a dedicar a Guevara. Lembra também que a prefeitura do povoado lutou para que a ossada permanecesse no local porque pensava que poderia se transformar em atração turística. Na verdade, os restos foram devolvidos a Cuba e repousam hoje em Santa Clara, onde o Che dirigiu uma batalha decisiva na fase final da revolução.

No entanto, Dí Buen Dia a Papá prefere pôr em cena uma história ficcional, com três mulheres de Vallegrande e seus conflitos amorosos e familiares. E o faz de maneira tosca, com atuações canhestras e direção amadorística. A história do Che passa a ser um pano de fundo, apenas. Não se sabe por que motivos este filme foi selecionado para a competição internacional de Gramado. Os curadores devem saber.

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Link permanente Homenagem
por Luiz Carlos Merten, Seção: Homenagens às 15:39:23.

Antônio Fagundes recebe hoje à noite o troféu Oscarito, que o Festival de Gramado dedica, todos os anos, a uma grande personalidade do cinema brasileiro. Ninguém é mais global que Fagundes e o festival havia prometido, para 2006, uma mudança de perfil, privilegiando a discussão do cinema sobre o glamour do tapete vermelho. Justiça seja feita - o homenageado do 34° festival com o troféu Oscarito encarna o lado mais glamouroso de Gramado, mas Fagundes, além de ser global, é ator e de grandes papéis em filmes importantes.

Seu sucesso é inegável. Havia mais gente na porta do Palácio dos Festivais para vê-lo, ontem à noite, do que a qualquer outra personalidade do cinema. Aonde vai, Fagundes é adulado, fotografado, pedem-lhe autógrafos. O assédio é constante. Não é nenhum desdouro para Andrea Tonacci, o principal concorrente brasileiro da noite da inauguração, que passou despercebido na entrada do palácio. Tonacci concorre ao Kikito com Serras da Desordem. Uma enquete feita com o público na porta do cinema deu que a maioria nunca tinha ouvido falar do cara e alguns até achavam que Andréa era nome de mulher. Gramado, aos 34 anos, fornece um belo cenário, mas ainda não conseguiu formar uma cultura de cinema na serra gaúcha.

O que mudou desde que Fagundes começou a fazer filmes, há quase 30 anos? "A gente sempre fez cinema contra alguma coisa. Continuamos fazendo com problemas de público, de orçamento, de mercado em geral, mas há uma vantagem - há 30 anos havia a censura do regime militar e agora, pelo menos disso, estamos livres." O que representa o troféu Oscarito para um ator que, segundo os próprios cálculos, já ganhou cerca de 30 prêmios por sua atividade no teatro, cinema e televisão? "Acho que a comédia é sempre alvo de preconceito dos críticos, como se fosse uma coisa menor, o que não é. Aristófanes é menos lembrado do que Sófocles e Ésquilo embora subsistam mais obras dele do que dos outros dois. Shakespeare é mais popular do que Molière. Fazer humor é difícil. Exige talento e uma noção muiito precisa do tempo. O troféu Oscarito me honra porque, além de tudo, ele era um gênio do humor e um cara com grande capacidade de improvisação."
Fagundes está atualmente com a peça As Mulheres da Minha Vida, em cartaz. É um texto de Neil Simon, dirigido por Daniel Filho, com o qual ele já alcançou a marca de 150 mil espectadores. "Gosto de dizer que o teatro é a pátria do ator e fazê-lo é uma necessidade interna. Quanto ao sucesso da peça, acho que é a prova dos problemas que o cinema enfrenta no País. O teatro é tradicionalmente considerado elitista, enquanto o cinema é um meio popular, mas somente quatro filmes, entre os 33 que foram lançados este ano, fizeram mais do que 150 mil espectadores. Teve um que fez menos do que 50 pagantes. Quer dizer, nem a família do cara que fez foi ver o filme. Quero continuar fazendo teatro e TV, mas precisamos levar o público para as salas de cinema."

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Link permanente Um outro tipo de tempo
por Luiz Zanin, Seção: Festival às 13:57:56.

Em sua entrevista, diretor de Serras da Desordem, Andrea Tonacci, diz que não se incomoda quando as pessoas confessam ter dificuldades para saber se seu filme é um documentário ou ficção: “Essas são distinções de gênero, que estão no hábito das pessoas, mas não no cotidiano delas. Na vida real, temos um sentimento de realidade e, ao mesmo tempo, vivemos fantasiando coisas. Não fazemos esta distinção”, diz.

Tonacci defendeu também a postura autoral do seu filme e mesmo a sua longa duração (2h15 min) que, segundo um jornalista presente, poderia prejudicar sua carreira comercial. “Serras da Desordem é um filme de baixo orçamento, feito com dinheiro público e por isso me obriguei a uma atitude ética e humanista diante de um problema real que é desaparecimento das culturas indígenas no País”, disse.

