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01.07.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Viagem 01:02:48.

Se em Bali dá para ficar longe da praia, em Gili Trawangan o mar é onipresente e espetacular. Trawangan é a maior de um conjunto de três ilhotas paradisíacas que pertencem a Lombok, outra ilha da Indonésia que é vizinha de Bali. Conhecidas como “Ilhas Gili”, elas têm areia branca, água transparente, muitos corais, exuberante vida marinha e vegetação tropical. Não há carros nem motos e as pessoas se locomovem a pé, de bicicleta ou de charrete.

Também são raros alguns confortos urbanos, como água doce no chuveiro, presente apenas nos hotéis mais caros. Nos demais, incluindo o meu, é utilizada água do mar retirada de poços artesianos. Como toda a Indonésia, com exceção de Bali, Lombok e as Ilhas Gili têm uma população majoritariamente muçulmana e várias vezes por dia é possível escutar as orações realizadas na mesquita da ilha.

Depois de alguns dias em Bali, eu, minha amiga Janaína Silveira e sua irmã Maíra pegamos um barco rápido em direção a Gili Trawangan, onde chegamos em uma hora e meia. O lugar é desses pelos quais se apaixona de maneira instantânea e onde é possível se sentir em casa sem fazer esforço. Os rostos e lugares logo se tornam familiares e há uma rotina malemolente de praia, mergulho, passeios de barco, pôr do sol, jantar à beira mar e cerveja no fim da noite.

A ilha tem 3 km de extensão e 2 km de largura e uma caminhada a seu redor demora cerca de quatro horas. Dá para ir a pé a todos os bares e restaurantes e a praia é super aconchegante. Os restaurantes à beira mar fornecem espreguiçadeiras de graça, em troca de venda de bebidas e, eventualmente, comida. A areia é branca e as árvores dão sombra aos que desistem de se bronzear. Na água, é possível chegar com poucas braçadas a enormes formações de corais e ficar horas com um snorkel contemplando os peixes e, se tiver sorte, tartarugas (eu tive e vi uma, enorme, nadando até a superfície para respirar).

Aí vão algumas fotos de Gili Trawangan:

A praia

Boa vida à beira mar

A água

O táxi local

Pôr do sol com o vulcão de Bali à esquerda e lua crescente no alto

 


29.06.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Viagem 06:50:38.

Praia é a primeira imagem que vem à mente quando se pensa em Bali, mas a ilha na Indonésia tem uma personalidade que vai muito além das boas ondas e do mar azul. Na semana passada, conheci um pouquinho desse outro mundo, marcado pela profunda religiosidade dos 3,2 milhões de habitantes da ilha, 93% dos quais professam um hinduísmo com toques budistas. Os hindus são majoritários em Bali, mas minoritários na Indonésia, que é o mais populoso país islâmico do mundo _86% de seus 240 milhões de habitantes são muçulmanos.

O cotidiano dos balineses é impregnado de rituais para agradar os deuses e apaziguar os demônios. Entre eles, o mais comum é a entrega de oferendas nos milhares de templos espalhados pela ilha. Há 20 mil públicos e um número incontável nas casas das pessoas, todas equipadas com seu templo familiar. O hinduísmo tem um panteão de deuses e os balineses tiveram que adaptar sua fé à Constituição da Indonésia, segundo a qual todas as religiões professadas no país devem ser monoteístas. A solução foi declarar que os moradores da ilha acreditam em um único deus, Sanghyang Widi Wasa, que se manifesta nas três principais divindades do hinduísmo: Brahma, Vishnu e Shiva.

Mas os balineses continuam a ver o divino ou o demoníaco nas montanhas, no sol, nos rios, nas árvores, no mar e realizam rituais para se harmonizar com essas forças e evitar que elas manifestem sua fúria. Muitos na ilha acreditam que Bali foi poupada do devastador tsunami de 2004 em razão dos elaborados rituais realizados para purificar a ilha e agradar os demônios que habitam o mar _os deus ficam nas altas montanhas.

Minha primeira parada em Bali foi a cidade de Ubud, que fica a uns 40 minutos da costa e é considerada o centro cultural da ilha. Uma despretensiosa caminhada pode ser interrompida por procissões de balineses que carregam oferendas e tocam música para os deuses. As manifestações artísticas têm um caráter religioso e são executadas como uma forma de ritual: a música, a dança, a pintura e a escultura quase sempre têm a função de reverenciar o divino.

Ao redor e ao norte de Ubud, há inúmeras vilas rurais dedicadas à plantação de arroz, nas quais todas as casas têm templos logo na entrada. Também há vilas dedicadas ao artesanato e divididas de acordo com sua especialidade. Algumas só fazem esculturas em pedra, outras se dedicam ao entalhe de madeira, outras à prata, aos sarongues e assim por diante.

Aí vão algumas fotos que revelam a Bali além-mar:

Procissão nas ruas de Ubud, na qual as mulheres levam oferendas na cabeça, os homens tocam instrumentos e todos cantam

As oferendas são arrumadas em pequenas cestas de folha de bananeira e trazem arroz, frutas, flores e incenso. Elas estão presentes em virtualmente todos os lugares de Bali

Cercada de oferendas, mulher reza em templo no centro de Ubud

Entrega de oferendas e oração no mesmo templo

Campos de arroz e o vulcão Agung, a mais alta e mais sagrada montanha de Bali. Os templos das casas são construídos na direção do vulcão e muitos balineses dormem com suas cabeças voltadas para ele

Vila rural na qual os moradores secam arroz em frente às suas casas

Entrada para o templo familiar de uma casa balinesa; em seguida, o templo construído ao ar livre, como todos os demais

A dança é fundamental na vida dos balineses e todos aprendem a arte quando crianças. Os que possuem mais talento são escolhidos para se dedicarem à atividade na vida adulta. Os movimentos dos olhos, exageradamente abertos, dos dedos das mãos, da cabeça e dos pés dão um caráter único à dança balinesa

Dançarino durante espetáculo em Ubud

Meu próximo post será sobre o mar, visto de uma pequena ilha vizinha de Bali

 


08.06.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Política 06:17:30.

Ir até a fronteira entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte é ser transportado a um tempo pré-queda do Muro de Berlim, quando o planeta era dividido entre blocos comunista e capitalista e o confronto nuclear pairava sobre nossas cabeças. O pequeno país é comandado de maneira totalitária por Kim Jong-il, que sucedeu seu pai, Kim Il-sung e pretende entregar o poder a seu filho, Kim Jong-un, em um peculiar caso de comunismo dinástico.

A divisão da Coreia foi decidida pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial, que colocaram o norte sob a influência soviética e o sul na órbita norte-americana. Unificado durante séculos, o país foi cindido em duas metades antagônicas, que se distanciariam cada vez mais com o passar do tempo. Os dois lados se enfrentaram em uma guerra sangrenta a partir de 1950, quando Kim Il-sung invadiu o sul em uma tentativa desastrada de reunificação da Coreia sob o comunismo.

O confronto acabou mais ou menos onde começou, com uma trégua assinada em 1953. Não houve um acordo de paz e, tecnicamente, os dois países continuam em guerra, condição que inclui os Estados Unidos, principal aliado de Seul. Ainda hoje, há 28 mil soldados norte-americanos na Coreia do Sul, muitos em uma enorme base localizada na área urbana da capital, ao lado do Memorial da Guerra.

