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10.12.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Cotidiano 19:28:16.

Entre as dores de morar do outro lado do mundo, nenhuma é tão exaustiva quanto encarar a viagem de quase 30 horas que separa Pequim de São Paulo. O esgotamento é agravado pela confusão gerada por uma diferença de fuso horário de 11 horas, que força nosso pobre organismo a inverter o ritmo a que estava acostumado e passar a dormir quando há menos de dois dias ficava acordado e pedir deseperadamente uma cama, ainda que lá fora faça um sol de meio-dia. Durante a viagem, é difícil saber quando acaba um dia e começa o outro e a qual deles pertence aquele jantar (ou será almoço?) que a comissária de bordo coloca à sua frente. As horas intermináveis dão a sensação de que há um excesso de refeições no mesmo dia, com dois almoços ou jantares ou dois cafés-da-manhã, servidos às vezes no fim da tarde.
Desta vez vim pelos Estados Unidos, com escala em Nova Iorque, andando contra o tempo. Por uma dessas maravilhas provocadas pelo avanço tecnológico, sai de Pequim na terça-feira, às 17h, e cheguei em Nova Iorque na mesma terça-feira, às 17h30. Apesar de ter passado 13 horas dentro de um avião, ainda estava no mesmo dia que havia começado na China, com apenas 30 minutos a mais. Mas terei que devolver o tempo que ganhei quando voar de volta e chegar a Pequim dois dias depois de ter embarcado em São Paulo.

 


20.11.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Economia 04:42:42.

Com o maior volume de reservas internacionais do mundo, a China ultrapassou o Japão e se tornou o principal financiador do déficit norte-americano, acumulando um total de US$ 585 bilhões em títulos do Tesouro em setembro.
A consolidação da China como maior credor dos Estados Unidos evidencia a enorme dependência entre os dois países desenvolvida ao longo desta década e que é o elemento central dos “desequilíbrios globais” que levaram à crise atual.
Os norte-americanos só puderam gastar além de seus recursos nos últimos anos porque os chineses estavam dispostos a financiá-los por meio da compra de títulos do Tesouro.
O déficit em conta corrente dos Estados Unidos foi acompanhado da explosão do superávit chinês, que no ano passado atingiu 10% do PIB. Até o fim do ano, as reservas internacionais da China vão atingir US$ 2 trilhões e terão crescido US$ 500 bilhões apenas em 2008. O valor é mais que o dobro do total de US$ 200 bilhões das reservas brasileiras.
No mês de setembro, a China aumentou em US$ 43,6 bilhões o volume de títulos do Tesouro em seu poder, para US$ 585 bilhões, ultrapassando o Japão, que detém US$ 573,2 bilhões. De acordo com dados do Tesouro norte-americano, o Brasil manteve o quarto lugar entre os principais financiados dos Estados Unidos, com US$ 141,9 bilhões, abaixo da Inglaterra.
A participação da China será crucial para os Estados Unidos obterem recursos para financiar o pacote de US$ 700 bilhões de socorro ao sistema financeiro aprovado no mês passado.
O superávit comercial do país asiático com o restante do mundo é a principal fonte do crescimento de suas reservas internacionais. Em outubro, a diferença entre exportações e importações atingiu o recorde de US$ 35 bilhões.
No ano passado, o superávit da China cresceu 48% e chegou ao recorde de US$ 262 bilhões. Os Estados Unidos são o país com o qual o desequilíbrio é maior: só em 2007, o déficit norte-americano com os chineses somou US$ 256 bilhões.

 


19.11.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Cotidiano 09:12:56.

A pornografia é banida nas bancas de revista da China, mas o erotismo se esgueira sempre que pode nas páginas de jornais e revistas e é garantia de popularidade entre os leitores, inclusive das publicações realizadas pelo governo. Quem abriu a página online do jornal oficial China Daily no dia 13 de novembro viu em primeiro plano a foto do bumbum da brasileira Melanie Nunes Fronckowiak, vencedora do concurso da bunda mais bonita do mundo, realizado em Paris no dia anterior.
A imagem, que incluía uma pequena bandeira do Brasil no pulso da vencedora, foi mostrada durante todo o dia, ao lado dos destaques ao redor do mundo. Hoje, continuava entre os dez títulos mais populares entre os leitores.
Nos últimos dias, o bumbum de Melanie passou a enfrentar a concorrência do desfile de langerie da Victoria´s Secret, mostrado em 16 fotos, nas quais aparece outra brasileira, a top model Adriana Lima. O título estava em segundo lugar entre os mais clicados nos últimos dois dias, à frente do texto sobre a reunião de cúpula do G-20 em Washington.
Outro assunto que resistiu entre os primeiros colocados durante toda a semana passada foi a inauguração de um “hotel para adultos” na cidade de Nanning. A sucessão de fotos mostrava uma funcionária demonstrando como os clientes deveriam utilizar as “amenidades” oferecidas, entre as quais uma cama equipada com tiras suspensas.
A seguir, algumas das fotos publicadas no China Daily:

O bumbum da brasileira Melanie Nunes Fronckowiak
bumbum

Funcionário apresenta "amenidades" de hotel para adultos em Nanning
motel

motel1

A brasileira Adriana Lima no desfile da Victoria´s Secret
adriana lima

 


13.11.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Economia 06:03:37.

