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07.01.10
São Paulo

Scanner, já implantado nos EUA e em estudo na Europa, e outros países revela armas, e algo mais, dos passageiros de vôos internacionais
Fatos e fotos de um mundo globalizado e sem porteira. Ou quase.
Deu no Estadão e no Guardian:
- Londres estuda a possibilidade de implantar em seus aeroportos o scanner que permite checar não só se os passageiros portam armas e outros objetos afins como também os contornos dos corpos nus. Há grupos que defendem as liberdades civis alegando que o novo método de controle, que já foi adotado nos EUA e deve ser adotado por vários outros países da Europa e do Oriente Médio, viola a privacidade dos passageiros, sobretudo a das crianças.
Deu hoje no Estadão, mas no Guardian não:- Brasil concede anistia a 41.816 estrangeiros.
Como informou matéria do jornalista Vannildo Mendes, destes, 16.816 são bolivianos, 5492 são chineses, 4642 são paraguaios e 1129 são coreanos. Do total, 34mil se fixou em São Paulo, 2400, no Rio, e 1500 no Paraná.
A anistia, instituída em julho de 2009 por decreto presidencial, deu direito ao benefício a quem entrou no Brasil, mesmo que por meio ilegal, até 1 de fevereiro de 2009. Todos contemplados ganham visto de permanência provisório e, após dois anos, este será convertido em definitivo, podendo se transformar em cidadania plena se o imigrante assim o quiser.
Esta é a quarta anistia que o governo brasileiro concede a imigrantes desde os anos 80. Desta vez, aliás, surpreendeu as autoridades o número de europeus que pediram o benefício: 2390. Muitos destes provenientes de países desenvolvidos. O número de europeus anistiados foi quase igual ao de africanos: 2700. Historicamente, os africanos sempre ocuparam o topo da imigração para o Brasil, ao lado dos sul-americanos. Para finalizar, 274 norte-americanos também entraram para o time dos anistiados.
Em foto de Andre Dusek, presidente Lula participa de cerimônia de anistia a imigrantes estrangeiros no Brasil no último dia 02
Não deu no Estadão nem no Guardian:
- Enquanto isso, Maria (nome fictício, mas história real), amiga desta blogueira que vos escreve, precisou voltar ao Brasil para renovar seu visto de estudante no Reino Unido. Mesmo tendo submetido seu pedido de renovação ao Home Office inglês dentro do prazo. Salvo detalhes de documentos e declarações que são necessários, com a mudança nas leis de imigração e conceção de vistos no Reino Unido, Maria não pôde ter seu visto renovado em Londres porque a distância entre o último dia de seu visto anterior e o começo de seu novo curso foi maior que 30 dias. Por cinco dias, Maria teve de desistir do processo iniciado em Londres há meses e recomeçá-lo no Brasil. O juiz que julgou seu caso, afirmou: Entendo seu caso. Acredito que você merece estudar no Reino Unido e que seu caso seja especial. Contudo, vou recomendar você às autoridades inglesas no Brasil e acredito que você não terá problema nenhum para voltar a Londres. Nossa decisão final é somente baseada na lei. E a lei não lê casos especiais. É igual para todos.
- Enquanto isso, Max, personagem de Karl Max Way, o documentário que dirigi e estou finalizando, continua ilegal e não tem planos de voltar ao Brasil, como fez Maria, para entrar novamente na legalidade para, então, voltar a Londres. Max, assim como tantos bolivianos em São Paulo, continua trabalhando, sustentando sua família e colaborando para a dinâmica e a economia inglesa. A julgar pela lei, Max não vai ser contemplado com uma anistia geral do governo inglês. A que tudo indica, o governo britânico não tem nenhum plano semelhante ao do governo brasileiro.
31.12.09

Se Londres não vai ao Brasil, o Brasil vai a Londres
Londres e São Paulo
Depois da avalanche de correria, agitação, Christmas Sales, neve e frio, desembarco em São Paulo. De volta ao Brasil após um ano, experimento a sensação que muitos, sejam proletários, retirantes, alta classe e afin, sentem. A sensação de deslocamento no tempo e no espaço. Ao mesmo tempo em que nada mudou, tudo parece diferente. Eu bem que podia gastar muitas das minhas intermináveis palavras para descrever o 'mix of feelings' (nada mais que a mistura de sentimentos) que atordoa quem passa um ano ralando no exterior e volta à terrinha nesta época do ano. Mas vou roubar os diálogos de conterrâneos que, como eu, esperavam pelos seus vôos no aeroporto de Heathrow há menos de uma semana.

A picanha que aqui eu saboreio, não tem o mesmo gosto de lá
Estava eu saboreando um chá com leite (alguns vícios e qualidades a gente sempre herda de outros povos), quando um grupo de brasileiros sentou-se ao lado:
"Adoro Londres, mas esta cidade não dá. Preciso ir para São Paulo, ver a galera da Zona Sul, comer um churrasquinho, matar uma pizza de verdade", provocou o Paulista.
"Não dá por quê? Londres é ótima. E nem vem dizer que São Paulo é melhor. Cidade mais feia, suja, poluída, um trânsito da peste, violenta..", retrucou o amigo nordestino em seu sotaque indefectível.
"É verdade, aqui é muito melhor para trabalhar e para viver. Mas sinto falta de pegar meu carro, ir até a padaria da esquina, ser reconhecido no trajeto, parar para falar com o amigo do bar, tomar umas brejas, matar umas coxinhas! Meu, coxinha!! Há quanto tempo eu não como uma coxinha e tomo uma água-de-côco. Inglês é bacana, mas brasileiro é brasileiro", explicou o Paulista num saudosismo de encher Gonçalves Dias de orgulho.
O amigo goiâno não se fez de rogado e retrucou: "Ói qui, acho tudo muito bão aqui na Londres. Aqui na Inglaterra nem mesmo a polícia é corrupta. Uma vez fui parado pela polícia e claro que o cara se ligou que eu estava ilegal. Ele teve a cara-de-pau de me liberar mas não pediu nenhuma 'cervejinha'. No Brasil, era capaz de pedirem a minha casa para não me entregar para o Home Office. E na boa, nem tanta saudade dá. Até coxinha, picanha, farinha e requeijão a gente acha. Mas eu quero mesmo é me jogar num bailão de Goiânia, sair com as meninas, ir num rodeio, dançar muiiito! Adoro viajar, mas não troco meu Brasil por nada."
Diante dos ataques de Policarpo Quaresma do amigo, a mineira sintetizou: "É... Quando a gente tá aqui, quer estar lá. Quando está lá, quer estar aqui porque começa a sentir saudade dos eletrônicos mais baratos, dos planos para celular que não roubam a paciência da gente, do metrô que funciona e vai para tudo quanto é canto, da segurança, do salário em libras. Sabe quando eu, como cleaner (faxineira), ia ter um iphone no Brasil? Nunca."
É... Como bem diz o ditado, the grass is always greener on the other side. Or 'a grama é sempre mais verde no quintal do vizinho.'
HAPPY NEW YEAR! FELIZ 2010!

Se Londres não vai ao Brasil, o Brasil vai a Londres
Londres e São Paulo
Depois da avalanche de correria, agitação, Christmas Sales, neve e frio, desembarco em São Paulo. De volta ao Brasil após um ano, experimento a sensação que muitos, sejam proletários, retirantes, alta classe e afin, sentem. A sensação de deslocamento no tempo e no espaço. Ao mesmo tempo em que nada mudou, tudo parece diferente. Eu bem que podia gastar muitas das minhas intermináveis palavras para descrever o 'mix of feelings' (nada mais que a mistura de sentimentos) que atordoa quem passa um ano ralando no exterior e volta à terrinha nesta época do ano. Mas vou roubar os diálogos de conterrâneos que, como eu, esperavam pelos seus vôos no aeroporto de Heathrow há menos de uma semana.

