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22.07.08
É difícil acreditar que isso seja possível, mas a rua acima, fotografada ontem, terá de estar impecável dentro de dez dias, a tempo de receber os primeiros turistas que chegarão a Pequim para a Olimpíada. Mais antiga via comercial da cidade, com cerca de 600 anos de existência, Dashilan é objeto de um dos mais polêmicos projetos de restauração realizados pelo governo chinês, que levantou debates acalorados sobre a maneira adequada de preservar o passado.
Muitos dos edifícios foram reconstruídos, supostamente para recuperar a aparência que tinham quando eram novos. Os que já estão prontos exibem cores vivas e parecem tão perfeitos que poderiam estar em uma obra de hiper-realismo. Dashilan tem a mais antiga loja de seda, a mais antiga farmácia de medicina tradicional chinesa e mais antiga sapataria de Pequim, onde os sapatos ainda são costurados à mão. Todas elas foram fechadas temporariamente para o trabalho de renovação.
A rua fica em uma região chamada Qianmen, que na época do império estava fora da muralha que cercava Pequim, ao sul da Cidade Proibida. O bairro era o local onde os viajantes se hospedavam e reunia os teatros, grupos de acrobacia, restaurantes e bordéis. À noite, muitos dos mandarins do império escapavam pelo portão Qianmen para freqüentar os bordéis da região.
No século passado, Qianmen, como quase todos os bairros de Pequim, empobreceu e viveu um processo de degradação. As casas foram transformadas em cortiços, camelôs tomaram conta das ruas e os edifícios ficaram sem manutenção.
Há dois anos, o governo anunciou um plano de restauração da área, que incluiu a destruição de muitas das casas antigas e a recuperação dos edifícios de valor históricos relevante. Para seus críticos, o projeto criará uma espécie de Disneylândia ou parque temático onde os turistas terão uma mostra totalmente artificial de como era a vida na velha Pequim. Os defensores afirmam que a região estava degradada e que os elementos de valor históricos serão preservados.
Na sexta-feira, fui a uma palestra de dois arquitetos italianos e a questão da preservação do passado foi discutida. Na opinião de ambos, os chineses têm uma concepção diferente da ocidental, que privilegia a manutenção dos monumentos históricos em sua condição original, como as ruínas romanas e gregas. Para os chineses, preservar é reconstruir os edifícios como eles eram originalmente, da maneira mais perfeita possível.
Para minha surpresa, os arquitetos não tinham uma visão totalmente negativa do modelo chinês. Para eles, a opção Ocidental está longe do ideal e a cidade onde vivem, Roma, estaria “congelada” pela obsessão de preservar o passado. O melhor caminho, disseram, é um meio-termo entre os dois extremos.
Alguns dos prédios já restaurados:
16.07.08
Se o inglês dos funcionários do International Media Center for uma mostra do que vai imperar durante a Olimpíada...Houston, we have a problem! Falei com seis pessoas diferentes hoje e apenas uma tinha um inglês fluente. Infelizmente, ele me deu apenas o seu nome inglês, Boris, e quando liguei de novo a pessoa que atendeu o telefone não tinha a menor idéia de quem se tratava _obviamente, ela o conhece por seu nome chinês, que deve ser algo como Wang, Li ou Wei. “Boros? Borus?”, perguntava, enquanto eu dizia “Boris, Boris”. “Ah! Talvez você queira falar com o nosso BOSS”, falou, em um inglês capenga. Poderia ser, mas obviamente o boss não estava disponível.
Desisti do Boris e decidi começar tudo de novo, dizendo que gostaria de falar com alguém sobre visto para jornalistas estrangeiros _“visa”, em inglês, provavelmente uma das palavras mais pronunciadas no INTERNATIONAL Media Center. “Visa?!?!”, perguntava meu interlocutor. E eu: “Yes! Visa! Passport!”. Depois do terceiro “Visa?!?!”, desisti e decidi tentar mais tarde.
