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03.02.10
O inverno implacável de Pequim subiu a temperaturas mais amenas no fim de semana e eu decidi caminhar com alguns amigos no Hou Hai, um dos antigos bairros de Pequim que se espalha ao redor de um conjunto de três lagos. Como acontece todos os anos, a água congelou e se transformou em uma enorme pista de patinação, para a qual centenas de pessoas se dirigem nos fins de semana.
A temperatura no domingo estava bem superior aos cerca de 15ºC negativos registrados em dezembro e grande parte de janeiro, mas não passava muito do 0ºC. Era como um dia bem frio do inverno paulistano. Nesse clima, foi mais que justificiado o meu espanto ao ver um chinês atravessar a rua à minha frente de calção de banho, chinelo, touca e óculos de natação. Parecia o personagem de um filme de verão entrando no set de filmagens errado, já que todo o cenário ao redor pedia casacos, luvas, cachecóis e botas.
Eu o segui com o olhar e vi que havia um grupo de nadadores que desafiava o frio e se atirava em um pequeno trecho do lago onde o gelo havia derretido. Como várias coisas na China, a prática é adotada em razão da convicção de que faz bem à saúde. Os chineses acreditam que o nadar na água gelada em uma temperatura próxima de zero estimula a circulação _o que é verdade, mas o benefício pode vir acompanhado de efeitos colaterais indesejados. No lago ao lado, os moradores da capital preferiam patinar ou deslizar sobre o gelo em cadeiras, com a ajuda de varetas de ferro e devidamente agasalhados.
Aí vão aos fotos do inverno pequinês:
Chineses se preparam para entrar na água


A "piscina" no lago congelado
Bicicletas com roupas e sapatos dos nadadores

A pista de patinação


28.01.10
O governo chinês acaba de divulgar proposta de lei que pune com prisão de até 15 dias e multa de R$ 1.270 os que forem pegos comendo carne de cachorro, hábito amplamente difundido no país. O texto está em fase de consultas e, se receber o sinal verde, poderá ser adotado a partir de abril. De acordo com o esboço, os restaurantes que desrespeitaram a proibição serão punidos com a astronômica quantida de R$ 25 mil a R$ 127 mil.
Com o enriquecimento das últimas três décadas, os chineses passaram a ter dinheiro suficiente para adotar animais de estimação, entre os quais os cachorros são os mais populares. “Amigos ou comida?” passou a ser o slogan das entidades de defesa dos animais que combatem a prática de transformar os cães em pratos de restaurantes. Na estimativa dessas instituições, os chineses comem a cada ano cerca de 10 milhões de cachorros, muitos dos quais são mortos de maneira cruel, porque existe a crença de que a adrenalina melhora o gosto da carne. A proposta também veta o consumo de carne de gato, que também é comum, mas não tão difundido quanto a de cachorro.
Pequisa online com 100 mil internautas realizada pelo portal Sohu.com indicou que 52% dos votantes são favoráveis à proibição e 33% se opõem a ela. Mas a pergunta sobre a aplicação da punição teve resultados mais equilibrados: 48% disseram sim às penas de prisão e multa, enquanto 45% responderam não. A questão é como acabar com um hábito tão arraigado sem a adoção de penas rigorosas.
O fato é que meus amigos chineses acham muito difícil a proibição ser adotada. Minha professora de chinês riu quando eu falei da proposta e falou que era impossível a proibição. Outro amigo perguntou “por que podemos comer vacas e ovelhas e não cachorros?”. Respondi que não temos _pelo menos não a maioria de nós_ vacas e ovelhas como bichos de estimação. Ele não pareceu impressionado com o argumento.
26.01.10
O temor dos pais chineses de que seus filhos não casem nem se reproduzam é tanto que muitos assumem a tarefa de achar pretendentes, principalmente se os rebentos continuam sem namorar depois dos 25 anos, idade na qual já deveriam estar pensando em constitutir sua própria família. Os que não encontram candidatos entre os filhos de seus amigos podem aderir a um mecanismo mais explícito e eficaz, a “feira de solteiros”, que ocorre em vários parques de Pequim.
A pequena multidão da foto acima é formada por pais e mães que no último domingo buscavam ativamente pretendentes para se casar com seus filhos e filhas. O local é o parque Zhongshang, localizado ao lado da Cidade Proibida. Há uma versão para a meia idade nas terças-feiras, na qual viúvos, separados ou os que não casaram quando eram jovens procuram namorados para si próprios _e não para os filhos.
A sociedade chinesa passou por transformações vertiginosas nas últimas três décadas, mas o casamento continua a ser considerado essencial, e ter filhos e netos _ainda que apenas um_ é a expressão máxima da felicidade.
Os caçadores de genros e noras vão à feira munidos de pequenos cartazes escritos à mão, nos quais apresentam seus filhos e descrevem o perfil do parceiro(a) que procuram. O alvo são os pais de outros solteiros, que também vão à feira em busca de genros ou noras. A maioria dos “anúncios” que vi trazia altura, peso, data de nascimento, formação escolar e, em alguns casos, salário. Os privilegiados que possuem registro de residência em Pequim _o que lhes dá acesso a uma série de serviços da capital_ tratam de ressaltar a informação no texto.
Os cartazes são colocados no chão, perto do pai ou da mãe. Os interessados analisam as “ofertas” e, caso gostem do perfil, iniciam negociações diretas com a outra parte. Alguns pais preferem pendurar os cartazes no corpo ou na bolsa e circular pela feira, à busca de interlocutores. Quando há empatia, os dois lados avançam para a etapa seguinte, na qual há troca de fotos dos candidatos e discussões para organização de um possível encontro entre ambos.
É raro, mas há casos em que o próprio interessado comparece à feira para promover seus atributos. No domingo, vi pelo menos três homens na faixa dos 30 carregando cartazes em busca de namoradas. Também vi um que fazia perguntas aos pais de uma garota. Quando conversei sobre o assunto com um amigo chinês ele me disse que o anúncio mais eficaz que já viu trazia quatro caracteres: 车 (che), 房(fang), 貌 (mao) e 款 (kuan), que podem ser traduzidos por carro, casa, beleza e dinheiro.
Aí vão mais fotos da “feira”:
Cartazes com descrição dos solteiros
Interessados analisam perfil dos candidatos

O anúncio de cima é de um homem de 30 anos, 1,70m de altura, mestrado, emprego em multinacional, salários de 200 mil yuans por ano (US$ 29 mil), que possui apartamento e carro. Ele procura uma parceira que tenha mais ou menos 27 anos, 1,65m de altura, bonita, com educação universitária e emprego estável.