A picanha que aqui eu saboreio, não tem o mesmo gosto de lá
Estava eu saboreando um chá com leite (alguns vícios e qualidades a gente sempre herda de outros povos), quando um grupo de brasileiros sentou-se ao lado:
"Adoro Londres, mas esta cidade não dá. Preciso ir para São Paulo, ver a galera da Zona Sul, comer um churrasquinho, matar uma pizza de verdade", provocou o Paulista.
"Não dá por quê? Londres é ótima. E nem vem dizer que São Paulo é melhor. Cidade mais feia, suja, poluída, um trânsito da peste, violenta..", retrucou o amigo nordestino em seu sotaque indefectível.
"É verdade, aqui é muito melhor para trabalhar e para viver. Mas sinto falta de pegar meu carro, ir até a padaria da esquina, ser reconhecido no trajeto, parar para falar com o amigo do bar, tomar umas brejas, matar umas coxinhas! Meu, coxinha!! Há quanto tempo eu não como uma coxinha e tomo uma água-de-côco. Inglês é bacana, mas brasileiro é brasileiro", explicou o Paulista num saudosismo de encher Gonçalves Dias de orgulho.
O amigo goiâno não se fez de rogado e retrucou: "Ói qui, acho tudo muito bão aqui na Londres. Aqui na Inglaterra nem mesmo a polícia é corrupta. Uma vez fui parado pela polícia e claro que o cara se ligou que eu estava ilegal. Ele teve a cara-de-pau de me liberar mas não pediu nenhuma 'cervejinha'. No Brasil, era capaz de pedirem a minha casa para não me entregar para o Home Office. E na boa, nem tanta saudade dá. Até coxinha, picanha, farinha e requeijão a gente acha. Mas eu quero mesmo é me jogar num bailão de Goiânia, sair com as meninas, ir num rodeio, dançar muiiito! Adoro viajar, mas não troco meu Brasil por nada."
Diante dos ataques de Policarpo Quaresma do amigo, a mineira sintetizou: "É... Quando a gente tá aqui, quer estar lá. Quando está lá, quer estar aqui porque começa a sentir saudade dos eletrônicos mais baratos, dos planos para celular que não roubam a paciência da gente, do metrô que funciona e vai para tudo quanto é canto, da segurança, do salário em libras. Sabe quando eu, como cleaner (faxineira), ia ter um iphone no Brasil? Nunca."
É... Como bem diz o ditado, the grass is always greener on the other side. Or 'a grama é sempre mais verde no quintal do vizinho.'
HAPPY NEW YEAR! FELIZ 2010!

Se Londres não vai ao Brasil, o Brasil vai a Londres
Londres e São Paulo
Depois da avalanche de correria, agitação, Christmas Sales, neve e frio, desembarco em São Paulo. De volta ao Brasil após um ano, experimento a sensação que muitos, sejam proletários, retirantes, alta classe e afin, sentem. A sensação de deslocamento no tempo e no espaço. Ao mesmo tempo em que nada mudou, tudo parece diferente. Eu bem que podia gastar muitas das minhas intermináveis palavras para descrever o 'mix of feelings' (nada mais que a mistura de sentimentos) que atordoa quem passa um ano ralando no exterior e volta à terrinha nesta época do ano. Mas vou roubar os diálogos de conterrâneos que, como eu, esperavam pelos seus vôos no aeroporto de Heathrow há menos de uma semana.

A picanha que aqui eu saboreio, não tem o mesmo gosto de lá
Estava eu saboreando um chá com leite (alguns vícios e qualidades a gente sempre herda de outros povos), quando um grupo de brasileiros sentou-se ao lado:
"Adoro Londres, mas esta cidade não dá. Preciso ir para São Paulo, ver a galera da Zona Sul, comer um churrasquinho, matar uma pizza de verdade", provocou o Paulista.
"Não dá por quê? Londres é ótima. E nem vem dizer que São Paulo é melhor. Cidade mais feia, suja, poluída, um trânsito da peste, violenta..", retrucou o amigo nordestino em seu sotaque indefectível.
"É verdade, aqui é muito melhor para trabalhar e para viver. Mas sinto falta de pegar meu carro, ir até a padaria da esquina, ser reconhecido no trajeto, parar para falar com o amigo do bar, tomar umas brejas, matar umas coxinhas! Meu, coxinha!! Há quanto tempo eu não como uma coxinha e tomo uma água-de-côco. Inglês é bacana, mas brasileiro é brasileiro", explicou o Paulista num saudosismo de encher Gonçalves Dias de orgulho.
O amigo goiâno não se fez de rogado e retrucou: "Ói qui, acho tudo muito bão aqui na Londres. Aqui na Inglaterra nem mesmo a polícia é corrupta. Uma vez fui parado pela polícia e claro que o cara se ligou que eu estava ilegal. Ele teve a cara-de-pau de me liberar mas não pediu nenhuma 'cervejinha'. No Brasil, era capaz de pedirem a minha casa para não me entregar para o Home Office. E na boa, nem tanta saudade dá. Até coxinha, picanha, farinha e requeijão a gente acha. Mas eu quero mesmo é me jogar num bailão de Goiânia, sair com as meninas, ir num rodeio, dançar muiiito! Adoro viajar, mas não troco meu Brasil por nada."
Diante dos ataques de Policarpo Quaresma do amigo, a mineira sintetizou: "É... Quando a gente tá aqui, quer estar lá. Quando está lá, quer estar aqui porque começa a sentir saudade dos eletrônicos mais baratos, dos planos para celular que não roubam a paciência da gente, do metrô que funciona e vai para tudo quanto é canto, da segurança, do salário em libras. Sabe quando eu, como cleaner (faxineira), ia ter um iphone no Brasil? Nunca."
É... Como bem diz o ditado, the grass is always greener on the other side. Or 'a grama é sempre mais verde no quintal do vizinho.'
HAPPY NEW YEAR! FELIZ 2010!
22.12.09
Merry Christmas!
Na Carter House, em pleno East End londrino, já era noite nevada às quatro da tarde
Londres
Enquanto os comerciantes comemoram o White Christmas (Natal Branco), que garante, sabe-se lá por que, muito mais empolgação dos consumidores e altas nas vendas, as companhias aéreas não têm muito o que se alegrar com a neve que tem tingindo de branco boa parte da Europa e de Londres.
A neve que não se viu em dezembro passado, desta vez presenteou os londrinos com um lindo, porém caótico, cenário de Natal. Só entre os amigos e moradores da Carter House (a minha casa, na foto), dois perderam seus vôos para Portugal e Berlim. Motivo: Neve e aeroportos fechados. Gatwick e Luton, no norte da capital, fecharam suas portas hoje e enlouqueceram passageiros e operadoras low-cost.
Por hora, nem sinal de outros vôos extras. E os europeus que querem voltar para casa no Natal correm o risco de terem de saborear, como eu, uma autêntica ceia inglesa. Cidra (ou cider), batata e neve, pelo menos, não vão faltar.
04.12.09
Vista do Estádio Olímpico na última terça: Parque Olímpico londrino começa a tomar forma
Londres
Faltam exatamente 966 dias para as Olimpíadas de Londres 2012. Estive passeando pelo canteiro de obras do Parque Olímpico nesta semana. Fui em função jornalística, representando a imprensa brasileira em um grupo no qual eu era a única latino-americana. E, confesso, virei a atração. Não pela minha simpatia, mas porque todos queriam saber tudo que os brasileiros andam sentindo em ter pela frente a oportunidade e o desafio de provar que podem, sim, hospdar uma Olimpíada, criar uma Vila Olímpica que, mais que palco da festa, seja um legado para a população e, mais difícil, melhorar a cultura esportiva e o incentivo cotidiano ao esporte olímpico no país do futebol.
Tendo em vista que temos 2014 antes para cuidar, esta década reserva muita lição de casa para nosso espírito macunaíma. Ma, enfim...
Do alto da casa de forças do Parque Olímpico, um grande painel explica no que se transformará o hoje imenso canteira de obras
Os mais céticos que me perdoem, mas o deslumbre ainda é fundamental. Nunca havia estado em uma Vila Olímpica antes. E tenho de confessar que há algo de maior que provoca um arrepio na espinha quando se vê, e se ouve, a palavra Estádio Olímpico.
Chega a ser estranho que um jornalista, profissional da mídia, que não deve, a priori, deslumbrar-se com construções midiáticas de qualquer natureza e manter sempre um senso crítico apurado, sinta ainda tamanha emoção ao pensar que, além da abertura, da competição, das medalhas que ali serão ganhas e perdidas, um certo Brasil irá participar da cerimônia de encerramento e começar a abrir os trabalhos para Rio 2016.
"Em dois anos, tudo isso se transformará em legado para a população inglesa", garante o chefe executivo das obras do Olympic Park
Por ora, a Vila Olímpica é um imenso canteiro de obras. Por ora, o que se vê é pouco mais que o esqueleto do que vai se transformar em meca do esporte dentro de dois anos. Por ora, o leste londrino, uma das regiões mais pobres da cidade, ainda não sentiu a transformação que os jogos vão provocar em suas ruas de tijolinhos aparentes. Por ora... Daqui dois anos, o canteiro se transfere para o Rio. Espera-se! Espera-se também que logo logo a Vila Olímpica inglesa recebe muitas visitas oficias brasileiras. Até agora, segundo me disse David Higgins, chefe executivo do Olympic Park, nenhuma comissão brasileira entrou em contato com ele. "Mas queremos muito colaborar e trabalhar junto com os brasileiros. O Rio 2016 tem muito o que aprender com Londres 2012. Espero que recebamos uma visita logo de representantes do seu país", disse-me Higgins. Eu também, caro Mr. Higgins, eu também.
Quem quiser conferir como andam as obras do Parque Olímpico Londrino, pode conferir:
http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,parque-olimpico-de-londres-comeca-a-ganha-vida-para-2012,475786,0.htm
ou
Vista do Estádio Olímpico na última terça: Parque Olímpico londrino começa a tomar forma
Londres
Faltam exatamente 966 dias para as Olimpíadas de Londres 2012. Estive passeando pelo canteiro de obras do Parque Olímpico nesta semana. Fui em função jornalística, representando a imprensa brasileira em um grupo no qual eu era a única latino-americana. E, confesso, virei a atração. Não pela minha simpatia, mas porque todos queriam saber tudo que os brasileiros andam sentindo em ter pela frente a oportunidade e o desafio de provar que podem, sim, hospdar uma Olimpíada, criar uma Vila Olímpica que, mais que palco da festa, seja um legado para a população e, mais difícil, melhorar a cultura esportiva e o incentivo cotidiano ao esporte olímpico no país do futebol.
Tendo em vista que temos 2014 antes para cuidar, esta década reserva muita lição de casa para nosso espírito macunaíma. Ma, enfim...
Do alto da casa de forças do Parque Olímpico, um grande painel explica no que se transformará o hoje imenso canteira de obras
Os mais céticos que me perdoem, mas o deslumbre ainda é fundamental. Nunca havia estado em uma Vila Olímpica antes. E tenho de confessar que há algo de maior que provoca um arrepio na espinha quando se vê, e se ouve, a palavra Estádio Olímpico.
Chega a ser estranho que um jornalista, profissional da mídia, que não deve, a priori, deslumbrar-se com construções midiáticas de qualquer natureza e manter sempre um senso crítico apurado, sinta ainda tamanha emoção ao pensar que, além da abertura, da competição, das medalhas que ali serão ganhas e perdidas, um certo Brasil irá participar da cerimônia de encerramento e começar a abrir os trabalhos para Rio 2016.
"Em dois anos, tudo isso se transformará em legado para a população inglesa", garante o chefe executivo das obras do Olympic Park
Por ora, a Vila Olímpica é um imenso canteiro de obras. Por ora, o que se vê é pouco mais que o esqueleto do que vai se transformar em meca do esporte dentro de dois anos. Por ora, o leste londrino, uma das regiões mais pobres da cidade, ainda não sentiu a transformação que os jogos vão provocar em suas ruas de tijolinhos aparentes. Por ora... Daqui dois anos, o canteiro se transfere para o Rio. Espera-se! Espera-se também que logo logo a Vila Olímpica inglesa recebe muitas visitas oficias brasileiras. Até agora, segundo me disse David Higgins, chefe executivo do Olympic Park, nenhuma comissão brasileira entrou em contato com ele. "Mas queremos muito colaborar e trabalhar junto com os brasileiros. O Rio 2016 tem muito o que aprender com Londres 2012. Espero que recebamos uma visita logo de representantes do seu país", disse-me Higgins. Eu também, caro Mr. Higgins, eu também.
Quem quiser conferir como andam as obras do Parque Olímpico Londrino, pode conferir:
http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,parque-olimpico-de-londres-comeca-a-ganha-vida-para-2012,475786,0.htm
ou
19.11.09
Londres

