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26.06.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Mood 18:35:23.

Prólogo:
Este blog está de volta ao ar após uma longa ausência causada por uma maratona enfrentada por sua blogueira. Motivo: finalização do documentário dirigido por ela sobre os motoboys brasileiros em Londres. Os brasileiros couriers, como aqui são chamados, compõem cerca de 80% destes profissionais tão necessários aqui quanto em São Paulo ou outras grandes capitais brasileiras. Mais detalhes sobre este outro lado londrino, que passa muito longe dos clichês da Piccadilly Circus e de Notting Hill, virão a seguir. Por ora, outra história londrina: Michael Jackson e sua anunciada, mas nunca realizada, última turnê

nb

Londres

Centenas de fãs lotavam a Trafalgar Square há pouco. Celebravam o talento de Michael Jackson e agradeciam ao cantor o presente que seria dado aos londrinos: Assistir e ser palco daquela que seria a última turnê da vida do Rei do Pop.
“Não deu tempo… Nunca vou ver o Jacko ao vivo”, lamentava uma fã adolescente ao amigo enquanto acendia uma vela em homenagem a Michael.

Hoje pela manhã, na ‘porta’ da O2 Arena (a arena de espetáculos no leste de Londres) que seria a ‘casa’ de Michael até março de 2010, quando a turnê (ainda que não saísse do mesmo lugar) seria encerrada, centenas de fãs exigiam o dinheiro dos ingressos de volta e choravam pela memória do cantor.
Enquanto isso, nas linhas mais que lotadas do metrô londrino, os jornais gratuitos sumiram. Quem enfrenta a maratona do ‘commuting’ todos os dias em Londres sabe. Em geral, no fim do dia, o que mais se vê nos vagões são os London Paper, o London Lite e o Metro jogados às traças depois de terem sido devorados pelos milhares de usuários do ‘tube’.

Hoje não. Hoje um usuário resmungava para o amigo: Todo dia tem Metro jogado pelo chão. Fica uma sujeira só. Hoje, justo hoje que eu quero ler sobre o Jacko, não tem um exemplar.”
O amigo retrucou: “Claro. Hoje é um dia histórico. Todo mundo quer guardar o jornal ou levar para casa.”

Se os tablóides metropolitanos entraram para a história, isso é assunto para outro post. Mas que a manchete do Metro deixa um quê de intriga e exagero (como todo bom tablóide tem de ter), isso deixa. A chamada: “Família culpa Londres pela morte do superstar”. “Jacko foi morto pelo inferno de fazer 50 shows na O2 Arena”
É… assunto a se pensar...

 


por Flávia Guerra, Seção: Britt Mood 18:34:38.

Prólogo:
Este blog está de volta ao ar após uma longa ausência causada por uma maratona enfrentada por sua blogueira. Motivo: finalização do documentário dirigido por ela sobre os motoboys brasileiros em Londres. Os brasileiros couriers, como aqui são chamados, compõem cerca de 80% destes profissionais tão necessários aqui quanto em São Paulo ou outras grandes capitais brasileiras. Mais detalhes sobre este outro lado londrino, que passa muito longe dos clichês da Piccadilly Circus e de Notting Hill, virão a seguir. Por ora, outra história londrina: Michael Jackson e sua anunciada, mas nunca realizada, última turnê

nb

Londres

Centenas de fãs lotavam a Trafalgar Square há pouco. Celebravam o talento de Michael Jackson e agradeciam ao cantor o presente que seria dado aos londrinos: Assistir e ser palco daquela que seria a última turnê da vida do Rei do Pop.
“Não deu tempo… Nunca vou ver o Jacko ao vivo”, lamentava uma fã adolescente ao amigo enquanto acendia uma vela em homenagem a Michael.

Hoje pela manhã, na ‘porta’ da O2 Arena (a arena de espetáculos no leste de Londres) que seria a ‘casa’ de Michael até março de 2010, quando a turnê (ainda que não saísse do mesmo lugar) seria encerrada, centenas de fãs exigiam o dinheiro dos ingressos de volta e choravam pela memória do cantor.
Enquanto isso, nas linhas mais que lotadas do metrô londrino, os jornais gratuitos sumiram. Quem enfrenta a maratona do ‘commuting’ todos os dias em Londres sabe. Em geral, no fim do dia, o que mais se vê nos vagões são os London Paper, o London Lite e o Metro jogados às traças depois de terem sido devorados pelos milhares de usuários do ‘tube’.

Hoje não. Hoje um usuário resmungava para o amigo: Todo dia tem Metro jogado pelo chão. Fica uma sujeira só. Hoje, justo hoje que eu quero ler sobre o Jacko, não tem um exemplar.”
O amigo retrucou: “Claro. Hoje é um dia histórico. Todo mundo quer guardar o jornal ou levar para casa.”

Se os tablóides metropolitanos entraram para a história, isso é assunto para outro post. Mas que a manchete do Metro deixa um quê de intriga e exagero (como todo bom tablóide tem de ter), isso deixa. A chamada: “Família culpa Londres pela morte do superstar”. “Jacko foi morto pelo inferno de fazer 50 shows na O2 Arena”
É… assunto a se pensar...

 


11.06.09

por Flávia Guerra, Seção: Britt Mood 09:38:53.

tu

Londres

"Londres teve uma semana de São Paulo. Isso serve para os londrinos aprenderem que tudo sempre pode piorar", brincou (ou não) o estudante brasileiro na terça à noite, quando resolveu fazer a pé o caminho que sempre faz, em cinco minutos, de metrô. "Levei uma hora para fazer o mesmo percurso. Esta cidade está digna de São Paulo em dia de greve e chuva", completou o 'commuter' brasileiro.

Commuters são, grosso modo, o que poderíamos chamar de usuários do transporte público. Mas quem 'commuta' geralmente tem de trocar de linhas, 'to commute'. O 'commuter em geral sai de sua casa no subúrbio de manhã e tem de trocar de linhas, meios e caminhos para chegar ao trabalho. Baldear enfim...

O motivo do desespero dos commuters londrinos nesta semana: greve. Greve dos metroviários.