O Peru deverá se tornar na próxima semana o segundo país latino-americano a assinar um acordo de livre comércio com a China depois do Chile. O tratado deverá ser assinado durante visita do presidente Hu Jintao a Lima, nos dias 19 e 20. A China tem peso crescente na pauta de exportações da região e ganhou mais relevância depois que decidiu fazer parte do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com uma contribuição de US$ 350 milhões.
O Chile assinou o Tratado de Livre Comércio com a China em outubro de 2006. Desde então, o comércio bilateral quase dobrou e o país asiático superou os Estados Unidos para se tornar o principal destino das exportações chilenas.
“Atualmente nós estamos negociando um acordo de serviços e, no próximo ano, iniciaremos as discussões para um tratado de investimentos”, afirmou ontem o embaixador do Chile na China, Fernando Reyes Malta, em encontro entre diplomatas latino-americanos e correspondentes estrangeiros em Pequim.
O país asiático é o segundo maior parceiro comercial do Peru, atrás dos norte-americanos, mas deverá em breve assumir o primeiro lugar, na avaliação do embaixador peruano, Jesús Wu Luy.
A exemplo do Brasil, Chile e Peru são grandes exportadores de matérias-primas e produtos alimentícios para a China e esperam que o país asiático amenize o impacto da recessão mundial provocada pela crise nos Estados Unidos.
Na avaliação de Malta, o pacote de US$ 586 bilhões anunciado pelo governo de Pequim no domingo poderá recuperar pelo menos parte da queda nos preços do cobre, o principal produto de exportação dos chilenos. “Nós somos os maiores produtores de cobre do mundo e a China é o maior consumidor.”
O encontro de ontem evidenciou as diferenças entre os países latino-americanos exportadores de commodities, como Chile e Peru, e aqueles que possuem uma indústria nacional que sofre diante da concorrência dos chineses. “Nós não queremos um acordo de livre comércio com a China”, afirmou o embaixador da Colômbia em Pequim, Guillermo Londono, ressaltando que seu país tem setores sensíveis como jóias, calçados, têxteis e brinquedos. A situação é parecida com a do México, cuja indústria também é ameaçada pela importação de produtos baratos da China.
Mas se não querem comércio, os dois países buscam investimentos dos chineses. Neste terreno, os colombianos saíram na frente e devem assinara no próximo fim de semana um acordo bilateral de proteção de investimentos, que dará garantias a empresas chinesas que colocarem dinheiro no país latino-americano e vice-versa.
O México busca investimentos na indústria, entre as quais a automobilística, e procura atrair mais turistas chineses. Segundo o embaixador do país em Pequim, Jorge Guajardo, os turistas chineses gastam em média três vezes mais que os norte-americanos.
Lima também busca atrair empresas chinesas. Na avaliação do embaixador Wu Luy, os investimentos do país asiático no Peru nas áreas de mineração, energia e pesca deverão somar pelo menos US$ 6 bilhões nos próximos três anos.

 


05.11.08

por Cláudia Trevisan, Seção: A transformação 10:24:59.

Para milhões de pessoas ao redor do mundo, a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos vai se transformar em um daqueles dias em que a História invade as nossas vidas e se mistura às memórias de caráter pessoal. Quando no futuro eu pensar no 5 de novembro de 2008, vou lembrar que era um dia ensolarado de outono e que eu estava no meu escritório em Pequim quando um alerta da CNN entrou na minha caixa de mensagens: “Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos”.
Corri para a televisão e a primeira imagem que vi na mesma CNN foi a do reverendo negro Jesse Jackson chorando em meio à multidão que celebrava a vitória democrata em Chicago, onde Obama fez seu primeiro discurso como presidente eleito.
A escolha de um negro para o principal posto de comando em um país até pouco tempo cindido pela questão racial seria relevante em qualquer lugar do mundo. Quando este lugar é a maior economia e potência global, é difícil exagerar no significado histórico da decisão. A vitória de Obama tem um enorme poder simbólico na promoção de valores como diversidade, inclusão e tolerância.
Mas o que torna esta eleição realmente relevante é a porta que ela abre para o resgate de princípios fundamentais que haviam sido ofuscados pela guerra ao terror do governo Bush e que sedimentam o “sonho americano” tanto quanto a oferta de oportunidades para todos. Os oito anos de gestão republicana enfraqueceram garantias que fazem parte da tradição política do liberalismo e foram inscritos na Declaração Universal dos Direitos do Homem, entre os quais estão a presunção da inocência, o devido processo legal, o direito de defesa e a condenação da tortura.
Os abusos cometidos pelos norte-americanos nas prisões de Abu Ghraib e Guantanamo e a defesa do uso da tortura como método legítimo de interrogação por assessores graduados do presidente Bush minaram a autoridade moral dos Estados Unidos na defesa dos direitos humanos e deram um tom de escárnio e cinismo às críticas do governo norte-americano a abusos cometidos por outros países. A eleição de Obama traz a esperança de que isso mude a partir de 20 de janeiro de 2009.

 


01.10.08

por Cláudia Trevisan, Seção: A catástrofe 13:18:07.

Depois de uma semana em Xangai, nada como uma visita à zona rural para ser lembrada dos imensos desafios que a China ainda tem pela frente no processo de inclusão de seu 1,3 bilhão de habitantes na sociedade de consumo. Apesar de sua exuberância, as prósperas cidades da costa leste, como Xangai e Pequim, não representam a China real, que está nas 700 mil vilas rurais onde vive 56% da população do país _algo como 730 milhões de pessoas ou cinco vezes a população do Brasil.
Os camponeses chineses não têm aposentadoria nem assistência média gratuita e cultivam pequenos pedaços de terra de onde arrancam a golpes de enxada a subsistência de suas famílias. Quase não há mecanização e o trabalho de plantar e colher é manual. Não existe mais fome e na maioria das vilas os camponeses têm suas próprias casas, nas quais criam galinhas e porcos.
Mas sobra muito pouco nos seus bolsos ao fim de cada ano, o que empurra milhões deles à busca de empregos nas fábricas e obras de construção civil nas cidades. Um dos camponeses que entrevistei disse que ele e a mulher tiveram no ano passado um lucro de 1.800 yuans (US$ 270), o que deu a cada um deles uma renda per capita US$ 135. No mesmo período, os três filhos do casal levaram para a casa 30 mil yuans (US$ 4.411), que ganharam trabalhando como operários nas cidades.
O que evita uma migração em massa para as zonas urbanas é o sistema de registro de residência da China, que discrimina seus cidadãos entre moradores do campo e da cidade. Os camponeses enfrentam uma série de restrições para se estabelecer nas zonas urbanas, como proibição de comprar imóveis, dificuldade para matricular o filho na escola e preços maiores para utilização dos serviços de saúde. Por isso, os migrantes rurais costumam deixar a família no campo e trabalhar por períodos determinados nas cidades, ao fim dos quais retornam às origens. Aí vão algumas imagens da vida no campo chinesa:

Camponês chinês com enxada no ombro

Camponês com colheita de milho no pátio de sua casa

Casal de camponeses arruma espigas de milho

Pátio de casa de camponeses com pimenta e milho; o que a família não consumir será vendido posteriormente

Casal camponês com o neto em frente à cozinha da casa

 


23.09.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Tibete, A transformação 11:00:36.