Diante do antagonismo entre sul e norte, o armistício de 1953 decidiu pela criação de uma “zona desmilitarizada” de 4 km de largura, que ocupa os 241 km de extensão da fronteira. Nessa faixa, é proibida qualquer atividade civil, com exceção de duas pequenas vilas rurais próximas de bases militares de cada um dos lados. A fronteira é de longe a mais militarizada de todo o mundo e exibe o recorde global em número de minas terrestres. Isso impede que os refugiados do norte cruzem a zona desmilitarizada em busca de asilo no sul e sejam obrigados e tomar a perigosa rota de fuga pela China, onde correm o risco de serem devolvidos ao regime de Kim Jong-il.

O ponto em que os dois lados mais se aproximam é Panmunjom, onde foi assinado o armistício de 1953. Lá, não há as enormes cercas de arame que marcam o restante da fronteira, e soldados do norte e do sul ficam frente a frente, muitas vezes ao alcance da mão. A linha militar de demarcação é indicada por uma faixa de concreto no chão. Sobre ela, foram construídas pequenas casas, também divididas rigorosamente ao meio. Um delas serve para encontros de cúpula entre as duas Coreias, nos quais os representantes sentam frente a frente, cada um de seu lado da fronteira _os microfones no centro da mesa seguem a linha militar de demarcação que continua depois das paredes.

O local onde a linha demarcatória não possui grades. O prédio do fundo está na Coreia do Norte. Na frente da foto estão soldados sul-coreanos. As casas do centro são divididas ao meio pela linha, que aparece um pouco apagada a partir do meio da última casa da direita.

A sala onde são realizadas negociações militares entre os dois países. A mesa do centro é dividida exatamente ao meio no mesmo ponto onde passa a linha demarcatória. Os turistas do lado de lá estão tenicamente na Coreia do Norte e a porta que aparece atrás do soldado sul-coreano leva diretamente ao país de Kim Jong-il.

A linha demarcatória: o lado direito é a Coreia do Norte, o esquerdo, a Coreia do sul.

A cerca de arama que protege a chegada à zona desmilitarizada e que está presente em uma versão reforçada ao longo de toda a fronteira.

Soldado norte-coreano aparece no alto da escada.

 


24.05.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Chinesisses 10:15:11.

A “Casa dos Sonhos” é uma pequena construção encravada no complexo de um templo taoísta de 700 anos e que se propõe a ser uma espécie de museu dos sonhos célebres da literatura e da mitologia chinesa. Perdido em um vilarejo de 50 mil habitantes a 440 km de Pequim, o museu traz pinturas que reproduzem sonhos de personagens das obras clássicas, de imperadores, de filósofos e de poetas. As pinturas não têm nada de especial, mas a “Casa dos Sonhos” me pareceu uma forma genial de perpetuação e disseminação de ícones literários. Além disso, é uma miniatura dos mecanismos que fazem com que os chineses sejam chineses há tanto tempo.

A longevidade da cultura e da identidade nacionais são um dos aspectos marcantes desse país. A escrita foi simplificada depois da revolução de 1949, mas não mudou muito em relação ao sistema utilizado há mais de 2.000 anos. Atacado de maneira feroz na Revolução Cultural (1966-1976), o confucionismo sobreviveu e experimenta um renascimento na “sociedade harmônica” do presidente Hu Jintao. Os clássicos da literatura e as obras-primas da ópera também resistiram e continuam a ser lidos por milhões de pessoas.

Entre os sonhos retratados no museu está o de Zhuang Zi (369 – 289 a.C.), o filósofo taoísta que sonhou que era uma borboleta e, quando acordou, não sabia se era ele sonhando que era uma borboleta ou se ele era uma borboleta sonhando que era ele. Também aparece Li Bai (701 -762), o grande poeta da dinastia Tang (618 – 907) e um dos maiores da China, que celebrava a natureza, a Lua e a bebida. Claro que há um quadro para Confúcio (551 – 479 a.C.), o filósofo que como nenhum outro marcou a identidade chinesa.

Algumas das pinturas retratam as próprias obras literárias, como “O Sonho do Quarto Vermelho”, um raio-x da sociedade imperial escrito por Cao Xueqin em meados do século 18 e considerado um dos mais importantes romances da literatura mundial. Mas o maior quadro é dedicado a “O Pavilhão das Peônias”, a obra-prima da dramaturgia chinesa frequentemente comparada a “Romeu e Julieta”. Escrita por Tan Xianzu (1550 – 1616), ela conta a história de amor entre a heroína Liniang e o aspirante a mandarim Liu Mengmei, com quem ela se encontra e por quem se apaixona durante um sonho. A diferença com Shakespeare é o final feliz.

A “Casa dos Sonhos” fica na cidadezinha de Huang Liang Meng, onde ocorre um dos episódios do conto “O Mundo dentro de um Travesseiro”, escrito por Shen Jiji (740 – 800). Foi em Huang Liang Meng que o personagem principal, Lu Sheng, adormeceu sobre um travesseiro emprestado por Lu Dongbin, um dos oito imortais do taoísmo. Lu Sheng sonhou que se casava com uma mulher rica, era aprovado nos exames para ser funcionário do império, tinha cinco filhos e morria aos 80 anos _todas as aspirações dos homens da época imperial. Quando acordou, viu que se encontrava no mesmo lugar e que nem mesmo a comida que estava sendo preparada quando adormeceu estava pronta.

Aí vão algumas fotos da “Casa dos Sonhos”.

A entrada da "Casa dos Sonhos"

A borboleta e o filósofo Zhuang Zi

Li Bai, a Lua e a bebida

O corredor dos sonhos de filósofos e poetas

"O Pavilhão das Peônias", o Romeu e Julieta da China

 


21.05.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Brasil 09:02:10.

Ante de encerrar sua rápida visita à China, o presidente Lula criticou o pequeno número de diplomatas da Embaixada do Brasil em Pequim, como se a decisão de aumentá-lo não dependesse de seu próprio governo. Segundo ele, a diminuta representação nacional na terceira maior economia do mundo e agora principal destino das exportações do Brasil decorre da tradição do país de “pensar pequeno” e da ausência de uma estratégia de inserção no mundo.

Lula assumiu a presidência em 2003 e, desde 2005, a China está entre os três principais parceiros comerciais do Brasil. Apesar disso, o Brasil tem uma lotação de apenas 12 diplomatas em Pequim, incluindo o embaixador, número idêntico ao de Moscou, capital de um país que ocupa o décimo lugar entre os destinos das exportações nacionais. Dessas 12 vagas, apenas nove estão ocupadas. A cifra equivale a pouco mais da metade da lotação de Paris e é inferior à da Itália, países que ocupam o 13º e o 9º lugares, respectivamente, no ranking das vendas nacionais.
Além disso, essas duas cidades européias contam com consulados gerais, que cuidam dos processos de emissão de vistos e da assistência a brasileiros. Em Pequim, esse trabalho é feito pela embaixada. O consulado de Paris tem quatro diplomatas e de Roma, três.

A lotação da embaixada em Pequim é de 12 pessoas, mas foram poucos os períodos em que todas as vagas estiveram preenchidas. O número de diplomatas deve subir para 11 nas próximas semanas, o que deixará a embaixada do Brasil em Pequim com um tamanho comparável à da representação da Venezuela, cujo PIB equivale a um quinto do PIB brasileiro.

Mesmo com o aumento, o número está longe de atender a demanda de um país que ganhou o peso que a China tem para o Brasil e o mundo. Com a sobrecarga de trabalho, não é possível destacar um diplomata para cuidar exclusivamente de promoção comercial, por exemplo, uma área fundamental para o setor privado.

A China caminha para se tornar a maior potência comercial do globo e teve no ano passado um volume de importações de US$ 1,1 trilhão, mais de cinco vezes o total das exportações brasileiras. Todos os países com pretensões de aumentar suas vendas ao país mantêm na China equipes encarregadas de buscar mercados e abrir o país a seus produtos.