Finalmente consegui falar com outra pessoa que tinha um inglês razoável e tomei o cuidado de anotar seu nome em chinês. Quando liguei de volta para uma informação banal ela não estava na sala. Como queria apenas o número do fax do INTERNATIONAL Media Center, perguntei para a pessoa que havia atendido o telefone e recebi uma resposta com o mesmo tom de perplexidade da que está no primeiro parágrafo deste texto. “Fax?!?!”. “Yes, fax”, dizia eu, várias vezes, sem talento para repetir meu amigo Gilberto Scofield e começar a imitar o som do sinal de fax para tentar ser entendida. Desisti de novo, para finalmente conseguir o número quase no fim da tarde com a única pessoa com a qual era capaz de me comunicar.
INTERNATIONAL?!?!?!?!
14.07.08
As inúmeras lojas que vendem DVDs piratas em Pequim fecharam as portas e colocaram avisos de que os negócios estão “temporariamente” suspensos, em mais uma medida de maquiagem da cidade para os 500 mil turistas esperados para a Olimpíada. Os jardins estão impecáveis, o número de carros nas ruas será reduzido à metade e as centenas de construções serão interrompidas no período dos Jogos.
O governo pretende limitar o espaço para a diversão e determinou que todos os bares e casas noturnas fechem às duas da manhã durante a Olimpíada. Muitos estrangeiros que vivem na cidade tiveram que voltar a seus países em razão das restrições impostas pela polícia. Os trabalhadores migrantes que construíram todas as instalações para os Jogos também serão obrigados a deixar Pequim.
As autoridades proibiram a venda de carne de cachorro e continuam a campanha pelos “bons modos”, que incluem o respeito às filas e a proibição de que as pessoas escarrem nas ruas.
Não se sabe ainda o que vai acontecer com a meca da pirataria, o Mercado da Seda, localizado na mais importante avenida de Pequim. Fechá-lo pode provocar uma onda de instabilidade social _o maior temor das autoridades_ já que centenas de pessoas dependem dele para sobreviver.
Deixá-lo aberto pode comprometer a intenção do governo chinês de apresentar uma cidade livre de características vistas como comprometedoras, ainda que todo o mundo saiba que elas existiam antes e continuarão a existir depois da Olimpíada.
O grande risco é transformar Pequim em uma cidade morta e plastificada, onde todos estarão apresentando um grande espetáculo chapa-branca.
Não sei se todos aqui lêem o Estadão. Por isso, decidi reproduzir alguns textos da série sobre Pequim que o caderno de Esportes está publicando desde o dia 8. Agradeceria se vocês dissessem se têm interesse em que eu continue a colocar aqui os textos já publicados no jornal. Aí vai o primeiro:
A China que sediará a Olimpíada de 2008 é protagonista da mais espetacular transformação econômica da história, que tirou o país do isolamento e da pobreza de 30 anos atrás e mudou de maneira radical a vida de seu 1,3 bilhão de habitantes. O restante da humanidade assiste assombrada à emergência dessa nova potência, que no curto período entre 2005 e 2008, saiu da sétima para a terceira posição entre os maiores PIBs do mundo, deixando para trás Alemanha, Inglaterra, França e Itália.
A velocidade da mudança é tão grande que não é necessário recorrer à trajetória de pais e avós para relatá-la. A mesma geração viveu em diferentes Chinas ao longo das últimas três décadas, quando foi implementada a política de reforma e abertura.
Quem tem 40 anos hoje nasceu em um país mergulhado no delírio igualitário e violento da Revolução Cultural (1966-1976), passou a infância em um ambiente no qual a comida era racionada e o “terno Mao” dominava o guarda-roupa e chegou à adolescência logo depois de Deng Xiaoping, o idealizador das reformas, proferir a frase “o enriquecer é glorioso” _senha para as mudanças que estavam por vir.
O país onde ter uma bicicleta era o grande sonho de consumo é hoje o segundo maior mercado automobilístico do mundo, com 8 milhões de unidades vendidas no ano passado. Os chineses que viviam de costas para o mundo e combatiam o imperialismo americano se ocidentalizam com uma rapidez estonteante _na maneira de vestir, na crescente liberação sexual, na multiplicação de redes de fast-food, na paixão por grifes estrangeiras e no incipiente consumismo.