Como quase tudo na China, Xangai é uma cidade em mutação constante e um dos poucos lugares do mundo onde a paisagem urbana muda de um ano para o outro. O maior símbolo da ascensão econômica do país asiático é o bairro de Pudong, o centro financeiro de Xangai, que começou a ser construído há apenas 18 anos. Hoje, Pudong tem um cenário futurista, com prédios que exibem na fachada enormes telas digitais, que funcionam como imensos outdoors de publicidade em movimento ou veículos de projeção de imagens lúdicas _de peixes no fundo do mar a borboletas coloridas. A melhor definição que já ouvi da região é a do cônsul do Brasil em Xangai, Marcos Caramuru: “Em Pudong, a gente vê o futuro sem envelhecer”.
A nova aquisição do bairro é o Shanghai World Financial Center (SWFC), o mais alto prédio da China e o segundo mais alto do mundo, com 492 metros e 101 andares. O edifício fica ao lado do que antes era o mais alto da China, a Jin Mao Tower, que para mim continua a ser a mais bonita construção de Xangai, com uma estética que lembra o futuro da maneira como ele era imaginado no passado, principalmente em Flash Gordon.
Projetado pelo escritório de arquitetura Kohn Pedersen Fox, de Nova York, o SWFC tem um espaço vazado no topo, que tem o objetivo de reduzir a pressão do vento. Originalmente projetado para ser um círculo, esse item do projeto se revelou polêmico e gerou protestos entre os chineses, que viam semelhança entre o desenho e a bandeira do Japão. A associação é extremamente sensível na China, que sofreu com a invasão de seu território por tropas japonesas nos anos 30 e 40. O círculo virou um quase-retângulo, o que valeu à torre o apelido de “abridor de garrafa”. A fachada do SWFC é curva e dá ao prédio um formato totalmente distinto quando visto de lado. No topo da torre está o mais alto observatório do mundo, de onde se pode ver Pudong de cima.
Xangai é o retrato da opulência chinesa, mas é também a lembrança das gritantes contradições do país. Na minha recente visita, o que mais me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas pedindo esmolas e dormindo nas ruas, ao lado dos monumentos que celebram a opulência chinesa. Até pouco tempo, o governo chinês conseguia manter dois mundos paralelos _o das cidades prósperas e o do campo pobre. As famílias que assediam os clientes dos caros restaurantes e os camelôs que demarcam cada esquina de Xangai são o indício de que a contenção começa a apresentar fissuras.

Pudong, o bairro que começou a ser construído há 18 anos e hoje é o centro financeiro da China (perdão pelo dia nublado)
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O Shanghai World Financial Center e a Jin Mao Tower, à sua frente. Ele parece mais baixo, mas é bem mais alto, como vocês verão em uma foto abaixo
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A Jin Mao Tower vista do observatório do SWFC
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O SWFC visto de lado
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O observatório no 100º andar do SWFC
observatório

A fachada do SWFC
fachada

A vista de Pudong
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Mulher pede esmola com a filha nas ruas de Xangai

mulher

 


17.09.08

por Cláudia Trevisan, Seção: A transformação 13:50:35.

Entre as inúmeras sensações que assaltam uma brasileira na China está a profunda frustração com a situação do Brasil quando se compara a infra-estrutura nos dois países. Enquanto o Brasil ficou mergulhado em intermináveis crises econômicas nos anos 80 e 90, os chineses aceleraram a marcha da história e transformaram a paisagem do país, com a construção de estradas, portos, ferrovias e aeroportos.

A China prevê com antecedência as necessidades futuras de sua economia e constrói as obras antes que elas sejam necessárias. Mesmo com o crescimento de 10,6% ao ano nas últimas três décadas, ninguém fala em gargalo de “infra-estrutura”, que está entre as grandes ameaças a uma expansão significativa e sustentável do PIB brasileiro. Na China não há caos aéreo ou congestionamento de caminhões em portos. Pequim inaugurou no início do ano o maior aeroporto do mundo e antes mesmo que ele começasse a operar, anunciou que construirá um novo terminal até 2012.

Anteontem eu viajei a Xangai e desci no aeroporto de Pudong, uma região que não existia antes de 1990 e hoje tem uma população de 1,6 milhão de pessoas e é o centro financeiro da China. Do aeroporto, embarquei no Maglev, o trem de alta velocidade que percorre 30 km em oito minutos. Entre os mais rápidos trens do mundo, o Maglev é movido por impulso eletro-magnético e atinge a velocidade de 431 km/h. O trajeto entre o aeroporto e uma estação de metro de Pudong sai pelo equivalente a R$ 12,50.

Nos oito minutos de viagem, pensava de maneira recorrente no antiqüíssimo projeto de ligação do aeroporto de Cumbica a São Paulo de trem, que nunca sai do papel, e na crônica incapacidade do Brasil de se preparar para o futuro.

Aí vão as fotos do Maglev, construído com tecnologia alemã:

Plataforma do Maglev no aeroporto de Pudong

Passageiros do Maglev

Velocímetro em uma das cabines mostra o aumento da velocidade do trem

O trem e o trilho sobre o qual "flutua"

 


25.08.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 07:26:32.

O espetáculo de encerramento da Olimpíada de Pequim não foi tão poético quanto o de abertura, mas teve momentos memoráveis na demonstração da habilidade dos chineses em acrobacia e artes marciais.
A exaltação da grandiosidade da civilização chinesa que marcou o início dos Jogos também esteve ausente na despedida. Não houve referências aos 5.000 anos de história do país e o cineasta Zhang Yimou preferiu transmitir uma imagem alegre e amigável da nova China.
Ao lado da sofisticação dos números de acrobacia e dança, houve momentos kitsch, especialmente quando se apresentaram os cantores. Mas nada diminui a grandiosidade da festa, que teve fogos de artifício exuberantes e enormes tambores flutuantes.
Aí vão algumas imagens:

O clima de sonho criado pelo cineasta Zhang Yimou, com tambores suspensos por cabos de aço, dançarinas equipadas com 1.000 sinos de metal cada e acrobatas conduzindo rodas iluminadas
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Torre de 23 metros de altura emerge do palco central e é escalada por acrobatas. No alto, dois artistas simulam movimentos atléticos
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Depois que a Pira Olímpica foi apagada, acrobatas acenderam uma pira humana na estrutura, chamada de Torre da Memória
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Um dos desenhos feitos pelos acrobatas na torre
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Fitas são presas no alto da torre por uma das extremidades
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Cabos de aço levantam a outra extremidade para formar uma enorme flor
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Suspensos em cabos de aço, acrobatas fazem movimentos no alto do estádio
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22.08.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 08:08:33.