O esforço de promoção comercial vai ganhar algum fôlego com a abertura em Pequim do escritório da Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex), que terá um diretor, César Yu, e mais quatro funcionários. Mas o número é minúsculo quando comparado ao escritório de promoção comercial que a China possui no Brasil, o China Trade Center, que tem cem funcionários atuando nos dois países.

Desde que assumiu o cargo, em outubro, o embaixador Hugueney acelerou o preenchimento dos postos vagos e solucionou o problema dos atrasos na concessão de vistos, que começavam a atrapalhar os investimentos e o comércio bilateral. Muitos empresários estavam desistindo de viajar ao Brasil em razão da demora na obtenção do visto, que podia chegar a um mês. A situação deverá melhorar também com a abertura do consulado do Brasil em Cantão, no sul da China, na província que concentra grande parte das empresas exportadoras e onde está a maior comunidade de brasileiros no país asiático. Mas o tamanho absolutamente inadequado da embaixada parece estar longe de uma solução.

Abaixo está uma lista de alguns postos no exterior que têm lotação superior aos 12 de Pequim:

Assunção (Paraguai) – 17, sem contar 3 do consulado geral
Berlim (Alemanha) – 15
Bogotá (Colômbia) – 13
Londres (Inglaterra) – 14, mais 4 do consulado geral

 


06.05.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Chinesisses 05:29:18.

A Revolução Comunista, a Revolução Cultural e décadas de materialismo histórico não acabaram com a profunda superstição dos chineses, e uma das prósperas profissões que reemergiram depois da abertura econômica iniciada em 1978 é a de videntes. Hoje estive na zona rural realizando entrevistas e, por acaso, acabei em uma pequena cidade de camponeses célebre em todo o país por seus videntes.

Assim que o carro em que eu estava entrou na primeira rua do lugar, uma mulher já perguntou ao motorista se nós queríamos saber nossa sorte. Pouco depois, passamos por um homem que agitava um instrumento musical de madeira com a mão para anunciar sua habilidade de prever o futuro. Já que estava lá, decidi consultar um vidente e pedi para o motorista perguntar qual era o mais respeitado da vila.

Seguindo as indicações, chegamos a uma loja em que enormes caracteres chineses colocados na porta de vidro anunciavam as habilidades do profissional: escolha ou mudança de nomes (acredita-se que o nome influencia a sorte de quem o carrega), respostas a todas as questões relativas ao futuro e conselhos em geral. Quando entramos, havia cinco pessoas aguardando por sua vez, todas na mesma sala em que o vidente lia a sorte de um sexto cliente. Como quase tudo na China, as consultas sobre o futuro são desprovidas de privacidade e todos escutam as angústias que afligem quem estava à sua frente na fila.

Diante da grande demanda, o vidente nos aconselhou a consultar seu concorrente, que tem uma sala logo ao lado da sua, na porta da qual estava anunciada uma habilidade adicional: a de definir a compatibilidade da astrologia entre pessoas que vão se casar. Extremamente comum no passado, a prática continua a ser adotada por vários pais na China de hoje.

A procura pelos serviços do Sr. Miao era menor e fui atendida logo que cheguei. A consulta durou mais tempo porque foi medida por duas pessoas. Eu falava em inglês com minha intérprete, que falava em mandarim com o motorista e, este, por sua vez, fazia a tradução para o dialeto local. Outra dificuldade foi o calendário. Dei minha data de nascimento pelo calendário solar, mas os videntes chineses trabalham com o calendário lunar.

O Sr. Miao consultou um caderninho que parecia ter sobrevivido ao fim do império, guardado em uma incongruente capa de plástico nova, que trazia estampado um desenho do Snoopy. Feitos os cálculos, ele concluiu que eu nasci no dia 13 de setembro e não em 6 de novembro. Também disse que entre os cinco elementos que regem o universo (fogo, madeira, água, metal e terra), o meu é fogo.

A partir daí, a consulta seguiu com a vaga descrição do meu passado e algumas previsões sobre o futuro. No fim, eu poderia perguntar qualquer coisa e aparentemente obter uma resposta exata _na placa ao lado de sua porta, o Sr. Miao dizia que poderia prever até em que data uma pessoa seria promovida. Acabei frustrando meu vidente pela ausência de curiosidade em relação aos detalhes do que me aguarda e a consulta foi encerrada.

Além dos profissionais do futuro, a cidadezinha de Huang Liang Meng é famosa por ser o local de uma das inúmeras lendas literárias chinesas, que cerca um intelectual pobre da dinastia Tang (618-907) chamado Lu Sheng. Como todos os homens educados de seu tempo, ele sonhava em ser um funcionário da corte imperial, mas foi reprovado nos exames. Desapontado, ele se hospedou em uma taberna de Huang Liang Meng onde encontrou um velho homem, que na verdade era um dos oito imortais do taoísmo. Depois de reclamar da má-sorte e da falta de reconhecimento de seu talento, Lu Sheng recebeu do imortal, Lu Dongbin, um travesseiro e o conselho para que dormisse um pouco.

Lu Sheng sonhou que havia sido aprovado nos exames, se casado com uma mulher rica, tido cinco filhos e vivido até os 80 anos _tudo o que um chinês do império mais desejava. Ao despertar, percebeu que continuava no mesmo lugar, com as mesmas roupas, e que o sorgo que impacientemente esperava comer antes de dormir ainda estava no fogo.

O primeiro vidente e alguns de seus clientes

O segundo vidente, sr. Miao

As portas de entrada das salas dos dois videntes; a do sr. Miao é a da direita

 


29.04.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Economia 10:13:56.

A epidemia de SARS que contaminou 8.096 pessoas e matou 774 em 29 países e regiões em 2003 é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a mais séria doença contagiosa de tempos recentes. Sua propagação provocou pânico na Ásia e só foi interrompida com a adoção de medidas drásticas, como o compulsório isolamento dos doentes e a quarentena dos suspeitos de portarem o vírus.

Concentrada na China e em Hong Kong, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS em inglês) paralisou a economia da região durante quase três meses, interrompeu as aulas e levou à imposição de estritos controles sobre o trânsito de pessoas na região, sobretudo em Pequim, cidade que registrou o maior número de casos _cerca de 2.500. A epidemia ocorreu no período de novembro de 2002 a junho de 2003, quando as autoridades conseguiram controlar o processo de propagação do vírus entre humanos.

Mas algumas das medidas que foram cruciais para deter a transmissão da SARS podem se mostrar ineficazes no combate à gripe suína, que parece a nova epidemia global. Entre elas, está o amplo uso de aparelhos que monitoram a temperatura das pessoas, que foram fundamentais na identificação de possíveis doentes e seu imediato isolamento no caso da SARS. “As pessoas podem estar infectadas com o vírus da gripe suína e, mesmo assim, não apresentarem sintomas da doença. Na SARS, os doentes sempre tinham febre”, disse ao Estadão Peter Cordingley, porta-voz da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o Leste Asiático. Segundo ele, a SARS foi a primeira grande epidemia do século 21 e, em certo momento, houve o receio de que ela se transformasse em uma pandemia e se espalhasse de maneira descontrolada por todo o mundo.

De acordo com documento da OMS, a “SARS causou mais temor e convulsão social do que qualquer outra doença em nosso tempo. Enquanto matou um número relativamente pequeno de pessoas, ela no entanto conteve economias, prejudicou o comércio e viagens internacionais e esvaziou as ruas de algumas das mais prósperas cidades do mundo”.

