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08.02.10
Já escrevi algumas vezes, mas não custa lembrar o por que de o Irã se tornar um problema. Até 2003, os iranianos possuíam dois inimigos nos países vizinhos. De um lado, Saddam Hussein, um líder árabe secular e com fobia da religiosidade do regime de Teerã. Os dois travaram a mais sangrenta guerra do Oriente Médio no século 20, com mais mortos do que todas as guerras árabe-israelenses somadas. Do outro, estava o Taleban, uma milícia radical sunita, aliada à rede terrorista Al Qaeda. Ambos possuíam uma visão do islamismo completamente diferente dos iranianos, majoritariamente xiitas. Para o aiatolá Ali Khamanei, os seguidores de Bin Laden são infiéis. Para os membros da Al Qaeda, os iranianos são infiéis.
Depois do 11 de Setembro, os Estados Unidos lideraram uma ação da OTAN (aliança militar ocidental) e da Aliança do Norte, composta por uma série de facções afegãs, para derrubar o Taleban, depois de a milícia se recusar a entregar Bin Laden. Alcançaram este objetivo e colocaram no poder o corrupto Hamid Karzai. Ironicamente, um amigo do Irã. Dois anos mais tarde, atacaram o Iraque, que não tinha nenhuma ligação com a Al Qaeda e tampouco possuía armas de destruição em massa. Como dito acima, era uma ditadura secular, controlada por árabes sunitas e cristãos, que reprimia curdos sunitas e árabes xiitas. No lugar do ditador, foi instalado um governo fraco, mas com o domínio dos xiitas, mais próximos do Irã.
Sem o risco de confrontos com os vizinhos, o Irã começou a querer se expandir. Mas acabou entrando em choque com outras três forças. A primeira, na verdade, são os americanos, de quem são inimigos desde 1979. Mas viviam uma espécie de trégua e um não oferecia ao outro uma ameaça direta. Agora, os americanos estão posicionados em duas fronteiras iranianas – justamente no Iraque e no Afeganistão. Israel passou a se sentir ameaçado pelo apoio iraniano ao Hamas, Hezbollah e à Síria. Além disso, em um fato inédito, um presidente iraniano (Mahmoud Ahmadinejad) começou a fazer discursos anti-semitas – algo surreal em um país onde os judeus vivem bem. Para completar, ditaduras e monarquias árabes, como a Arábia Saudita, o Egito e a Jordânia, se irritaram com a presença dos persas no mundo árabe.
Apesar de crescer e querer se expandir, o Irã ainda é um país fraco militarmente. Pode fazer frente à Arábia Saudita, mas não a Israel e aos EUA. Olhando para o passado e vendo os recentes acontecimentos no mundo, os iranianos aprenderam que os EUA não atacam países com armas atômicas, como o Paquistão e a Coréia do Norte. Mas ocupam países que não estejam armados. Para se proteger, o Irã quer desenvolver uma arma de destruição em massa, por mais que negue publicamente. Por este motivo, continua brincando com a comunidade internacional. Uma semana Ahmadinejad diz que enviará o urânio para ser enriquecido em outro país, como o Brasil ou a Turquia. Na outra, afirma que enriquecerá no próprio Irã. Com 20%, não dá para fabricar a bomba. Mas é um avanço no caminho dos 90%.
Não há saída diplomática. As sanções que os EUA e as potências europeias querem aplicar devem ser completamente inócuas (Cuba está de pé depois de décadas de embargo americano). Os iranianos não voltarão atrás no programa, a não ser que caia o regime. Há duas opções. Na primeira, Israel ou os EUA atacariam militarmente. O resultado é incerto e tampouco se sabe se a ação eliminaria a capacidade iraniana de ter armas nucleares, sem falar no risco de eclodir uma guerra regional. A segunda opção seria conviver com um Irã nuclear. O Paquistão, bem mais instável, possui a bomba e é uma ameaça à Índia, que também tem. Os EUA conviveram com a União Soviética. O próprio Irã tem que aceitar que Israel possua bombas atômicas. Os israelenses teriam que aprender a viver em um Oriente Médio em que não são a única potência nuclear. Sem falar que muitos analistas acreditam que o Irã quer apenas adquirir a capacidade de produzir a bomba, sem fabricá-la.
A hipótese de o Irã bombardear Israel, na minha opinião, é improvável. Primeiro, um ataque a Tel Aviv implicaria na morte de milhares de muçulmanos. Segundo, Israel e os EUA eliminariam em menos de uma hora todas as cidades iranianas com mais de 50 mil habitantes. Sem falar que os israelenses poderiam se defender antes de serem atingidos. Para completar, o regime iraniano não é louco. Caso fossem tão religiosos, não teriam fraudado as eleições e tampouco matariam e torturariam jovens. Trata-se de uma ditadura, como outras da região. De cunho xiita.
07.02.10
Os americanos costumam dizer que bilhões de pessoas ao redor do mundo assistem ao Superbowl, muitas vezes descrito como o evento esportivo de maior audiência no mundo. Sabemos que não é bem assim. No Brasil, nos anos 1980, era comum algumas pessoas perderem um domingo à noite para ver jogos do Denver Broncos ou do Dallas Cowboys no Show do Esporte na TV Bandeirantes. Era uma época em que Luciano do Valle conseguiu difundir alguns esportes americanos no Brasil, como a Fórmula Indy, e levar adiante o mito Maguila e a seleção brasileira de Masters.
Atualmente, no Brasil, imagino que o Superbowl seja transmitido na TV a cabo e tenha uma audiência de “nicho”, como costumam dizer no marketing. Seriam adolescentes e jovens adultos que viveram nos EUA ou ganharam interesse pelo futebol americano através de videogames ou mesmo assistindo a partidas na TV. Mas estamos longe de dizer que milhões de brasileiros param para ver o Superbowl. Não é muito diferente na Europa, na África, no Oriente Médio. O evento certamente possui menos audiência do que uma final de Copa do Mundo e provavelmente bem menos do que a final da Copa dos Campões na Europa.
Porém, nos EUA, é o grande evento esportivo do ano, apesar de o futebol americano não ser necessariamente o esporte mais popular do país. Na verdade, existem três grandes esportes. O baseball sempre foi descrito como o maior passa-tempo dos americanos. Os times jogam bem mais de cem vezes na temporada, quase sempre com estádios lotados. Os craques costumam ter nomes hispânicos, como Alex Rodriguez, ou asiáticos, como Matsui. No passado, também tinham os italianos, como Joe DiMaggio. O basquete teve seu auge nos anos 1980 e 1990, com uma gerações de gênios, como Larry Bird, Magic Johnson e, acima de tudo, Michael Jordan – este último, certamente um dos maiores atletas da história da humanidade, independentemente do esporte. E, claro, existe o futebol americano, marcado pelos quarterbacks, que possuem a função de armar as jogadas de seus times, como o craque Peyton Manning, em campo hoje pelo Colts, Tom Brady, marido da Gisele Bündchen, ou heróis do passado, como Joe Montana.
Definir o mais popular fica difícil. Depende da cidade e da geração. O baseball certamente é o esporte mais acompanhado em Nova York, onde há o Yankees, melhor equipe dos EUA, e em Boston, com o mítico Red Sox. Los Angeles e San Antonio preferem o basquete. Dallas, Denver, Indianápolis e muitas outras cidades americanas são fãs do futebol americano. Nas universidades e nas high-schools, não há discussão. O futebol americano é disparado o mais popular e uma série de cerimônias, como o home coming, são celebradas ao redor de partidas. Universidade como Notre Dame construíram seu nome com os seus times futebol americano. O basquete possui alguma importância, enquanto as partidas universitárias de baseball são praticamente ignoradas. Os craques do futebol americano cursaram universidades, onde são recrutados para jogar em times profissionais. Os de baseball, muitas vezes, são buscados em peneiras em San Pedro do Macuri, conhecida como a terra dos “peloteros” na República Dominicana. A final do futebol americano, conhecida como Superbowl, apenas tem mais audiência por ser um jogo único, enquanto no basquete e no baseball as disputas são definidas em uma série de partidas.
Porém, ironicamente, o esporte mais praticado dos EUA não é nenhum dos três acima. É o futebol nosso, denominado “soccer” pelos americanos. Contribui, claro, o fato de ter adeptos dos dois sexos e ser mais simples de ser disputados, sendo necessária apenas uma bola – neste quesito, apenas o basquete pode ser equiparado.