A reclusão das primeiras décadas da Revolução Comunista foi substituída pela sedução ao capital estrangeiro e a rápida integração à economia mundial. Deng Xiaoping e seus seguidores abraçaram com fervor a globalização e levaram a China a entrar na OMC (Organização Mundial do Comércio) em 2001. No mesmo ano, o país venceu a disputa para sediar a Olimpíada de 2008, concebida para coroar sua ascensão no cenário mundial.
Desde 1978, a China cresce a uma média de 9,6% ao ano, feito que nenhum outro país exibiu por tanto tempo. Neste ritmo, o tamanho da economia dobra a cada oito anos. A rápida expansão resgatou 400 milhões de pessoas da pobreza absoluta, segundo estimativa do Banco Mundial, no mais bem-sucedido programa de combate à pobreza da história.
Mas o Partido Comunista que perseguiu o sonho da igualdade sob Mao Tsé-tung (1893-1967) hoje governa um país no qual a distância entre ricos e pobres cresce de maneira alarmante. A meteórica ascensão é acompanhada do aumento das tensões e dos contrastes internos, na medida em que a prosperidade beneficia mais os moradores das prósperas cidades do leste do que os 56% da população chinesa que ainda vive na zona rural.
Enquanto Pequim e Xangai exibem uma legião de bilionários, milhões de camponeses ainda trabalhavam a terra com o mesmo arado de madeira puxado por búfalos utilizado há séculos no país.
29.06.08
A visita a qualquer banca de jornal da China revela que a parcela da população com uma conta bancária ligeiramente superavitária quer aprender a ser “cool”, ter estilo e estar na moda. O que mais vende no país são as revista que dão às mulheres _e aos homens_ uma bússola para se mover em um universo no qual a aparência e os símbolos de status têm influência crescente nas relações sociais. Em razão da estrita censura do governo, revistas semanais como "Veja" e "Época" não têm sucesso na China. Há uma ou outra que resumem as notícias da semana, mas o conteúdo político é totalmente oficialesco. As revistas que se dedicam à economia, finanças e a números supostamente desprovidos de conotação política têm tiragem e respeitabilidade maior.
Mas o que tem apelo mesmo é o mundo da moda e das celebridades. A brasileira Gisele Bündchen está na capa da "Vogue" chinesa de julho, vendida por 20 yuans, o equivalente a R$ 5. Madonna estampa a "Elle", enquanto o ator Tony Leung, do filme “Lust Caution”, divide a capa da "Marie Claire" com a modelo taiwanesa Lin Zhi Ling. O vendedor da banca em frente à minha casa disse que vende entre 20 a 30 exemplares de "Vogue" por mês e apenas cerca de 5 ou 6 da "Oriental Outlook", uma das revistas semanais. Em outra banca, a vendedora informou que vende cerca de 60 números de "Vogue" a cada mês e entre 30 e 40 de "Caijing", a principal revista financeira do país.
As chinesas também compram a "Cosmopolitan" _nome internacional de "Nova"_, que tem a mesma linha que a versão brasileira, centrada em sexo, carreira e táticas para agarrar o homem ideal. O primeiro item do índice da edição de julho era “estrelam falam de luxúria e moda”.
A busca de estilo não está restrita às mulheres e há várias revistas destinadas aos homens. Entre elas, a versão chinesa da "Bazaar Man´s Style". Na capa de julho, está Li Ning, o ex-atleta que enriqueceu depois de criar sua própria grife de materiais esportivos. Nas 218 páginas da revista, uma profusão de anúncios de marcas de luxo e reportagens sobre carros, Olimpíada, esportes, estilo, moda, consumo e decoração. Os homens chineses não podem comprar revistas pornográficas, vetadas pela censura, mas têm à disposição títulos que trazem mulheres em fotos sensuais, mostradas normalmente em ensaios de moda e consumo, como a "For Him Magazine". A China é o único país do mundo em que os homens consomem mais produtos de luxo que as mulheres (para mais detalhes, leiam minha reportagem publicada hoje no caderno de Economia do Estadão).