England X Brazil?
Vamos lá. Depois de passar o mês editando a última versão de Karl Max Way, ajudando Karl a preparar sua resposta ao tribunal de trânsito inglês, entendendo como vai o mercado de documentários na Inglaterra, tentando entender se a BBC ainda ama os documentários, participando de workshops no Festival de Documentários de Sheffield, um dos mais importantes da Europa, e tentando entender as novas medidas de Gordon Brown para a imigração no Reino Unido e, para finalizar, o que Gilberto Gil veio fazer aqui, volto à ativa.
Ainda que não adiante justifica a ausência. Londres borbulha em cada canto. Portanto, falta tempo, mas assunto não falta. Diz o ditado que quem se cansou de Londres se cansou da vida. Concordo.
Portanto, neste mês, para fazer jus a este espaço tão privilegiado que vinha sendo negligenciado, vou de um post por dia até o Natal. Como devia ter sido desde sempre mas que, por conta da falta de tempo e do muito tempo gasto entre metrôs, trens, baldiações, ônibus, andanças, acabou por ter o tempo de quem faz um mestrado em um idioma estrangeiro, um documentário cuja produção, direção, promoção fica por conta própria, matérias em geral e, nas horas vagas, experimenta uma cider ou uma pint no pub da esquina.

Ou Egland E Brazil?
Assuntos a ver e a vir:
- De como as campanhas de Natal em Londres começam antes que qualquer outro lugar do mundo. Em fins de outubro o bombardeio já começa!
- De como os ingleses (incluindo a mídia) gastam horas e muito papel para tentar explicar que a seleção inglesa de futebol tem de provar o quanto é 'tão boa quanto a brasileira'.
- De como os ingleses (incluindo a mídia) gastam horas e muito papel para tentar explicar que o Brasil tem de provar o quanto é tão bom, e organizado, quanto a Inglaterra e que, portanto, vai ser capaz de sediar uma Copa do Mundo e as Olimpíadas sem passar por situações como a última 'guerra urbana no Rio', que rendeu mais comentários que o gol tomado no último sábado
- De como Londres está de fato se preparando para sediar os jogos olímpicos em 2012 e de como o East Side (a operária e um tanto decadente zona leste da cidade, que abriga o Estádio e a Vila Olímpica) vão mudar e se tornar o novo 'hype'
- De como os empresários, empreendedores, artistas e ingleses 'comuns' já voltam seus olhos para o Brasil e planejam desde viagens a negócios no 'vizinho de Olímpiadas'. Um exército de ingleses já se prepara para conhecer e estreitar ainda mais os laços com o 'país da moda'.
- De como os ingleses não sabem se são contra ou a favor que seus jovens, sob a insígnia do exército inglês, continuem a se enveredar por zonas de conflito além mar
- De como o alcolismo continua sendo assunto da ordem do dia quando as festas de Natal das 'firmas' se aproximam
- De como a ilegalidade ainda continua sendo 'uma ficção no Reino Unido' e de como os imigrantes ilegais parecem ser os últimos a se preocuparem com as novas medidas do 'estatuto da imigração inglês'
Bem, assunto não falta. E o tempo, ruge!
Até amanhã.
15.10.09
Londres
Prólogo – Ou lembrança àqueles que insistem em resumir a visão deste blog em apenas um dos tantos posts que ele contem.
Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Quem pensa que a minha visão seja a dourada pílula inglesa acompanhada do chá-das-cinco não deve, no mínimo, ter lido os posts anteriores.
Mas eu realmente acredito que os ingleses tenham muito a ensinar aos brasileiros. Assim como também acredito que os brasileiros tenham muito a ensinar aos ingleses. A graça de tudo está na moderação.
Já que é assim, resolvi fazer uma pequena grande lista de pequenas-grandes lições que os ingleses têm de bom. Isso não significa que não haja quem faça melhor ou igual. Simplesmente, como o título deste blog já sugere, seus temas em geral se atêm à Terra da Rainha.