Por este motivo, como escrevi aqui certa vez, não é difícil prever que os EUA, em breve, se tornem uma potência mundial deste esporte. Precisaria ocorrer com o futebol o que vem sucedendo com o snowboard. Até uma década atrás, os melhores atletas das neves optavam pelo esqui na hora de competir, considerando o snowboard uma atividade marginal. Hoje, isso mudou. O esqui virou dos “nerds”, como me disseram em Aspen, enquanto o snowboard atrai os grandes talentos. Consequentemente, os principais ídolos americanos na Olimpíada de inverno, que começa nesta semana no Canadá, usam pranchas e não esquis.
No futebol, os atletas ainda são os nerds. Não houve essa mudança. Mas, aos poucos, alguns dos grandes talentos decidem marcar gols em vez de fazer touchdowns, homeruns ou cestas. Será questão de tempo para um Michael Jordan ou um Peyton Manning, na high school, digam que querem entrar no time de futebol, e não no basquete ou no futebol americano. Neste dia, os EUA poderão conquistar uma Copa do Mundo. No snowboard, iniciado em Vermont nos anos 1980, esta mudança não demorou nem uma década. Sem falar na capacidade americana de montar times, como o de hóquei em 1980, o de vôlei, em 1984, e o de pólo aquático, no ano passado.
05.02.10
As colinas do Golã eram da Síria quando o país se tornou independente nos anos 1940. Em 1967, depois de uma guerra, Israel ocupou o território alegando questões de segurança. Voltaram a ocorrer confrontos na guerra de 1973. Nos 37 anos seguintes, a região ficou calma, sem o registro de nenhum ataque, graças a um cessar-fogo negociado por Henry Kissinger. Nem mesmo durante a guerra civil libanesa ocorreram combates. Nos anos 1980, as colinas foram anexadas por Israel em ato considerado ilegal pelas Nações Unidas e não reconhecido por nenhum outro país do mundo, o que inclui os Estados Unidos. Os israelenses ainda utilizam o argumento da segurança para justificar a ocupação. Porém construíram estações de esqui e trilhas para caminhada, chegando a fazer propaganda em revistas americanas.
O comandante da UNDOF (forças de paz no Golã) me disse, quando visitei as colinas em sua companhia em 2008, que Israel não precisa ocupar as colinas para garantir a sua segurança. Na verdade, segundo ele, a região é estratégica pela grande quantidade de água, em falta tanto em Israel como na Síria. No passado, diversas vezes, os dois países estiveram próximos de chegar a um acordo. Na última vez, em dezembro de 2008, as negociações entre Bashar al Assad e o ex-premiê Ehud Olmert estavam avançadas, com a mediação da Turquia.
Agora, mais uma vez, diziam que os dois lados estavam prontos para se sentar de novo à mesa para dialogar. Até o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, decidir atacar verbalmente os sírios e atrapalhar a aproximação. “Eu acho que a mensagem precisa ser clara para Assad. Na próxima guerra, sua família perderá o regime. Você não continuará no poder, nem a sua família", disse. A declaração, segundo autoridades israelenses, teria irritado o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Afinal, o premiê de Israel sabe da incapacidade de Lieberman para ser chanceler do Estado mais avançado do Oriente Médio e com dezenas de profissionais mais qualificados para chefiar a diplomacia. Sabe ainda que o seu ministro apenas prejudica a imagem externa de Israel, inclusive com aliados como o Egito e a Turquia. Mas é obrigado a mantê-lo para a sua coalizão não cair. A situação seria mais simples se houvesse um acordo com Tzipi Livni, bem mais respeitada internacionalmente do que Lieberman.
A Síria certamente não é um exemplo de democracia. O regime reprime a oposição e exerce uma influência pouco saudável no Líbano. Mas, no mundo árabe, todos sabem que não há nada melhor para Israel do que o regime de Assad. Secular, que reprime os radicais islâmicos e, acima de tudo, mantém a fronteira no Golã calma. Verdade, tem uma aliança com o Irã (o Brasil e a Turquia também) e dá apoio ao Hamas. Em relação ao Hezbollah, a relação é muito mais complexa e nem cabe discutir aqui neste post. Apenas lembro que o comandante militar da organização morreu na explosão de um carro-bomba em Damasco.
Em vez de pensar em derrubar o regime sírio, Lieberman deveria incentivar as negociações. As colinas, obviamente, precisam ser devolvidas, mas Israel pode pedir contrapartidas. Como no caso do Sinai, exigir que os sírios não mobilizem tropas para a região. Insistir na manutenção das forças da UNDOF. E tentar manter pelo menos parte do fornecimento de água. No caso do Hamas, a Síria pode ser útil, servindo como mediador em um diálogo do Hamas com Israel. Acima de tudo, um acordo com a Síria pode ajudar a isolar o Irã, por mais que as relações entre Damasco e Teerã não sejam rompidas.
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04.02.10
Daqui a pouco, as pessoas dirão nos Estados Unidos e em alguns lugares da Europa que são descendentes de brasileiros. No fim de semana, estive em uma estação de esqui do Colorado. E notei que, além da tradicional elite paulista que frequenta as estações de Aspen, Vail e Snowmass, as montanhas estavam lotadas de trabalhadores brasileiros que se mudaram para o “velho-oeste” atrás de dinheiro, de um amor ou mesmo de uma aventura. Não estavam nas neves para aprender snowboard ou esqui. Estavam servindo mesas nos restaurantes e atendendo pessoas nas lojas. Alguns são imigrantes definitivos. Deixaram o Brasil para viver nos EUA definitivamente. Não apenas por quatro, cinco anos, até conseguirem juntar dinheiro. Querem ficar aqui, ter filhos aqui e se aposentar aqui, seja no Colorado, na Flórida ou em Nova York. São tão imigrantes quanto irlandeses, gregos ou italianos que passaram por Ellis Island há mais de um século.
Um exemplo é a Gisele Bündchen, que se mudou de vez para os EUA e deve envelhecer em Boston ou no West Village, distante da sua Horizontina. Seu filho, Benjamin, dirá que tem origem brasileira, e não alemã, como a mãe. Outro dia, notei que sites especializados em pólo aquático descreviam Tony Azevedo, capitão da seleção americana e medalha de prata na Olimpíada, como americano de origem brasileira. Paulo Klüber, um amigo meu e ex-estudante da Universidade Columbia, nasceu em Ponta Grossa, no Paraná. Conversando com ele, logo se nota pelo sotaque suas longas passagens por Los Angeles, Washington DC, e agora Nova York, apesar de ele insistir com veemência sua origem brasileira. Neste caso, ele ainda ressalta a ascendência alemã do Volga, de ancestrais que antes de imigrarem para o Brasil passaram um século na Russia. Mas seus filhos talvez afirmem que são descendentes de brasileiros.
Isso tudo é estranho para nós brasileiros. Somos acostumados na classe com colegas descendentes de italianos, portugueses, alemães, judeus-poloneses, sírios, africanos e japoneses. Verdade, existem os quatrocentões que se dizem de “famílias tradicionais brasileiras”. Mas estes são a mistura de portugueses, africanos e indígenas. Aliás, os índios são os que poderiam dizer serem originalmente brasileiros. Mas são apenas uma parcela pequena da população e sem histórico de se mudar para outros países, a não ser os fronteiriços.
Ao mesmo tempo, o inverso ocorre. Países que no passado viam seus habitantes embarcando em navios para fazer a América, hoje recebem moradores nascidos no outro lado do Atlântico. Na Espanha, Itália, França, Alemanha começam a haver classes como as paulistanas, com pessoas com sobrenomes diferentes dos tradicionais. Em vez de Buenos Aires receber espanhóis, Madri recebe argentinos. Ninguém acreditaria neste cenário mesmo até a metade do século 20. Aliás, nem mesmo até o fim do franquismo, nos anos 1970.
Mas, voltando ao assunto “descendentes de brasileiros”, não podemos esquecer de Americana, no interior de São Paulo. Nesta cidade, houve uma imigração no fim do século 19 de americanos do sul dos EUA. Entre eles, descendentes do general Lee. Aliás, aí já está a explicação para o sobrenome da Rita Lee, uma descendente de americanos.
Meu bisavô libanês Hanna Chacra chegou a viver nos EUA no início do século passado, quando nasceu meu tio-avô Mansur, em New Hampshire. Posteriormente, voltou ao Líbano, onde nasceu meu avô Adib, antes de imigrar definitivamente para o Brasil. Os netos do ramo do Mansur, esnobando, se dizem descendentes de “americanos”, e não de libaneses. Ironicamente, o meu sobrinho poderá dizer a mesma coisa, já que meu irmão nasceu nos Estados Unidos nos tempos em que meus pais viviam no Texas. Será “um descendente de americanos”, não de libaneses e italianos, como seriam os meus, ainda não nascidos.