A maior concentração de atletas em Pequim não está nas quadras, mas no Mercado da Seda, o principal endereço da conceituada pirataria chinesa, que atrai delegações olímpicas, presidentes, primeiras-damas, ministros e até George Bush pai, para horror das empresas norte-americanas que reclamam da falsificação de seus produtos.
Localizado na principal avenida de Pequim, o Mercado da Seda é uma espécie de camelódromo vertical, distribuído em seis andares onde é possível encontrar tênis, bolsas, malas, roupas esportivas, ternos, camisas, gravatas, sapatos e relógios, nos quais estão estampadas todas as grifes internacionais _de Nike a Rolex. A seda que dá nome ao lugar ocupa um acanhado espaço no quinto andar e está longe de receber o número de compradores que vão atrás das marcas famosas com preços de camelôs.
Ônibus de turistas estacionam de maneira ininterrupta diante do edifício envidraçado inaugurado em 2005. Na frente da entrada principal, há um lugar reservado para o desembarque de atletas, dirigentes de delegações e autoridades, demarcado com placas nas quais está escrito “Olympic VIP Car Park”. Os VIPs chegam em Audis pretos identificados com o logotipo da Olimpíada de Pequim e dois guardas se encarregam de manter a ordem no movimento incessante de carros e ônibus.
Pessoas do mundo todo se acotovelam nos estreitos corredores e enfrentam a barganha com as persistentes e poliglotas vendedoras chinesas, que falam um pouco de inglês, russo, espanhol, alemão, francês e outras línguas aprendidas nas extenuantes negociações.
Os preços começam na estratosfera e podem cair a patamares ridículos se os compradores tiverem paciência e habilidade. Gravatas Ermenegildo Zegna saem por 15 yuans (menos de R$ 4), ternos Armani são arrematados por 300 yuans (R$ 70) e é possível levar bolsas Gucci a 80 yuans (quase R$ 20).
Na semana passada, o ministro dos Esportes do Sudão, Albino Akol, experimentava um terno em uma das barracas do primeiro andar. O Mercado da Seda não tem provadores e as roupas têm que ser colocadas por cima de outras roupas, enquanto o tamanho das calças é decidido com a utilização de fitas métricas. Se insistir muito, o cliente pode convencer os vendedores a improvisarem um provador com a utilização de um lençol, mas a privacidade é quase inexistente.
“Os preços são muito bons”, disse Akol ao Estadão. Chacoalhado por um conflito na região de Darfur que já deixou 300 mil mortos desde 2003 e dirigido por um governo acusado de genocídio pela comunidade internacional, O Sudão enviou uma delegação de nove atletas a Pequim.
No segundo andar do Mercado da Seda, três atletas russos que não quiseram se identificar provavam camisetas, enquanto integrantes da delegação argentina passavam pelo corredor. Na barraca ao lado, quatro turistas alemãs tentavam baixar o preço de casacos e dois suecos decidiam o que mais iriam comprar, depois de terem pago um total de 750 yuans (R$ 176) em 5 jaquetas de inverno e 640 yuans (R$ 150) por 16 camisas. “Eu não estava preparado para isso”, disse Pelle Bgorkin, que viajou pela primeira vez a Pequim com o amigo Bengt Olov para assistir às competições de luta livre e estava exausto depois da maratona de barganhas com as chinesas.
A trilha sonora do lugar é dada pelas frases de vendedoras e compradores envolvidos na negociação de preços, feita quase sempre em inglês, com a ajuda de uma calculadora. “Você está brincando!”, “Então, você diz o seu preço”, “Amigo, este produto é de boa qualidade!”, “Qual o seu melhor preço?” e assim por diante. Cifras que começam em 3.000 yuans podem facilmente cair para 150 yuans. O Mercado da Seda viveu seu dia de glória na semana passada, com a visita do ex-presidente norte-americano George Bush.
Segundo reportagem publicada no jornal oficial “China Daily”, Bush pai gastou 1.800 yuans (R$ 424) na compra de seis robes de seda, um dos poucos produtos legítimos à venda no lugar.

A seguir as imagens do excelente fotógrafo NILTON FUKUDA

O ministro dos Esportes do Sudão experimenta um terno
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Corredor do Mercado da Seda
corredor

Seção de calçados do Mercado da Seda
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20.08.08

por Cláudia Trevisan, Seção: A catástrofe 06:20:36.

Os chineses lotaram o Estádio dos Trabalhadores ontem à noite para torcer pelo bom futebol na partida entre Brasil e Argentina. Quando os telões mostraram a imagem de Ronaldinho entrando em campo a platéia o recebeu com gritos e aplausos. Mas no segundo tempo, depois de o Brasil levar três gols, não era o seu nome que se ouvia no estádio, mas o de “Meixi”, a maneira como os chineses se referem a Messi, a principal estrela do time argentino.

Sem uma equipe à altura de sua paixão pelo futebol, os chineses se vestiram de verde e amarelo ou de azul e branco para torcer por alguns de seus maiores ídolos. Alguns levavam bandeiras do Brasil e da Argentina e, na maior parte do tempo, os torcedores vibraram com as boas jogadas, não importando de qual time fosse. Quase no fim do segundo tempo, também se ouviu o grito de guerra contra o dirigente da Associação Chinesa de Futebol, visto pelos torcedores como o principal responsável pela situação de indigência do esporte no país: “Xie Yaolong, vai prá casa!”.

Sentada na arquibancada, fui consolada pelo chinês que estava ao meu lado, que adora futebol e foi ao estádio ver o enfrentamento de dois times que considerava grandiosos. “Vocês devem estar sentindo a mesma coisa que nós em relação ao time chinês.” Era a mais perfeita tradução da decepção verde e amarela.

Algumas fotos de ontem:

Brasileiro ao lado de torcedores chineses
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Chinês com peruca verde e amarela e bandeira brasileira
peruca

Casal democrática: ela tem no rosto as bandeiras do Brasil e da China; ele, as do Brasil, China e Argentina
casal

As chinesas argentinas
argentinas

Um "argentininho" ao lado do meu amigo Rodrigo
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Torcedor chinês agita a bandeira brasileira no estádio lotado
bandeira

O placar final
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17.08.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 15:26:01.