Outro sucesso de vendas são as revistas de fofocas. Como em qualquer lugar do mundo, os chineses também querem conhecer os detalhes da vida de seus ricos e famosos. As revistas falam sobre casamentos feitos e desfeitos, flertes, traições, triângulos amorosos e sexo. Os personagens são as novas celebridades da China e das vizinhas Hong Kong e Taiwan, de onde vêm muitos dos artistas que fazem sucesso no país.
Aí vão algumas fotos das revistas chinesas:
Detalhe de banca de revista em Pequim

Detalhe de banca de revista em Pequim

Capas de algumas edições de julho de revistas de moda

Duas das revistas masculinas

21.06.08
Comprar DVDs piratas está entre as diversões inescapáveis dos habitantes de Pequim. A cidade está cheia de lojas que parecem as vídeolocadoras do Brasil, mas ao invés de alugar, elas vendem os filmes. Os preços variam de R$ 2,50 a R$ 4,00, dependendo do lugar e da qualidade da cópia. Depois de jantar ontem, fui a uma loja de DVDs piratas em Sanlitun, um dos bairros boêmios de Pequim. Era quase meia-noite, o lugar estava cheio e a vendedora me disse que ele só fecharia às 5h.
No fundo da loja, no meio do corredor no qual os clientes passavam, a linha de montagem trabalhava a pleno vapor: um rapaz colocava o DVD em uma caixa preta e o passava a uma moça, que empurrava a embalagem dentro do invólucro que identificava o filme e dava ao produto uma aparência de autêntico _havia uma pilha de DVDs,caixas e embalagens entre eles. Em seguida, uma outra garota embrulhava a caixa em um plástico, que era selado com a ajuda de um ferro de passar roupa que estava à sua frente.
O resultado que vai parar nas prateleiras parece perfeito, ainda que todo mundo saiba que as cópias à venda são piratas. Ontem, comprei “Piaf” (ou “La Vie em Rose”) pelo equivalente a R$ 2,50, o que não paga nem a pipoca de um cinema no Brasil. A caixa com 44 filmes de Wood Allen custa um pouco mais que R$ 100. Ao lado dela, são vendidas as obras completas de Kubrick, Fellini, Hitchcock, Almodovar etc., por preços irrisórios.
As casas de DVDs piratas escapam à censura do governo chinês e vendem uma infinidade de filmes que não serão mostrados nos cinemas ou nas telas de TV do país. O mais novo hit é “Sex and the City”, para o qual muitas lojas fazem listas de espera entre seus clientes, em razão da grande demanda e a escassa oferta. Por incrível que pareça, o filme está proibido na China em razão do seu conteúdo demasiadamente sexual. “Lust, Caution”, de Ang Lee, também pode ser encontrado em qualquer loja de DVD, apesar de ter sido cortado e finalmente banido dos cinemas chineses.
Todos os seriados de TV norte-americanos de relativo sucesso podem ser comprados na China por um preço ridículo, apesar do fato de que quase nenhum deles tem autorização para ser mostrado na TV dentro do país. Nem mesmo o inofensivo “Friends” ganhou o aval da censura chinesa. Imagine “Nip, tuck” ou mesmo “Sex and the City”!
Claro que o baixo custo tem seu preço e muitos filmes vêm com problemas como legendas que não têm nenhuma relação com o que se passa na tela _o que significa que pertencem a outro filme_ ou legendas que correspondem ao que se vê na tela, mas contêm tantos erros de ortografia que acabam se transformando na atração da noite. Também há surpresas bizarras na apresentação dos produtos, como um DVD de “Sex and the City” que traz estampada a fotografia de quatro mulheres que NÃO são as atrizes da série.
Antes que eu seja acusada de apologia do crime, gostaria de dizer que a pirataria é absolutamente institucionalizada na China, com lojas instaladas em alguns dos melhores pontos comerciais da cidade. E ela está longe de se limitar aos DVDs. Mas isso é tema para outro blog...
11.06.08
Se você é daqueles que acham que os chineses são todos iguais, aviso que não apenas não são, como têm dentro de seu território 55 grupos que o governo chama de “minorias étnicas”, cada um com seus próprios costumes, língua e religião. Do 1,3 bilhão de chineses, 91,6% pertencem à etnia majoritária, chamada de “han”. Os outros 8,4% integram outras etnias, que representam um universo de 110 milhões de pessoas, mais que a população de muitos países.