Em uma cidade como Londres, em que 11 linhas coloridas cruzam entre si e se propagam por linhas do
DLR (algo como o famigerado, e nunca 'alcançado' Fura Fila), do trem e das centenas de linhas do tradicional Double Deck Bus, uma Tube Strike (Greve do Tube, o metrô) causa arrepios até nos mais despojados súditos da Rainha.

dsfads
No London Lite, a manchete foi a bravura dos commuters londrinos

O desamparo em que se sentiram os moradores de Londres não atingiu somente os portadores do Oyster (uma maravilha da vida moderna que pode ser mal comparada ao Bilhete Único paulistano). Os Push-Bikers, os moto-bikers, os que andam a pé, de ônibus, de táxi... Ontem o assunto não foi o mau tempo. Até porque, apesar da tradicional chuva londrina, o tempo tem sido generoso e tem garantido domingos de sol no parque.

A greve levantou uma questão mais interessante: A bravura dos commuters.

Deu no London Lite (o 'must read' - tem que ler - jornal distribuído nas portas das estações de metrô). A bravura dos 'commuters' venceu a greve. Em vez de ficar em casa esperando a greve, e a chuva, passarem, os commuters se uniram e tiraram suas bicicletas, patins de casa, pegaram carona, ônibus e barcos.

É... Se os problemas são os mesmos nas grandes cidades, as soluções por vezes são diferentes. Ou quase. O londrino, ao menos, pode optar pelo serviço público de barcos que circulam pelo Tâmisa diariamente. Numa demonstração de solidariedade, o prefeiro Boris Johnson (que vai trabalhar pedalando todos os dias) ontem resolveu se unir ao usuários dos barcos que fazem a linha Tower Bridge - Canary Wharf. Enfim, quem não tem tube, vai de barco. Ou compra uma bicicleta.

 


por Flávia Guerra, Seção: Britt Mood 09:38:21.

tu

Londres

"Londres teve uma semana de São Paulo. Isso serve para os londrinos aprenderem que tudo sempre pode piorar", brincou (ou não) o estudante brasileiro na terça à noite, quando resolveu fazer a pé o caminho que sempre faz, em cinco minutos, de metrô. "Levei uma hora para fazer o mesmo percurso. Esta cidade está digna de São Paulo em dia de greve e chuva", completou o 'commuter' brasileiro.

Commuters são, grosso modo, o que poderíamos chamar de usuários do transporte público. Mas quem 'commuta' geralmente tem de trocar de linhas, 'to commute'. O 'commuter em geral sai de sua casa no subúrbio de manhã e tem de trocar de linhas, meios e caminhos para chegar ao trabalho. Baldear enfim...

O motivo do desespero dos commuters londrinos nesta semana: greve. Greve dos metroviários.

Em uma cidade como Londres, em que 11 linhas coloridas cruzam entre si e se propagam por linhas do
DLR (algo como o famigerado, e nunca 'alcançado' Fura Fila), do trem e das centenas de linhas do tradicional Double Deck Bus, uma Tube Strike (Greve do Tube, o metrô) causa arrepios até nos mais despojados súditos da Rainha.

dsfads
No London Lite, a manchete foi a bravura dos commuters londrinos

O desamparo em que se sentiram os moradores de Londres não atingiu somente os portadores do Oyster (uma maravilha da vida moderna que pode ser mal comparada ao Bilhete Único paulistano). Os Push-Bikers, os moto-bikers, os que andam a pé, de ônibus, de táxi... Ontem o assunto não foi o mau tempo. Até porque, apesar da tradicional chuva londrina, o tempo tem sido generoso e tem garantido domingos de sol no parque.

A greve levantou uma questão mais interessante: A bravura dos commuters.

Deu no London Lite (o 'must read' - tem que ler - jornal distribuído nas portas das estações de metrô). A bravura dos 'commuters' venceu a greve. Em vez de ficar em casa esperando a greve, e a chuva, passarem, os commuters se uniram e tiraram suas bicicletas, patins de casa, pegaram carona, ônibus e barcos.

É... Se os problemas são os mesmos nas grandes cidades, as soluções por vezes são diferentes. Ou quase. O londrino, ao menos, pode optar pelo serviço público de barcos que circulam pelo Tâmisa diariamente. Numa demonstração de solidariedade, o prefeiro Boris Johnson (que vai trabalhar pedalando todos os dias) ontem resolveu se unir ao usuários dos barcos que fazem a linha Tower Bridge - Canary Wharf. Enfim, quem não tem tube, vai de barco. Ou compra uma bicicleta.

 


15.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 16:39:37.

b

Marcha da Vida. Seqüência 4. Cena 1

Cannes - "Sou contra todas as guerras. Nenhuma delas foi ou jamais será justificável. Todas são inúteis."

A máxima não veio de nenhum ativista pela paz ou de um civil revoltado com o clima constante de estado de 'quase' guerra em que vivem tantos no Oriente Médio. Veio de um ex-soldado de Israel, que lutou contra o Líbano em 1982 e viu de perto o que de fato foi (e o papel de Israel, ainda que tenha sido se omitir) o massacre de palestinos em Sabra e Shatila, durante o conflito, no Líbano. "Nao fiz o filme pensando em lanca-lo justamente no ano dos 60 Anos de Israel. Simplesmente aconteceu. Trabalho neste projetos ha muitos anos. Desde quando minha propria memoria come'cou a me intrigar sobre o que de fato eu tinha visto nesta guerra, neste massacre. Decidi voltar a minhas memorias. E, para isso, decidi filmar um documentario animado", declarou o diretor quando questionado se seu filme 'e mais uma das `boas desculpas' para que possamos refletir sobre o significado da cria'cao do Estado de Israel.

Em vez de transformar sua experiência em mágoa, revolta, em um livro, o diretor Ari Folman preferiu transformar em um filme. Melhor, em um documentário. Melhor ainda, em um documentário animado. E o resultado é Waltz With Bashir (Valsa com Bashir), o único filme em animação que concorre à Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano.

Assim como foi o Persépolis da iraniana Marjane Satrapi (que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pela França neste ano), o filme de Folman é pura adrenalina em película.

Em vez de fazer discurso, criar teses e/ou tomar conclusões presunçosas, Folman narra sua experiência de uma forma muito pessoal. Apaixonado e apaixonante. Tracos artesanais, criados pelos animadores depois que estes assistiram 'as imagens filmadas pelo diretor, dao o tom aos sentidos, sentimentos e impressoes de garotos diante de uma guerra real e nao somente ideologica ou politica.