Talvez a maior frustração esportiva da China seja não ter um time de futebol do qual possam se orgulhar. Os chineses amam o jogo e odeiam o time nacional, que não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo de 2010 e foi eliminado da Olimpíada de Pequim depois de perder todos os três jogos que disputou, um dos quais contra o Brasil.

Sem ídolos em casa, os chineses veneram os jogadores de outros países, em especial os brasileiros. Sempre que digo a um chinês que sou “baxiren” (brasileira), a primeira reação invariavelmente se refere ao futebol: “Lonaldo”, “Lonaldinho”, “Loberto Carlos”, “Livaldo”, repetem, com os poucos nomes relacionados ao assunto que eu consigo entender. Entre os jovens _e em especial entre as jovens_, a sensação é “Cacá”, que ainda tem a vantagem de ter um nome facilmente pronunciável para os chineses.

O desgosto com a equipe nacional atingiu o ápice nesta Olimpíada, a ponto de um grupo de torcedores ter realizado um protesto contra o time chinês depois da derrota de 3 a 0 pelo Brasil na cidade de Qinhuangdao, no dia 13. Durante a partida, o alvo foram os cartolas, apontados como responsáveis pela falta de profissionalismo que impera no campeonato chinês. Os torcedores que lotaram o estádio gritavam “Xie Yaolong, vai prá casa!”, em referência ao chefe da Associação Chinesa de Futebol. Assustado, Xie se escondeu no vestiário e, pela primeira vez não apareceu ao lado dos jogadores depois da partida.

Mas o fundo do poço já havia sido atingido no dia 10, durante a partida contra a Bélgica, quando o jogador Tan Wang Song desferiu um golpe literalmente baixo e deu um chute nos testículos de Sebastien Pocongnoli, da equipe belga. Alguns minutos mais tarde, outro jogador levou cartão vermelho por dar uma cotovelada em um integrante do time adversário.

O futebol na China é considerado pouco profissional, corrupto e dominado por cartolas incompetentes. Principal caixa de ressonância do humor dos moradores das cidades, a internet está cheia de comentários pouco elogiosos a seus jogadores. “O time chinês acaba de ganhar duas medalhas vermelhas”, dizia um comentário logo depois da partida com a Bélgica. “Nosso time de futebol conquistou a medalha de ouro em artes marciais”, ironizava outro.

Com seu time fora da Olimpíada e da Copa de 2010, resta aos chineses torcer pelo time feminino de futebol, que se mantém na disputa com uma performance muito melhor que o masculino. Ou gritar “Lonaldinho” quando o Brasil entrar em campo.

 


14.08.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 13:49:48.

A praça Tiananmen, em frente à Cidade Proibida, é o local onde os chineses sem ingresso para as competições olímpicas se reúnem para celebrar o nacionalismo despertado pelos Jogos. Normalmente cheia, a praça transborda de gente desde o início da Olimpíada. No último domingo, milhares de pessoas passaram pelo local, apesar do mau tempo e dos chuviscos ocasionais. Havia vários grupos representando três gerações da mesma família, com avós, filhos e o único neto. Muitos levavam bandeiras, faixas vermelhas na cabeça e camisetas com a declaração "I Love China". Sem bancos nem árvores, as famílias se sentavam no chão.

Muitos turistas do interior que vieram a Pequim para o período da Olimpíada fazem sua peregrinação até à praça, um dos lugares preferidos pelos chineses na capital do país. Tiananmen _ou Paz Celestial_ é a maior praça pública do mundo, com extensão de 880 metros e largura de 500 metros. Nela ocorreram alguns dos mais marcantes fatos da história da China, incluindo o protesto e posterior repressão de estudantes que pediam democracia em 1989.
O passado imperial do país é marcado pela fachada da Cidade Proibida, sede de poder nas dinastias Ming e Qing, entre 1420 e 1911. A história recente do comunismo é representada pelo mausoléu que guarda o corpo embalsamado de Mao Tsé-tung, no centro da praça, e pelo enorme retrato do líder revolucionário que pende sobre a entrada da Cidade Proibida.

Para celebrar a Olimpíada, o governo construiu dois jardins nas laterais. O do lado oeste traz uma imitação de arcos olímpicos pela metade cobertos com vegetação, pombas brancas colocadas em colunas e desenhos de flores no meio do gramado. Na outra extremidade da praça há uma reprodução do Ninho de Pássaros ao lado de uma pista ascendente na qual há bonecos estilizados praticando as diferentes modalidades dos Jogos. Ao lado, arranjos com vegetação trazem o slogan olímpico “Um mundo, um sonho”, escrito em chinês e inglês. Por fim, um mapa mundi da maneira como ele costuma ser representado aqui: a China aparece no meio, a África e a Europa à esquerda e a América, à direita.

Apesar do contato com o ocidente e do enorme número de turistas que visitam a China a cada ano, a visão de um estrangeiro ainda espanta muitos chineses, principalmente os que vêm do interior. É absolutamente comum os turistas serem abordados para tirarem foto ao lado dos chineses. Algumas mães simplesmente entregam bebês nas mãos dos estranhos e começam a fotografar, como ocorreu comigo e meus pais em uma visita ao complexo olímpico.

Aí vão as imagens do domingo na praça e do retrato com o bebê:

Criança levanta a bandeira da China no colo da mãe
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Multidão ocupa a praça Tiananmen
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Garota posa para foto em frente ao jardim construído no lado oeste da praça
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Chinês tira foto de amigo
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Jardim com imitação do Ninho de Pássaros
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O mapa mundi de Tiananmen
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Multidão em frente ao jardim olímpico
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Eu com um bebê lindo que a mãe me deu para segurar enquanto o pai batia fotos; ao meu lado, meus pais, Lia e Oswaldo. Ao fundo, o Ninho de Pássaros
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13.08.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 02:22:50.

A obsessão dos dirigentes comunistas chineses por apresentar ao mundo uma imagem perfeita de seu país acabou criando um desastre de relações públicas, com a revelação de que a cantora-mirim do início da cerimônia de abertura da Olimpíada não era a dona da voz que ecoou no Ninho de Pássaros na sexta-feira. A verdadeira cantora é uma garota de 7 anos, Yang Peiyi, escondida do público por não ser considerada bonita o suficiente aos olhos de um integrante do Politburo que assistiu ao último ensaio antes do espetáculo.