Max, um dos tantos motoboys brasileiros em Londres, passou para o lado dos que precisaram de fato cuidar da saúde em outro país
Lição 1 – Saúde
Uma das lições, por exemplo, o sistema de saúde. Antes de mais nada, vale dizer que acredito que o Brasil avança a passos largos. E não deve sofrer de complexo de vira-lata nenhum. O que mais se fala por aqui é sobre o quanto o Brasil cresce, prospera, está crescendo, está na moda etc...
Mas, como bem observou uma leitora, e os índices de condições básicas que elevam o nível de vida de todo país? Como vai a saúde, a educação...?
Então, a saúde na Inglaterra... Muitos dizem que o NHS (National Health System) está em colapso. Outros com razão alegam que o tratamento dado aos pacientes por parte dos médicos é frio e seco como as macas de alumínio. O médico dos GPs (o centros de General Practice, uma clínica de atendimento geral que poderia ser comparado aos postos de saúde brasileiros) usualmente só dão um paracetamol e mandam os doentes para casa.
Quem ousa negar tais fatos? Mas, o que vi neste último ano em que freqüentei mais os corredores de hospitais que os túneis do metrô londrino, foi uma face interessante de como funciona o atendimento em Londres, seja formal quanto informal.
Cinco meses atrás, o personagem principal do documentário que estou agora montando, sofreu um acidente. Max é o nome dele. Goiano e sem falar bem o inglês, ele era um dos centenas de motoboys brasileiros que se arriscam ilegalmente todos os dias nas ruas da Inglaterra para entregar os documentos (legais) que fazem mover uma das maiores economias do mundo. Max se acidentou numa tarde de maio. Quase morreu, quase perdeu o pé. Quase ficou inválido. Chegou ao hospital quase morrendo. Tudo que conseguia processar era: ‘Talvez vamos ter de cortar seu pé”. Bateu o desespero. Max sozinho, sem saber se explicar em inglês, sem poder ligar para ninguém, passou a noite na maca gelada do Whitechappel Hospital. De seu nome, mal grafado, à sua situação legal, passando pelo seu pé esquerdo, tudo estava errado.
Os funcionários do hospital poderiam ter alegado, diante da obviedade da situação, que Max era ilegal e, portanto, não teria direito a tratamento. Que nada. Max foi tratado do começo ao fim dos longos 44 dias em que passou internado como um autêntico inglês. Tão autêntico quanto Roy, o inglês de Kent, que dividia com ele uma das macas da ‘ala dos estropiados’ como eu a definia. Nos outros dois leitos, um russo desabrigado comemorou seu aniversário com um bolo improvisado, pago pelo ocupante do outro leito: um mafioso marroquino que recebia visitas regulares de seus ‘funcionários’, que lhe entregavam sumas impressionantes de libras de dar gosto de ver.
Com algumas destas libras, o marroquino pagava a TV (que não é de graça) do leito do Max, para que ele se distraísse nas tantas horas de solidão hospitalar. Enquanto isso, Roy ensinava o Max a falar direito com as enfermeiras descendentes de famílias da Índia, do Paquistão, do Iraque, de Bangladesh e, veja só, até da Inglaterra!
Os 44 dias serviram para o Max parar de falar que médico inglês “só taca paracetamol na gente”. Serviu também para ele melhorar o parco inglês que falava. Serviu para aprender que, por mais ilegal que fosse, médico inglês nenhum iria largá-lo no corredor ou chamar o Home Office (o tão temido caça-ilegais) antes de ter a certeza absoluta que o pé esquerdo do Max estava em condições de passar para a fase da fisioterapia e, em seguida, para a cirurgia plástica.
Enquanto isso, a mulher do Max, também ilegal, fazia o pré-natal em um outro hospital da cidade. Fui a quase todas as consultas do pré-natal com ela. Traduzi linha por linha do que as midwives (algo que poderia ser traduzido como uma parteira, mas que é de fato uma enfermeira especializada) diziam para ela. Do fato dela ter de tomar mais ferro (que era fornecido gratuitamente) ao fato dela ter de fazer parto normal (porque na Inglaterra parto cesárea não é banal e só é feito em último, mas último caso mesmo). Passando até pelo fato das enfermeiras se recusarem a fazer mais do que os quatro necessários ultrassons durante os nove meses. “Não deu para ver o sexo do bebê direito? Espere a surpresa. Compre tudo branco e verde e vai ser feliz.” Foi assim que a midwife, muito carinhosamente, com uma frieza que uma enfermeira do Brasil nunca falaria, explicou porque não iria mais fazer ultrassom nenhum na barriga da mulher do Max. “Se o marido dela não está contente com uma menina, o problema é dele.”
Eu achei uma grosseria inglesa das maiores ouvir aquilo. Afinal, era só para comprar roupinhas da cor certa. Mas, depois de uma olhada melhor, e de perceber que 90% da grávidas que ali faziam o pré-natal são em geral de famílias muçulmanas, chinesas e do Leste Europeu, entendi a lição.
O tratamento continua sendo sim frio e impessoal. Como brasileira, continuo achando estranho que o médico em geral só apareça na primeira consulta e depois de o bebê nascer. Mais estranho ainda que todo mundo sabe que todo mundo sabe que há milhares de ilegais trabalhando, sendo tratados, parindo, gastando suas libras, pagando impostos e contribuindo para a economia inglesa. Como numa república dos acordos tácitos, todo mundo sabe que o Rei (ou a Rainha) muitas vezes está nu. Mas ninguém fala. Muitas vezes para o mal. Outras tantas para o bem.
Londres
Prólogo – Ou lembrança àqueles que insistem em resumir a visão deste blog em apenas um dos tantos posts que ele contem.
Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Quem pensa que a minha visão seja a dourada pílula inglesa acompanhada do chá-das-cinco não deve, no mínimo, ter lido os posts anteriores.
Mas eu realmente acredito que os ingleses tenham muito a ensinar aos brasileiros. Assim como também acredito que os brasileiros tenham muito a ensinar aos ingleses. A graça de tudo está na moderação.
Já que é assim, resolvi fazer uma pequena grande lista de pequenas-grandes lições que os ingleses têm de bom. Isso não significa que não haja quem faça melhor ou igual. Simplesmente, como o título deste blog já sugere, seus temas em geral se atêm à Terra da Rainha.

Max, um dos tantos motoboys brasileiros em Londres, passou para o lado dos que precisaram de fato cuidar da saúde em outro país
Lição 1 – Saúde
Uma das lições, por exemplo, o sistema de saúde. Antes de mais nada, vale dizer que acredito que o Brasil avança a passos largos. E não deve sofrer de complexo de vira-lata nenhum. O que mais se fala por aqui é sobre o quanto o Brasil cresce, prospera, está crescendo, está na moda etc...
Mas, como bem observou uma leitora, e os índices de condições básicas que elevam o nível de vida de todo país? Como vai a saúde, a educação...?
Então, a saúde na Inglaterra... Muitos dizem que o NHS (National Health System) está em colapso. Outros com razão alegam que o tratamento dado aos pacientes por parte dos médicos é frio e seco como as macas de alumínio. O médico dos GPs (o centros de General Practice, uma clínica de atendimento geral que poderia ser comparado aos postos de saúde brasileiros) usualmente só dão um paracetamol e mandam os doentes para casa.
Quem ousa negar tais fatos? Mas, o que vi neste último ano em que freqüentei mais os corredores de hospitais que os túneis do metrô londrino, foi uma face interessante de como funciona o atendimento em Londres, seja formal quanto informal.
Cinco meses atrás, o personagem principal do documentário que estou agora montando, sofreu um acidente. Max é o nome dele. Goiano e sem falar bem o inglês, ele era um dos centenas de motoboys brasileiros que se arriscam ilegalmente todos os dias nas ruas da Inglaterra para entregar os documentos (legais) que fazem mover uma das maiores economias do mundo. Max se acidentou numa tarde de maio. Quase morreu, quase perdeu o pé. Quase ficou inválido. Chegou ao hospital quase morrendo. Tudo que conseguia processar era: ‘Talvez vamos ter de cortar seu pé”. Bateu o desespero. Max sozinho, sem saber se explicar em inglês, sem poder ligar para ninguém, passou a noite na maca gelada do Whitechappel Hospital. De seu nome, mal grafado, à sua situação legal, passando pelo seu pé esquerdo, tudo estava errado.
Os funcionários do hospital poderiam ter alegado, diante da obviedade da situação, que Max era ilegal e, portanto, não teria direito a tratamento. Que nada. Max foi tratado do começo ao fim dos longos 44 dias em que passou internado como um autêntico inglês. Tão autêntico quanto Roy, o inglês de Kent, que dividia com ele uma das macas da ‘ala dos estropiados’ como eu a definia. Nos outros dois leitos, um russo desabrigado comemorou seu aniversário com um bolo improvisado, pago pelo ocupante do outro leito: um mafioso marroquino que recebia visitas regulares de seus ‘funcionários’, que lhe entregavam sumas impressionantes de libras de dar gosto de ver.
Com algumas destas libras, o marroquino pagava a TV (que não é de graça) do leito do Max, para que ele se distraísse nas tantas horas de solidão hospitalar. Enquanto isso, Roy ensinava o Max a falar direito com as enfermeiras descendentes de famílias da Índia, do Paquistão, do Iraque, de Bangladesh e, veja só, até da Inglaterra!
Os 44 dias serviram para o Max parar de falar que médico inglês “só taca paracetamol na gente”. Serviu também para ele melhorar o parco inglês que falava. Serviu para aprender que, por mais ilegal que fosse, médico inglês nenhum iria largá-lo no corredor ou chamar o Home Office (o tão temido caça-ilegais) antes de ter a certeza absoluta que o pé esquerdo do Max estava em condições de passar para a fase da fisioterapia e, em seguida, para a cirurgia plástica.
Enquanto isso, a mulher do Max, também ilegal, fazia o pré-natal em um outro hospital da cidade. Fui a quase todas as consultas do pré-natal com ela. Traduzi linha por linha do que as midwives (algo que poderia ser traduzido como uma parteira, mas que é de fato uma enfermeira especializada) diziam para ela. Do fato dela ter de tomar mais ferro (que era fornecido gratuitamente) ao fato dela ter de fazer parto normal (porque na Inglaterra parto cesárea não é banal e só é feito em último, mas último caso mesmo). Passando até pelo fato das enfermeiras se recusarem a fazer mais do que os quatro necessários ultrassons durante os nove meses. “Não deu para ver o sexo do bebê direito? Espere a surpresa. Compre tudo branco e verde e vai ser feliz.” Foi assim que a midwife, muito carinhosamente, com uma frieza que uma enfermeira do Brasil nunca falaria, explicou porque não iria mais fazer ultrassom nenhum na barriga da mulher do Max. “Se o marido dela não está contente com uma menina, o problema é dele.”
Eu achei uma grosseria inglesa das maiores ouvir aquilo. Afinal, era só para comprar roupinhas da cor certa. Mas, depois de uma olhada melhor, e de perceber que 90% da grávidas que ali faziam o pré-natal são em geral de famílias muçulmanas, chinesas e do Leste Europeu, entendi a lição.
O tratamento continua sendo sim frio e impessoal. Como brasileira, continuo achando estranho que o médico em geral só apareça na primeira consulta e depois de o bebê nascer. Mais estranho ainda que todo mundo sabe que todo mundo sabe que há milhares de ilegais trabalhando, sendo tratados, parindo, gastando suas libras, pagando impostos e contribuindo para a economia inglesa. Como numa república dos acordos tácitos, todo mundo sabe que o Rei (ou a Rainha) muitas vezes está nu. Mas ninguém fala. Muitas vezes para o mal. Outras tantas para o bem.
Londres
Prólogo – Ou lembrança àqueles que insistem em resumir a visão deste blog em apenas um dos tantos posts que ele contem.
Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Quem pensa que a minha visão seja a dourada pílula inglesa acompanhada do chá-das-cinco não deve, no mínimo, ter lido os posts anteriores.
Mas eu realmente acredito que os ingleses tenham muito a ensinar aos brasileiros. Assim como também acredito que os brasileiros tenham muito a ensinar aos ingleses. A graça de tudo está na moderação.
Já que é assim, resolvi fazer uma pequena grande lista de pequenas-grandes lições que os ingleses têm de bom. Isso não significa que não haja quem faça melhor ou igual. Simplesmente, como o título deste blog já sugere, seus temas em geral se atêm à Terra da Rainha.