O cartaz que está abaixo é de uma mulher de 28 anos, 1,61m, que trabalha como tradutora de coreano em uma multinacional. Ela quer um homem do norte da China, que trabalhe em Pequim e tenha formação universitária

Mulher analisa um dos anúncios da feira

Cartaz da foto de cima anuncia um homem de 40 anos, 1,75m de altura, engenheiro aeroespacial, com salário mensal superior a 10 mil yuans (US$ 1.500) e dono de quatro apartamentos. O texto ressalta que o pai é aposentado e a mãe é editora da agência oficial de notícias Xinhua, com vencimentos razoáveis, o que tira do filho a responsabilidade de sustentá-los. O anúncio informa ainda que o irmão mais jovem do pretendente vive no Canadá com a mulher e que a irmã mais jovem está nos Estados Unidos, casada com um norte-americano "branco". Todos são engenheiros e ganham cerca de US$ 150 mil por ano.
Outra panorâmica da feira

21.01.10
A milenar preferência das famílias chinesas por filhos homens está prestes a transformar a busca de uma mulher pelos solteiros do país em uma corrida de obstáculos, na qual muitos ficarão pelo caminho. De acordo com estimativa do governo de Pequim divulgada na semana passada, 24 milhões de chineses “sobrarão” no mercado matrimonial por volta de 2020 e dificilmente encontrarão uma mulher com quem se casar. A inflação masculina é fruto do explosivo coquetel que une a preferência por homens, a política de filho único e os exames para identificação do sexo dos bebês durante a gravidez, que levam ao aborto de fetos do sexo feminino.
O desequilíbrio na população chinesa é o maior do mundo e, segundo os números do censo, existem 40 milhões de homens a mais que mulheres no país, número semelhante à toda a população da Argentina. O governo proíbe a realização de ultrassom para identificação do sexo dos bebês, mas a regra é de difícil aplicação, principalmente na zona rural.
Enquanto no mundo nascem em média 106 garotos para cada grupo de 100 meninas, na China a proporção é de 120 para 100. A entidade norte-americana International Planned Parenthood Federation estima que são realizados 7 milhões de abortos a cada ano no país, 70% dos quais de bebês do sexo feminino.
A disparidade é mais acentuada na zona rural, onde ter um filho homem é garantia do sustento dos pais na velhice, em um país que não possui um sistema de Previdência Social. Na cultura chinesa, cabe aos filhos homens cuidarem dos pais, enquanto as mulheres são responsáveis pelos pais de seu marido. Em algumas regiões rurais, a proporção de nascimentos é de 130 meninos para cada grupo de 100 meninas.
A falta de mulheres é considerada pelo governo de Pequim como uma ameaça à estabilidade social do país. Também é uma fonte de violência contra a mulher, com aumento dos casos de tráfico, prostituição e estupros. Para os homens em idade de casar, o desequilíbrio entre demanda e oferta gera uma pressão adicional na busca por uma noiva. Nas grandes cidades, as famílias de classe média compram apartamentos para os seus filhos, na esperança de que isso aumente seu apelo perante as possíveis candidatas.
Casar e ter filhos ainda é visto como algo essencial na sociedade chinesa e muitos pais se consideram frustrados com a solteirice de seus filhos, por mais sucesso que eles tenham na vida profissional. De acordo com a milenar tradição confuciana, o maior desrespeito que um filho pode cometer em relação a seus pais é não ter filhos.
19.01.10
A mais recente medida do governo chinês para controlar o que os cidadãos do país podem ou não podem ler levará ao bloqueio do serviço de textos de celulares de quem enviar mensagens “ilegais ou não-saudáveis”, categorias amplas o bastante para incluir tudo o que tenha conotação política sensível ou caráter erótico. Sob a justificativa de combater a pornografia, o governo proibirá na prática que amantes, namorados ou pessoas casadas utilizem expressões “calientes” nas mensagens de texto que trocam entre si. Mas acima de tudo, terá mais um instrumento para atingir os que considera como dissidentes políticos.
A primeira notícia sobre as restrições dizia que o número de celular do usuário poderia ser bloqueado em caso de violação das regras. Ontem, o jornal China Daily, editado pelo governo chinês, esclareceu que apenas o serviço de mensagem de texto será suspenso. A medida será adotada só quando uma “grande quantidade” de informação “ilegal” for enviada do número ou quando o operador do sistema receber reclamações de outros usuários. As regras são amplas o bastante para dar às autoridades um amplo poder discricionário para decidir quem pode ser punido.
A China Mobile_maior empresa de telefonia celular do mundo, com 500 milhões de clientes_ disse que o controle será feito por palavras chaves. Quando uma mensagem “suspeita” for identificada, o usuário terá o serviço de texto suspenso e o caso será enviado para investigação da polícia, que decidirá se o conteúdo é “ilegal ou não- saudável”. Se for, o serviço será bloqueado. Se não, restabelecido _sem nenhuma compensação para o “suspeito”. O próprio China Daily se encarregou de registrar que a medida é polêmica e provocou intensa discussão. “Como definir de maneira clara o conteúdo não-saudável de uma mensagem? Há algum detalhe, como quantas mensagens obscenas eu tenho que enviar para ser suspeito?”, perguntou o advogado Ju Yi em entrevista ao jornal.
O uso de palavras chaves me lembrou a história de uma amiga que trabalhava em uma multinacional de desenhos infantis, que tinha que seguir à risca a proibição do uso de certas expressões consideradas inapropriadas para menores. Minha amiga é de um país de língua espanhola e em sua primeira visita ao Brasil tinha decorado a lista em português das palavras “proibidas”. Imagine seu espanto quando viu duas delas no título de um dos programas infantis mais populares do Brasil: “O sítio do pica-pau amarelo”.
18.01.10
Ter US$ 2,4 trilhões em reservas internacionais parece o sonho de qualquer país do mundo, mas na China ele está se transformando em um abacaxi cada vez mais difícil de descascar. Só no ano passado essa montanha de dinheiro aumentou em US$ 453 bilhões, valor que representa quase duas vezes o total das reservas internacionais do Brasil, que estão em US$ 240 bilhões. E tudo indica que esse estoque continuará a crescer em ritmo semelhante neste ano, alimentado pelo superávit comercial, o investimento estrangeiro direto e a entrada de capital especulativo que aposta na valorização da moeda chinesa, o yuan, em relação ao dólar.