Daqui algumas décadas, viajando por Aspen, talvez encontre alguém perdido com a camisa do Cruzeiro dizendo em inglês que era do avô que imigrou de Minas Gerais. O português dele terá sido esquecido. Provavelmente, nem saberá que o seu time se chamava Palestra Itália e foi fundado por imigrantes italianos para Belo Horizonte. É o novo mundo. O Brasil deixou de ser a terra dos imigrantes para ser o país dos emigrantes. E já temos a nossa geração de “nisseis” – os descendentes de brasileiros.
02.02.10
Escutei várias vezes brasileiros relatando para estrangeiros no exterior histórias de pessoas que andam em carros blindados e de helicóptero no Brasil. Dá uma idéia de Blade Runner, como se fossemos assaltados em qualquer esquina de São Paulo ou do Rio. Na verdade, como sabemos, 99,99% dos brasileiros vão de carro, de ônibus, metrô ou mesmo a pé para o trabalho. Raros são os que já subiram em um helicóptero.
Ao mesmo tempo, não deixa de ser verdade que há mais carros blindados no Brasil do que em qualquer outro país do mundo em tempos de paz. Portanto, é um sinal da situação brasileira a existência destes veículos. O mesmo vale para os helicópteros. Apesar de ser um percentual quase irrelevante, ainda assim é maior do que o das maiores cidades do mundo. Levando em conta, claro, que helicópteros são proibidos de sobrevoar algumas áreas de Nova York e de outras cidades.
No Oriente Médio, não é muito diferente. Não ocorrem atentados terroristas em Israel diariamente. Mas, entre 2000 e 20006, eles eram mais comuns do que em quase todos os países do mundo, menos o Iraque e o Sri Lanka. Isso não quer dizer que em Tel Aviv não exista vida normal, com jovens praticando kite-surf.
Na Guerra Civil do Líbano, como escreveu Thomas Friedman no seu livro “De Beirute a Jerusalém”, o torneio de golfe de um clube local foi cancelado por alguns meses. Mas continuou por grande parte dos 15 anos de conflito. Isto é, mesmo em uma guerra, os tiroteios não ocorrem o tempo todo. A vida segue. Adolescentes se formam na escola, alguns seguem para a faculdade, outros são contratados para o primeiro emprego, idosos se aposentam e, às vezes, até o cinema funciona normalmente. Nas férias, libaneses mais ricos viajavam para Europa e voltavam depois de um mês. Guerra não é apenas morte, apesar de muitas pessoas morrerem.
O exagero ocorre também em relação à posição das mulheres no mundo árabe e/ou islâmico. Ou da proibição das bebidas. Mulheres muçulmanas usam burkas. Mas também biquínis. Outro dia, no Facebook, um grupo de amigos palestinos de Ramallah organizava a balada e falava como se estivesse em São Paulo ou Barcelona. Comentavam sobre músicas, discutiam quais seriam as bebidas e se haveria muita paquera. Em Beirute, a vida noturna talvez seja mais movimentada do que em Belo Horizonte ou Curitiba. Certamente é mais cosmopolita. Meninas xiitas também ficam, beijam na boca, dançam. Aliás, o símbolo da mulher sexy no Líbano é uma xiita chamada Haifa Wehbe. Outras seriam mais conservadoras.
Verdade, muçulmanos bebem menos e o alcorão é contra o álcool. Mas sírios e libaneses disputam quem fabrica o melhor arak (licor de anis). E os vinhos do vale do Beqa ganham mercado.
Isto não significa que as sociedades árabes, incluindo a libanesa, sejam tão liberais quanto a sueca ou a brasileira. Na verdade, são bem mais conservadores. Porém existem várias outras faces. Também dizem que muçulmanos são radicais. Muitos deles são mesmo, como os integrantes da Al Qaeda. Talvez, em um percentual maior do que no judaísmo ou no cristianismo, onde também há radicais. Isso não significa que todos - ou a maioria - sejam radicais. Ou que, mesmo entre os radicais, ou conservadores, a maior parte defenda ataques suicidsa e odeie o Ocidente. Por este motivo, fica complicado estereotipar muçulmanos. Assim como não dá para dizer que no Brasil andamos de carros blindados e helicópteros.
01.02.10
Por muitos anos, no Oriente Médio, líderes falavam em paz e pouco avançavam. Verdade, no início dos anos 1990, Yitzhac Rabin e Yasser Arafat conseguiram estabelecer uma inédita confiança entre israelenses e palestinos. Os dois lados imaginavam um futuro em que os dois povos viveriam em paz em Israel e na Palestina.
Nesta época, e especialmente depois da morte de Rabin, as promessas ficaram nas palavras. Arafat nada fez para conter os atentados terroristas que mataram centenas de civis israelenses e transformaram, no imaginário internacional, a causa palestina em uma causa suicida. E mesmo premiês supostamente pacifistas, como Shimon Peres, construíram milhares de casas no território que seria destinado aos palestinos. Sem falar no bombardeio de Qana em 1997, durante a operação Vinhas da Ira, matando mais de cem civis em um abrigo da ONU no Líbano. Netanyahu jamais levou adiante uma operação militar desta dimensão.
Agora, Benjamin Netanyahu é criticado em todo o mundo. Condenar Israel se tornou o esporte favorito de europeus e mesmo de certa parcela dos americanos. O primeiro-ministro se tornou um inimigo da paz na visão deles. Ao mesmo tempo, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, pode ser classificado como bem intencionado, mas poucos acreditam na sua autoridade.
Deixando a superfície, porém, Netanyahu e os palestinos mudaram. E para melhor. O líder israelense concordou em congelar a expansão dos assentamentos na Cisjordânia. Rabin, Peres e Barak não fizeram isso. Ariel Sharon deixou Gaza e quatro pequenas colônias na Cisjordânia, mas expandiu várias outras. Mesmo em Jerusalém, Netanyahu está distante de ser o mais radical líder israelense.
Este blogueiro uma série de vezes escreveu que Tzipi Livni seria melhor para Israel do que Netanyahu. Ainda acredito que, em termos de relações públicas, certamente a ex-chanceler teria vantagem, especialmente em um momento em que os EUA são governados por Obama e a secretária de Estado é Hillary Clinton. Mas, para a paz, talvez Netanyahu seja mais importante e forte para firmar um acordo. Sem falar no seu talento para administração da economia.
No campo palestino, a idéia dos atentados suicidas da Segunda Intifada foi substituída pelos métodos da Primeira Intifada. Se ocorrer um terceiro levante na Cisjordânia, como muitos suspeitam, será como nos anos 1980. Jovens atirando pedras em soldados (o que, aliás, já começou e com a ajuda de liberais israelenses). A desobediência civil deve crescer, em detrimento de ataques inócuos como explodir cafés em Jerusalém ou lançar foguetes caseiros em Ashkelon.
O comprometimento de Netanyahu e a valorização da Primeira Intifada em detrimento da segunda são dois fatores que podem contribuir para o avanço da paz.
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28.01.10
O presidente dos EUA, Barack Obama, no seu discurso do State of the Union, ontem, em Washington, praticamente não tocou em política externa, preferindo se concentrar em temas domésticos, como a crise econômica e reforma do sistema de saúde. Ao falar do resto do mundo, insistiu no fim da guerra do Iraque, do início do retorno das tropas do Afeganistão a partir de julho de 2011, citou o Irã e a Coréia do Norte em uma frase e se comprometeu em reduzir o arsenal nuclear em acordo com a Rússia.
Basicamente, para Obama, o que interessa é desvincular os EUA do restante do mundo, preocupando-se mais com as questões internas dos americanos. Em recente artigo na capa da revista Foreign Policy, o cientista político Walter Russell Mead explicou que o atual presidente segue a corrente jeffersoniana de política externa, uma das quatro existentes nos EUA.
Os jeffersonianos priorizam a política doméstica dos EUA. Não acham obrigatório os EUA transformarem o mundo. Para eles, o que se passa no Iraque é problema dos iraquianos. Os americanos devem evitar se envolver em assuntos que não estejam diretamente ligados a eles. Notem que o atual presidente quer os EUA fora de todos os conflitos no mundo. Quase sempre os jeffersonianos são do Partido Democrata.
Ao mesmo tempo, segundo Mead, Obama tem um pouco dos wilsonianos. Estes acreditam que os EUA devam defender os valores universais como os direitos humanos e a democracia ao redor do globo. Apoiam intervenções como a de Kosovo ou em lugares como Darfur, onde não existem interesses americanos envolvidos. O objetivo dos wilsonianos é propagar o que há de melhor dos EUA no mundo. Obama teve seu caráter wilsoniano ao tentar se aproximar dos muçulmanos. Há wilsonianos tanto no Partido Democrata como no Republicano. Por mais irônico que possa parecer, os neo-conservadores, ao buscarem estabelecer a democracia no Iraque, foram wilsonianos.