Das 774 mortes, 349 foram registradas na China, 299 em Hong Kong, 43 no Canadá, 37 em Taiwan e 33 em Cingapura. Os demais casos fatais ocorreram no Vietnam (5), Tailândia (2), Filipinas (2), Malásia (2), África do Sul (1) e França (1). Na avaliação de Cordingley, a experiência com a SARS mostrou a importância da divulgação de informações sobre a doença e do isolamento dos suspeitos de estarem contaminados. “Os governos não devem guardar informações. O começo da SARS foi muito difícil para a OMS porque não sabíamos o que estava ocorrendo na China”, lembra.

Apesar de o primeiro caso de contaminação pelo vírus ter sido registrado em seu território em novembro de 2002, as autoridades chinesas comunicaram a OMS do problema apenas em fevereiro do ano seguinte e só passaram a combater a epidemia de maneira transparente em abril. Cordingley afirma que os países da região estão bem mais preparados hoje para enfrentar uma epidemia do que em 2003. Desde então, as autoridades investiram em hospitais, em mecanismos de vigilância e controle de doenças transmissíveis, no treinamento de médicos e enfermeiras e no estoque de medicamentos eficazes no combate à gripe, como Tamiflu.

Mas ele ressalta que há diferenças fundamentais entre os dois vírus, que ainda não estão claras para os cientistas. A principal delas é que o vírus da SARS era puramente animal e provavelmente teve origem no gato almiscareiro, enquanto o vírus da gripe suína tem componentes de gripe suína, aviária e humana. Outra diferença é que, até a morte hoje de um bebê nos Estados Unidos, o atual vírus só havia provocado mortes no México, enquanto a SARS teve vítimas fatais em 29 países e regiões.

A brasileira Raquel Martins viveu o período da SARS em Pequim com o marido, Matti Lehtomen, e seus três filhos _Karolina, que na época tinha 10 anos, e os gêmeos Valtter e Idalina, que tinham 8. O que ela mais lembra são as ruas totalmente vazias. “Parecia Pequim na década de 70”, ressalta Raquel, que chegou à China em 1965, com 1 ano de idade.

O norte-americano William Eng, que vive no país desde 1994, também menciona a ausência de movimento na capital. “As escolas foram fechadas, várias empresas deixaram de funcionar e muitos restaurantes também suspenderam as atividades. Os que estavam abertos tinham máquinas para medir a temperatura dos clientes. As mesmas máquinas também eram usadas nos edifícios de escritório. Todo mundo usava máscaras e as pessoas tinham medo de sair de suas casas”, recorda Eng.

 


28.04.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Economia 10:53:48.

Estrategicamente localizada ao lado de Hong Kong, Shenzhen foi escolhida por Deng Xiaoping em 1980 para ser a primeira Zona Econômica Especial da China e se transformou em uma espécie de laboratório das transformações que catapultaram o país ao topo do ranking das maiores economias do mundo. A região dava incentivo para a atração de investimentos estrangeiros, tinha regras trabalhistas flexíveis e um sistema que estimulava a exportação.

Desde então, a economia local registrou crescimento anual médio de 28% ao ano, que desacelerou para 15% a partir de 2005 e algo um pouco inferior a 10% com a atual crise econômica global _ainda assim, se mantém acima da média nacional. A população da cidade saltou de 30 mil em 1978 para 350 mil em 1984 e atualmente está em cerca de 9 milhões. Grande parte dos moradores é de migrantes ilegais de outras regiões da China, atraídos pelas oportunidades de trabalho na região.

Diante desse currículo, eu esperava encontrar uma Cubatão com características chinesas quando estive na cidade há pouco mais de uma semana. Mas apesar de a poluição ser persistente, o cenário é surpreendente, pelo menos no perímetro urbano. Shenzhen é extremamente verde para um centro industrial e é cortada por avenidas largas, dividas por canteiros que são verdadeiros jardins, mantidos pela abundante e barata mão de obra chinesa.

A trajetória de Shenzhen é um retrato das mudanças da economia do país asiático e de sua ascensão na escala de valor agregado. A cidade tem um número cada vez menor de fábricas de bens de consumo de massa baratos e um crescente parque de empresas de alta tecnologia, o que ajuda a explicar o visual mais parecido com campus universitário do que com centro industrial. Na periferia, as fábricas poluentes e os enormes alojamentos para os migrantes rurais ainda dão o tom. Mas a Shenzhen do futuro é a mostrada nas imagens abaixo (a cidade está em uma região tropical e chovia quando as fotos foram feitas):

Algumas das avenidas de Shenzhen

Esta tem quilômetros de canteiros de flores


 


26.04.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Chinesisses 11:14:01.

Talvez por serem 1,3 bilhão, os chineses têm uma noção de privacidade totalmente distinta do que prevalece no Ocidente e fazem em público muitas das coisas que reservamos ao interior de quatro paredes. É domingo à noite aqui e acabei de pegar um táxi depois de comer com amigos em um boteco megachinês. No meio do caminho, quando parou em um semáforo, o motorista sacou de algum lugar um barbeador elétrico e começou a se barbear, enquanto dirigia. A operação durou uns 10 minutos, durante os quais o carro continuou a andar, enquanto o chofer passava os dedos no rosto à busca de pelos remanescentes.

O boteco onde estava fica em um dos hutongs de Pequim _antigas ruelas, com séculos de história, nos quais as casas, bares e restaurantes não têm banheiro. Todos usam toaletes públicos. A região em que eu estava é freqüentada por estrangeiros e o banheiro é adaptado à noção Ocidental de privacidade, com separação dos vasos com paredes e portas. Mas outro banheiro público no mesmo bairro, a poucos metros de distância da rua principal, não é equipado com nada disso. Os vasos estão um ao lado do outro, sem nenhuma parede, por mais fina que seja. O que dirá porta.

A tênue linha entre a rua e a casa também leva vários chineses a passearem de pijama e chinelo de quarto, a cozinharem ao ar livre e a cortarem ou lavaram o cabelo na calçada. Aí vão algumas das fotos desse universo chinês:

Homem de pijama fala ao celualr em um hutong de Pequm

Carona para o amigo...

E volta para a casa

Casal passeia de pijama ao cair da tarde (a foto foi tirada em 2005, mas continua atual)

Corte de cabe ao ar livre

 


20.04.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Economia 11:25:57.

Visitar a megafeira do Cantão, no sul da China, ajuda a entender como o país asiático se transformou em tempo recorde em uma das principais potências exportadoras do mundo. O evento é o principal local de exibição dos produtos chineses e é marcado pela diversidade e amplitude. Negociantes do mundo inteiro podem encontrar em seus estandes virtualmente tudo o que buscam _de produtos finais às máquinas que os produzem, a preços imbatíveis.

A exposição é organizada em três imensos pavilhões de quatro andares cada um, conectados por longos corredores. A parte da feira dedicada a grandes máquinas e equipamentos é realizada ao ar livre, onde até guindastes estão à venda. O evento ocorre duas vezes por ano, em abril e outubro. No ano passado, o número de visitantes foi de 192 mil e 174 mil, respectivamente, vindos de 200 países e regiões ao redor do mundo. Nos corredores, escuta-se as mais diferentes línguas e nas entradas para os pavilhões, dezenas de chineses oferecem seus serviços de intérprete para os compradores.

As estatísticas sobre a exposição de abril só serão conhecidas depois do encerramento do evento, no dia 7 de maio, mas os organizadores avaliam que o número de brasileiros será menor que em outubro, quando atingiu 2.700 compradores. Antes da crise, a participação nacional estava em alta e deverá retomar essa trajetória quando a crise global amainar.