O patamar atual das reservas chinesas está muito além do que o país precisa para se defender de ataques especulativos ou enfrentar uma improvável crise em sua balança de pagamentos. Em outras palavras, ter um volume tão grande de moeda estrangeira no banco central se tornou improdutivo. Mas Pequim parece não ter outra alternativa que continuar a acumular reservas. A principal razão para isso é o regime de câmbio, que mantém a cotação do yuan em relação ao dólar inalterada desde meados de 2008. Para evitar que a moeda local se valorize, o banco central é obrigado a comprar os dólares, euros e ienes que entram no país, em um processo que aumenta a pilha de reservas estrangeiras.
Como qualquer pessoa que tem dinheiro em caixa, a China tem de resolver onde investir esses recursos e a opção mais óbvia são os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, onde estão pelo menos US$ 800 bilhões das reservas do país asiático _há mais US$ 800 bilhões aplicados em outros ativos denominados em dólares. O problema é que há um risco considerável de a moeda norte-americana se desvalorizar em consequência do aumento de gastos do governo, do consequente déficit público e da eventual inflação, o que reduziria o tamanho das reservas chinesas em outras moedas.
Mas se deixar de comprar títulos do Tesouro dos EUA ou de investir em dólares a China pode provocar justamente o mesmo cenário: precipitar a desvalorização da moeda norte-americana.
14.01.10
Quando aceitou incorporar o sistema oficial de censura a seu site chinês, em 2006, o Google estava de olho no que em breve seria o maior mercado de internautas do mundo _três anos mais tarde, a China ultrapassou os Estados Unidos e assumiu a liderança no universo de pessoas conectadas. Atualmente são 340 milhões, mais do que toda a população norte-americana. Mas como muitos outros em Washington, o Google também acreditava que a integração econômica da China ao mundo, o aumento do acesso à internet e a emergência de algo equivalente a uma classe média levariam inevitavelmente à redução da censura e à gradual abertura política do país. Nada disso aconteceu e, desde 2008, os controles sobre o fluxo de informação se intensificaram.
O Google pagou um alto preço em termos de imagem ao se submeter aos limites da censura imposta por Pequim. Agora, corria o risco de ver ativistas de direitos humanos chineses que usam o Gmail serem expostos por hackers que entraram em seu sistema no mês passado. De acordo com nota divulgada pela empresa na terça-feira, esse grupo foi o principal alvo do “sofisticado cyber ataque” de que foi vítima.
O principal concorrente global do Google, o Yahoo!, viveu um pesadelo de relações públicas em 2005 por sucumbir às pressões do governo chinês para revelar a identidade de um usuário de seu serviço de e-mail. Graças à colaboração do Yahoo!, o jornalista chinês Shi Tao foi condenado a 10 anos de prisão, sob acusação de divulgar “segredos de Estado” _ele havia usado seu e-mail para enviar a um amigo nos Estados Unidos cópia de um documento do Partido Comunista que havia sido divulgado dentro da China.
O Google também sofreu um desgaste de imagem ao aceitar a censura, mas não conseguiu o retorno comercial que desfruta em outros países. Quatro anos depois de criar seu site de busca em chinês, a companhia se mantém em um distante segundo lugar em um mercado dominado por seu principal concorrente local, Baidu. O governo de Pequim privilegia os sites chineses e os limites para o Google atuar no país são cada vez mais estreitos. Nesse cenário, talvez o maior site de buscas do mundo tenha mais a ganhar realizando uma ofensiva que o coloca como defensor global da liberdade de expressão do que enfrentando o desgaste de se manter em um país autoritário que representa menos de 2% de seu faturamento total.
07.12.09
A integração de milhões de chineses e indianos à economia global e a ameaça da mudança climática deixam claro que o mundo não cabe mais no sonho americano do consumo desenfreado, dos carrões e do desperdício. A China se transformou no patinho feio da questão ambiental, com o maior volume de emissões de gases que provocam o efeito estufa, mas os Estados Unidos continuam a ser o maior poluidor quando se considera as emissões per capita de seus habitantes. Cada norte-americano polui quatro vezes mais que um chinês e o dobro de um europeu.
O sonho americano funcionava em um mundo de poucos, no qual o 1,3 bilhão de chineses e o 1,1 bilhão de indianos estavam virtualmente ausentes do mercado de consumo global, em razão da pobreza em que viviam. Quando essa massa que representa 40% da humanidade começa a comprar carros, viajar de avião e produzir a enorme quantidade de lixo associada ao modelo industrial ocidental, fica claro que o mundo terá que inventar outro sonho, muito mais frugal que o americano. Se a China tivesse a mesma proporção de carros por habitante existente hoje nos Estados Unidos, o país teria mais carros do que os que circulam hoje em todo o planeta.
E esse novo sonho terá que ser sonhado também pelos norte-americanos, que até agora se recusaram a assumir qualquer compromisso internacional que limite as suas emissões de gases, que representam cerca de 20% do total. Não é moralmente justificável exigir que os emergentes chineses e indianos adiem suas aspirações de consumo para que os americanos possam continuar a comprar enormes SUVs. Claro que a China também tem enorme responsabilidade na questão do aquecimento global, principalmente em razão de sua grande dependência do carvão para produção de energia. Mais poluente entre os combustíveis fósseis, ele reponde por 70% da matriz energética do país. Mas até agora, os líderes chineses mostraram mais disposição para enfrentar o problema do que os norte-americanos.
A Conferência do Clima que começa hoje em Copenhague traz o desafio de países ricos e pobres chegarem a um acordo sobre as responsabilidades de cada um no combate do aquecimento global. O painel das Nações Unidas que estudou o problema concluiu que os países desenvolvidos precisarão reduzir suas emissões entre 25% e 40% até 2020 em relação ao patamar existente em 1990. A proposta dos Estados Unidos prevê um corte de 17% sobre o nível de 2005, o que equivale a uma diminuição de 4,8% na comparação com 1990. Isso representa menos de um quinto do menor patamar de corte considerado necessário pelo painel das Nações Unidas. Para quem não fez nada até agora é muito pouco, não?
05.12.09
Vinte e dois uigures muçulmanos de Xinjiang conseguiram sair clandestinamente da China e se refugiar no Camboja, onde aguardam a avaliação de seus pedidos de asilo pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Parte do grupo é acusada por Pequim de ter participado dos protestos que deixaram quase 200 pessoas mortas e 1.600 feridas em Urumqi, capital de Xinjiang, há cinco meses.
A China já condenou 20 pessoas à morte em razão dos ataques de uigures a chineses han no dia 5 de julho, em um dos mais graves casos de violência étnica da história do país. Entidades de defesa dos direitos humanos sustentam que os julgamentos não respeitaram regras básicas do Estado de Direito e não deram aos acusados a chance de se defender de maneira apropriada.