Na conversa com jornalistas, meu ego de repórter que acaba de desembarcar de Tel Aviv direto para a cidade litorânea francesa, não resistiu e perguntou: "Senhor Folman, você pensou no público jovem do seu país quando decidiu criar este documentário em forma de animação? Porque esta linguagem é tao jovem e, ao mesmo tempo, tão real? Estive até ontem em Israel, percorrendo o seu país, aprendendo, tentando entender quem são e o que pensam os jovens israelenses. Os mesmos que querem a paz com os palestinos são os mesmo que carregam muitas vezes suas metralhadoras e fuzis até mesmo quando vão a um restaurante. Como criar com 'apenas' um filme um debate, como falar aos corações que defendem a guerra?"

Folman olhou com surpresa e respondeu, tão passional quanto seu filme, quanto a pergunta que lhe fora feita: "Entendo sua surpresa com o que viu em Israel. Em geral as pessoas pensam que lá ou é só guerra ou é um paraíso. Ou é um pais que não deixa o debate livre. Você viu. Israel é um país onde todos podem se expressar. E eu estou tentando fazer isso. Se, com meu filme, e com minha experiência de alguém que já foi jovem, e despreparado, para uma guerra, mesmo depois de anos de treinamento, eu conseguir debater e dialogar com um jovem israelense que o seja, já vou me dar por satisfeito."

Pois bem, Mr. Folman, a julgar pelo vazio no estômago que tomou conta de quem assistiu ao filme hoje de manhã (seja quem andou pelas Colinas de Golan há alguns dias, seja quem jamais passou perto de uma trincheira), pode considerar seu dever cumprido.

No mar de monólogos surdos em que nos encontramos atualmente, em que (quase) todos querem somente usar o espaço que existe para pregar suas crenças pré-estabelecidas e não para tentar ouvir antes de falar, pensar antes de julgar, sentir antes de concluir, o réquiem para um sonho de paz de Folman é sinfonia para os olhos.

Que Cannes lhe traga ainda muitas palmas. E uma Palma merecida.

b2

 


13.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 21:40:21.

kotel
Marcha da Vida. Seqüência 3. Cena 3
Tel Aviv - “Israel é uma bolha de sabão. Um microcosmo delicado. Este estado foi construído do nada, do pó. E ao pó pode voltar a qualquer momento”, disse Husseim, o taxista palestino enquanto me levava de Jerusalém para Tel Aviv.
E quando haverá paz nesta bolha de sabão? “Nunca”, disse ele. “E sabe por que? Porque a guerra está no sangue do povo judeu. Eles não querem dividir Jerusalém. Querem tudo. E há palestinos isolados em Gaza que não podem nada. Nem iluminar suas casas. Não podem viver em paz.”
Você tem amigos judeus? “Sim. Eu até trabalho com judeus. Como eu, há tantos. Você vê palestinos servindo as mesas, dirigindo carros, comerciantes. Estão por toda parte. São cidadãos israelenses”, respondeu meu condutor, que fala ‘shalom’, mas abre um sorriso imenso quando escuta um grato ‘shukrán’. “Afuã”, responde ele, dispensando o ‘bevákashá’ hebraico para dizer ‘não tem de quê”.

“Está no sangue...”

Hussein me deixou no meu destino. Encontraria novos, e únicos em sua generosidade, amigos judeus. Próxima parada: As Colinas de Golan.
No caminho, a pergunta novamente: Quando haverá paz por aqui? A mesma resposta: “Nunca. Está no sangue palestino estar sempre em guerra. Eles não querem negociar a paz. As autoridades de Israel já tentaram de tudo.”
‘Corta para’ Taxista Palestino: “E sabe por que os palestinos não conseguem negociar a tal paz? Porque as pessoas são boas, mas os governos não são. Os governantes árabes não querem ajudar a Palestina. Querem mantê-la isolada porque têm medo que os extremos de cada país se unam.”
‘Volta para’ cena do carro em direção a Golan. A próxima pergunta: “Vocês têm amigos árabes?” “Até que sim, mas é difícil ter. As culturas são muito diferentes.” Mas como tão diferentes? Como um palestino diz muito bem ‘shalom’? Onde está este sangue de guerra em cidadãos árabes que chegam até mesmo a servir o exército israelense? “Boa pergunta. Cedeu lugar à vida. Aqui (e não na Palestina, não em Gaza, não no West Bank) eles têm uma vida boa. Têm os mesmos direitos dos cidadãos judeus. E não são obrigados a servir o exército. Com uma vida assim garantida, quem, por puro patriotismo, quer se mudar para Gaza?”


Quem quer ficar sem luz?

Boa pergunta. Quem? “Ninguém quer ajudar os Palestinos extremistas. Nem os vizinhos árabes.” Quem quer ficar sem luz? “Isso da luz (há alguns dias, dezenas de fotos clicadas por grandes agências de notícia revelaram as manifestações nas ruas da Palestina contra o corte do fornecimento de luz em Gaza) é mentira. Recebemos um e-mail que mostra que havia luz. As fotos tiradas de outros ângulos mostram que foi tudo maquiado. Isso não é certo. Lutar pelos direitos é legítimo. Manipular fatos assim é crime”, bradou meu anjo-da-guarda ‘israeli’, provando por ‘a+b’ que Israel vai muito além de fronteiras disputadas a tiros, de garotos desfilando com suas ‘personal weapons’, do sabor estranho que fica na boca toda vez que, na porta de um restaurante turístico, tem de se abrir a bolsa para provar que só se carrega mesmo câmeras fotográficas e souvenirs.

“Seu presente pode ser uma bomba”

Os caminhos de Israel vão muito mais além que suas muralhas reais e fictícias. Mas como não se arrepiar ao ouvir, após uma hora de revista e interrogatório da polícia do aeroporto israelense: “O que você está fazendo sozinha aqui? Por que o interesse por Israel? Está levando algo daqui para o Brasil? Alguém te deu algo?” A vontade é responder: “Além de abrir as portas de casa (e do país) e um imenso sorriso, nenhum israelense me deu nada para levar. Nada além de um grande aprendizado.” Mas limito a responder: “Não. Por que? Há algum problema?”
E me limito a calar ao ouvir: “Todos! Podem ter te dado um presente. E este presente, no fundo, pode ser uma bomba.”
Que mundo é este? Presentes de grego... Um dia antes, enquanto percorríamos os túneis que se abrem em um labirinto histórico nos subterrâneos da Velha Jerusalém, mais uma pergunta: Quem vai, ao fim, iluminar a Palestina, a questão Israel?