Parte dessa diversidade étnica é uma herança do passado imperial da China, que levou à anexação de territórios pelas sucessivas dinastias, principalmente na região oeste. A província muçulmana de Xinjiang, no extremo oeste, é a maior da China e passou a fazer parte do território do país na última das dinastias imperiais, a Qing, que durou de 1644 a 1911. Os integrantes da etnia uighur, que representam 45% da população local, não se parecem em nada com os chineses han e têm mais identidade cultural com os habitantes da Ásia Central. Xinjiang é sede de um movimento separatista que defende a criação do Estado do Turcomenistão do Leste, acusado pelo governo chinês de promover uma série de atentados terroristas.
No Tibete, que fica ao sul de Xinjiang, cerca de 90% da população é formada por tibetanos, a maioria dos quais não fala o mandarim dos chineses han. A diferença entre as duas etnias é gritante em tudo _língua, religião, arquitetura, atividade econômica e organização familiar.
Na província de Yunnan, ainda mais ao sul, há 25 diferentes grupos étnicos, o maior número em toda a China. Entre eles, um dos mais interessantes são os Naxi, que possuem uma organização social matriarcal. As mulheres são responsáveis pelos negócios e o trabalho, enquanto os homens se dedicam à música e à poesia. Quando os Naxi recebem visitas em casa, cabe ao homem entretê-los com suas habilidades artísticas.
Nada menos que 60% do território chinês é dominado pelas minorias étnicas, que estão em regiões de fronteira, no norte, sul e oeste, e em áreas montanhosas de difícil acesso. As províncias habitadas majoritariamente por povos que não pertencem à etnia han são chamada de "regiões autônomas" pelo governo de Pequim.
Há cinco regiões que se enquadram nessa categoria: Xinjiang, Tibete, Mongólia Interior, Guangxi e Ningxia. As três primeiras são as maiores províncias do país. Muitas dessas regiões são ricas em recursos naturais, o que explica em parte a obsessão das autoridades de Pequim em manter a unidade nacional a qualquer custo.
Mulheres da etnia Yao, de Guangxi, que não cortam o cabelo
Campos de arroz cultivados pela etnia Yao em Guangxi
Casal Naxi em Yunnan
Grupo de músicos em Yunnan
Mulheres Naxi em Yunnan
Tibetanas saem de templo em Xigazhe

04.06.08
Escorpiões e bichos da seda não fazem mesmo parte do cardápio diário dos chineses. Para muitos, eles parecem tão esquisitos quanto para nós, como observou Renato em seu comentário no post anterior. Mas o exotismo é parte integrante da gastronomia local e quem criou o ditado segundo o qual eles comem de tudo foram os próprios chineses.
A base da dieta é constituída de arroz, legumes, massas e carne de porco, mas coisas como ninhos de pássaros e barbatanas de tubarão são consideradas iguarias e é possível encontrá-las em vários restaurantes e farmácias de medicina tradicional chinesa. Patas de urso estavam entre os pratos mais sofisticados na época imperial (que acabou há menos de um século). Apesar de sua venda ser proibida atualmente, há traficantes que as oferecerem pelo preço de US$ 1 mil cada uma para os novos-ricos chineses. Cérebro de macaco é outra das iguarias imperiais e ainda é servido em algumas regiões da China.
Cachorros são consumidos no sul, a região campeã em esquisitices, e estima-se que 10 milhões são mortos a cada ano só para atender a demanda chinesa. Eu vi um cachorro inteiro sendo assado em um espeto na cidade de Lijiang, na província de Yunnan, no sudoeste chinês. Fiquei tão perturbada que não consegui fotografar a cena.