Maior província da China, Xinjiang é tradicionalmente habitada por uma maioria muçulmana, mas viu o aumento da migração de chineses han desde a chegada dos comunistas ao poder, em 1949. Atualmente, os uigures representam 45% da população e os han, principal etnia da China, quase 40%. O porta-voz do Congresso Mundial Uigur em Washington, Ilshat Hassan, disse ao Estadão em entrevista telefônica que dois dos refugiados uigures são crianças e que há uma mulher no grupo. Segundo Hassan, nenhum dos adultos participou dos ataques a chineses han. “Eles testemunharam os conflitos e tiraram fotos e é por isso que a China está atrás deles”, afirmou.
O Congresso Mundial Uigur reúne os uigures que vivem no exílio e é liderado pela empresária Rebyia Kadeer, apontada pelo governo de Pequim como a responsável pelos confrontos do mês de julho. A China afirma que a entidade promove atividades separatistas e que o país enfrenta a ameaça de terrorismo na região. Hassan ressaltou que teme pela vida dos refugiados, já que há o risco de eles serem repatriados pelas autoridades do Camboja, que mantêm boas relações com os chineses. Recentemente, a entidade de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch criticou o país por deportar refugiados para o Vietnã. “Se eles forem mandados de volta para a China, eles serão mortos”, disse o porta-voz.
O responsável pelo setor de comunição do escritório do ACNUR no Camboja, Toshi Kawachi, disse ao Estadão que não poderia falar sobre o caso. “Nós temos um princípio geral de nunca fazer comentários ou dar informações sobre pessoas que solicitam refúgio ou asilo”, afirmou em entrevista por telefone. A orientação tem por objetivo evitar que os refugiados sejam colocados em risco ou retaliatos enquanto buscam proteção. Coerente com essa posição, Kawachi não revelou onde os uigures estão abrigados nem mesmo confirmou se eles estão em Phnom Penh, capital do Camboja. Apenas informou que não há ninguém em busca de refúgio no edifício da ACNUR na cidade.
De acordo com o porta-voz do Congresso Mundial Uigur, se os integrantes do grupo obtiverem o status de refugiados eles serão enviados a um terceiro país que os aceite e onde estejam seguros. Os 22 uigures chegaram ao Cambodia depois de atravessar a China e entrar no Vietnã, na fronteira Sul. De lá, cruzaram para o vizinho Cambodia. Hassan disse que os refugiados contaram com a ajuda de chineses e de vietnamitas dos dois lados da fronteira para fazer a travessia. Ainda segundo ele, o grupo tinha inicialmente 28 pessoas, mas duas foram presas no Vietnã e outras quatro perderam contato com as demais durante o trajeto.
28.11.09
A China condenou nesta semana cinco religiosos protestantes a penas de três a sete anos de prisão, em mais um caso que indica o endurecimento das autoridades de Pequim em relação a dissidentes, ativistas de direitos humanos e críticos do governo. O grupo foi preso em setembro, depois de tentar impedir a demolição de um local de oração construído em uma área rural sem a aprovação do governo.
De acordo com o advogado que os defendeu, Li Fanping, os cinco são líderes de uma igreja que reúne 60 mil seguidores na cidade de Linfen, na província de Shanxi, no norte da China.
As autoridades de Pequim controlam de maneira estrita as atividades religiosas e só permitem a existência de igrejas vinculadas a organizações chamadas de “patrióticas”, que são registradas no Departamento de Assuntos Religiosos do país.
Apesar do controle, surgiram nos últimos anos inúmeros grupos independentes, que promovem reuniões nas casas dos fiéis ou em locais construídos longe dos centros urbanos, como no caso do grupo condenado ontem.
O pastor Wang Xiaoguang e sua mulher, Yang Rongli, receberam a pena mais alta, de sete anos de prisão. Os demais foram condenados a períodos de três a quatro anos e meio. Todos foram julgados sob as acusações de “ocupar terras ilegalmente” e “promover reunião de pessoas para perturbar a ordem pública”.
A sentença é uma das mais severas já aplicadas a religiosos que se recusam a praticar sua fé dentro dos limites definidos pelo Estado e foi adotada pouco mais de uma semana depois de o presidente norte-americano, Barack Obama, defender na China o respeito aos direitos individuais, o Estado de Direito e a liberdade religiosa.
Na segunda-feira, uma corte de Sichuan, no centro do país, condenou a três anos de prisão o ativista Huang Qi, que no ano passado se dispôs a ajudar os pais de crianças que morreram soterradas no desabamento de escolas durante o terremoto que atingiu a região no mês de maio. Ele foi julgado sob a acusação de possuir “segredos de Estado”, uma categoria que dá margem a um processo sem nenhuma transparência e que é frequentemente utilizada contra os críticos do Partido Comunista.
No fim de semana passado, a agência de notícias Associated Press revelou o caso de um geólogo de origem chinesa e nacionalidade norte-americana, Xue Feng, que está detido há dois anos na China sob a acusação de ter roubado segredo de Estado para vendê-los a empresa estrangeira.
O assunto foi levantado por Obama no encontro que teve com autoridades chinesas, mas não há sinais de mudança na situação de Xue Feng, que foi torturado na prisão, de acordo com declarações dadas à Associated Press por pessoas envolvidas no caso.
A situação do geólogo é semelhante a de quatro executivos da mineradora australiana Rio Tinto presos na metade do ano também sob acusação de roubo de segredo de Estado, o que levantou questionamentos sobre a segurança de representantes de empresas estrangeiras na China. A acusação contra os funcionários da Rio Tinto foi modificada para corrupção e eles aguardam julgamento na prisão.
22.11.09
Mao Tsé-tung morreu há 33 anos e deixou uma herança controvertida até aos olhos dos chineses. A avaliação oficial do Partido Comunista da China é a de que 70% de suas ações foram corretas e 30%, equivocadas. A maior parte dos erros, como a Revolução Cultural e o Grande Salto Adiante, ocorreram na parte final de sua vida, diz o partido. Fora da esfera ofical, o veredicto é bem mais severo e vários especialistas sustentam que Mao foi responsável pela morte de 70 milhões de chineses.
Apesar da controvérsia, sobrevive na China uma nostalgia em relação a Mao e ao período revolucionário, incluindo os turbulentos anos da Revolução Cultural (1996-1976), quando os fanáticos Guardas Vermelhos espalharam o terror no país com a perseguição, tortura e assassinato de milhões de pessoas supostamente associadas à “velha ordem”. Muitas das vítimas eram revolucionários comunistas, que participaram da guerra civil e abraçaram o novo regime fundado em 1949.