Serras da Desordem fala do único sobrevivente de um massacre promovido por fazendeiros no Maranhão, que se torna um índio nômade e sobrevive pela selva até ser encontrado pelo sertanista Sydney Possuelo, que o leva para Brasília e depois o devolve à vida na floresta.

Andréa Tonacci, nascido na Itália e criado no Brasil, um dos nomes importantes do movimento chamado de Cinema Marginal dos anos 70, defende também a duração do seu filme. “Nós vivemos sob o império do relógio, da pressa; quis dar ao espectador o tempo de olhar, o tempo de enxergar e ter a experiência de uma realidade que não é a nossa, e que temos muita dificuldade para compreender”, disse.

O sertanista Sydney Possuelo, também presente em Gramado, afirmou que essa é uma grande característica da cultura indígena: uma outra relação com o tempo. “Depois de 43 anos trabalhando com eles, percebi que nós vivemos sob o jugo do tempo e eles vivem sobre o tempo. Não existe, na cultura indígena, nada que diga a um indivíduo ‘Você tem de fazer tal coisa, agora’. Para eles, o tempo flui.”, disse.

Essa dimensão cultural, entre outras, é o que nos arriscamos a perder com o desaparecimento dos povos indígenas, “sobretudo as pequenas etnias”, diz Sydney. Segundo ele, as grandes etnias estão razoavelmente preservadas e têm chance de sobreviver; as pequenas estão sendo assimiladas aos poucos, ou simplesmente destruídas”, admite.

Esse belo filme em nada lembra aqueles discursos ecologicamente corretos e no fundo muito chatos. Trabalha com a linguagem cinematográfica para passar seu difícil recado: a experiência do Outro, aquele que é separado de mim por uma cultura diferente, e, mesmo assim, é meu semelhante. Essa tentativa de compreensão do tempo indígena é o que o filme tem de mais estimulante. Pelo menos para o meu gosto pessoal.

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Link permanente História
por Luiz Carlos Merten, Seção: Concorrentes às 12:02:56.

Nada como a memória para resgatar a história de um festival. Há 34 anos, em 1973, o 1° Festival de Gramado começou com chuva, mostrando só filmes brasileiros. Foi o ano em que Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, ganhou o Kikito de melhor filme e Darlene Glória ficou com o troféu criado pela artista Elizabeth Rosenfeld e destinado à melhor atriz do evento. Ontem, o 34° Festival de Gramado, agora de cinema brasileiro e latino, começou de novo com chuva e Darlene Glória está de volta às telas no filme Anjos do Sol, de Rudi Lageman, que será exibido amanhã à noite, no horário do jogo entre São Paulo e Internacional. Uma leva de jornalistas está planejando a descida da serra para assistir ao histórico jogo no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre.

Ainda não foi desta vez que os novos curadores, José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, conseguiram mudar o perfil de Gramado. Com o objetivo de devolver o festival aos cinéfilos e prepará-lo para o futuro, eles montaram uma agenda de debates que se antecipa interessante, mas o que faz o tititi de Gramado ainda é o glamour do tapete vermelho. O público que se posta diante do Palácio dos Festivais quer ver as estrelas da Globo. Luciano Szafir, que não é exatamente um nome destacado do cinema do País, teve uma entrada de superastro na inauguração. Rocco Pitanga precisou conter o entusiasmno das fãs, que gritavam tanto seu nome que estavam prejudicando a performance da Ospa, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, em frente ao palácio.

Dois filmes, um latino e outro brasileiro, foram exibidos na primeira noite. O mexicano Mezcal, de Ignacio Ortiz Cruz, abriu a programação. Narra uma história de desamor, morte e vingança, sob uma chuva torrencial e com recurso a um relato cíclico, tudo isso apresentando curiosos poptos de contato com Veneno da Madrugada, dse Ruy Guerra. Mezcal foi uma boa surpresa. Na seqüência, veio o filme mais aguardado da noite, Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, nome importante do cinema marginal (o udigrudi) por volta de 1970. O autor do cultuado Bang Bang mistura ficção e falso documentário para contar, de forma nãoi linear, a história (real) de um índio que sobrevive ao massacre de sua gente e atravessa dez anos de andanças pelo Brasil antes de voltar ao convívio dos remanescentes de sua tribo.

Serras da Desordem começa bem, mas, depois, a desordem do título parece contaminar o projeto. Ver o personagem ser abusado, no sentido de ser tratado como uma criança incapaz, por todos ao redor, o que inclui os sertanistas que querem ajudá-lo, revela-se mais complicado do que complexo. Serras da Desordem tem problemas. Estão no seu miolo. Em Gramado, na primeira noite, o mérito foi dos latinos.

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