A insustentável leveza da bolha de sabão

Fazendo as contas em dólares, shelins, euros, reais, a dúvida: Quanto custa manter intacta a redoma da bolha de sabão? Quanto têm de se equilibrar os soldados das fronteiras para manter, em delicada suspensão, a bolha? Quanto se perde ao romper esta bolha? Quanto se ganha em conservá-la? Quanto fôlego se emprega a cada sopro de ajuda internacional para manter a bolha longe do chão minado de questões pontiagudas?
A superfície da bolha desta aldeia global israelense é sensível a bombas e ventos fortes. E quantos, de fato, conseguem romper a bolha sinestésica do turismo ‘fast food’ e podem se dar ao privilégio de descobrir o que de fato comem, sentem, sonham, esperam e por quê lutam os israelis de todo o mundo? Quanto de santa ainda tem esta terra prometida?
Quantos vêem em um comerciante palestino de Jerusalém a ‘outra face’ árabe? Quantos vêem nos rótulos dos vinhos das Colinas de Golan o esforço de um povo para ter reconhecido seu ‘terroir’? “Este é um país pobre de gente rica”, diz a tia israelense para o sobrinho. “Não. Este é um país rico de gente pobre. Veja o preço da gasolina como está alto. Mais de 6 shekels! Mais de dois dólares!”, rebate o tio.

“Você não pensava que Israel fosse assim, né?”

“Você não pensava que Israel fosse assim, né? Então, escreve a verdade. Israel não é só guerra, conflitos, atentados. Escreve que temos lindas paisagens, ótimos vinhos, ótima indústria”, pede o amigo. Pois bem, ótima gente, ótima comida, os clássicos mel e leite mais saborosos que já provei. Os morangos e as cerejas mais vermelhos que já vi... Ótimas estradas, com placas em árabe, inglês e hebraico. Sinalizam os caminhos pavimentados com 60 anos de trabalho, obstinação, doações, contradições e nuances tão variadas quanto as cores do pôr-do-sol da litorânea cidade de Akko. E um futuro infinito a ser pavimentado. Tantos povos vivendo em paralelo. Mas, não esquecer: as paralelas se encontram no infinito.
E seja feita Sua vontade. Seja a de Alá, Deus ou Ashem. Mundo, vasto mundo.... Para a “questão Israel-PalestinaI’, isso seria uma rima. E não uma solução. Mundo, vasto mundo. Mais global é meu coração.
n

 


por Flávia Guerra, Seção: notícias 08:15:53.

Marcha da vida. Seqüência 3. Cena 2

Colinas de Golan - Antiga base militar nas Colinas de Golan, próxima à Tríplice Fronteira (Síria, Jordânia e Israel) que hoje é ponto turístico. Além de descobrir como viviam os soldados durante as guerras com a Síria, a Jordânia pelas fronteiras estratégicas do território (que já foram palco da Guerra dos Seis Dias, nos anos 60; e da Guerra do Yom Kippur, nos anos 70), o turista pode comprar um boné do "Israeli Army" e tomar um chá de nana (hortelã) com vista para os tanques de guerra e as plantações de cereja da vizinha Síria.
b

 

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11.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 20:07:47.

Tshirts

Marcha da Vida. Seqüência 3. Cena 1

Jerusalém - A Marcha da Vida cumpriu seu caminho. As turmas, uma vez chegado ao destino, tomaram rotas diversas... Alguns voltaram para casa. Alguns percorrem outros caminhos históricos de Israel. Outros, como eu, 'dão uma passadinha' pela Tríplice Fronteira (Síria, Jordânia e Israel), que hoje se encontra em relativa tranqüilidade e pelas Colinas de Golan (que rende boas uvas e bons vinhos)... Ou passeia pelas vielas do Suq (o mercado árabe da Velha Jerusalém) e encontram baratinho, baratinho, mimos e souvenirs como o da foto acima. Pela pechincha de 40 Shekels (cerca 15 dólares) você pode adquirir este belo souvenir e desfilar feliz com sua t-shirt "Don't Worry, Bush. Be Jewish!"
bus

 

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09.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 18:35:27.

arma

Marcha da Vida. Seqüência 2. Cena 3
Jerusalém - Hannah tem 19 anos. Adora videogames, cartoons (principalmente as Garotas Superpoderosas), dançar e seu trabalho: Segurança particular.
Esta é a 'arma a tiracolo' que Hannah usava para manter a ordem durante as comemorações dos 20 anos da Marcha da Vida e dos 60 Anos de Israel ontem. O que será que Sidonia teria achado do 'toque pessoal' que Hannah deu à sua 'personal weapon"?

 


08.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 21:06:29.

Feliz
Marcha da Vida. Seqüência 2. Cena 2
Jerusalém - Yeli completou 60 anos hoje. Para comemorar, montou um pique-nique com sua família em plena praça aos pés do muro da velha Jerusalém. Para sua festa, poucos, e bons, amigos e sua família foram convidados. Mas mais de 10 mil pessoas acabaram passando pela mesa montada no jardim de Yeli. Enquanto percorriam os últimos quilômetros da Marcha da Vida 2008, os jovens judeus de todo o mundo saudavam Yeli com o tradicional ‘shalom”! E cantavam o hino de Jerusalém... E pulavam ao som de canções folclóricas e gritos de ordem. E celebravam.

“Vencemos o Holocausto”

Enquanto não cortava seu bolo (vide foto), Yeli servia aos velhos, e novos, amigos os mais tradicionais pratos da cozinha judaica, as frutas secas da região e a cerveja local. Tudo kosher, é claro. “Mas porque você escolheu fazer a festa justo hoje, quando esta multidão ia passar por aqui”, perguntei, enquanto saboreava a rara hospitalidade da família, e um dos morangos mais saborosos que já provei. “Eu não escolhi. Eu nasci hoje. Nasci no dia da Independência de Israel. A Marcha é que passou por aqui no nosso dia”, brincou o jovem senhor. “Então, por que você não se junta à Marcha e comemora no epicentro de Jerusalém? No Muro das Lamentações?”