Max, um dos tantos motoboys brasileiros em Londres, passou para o lado dos que precisaram de fato cuidar da saúde em outro país
Lição 1 – Saúde
Uma das lições, por exemplo, o sistema de saúde. Antes de mais nada, vale dizer que acredito que o Brasil avança a passos largos. E não deve sofrer de complexo de vira-lata nenhum. O que mais se fala por aqui é sobre o quanto o Brasil cresce, prospera, está crescendo, está na moda etc...
Mas, como bem observou uma leitora, e os índices de condições básicas que elevam o nível de vida de todo país? Como vai a saúde, a educação...?
Então, a saúde na Inglaterra... Muitos dizem que o NHS (National Health System) está em colapso. Outros com razão alegam que o tratamento dado aos pacientes por parte dos médicos é frio e seco como as macas de alumínio. O médico dos GPs (o centros de General Practice, uma clínica de atendimento geral que poderia ser comparado aos postos de saúde brasileiros) usualmente só dão um paracetamol e mandam os doentes para casa.
Quem ousa negar tais fatos? Mas, o que vi neste último ano em que freqüentei mais os corredores de hospitais que os túneis do metrô londrino, foi uma face interessante de como funciona o atendimento em Londres, seja formal quanto informal.
Cinco meses atrás, o personagem principal do documentário que estou agora montando, sofreu um acidente. Max é o nome dele. Goiano e sem falar bem o inglês, ele era um dos centenas de motoboys brasileiros que se arriscam ilegalmente todos os dias nas ruas da Inglaterra para entregar os documentos (legais) que fazem mover uma das maiores economias do mundo. Max se acidentou numa tarde de maio. Quase morreu, quase perdeu o pé. Quase ficou inválido. Chegou ao hospital quase morrendo. Tudo que conseguia processar era: ‘Talvez vamos ter de cortar seu pé”. Bateu o desespero. Max sozinho, sem saber se explicar em inglês, sem poder ligar para ninguém, passou a noite na maca gelada do Whitechappel Hospital. De seu nome, mal grafado, à sua situação legal, passando pelo seu pé esquerdo, tudo estava errado.
Os funcionários do hospital poderiam ter alegado, diante da obviedade da situação, que Max era ilegal e, portanto, não teria direito a tratamento. Que nada. Max foi tratado do começo ao fim dos longos 44 dias em que passou internado como um autêntico inglês. Tão autêntico quanto Roy, o inglês de Kent, que dividia com ele uma das macas da ‘ala dos estropiados’ como eu a definia. Nos outros dois leitos, um russo desabrigado comemorou seu aniversário com um bolo improvisado, pago pelo ocupante do outro leito: um mafioso marroquino que recebia visitas regulares de seus ‘funcionários’, que lhe entregavam sumas impressionantes de libras de dar gosto de ver.
Com algumas destas libras, o marroquino pagava a TV (que não é de graça) do leito do Max, para que ele se distraísse nas tantas horas de solidão hospitalar. Enquanto isso, Roy ensinava o Max a falar direito com as enfermeiras descendentes de famílias da Índia, do Paquistão, do Iraque, de Bangladesh e, veja só, até da Inglaterra!
Os 44 dias serviram para o Max parar de falar que médico inglês “só taca paracetamol na gente”. Serviu também para ele melhorar o parco inglês que falava. Serviu para aprender que, por mais ilegal que fosse, médico inglês nenhum iria largá-lo no corredor ou chamar o Home Office (o tão temido caça-ilegais) antes de ter a certeza absoluta que o pé esquerdo do Max estava em condições de passar para a fase da fisioterapia e, em seguida, para a cirurgia plástica.
Enquanto isso, a mulher do Max, também ilegal, fazia o pré-natal em um outro hospital da cidade. Fui a quase todas as consultas do pré-natal com ela. Traduzi linha por linha do que as midwives (algo que poderia ser traduzido como uma parteira, mas que é de fato uma enfermeira especializada) diziam para ela. Do fato dela ter de tomar mais ferro (que era fornecido gratuitamente) ao fato dela ter de fazer parto normal (porque na Inglaterra parto cesárea não é banal e só é feito em último, mas último caso mesmo). Passando até pelo fato das enfermeiras se recusarem a fazer mais do que os quatro necessários ultrassons durante os nove meses. “Não deu para ver o sexo do bebê direito? Espere a surpresa. Compre tudo branco e verde e vai ser feliz.” Foi assim que a midwife, muito carinhosamente, com uma frieza que uma enfermeira do Brasil nunca falaria, explicou porque não iria mais fazer ultrassom nenhum na barriga da mulher do Max. “Se o marido dela não está contente com uma menina, o problema é dele.”
Eu achei uma grosseria inglesa das maiores ouvir aquilo. Afinal, era só para comprar roupinhas da cor certa. Mas, depois de uma olhada melhor, e de perceber que 90% da grávidas que ali faziam o pré-natal são em geral de famílias muçulmanas, chinesas e do Leste Europeu, entendi a lição.
O tratamento continua sendo sim frio e impessoal. Como brasileira, continuo achando estranho que o médico em geral só apareça na primeira consulta e depois de o bebê nascer. Mais estranho ainda que todo mundo sabe que todo mundo sabe que há milhares de ilegais trabalhando, sendo tratados, parindo, gastando suas libras, pagando impostos e contribuindo para a economia inglesa. Como numa república dos acordos tácitos, todo mundo sabe que o Rei (ou a Rainha) muitas vezes está nu. Mas ninguém fala. Muitas vezes para o mal. Outras tantas para o bem.
Londres
Prólogo – Ou lembrança àqueles que insistem em resumir a visão deste blog em apenas um dos tantos posts que ele contem.
Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Quem pensa que a minha visão seja a dourada pílula inglesa acompanhada do chá-das-cinco não deve, no mínimo, ter lido os posts anteriores.
Mas eu realmente acredito que os ingleses tenham muito a ensinar aos brasileiros. Assim como também acredito que os brasileiros tenham muito a ensinar aos ingleses. A graça de tudo está na moderação.
Já que é assim, resolvi fazer uma pequena grande lista de pequenas-grandes lições que os ingleses têm de bom. Isso não significa que não haja quem faça melhor ou igual. Simplesmente, como o título deste blog já sugere, seus temas em geral se atêm à Terra da Rainha.