Enquanto o Brasil praticamente não realiza promoção comercial de seus produtos na China, Pequim mantém há cinco anos em São Paulo um enorme escritório que tem a missão de organizar visitas de empresários ao país asiático e fazer a ligação entre o vendedor chinês e o comprador brasileiro. O China Trade Center fica a meia quadra da avenida Paulista e entre Brasil e China possui 100 funcionários.

Aí vão algumas fotos da feira:

Visitantes caminham no corredor do pavilhão A

Corredor que liga os pavilhões A e B ao C

Corredor do pavilhão B

Corredor entre os pavilhões A e B

Rua entre os pavilhões A e B

Fila de entrada para a feira

Intérpretes oferecem seus serviços

 


10.04.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Economia 04:13:13.

A China deu mais um passo para promover o uso global de sua moeda, ao autorizar quatro grandes cidades do país a usar o yuan em seus negócios com o exterior, em vez do dólar. A medida foi aprovada pelo Conselho de Estado na quarta-feira, menos de um mês depois de o presidente do banco central, Zhou Xiaochuan, defender a adoção de uma nova moeda internacional em substituição à norte-americana.
De acordo com o governo chinês, a decisão tem o objetivo de reduzir o risco decorrente da flutuação cambial e estimular as exportações em meio à retração da demanda mundial. O jornal oficial “China Daily” classificou a medida como mais uma etapa na promoção do uso global do yuan.
“Este é o primeiro passo para atingir o objetivo de Pequim de transformar o yuan em uma alternativa ao dólar como a moeda que rege o comércio na Ásia”, escreveu o economista-chefe do Standard Chartered na China, Stephen Green, em análise sobre a medida.
A decisão faz parte de um esforço coordenado de Pequim de promover o uso de sua moeda fora das fronteiras do país. Desde o ano passado, as autoridades chinesas manifestam preocupação com a eventual desvalorização do dólar sobre o valor dos investimentos de seu país nos Estados Unidos. Dos US$ 2 trilhões de reservas da China, US$ 800 bilhões foram destinados à compra de títulos do Tesouro norte-americano e pelo menos mais US$ 200 bilhões estão investidos em outros papéis denominados em dólar.
A apreensão foi expressa novamente em meados de março, quando Zhou Xiaochuan propôs a adoção de nova moeda internacional em substituição ao dólar.
Nos últimos quatro meses, o banco central chinês fechou acordos de swap cambial no valor de US$ 95 bilhões com seis países, incluindo a Argentina. Os tratados não prevêem o pagamento
de negócios de importações ou exportação em yuans, mas facilitam investimentos e permitem a transferência de recursos na hipótese de problemas de liquidez de uma das partes.
Para alguns analistas, os acordos de swaps têm um forte conteúdo político e servem para a China promover sua posição como um novo ator de peso na economia global.
O yuan poderá ser usado para quitar transações realizadas por empresas de Xangai e de quatro cidades da região exportadora do Rio das Pérolas, no sul do país: Guangzhou (Cantão), Shenzhen, Dongguan e Zhuhai.
Green acredita que em um primeiro momento o yuan será utilizado nas operações com companhias de Hong Kong que realizam muitos negócios com a China continental, tanto de exportação quanto de importação.
Mas no futuro o esquema será estendido a outros países, avalia. Segundo Green, grandes empresas chinesas que possuem preços competitivos terão mais poder para impor a seus clientes no exterior o uso do yuan nas relações comerciais.

 


09.04.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Cotidiano 11:59:31.

O mundo está em crise, o desemprego em alta e as exportações em baixa, mas os chineses continuam a viajar vorazmente por seu país, alimentando a enorme indústria do turismo interno. A China deve ser o único lugar do mundo em que qualquer atração turística tem sempre mais visitantes do próprio país do que estrangeiros. A Grande Muralha talvez seja o local mais apropriado para o forasteiro sentir o que significa uma população de 1,3 bilhão de pessoas, mas a sensação de ser minoria no mar de chineses está presente na Cidade Proibida, na distante província de Yunnan, nos jardins de Suzhou ou na gelada Harbin, que fica próxima da Sibéria.

A supremacia dos chineses não decorre da ausência de turistas estrangeiros. Em 2007, a China recebeu 54,72 milhões de visitantes _cerca de 10 vezes mais que o Brasil_ e a Organização Mundial do Turismo prevê que o país asiático destronará a França e será o destino número 1 dos viajantes até 2014. Os chineses são maioria em todas as atrações porque eles viajam muito dentro de seu próprio país. As estatísticas oficiais registraram 1,6 bilhão de viagens internas de turismo em 2007.

No sábado fui com minha amiga Janaína Silveira para Hangzhou, cidade que fica a 174 km de Xangai e que muitos consideram a mais bonita da China. A principal atração local é o enorme Lago do Oeste, com sua paisagem que evoca pinturas clássicas chinesas. Cheguei à cidade sob chuva e tive que explorar o lugar com uma sombrinha em uma das mãos, enquanto tentava tirar fotos com a outra. Eu e Janaína não éramos as únicas destemidas. O lago estava absolutamente apinhado de turistas chineses com sombrinhas coloridas.

No dia seguinte, fomos para Suzhou, cidade célebre por seus jardins imperiais. Era um domingo, véspera do feriado do dia dos mortos. Os trens de Hangzhou para Suzhou estavam lotados e só conseguimos lugar em pé. Por sorte, havia mesas no restaurante do trem, onde comemos e passamos as três horas e meia de viagem.

Muitos chineses trabalharam no feriado e a data não é uma opção tradicional para viagens, como o Ano Novo ou o 1º de Maio. Isso significa que o movimento que vimos não é muito distante do que ocorre em um fim de semana normal.

As ruas e jardins de Suzhou estavam cheios de turistas, muitos fotografando as flores que começam a aparecer na Primavera. Na manhã de terça-feira, perdemos o primeiro vôo de Xangai para Pequim e quase não conseguimos embarcar a tempo de estarmos de volta antes do almoço. Todos os vôos estavam lotados e tivemos sorte em conseguir as duas últimas vagas em um que saiu às 10h55. Entre as 7h55 e o meio-dia há nada menos que 16 vôos de Xangai para Pequim, todos em aviões grandes, com capacidade para no mínimo 300 passageiros.

Aí vão as fotos:

Turistas no Lago do Oeste, em Hangzhou

A chuva não impediu os passeios de barco pelo lago

A estação de trem de Hangzhou

A sala de espera de apenas duas plataformas; há pelo menos mais três como esta em Hangzhou

O interior de um dos vagões: cheio, mas bem distante da loucura do Ano Novo, quando os corredores vão apinhados de pessoas viajando em pé

Nossas vizinhas no vagão do restaurante

Turistas em um dos jardins de Suzhou

Turista frotografa flores em jardim

Um das ruas turísticas de Suzhou

 


02.04.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Economia 04:34:00.

Ao mesmo tempo em que defende a adoção de uma moeda internacional em substituição ao dólar, a China dá os primeiros passos para promoção do uso de sua própria moeda, o yuan, nas transações comerciais e como reserva de valor, principalmente na Ásia. Desde o dia 12 de dezembro, Pequim já fechou acordos de swap cambial no valor de US$ 95,6 bilhões com seis países, o último dos quais a distante Argentina.

Os convênios têm validade de três anos e a função de promover o comércio e investimentos e prover liquidez aos envolvidos. Com US$ 2 trilhões de reservas internacionais, é natural que a China seja o país responsável por fornecer recursos a eventuais necessitados, papel que até pouquíssimo tempo cabia aos países desenvolvidos.