A vão outras imagens:
Chineses comem em rua do centro de Pequim
Chinês vende espetinhos em feira de comida
Da esquerda para a direita: escorpiões, gafanhotos, objeto não identificado, bichos da seda, objeto não identificado e cavalos marinhos
Cachorros no "corredor da morte" em Lijiang
Barraca de comida em Lijiang
01.06.08
Sábado à noite eu fui jantar em um dos mais sedutores bairros de Pequim, chamado Ho Hai, e
fiquei assombrada com a transformação do lugar desde a última vez que o havia visitado, há três anos. Com casas antigas espalhadas ao redor de dois grandes lagos, Ho Hai já era um dos principais endereços de bares e restaurantes da capital, mas a multidão que tomou conta de suas ruas acabou com qualquer vestígio de placidez oriental que existia até pouco tempo. Os restaurantes estavam absolutamente lotados, com esperas que giravam em torno de uma hora, e o número de pessoas tornava a caminhada uma empreitada comparável a um congestionamento no horário do rush.
A explosão da vida noturna e a popularização do hábito de comer fora são sinais do enriquecimento chinês e da mudança de comportamento que ele provoca. Pessoas que visitavam Pequim há cerca de 20 anos, viam uma cidade sem carros e luzes à noite, na qual a única opção viável para comer eram os restaurantes dos hotéis.
Para os chineses, o lazer era limitado pela falta de oferta e pelo pouco dinheiro para desfrutá-la. O primeiro restaurante privado da capital, chamado Yuebin, foi aberto em 1980, mas o boom do lazer aconteceu na década atual. Hoje há casas especializadas nas cozinhas de todas as regiões da China e de várias partes do mundo, incluindo o Brasil. Os preços variam de menos de 10 reais a mais de 500 reais e há bolsos para todos eles.
A culinária é um elemento central na cultura chinesa e comer é comparado a uma arte. Até pouco tempo, quando dois chineses se encontravam eles não se saudavam com um “oi, tudo bem?”, mas com “chi le ma?”, que quer dizer “você já comeu?” Os restaurantes lotados de sábado reuniam grupos de pessoas ao redor de mesas fartas, cada uma com vários pratos que invariavelmente iriam sobrar e seriam embrulhados para viagem. Comer na China é uma celebração coletiva e não existe o conceito de prato individual dos restaurantes ocidentais. O grupo pede vários pratos e todos comem o que vêm à mesa. Também não há tabus nem divisões entre carnes. A mesma refeição pode ter porco, peixe, frango, carneiro e crustáceos, por exemplo. Quanto aos tabus, meus vizinhos de mesa no jantar de sábado se deliciavam com pequenas taturanas fritas, uma das iguarias de Yunnan, província do sudoeste da China na qual o restaurante era especializado.
Barracas que servem comida na rua também são extremamente populares e reúnem longas filas no horário de almoço. Algumas só abrem à noite e estão entre as principais opções de lazer dos moradores de Pequim. São essas barracas que vendem escorpiões e bichos da seda fritos, ao lado de cavalos marinhos e estrelas do mar, que ajudam a comprovar o popular ditado segundo o qual os chineses comem tudo o que voa e não é avião, tudo o que anda e não é carro e tudo o que se move na água e não é navio.
28.05.08
Acreditar que o terremoto da China tenha ocorrido por qualquer outra razão que não a geológica disposição da região para tremores de Terra é de uma crueldade atroz. Os 80 mil chineses que padeceram sob os escombros dos milhares de edifícios que desabaram em Sichuan não morreram por falta de fé ou porque seu governo oprime os tibetanos.
Quanto à solidariedade, posso garantir que os chineses são tão ou mais solidários que qualquer de nós que se visse em uma situação parecida, com milhares de pessoas desamparadas por terem perdido pais, filhos, mulheres, maridos, netos e avós. Nos dias em que passei em Sichuan, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que deixaram de cultivar sua terra (a região é basicamente agrícola) para passar os dias socorrendo os desabrigados e órfãos. Chineses de todo o país fizeram doações espontâneas e isso não deve ser desprezado porque algumas empresas forçaram seus funcionários a darem muito mais do que poderiam.