Max, um dos tantos motoboys brasileiros em Londres, passou para o lado dos que precisaram de fato cuidar da saúde em outro país
Lição 1 – Saúde
Uma das lições, por exemplo, o sistema de saúde. Antes de mais nada, vale dizer que acredito que o Brasil avança a passos largos. E não deve sofrer de complexo de vira-lata nenhum. O que mais se fala por aqui é sobre o quanto o Brasil cresce, prospera, está crescendo, está na moda etc...
Mas, como bem observou uma leitora, e os índices de condições básicas que elevam o nível de vida de todo país? Como vai a saúde, a educação...?
Então, a saúde na Inglaterra... Muitos dizem que o NHS (National Health System) está em colapso. Outros com razão alegam que o tratamento dado aos pacientes por parte dos médicos é frio e seco como as macas de alumínio. O médico dos GPs (o centros de General Practice, uma clínica de atendimento geral que poderia ser comparado aos postos de saúde brasileiros) usualmente só dão um paracetamol e mandam os doentes para casa.
Quem ousa negar tais fatos? Mas, o que vi neste último ano em que freqüentei mais os corredores de hospitais que os túneis do metrô londrino, foi uma face interessante de como funciona o atendimento em Londres, seja formal quanto informal.
Cinco meses atrás, o personagem principal do documentário que estou agora montando, sofreu um acidente. Max é o nome dele. Goiano e sem falar bem o inglês, ele era um dos centenas de motoboys brasileiros que se arriscam ilegalmente todos os dias nas ruas da Inglaterra para entregar os documentos (legais) que fazem mover uma das maiores economias do mundo. Max se acidentou numa tarde de maio. Quase morreu, quase perdeu o pé. Quase ficou inválido. Chegou ao hospital quase morrendo. Tudo que conseguia processar era: ‘Talvez vamos ter de cortar seu pé”. Bateu o desespero. Max sozinho, sem saber se explicar em inglês, sem poder ligar para ninguém, passou a noite na maca gelada do Whitechappel Hospital. De seu nome, mal grafado, à sua situação legal, passando pelo seu pé esquerdo, tudo estava errado.
Os funcionários do hospital poderiam ter alegado, diante da obviedade da situação, que Max era ilegal e, portanto, não teria direito a tratamento. Que nada. Max foi tratado do começo ao fim dos longos 44 dias em que passou internado como um autêntico inglês. Tão autêntico quanto Roy, o inglês de Kent, que dividia com ele uma das macas da ‘ala dos estropiados’ como eu a definia. Nos outros dois leitos, um russo desabrigado comemorou seu aniversário com um bolo improvisado, pago pelo ocupante do outro leito: um mafioso marroquino que recebia visitas regulares de seus ‘funcionários’, que lhe entregavam sumas impressionantes de libras de dar gosto de ver.
Com algumas destas libras, o marroquino pagava a TV (que não é de graça) do leito do Max, para que ele se distraísse nas tantas horas de solidão hospitalar. Enquanto isso, Roy ensinava o Max a falar direito com as enfermeiras descendentes de famílias da Índia, do Paquistão, do Iraque, de Bangladesh e, veja só, até da Inglaterra!
Os 44 dias serviram para o Max parar de falar que médico inglês “só taca paracetamol na gente”. Serviu também para ele melhorar o parco inglês que falava. Serviu para aprender que, por mais ilegal que fosse, médico inglês nenhum iria largá-lo no corredor ou chamar o Home Office (o tão temido caça-ilegais) antes de ter a certeza absoluta que o pé esquerdo do Max estava em condições de passar para a fase da fisioterapia e, em seguida, para a cirurgia plástica.
Enquanto isso, a mulher do Max, também ilegal, fazia o pré-natal em um outro hospital da cidade. Fui a quase todas as consultas do pré-natal com ela. Traduzi linha por linha do que as midwives (algo que poderia ser traduzido como uma parteira, mas que é de fato uma enfermeira especializada) diziam para ela. Do fato dela ter de tomar mais ferro (que era fornecido gratuitamente) ao fato dela ter de fazer parto normal (porque na Inglaterra parto cesárea não é banal e só é feito em último, mas último caso mesmo). Passando até pelo fato das enfermeiras se recusarem a fazer mais do que os quatro necessários ultrassons durante os nove meses. “Não deu para ver o sexo do bebê direito? Espere a surpresa. Compre tudo branco e verde e vai ser feliz.” Foi assim que a midwife, muito carinhosamente, com uma frieza que uma enfermeira do Brasil nunca falaria, explicou porque não iria mais fazer ultrassom nenhum na barriga da mulher do Max. “Se o marido dela não está contente com uma menina, o problema é dele.”
Eu achei uma grosseria inglesa das maiores ouvir aquilo. Afinal, era só para comprar roupinhas da cor certa. Mas, depois de uma olhada melhor, e de perceber que 90% da grávidas que ali faziam o pré-natal são em geral de famílias muçulmanas, chinesas e do Leste Europeu, entendi a lição.
O tratamento continua sendo sim frio e impessoal. Como brasileira, continuo achando estranho que o médico em geral só apareça na primeira consulta e depois de o bebê nascer. Mais estranho ainda que todo mundo sabe que todo mundo sabe que há milhares de ilegais trabalhando, sendo tratados, parindo, gastando suas libras, pagando impostos e contribuindo para a economia inglesa. Como numa república dos acordos tácitos, todo mundo sabe que o Rei (ou a Rainha) muitas vezes está nu. Mas ninguém fala. Muitas vezes para o mal. Outras tantas para o bem.
22.09.09
18.08.09
Londres
Aconteceu em Londres. Aconteceu nas Docklands, à beira do Tâmisa, em frente ao Excel Center, onde, em abril, os G20 do mundo se reuniram para discutir o futuro do planeta.
Quatro meses depois, o cenário que parecia mais a entrada de um mega show (poderia ser o de Madonna, poderia ser o de Michael Jackson, que seria realizado literalmente ‘do outro lado do rio’ na Arena O2) era pura calmaria e tranquilidade.
Em uma cidade que tem muitos parques, tantas igrejas, outras tantas mesquitas, e quase nenhuma colina, estar perto de Deus é algo de fato subjetivo. O brasileiro Paulo achava que estar perto de Deus era estar perto da água. E foi para as docas à beira do Tâmisa, na porta do Excel, falar com Deus.
Paulo acabara de se converter ao Evangelho. Tinha acabado de chegar da Itália, onde era mais um no imenso exército de ‘viados’ que servem nas ruas de cidades como Milão, Roma, Bolonha... ‘Viado’ é a forma como os italianos aprenderam a chamar os travestis brasileiros. ‘Eles todos se tratam por viados, a gente acabou aprendendo também”, me explicou um dia um taxista romano que me perguntou também “por que tinha tanto viado brasileiro”. Lembro que me detive a contra-perguntar: “Por que tem tanto cliente italiano?”
De volta às docas, o Paulo havia deixado os clientes na Itália, trocado os cílios postiços e as unhas de porcelana por camisas de algodão barato comprados na Fashion Street do East London, que de ‘fashion’ (no sentido que Vivienne Westwood dá ao fashion style) não tem muito e mais parece uma filial indiana (ou bengali...ou paquistanesa) e muçulmana da São Caetano.
Vestido de novo homem, Paulo, segundo amigos de culto de domingo da Igreja Batista de Plaistow (bairro do far far East London, muito longe de Notting Hill), ainda desmunhecava um pouco. “Mas ele tava progredindo. É força do hábito, né?”, explicou um ‘irmão’ da igreja.
Já que o hábito faz o monge, ou o evangélico, Paulo pegou o hábito de botar sua bíblia na mochila e ir orar na beira do Tâmisa, em frente ao Excel.
Na semana passada, estava um dia bonito e o Paulo foi orar de novo. Agradecer pela nova vida e pedir um emprego, já que seu antigo ofício tinha já entrado para a história e para as estatísticas dos motoristas de táxi italianos.
Pense em um cenário dos novos tempos. O Excel Center, alvo das atenções dos ativistas de todo o mundo em abril. Pense no medo deixado pelos anarquistas italianos que bagunçaram o coreto durante as passeatas anti-G20 e quebravam várias fachadas na City (o coração financeiro londrino), pense na policia inglesa que até hoje está tentando se explicar sobre o assassinato de Jean Charles há anos, sobre a morte súbita de um inglês em plena passeata anti-G20 em abril. Pense no mês do Ramadan, que está para começar no próximo dia 21. Pense no medo. Medo de bagunça, medo de terrorismo, medo do outro.
Agora pense em um brasileiro, de mochila nas costas, lendo a bíblia, ajoelhado em frente ao Excel Center, emocionado com sua nova vida. De longe, o Paulo poderia parecer mais um Mohammed lendo o Alcorão e se preparando para o mês do jejum. Em se, vez do Alcorão, ele tivesse uma bomba na mochila? Bom, foi assim que os oficiais ingleses que faziam a ronda nas docas pensaram. E foram tirar a prova.
Paulo levou um ‘guenta’ da polícia. ‘Guenta’ no bom sentido porque a polícia inglesa não chega batendo, obviamente. Muito bem preparados, perguntam primeiro. Mão na cabeça não tem, mas os documentos.... Os documentos... Como milhares de imigrantes brasileiros (a maior comunidade latina de Londres é brasileira), o passaporte de Paulo estava com o visto mais do que vencido. E, como a grande maioria de seus patrícios, o Paulo mal fala inglês.
Com o pouco que aprendeu na igreja, pediu para ligar para a missionária inglesa da igreja, que veio em seu socorro. Em tempos de crise, como explicar que o Paulo merecia uma segunda chance, que havia encontrado Jesus e agora estava tentando encontrar também trabalho em Londres.
Seja em inglês, italiano ou português, há coisas que não se explica. E a polícia, muito educadamente mandou o Paulo para o Home Office. E o Home Office, muito compreensivelmente, mandou o Paulo se retirar da terra da Rainha e cair na real. Quer dizer, voltar para o Brasil. Sabe-se lá o que o Paulo vai encontrar agora do lado debaixo do Equador. Mas os irmãos dizem que ele está até feliz de voltar para casa. Um amigo dos cultos de domingo ponderou: “Deus sabe o que faz. E o Brasil está melhorando. O País está crescendo na crise e agora, pelo menos, quando for rezar na beira do rio, vai ser, no máximo, confundido com algum maconheiro.”
Amem!
27.07.09

Londres
Recomecemos. Enquanto o mundo se apavorava com a gripe suína, que de suína não tem muito e de ‘influenza’ tem bastante, eu fazia uma pequena
peregrinação pelos campos da Toscana, onde assuntos suínos estão reservados aos sabores dos incríveis salumi que a região produz. Em seguida, uma parada em Milão para discutir assuntos de ‘prima importância’ para a saúde mundial como a próxima semana de moda da Itália.
E no meio de toda esta agenda merecidamente fútil, o assunto sério do momento serve para lembrar que nem tudo (aliás, poucas coisas são) são flores no verão europeu.
Em jantar com profissionais da mídia italiana, o assunto suíno surge. E desta vez não eram os salames toscanos o alvo da conversa. “É um absurdo o que os ingleses estão fazendo! E não é só o Berlusconi que está ofendido com isso. Como assim parar todo mundo na alfândega? Como assim fazer todo mundo passar por um monte de exames? É constrangedor”, dizia um.
“E no Brasil? Dizem que o país está sofrendo com esta pandemia…”
E eu, lembro que há uma semana, uma febre (fruto de uma insolação Toscana) foi o suficiente para que amigos no Brasil se mobilizassem para me perguntar se eu ‘got a gripe’, e respondo: “É. A gripe se alastra, mas o medo é mais rápido que ela.”