A nostalgia se mantém viva por meio de canções, estátuas de Mao espalhadas pelo país e peças teatrais. Em Pequim, há pelo menos cinco restaurantes “temáticos” inspirados na revolução. No mais popular deles, “O Oriente é Vermelho”, são apresentados números musicais representados por atores vestidos de Guardas Vermelhos, camponeses e operários. Nas paredes, estão faixas com slogans da Revolução Cultural, entre os quais “Longa vida ao pensamento de Mao Tsé-tung”. O restaurante é enorme e vive lotado. Os clientes recebem bandeiras vermelhas para acompanhar as performances e a maioria sabe cantar as músicas que são apresentadas.
Durante as celebrações do aniversário de 60 anos da Revolução Comunista, no dia 1º de outubro, várias óperas e ballets revolucionários foram exibidos no país, para uma platéia invariavelmente emocionada. O clássico dos clássicos é “O Destacamento Vermelho das Mulheres”, que conta a história de um grupo de mulheres que lutava contra latifundiários e o exército nacionalista nos anos 30, durante a guerra civil.
Com versões para ópera e ballet, “O Destacamento Vermelho das Mulheres” era um das oito obras “modelo” que tinham permissão da temida mulher de Mao, Jiang Qing, para serem montadas nos dez anos da Revolução Cultural. Eu vi a ópera e o ballet. Ambos são peças de propaganda, que promovem a veneração desmedida aos comunistas e a seu líder, Mao Tsé-tung. O momento em que o heroi masculino morre e se transforma em mártir é acompanhado da Internacional Socialista, o hino global do movimento comunista. A seguir, algumas fotos do ballet e do restaurante “O Oriente é Vermelho”.
A performance no restaurante, realizada à frente de quadro com face de Mao Tsé-tung

O público do restaurante
O slogan "Longa vida ao pensamento de Mao Tsé-tung"

O momento em que a heroína abraça a bandeira comunista _literal e figurativamente
Os soldados armados

Os revolucionários no fim dos espetáculo

19.11.09
Em um sinal do grau de sensibilidade que marca a relação entre Estados Unidos e China, até a versão em chinês do nome do presidente norte-americano pode dar margem para controvérsia. A versão “Ao Ba Ma” é consagrada por Pequim e utilizada pela imprensa do país. Mas na véspera da visita do democrata à China, a Embaixada dos Estados Unidos começou a utilizar “Ou Ba Ma”, com o argumento de que a transliteração é mais próxima da pronúncia original do nome.
O problema é que “Ou Ba Ma” é a mesma versão adotada em Taiwan, a ilha que os chineses tratam como uma província rebelde e que tem nos Estados Unidos seu maior aliado. Ignorando a opção dos norte-americanos, Pequim e os 350 milhões de usuários da internet na China continuam a usar os caracteres que são lidos como “Ao Ba Ma”.
09.11.09
Por mais que o ministro Guido Mantega queira, a adoção do câmbio flutuante não faz parte dos planos de médio prazo da China, o que na noção de tempo do antigo Império do Meio pode significar muitos anos. O país é pressionado desde o início desta década por norte-americanos e europeus a valorizar sua moeda e adotar uma política cambial mais flexível e resiste bravamente.
A estabilidade do yuan e seu baixo valor em relação ao dólar são um dos principais ingredientes da receita de sucesso do modelo de desenvolvimento da China, que em 30 anos conseguiu sair de uma posição irrelevante no comércio internacional para o posto de segundo maior exportador do mundo _a liderança deverá ser obtida até 2010.
Como disse o Nobel de Economia Michel Spence em entrevista concedida a Fernando Dantas e publicada hoje no Estadão, “todos os países em desenvolvimento que tiveram alto crescimento, sustentado por um longo período, administraram suas moedas em alguma medida”. E nenhum deles seguiu a receita de maneira mais estrita que a China. Oficialmente, Pequim possui um câmbio “flutuante administrado”, mas na prática o modelo é muito mais “administrado” do que “flutuante” e está totalmente sujeito aos interesses econômicos do país.
Desde que a crise mundial começou a se insinuar, em meados do ano passado, a cotação da moeda chinesa se mantém inalterada em relação à norte-americana, na casa dos 6,80 yuans por US$ 1,00. Como o dólar se desvalorizou no mercado internacional, isso significa que o yuan também perdeu valor em termos reais em relação às demais moedas, incluindo o real brasileiro, o que ampliou ainda mais a competividade das exportações chinesas.
A maioria dos analistas acredita que o Banco do Povo da China deverá retomar a política de apreciação do yuan em algum momento do próximo ano, depois que as exportações se recuperarem um pouco em relação à profunda queda de 2009. Mas como tudo que diz respeito à moeda, o movimento será extremamente gradual e estará longe de qualquer coisa que lembre o câmbio flutuante. O banco UBS, por exemplo, prevê que no fim de 2010 a relação entre yuan/dólar está entre 6,50 e 6,40.
Depois de 11 anos de câmbio fixo, nos quais o yuan foi cotado em torno de 8,30 por US$ 1,00, a China anunciou no dia 21 de julho de 2005 a reforma de seu sistema cambial. A mudança previa a flutuação administrada do yuan em relação a uma cesta de moedas, dentro de uma banda fixada diariamente pelo Banco do Povo da China (o banco central local).
Desde o início, as autoridades de Pequim deixaram claro que o gradualismo daria o tom de sua reforma cambial. Em mais de quatro anos de reforma, o yuan ganhou cerca de 20% em relação ao dólar. Diante da persistente apreciação do real em relação ao dólar, o ministro Mantega defendeu que todos os países do G20 adotem o câmbio flutuante. Mas nada indica que os chineses tenham intenção de mudar sua estratégia agora.
01.11.09
O calendário diz que ainda estamos no outono, mas Pequim amanheceu hoje coberta de neve. A temperatura caiu abaixo de zero e os moradores tiraram seus pesados casacos do armário antes do tempo. Todos estranharam a quantidade de neve que caiu durante a manhã, muito maior do que a registrada no auge do inverno, mas o mistério foi esclarecido à tarde: o Escritório de Modificação do Tempo de Pequim informou que havia utilizado produtos químicos para intensificiar a tempestado, com o objetivo de amenizar a seca que atinge a região norte do país.