O diretor musical da cerimônia, Chen Qigang, afirmou em entrevista à estatal Beijing Radio que o dirigente _cujo nome não revelou_ determinou em cima da hora a substituição de Yang Peiyi por Lin Miaoke, 9, a graciosa garota que foi a estrela da entrada na bandeira chinesa no estádio olímpico.

Apesar de bonita, Lin Miaoke não tinha o talento musical necessário para cantar diante de um público de 91 mil pessoas e mais 4 bilhões de telespectadores em todo o mundo e foi “dublada” por Yang Peiyi. Em entrevista concedida na noite de terça-feira à AP Television News, Chen disse que falou sobre a substituição para “revelar a verdade”. Na mesma entrevista, declarou que “a pequena garota é uma cantora magnífica”, que “não merece ficar escondida.”

Ainda assim, Chen Qigang justificou a substituição e disse que o diretor artístico da cerimônia, o cineasta Zhang Yimou, estava ciente da troca. “Nós combinamos a voz perfeita com a performance perfeita”. Segundo ele, a substituição foi realizada tendo em vista o “interesse nacional” e seria compreendida pela audiência. Mas os comentários deixados por internautas chineses nos fóruns de discussão online não demonstravam a compreensão esperada por Chen. “A falsificação é uma longa tradição chinesa. É uma pena que, desta vez, duas crianças inocentes foram vítimas. Imagine a pressão a que elas serão submetidas”, escreveu uma pessoa que utiliza o nome de Ice Blue.

Outra internauta que se identifica como Mioumiou foi mais incisiva. “O problema não está no tipo de artifícios utilizados para atingir o melhor efeito artístico, mas no tratamento injusto dado à REAL cantora durante a entrevista coletiva concedida depois da cerimônia por Zhang Yimou, que sabia de tudo e não mencionou a garota. Não teria sido melhor se ele tivesse apresentado a menina durante a entrevista coletiva? Ignorar valores individuais em nome no interesse nacional é uma das piores características da cultura chinesa”, escreveu Miaomiao. Zhang Yimou não apenas ignorou a cantora verdadeira, como elogiou a performance de Lin Miaoke.

O pior de tudo é que a imprensa oficial chinesa tentou transformar Lin Miaoke em um fenômeno, apesar do fato de ela não ter interpretado a canção que foi ouvida na noite de estréia da Olimpíada. “Pequena cantora conquista o coração da nação”, dizia o título de texto publicado ontem no jornal “China Daily”, editado pelo Conselho de Estado. “Lin Miaoke pode ter apenas 9 anos, mas ela já está no caminho para se tornar uma estrela, graças à sua interpretação de ‘Ode à Terra Natal’ na sexta-feira, durante a cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim”, celebrava o primeiro parágrafo da “reportagem”.

Lin Miaoke já era uma pequena celebridade desde o ano passado, quando apareceu em um anúncio de televisão ao lado do atleta Liu Xiang, um herói nacional desde que ganhou a medalha de ouro nos 110 metros com barreira na Olimpíada de Atenas. Ela também havia atuado no início de 2008 em uma peça publicitária que promovia os Jogos de Pequim. Seu pai, o fotojornalista Lin Hui, disse ao “China Daily” que foi informado da escolha de Lin Miaoke para cantar o hino apenas 15 minutos antes do início da cerimônia. Até então, ela estava entre as quatro finalistas selecionadas em junho.

 


09.08.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 09:48:39.

A China que surpreende o mundo com a rapidez de seu crescimento econômico deixou 4 bilhões de telespectadores boquiabertos com o espetáculo de abertura da Olimpíada de Pequim, o mais deslumbrante da história. Não houve uma falha no período de uma hora do show, marcado por referências ao passado glorioso da civilização chinesa e suas contribuições à humanidade, em especial as quatro invenções da antiguidade: o papel , a pólvora, a impressão e a bússola.

A turbulência dos dois últimos séculos de humilhação, colonização por potências estrangeiras, guerra civil e revolução comunista foram esquecidos. Não houve uma única menção a Mao Tsé-tung. A grande referência da noite foi Confúcio, o filósofo que viveu há 2.500 anos e como nenhum outro definiu a identidade chinesa. A mensagem era clara: a China do século XXI pretende resgatar a grandiosidade de seu passado imperial.

Aí vão algumas fotos da noite de ontem:

2.008 atores se preparam para iniciar a contagem regressiva da cerimônio diante do "fou", um antigo instrumento de percussão chinês
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A mesma cena com os tambores iluminados
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O símbolo olímpico "flutua" no Ninho de Pássaros. Cada anel tem 10 metros de diâmetro e é iluminado por 45 mil lâmpadas LED
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897 atores movimentos as colunas que representam os tipos móveis de madeira criados pelos chineses para imprimir livros nos século VII, 700 anos antes de Gutenberg
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O centro do palco é ocupado pela representação da Rota da Seda, a via comercial que ligou a China ao Ocidente no passado; nas laterais estão as menções ao navegador Zheng He, o chinês que liderou grandes expedições navais quase um século antes de Colombo e Cabral
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Atores formam a imagem do Ninho de Pássaros na segunda parte do espetáculo, dedicada ao período atual da China
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Sustentado por cabos de aço, o ginasta Li Ning se prepara para acender a pira olímpica
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A pira olímpica ilumina o Ninho de Pássaros
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31.07.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 02:30:55.

Os chineses cumpriram o cronograma, e a rua que parecia longe de terminada foi inaugurada ontem, dia 30, como prometido. No post anterior, eu coloquei a foto da mais antiga via comercial de Pequim, a Dashilan, que estava em processo de restauração para os Jogos Olímpicos. Tirada no dia 20 de julho, a imagem mostrava a rua ocupada por entulho e ladeada por prédios com fachadas inacabadas.
Com um exército de mão-de-obra barata, a China consegue realizar suas construção em um ritmo três vezes mais veloz que a média dos países ocidentais. Abaixo estão as fotos do antes e depois de Dashilan, separadas por uma distância de dez dias.

Dashilan no dia 30 de julho
nova dashilan

Dashilan no dia 20 de julho
dashilan velha

 


22.07.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 02:19:53.

dashilan

É difícil acreditar que isso seja possível, mas a rua acima, fotografada ontem, terá de estar impecável dentro de dez dias, a tempo de receber os primeiros turistas que chegarão a Pequim para a Olimpíada. Mais antiga via comercial da cidade, com cerca de 600 anos de existência, Dashilan é objeto de um dos mais polêmicos projetos de restauração realizados pelo governo chinês, que levantou debates acalorados sobre a maneira adequada de preservar o passado.