A mesma febre foi suficiente para amigos em Londres perguntarem se eu estava com ‘A’ gripe, mas nada comparado com a preocupação brasuca.
No meio do jantar, o telefone toca: “A chefia de reportagem de Internacional queria te pedir para escrever, de Londres, sobre as confusões que estão rolando na cidade por conta da pandemia de gripe suína.”
Respondo: “Estou na Itália. Posso escrever sobre o lado italiano da gripe. O clima aqui também está literalmente quente.”
Escuto: ‘Não, obrigada. Mas fique de olho no movimento da alfândega quando voltar.”
No final da semana, de volta à ‘terra da garoa’ européia, a alfândega parecia mais a fila do GP (espécie de posto de saúde inglês) em dias normais.
Pergunto à oficial de saúde (profissionais que muitas vezes fazem com que os imigrantes ‘tirem um raio-X’ completo assim que desembarcam em Heathrow, a ‘porta de entrada’ de muitos dos expatriados que se espalham pelo Reino Unido) se havia algum procedimento especial para quem entra no reino.
Escuto: “Não. Já passou. Cá entre nós, acho que esta pandemia está sendo overated (superestimada). A coisa está feia no México e até no seu Brasil. Aqui está sério tambeem. Mas aqui não é que seja tão grave assim. Agora toda gripe é suína. Agora todo espirro é pandemia.”

Ok. Passo rápido pelo controle. Passaporte carimbado mais uma vez. E não ganhei nenhuma máscara de brinde. Mas ganhei o número da Agora swine flu Hot Line.
Dor-de-cabeça persistente? Dor na garganta que não passa? Febre?
Ligue djá: 1802007
Não liguei, mas uma amiga minha ligou para o número mais quente do momento. Minutos depois, a minha line toca: “Nosso jantar de hoje está cancelado. Acho que estou com ‘A’ gripe. A gente se vê só daqui 15 dias. Por ora, sinto como se estivesse engolindo vidro. E não posso ver ninguém.”
Enquanto isso, a Swine Flu Hot Line tem funcionado por 15 horas todos os dias e recebido cerca de 200 mil telefonemas no período.
26.06.09
Prólogo:
Este blog está de volta ao ar após uma longa ausência causada por uma maratona enfrentada por sua blogueira. Motivo: finalização do documentário dirigido por ela sobre os motoboys brasileiros em Londres. Os brasileiros couriers, como aqui são chamados, compõem cerca de 80% destes profissionais tão necessários aqui quanto em São Paulo ou outras grandes capitais brasileiras. Mais detalhes sobre este outro lado londrino, que passa muito longe dos clichês da Piccadilly Circus e de Notting Hill, virão a seguir. Por ora, outra história londrina: Michael Jackson e sua anunciada, mas nunca realizada, última turnê
Londres
Centenas de fãs lotavam a Trafalgar Square há pouco. Celebravam o talento de Michael Jackson e agradeciam ao cantor o presente que seria dado aos londrinos: Assistir e ser palco daquela que seria a última turnê da vida do Rei do Pop.
“Não deu tempo… Nunca vou ver o Jacko ao vivo”, lamentava uma fã adolescente ao amigo enquanto acendia uma vela em homenagem a Michael.
Hoje pela manhã, na ‘porta’ da O2 Arena (a arena de espetáculos no leste de Londres) que seria a ‘casa’ de Michael até março de 2010, quando a turnê (ainda que não saísse do mesmo lugar) seria encerrada, centenas de fãs exigiam o dinheiro dos ingressos de volta e choravam pela memória do cantor.
Enquanto isso, nas linhas mais que lotadas do metrô londrino, os jornais gratuitos sumiram. Quem enfrenta a maratona do ‘commuting’ todos os dias em Londres sabe. Em geral, no fim do dia, o que mais se vê nos vagões são os London Paper, o London Lite e o Metro jogados às traças depois de terem sido devorados pelos milhares de usuários do ‘tube’.
Hoje não. Hoje um usuário resmungava para o amigo: Todo dia tem Metro jogado pelo chão. Fica uma sujeira só. Hoje, justo hoje que eu quero ler sobre o Jacko, não tem um exemplar.”
O amigo retrucou: “Claro. Hoje é um dia histórico. Todo mundo quer guardar o jornal ou levar para casa.”
Se os tablóides metropolitanos entraram para a história, isso é assunto para outro post. Mas que a manchete do Metro deixa um quê de intriga e exagero (como todo bom tablóide tem de ter), isso deixa. A chamada: “Família culpa Londres pela morte do superstar”. “Jacko foi morto pelo inferno de fazer 50 shows na O2 Arena”
É… assunto a se pensar...
Prólogo:
Este blog está de volta ao ar após uma longa ausência causada por uma maratona enfrentada por sua blogueira. Motivo: finalização do documentário dirigido por ela sobre os motoboys brasileiros em Londres. Os brasileiros couriers, como aqui são chamados, compõem cerca de 80% destes profissionais tão necessários aqui quanto em São Paulo ou outras grandes capitais brasileiras. Mais detalhes sobre este outro lado londrino, que passa muito longe dos clichês da Piccadilly Circus e de Notting Hill, virão a seguir. Por ora, outra história londrina: Michael Jackson e sua anunciada, mas nunca realizada, última turnê
Londres
Centenas de fãs lotavam a Trafalgar Square há pouco. Celebravam o talento de Michael Jackson e agradeciam ao cantor o presente que seria dado aos londrinos: Assistir e ser palco daquela que seria a última turnê da vida do Rei do Pop.
“Não deu tempo… Nunca vou ver o Jacko ao vivo”, lamentava uma fã adolescente ao amigo enquanto acendia uma vela em homenagem a Michael.
Hoje pela manhã, na ‘porta’ da O2 Arena (a arena de espetáculos no leste de Londres) que seria a ‘casa’ de Michael até março de 2010, quando a turnê (ainda que não saísse do mesmo lugar) seria encerrada, centenas de fãs exigiam o dinheiro dos ingressos de volta e choravam pela memória do cantor.
Enquanto isso, nas linhas mais que lotadas do metrô londrino, os jornais gratuitos sumiram. Quem enfrenta a maratona do ‘commuting’ todos os dias em Londres sabe. Em geral, no fim do dia, o que mais se vê nos vagões são os London Paper, o London Lite e o Metro jogados às traças depois de terem sido devorados pelos milhares de usuários do ‘tube’.
Hoje não. Hoje um usuário resmungava para o amigo: Todo dia tem Metro jogado pelo chão. Fica uma sujeira só. Hoje, justo hoje que eu quero ler sobre o Jacko, não tem um exemplar.”
O amigo retrucou: “Claro. Hoje é um dia histórico. Todo mundo quer guardar o jornal ou levar para casa.”
Se os tablóides metropolitanos entraram para a história, isso é assunto para outro post. Mas que a manchete do Metro deixa um quê de intriga e exagero (como todo bom tablóide tem de ter), isso deixa. A chamada: “Família culpa Londres pela morte do superstar”. “Jacko foi morto pelo inferno de fazer 50 shows na O2 Arena”
É… assunto a se pensar...
11.06.09
Londres
"Londres teve uma semana de São Paulo. Isso serve para os londrinos aprenderem que tudo sempre pode piorar", brincou (ou não) o estudante brasileiro na terça à noite, quando resolveu fazer a pé o caminho que sempre faz, em cinco minutos, de metrô. "Levei uma hora para fazer o mesmo percurso. Esta cidade está digna de São Paulo em dia de greve e chuva", completou o 'commuter' brasileiro.
Commuters são, grosso modo, o que poderíamos chamar de usuários do transporte público. Mas quem 'commuta' geralmente tem de trocar de linhas, 'to commute'. O 'commuter em geral sai de sua casa no subúrbio de manhã e tem de trocar de linhas, meios e caminhos para chegar ao trabalho. Baldear enfim...
O motivo do desespero dos commuters londrinos nesta semana: greve. Greve dos metroviários.
Em uma cidade como Londres, em que 11 linhas coloridas cruzam entre si e se propagam por linhas do
DLR (algo como o famigerado, e nunca 'alcançado' Fura Fila), do trem e das centenas de linhas do tradicional Double Deck Bus, uma Tube Strike (Greve do Tube, o metrô) causa arrepios até nos mais despojados súditos da Rainha.
No London Lite, a manchete foi a bravura dos commuters londrinos
O desamparo em que se sentiram os moradores de Londres não atingiu somente os portadores do Oyster (uma maravilha da vida moderna que pode ser mal comparada ao Bilhete Único paulistano). Os Push-Bikers, os moto-bikers, os que andam a pé, de ônibus, de táxi... Ontem o assunto não foi o mau tempo. Até porque, apesar da tradicional chuva londrina, o tempo tem sido generoso e tem garantido domingos de sol no parque.
A greve levantou uma questão mais interessante: A bravura dos commuters.
Deu no London Lite (o 'must read' - tem que ler - jornal distribuído nas portas das estações de metrô). A bravura dos 'commuters' venceu a greve. Em vez de ficar em casa esperando a greve, e a chuva, passarem, os commuters se uniram e tiraram suas bicicletas, patins de casa, pegaram carona, ônibus e barcos.
É... Se os problemas são os mesmos nas grandes cidades, as soluções por vezes são diferentes. Ou quase. O londrino, ao menos, pode optar pelo serviço público de barcos que circulam pelo Tâmisa diariamente. Numa demonstração de solidariedade, o prefeiro Boris Johnson (que vai trabalhar pedalando todos os dias) ontem resolveu se unir ao usuários dos barcos que fazem a linha Tower Bridge - Canary Wharf. Enfim, quem não tem tube, vai de barco. Ou compra uma bicicleta.
Londres
"Londres teve uma semana de São Paulo. Isso serve para os londrinos aprenderem que tudo sempre pode piorar", brincou (ou não) o estudante brasileiro na terça à noite, quando resolveu fazer a pé o caminho que sempre faz, em cinco minutos, de metrô. "Levei uma hora para fazer o mesmo percurso. Esta cidade está digna de São Paulo em dia de greve e chuva", completou o 'commuter' brasileiro.
Commuters são, grosso modo, o que poderíamos chamar de usuários do transporte público. Mas quem 'commuta' geralmente tem de trocar de linhas, 'to commute'. O 'commuter em geral sai de sua casa no subúrbio de manhã e tem de trocar de linhas, meios e caminhos para chegar ao trabalho. Baldear enfim...
O motivo do desespero dos commuters londrinos nesta semana: greve. Greve dos metroviários.
Em uma cidade como Londres, em que 11 linhas coloridas cruzam entre si e se propagam por linhas do
DLR (algo como o famigerado, e nunca 'alcançado' Fura Fila), do trem e das centenas de linhas do tradicional Double Deck Bus, uma Tube Strike (Greve do Tube, o metrô) causa arrepios até nos mais despojados súditos da Rainha.
No London Lite, a manchete foi a bravura dos commuters londrinos
O desamparo em que se sentiram os moradores de Londres não atingiu somente os portadores do Oyster (uma maravilha da vida moderna que pode ser mal comparada ao Bilhete Único paulistano). Os Push-Bikers, os moto-bikers, os que andam a pé, de ônibus, de táxi... Ontem o assunto não foi o mau tempo. Até porque, apesar da tradicional chuva londrina, o tempo tem sido generoso e tem garantido domingos de sol no parque.
A greve levantou uma questão mais interessante: A bravura dos commuters.
Deu no London Lite (o 'must read' - tem que ler - jornal distribuído nas portas das estações de metrô). A bravura dos 'commuters' venceu a greve. Em vez de ficar em casa esperando a greve, e a chuva, passarem, os commuters se uniram e tiraram suas bicicletas, patins de casa, pegaram carona, ônibus e barcos.
É... Se os problemas são os mesmos nas grandes cidades, as soluções por vezes são diferentes. Ou quase. O londrino, ao menos, pode optar pelo serviço público de barcos que circulam pelo Tâmisa diariamente. Numa demonstração de solidariedade, o prefeiro Boris Johnson (que vai trabalhar pedalando todos os dias) ontem resolveu se unir ao usuários dos barcos que fazem a linha Tower Bridge - Canary Wharf. Enfim, quem não tem tube, vai de barco. Ou compra uma bicicleta.
15.05.08