Show must go on...
A resposta não caiu tão bem quanto a tâmara que me fôra servida por Hannah, a mulher de Yeli, mãe de três belos filhos e avô de outros cinco meninos e meninas. “Todos nasceram aqui. É nosso maior orgulho”, dizia Hannah enquanto enchia minha mão de tâmaras cinematográficas.
“Porque, apesar de termos vencido o Holocausto, a Marcha não faz parte do meu caminho. O que nasceu como uma peregrinação hoje, a meu ver, é muito mais showbusiness. E eu não transformo minha fé em negócio”, disse Yeli, fazendo mais uma vez soar o alarme da contradição tão alto quanto soam os alto-falantes dos moezins que chamam os muçulmanos de Jerusalém para rezar cinco vezes por dia. A resposta ecoou pelos cantos da Terra Santa. Mas o barulho e os gritos de guerra (ou melhor, de paz) dos jovens que percorriam, felizes, crédulos e autênticos, a Marcha, não deixou que eles ouvissem a resposta de Yeli.

“Como assim vocês venceram o Holocausto?”, perguntei. Pergunta óbvia. Resposta clara: “Oras, veja tudo isso e me diga se não virou uma bela indústria do entretenimento. Você sabe quando lucram os organizadores da Marcha? Milhões. Não concordo. Fé é coisa séria. Acho maravilhoso que estes garotos estejam tomando consciência de sua história e suas origens, mas não vou eu sacolejar e dar pulos diante de palavras de ordem ou shows de música pop. Prefiro cortar meu bolo com minha família.”

Yeli é da safra de seres como Sidonia (a jovem senhora polonesa-americana). Destinados a explicar para confundir. Confundir para explicar. Enquanto digeria a contradição imposta por este engenheiro (filho de uma família que imigrou para Israel logo após o término da Segunda Guerra, fugida de campos de concentração. Desta vez, na Alemanha, de onde não conseguiam sair - e onde continuaram ‘morando’ mesmo dois anos após o fim da guerra - porque ninguém os queria em parte alguma), a Marcha, e o dia, seguia.

“Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa”

Todos os caminhos dos cerca de 10 mil participantes da peregrinação, que na última semana percorreram os caminhos da guerra na Polônia e, nesta semana, percorreram os caminhos da paz (e da guerra também) pela Terra Santa, conduziram ao Muro das Lamentações. “Fiz o meu pedido de paz. Sempre me perguntam o que eu, como judeu e brasileiro, que segue a linha ortodoxa e anda de quipá na rua em plena São Paulo, acho dos conflitos de Israel com a Palestina, das condições dos árabes na Faixa de Gaza, das condições de vida na Cisjordânia... Eu acho que não há como comparar uma situação real de conflito, em que os dois países, exércitos, ou nações, têm condições de lutar. Uma coisa é uma guerra, uma batalha. Outra coisa é um genocídio. O Holocausto durante a Segunda Guerra foi um genocídio. Hoje, a situação é outra. E eu, antes de qualquer outra coisa, sou judeu. E como judeu, também não deixo de ser brasileiro. Meu papel na volta ao Brasil é o de defender e combater a ignorância que há aqui e no mundo. E pretendo fazer isso com garra”, disse, do alto de seus 16 anos, Maurício, jovem paulista que terminou a sua primeira Marcha hoje.

Verde, amarelo, azul e branco

Maurício não provou o bolo de Yeli. Yeli não vestiu a camisa de Maurício. Yeli e Maurício são diferentes em suas igualdades. Denominador comum: o quipá. Yeli também segue a linha ortodoxa, usa quipá e defende um estado legítimo que assegure abrigo aos judeus em todas suas angústias. A bandeira de Yeli é azul e branca, que ele não carrega nas costas, mas com as quais enfeita seu bolo de aniversário. Já na bandeira de Maurício, uma das mais cobiçadas no ‘mercado de pulgas do troca-troca de prendas entre os países’, vai uma pitada de verde-e-amarelo. “Para quebrar a mesmice e botar um pouco de feijão no caldo.”
yeli

gm

 


07.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 21:47:10.

Tel Aviv - "Israel, 60. E ainda sexy....", dizia uma camiseta de um cidadão israelense que festejava na noite de hoje os 60 anos da criação do Estado de Israel. Análises políticas e históricas deixadas a cargo de quem é de fato especilista neste assunto fascinante e controverso, a camiseta (foto será postada aqui em breve, assim que o dono da camiseta 'autorizar' a publicação) do garoto que nasceu em Tel Aviv e entra para o treinamento militar israelense assim que terminar os estudos, fala em poucas palavras o espírito da festa. "É o nosso carnaval. É o dia em que nós, israelenses, comemoramos com alegria, e não só com obrigação, a existência de um lar", disse Gael, o dono da 'grife'.
Gael e mais cerca de 25 mil pessoas lotaram hoje a Praça Rabin no centro de Tel Aviv para comemorar, assistir a shows de astros-pop do país e a uma queima de fogos digna de reveillon carioca. 60

 

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por Flávia Guerra, Seção: notícias 21:23:21.

Marcha da Vida. Seqüência 2. Cena 1
Jerusalém - “Não faça esta cara tão desapontada. Tente fingir um pouco. Você está assim porque ficou triste com o que aconteceu aos brasileiros em Varsóvia? Não deveria estar. Eles aprenderam muito com isso.”
A pergunta de Sidonia Lax (vide post abaixo), a sobrevivente de Auschwitz que hoje vive em Los Angeles e que percorre a Marcha da Vida com o grupo de jovens americanos caiu como uma luva, e um peso, sobre esta que aqui vos escreve. A cara de desapontada se referia à visão de uma garota de 16 anos empunhar uma metralhadora para um amigo da turma. A turma de Los Angeles hoje passou o dia conversando com jovens voluntários que integram o exército de defesa de Israel, ouvindo sermões sobre a importância da fundação do Estado de Israel (que completa 60 anos nesta semana) e comentando o quanto ficaram surpresos com o ‘quase’ atentado aos novos amigos brasileiros na manhã de segunda. Os jovens americanos estavam no mesmo hotel, o Holiday Inn, mas haviam saído, em direção ao aeroporto, cerca de 20 minutos antes do ‘quase’ terrorista entrar no hotel.
A propósito, relembrando, o que aconteceu aos brasileiros foi este ‘quase’ atentado do filho do embaixador do Kwait aos garotos cariocas que percorrem a Marcha e estavam hospedados no Holiday Inn.
A resposta soou como provocação à senhora que nasceu na Polônia, declarou-se ‘sem pátria’ no fim da Segunda Guerra e adotou os Estados Unidos como lar quando para lá emigrou aos 17 anos, em 1948. “Não é pelos garotos brasileiros que me desaponto. É pela falta de preparo para achar natural ver uma adolescente carregar nos ombros uma metralhadora como se fosse uma bolsa de grife.”