O terceiro grupo é dos hamiltonianos. São os realistas, como George Bush (o pai) e Henry Kissinger. Estes defendem os interesses, e não os valores americanos. Não acham que os americanos sejam capazes de transformar o mundo. Portanto, o importante é manter os valores internamente e lutar para que os EUA conquistem novos mercados e parceiros no exterior, independentemente de alianças com regimes como o da China ou o da Arábia Saudita. Sabem ser muito difícil transformar estes países em democracias como a Suécia ou o Canadá e, mais do que isso, sequer acham que esta seja uma obrigação dos americanos. Também há democratas hamiltonianos.
Os jacksonianos são o último grupo. Acreditam que os EUA não devam se envolver com o que ocorre no exterior, como os jeffersonianos. Mas acabam se posicionando à direita. E, quando os EUA forem provocados ou mesmo ameaçados, acham que não existe necessidade de perder tempo com diplomacia e as forças americanas devem ser utilizadas. Não vão lutar para defender os valores americanos, como os wilsonianos, ou os interesses, como os hamiltonianos. Pretendem lutar pelos EUA contra países ou grupos inimigos. Algumas vezes, depois de ataques, como em Pearl Harbor ou no 11 de Setembro. Outras, preventivamente, como no caso do Iraque e, agora, do Irã.
Apenas para exemplificar nos últimos governos.
1) Carter = jeffersoniano + wilsoniano
2) Reagan = hamiltoniano + jacksoniano
3) Bush (o pai) = hamiltoniano
4) Clinton = hamiltoniano + wilsoniano
5) Bush (o filho) = wilsoniano + jacksoniano
6) Obama = jeffersoniano + wilsoniano
Logo, Obama estaria mais próximo de Carter do que de qualquer outro presidente recente
Pergunto aos leitores, qual linha vocês seguiriam se fossem presidente dos EUA? E do Brasil? Eu seria hamiltoniano nos dois casos. Como deixei claro aqui, considero o Bush (pai) o melhor presidente americano em política externa das últimas décadas
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27.01.10
Neste dias em que estive no Haiti e, depois, ao continuar escrevendo sobre o assunto, notei uma necessidade de muitos leitores de discutir a questão da ajuda israelense aos haitianos. Não consegui entender e sequer ver relação disso com o conflito no Oriente Médio. Muitos países do mundo ajudaram. Com Israel, não foi diferente. Apesar de o país ter uma imagem ligada ao militarismo, os israelenses são uma das nacionalidades mais avançadas em medicina, resgate, tecnologia. Graças ao desenvolvimento militar, conseguiram enviar um hospital de campanha espetacular para ajudar os haitianos. A Espanha e o Brasil também enviaram. O nosso foi barrado no aeroporto de Porto Príncipe pelas tropas americanas e demorou 24 horas para conseguir pousar. O argumento americano foi de elevado tráfego aéreo, mas aeronaves carregando jornalistas conseguiram pousar, e a brasileira não.
Ao mesmo tempo, alguns criticaram a falta de apoio dos árabes, como se o episódio fosse uma competição, e não uma tragédia que matou em 30 segundos mais pessoas do que todas as guerras somadas até hoje envolvendo Israel e seus vizinhos árabes – na região, só os dez anos de combates entre iranianos e iraquianos mataram mais.
Honestamente, no Haiti, das últimas coisas que eu pensava era nesta competição. Como afirmei aqui, não pesquisei sobre a ajuda dos árabes. Vi dois cargueiros do Qatar pousando no aeroporto e sei que o contingente da Jordânia na MINUSTAH é um dos maiores. Oficialmente, soube que a Arábia Saudita doou US$ 50 milhões em ajuda humanitária por meio de um fundo da ONU. Obviamente, libaneses, palestinos e iraquianos, dependentes de ajuda externa, não possuem a menor condição de contribuir com ajuda ao Haiti.
Independentemente de qualquer coisa, a ajuda israelense é positiva porque mostra um lado de Israel muitas vezes fora da mídia. Mas que, no fundo, tem admiração até mesmo dos árabes. Ao contrário do que imaginam ou dizem muitas pessoas, palestinos, sírios e libaneses não acham que Israel seja apenas uma máquina de guerra. Os palestinos admiram o sistema jurídico israelense, suas universidades, seus hospitais. Os libaneses também acham marcante o nacionalismo israelense e sempre se sentiram à vontade com a comunidade judaica na diáspora.
O mesmo vale inversamente. Os israelenses não acham que os palestinos sejam apenas sinônimo de terrorismo. Outro dia, li que parte da identidade nacional israelense está no hommus. Mas que qualquer cidadão de Israel sabe que os melhores hommus são feitos pelos palestinos – isso, claro, porque a fronteira com o Líbano ainda está fechada.
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24.01.10
“Pó coronel, a droga da internet caiu de novo. Será que não tem ninguém da engenharia para arrumar?”, reclamou um jornalista na hora do fechamento para o coronel Alan Santos, responsável pela comunicação social do Exército em Porto Príncipe. Era mais um episódio de um big brother que misturou jornalistas e militares na base brasileira na capital haitiana. Não foi fácil, no começo, a “ocupação” do quartel-general brasileiro no Haiti pelas tropas de jornalistas armados com seus blocos, câmeras e laptops e sem um lugar para ficar em um país arrasado. Fui um dos dois primeiros a chegar, ao lado de repórteres da Folha e de O Globo. Era o início da cobertura do terremoto que deixou dezenas de milhares de mortos.
Ao desembarcar em Porto Príncipe, não tinha idéia de onde poderia dormir ou comer. Os dois melhores hotéis, o Montana e o Christopher, haviam desmoronado, soterrando centenas de pessoas, incluindo a cúpula das Nações Unidas no Haiti. Os restantes estavam condenados, sem falar no risco de tremores secundários. A única salvação era a base militar brasileira, para onde rumei. É uma área ampla, com uma série de prédios pré-fabricados que não sofreram danos no terremoto. Dentro, além dos mais de mil militares, estavam provisoriamente 70 haitianos feridos e os corpos de 14 soldados esperando o translado para o Brasil.
Ao chegar, fui encaminhado, como os outros repórteres, para a sala do G7, como é conhecido o departamento de comunicação social. No começo, os militares não queriam permitir que utilizássemos o sinal de wi-fi e tivemos que nos revezar em um computador para enviar os nossos relatos sobre o terremoto. Tampouco garantiram que teríamos uma cama para dormir. Dissemos que ficaríamos em qualquer lugar, mas que precisávamos dormir na base, certamente o lugar mais seguro e um dos poucos intactos de Porto Príncipe. Quando arrumaram a acomodação, já haviam chegado também repórteres da rede Globo, BAND, Zero Hora e TV Brasil. E a situação da internet tinha se normalizado. O Exército disponibilizou uma rede de wi-fi especialmente para os jornalistas. Em poucas horas, as Forças Armadas já davam todo o apoio logístico para o nosso trabalho, incluindo caronas em carros de patrulha pelas ruas de Porto Príncipe.
Na hora do jantar, um soldado nos levou para o refeitório. E explicou que, de um lado, comiam cabos, soldados e sargentos. Do outro lado, coronéis e generais. No meio, oficiais como capitão, major e tenente. “A comida é a mesma, mas vocês devem se sentar com os oficiais”, disse um sargento. Tudo bem. Comemos arroz, feijão, carne cozida com batata e bebemos suco. Faltava ainda conhecer o quarto. Ou melhor, a tenda com cerca de dez colchões estirados no chão que praticamente dobraram no dia seguinte. Ao contrário do Big Brother da TV, em vez de sair, entravam novos participantes. SBT, IG e revista Veja. Sem falar nos tradutores, que não tinham mais casas. As suas caíram com o terremoto. Todos juntos no mesmo quarto. A não ser pela BAND. Mais prevenido, o repórter Fabio Panuzzio e o cinegrafista Nivaldo Lima levaram as suas barracas e até mesmo uma panela de pressão para cozinhar arroz e feijão e acamparam ao lado da tenda da imprensa. O guia deles, Junior, um haitiano de uns 13 anos, dormiu com a gente e teve que aguentar o ronco de um repórter da concorrência. As mulheres foram acomodadas em um alojamento um pouco melhor, divididas em quartos com dois beliches cada.