Marcha da Vida. Seqüência 4. Cena 1
Cannes - "Sou contra todas as guerras. Nenhuma delas foi ou jamais será justificável. Todas são inúteis."
A máxima não veio de nenhum ativista pela paz ou de um civil revoltado com o clima constante de estado de 'quase' guerra em que vivem tantos no Oriente Médio. Veio de um ex-soldado de Israel, que lutou contra o Líbano em 1982 e viu de perto o que de fato foi (e o papel de Israel, ainda que tenha sido se omitir) o massacre de palestinos em Sabra e Shatila, durante o conflito, no Líbano. "Nao fiz o filme pensando em lanca-lo justamente no ano dos 60 Anos de Israel. Simplesmente aconteceu. Trabalho neste projetos ha muitos anos. Desde quando minha propria memoria come'cou a me intrigar sobre o que de fato eu tinha visto nesta guerra, neste massacre. Decidi voltar a minhas memorias. E, para isso, decidi filmar um documentario animado", declarou o diretor quando questionado se seu filme 'e mais uma das `boas desculpas' para que possamos refletir sobre o significado da cria'cao do Estado de Israel.
Em vez de transformar sua experiência em mágoa, revolta, em um livro, o diretor Ari Folman preferiu transformar em um filme. Melhor, em um documentário. Melhor ainda, em um documentário animado. E o resultado é Waltz With Bashir (Valsa com Bashir), o único filme em animação que concorre à Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano.
Assim como foi o Persépolis da iraniana Marjane Satrapi (que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pela França neste ano), o filme de Folman é pura adrenalina em película.
Em vez de fazer discurso, criar teses e/ou tomar conclusões presunçosas, Folman narra sua experiência de uma forma muito pessoal. Apaixonado e apaixonante. Tracos artesanais, criados pelos animadores depois que estes assistiram 'as imagens filmadas pelo diretor, dao o tom aos sentidos, sentimentos e impressoes de garotos diante de uma guerra real e nao somente ideologica ou politica.
Na conversa com jornalistas, meu ego de repórter que acaba de desembarcar de Tel Aviv direto para a cidade litorânea francesa, não resistiu e perguntou: "Senhor Folman, você pensou no público jovem do seu país quando decidiu criar este documentário em forma de animação? Porque esta linguagem é tao jovem e, ao mesmo tempo, tão real? Estive até ontem em Israel, percorrendo o seu país, aprendendo, tentando entender quem são e o que pensam os jovens israelenses. Os mesmos que querem a paz com os palestinos são os mesmo que carregam muitas vezes suas metralhadoras e fuzis até mesmo quando vão a um restaurante. Como criar com 'apenas' um filme um debate, como falar aos corações que defendem a guerra?"
Folman olhou com surpresa e respondeu, tão passional quanto seu filme, quanto a pergunta que lhe fora feita: "Entendo sua surpresa com o que viu em Israel. Em geral as pessoas pensam que lá ou é só guerra ou é um paraíso. Ou é um pais que não deixa o debate livre. Você viu. Israel é um país onde todos podem se expressar. E eu estou tentando fazer isso. Se, com meu filme, e com minha experiência de alguém que já foi jovem, e despreparado, para uma guerra, mesmo depois de anos de treinamento, eu conseguir debater e dialogar com um jovem israelense que o seja, já vou me dar por satisfeito."
Pois bem, Mr. Folman, a julgar pelo vazio no estômago que tomou conta de quem assistiu ao filme hoje de manhã (seja quem andou pelas Colinas de Golan há alguns dias, seja quem jamais passou perto de uma trincheira), pode considerar seu dever cumprido.
No mar de monólogos surdos em que nos encontramos atualmente, em que (quase) todos querem somente usar o espaço que existe para pregar suas crenças pré-estabelecidas e não para tentar ouvir antes de falar, pensar antes de julgar, sentir antes de concluir, o réquiem para um sonho de paz de Folman é sinfonia para os olhos.
Que Cannes lhe traga ainda muitas palmas. E uma Palma merecida.
Flávia Guerra é repórter do Estadão e dá dicas de cultura na Rádio Eldorado AM. Faz de reportagens no Capão Redondo a entrevistas em Hollywood, com direito a caminhadas pelos Campos de Concentração da Polônia. Apaixonada por História e histórias, desta vez faz a trilha da Marcha da Vida. A caminhada refaz a Marcha da Morte dos judeus durante a Segunda Guerra e a transforma em uma celebração da vida. A Marcha comemora neste ano seus 20 anos e termina seu percurso em Israel, que festeja neste mês seus 60 anos. Acompanhe aqui todos os passos desta jornada.
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