A tiracolo, uma bolsa de grife e uma metralhadora...

Sidonia não se deu por vencida e rebateu, exagerando um tanto: “Só aqui você vê estas garotas do exército. Elas são exemplo para nossos jovens. Elas lutam contra perigos reais, como o árabe que invadiu o hotel de vocês e quase provocou uma tragédia.”
Diante da resposta, não houve como não rebater: “Não é natural para um brasileiro lidar com este assunto, ainda que tenha sido um incidente e não atentado nenhum. Brasileiros temem a violência urbana. Terrorismo e conflitos como este entre Israel e Palestina, que provocam tanta controvérsia, é assunto de página de jornal e não do cotidiano.”
Sidonia, a ‘jovem’ mais espevitada da turma de L. A, não recuou: “Vocês não fazem guerra porque não têm inimigos. Os EUA lutam por todos. Lutam contra terroristas reais. E o mundo não é o Brasil. Aqui a realidade é mais complexa. Vocês precisam aprender isso.”
É, o mundo não é o Brasil. Enquanto digeria a aula de Sidonia, parei para comprar uma bureka (espécie de folhado de origem húngara, mas muito popular na cozinha do Oriente Médio). Boa e barata, a bureka seria o menu ideal para um almoço no dia em que todos os restaurantes fecharam pontualmente às 11horas (hora exata de todos pararem tudo que estão fazendo e, por um minuto, lembrarem-se dos soldados israelense mortos em conflitos).

Shalom... shukrán

O dono do boteco da bureka era muçulmano (informação deduzida pelo número de inscrições sagradas do Islã penduradas na parede) e me recebeu com um “shalom”. Um provável árabe que mora em Jerusalém e fala hebraico. Para quem acompanha com afinco o noticiário e a história da região, nada mais natural. Para quem descobre que ‘vamos lá’ em árabe e em hebraico é a mesma palavra (grosseiramente, a palavra é ‘yala’), um misto de surpresa e estranhamento. Na hora de pagar a conta, outra surpresa: Fica de presente. Não é todo dia que entram aqui e nos dizem ‘shukrán’ em vez de ‘toda haba’.
As duas palavras significam em, árabe e hebraico, a mesma sensação: gratidão.

Yala...
As duas fronteiras entre dois mundos quebradas em um ‘yala’, uma bureka de presente, um árabe que nos recebe com um ‘shalom’.
Sidonia não estava lá para presenciar. Sidonia não conhece a violência urbana no Brasil. Sidonia é sobrevivente de Auschwitz, cidadã americana e mesmo assim diz que a ‘guerra é necessária’. Sidonia se diz cidadã do mundo. Mas, como ela bem o disse, ‘o mundo não é o Brasil”.
Mundo, vasto mundo. A bureka caiu muito bem. Como uma rima. E não como uma solução. O suficiente para aplacar por ora as contradições e preparar o estômago, e o espírito, para a festa de 60 anos de Israel, que parou a capital Tel Aviv hoje e há pouco reuniu milhares de pessoas na Praça Rabin para uma celebração com cara de show de rock e noite de Ano Novo em Copacabana.
A Marcha chega ao fim amanhã, com o encontro de todos que a percorrem este ano em frente ao Muro das Lamentações. Seja qual for o mundo de cada um dos participantes, não vai haver frestas suficientes para os bilhetinhos pedindo o que mais se ouve desejar por estas bandas: “Paz.”

 


por Flávia Guerra, Seção: notícias 20:42:53.

Seguranças fazem a escolta da turma de jovens paulistas que chegaram ontem à Jerusalem, para completar em Israel, a última fase da Marcha da Vida 2008 Metralhadora

 

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por Flávia Guerra, Seção: notícias 20:25:15.

Jovens de Los Angeles conversam com jovens voluntários no exército Israelense em Tel AvivGarotas

 

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06.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 17:36:22.

Marcha da Vida. Seqüência 1. Cena 7

Majdanek/Lublin - Treblinka – Passado o susto que os brasileiros levaram ontem com a invasão do hotel Holiday Inn por um suposto terrorista árabe, que causou uma saída às pressas da delegação carioca que acompanha a Marcha da Vida, as turmas brasileiras chegaram hoje à Jerusalém.
Antes de falar que como nesta jornada cabe muito mais à Polônia a imagem da terra arrasada que serviu de palco para os horrores nazistas (e a Israel, cabe o símbolo da terra prometida, segura - ainda que nenhum dos que fazem a viagem desconheçam as tensões bélicas da região -, quente e calorosa) falemos das sensações que cada um dos campos de concentração por que passam os garotos que percorrem a Marcha despertam em cada um deles. “Auschwitz me pareceu mais um museu. Foi difícil, mas mais difícil mesmo foi passar por Majdanek”, comentou Tâmara, ‘tirando’ as palavras da boca de Sidonia Lax, a sobrevivente justamente do maior complexo de extermínio da História. “Fiquei decepcionada com o que virou Auschwitz. Aquilo é frio. Não transmite um terço do que sentimos eu e tantos prisioneiros que por ali passaram. Virou uma Disneyland”, disse a mais espoleta das ‘garotas’ que integram a delegação de Los Angeles. Mais uma vez, alguém ‘tirou’ as palavras de boca de alguém. “Concordo plenamente. Chegam em Majdanek e ver aquela montanha de cinzas foi chocante. É como ver o mal encarnado. Com ou sem questões de guerra e conflitos, é difícil entender porque alguém, aliás, uma nação inteira, possa ter gasto tanta energia para praticar o mal”, completou o paulista Maurício. Sidonia, mesmo que sem saber, fez coro a Maurício e emendou: “Chegar a Treblinka, por incrível que pareça, foi mais chocante que voltar a Auschwitz. Talvez porque encontrei ali a pedra da minha família (Em Treblinka, cada rocha representa uma família morta no campo). Aliás, minha família polonesa inteira desapareceu na Segunda Guerra. Assim, como pó. Todos morreram nos campos. Menos eu, que me casei na América e hoje sou ‘Lax’. E hoje a ‘minha pedra’ falou muito mais que anos de história que contei durante toda a minha vida para meus filhos e netos. E que repito aqui nesta viagem para os adolescentes. A rosas morrem. As pedras são eternas.”
As pedras do caminho

 

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05.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 17:02:34.