A grande incógnita agora é saber se o terremoto vai de alguma forma mudar a sociedade chinesa, a visão do governo em relação à imprensa e a relação do país com o mundo. O nacionalismo xenófobo que explodiu depois das manifestações na passagem da Tocha Olímpica pelo mundo parece ter refluído diante da tragédia e da solidariedade demonstrada por outros países em relação à China. Mas o sentido de identidade e unidade nacionais saíram reforçados, assim como a imagem do primeiro-ministro Wen Jiabao, que chegou ao local do desastre poucas horas depois do terremoto e coordenou o trabalho de resgate das vítimas.
Normalmente ciosa de sua soberania e profundamente desconfiada dos estrangeiros, a China aceitou que equipes de outros países entrassem em seu território e participassem das operações de socorro, algo inédito na história recente. Também disse em alto e bom som para o restante do mundo que precisava de doações e de ajuda.
Mas a grande diferença em relação ao que é usual ocorreu na cobertura da tragédia realizada pela imprensa. Ainda que submetidos à censura, os jornalistas chineses tiveram liberdade inédita para viajar pelos locais afetados e apresentar ao vivo o que se passava. As redes de TV estatais fizeram uma cobertura intensiva, com equipes espalhadas pelas áreas afetadas. Os repórteres estrangeiros também tiveram relativa liberdade para se locomover e retratar ao vivo o que viam. Alguns, como eu e outros brasileiros, foram barrados pela polícia e impedidos de realizar entrevistas ou chegar a determinados lugares. Mas foram problemas momentâneos, que não evitaram que continuássemos a viajar e buscar contato com as vítimas.
O resultado foi uma cobertura que refletiu a realidade: uma tragédia, para a qual o governo chinês reagiu com rapidez. A imagem das autoridades locais que apareceu nas telas da CNN e da BBC era positiva, o que deveria servir de lição para os tecnocratas do Partido Comunista obcecados pela censura e o controle da informação. Quando têm acesso ao que está ocorrendo e são capazes de entrevistar todos os lados envolvidos, os jornalistas costumam fazer uma cobertura que é a mais isenta possível. O que não dá é que censores de Pequim decidam o que pode e o que não pode ser acompanhado por jornalistas, de acordo com seus interesses. Proibir o acesso da imprensa, como ocorre no Tibete, dá margem à desinformação, alimenta teorias conspiratórias e reforça a convicção de que algo indefensável está ocorrendo.
20.05.08
Mais de uma semana depois do terremoto que atingiu a China, ainda não se sabe o tamanho exato da devastação provocada pelo maior desastre vivido pelo país em 32 anos. Se considerarmos o número de pessoas que ainda estão desaparecidas ou soterradas, o total de mortos pode chegar a 72 mil, mais do que toda a população de Cornélio Procópio, a cidade onde eu nasci.
Entre os milhares de chineses que estão de luto, o sofrimento é especialmente agudo entre os inúmeros pais que perderam seus filhos únicos. Cerca de 7.000 escolas desabaram com o tremor, que atingiu uma área do tamanho de três Bélgicas e afetou de maneira direta 10 milhões de pessoas. Os edifícios soterraram milhares de crianças e adolescentes e deixaram muitos dos pais sem nenhum descendente, algo devastador para um chinês.
Ter filhos é valorizado por questões econômicas e culturais. Cabe a eles, principalmente se forem homens, cuidar dos pais na velhice. Além disso, há mais de dois milênios o confucionismo valoriza o culto aos ancestrais, que é realizado todos os anos no dia dos mortos (4 de abril). A prática foi combatida durante a Revolução Cultural (1966-1976) e era vista com um sinal de atraso e superstição pelos líderes comunistas. Mas com as reformas implantadas a partir de 1978, esta e outras tradições estão ressurgindo com força. Neste ano, o dia dos mortos voltou a ser feriado e milhões de chineses visitaram cemitérios para venerar seus ancestrais.
Os pais que perderam seus únicos filhos no terremoto não terão quem os venere depois de suas próprias mortes.
Aí vão algumas imagens da devastação:
A vida continua em meio à destruição
Crianças desabrigadas em tenda improvisada
Escola primária totalmente destruída
Escola secundária que soterrou 900 crianças e adolescentes
A sala sem parede
Cláudia Trevisan é correspondente do Grupo Estado em Pequim e autora do livro "China - O Renascimento do Império"
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