Ben Simpfendorfer, economista do Royal Bank of Scotland em Hong Kong, vê nos acordos um gesto político de Pequim para fortalecer sua posição na economia global e, no futuro, ver sua própria moeda ser usada nas relações comerciais, pelo menos na Ásia.
“Todos os movimentos recentes do governo chinês estão relacionados. O uso do yuan nas transações internacionais é algo que vai demorar décadas, mas os líderes de Pequim pensam em termos de décadas”, disse Simpfendorfer ao Estadão.

Segundo ele, os acordos são o primeiro passo para a obtenção de um objetivo mais modesto, que é a supremacia do yuan no entorno chinês. O outro gesto de Pequim na direção de maior projeção global é a defesa de uma moeda internacional que substitua o dólar como reserva de valor, feita pelo presidente do banco central do país, Zhou Xiaochuan, dez dias antes do início da reunião do G20 marcada para esta semana em Londres.

A China tem pelo menos metade de suas reservas internacionais aplicadas em ativos denominados em dólar e está preocupada com o valor de seus investimentos. As autoridades de Pequim temem que o aumento do endividamento norte-americano para financiar o pacote de estímulo à economia leve à desvalorização da moeda local e, por conseqüência, dos papéis em seu poder.

No ano passado, a China ultrapassou o Japão e se tornou o maior financiador do déficit dos Estados Unidos em suas transações com o restante do mundo. No fim de janeiro, o país tinha um estoque de US$ 739,6 bilhões de títulos do Tesouro norte-americano em seu poder.

A proposta dos chineses de criação de uma moeda internacional encontrou eco em uma comissão da Organização das Nações Unidas dirigida pelo Prêmio Nobel em economia Joseph Stiglitz encarregada de apresentar sugestões para o enfrentamento da crise global.

Concluído no dia 19 de março, o documento propõe um novo “Sistema Global de Reserva”, que poderia ter origem no Special Drawing Rights (SDR), uma versão rudimentar de uma reserva internacional criada pelo FMI em 1969, que tem uma cotação em relação às diferentes moedas nacionais.

De acordo com Stiglitz, o sistema atual faz com que países em desenvolvimento emprestem bilhões de dólares de suas reservas aos países desenvolvidos a taxas de juros extremamente baixas. “Os perigos de um sistema de reserva baseado em um único país são reconhecidos há muito tempo, na medida em que o aumento de dívidas mina a confiança e a estabilidade [no sistema]”, sustenta a conclusão do grupo nomeado pela ONU.

Na proposta que divulgou na semana passada, Zhou Xiaochuan também defende a utilização dos SDR em uma primeira etapa na criação de uma nova moeda internacional.
Aqui a lista dos países com os quais a China assinou acordos de swap cambial:

Coréia do Sul, no dia 12 de dezembro, no valor de US$ 26,5 bilhões.
Hong Kong, 20 de janeiro, US$ 29,4 bilhões;
Malásia, 9 de fevereiro,US$ 11,8 bilhões;
Indonésia, 23 de março, US$ 14,7 bilhões;
Belarus, 11 de março, US$ 2,9 bilhões;
Argentina, 29 de março, US$ 10,3 bilhões.

 


23.03.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Chinesisses 23:55:07.

A foto acima parece a prova de um inquérito sobre lesões corporais, mas as marcas foram provocadas por uma das mais tradicionais técnicas de tratamento da medicina tradicional chinesa, o “guasha”, aplicado até hoje por milhões de avós para tratar gripe ou febre de seus netos. A terapia também é indicada para estimular a circulação sanguínea e combater a estagnação de “qi”, a energia vital que transita em nosso corpo, de acordo com a visão de mundo chinesa. E foi com esse propósito que meu médico a aplicou _sim, as costas da foto são minhas.

A expressão “guasha” pode ser traduzida como “raspar a febre” e tem o propósito de fazer com que a doença saia do corpo. A técnica exige esforço físico de quem a aplica e alguma resistência à dor de quem a recebe. O instrumento indicado é uma espátula de chifre de búfalo, que é usada para raspar a pele em movimentos intensos. De acordo com a medicina tradicional chinesa, o material tem a propriedade de estimular a circulação. A dor é suportável e acaba com o fim da sessão, apesar de as marcas que permanecem indicarem o contrário.

Amplamente utilizado pelas famílias, o “guasha” é fonte de um dos mais traumáticos choques culturais experimentados pelos chineses quando emigram a outros países. Os vergões vermelhos deixados nas costas das crianças são interpretados como sinais de maus-tratos por professores e não raro dão margem a acusações infundadas contra seus pais e avós. Meu terapeuta, Alex Tan, nasceu na Austrália e é filho de pai chinês e mãe australiana. Segundo ele, em seu país, casos como esses ocorrem não só com imigrantes chineses, mas também vietnamitas, que aplicam o “guasha” com moedas.

O filme chinês “O Tratamento”, de 2001, relata as desventuras de um avô que visita a família nos Estados Unidos e decide aplicar o “guasha” em seu neto doente. As marcas que ficam nas costas do garoto fazem com que as autoridades norte-americanas o retirem da família e acusem os parentes de abuso físico. A confusão só é resolvida quando um amigo do pai do garoto se submete ao mesmo tratamento e vê os seus benefícios.

Outra terapia que deixa marcas nas costas é o “baguan”, que consiste na aplicação de ventosas com objetivos semelhantes aos do “guasha”. No “baguan”, o médico esquenta com fogo o interior de um copo de vidro e o coloca em pontos determinados nas costas do paciente. Quando o ar esfria, é formado um vácuo, que suga a pele para o interior do recipiente. O "efeito colateral" são inúmeros círculos roxos ou pinks nas costas, que demoram alguns dias para desaparecer. Abaixo estão algumas fotos que mostram a técnica, aplicada nas minhas costas:

 


21.03.09

por Cláudia Trevisan, Seção: A catástrofe 09:01:17.

A dois meses do aniversário de um ano do terremoto que deixou quase 80 mil mortos na província chinesa de Sichuan, o artista plástico Ai Wei Wei deu início a uma campanha na internet para identificar os milhares de estudantes que morreram soterrados com o desabamento das escolas onde se encontravam no momento do tremor.
“Já se passaram mais de 300 dias desde o terremoto. O governo de Sichuan continua a adiar a divulgação de informações misteriosas sobre as mortes e a lista de mortos e apagou o fato de que centenas de milhares de estudantes morreram por causa desses projetos de ‘tofu’”, escreveu Ai Wei Wei em seu blog no dia 12 de março.
“Construção de tofu” é a expressão que os chineses utilizam para se referir a edifícios frágeis, que podem vir abaixo por qualquer motivo.
Cerca de 7.400 escolas desmoronaram em razão do terremoto de 8 graus na escala Richter que atingiu Sichuan, no centro da China, no dia 12 de maio. Em muitos lugares, os edifícios ao redor ficaram intactos, o que levantou suspeitas de que as escolas tenham sido construídas com material de baixa qualidade.
No mês de novembro, o governo chinês afirmou que 19.065 estudantes morreram no terremoto, o que representa 23% do total das vítimas. Em razão da política de controle de natalidade, muitos dos mortos eram filhos únicos, o que aumentou ainda mais a carga dramática das perdas.
O assunto desapareceu da imprensa oficial chinesa nos últimos meses e se tornou um dos mais “sensíveis” para as autoridades de Pequim, pelo potencial que tem de alimentar insatisfação em relação às autoridades.
Ai Wei Wei é considerado o pai da arte contemporânea na China e trabalhou na concepção do Ninho de Pássaros, o Estádio Nacional da Olimpíada de Pequim. Totalmente ignorado pela imprensa oficial, ele mantém um blog extremamente popular, no qual manifesta posições críticas ao governo chinês e defende maior liberdade e democracia.
Desde o dia 12 de março, ele faz o que deveria ser realizado pelo governo: divulga listas com nomes, idade, gênero, escola, local da morte e contato dos familiares dos estudantes. Até ontem, Ai Wei Wei havia publicado 71 listas, com um total de 1.790 nomes.
Antes de iniciar a campanha na internet, no dia 15 de dezembro, o artista começou a coletar dados por telefone e em visitas às regiões atingidas pelo tremor. Nos posts em seu blog ele também reproduz conversas que teve com funcionários de Sichuan na busca de informações sobre os estudantes mortos. Os diálogos revelam as dificuldades na obtenção de dados oficiais relativos às vítimas do terremoto. Há casos em que funcionários afirmam que as informações são sigilosas, outros se recusam revelá-las, se negam a dar seus nomes e, na maioria das vezes, o artista ouve a recomendação de entrar em contato com outro departamento.
Também há teorias conspiratórias. O funcionário que atendeu o telefone no Departamento de Manutenção da Estabilidade de Mianyang, uma das cidades atingidas pelo tremor, perguntou por que Ai Wei Wei estava interessado na informação. “Por que não posso me preocupar? Esse é um assunto que diz respeito aos chineses”, disse o artista. O funcionário se recusou a dar as informações com o seguinte argumento: “Eu sou chinês também. E se você for um agente secreto enviado pelos americanos?”.