E, claro, há a questão do banheiro. Eram vários, espalhados pelo quartel. Deveríamos usar um que era denominado “Uruguai”. Mas, como em todo acampamento de adolescentes, os jornalistas foram descobrindo outros melhores, ainda que um pouco mais distantes do quarto. Com pouco espaço na mochila, muitos, como este repórter, esqueceram da toalha. Sem falar na pasta de dente, que não pôde nem embarcar no aeroporto JFK, em Nova York. Tomávamos banho e nos enxugávamos com a camiseta que havíamos utilizado durante o dia para depois vestir a roupa dentro do box do chuveiro . Eu ainda recebi, depois, uma toalha de rosto, trazida pelo Lourival Santanna. Com os dias, fomos nos adaptando. A equipe do SBT descobriu, por exemplo, que nas acomodações da engenharia serviam doce de leite e coca-cola. No dia seguinte, até mesmo os canais concorrentes já estavam jantando com os engenheiros responsáveis pelos resgates. Em um momento, os militares notaram que, enquanto assistiam a uma reportagem do terremoto no Jornal Nacional, o repórter Rodrigo Alvarez, da rede Globo, estava na mesa ao lado.
Como em um programa de TV, rapidamente foi determinado que um americano da BBC seria o inimigo. Ele estava desde o início na base, mas não falava nada de português. Cometeu o pecado de pedir para um repórter brasileiro fazer silêncio quando entrou no ar. Alguns, brincando, pediam ao coronel para mandar “o gringo embora” porque os americanos não nos deixariam entrar na embaixada deles. “Por que ele não vai para lá?”, afirmavam em tom de gozação. Claro, o tratamento dispensado a uma fotógrafa americana também hospedada na base era diferente, já que ela era bonita. Ou, como diriam os soldados, “acho que vocês já estão há muito tempo neste quartel”. Durante todo o período, não ocorreu nenhum conflito. Jornalistas e militares ficaram amigos. E o coronel virou quase nosso editor. “Vamos fechar que já está tarde”, disse, apressando os repórteres a enviarem suas matérias para poder trancar as portas da sala do G7. Não adiantava. Os repórteres continuavam trabalhando do lado de fora e despertavam antes mesmo da alvorada militar, às 6h da manhã.
OBS1. Matéria minha publicada no caderno Aliás do Estadão
OBS2. Este post será o último diretamente ligado ao Haiti. Lógico, não esquecerei os haitianos e acompanherei de perto o que acontece na ilha de Hispaniola. Mas voltarei com outros assuntos. Demorei um pouco porque minha experiência no Haiti foi algo que me marcou muito. Insisto, o Haiti não fica no Oriente Médio. Em posts anteriores, infelizmente, comentaristas levaram para este lado. Um pouco, por falha minha, que deixei passar. Peço desculpas. Mas evitem comentários relacionando o conflito árabe-israelense com o terremoto no Haiti. Também peço desculpas por não responder aos comentários. Teoricamente, estou de folga. Mas não consigo parar com o blog. Neste, volto a responder
23.01.10
Há uma semana, conversei com Mensy Desfeignes, uma haitiana de 17 anos que vive desabrigada com a família no estádio nacional de Porto Príncipe. Bem vestida e fluente em inglês e outras línguas, a menina, apelidada de Kym pelos seus pais, pertence a uma família de classe média. Eu a descrevi como uma Patricinha não no sentido pejorativo, mas no de ser bonita e arrumada. Longe de ser alienada. Assim como a maioria dos haitianos, seus pais perderam tudo no terremoto, inclusive a casa. Agora, eles dependem da ajuda humanitária distribuída aos sobreviventes.
Na conversa com o Estado, Kym relatou a sua história e deu o número do telefone de sua irmã, Gaele, que mora em Nova York. “Tente avisá-la que estamos bem”, pediu. Desde terça-feira, quando retornei de Porto Príncipe para Nova York, vinha tentando ligar para a irmã. Todas as vezes, a mesma mensagem - “The person you have called is unavailable right now. Please, try again latter” (A pessoa para quem você ligou agora não está disponível. Por favor, tente mais tarde). Depois de muita insistência, o telefone tocou três vezes na sexta-feira pela manhã e deu caixa postal. Minutos depois, o número de Gaele aparecia no identificador de chamada do celular. Era ela retornando a ligação.
“Sou um repórter brasileiro que esteve no Haiti e encontrou a sua família. Sua irmã, a Kym, pediu que eu avisasse que todos estão bem. Seu pai, sua mãe, ela e o seu irmãozinho sobreviveram e não ficaram feridos”, afirmei. “Você viu a minha família? Como eles estão, como eles estão?”, gritava de felicidade a jovem estudante de enfermagem. Repeti mais uma vez que todos estavam bem, até ela se acalmar. A haitiana já tinha recebido informações desencontradas sobre o que havia ocorrido com os parentes. E ficou triste por saber que sua família agora vive desabrigada. Sua casa, o quarto onde viveu, todas as suas memórias desmoronaram no terremoto do dia 12 de janeiro.
“Agora, vou tentar trazê-los para cá. Para morar comigo. Não será fácil, mas talvez a Kym consiga. Ela se formou com honra, em primeiro lugar, na escola dela. Podemos tentar uma bolsa de estudos. O inglês dela é perfeito. Minha irmã é muito inteligente, você deve ter percebido”, contou Gaele. Moradora do Brooklyn, ela diz que pretende ir em breve para o Haiti, para ver a família. Mas não sabe se terá condições por causa das aulas e de sua filha de quatro anos. Tampouco tem idéia do que a espera na cidade onde cresceu. “Como eles estão vivendo no estádio? Quem cuida deles?”, perguntou a haitiana. Respondi que o local tem a segurança das tropas brasileiras e recebe ajuda humanitária fornecida pelo Exército dos EUA. Na verdade, quando conversou comigo, Kym havia reclamado. “Não era para estar aqui, nesta fila, morando neste estádio, implorando por comida e água”, disse na semana passada.
Mensy e Gaele deram sorte por eu ter conseguido avisar sobre a sua família. O terremoto em Porto Príncipe deixou dezenas de milhares de haitianos residentes em Nova York desesperados para conseguir informações de seus familiares no Haiti. A maioria deles não sabe o paradeiro de seus parentes. Na capital haitiana, o inverso acontece. Sobreviventes buscam uma forma de avisar que estão bem para pais, filhos, irmãos e irmãs que vivem nos Estados Unidos. E também para sonhar com um visto que os retire do devastado Haiti. Mas a comunicação ainda é precária e mais de dez dias depois do terremoto a falta de informação ainda deixa as pessoas ansiosas para receber e enviar notícias.
21.01.10
Viagem
Milhares de moradores de Porto Príncipe buscam refúgio no interior do Haiti, sem tentar partir para outros países do Caribe e mesmo os EUA, como nos anos 1990. Diferentemente do que vem sendo alertado pela ONU, são raros até mesmo os casos de haitianos que tentam atravessar para a República Dominicana, também localizada na ilha de Hispaniola, apesar de haver pacientes sendo tratados em hospitais dominicanos, conforme verificou o Estado ao viajar da capital haitiana para Santo Domingo.
A estrada de Porto Príncipe até a fronteira estava livre. Foram necessários 45 minutos para atravessar os cerca de 50 km que separam a capital haitiana da República Dominicana. Logo depois de sair dos subúrbios de Porto Príncipe, já quase não é possível ver destruição. Alguns mercados estavam abertos em vilas nos arredores da cidade. Em um grande lago, a poucos minutos da divisa, meninos pescavam e brincavam em águas relativamente limpas. Uma caravana de ajuda humanitária, com proteção militar das forças da ONU, seguia na pista oposta, em direção à capital haitiana.
Na fronteira, havia uma fila de cerca de dez carros. Todos eram de jornalistas ou de membros de organizações humanitárias atravessando para encher o tanque de gasolina. Alguns também estão alojados do lado dominicano, atravessando todos os dias para fazer reportagens e trabalhar no Haiti. Para sair do território haitiano, não é mais preciso passar por imigração. Na região do limbo, que separa os dois lados, estavam cerca de cem haitianos acampados. Em determinado momento, para dispersar uma confusão, a Polícia Nacional do Haiti utilizou cacetetes.
Os guardas do lado dominicano, com armas, apenas observam quem está dentro do carro. Eles não pediram passaporte a nenhum dos jornalistas que acompanhavam a reportagem do Estado. Em um bar na primeira cidade depois da fronteira, dominicanos disseram não ter ocorrido nada com eles porque “são católicos protegidos por Deus”. “Os haitianos fizeram um pacto com o demônio”, afirmou um deles, citando os rituais vudus. Outro acrescentou que até mesmo “a TV americana está dizendo isso”. Perguntei como eles justificavam o terremoto em El Salvador, um país que o cristianismo está até no nome. Não souberam responder.