De um hóspede do hote Holiday Inn, que não quis se identificar, sobre a manhã de hoje, quando ele, e os garotos brasileiros e norte-americanos que acompanham a Marcha da Vida, foram acordados pela polícia polonesa, após um 'quase' atentado 'quase' cometido por um 'quase' terrorista, que 'quase' seqüestrou três jovens 'quase' israelenses:
"Estava no quarto, cedo de manhã, quando um sujeito do hotel
passou correndo, batendo de porta em porta e gritando "terrorist bomb"
pelos corredores. Saí correndo, cheguei a ser parado por um grupo de
policiais e tive que mostrar meu passaporte e a chave do quarto,
comprovando que estava hospedado, para ser liberado. Havia uma grande confusão no lobby. O hotel estava lotado de policiais com toucas ninja
revistando tudo e todos. O prédio foi rapidamente evacuado. Na saida,
no corredor, cruzei com um sujeito gordo jogado no chão, com as mãos algemadas nas costas, imobilizado por um policial. Ficamos todos nós, hóspedes, do lado de fora. Tinha gente descalça e tudo. A rua estava fechada e cheia de todo tipo de policiais e milicos. Os meninos entraram num ônibus e foram tirados daqui em questão de minutos, parecia uma operação previamente ensaiada. Vi dois sujeitos com pinta de árabes serem levados algemados. A operação toda, até a liberação do hotel para a volta dos hóspedes, durou umas quatro horas."

 

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por Flávia Guerra, Seção: notícias 11:20:27.

Varsóvia – Hoje pela manhã, o silêncio deixado pela ida dos jovens americanos ao campo de Treblinka e pelos brasileiros ao campo de Majdanek cedeu lugar a uma balbúrdia muito maior que a da noite de sábado (leia post abaixo e veja foto acima).
Mas desta vez a bagunça não teve nada a ver com pandeiros ou batidas de hip-hop. Quem bateu à porta de três garotos hospedados no andar acima do meu, o sexto, do hotel Holiday Inn, foi um homem de cerca de 24 anos. Os meninos bagunceiros do dia anterior, que levaram bronca até das monitoras americanas, hoje acordaram com medo. “A gente estava reclamando no sábado que queria sair e não podia. Porque aqui é muito mais seguro que o Rio. E hoje acorda com isso! Nunca ia pensar que logo na Europa eu ia passar por este pavor de terrorismo e tudo mais”, disse um dos garotos que preferiu não se identificar. “Eu não. Vai que estes caras continuam atrás da gente! Agora ficamos com medo disso”, justificou o garoto.
O homem que manteve os três jovens cariocas como reféns no quarto disse a um dos funcionários do hotel que era do Kwait. “Ele chegou, bebeu uma cerveja, estava meio alterado e disse que não tinha dinheiro para pagar. Um outro pagou para ele. E eu não o vi mais”, contou o funcionário. O homem, que disse à polícia se chamar Mohamed A., não estava armado e pensou de fato que eles fossem jovens israelenses. Seguiu para a delegacia. Os garotos, que não sofreram nenhum ferimento, também. Passado o susto, já que a polícia polonesa rendeu o suposto ‘terrorista’ antes mesmo das 10h30 da manhã, a turma deixou o hotel em direção ao aeroporto de Varsóvia, de onde embarcou para Jerusalém. “Espero que lá a gente tenha mais tranqüilidade”, disse o garoto. Amem!
Antes do atentado, samba e hip-hop no Holiday Inn

 


por Flávia Guerra, Seção: notícias 10:40:04.

Marcha da Vida. Seqüência 1. Cena 6
Treblinka - Clarice Lispector dizia que não existem lugares especiais. O que existe são pessoas especiais. Hoje, suas palavras ecoavam não só na minha mente de legionária estrangeira, mas em todas as frestas das pedras que fazem de Treblinka um lugar único no mundo. Antigo campo de extermínio, para onde quase a totalidade dos judeus que foram trancados no Gueto de Varsóvia eram mandados, foi em Treblinha que morreram os irmãos de Paula Ostrowiec
Umas dos sobreviventes do Holocausto que acompanham a turma de Los Angeles, Paula (que hoje é Lebovics) perdeu toda a família em Treblinka. Criança que era, foi salva pelo irmão mais velho, que a ‘ensinou’ a fugir no exato momento em que os soldados nazistas faziam uma das tantas inspeções ao Gueto. Hoje, pela primeira vez, Paula pisou em Treblinka.
Hoje, o samba e o hip-hop que animou a noite de ontem da garotada deu lugar a um melancólico acorde do violão que acompanhava os cantos da turma em volta da pedra da família de Paula. O riso fácil, que rendeu tanto à turma brazooka quanto à americana uma bela bronca do gerente do hotel, deu lugar a lágrimas nada óbvias nem ensaiadas.