Muitos dos edifícios foram reconstruídos, supostamente para recuperar a aparência que tinham quando eram novos. Os que já estão prontos exibem cores vivas e parecem tão perfeitos que poderiam estar em uma obra de hiper-realismo. Dashilan tem a mais antiga loja de seda, a mais antiga farmácia de medicina tradicional chinesa e mais antiga sapataria de Pequim, onde os sapatos ainda são costurados à mão. Todas elas foram fechadas temporariamente para o trabalho de renovação.

A rua fica em uma região chamada Qianmen, que na época do império estava fora da muralha que cercava Pequim, ao sul da Cidade Proibida. O bairro era o local onde os viajantes se hospedavam e reunia os teatros, grupos de acrobacia, restaurantes e bordéis. À noite, muitos dos mandarins do império escapavam pelo portão Qianmen para freqüentar os bordéis da região.
No século passado, Qianmen, como quase todos os bairros de Pequim, empobreceu e viveu um processo de degradação. As casas foram transformadas em cortiços, camelôs tomaram conta das ruas e os edifícios ficaram sem manutenção.

Há dois anos, o governo anunciou um plano de restauração da área, que incluiu a destruição de muitas das casas antigas e a recuperação dos edifícios de valor históricos relevante. Para seus críticos, o projeto criará uma espécie de Disneylândia ou parque temático onde os turistas terão uma mostra totalmente artificial de como era a vida na velha Pequim. Os defensores afirmam que a região estava degradada e que os elementos de valor históricos serão preservados.

Na sexta-feira, fui a uma palestra de dois arquitetos italianos e a questão da preservação do passado foi discutida. Na opinião de ambos, os chineses têm uma concepção diferente da ocidental, que privilegia a manutenção dos monumentos históricos em sua condição original, como as ruínas romanas e gregas. Para os chineses, preservar é reconstruir os edifícios como eles eram originalmente, da maneira mais perfeita possível.

Para minha surpresa, os arquitetos não tinham uma visão totalmente negativa do modelo chinês. Para eles, a opção Ocidental está longe do ideal e a cidade onde vivem, Roma, estaria “congelada” pela obsessão de preservar o passado. O melhor caminho, disseram, é um meio-termo entre os dois extremos.

Alguns dos prédios já restaurados:
prédio pronto

prédio pronto

 


16.07.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 06:45:15.

Se o inglês dos funcionários do International Media Center for uma mostra do que vai imperar durante a Olimpíada...Houston, we have a problem! Falei com seis pessoas diferentes hoje e apenas uma tinha um inglês fluente. Infelizmente, ele me deu apenas o seu nome inglês, Boris, e quando liguei de novo a pessoa que atendeu o telefone não tinha a menor idéia de quem se tratava _obviamente, ela o conhece por seu nome chinês, que deve ser algo como Wang, Li ou Wei. “Boros? Borus?”, perguntava, enquanto eu dizia “Boris, Boris”. “Ah! Talvez você queira falar com o nosso BOSS”, falou, em um inglês capenga. Poderia ser, mas obviamente o boss não estava disponível.

Desisti do Boris e decidi começar tudo de novo, dizendo que gostaria de falar com alguém sobre visto para jornalistas estrangeiros _“visa”, em inglês, provavelmente uma das palavras mais pronunciadas no INTERNATIONAL Media Center. “Visa?!?!”, perguntava meu interlocutor. E eu: “Yes! Visa! Passport!”. Depois do terceiro “Visa?!?!”, desisti e decidi tentar mais tarde.

Finalmente consegui falar com outra pessoa que tinha um inglês razoável e tomei o cuidado de anotar seu nome em chinês. Quando liguei de volta para uma informação banal ela não estava na sala. Como queria apenas o número do fax do INTERNATIONAL Media Center, perguntei para a pessoa que havia atendido o telefone e recebi uma resposta com o mesmo tom de perplexidade da que está no primeiro parágrafo deste texto. “Fax?!?!”. “Yes, fax”, dizia eu, várias vezes, sem talento para repetir meu amigo Gilberto Scofield e começar a imitar o som do sinal de fax para tentar ser entendida. Desisti de novo, para finalmente conseguir o número quase no fim da tarde com a única pessoa com a qual era capaz de me comunicar.

INTERNATIONAL?!?!?!?!

 


14.07.08

por Cláudia Trevisan, Seção: Olimpíada 11:52:58.

As inúmeras lojas que vendem DVDs piratas em Pequim fecharam as portas e colocaram avisos de que os negócios estão “temporariamente” suspensos, em mais uma medida de maquiagem da cidade para os 500 mil turistas esperados para a Olimpíada. Os jardins estão impecáveis, o número de carros nas ruas será reduzido à metade e as centenas de construções serão interrompidas no período dos Jogos.

O governo pretende limitar o espaço para a diversão e determinou que todos os bares e casas noturnas fechem às duas da manhã durante a Olimpíada. Muitos estrangeiros que vivem na cidade tiveram que voltar a seus países em razão das restrições impostas pela polícia. Os trabalhadores migrantes que construíram todas as instalações para os Jogos também serão obrigados a deixar Pequim.

As autoridades proibiram a venda de carne de cachorro e continuam a campanha pelos “bons modos”, que incluem o respeito às filas e a proibição de que as pessoas escarrem nas ruas.
Não se sabe ainda o que vai acontecer com a meca da pirataria, o Mercado da Seda, localizado na mais importante avenida de Pequim. Fechá-lo pode provocar uma onda de instabilidade social _o maior temor das autoridades_ já que centenas de pessoas dependem dele para sobreviver.
Deixá-lo aberto pode comprometer a intenção do governo chinês de apresentar uma cidade livre de características vistas como comprometedoras, ainda que todo o mundo saiba que elas existiam antes e continuarão a existir depois da Olimpíada.

O grande risco é transformar Pequim em uma cidade morta e plastificada, onde todos estarão apresentando um grande espetáculo chapa-branca.

Não sei se todos aqui lêem o Estadão. Por isso, decidi reproduzir alguns textos da série sobre Pequim que o caderno de Esportes está publicando desde o dia 8. Agradeceria se vocês dissessem se têm interesse em que eu continue a colocar aqui os textos já publicados no jornal. Aí vai o primeiro:

A China que sediará a Olimpíada de 2008 é protagonista da mais espetacular transformação econômica da história, que tirou o país do isolamento e da pobreza de 30 anos atrás e mudou de maneira radical a vida de seu 1,3 bilhão de habitantes. O restante da humanidade assiste assombrada à emergência dessa nova potência, que no curto período entre 2005 e 2008, saiu da sétima para a terceira posição entre os maiores PIBs do mundo, deixando para trás Alemanha, Inglaterra, França e Itália.