Apesar de não haver até agora um fluxo de haitianos na fronteira, os dominicanos temem ainda uma imigração em massa de moradores do país vizinho. Mas será difícil ela ocorrer. Historicamente, a República Dominicana combate a imigração ilegal de haitianos. Ao longo da estrada, há reforços com postos de controle para verificar se há moradores do Haiti. Além disso, a própria população costuma delatar para as autoridades se ver um haitiano. E, devido à diferença da língua, fica complicado para um nativo do Haiti se misturar aos dominicanos. Ao mesmo tempo, a República Dominicana contribui com ajuda humanitária e colocou seu território à disposição de outros países para enviar mantimentos. Muitos hospitais estão lotados com pacientes transferidos do Haiti logo depois do terremoto.
Sem opção de cruzarem outra fronteira, os haitianos buscam abrigo em casas de amigos e parentes no interior do território, pouco afetado pelo terremoto. A maior parte deixou Porto Príncipe já na sexta e no sábado, quando pessoas circulavam com malas pela cidade. O problema é que muitas destas cidades, apesar de intactas, são pobres e não vem recebendo ajuda humanitária, direcionada para Porto Príncipe. Haitianos com parentes nos EUA formam uma fila de cerca de 500 metros do lado de fora da Embaixada americana na capital para tentar imigrar. Por enquanto, não começou o fenômeno de barcos tentando cruzar o mar do Caribe para chegar a Flórida. No aeroporto de Santo Domingo, principal rota de saída da ilha de Hispaniola, onde estão os dois países, não havia ontem nenhum haitiano tentando embarcar.
Marcas
Miguel, motorista dominicano que me levou junto com outros dois jornalistas de Porto Príncipe para Santo Domingo, ligou para a filha assim que cruzamos a fronteira para a República Dominicana. E começou a chorar compulsivamente. Achei estranho. Nos dias em que estávamos no Haiti, conversei com ele várias vezes sobre a final da liga dominicana de baseball e não imaginei que estivesse afetado neste ponto. Na verdade, tampouco sabia que eu também estava ficando um pouco marcado pelas cenas que presenciei.
Por email, meus editores em São Paulo, meus pais em Dubai e amigos em Nova York perguntavam se eu estava bem enquanto fiquei no Haiti. Respondia que sim. Estava mesmo. Eu dormia no máximo três ou quatro horas. Não porque tivesse pesadelos. Na verdade, sequer me lembro do que sonhava. Apenas não sentia sono em um quarto com outras 15 pessoas entrando e saindo. Na base militar brasileira, todos os jornalistas e militares pareciam estar bem. Quando cheguei a Porto Príncipe, um dia depois do terremoto, eu estava ainda excitado, querendo trabalhar e ver os estragos causados pelo tremor. Vi os primeiros corpos, as casas destruídas, as pessoas desabrigadas e os feridos sendo tratados em tendas de emergência montadas por agências humanitárias.
Conversei com soldados que perderam amigos. Outros que se salvaram por um segundo, como o capitão Guerson, que pulou do segundo andar da base do Forte Nacional no momento exato do colapso do edifício. E ainda viu dois de seus soldados serem tragados pelo desmoronamento da construção. Um tradutor haitiano me contou que havia acabado de enterrar o irmão, mas já estava a postos trabalhando na base brasileira, ainda que não tivesse conseguido informar aos pais o paradeiro dos filhos – um vivo e um morto. As pessoas me descreviam o terremoto como se fosse um episódio cotidiano ou um filme que tinham acabado de assistir no cinema, como 2012.
Ao chegar ao aeroporto de Santo Domingo para retornar a Nova York, depois de deixar os jornalistas Rodrigo Lopez e Fernando Henk, de Porto Alegre, em um hotel da capital dominicana, fiquei pela primeira vez sozinho em todos estes dias. Fiz o check-in, passei pela segurança e sentei em um restaurante do terminal. Nesta hora, meu irmão me ligou. Pedi para desligar dando uma desculpa qualquer. Uma amiga ligou em seguida e começou a fazer perguntas. Senti vontade de chorar. Não queria falar do Haiti. Mais tarde, depois de retornar a Nova York, melhorei, a não ser quando li o email da Janaína Lage, minha concorrente da Folha que virou uma grande amiga na cobertura, onde ela contou como foi o seu retorno ao Rio no avião da FAB. Mas lembro que eu e a Janaína não estávamos na hora do terremoto e já viajamos preparado para ver o que encontraríamos. Além disso, estive anteriormente em zonas de conflito. Por isso, imagino que muitos fiquem como o Miguel. “Nunca mais volto para lá”, disse o motorista, rejeitando uma oferta ótima de repórteres alemães que queriam contratá-lo.
20.01.10
Um dia depois de passar pela Cité Soleil pela última vez, já estava no Central Park andando depois de escrever uma matéria para a edição impressa sobre a travessia por terra do Haiti para República Dominicana. Nas fotos, o parque símbolo de Nova York e o bairro mais pobre de Porto Príncipe podem parecer dois lugares completamente distantes no tempo e no espaço, sem nada em comum. Verdade, são bem diferentes mesmo. Mas existem pontos que os aproximam, como veremos adiante.
A favela haitiana nasceu pobre e ficou ainda mais miserável depois do terremoto. Um amontoado de lixo, de corpos, de escombros, de saqueadores e de desabrigados, onde o braço de um morto vale menos do que um pedaço de pau. Afinal, o segundo serve como arma na luta pela sobrevivência, enquanto o primeiro simboliza o incomodo da morte e da tragédia aos olhos dos que escaparam do terremoto por não estarem sob um teto às 16h53 de uma tarde ensolarada de Porto Príncipe, uma cidade litorânea sem nenhuma avenida à beira-mar com sorveteria, ou uma praia com ondas, por mais sujas que pudessem ser. Não tem calçadão, não tem malecon, não tem corniche, não tem quadras de vôlei, não tem surfistas. Na verdade, parece estar mais distante do mar do que Ulaanbaatar, na Mongólia, considerada a capital mais continental do planeta – isto se levarmos em conta que o mar Aral seja um mar, pois, caso contrário, o título ficaria com Astana, no Cazaquistão.
Os hotéis existentes em Cité Soleil eram para a prostituição portuária. Hoje, a placa de neon serve apenas para separar as pernas do corpo de algum hóspede ou funcionário que por um segundo de atraso não conseguiu atravessar a porta que o permitiria viver, ou sobreviver, no caso dos haitianos. No final, seu corpo ficou atravessado por uma marquise decadente de uma zona da luz vermelha de uma cidade caribenha que não atrai mais turistas, apesar de ter sido o principal destino da região nos anos 1960. O jornal haitiano, jogado no chão de uma calçada inexistente, talvez nem exista mais. Honestamente, não sei se a redação ficou de pé e quantos repórteres ainda possuem condições de escrever sobre a tragédia que assolou o país já marcado por ditaduras sangrentas como a de Papa Doc.
O Central Park continua como sempre. Um grupo de meninas americanas, de Ohio ou Illinois, apenas para usar os exemplos tradicionais, tirava foto diante de um lago com as águas descongelando devido à surpreendente temperatura de 7 graus para o frio inverno nova-iorquino, normalmente bem abaixo do zero. Dois casais de brasileiros passaram tentando encontrar o edifício Dakota, onde John Lennon morreu assassinado há três décadas. Fica ali, na rua 72, pouco antes do San Remo, que serve de residência para o Bono e a Madonna quando estão em Nova York. Não muito longe do 15 Central Park West, o edifício mais caro da cidade e personagem de documentário, na esquina da 62. O Museu de História Natural está a oito quarteirões para cima.
O Metropolitan e o Guggenheim, que abrirá nesta semana uma exposição do jovem artista londrino Tino Sehgal, se localizam do outro lado do parque que serviu de cenário para filmes por mais de oito décadas, no aristocrático e WASP Upper East Side, com hotéis como o Pierre e o Plaza, onde se hospedam bilionários sauditas, estrelas de cinema e banqueiros brasileiros. E também a loja de brinquedos F.A.O. Shwarz, onde estas mesmas pessoas compram brinquedos para seus filhos. A Universidade Columbia não margeia o parque, pois seus portões estão cinco quarteirões depois do final, na 116 com a Broadway. Todas construções sólidas. Algumas, do século retrasado, quando urbanistas souberam transformar a região norte de Nova York em uma área valorizada, apesar de longe de Wall Street, que, como o nome diz, servia de muro para o fim da vila onde holandeses e judeus vindos do Recife deram origem a esta que seria, ao lado de Paris, a cidade mais desejada do mundo.