Sim, Pequim tem um departamento governamental responsável pela modificação do tempo, o mesmo que garantiu um impecável dia azul no dia 1º de outubro para as celebrações dos 60 anos da Revolução Comunista e um dia sem chuva na abertura da Olimpíada de 2008. Segundo Zhang Qiang, responsável pelo escritório, disse à imprensa oficial chinesa que as nuvens foram bombardeadas com 186 doses de iodeto de prata a partir das 8h da manhã de sábado. “Nós não vamos perder nenhuma oportunidade para provocar precipitações artificiais, já que Pequim está sofrendo com uma persistente seca”, afirmou. Pelos seus cálculos, pelo menos 16 milhões de tonadas de neve caíram sobre a cidade como resultado do bombardeamento das nuvens.
Artifical ou não, a neve tem um encanto irresistível, que arrasta crianças para guerra de gelo e leva adultos buscarem o melhor ângulo para suas fotos de “inverno”. Para quem nasceu em um país tropical como eu, é uma forte lembrança de que esta não é a minha casa.
Aí vão as fotos:
A vista da janela do meu apartamento

A entrada do meu condomínio

Vista de prédios e telhados com neve no fim da tarde, quando o sol apareceu
23.10.09
Há pouco mais de 40 anos, a China embarcou no delírio coletivo da Revolução Cultural (1966-1976), que levou ao fechamento das universidades e ao envio de milhões de jovens à zona rural para serem “reeducados” pelos camponeses. O ensino superior só foi retomado de maneira regular depois da morte de Mao Tsé-tung, em 1976, e o primeiro exame de seleção de alunos ocorreu em 1977.
Hoje, a China tem seis universidades na lista das 200 melhores do mundo preparada pela Times Higher Education, com sede na Inglaterra. O Brasil não tem nenhuma. A Universidade de São Paulo estava na lista no ano passado, na 196ª posição, mas foi excluída do ranking de 2009.
Dos quatro países que compõem o BRIC, o Brasil é o único que não está representado no levantamento deste ano da Times Higher Education. A Índia aparece com duas instituições, mesmo número da Rússia.
A China adotou nos últimos anos uma política agressiva de criação de um grupo de elite de universidades, com a atração de intelectuais chineses que trabalhavam em outros países e a contratação de professores estrangeiros. Em 2004, o país já tinha cinco universidades entre as 200 melhores do mundo e emplacou seis no ano seguinte. Outros países e regiões da Ásia avançaram ainda mais em anos recentes. A ex-colônica britânica de Hong Kong, que voltou ao domínio chinês em 1997, emplacou cinco instituições no ranking deste ano, uma a mais que em 2008. O Japão ampliou seu número de 10 para 11 instituições, seis das quais estão entre as 100 melhores do mundo.
A ascenção da Ásia tem relação direta com o recuo dos Estados Unidos, que passou de 58 para 54 instituições no ranking entre 2008 e 2009. Sob o impacto da crise econômica mundial, a posição do país deverá enfrentaquecer ainda mais nos próximos anos, na medida em que tenha de conter gastos públicos para amenizar o enorme e crescente déficit fiscal. Com sobra de caixa muito maior, a China deverá continuar sua ascenção e é bastante provável que amplie o número de instituições no ranking, do qual já fazem parte as seguintes universidades: Tshinghua, Pequim, Fudan, Shanghai Jiaotong, Ciência e Tecnologia e Nanjing. A única representante da América Latina é a Universidade Autônoma do México.
O ranking pode ser consultado no site:
http://www.timeshighereducation.co.uk/Rankings2009-Top200.html
15.10.09
A China governada pelos camaradas comunistas tem hoje o segundo maior número de bilionários do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e é o mercado de mais rápido crescimento para as grifes de luxo internacional, como Louis Vuitton, Rolex e BMW. Os ricos chineses estão cada vez mais ricos, apesar do terremoto financeiro no qual o mundo está imerso desde setembro de 2008, quando a quebra do banco Lehman Brothers deu origem à maior crise financeira global desde a Grande Depressão de 1929.
Nos últimos 12 meses, a fortuna combinada das 1.000 pessoas mais ricas do país aumentou em 30%, para US$ 571 bilhões, e a China tem hoje o segundo maior número de bilionários de todo o mundo, depois dos Estados Unidos. Quase todos que aparecem no ranking do Relatório Hurun, divulgado esta semana, são novos ricos, que construíram suas fortunas a partir do zero. Dos 1.000 integrantes da lista, menos de 1% herdou sua foturna. Para entrar no ranking era necessário ter um patrimônio pessoal de pelo menos US$ 150 milhões, US$ 50 milhões a mais que em 2008.
Fora desse universo, há milhares de outros abastados no país. O responsável pelo Relatório Hurun, Rupert Hoogewerf, estima que existem 825 mil pessoas na China com riqueza superior a US$ 1,5 milhão.
Como bons novos ricos, os ricos chineses fazem questão de mostrar que são ricos. Para isso, nada melhor que ostentar aquisições que trazem estampadas algumas das inúmeras grifes de luxo internacional que se engalfinham por uma fatia do crescente mercado chinês. A China já é o segundo maior mercado para grifes de luxo do mundo, atrás apenas do Japão, e deverá assumir a liderança no ranking até 2015.
Marcas de carros como Ferrari, BMW e Mercedes encontraram nos ricos chineses um oásis de compradores em meio à seca que assola o mundo. A BMW viu suas vendas globais caírem 19% nos primeiros sete meses do ano. Na China, elas aumentaram 26%. A Mercedes vendeu 44,3 mil carros no país desde o início do ano, 52% a mais que em igual período de 2008. Em breve, a China será o maior mercado para a Porsche, que vendeu 7.615 unidades no país em 2008, um salto de 145% em relação a 2007. Os chineses também compram quantidades crescentes de jóias e acessórios, como bolsas e relógios. A marca preferida dos novos ricos é Louis Vuitton, seguida de BMW, Mercedes-Benz, Rolls-Royce, Rolex, Ferrari, Cartier, Chanel, Bentley e Porsche. Todas têm forte presença na China, onde os shoppings concentram uma quantidade inacreditável de grifes de luxo.
Obras de arte também estão em alta e, segundo a revista The Economist, existem em torno de 100 colecionadores chineses que gastam no mínimo US$ 1 milhão por ano na compra de objetos de arte. Leilão realizado pela Sotheby´s em Hong Kong no dia 8 de outubro bateu recordes de preços na venda de peças antigas, que evocam a grandiosidade do período imperial chinês. Trono que pertenceu ao imperador Qianlong, da dinastia Qing (1644-1911) foi arrematado por US$ 11 milhões, quase três vezes o preço inicial de US$ 4 milhões. Com elaborados entalhes, o trono de madeira traz cinco figuras de dragão, cuja imagem era associada ao imperador chinês. É difícil imaginar uma peça que melhor atenda ao insaciável deseja de status dos novos ricos chineses.