A velocidade da mudança é tão grande que não é necessário recorrer à trajetória de pais e avós para relatá-la. A mesma geração viveu em diferentes Chinas ao longo das últimas três décadas, quando foi implementada a política de reforma e abertura.

Quem tem 40 anos hoje nasceu em um país mergulhado no delírio igualitário e violento da Revolução Cultural (1966-1976), passou a infância em um ambiente no qual a comida era racionada e o “terno Mao” dominava o guarda-roupa e chegou à adolescência logo depois de Deng Xiaoping, o idealizador das reformas, proferir a frase “o enriquecer é glorioso” _senha para as mudanças que estavam por vir.

O país onde ter uma bicicleta era o grande sonho de consumo é hoje o segundo maior mercado automobilístico do mundo, com 8 milhões de unidades vendidas no ano passado. Os chineses que viviam de costas para o mundo e combatiam o imperialismo americano se ocidentalizam com uma rapidez estonteante _na maneira de vestir, na crescente liberação sexual, na multiplicação de redes de fast-food, na paixão por grifes estrangeiras e no incipiente consumismo.

A reclusão das primeiras décadas da Revolução Comunista foi substituída pela sedução ao capital estrangeiro e a rápida integração à economia mundial. Deng Xiaoping e seus seguidores abraçaram com fervor a globalização e levaram a China a entrar na OMC (Organização Mundial do Comércio) em 2001. No mesmo ano, o país venceu a disputa para sediar a Olimpíada de 2008, concebida para coroar sua ascensão no cenário mundial.

Desde 1978, a China cresce a uma média de 9,6% ao ano, feito que nenhum outro país exibiu por tanto tempo. Neste ritmo, o tamanho da economia dobra a cada oito anos. A rápida expansão resgatou 400 milhões de pessoas da pobreza absoluta, segundo estimativa do Banco Mundial, no mais bem-sucedido programa de combate à pobreza da história.

Mas o Partido Comunista que perseguiu o sonho da igualdade sob Mao Tsé-tung (1893-1967) hoje governa um país no qual a distância entre ricos e pobres cresce de maneira alarmante. A meteórica ascensão é acompanhada do aumento das tensões e dos contrastes internos, na medida em que a prosperidade beneficia mais os moradores das prósperas cidades do leste do que os 56% da população chinesa que ainda vive na zona rural.

Enquanto Pequim e Xangai exibem uma legião de bilionários, milhões de camponeses ainda trabalhavam a terra com o mesmo arado de madeira puxado por búfalos utilizado há séculos no país.

 


29.06.08

por Cláudia Trevisan, Seção: A transformação 09:24:35.

A visita a qualquer banca de jornal da China revela que a parcela da população com uma conta bancária ligeiramente superavitária quer aprender a ser “cool”, ter estilo e estar na moda. O que mais vende no país são as revista que dão às mulheres _e aos homens_ uma bússola para se mover em um universo no qual a aparência e os símbolos de status têm influência crescente nas relações sociais. Em razão da estrita censura do governo, revistas semanais como "Veja" e "Época" não têm sucesso na China. Há uma ou outra que resumem as notícias da semana, mas o conteúdo político é totalmente oficialesco. As revistas que se dedicam à economia, finanças e a números supostamente desprovidos de conotação política têm tiragem e respeitabilidade maior.

Mas o que tem apelo mesmo é o mundo da moda e das celebridades. A brasileira Gisele Bündchen está na capa da "Vogue" chinesa de julho, vendida por 20 yuans, o equivalente a R$ 5. Madonna estampa a "Elle", enquanto o ator Tony Leung, do filme “Lust Caution”, divide a capa da "Marie Claire" com a modelo taiwanesa Lin Zhi Ling. O vendedor da banca em frente à minha casa disse que vende entre 20 a 30 exemplares de "Vogue" por mês e apenas cerca de 5 ou 6 da "Oriental Outlook", uma das revistas semanais. Em outra banca, a vendedora informou que vende cerca de 60 números de "Vogue" a cada mês e entre 30 e 40 de "Caijing", a principal revista financeira do país.

As chinesas também compram a "Cosmopolitan" _nome internacional de "Nova"_, que tem a mesma linha que a versão brasileira, centrada em sexo, carreira e táticas para agarrar o homem ideal. O primeiro item do índice da edição de julho era “estrelam falam de luxúria e moda”.

A busca de estilo não está restrita às mulheres e há várias revistas destinadas aos homens. Entre elas, a versão chinesa da "Bazaar Man´s Style". Na capa de julho, está Li Ning, o ex-atleta que enriqueceu depois de criar sua própria grife de materiais esportivos. Nas 218 páginas da revista, uma profusão de anúncios de marcas de luxo e reportagens sobre carros, Olimpíada, esportes, estilo, moda, consumo e decoração. Os homens chineses não podem comprar revistas pornográficas, vetadas pela censura, mas têm à disposição títulos que trazem mulheres em fotos sensuais, mostradas normalmente em ensaios de moda e consumo, como a "For Him Magazine". A China é o único país do mundo em que os homens consomem mais produtos de luxo que as mulheres (para mais detalhes, leiam minha reportagem publicada hoje no caderno de Economia do Estadão).
Outro sucesso de vendas são as revistas de fofocas. Como em qualquer lugar do mundo, os chineses também querem conhecer os detalhes da vida de seus ricos e famosos. As revistas falam sobre casamentos feitos e desfeitos, flertes, traições, triângulos amorosos e sexo. Os personagens são as novas celebridades da China e das vizinhas Hong Kong e Taiwan, de onde vêm muitos dos artistas que fazem sucesso no país.
Aí vão algumas fotos das revistas chinesas:

Detalhe de banca de revista em Pequim
Banca de revistas

Detalhe de banca de revista em Pequim
Banca de revistas

Capas de algumas edições de julho de revistas de moda
Capas

Duas das revistas masculinas
Masculinas

 


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Cláudia Trevisan é correspondente do Grupo Estado em Pequim e autora do livro "China - O Renascimento do Império"





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