Mas apenas na superfície estas duas cidades estão distantes. As duas, com pouco mais de oito anos de diferença, sofreram tragédias que marcarão eternamente as suas histórias. A 80 quarteirões do Central Park, dois aviões atingiram World Trade Center, matando 3 mil pessoas, bem perto de Wall Street. Eram estruturas supostamente ainda mais sólidas do que as dos prédios da Quinta Avenida, onde moravam algumas das vítimas. A solidariedade internacional voltou os olhos para a cidade. Inclusive alguns americanos que tradicionalmente olhavam torto para o cosmopolitismo nova-iorquino largaram tudo para vir ajudar no salvamento das vítimas. Agora, foi a vez dos haitianos se tornarem o centro das atenções mundiais. Se tropas foram enviadas ao Afeganistão para defender os americanos, outras desembarcaram no Haiti para ajudar os haitianos, já defendidos pelos brasileiros e outros integrantes das forças da ONU.
Além disso, as duas cidades se aproximam por serem os dois maiores centros populacionais haitianos do mundo. Isto mesmo, depois de Porto Príncipe, Nova York é maior metrópole haitiana do planeta. São 100 mil habitantes nativos, conforme registra reportagem da New Yorker, à venda em uma banca diante do Lincoln Center, a um quarteirão do Central Park. Isso sem falar nos americanos filhos de imigrantes do Haiti. Uma das haitianas é Gaele, irmã de Kym, sobre quem escrevi aqui. Hoje, tentei quatro vezes ligar para ela. Em todas, a mesma mensagem, depois de dois toques – “The person you have called is unavailable right now. Please, try again latter” (A pessoa para quem você ligou agora não está disponível. Por favor, tente mais tarde). Seria a conexão final entre o Central Park e a Cite Soleil.
Obs. Leiam as reportagens do Lourival Santanna e do Leandro Colón na edição impressa. Destaque para uma sobre a vaidade das haitianas. Eu já estou aqui no Central Park, mas o Estadão continua em Cité Soleil
19.01.10
O jornalista americano Gay Talese escreveu no seu livro “O Reino e o Poder”, sobre a história do New York Times, que os jornalistas preferem “ver países em ruínas e navios a pique do que uma cena sadia, que compõe boa parte da vida”. Eu me lembrei disso quando estava em uma fila de jornalistas para cruzar a fronteira israelense para entrar em Gaza para ver os resultados dos bombardeios. E agora, lutando com outros jornalistas por um espaço em qualquer monomotor para viajar de Santo Domingo para Porto Príncipe na manhã seguinte ao terremoto.
Nós queríamos ver a guerra, o resultado do terremoto, os corpos, a fome, a tragédia. Mas dizer que preferimos isso à normalidade da vida como afirma Talese? Difícil dizer. Moro na mesma cidade que ele, Nova York. A terça-feira do terremoto, uma semana atrás, começou como um dia sem notícia. Pude até almoçar com calma, algo raro quando se trabalha com três horas de diferença no fuso horário. No início da noite, ainda escrevi uma reportagem sobre uma distante briga do Google com o governo chinês. Tudo mudou com a ligação do editor de Internacional, Roberto Lameirinhas, falando sobre o terremoto Haiti. Na hora, eu disse que queria cobrir o terremoto. Procurei passagens na internet e vi uma para Porto Príncipe. Cancelaram o vôo, obviamente. No dia seguinte, bem cedo, embarcava no avião para Santo Domingo com outros jornalistas. Quando vi, estava no centro das notícias do mundo. “Terremotos e guerras”, como diz Talese.
E o Haiti é pior do que Gaza, onde estive no ano passado. Dez vezes pior. Também é pior do que o sul do Líbano depois da guerra do Hezbollah contra Israel. E do que Beirute nos anos posteriores à guerra civil. Vi cenas que nunca imaginei que seriam possíveis. Em 24 horas, deixei Manhattan, considerada a região mais disputada do planeta, para ver corpos carbonizados, outros abandonados na rua, incluindo um bebê largado em uma cartolina. Pessoas sem comida, sem água, sem nada. Bairros inteiros destruídos. Não há perspectiva para este país se reerguer rapidamente. Nem com a ajuda dos heróicos soldados brasileiros e de outros países da MINUSTAH que arriscam a vida para tentar encontrar sobreviventes. Ou com a chegada dos reforços americanos e de agências humanitárias.
Ver todas estas coisas e escrever as reportagens, com a pressão do horário do fechamento, do texto claro, com a internet caindo, e correndo o risco de erros de digitação por causa da velocidade são alguns dos principais desafios de qualquer jornalista. Em uma situação dessas, não dá tempo de se organizar muito e, para facilitar a locomoção, o ideal é trazer apenas uma mochila, com o computador e comidas de emergência dentro. Vim praticamente apenas com a roupa do corpo e sem a pasta de dente e o desodorante, proibidos pelos americanos no aeroporto. A escova eu esqueci em Santo Domingo e tive que escovar com a mão, usando pasta emprestada. No banho, me enxugava com a camiseta. Por sorte, consegui abrigo e comida na base militar brasileira, o melhor lugar para ficar em Porto Príncipe. Todos jornalistas brasileiros estão aqui. Globo, SBT, Band, Estado, Folha, TV Brasil, IG.
Nestas horas, os repórteres tentam se ajudar. Não existe rivalidade e todos trabalham juntos na sala de imprensa e saem em grupos para a rua. Temos nossos pontos de vista. O Fabiano (Folha) e o Rodrigo (Zero Hora) cobriram a crise em Honduras de dentro da embaixada; o Gilberto (O Globo), o terremoto na China; e eu, a guerra em Gaza, conflitos no Líbano e também passei por Tegucigalpa. O Lourival Santanna, meu colega do Estadão no Haiti, deve ter umas dez guerras nas costas, incluindo Iraque e Afeganistão. O que importa é mostrar a história destas pessoas do Haiti com os nossos olhos. Muitas delas foram queimadas ou enterradas sem identificação. Nunca saberemos quem foram, suas memórias, se tinham filhos, se tinham mãe, quem era a namorada, qual o último livro que havia lido, o que comeu no seu último jantar e seus planos para fim do dia interrompido antes do anoitecer pelo terremoto. Outras centenas ou milhares podem estar sob escombros, incluindo estudantes de medicina. Por estas histórias, pegamos filas em Gaza e embarcamos em monomotores de Santo Domingo para Porto Príncipe. Em Manhattan, não veríamos estas cenas. Nem mesmo no 11 de Setembro.
OBS 1. Pediria aos leitores que enviassem todas as questões e críticas à cobertura para eu poder responder no post de amanhã. Já esclareço que, conforme escrevi no texto de ontem, o termo patricinha foi utilizado para descrever uma menina arrumada e de classe média, não alienada. Tanto que citei as qualidades dela, como, por exemplo, ser poliglota. Meu objetivo, como a maioria absoluta dos leitores percebeu, foi aproximá-la do Brasil. Muito menos quis diminuir a Kym, tanto que a achei a pessoa mais especial que conheci em Porto Príncipe. Liguei para a sua irmã Gaele para relatar que o resto da família está bem. O recado diz que o telefone está desligado e não dava para deixar mensagem na caixa postal. Tentarei de novo amanhã. Além disso, a foto dela foi publicada na edição impressa do Estadão, em reportagem que também abordei a história dela
OBS2. A partir de agora, a cobertura do Estadão em Porto Príncipe fica nas mãos do Lourival Santanna e do Leandro Colón. Amanhã, no blog, também contarei a história da travessia da fronteira
OBS3. Há muitos leitores novos, que não me acompanhavam nos tempos de Oriente Médio e, depois, em Nova York. Eu respondo a todos os comentários sempre e existe até um grupo de leitores que se reúne em São Paulo. No Haiti, fiquei sem tempo para responder a perguntas. Por este motivo, insisto, enviem mais uma vez. Porém não serão publicados ataques pessoais, nem contra leitores e, apenas para manter a tradição, os que forem anti-semitas, islamofóbicos, anti-árabes, racistas ou que coloquem um povo como superior ou inferior. Críticas são bem vindas. Vídeos não serão publicados
18.01.10
Mensy Desfeignes estava perdida no meio de uma multidão de haitianos na fila para conseguir água e alimentos no estádio nacional de Porto Príncipe. Vestia apenas uma blusa cor de rosa e uma calça jeans no campo controlado por militares brasileiros que trabalhavam conjuntamente com os americanos na distribuição de ajuda humanitária para os afetados no terremoto. Seria uma patricinha (no sentido de arrumada, nao de alienada) de São Paulo. Quer dizer, não chega a ser uma patricinha dos Jardins, do clube Harmonia ou da academia Reebok. Seria mais de um bairro de classe média, como Santana ou Interlagos. No Rio, seria da Tijuca, não do Leblon.