A julgar pela balbúrdia que faziam logo ao desembarcar no campo, localizado a cerca de 100 quilômetros ao norte de Varsóvia, tudo parecia mais um passeio no campo. Até que a monitora convocou a todos para ouvir Paula. “Hoje é o primeiro dia na vida de Paula que ela poderá entoar o Kadish (a tradicional oração aos mortos) para sua família. Vamos acompanhá-la.”
Paula já tremia antes mesmo de pisar no imenso campo onde hoje há somente pedras. Os nazistas destruíram Treblinka antes que as tropas aliadas chegassem até ele. No lugar da estação de trem falsa e das câmaras de gás, há um monumento e pedras. Cada imensa pedra simboliza uma família e/ou um país que sofreu ali. É triste e, ao mesmo tempo bonito, observar os olhares que procuram ávidos os nomes de suas famílias. Paula encontrou sua pedra.
“Encontrei!”, disse Paula. Todos se entreolharam, em um misto de alívio e apreensão.
Círculo formado em volta da pedra. Kadish na ponta da língua. Cena perfeita para a diretora Jéssica Sanders, de Marcha da Vida, que acompanhava com sua equipe a viagem da turma. Foi só Paula falar para toda a pose ruir. “Meu irmãos eram jovens. Tinham a vida toda pela frente. Tinham documentos que atestavam que tinha acabado de se curar de tifus. Tinham certeza que se salvariam. Mas os oficiais nazistas não aliviaram. E eles morreram aqui.”
“O que você quer dizer às pessoas que mataram seus irmãos?”, perguntou Erika, outra sobrevivente de Auschwitz, que celebrou seu aniversário de 80 anos, em 1º de maio, no mesmo campo, durante a Marcha da Vida. “Não sei. Nunca pensei no que diria. Só queria vir aqui e rezar o Kadish para eles.”
“Você não quer dizer que tem ódio deles? Eu tenho ódio. Eu queria que eles passassem o que eu passei”, rebateu Érika. “Não. Eu não sei sentir ódio. Eu só queria dizer que o mundo não pode mais se calar diante de coisas horríveis como estas. Não podemos mais nos calar para o que ainda acontece com tanta gente no mundo, como fizeram as pessoas quando os nazistas matavam tanta gente inocente aqui. Quando mataram meus irmãos. Mas hoje vou embora feliz. Hoje enterrei, finalmente, minha família.”
Sem Paula, Treblinka não é muito mais que um monumento e um amontoado de pedras. Com ela, as pedras começaram a ter voz. Mas hoje o que se ouviu da turma do hip-hop não passou de silêncio.
Paula diante da \'pedra de sua família\'

 

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03.05.08

por Flávia Guerra, Seção: notícias 19:18:19.

Marcha da Vida. Seqüência 1. Cena 5
Varsóvia - Se no Brasil tudo acaba em samba, nos Estados Unidos tudo acaba em hip-hop. Pelo menos, quando o assunto é o que fazem os jovens que percorrem a Marcha da Vida depois que a programação diária (a de hoje foi a visita aos Campos de Majdanek, para os norte-americanos, e ao Gueto de Varsórvia, para os brasileiros) é encerrada e eles têm a noite livre.
Se dependesse dos monitores dos grupos, iriam para a cama cedo e, como num bom Shabat, preservariam o silêncio e a meditação. Mas que nada! Sejam católicos, judeus, budistas, espíritas e até mesmo protestantes, há sempre um ou dois pandeiros quando se juntam mais de três brasileiros. E há sempre um hip-hop no ar quando se juntam mais de três americanos. Os meninos do Brasil tentaram ensinar os meninos de Los Angeles a sambar. Quase conseguiram. Os meninos americanos tentaram ensinar os cariocas a tirar à capela um bom ‘ritmo e poesia’. Quase conseguiram. Juntos, no lobby do hotel Holliday Inn, no coração da capital polonesa, conseguiram armar uma bela bagunça, acordar os ânimos dos mais adormecidos pelo frio de 9 graus em plena primavera e tirar a paz dos mais velhos que queriam dormir cedo. Afinal, amanhã a agenda continua e a viagem inclui uma ida ao Campo de Extermínio de Treblinka, ao norte de Varsóvia, local onde a quase totalidade dos prisioneiros do Gueto de Varsóvia foram assassinados.
Enquanto a manhã fria não chega, bota o samba para tocar! Quem não resistiu e não deu bola para o cansaço foi Sedonia Lax, nascida na Polônia, onde perdeu os pais na Segunda Guerra, e cidadã americana. A sobrevivente de Auschwitz, que carrega no braço o número de série que recebeu no campo, caiu no samba com a meninada. E provou, como ela bem diz aos teenagers com quem adora estar: “Sempre digo que uma desgraça pode se transformar numa benção. Passar pelos horrores do nazismo me fez aprender a celebrar melhor a vida. E jamais reclamar à toa. Vou reclamar do barulho dos meninos? Que nada! Vou é aprender a sambar!”

 

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por Flávia Guerra, Seção: notícias 08:17:42.

Marcha da Vida. Seqüência 1. Cena 4
Em plena 'concentração' da Marcha da Vida, enquanto um 'teenager' da delegação de Los Angeles dizia "preciso de uma camisa do Brasil de qualquer jeito", vários de seus amigos já haviam feito o escambo do dia e cantavam em homenagem aos sobreviventes usando seus novos gorros e camisas verde-amarelo. "Todo mundo quer trocar coisas com os brasileiros. Eu também. Já ganhei um broche dos sul-africanos, um botom dos canadenses. Mas falta um do Brasil", reclamava Britney.
Eles não chegavam a ser milhões, mas eram milhares os jovens que acompanhavam seus avós sobreviventes e pais na caminhada da Marcha da Vida. Há duas décadas, eles percorrem os mesmos trilhos que há pouco mais de 60 anos tantos ‘indesejados’ do nazismo percorreram em direção às câmaras de gás.
Teenager é teenager em qualquer canto. Brasileiros, canadenses, americanos, francese, mexicanos, italianos... A algazarra é sempre geral e, mesmo percorrendo caminhos que já foram tão soturnos, os adolescentes querem mais é trocar o endereço do messenger, o nome no Facebook (o 'orkut dos gringos'), o número de celular...
A algazarra americana era, de longe, a mais animada. A galera entoava todas as mais famosas canções folclóricas e fazia festa para os sobreviventes que voltaram ao campo. Desta vez, para celebrar.
No fim, Sauls, Deborahs, Patrícias, Cláudias, Celos, Carinas, Yaels, Anitas, e outros tantos dos mais de 400 brasileiros que percorreram a Marcha, exibiam felizes suas prendas trocadas.

Turma de Los Angeles e seus novos souvenirs brasileiros

 

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Flávia Guerra é repórter do Estadão e dá dicas de cultura na Rádio Eldorado AM. Faz de reportagens no Capão Redondo a entrevistas em Hollywood, com direito a caminhadas pelos Campos de Concentração da Polônia. Apaixonada por História e histórias, desta vez faz a trilha da Marcha da Vida. A caminhada refaz a Marcha da Morte dos judeus durante a Segunda Guerra e a transforma em uma celebração da vida. A Marcha comemora neste ano seus 20 anos e termina seu percurso em Israel, que festeja neste mês seus 60 anos. Acompanhe aqui todos os passos desta jornada.





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