Aí vão algumas imagens do luxo chinês:
Lojas da Prada e da Gucci em shopping de Pequim
Exibição de Porsches em shopping de Pequim, em frente a loja da Versace
Ferrari estacionada em Xangai
09.10.09
Se alguém havia esquecido, o desfile de celebração dos 60 anos de fundação da República Popular da China no dia 1º de outubro se encarregou de lembrar que o país continua a ser governado por um Partido Comunista orgulhoso de sua herança marxista-leninista-maoísta. “Só o socialismo pode salvar a China”, afirmou em seu discurso o presidente Hu Jintao, usando o mesmo modelo de terno chinês celebrizado por Mao Tsé-tung.
A parada militar também deixou claro que não faz parte dos planos dos comunistas qualquer projeto de reforma política que reduza o seu poder. Na China, o cada vez mais poderoso exército é subordinado ao Partido Comunista e não ao Estado, o que dá à organização uma posição única na defesa de seus interesses. Em declarações divulgadas antes das celebrações, o ministro da Defesa, Liang Guanlie, ressaltou os benefícios da coesão ideológica do Exército de Libertação Popular. “A maior diferença entre as nossas Forças Armadas e as ocidentais é a de que nós temos a vantagem da orientação do Partido e o trabalho ideológico e político.”
O desfile civil que se seguiu ao militar ressuscitou o slogan “Longa vida a Mao Tsé-tung”, que marcou o conturbado período da Revolução Cultural (1966-1976). O enorme retrato do líder revolucionário abria a apresentação de estudantes e voluntários, seguido das imagens de Deng Xiaoping, Jiang Zemin e Hu Jintao.
Muita coisa mudou na China nesses 60 anos, mas permaneceu inalterada a posição do Partido Comunista como único detentor do poder no país. E a julgar pelas celebrações de 1º de outubro, isso não deverá mudar.
06.10.09
A crise global não abalou a máquina chinesa de produzir novos ricos e o número de bilionários do país subiu de 101 no ano passado para 130 em 2009. O topo agora é ocupado por Wang Chuanfu, 43, que viu sua fortuna saltar de US$ 880 milhões para US$ 5,1 bilhões depois que o investidor norte-americano Warren Buffett comprou 10% de sua fábrica de baterias e carros elétricos, a BYD.
Chuanfu integra o time de empresários chineses que estão enriquecendo graças a investimentos em tecnologias “verdes”, no momento em que o governo de Pequim busca reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa e amenizar o impacto ambiental do crescimento econômico.
A BYD é a primeira montadora do mundo a fabricar em massa um carro híbrido que pode ser recarregado na tomada de uma casa. A companhia foi fundada por Wang em 1995 e nos primeiros anos fabricava baterias para telefones celulares. A transição para o mundo dos carros elétricos só ocorreu em 2003.
Apesar de ser uma novata no setor, a empresa tem como objetivo se tornar a maior fabricante de veículos do mundo em 2025 _lugar ocupado atualmente pela japonesa Toyota. “É irônico que a pessoa mais rica da China seja alguém da indústria automobilística, especialmente se considerarmos a crise que o setor enfrenta ao redor do mundo”, disse Rupert Hoogewerf, responsável pela Hurun Rich List, que traz a relação das 1.000 pessoas mais ricas da China.
O segundo lugar de 2009 é ocupado pela dona de outra empresa com apelo ambiental, Zhang Yin, da Nine Dragons Paper, que fabrica embalagens a partir da reciclagem de aparas de papel importadas dos Estados Unidos. Em 2006, Zhang foi a primeira mulher a liderar o ranking da Hurun, com uma fortuna estimada na época em US$ 3,4 bilhões, valor em 2009 saltou para US$ 4,9 bilhões.
A Hurun List é o retrato da rápida emergência dos novos ricos chineses. Quando ela foi criada, em 1999, era necessária uma fortuna de US$ 6 milhões para integrá-la. Em 2009, o valor já era de US$ 150 milhões, 50% a mais que os US$ 100 milhões de 2009.
A pessoa mais rica da China no ano passado era Huang Guangyu, dono da rede de varejo de eletrodomésticos Gome, que tinha uma fortura de US$ 6,3 bilhões. Huang liderou o ranking em 2004 e 2005 e estava no grupo dos primeiros empresários da China comunista a terem uma fortuna superior a US$ 1 bilhão. Sua sorte virou em novembro do ano passado, quando foi preso sob a acusação de obter ganhos com a manipulação do mercado acionário. Só os dois primeiros colocados da Hurun Rich List foram anunciados na semana passada. O ranking completo será divulgado no fim de outubro.
01.10.09
Muita coisa mudou na China desde que Mao Tsé-tung e seus camaradas venceram a guerra civil contra os nacionalistas e anunciaram a fundação da República Popular da China para uma multidão reunida na Praça Tiananmen. A começar do próprio significado da palavra “camarada”, usada hoje como uma gíria para se referir aos gays.
Na área econômica, as transformações foram tantas que é difícil olhar para os 60 anos como um período único. É mais adequado dividi-los em duas metades de 30 anos, que em vários aspectos são totalmente antagônicas.
A primeira delas foi dominada pela figura de Mao Tsé-tung (1893-1976) e sua radical utopia igualitarista, que levou o país a experimentos como o Grande Salto Adiante (1958-1961) e a Revolução Cultural (1966-1976), durante os quais milhões de chineses morreram.
Os 30 anos seguintes tiveram a marca do pragmatismo de Deng Xiaoping (1904-1997), traduzido em sua frase “não importa se o gato é branco ou preto, contanto que pegue o rato”. Perseguido durante a Revolução Cultural, Deng conseguiu isolar o sucessor indicado por Mao, Hua Guofeng, e ser aclamado como novo líder supremo da China em 1978.
A partir daí, deu início ao movimento de abertura do país ao exterior e sua gradual incorporação à economia mundial e à globalização. A China de 1978 ainda tinha as marcas da violência da Revolução Cultural, quando universidades foram fechadas e milhões de jovens enviados à zona rural para serem “reeducados” pelos camponeses.
As mudanças adotadas desde então implicaram a reversão de muitas das medidas do período maoísta. A coletivização da terra foi abandonada e os camponeses ganharam o direito de cultivar individualmente seus lotes e vender a produção a preços de mercado. No ano passado, Pequim se distanciou ainda mais do ideal maoísta ao anunciar que os camponeses poderão arrendar seus lotes a terceiros, o que abriu caminho para o surgimento de grandes fazendas, em uma espécie de reforma agrária ao contrário _exatamete o oposto do realizado há 60 anos.