 


20.03.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Política 05:14:51.

O governo da China aumentou os controles sobre a atuação da imprensa no país, contrariando as promessas de maior liberdade feitas durante a Olimpíada de Pequim. O alvo das autoridades são os assistentes chineses contratados pelos correspondentes estrangeiros e jornalistas que trabalham para a imprensa local.
Impossibilitadas de controlar as informações que os correspondentes estrangeiros enviam a seus países de origem, as autoridades decidiram impor restrições à atuação dos assistentes, que trabalham como intérpretes e também atuam na coleta de informações.
Pequim anunciou no mês passado um Código de Conduta que determina aos assistentes que propaguem “informações e idéias positivas” sobre a China e os proíbe de realizar entrevistas. O governo também informou que vai criar uma “lista negra” de jornalistas chineses que realizem “reportagens ilegais”. A medida tem por alvo pessoas que cobram propina ou divulgam informações falsas, mas o termo é vago o bastante para incluir qualquer atividade que desagrade o governo.
“Depois de dar alguns passos na direção de maior liberdade de imprensa em 2008, o governo chinês agora está retrocedendo”, afirmou a diretora da Human Rights Watch na Ásia, Sophie Richardson. “Dar maior liberdade para os correspondentes estrangeiros e depois aumentar as restrições sobre seus essenciais assistentes chineses não pode ser considerado progresso”, declarou.
O Clube de Correspondentes Estrangeiros na China divulgou nota neste mês na qual pede a revogação das regras relativas aos assistentes. De acordo com a entidade, vários profissionais chineses relataram ter recebido pressão verbal de funcionários do governo para que não contem a amigos e familiares o que vêem em viagens de trabalho até que as informações sejam publicadas pela imprensa oficial _o que pode não ocorrer.
A pressão sobre os assistentes é uma forma de Pequim cercear o trabalho dos correspondentes estrangeiros e tentar intimidar veículos com representação na China. O caso extremo foi o do jornalista chinês Zhao Yan, que trabalhava para o New York Times e foi preso em 2004 sob a acusação de revelar segredo de Estado a estrangeiros.
A detenção ocorreu logo depois de o jornal norte-americano ter publicado uma reportagem exclusiva na qual revelava que o ex-presidente Jiang Zemin entregaria o cargo de comandante militar do Partido Comunista a seu sucessor, Hu Jintao. De acordo com o New York Times, Zhao Yan não participou da reportagem.
O jornalista acabou condenado a três anos de prisão sob acusação de fraude, em um processo que correu em segredo e que teve motivação política, de acordo com entidades de defesa dos direitos humanos.
“A intimidação dos assistentes chineses vai contra a promessa de maior abertura feita no ano passado. O código [de conduta] deve ser revogado. Assistentes de mídia na China deveriam ter o mesmo escopo de atividade que assistentes de mídia em outras nações”, o presidente do Clube de Correspondentes Estrangeiros na China, Jonathan Watts, na nota divulgada pela entidade.

 


16.03.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Chinesisses 12:09:28.

Com a brutal queda na venda de carros nos Estados Unidos, a China vai assumir neste ano o posto de maior mercado automobilístico do mundo, com vendas de quase 10 milhões de unidades, acima das 9,8 milhões que os norte-americanos devem comprar. Depois da conquista da casa própria, o grande sonho de consumo dos jovens é o carro próprio, o que deixa os ambientalistas de cabelo em pé. Se os chineses tivessem a mesma relação de carros por habitante que os norte-americanos, haveria mais carros no país do que em todo o restante do mundo.

Apesar do avanço das quatro rodas, uma legião de chineses continua a usar suas bicicletas para ir ao trabalho ou ganhar a vida. Pequim já tem mais que 3 milhões de carros, mas continua a ser uma cidade ideal para a proliferação das bikes. Plana e com ciclovias em todas as grandes avenidas, a cidade abriga milhões de ciclistas, que participam do caos coletivo que se instaura em cada semáforo, quando pedestres, bicicletas e carros disputam a primazia das ruas, com evidente vantagem para os motorizados.

O número de ciclistas é menor a cada ano e as estatísticas oficiais indicam que a maioria dos moradores da capital utilizam carros ou transporte público para se dirigir ao trabalho. Mas as duas rodas continuam a fazer parte da paisagem de Pequim e garantem a sobrevivência dos bicicleteiros que vendem seus serviços em toda a cidade. Alguns são ambulantes e carregam sua oficina sobre pequenos triciclos. Outros possuem endereço fixo e anunciam o negócio com pneus colocados na calçada, como os borracheiros no Brasil. Só que os pneus são de bicicleta.

Aí vão algumas fotos deste mundo em extinção:

Ciclistas aproveitam a interrupção do trânsito em razão do Congresso Nacional do Povo, na semana passada, para ocupar uma das pistas da principal avenida de Pequim

As bicicletas também continuar a ser usadas para o transporte de quase tudo, incluindo móveis e geladeiras

Bicicleteiro trabalha no bairro de Ho Hai, uma das áreas antigas de Pequim

Biciletas em uma das ruas de Ho Hai

Mão leva filho na caçamba de triciclo normalmente usado no transporte de cargas leves

Vendedor ambulante leva frutas caramelizadas na garupa de seu triciclo

Outra bicicleteira do Ho Hai

Bicicleteiro anuncia seus serviços

 


13.03.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Política 09:59:46.

Dezenas de internautas chineses lamentaram nos últimos dias a transferência para a longínqua província de Xinjiang, no extremo oeste do país, de um professor da Universidade de Pequim que no ano passado assinou a “Carta 08”, um documento que desafia o Partido Comunista ao defender profundas reformas democratizantes.

O professor de direito He Weifang foi um dos 300 signatários originais do texto, que depois ganhou a adesão de cerca de 8.000 pessoas online. Apesar de nenhum dos comentários fazer referência à “Carta 08” _tema absolutamente vetado pela censura_, muitos manifestam a convicção de que a transferência se deu por motivações políticas.

“É triste para toda a sociedade ver isso acontecer na China de hoje, no momento em que a política de reforma e abertura completa 30 anos”, escreveu jing de wei xiao. Outro internauta foi mais dramático: “Como uma pessoa que também trabalha no campo jurídico, eu espero sinceramente que ele volte vivo”, disse miaomiao gonggong.