O confisco de terras dos antigos proprietários e sua distribuição aos trabalhadores rurais foi uma das principais medidas do Partido Comunista depois de chegar ao poder. A reforma agrária já havia sido adotada nas regiões do país que estavam sob controle dos revolucionários antes de 1949 e foi um dos fatores decisivos para a popularidade de Mao e seus seguidores.
Os camponeses representavam 88% da população da China naquela época e formavam a principal base de apoio dos comunistas chineses, o que contrariava a tese marxista de que a revolução seria realizada pelos operários urbanos.
O país viveu um processo vertiginoso de urbanização desde o início das reformas econômicas. Em 1980, os moradores da zona rural ainda representavam 76% da população do país. Mesmo com a mudança de milhões de pessoas para as cidades no embalo do crescimento econômico, a China comunista chega aos 60 anos como um país majoritariamente agrário, com 55% de seus habitantes na zona rural.
A propriedade privada que havia sido abolida retornou com as reformas econômicas e hoje é protegida pela Constituição. Acima de tudo, os chineses seguiram à risca o conselho de Deng Xiaoping, de que era necessário deixar alguns ficarem ricos antes dos demais _o país tem hoje o maior número de milionários do mundo.
A igualdade desejada por Mao foi substituída por um dos mais rápidos índices de crescimento de desigualdade, que divide ricos e pobres, moradores da cidade e do campo e das regiões leste e oeste do país. Mas o crescimento trouxe aumento da renda de todos os chineses e permitiu que 500 milhões de pessoas deixassem de viver abaixo da linha da pobreza nos últimos 30 anos, segundo estimativa do Banco Mundial.
O que não mudou nos últimos 60 anos foi a supremacia dos comunistas e o sistema de partido único. E essa é uma reforma que não está nos planos de Pequim.
22.09.09
Há algo de errado em um modelo de ensino no qual os que estudam em colégios particulares são os mais bem preparados para ingressar nas universidades públicas gratuitas, enquanto os pobres que frequentam o primário e o secundário em instituições públicas têm mais chance de serem aprovados em universidades particulares, que normalmente são de pior qualidade e nas quais terão que pagar para estudar. Será que o Brasil pode se dar o luxo de ter ensino superior público gratuito ou é o momento de rever esse modelo, com a cobrança de anuidades de quem pode pagar e a concessão de bolsas de estudos para os que não podem?
Os números mostram que o Brasil privilegia de maneira desproporcionar o ensino superior _onde a maioria é de classe média para cima_ em detrimento do primário e secundário, no qual estudam os filhos dos mais pobres. O mesmo estudo da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCED) que citei no post anterior revela que o Brasil é o país no qual existe a maior distância entre o gasto por estudante no primário e nas universidades. De acordo com o documento, o governo investe 1.425 anualmente em cada aluno do ensino primário e 9.994 no superior. Isso significa que cada aluno de universidade pública custa aos cofres públicos valor equivalente a sete vezes o custo de um estudante do primário. É de longe a maior discrepância entre os 36 países analisados pela OCED. Desse universo, o Brasil também é o país com o menor investimento per capita na educação primária.
Os números do estudo estão ajustados de acordo com a Paridade do Poder de Compra de cada país, método que considera os preços relativos e o poder de compra de cada moeda dentro de seu mercado doméstico. As cifras são expressas em “dólares internacionais” e podem ser comparados. O Chile investe 1.936 em cada estudante primário e 6.620 nos universitários, uma distância de 3,4 vezes. Na Itália, os números são 6.835 e 8.026, respectivamente. Em média, os 30 países que integram a OCED registram gasto per capita na universidade que é 1,8 vez o que é investido em cada aluno do primário _o Brasil é membro associado da organização, que reúne principalmente países industrializados.
Enquanto registra o menor gasto per capita no primário, o Brasil destina ao cada estudante universitário valores que superam os registrados na Itália (8.026), na Coreia do Sul (7.606) e Portugal (8.787), para citar alguns exemplos. Dos gastos em educação do país, 74,2% vão para instituições de ensino primário, secundário e profissionalizante, onde estão 86,9% dos estudantes. As universidades têm apenas 2,6% do total de alunos, mas recebem 17,4% dos investimentos.
Quero deixar claro que não defendo a redução do peso do ensino superior no Brasil. Pelo contrário. Os investimentos e as possibilidades de acesso a universidades de qualidade devem ser ampliados, mas isso é impossível sem um ensino público primário e secundário de qualidade.
O que considero inadiável é a discussão dos meios de financiamento das universidades públicas. Elas devem continuar sendo gratuitas para todos? Qualquer um que dê uma volta no campus da USP pode constatar pelos carros estacionados que grande parte dos estudantes teria condições de custear seus estudos. O governo já dá bolsas de estudos para egressos de escolas públicas aprovodos em universidades particulares. Poderia fazer o mesmo nas públicas. Na China comunista, todas as universidades públicas cobram anuidades dos estudantes.
Sem a oferta de ensino primário e secundário de qualidade a toda a população, o Brasil não vai resolver sua escandalosa desigualdade social. O estudo da OCED afirma que há uma clara relação entre renda per capita de um país e os investimentos em educação primária e secundária. Essa mesma relação não é tão evidente no caso do ensino superior, diz a OCED.
O estudo revela que o Brasil aumentou o gasto per capita no ensino primário no período de 2000 e 2005, o que é uma boa notícia. Mas ainda assim, somos o lanterninha nesse ranking. Ao mesmo tempo, o país reduziu o investimento per capita no ensino superior, principalmente em razão do aumento do número de alunos. Essa é mais uma razão para o país buscar fontes alternativas de financiamento do ensino superior.
O paradoxo apontado no primeiro parágrafo deste post foi amenizado com a ampliação do número de aprovados no vestibular da Universidade de São Paulo que são egressos de escolas públicas. Com o programa de inclusão que dá bônus de 3% a esses estudantes na nota do vestibular, o percentual de aprovados que fizeram escola pública atingiu o recorde histórico de 30% no último vestibular. Isso significa que os outros 70% frequentaram escolas particulares. Há ou não há algo de muito errado nisso?
Cláudia Trevisan é correspondente do Grupo Estado em Pequim e autora dos livros "Os Chineses", "China - O Renascimento do Império" e "Guia Buenos Aires para Brasileiros"
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