Divulgada no dia 10 de dezembro, a “Carta 08” propõe 19 mudanças fundamentais na política chinesa que, se adotadas, representariam o fim do regime comunista. Entre elas, estão eleições diretas, pluripartidarismo, divisão de Poderes e liberdade religiosa, de manifestação, de associação e de expressão.

A reação do governo contra seus signatários começou antes mesmo da divulgação do documento, com a prisão, no dia 8 de dezembro, do dissidente Liu Xiaobo, que continua detido até hoje.
No início de janeiro, o governo tirou do ar o portal bullog.cn, um dos mais populares sites de discussão entre intelectuais chineses, que abrigava blogs de vários signatários da “Carta 08”. Além disso, muitos dos que apoiaram o documento foram chamados pela polícia para prestar “esclarecimentos”.

Em entrevista à Associated Press, o professor He Weifang disse não ter recebido uma justificativa para sua transferência e evitou afirmar que ela está relacionada a seu apoio ao documento. Não é raro que professores das grandes universidades de Pequim passem temporadas em instituições de províncias distantes.

O momento atual é especialmente sensível para o governo chinês em razão da proximidade do aniversário de 20 anos do massacre da praça da Paz Celestial. No dia 4 de junho de 1989, tanques do Exército de Libertação Popular colocaram fim a dois meses de protestos de estudantes por reformas democráticas, deixando um saldo de 1.000 mortos, na avaliação da Anistia Internacional.

 


12.03.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Política 06:12:36.

As reuniões do Congresso Nacional do Povo, que se repetem a cada ano em Pequim, são célebres por seu tédio e previsibilidade. Antes que elas comecem, a cúpula do Partido Comunista já decidiu o que será aprovado pelos cerca de 3.000 delegados nas quase duas semanas de reuniões _neste ano, o encontro foi reduzido a nove dias, sob o pretexto de economizar recursos em tempos de crise. Em geral, os projetos submetidos aos representantes são aprovados por unanimidade ou por ampla maioria de votos. Há exceções, como a proposta de construção da mega-usina de Três Gargantas, que gerou debates intensos em 1992 e levou quase um terço dos delegados a se absterem ou votarem contra o projeto.

Mesmo com a reduzida margem de manobra, o Congresso serve para que Pequim tome o pulso do humor do restante do país, por meio dos relatos e pedidos dos delegados vindos do interior. O encontro também tem um forte caráter simbólico e dá ao Partido Comunista a oportunidade de transmitir ao país e ao mundo uma imagem de unidade, que muitos acreditam ser falsa. Como qualquer organização política, o partido é dividido em facções, que disputam influência e poder.

Entre os elementos que compõem a imagem de unidade, um dos mais prosaicos é a semelhança de estilos entre nove homens que integram o Comitê Permanente do Politburo, o órgão máximo de poder na China, liderado pelo presidente Hu Jintao, o presidente do Congresso Nacional do Povo, Wu Bangguo, e o primeiro-ministro, Wen Jiabo. Os nove comparecem aos encontros com ternos escuros, quase pretos, camisas brancas, gravatas vermelhas ou azuis e cabelos pretos retintos, ainda que muitos tenham quase 70 anos.

O fato de que os poderosos da China pintam seus cabelos de preto não é segredo para ninguém. Entre os 25 integrantes do Politburo que exerceram o poder até outubro de 2007, uma das poucas cabeças brancas era a de uma mulher, Wu Yi, que se aposentou naquele encontro. A obsessão pelos cabelos pretos não se restringe à cúpula do poder e permeia toda a sociedade. É raro encontrar um chinês grisalho e muitos associam os cabelos pretos à virilidade. Tenho um amigo brasileiro que estava grisalho por volta dos 40 e não parecia ter problemas com isso até que começou a namorar a sério uma chinesa. Tão a sério que apareceu da noite para o dia com os cabelos totalmente pretos.

Além da questão da virilidade, há outras teorias que tentam explicar o império do Grecian 2000 em terras chinesas. Em seu livro “China´s New Confucionism”, o professor Daniel Bell atribui a adesão à tintura pelos donos do poder aos valores do confucionismo e à idéia de que as “pessoas de cabelos brancos” devem ser objeto de cuidados e não ter a responsabilidade de cuidar dos outros.

Para que vocês não achem que estou exagerando, aí algumas fotos dos dirigentes chineses tiradas da página na internet do jornal oficial do Partido Comunista, o Diário do Povo:

O presidente Hu Jintao, 66

O presidente do Congresso Nacional do Povo, Wu Bangguo, 67

O primeiro-ministro Wen Jiabao, 66

Aqui uma foto não retocada de Hu Jintao e Wen Jiabao

Agora, algumas fotos que eu tirei nesta semana:
A entrada do Grande Palácio do Povo, onde o congresso é realizado; o edifício fica em frente à Praça da Paz Celestial (Tiananmen)

A Praça da Paz Celestial no momento da saída dos delegados

Soldados em frente à Cidade Proibida, que fica na diagonal do Grande Palácio do Povo

 


06.03.09

por Cláudia Trevisan, Seção: Economia 04:43:42.

O relatório apresentado ao Congresso Nacional do Povo quinta-feira pelo poderoso ministério responsável pelo planejamento na China foi mais cauteloso que o primeiro-ministro Wen Jiabao ao avaliar a capacidade do país de alcançar a meta de 8% de expansão da economia neste ano.

“Considerando a desaceleração da economia mundial, o complexo e volátil ambiente externo e o aumento considerável dos problemas domésticos, esta não é uma meta baixa e exige o apoio de fortes políticas macroeconômicas e trabalho prático e efetivo”, diz o documento de 38 páginas da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento (CNRD) sobre desenvolvimento econômico e social em 2009 entregue aos quase 3.000 representantes reunidos ontem no Grande Palácio do Povo.

A sessão do Congresso Nacional do Povo termina no dia 13 de março, quando Wen Jiabao dará uma entrevista coletiva, a única de cada ano.

Os problemas domésticos não são poucos e alguns, como o excesso de capacidade produtiva, foram evidenciados pela desaceleração da economia mundial. Entre os desafios que ainda estão diante do governo de Pequim, a CNRD listou os seguintes: baixa capacidade de inovação tecnológica, estrutura industrial inadequada, desequilíbrio entre demanda doméstica e externa, o pesado impacto do crescimento sobre os recursos naturais e o meio ambiente, a desproporção entre investimento e consumo e os desequilíbrios entre os desenvolvimentos econômico e social, entre áreas urbanas e rurais e entre diferentes regiões do país.

O documento destaca que o efeito da crise sobre o emprego é devastador e reconhece que os esforços do governo para aumentar a eficiência energética e reduzir a poluição encontrarão mais resistência em um cenário de baixo crescimento.

“Pelo fato de as empresas enfrentarem mais dificuldades e algumas não estarem operando em plena capacidade, elas investem menos em aperfeiçoamento tecnológico e redução da poluição, o que leva a uma queda na eficiência energética e operação ineficaz de seus equipamentos de controle da poluição”, observa o texto.

Mas a CNRD sustenta que o governo chinês pode transformar o desafio atual em oportunidade e realizar os ajustes necessários na estrutura produtiva e na economia do país. Entre os objetivos para 2009 está a consolidação de setores extremamente fragmentados, como o siderúrgico e o automobilístico, que passarão por um processo de fusão de empresas.

 


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Cláudia Trevisan é correspondente do Grupo Estado em Pequim e autora do livro "China - O Renascimento do Império"





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