Vivia bem, com os pais. Tinha um celular, mas não um Iphone. Tinha um computador que dividia com o restante da família. E uma TV. Talvez até fosse fã de Friends. De longe, me observou e perguntou se eu falava inglês. Em seguida, começou a contar a sua história. “Eu estou sendo tratada como cachorro. Não era para estar aqui, nesta fila, morando neste estádio, implorando por comida e água”, disse. Seu pai, segundo ela, é um conceituado artista plástico, mas todas as suas obras foram perdidas nos escombros. Sua mãe, também na fila com o irmãozinho, possuía um restaurante, que desmoronou no terremoto.
Mensy, que pede para ser chamada de Kym, seu apelido, disse que iria começar a estudar medicina. Seu sonho era ir morar com a irmã, Gaele, que é enfermeira em Nova York. Até agora, não conseguiu falar com ela. Eu me comprometi a tentar ligar quando voltasse a Nova York, já que meu celular não funciona bem aqui em Porto Príncipe. Enquanto conversávamos, ela era esmagada algumas vezes na fila que se prolongava em forma de zigue-zague no estádio de grama artificial que a seleção brasileira derrotou o Haiti por 6 a 0. Fluente em francês, creole e espanhol, além do inglês, ela diz que havia começado a estudar italiano para ter uma boa educação. “É a única coisa que poderá me ajudar no futuro. Mas estou com medo de ficar aqui para sempre, nunca mais ter minhas roupas, minhas fotos, minhas coisas, que estão no meio dos escombros. Agora, só tenho o que está naquela tenda”, me disse. Não queria tirar foto, porque achava que estava feia, sem poder se arrumar há alguns dias. Na verdade, desde antes do terremoto. No campo, que virou abrigo de refugiados, não há banheiros. E foi difícil convence-la a posar para o fotógrafo do Estado (a foto está na edição impressa).
Na fila, também tinham algumas outras pessoas com curso universitário e que pertenciam à classe média-média de Porto Príncipe. Robensin Silier se formou em engenharia elétrica recentemente. Também preocupado com a aparência, colocava a camisa para dentro da calça. A empresa onde trabalhava não existe mais. Por sorte, ninguém de sua família morreu quando a casa desmoronou. Todos estavam fora. Agora, ele é mais um morador do estádio. “Eu tinha sonhos. Trabalhava na minha área, queria ter uma carreira. Esta ajuda humanitária apenas contribui para amenizar a situação. Mas não pretendo morar em um campo de futebol e ficar nesta fila para conseguir comida. Minha única esperança seria começar a trabalhar na reconstrução. O problema é que não deve começar tão cedo”, diz. “Dá desespero. O Haiti era pobre, mas não deste jeito. Eu vivia bem”.
Beaubeun e Berny trabalhavam em uma revista alternativa de Porto Príncipe, onde havia um universo artístico crescente antes do terremoto. O nome da publicação é Passion. O primeiro deles está com o braço quebrado. “Eu era jornalista como você, mas agora a revista acabou. Dez pessoas morreram na redação. Eram nossos amigos, as pessoas com quem estávamos todos os dias”, lamenta. O outro acrescenta que não tem idéia do que poderá fazer a partir de agora. Como outros na fila, eles insistiam para o repórter contar a história deles. Todos entendem que a ajuda chegou. “Mas vai acabar logo, sempre esquecem da gente”, diz Mensy, ou Kym. “E tome cuidado com o seu dinheiro. Daqui a pouco, vão querer te roubar. Também esconda o seu celular”.
Obs. Responderei a todos os comentários, como sempre fiz, assim que possível. Talvez, dedique um post mais para a frente apenas para responder a perguntas de todos
17.01.10
Uma matriarca surgiu das ruínas de uma casa destruída na rua JJ Salines, onde não existe mais nenhuma edificação de pé. Aos 80 anos, ela sobreviveu ao terremoto sob toneladas de escombros. Não tinha nada. Apenas respirava não se sabe como. Perdeu alguns parentes. Mas conseguiu se salvar. Gritou até ser ouvida por haitianos que vagam pelas ruas com fome e sem sonhos neste apocalíptico país de ditaduras e terremotos.
Equipes de resgate dominicanas e panamenhas começaram a cavar, com a ajuda de máquinas. Ela sofria. De longe, observei a sua mão. Estava viva. Bem diferente de uma cabeça em decomposição, com os cabelos ensangüentados que tinham se tornado alimento para as moscas a cerca de dez metros de distância. Imediatamente, foi colocada em uma maca. E já começou a dar ordens como uma avó libanesa, judia, italiana, ou mediterrânea. Ou haitiana, como era o caso de Jean Batiste, um nome feminino em Porto Príncipe, e também de sobreviventes como a matriarca e a enfermeira salva no dia anterior por uma equipe da rede Globo e os militares brasileiros com a ajuda do marido.
Vi as duas. Uma, a enfermeira, já na maca, ao lado do marido, um policial. Conversei com ela. E mostrei ao marido as imagens dele no Jornal Nacional. Já a matriarca eu vi saindo daquele prédio, casa ou o que quer que tenha sido aquela construção. Pouco antes, quase presenciei o resgate de um homem de 60 anos, retirado dos escombros por um engenheiro inglês que decidiu entrar em cavernas de pedras para ajudar um homem que nunca viu. O oposto daquela história de que uma pessoa aceitaria um milhão de dólares se ele concordasse com a morte de uma pessoa do outro lado do mundo que ele jamais iria conhecer. Ao contrário, este inglês anônimo largou a família, o emprego e tudo para trás para ajudar os haitianos de Porto Príncipe. Haitianos com honra, como escrevi ontem. Como a matriarca, que no meio de equipes de resgate e testemunhas decidia tudo o que pretendia fazer. No caso, andar. E dar bronca no neto em criolle. Eu não escutei, mas o cinegrafista da BAND me relatou que ela ainda perguntou onde estava a sua sacola.
Todo o mundo deve ter tido uma avó como ela, dona do mundo. Ou uma boazinha, que agrada aos netos. As vítimas em Porto Príncipe são pessoas como ela, como a gente. Eu tive as duas. Uma brasileira e outra libanesa. A segunda, certamente, sairia das ruínas desta forma, como a matriarca, e ainda com medo de a equipe de resgate cobrar muito caro para retirá-la. Seria capaz de pedir para ficar sob os escombros. A Jean Batiste era assim, metida. Ou que não a deixassem se arrumar antes de aparecer para as câmeras. Colocassem a Jean Batiste no Fasano, certamente seria a primeira a sentar. Mesmo sendo pobre e do Haiti. Tamanha a pompa desta avó. Que ainda ajeitou o cabelo com as mãos antes de começar a andar.
Obs. Responderei a todos os comentários, como sempre fiz, assim que possível. Talvez, dedique um post mais para a frente apenas para responder a perguntas de todos
16.01.10
Depois de quatro dias, a chance de encontrar sobreviventes diminui. Aos poucos, os esforços acabam se dividindo em duas frentes – o resgate de corpos dentro dos escombros e a ajuda humanitária. Os dois pontos, indiretamente, estão relacionados com a segurança haitiana. Os corpos em decomposição podem provocar epidemias de doenças graves, provocando ainda mais vítimas. E, para complicar, colocariam em risco também as forças fundamentais para a estabilização do país, como médicos e militares.
A ajuda humanitária contribui para a acalmar a população. Até agora, os haitianos ainda estão em estado de choque em decorrência do terremoto. Mas, em breve, perceberão a nova realidade em que vivem e a fome e a sede podem levá-los a atos mais violentos. Por enquanto, porém, a não ser por episódios isolados, eles têm se mostrado solidários. Saques podem até existir. Mas muitos são apenas casos de pessoas pegando algum refrigerante ou pão de forma em um bar onde as paredes ruíram com os tremores. A história de barricadas de corpos é mentirosa. Na verdade, alguns haitianos colocam os corpos nas ruas para facilitar o recolhimento.
Apesar da situação precária, os habitantes de Porto Príncipe tentam manter a honra intacta. São raros os haitianos que andam sem camisas. Ficar com o corpo nu significa ser “como um escravo” na visão deles. Outra curiosidade é que eles não gostam de acenar como os brasileiros. O nosso ato de dar tchau era usado por eles como um sinal de que você estava condenado à morte durante as ditaduras de Papa Doc (François Duvalier) e de seu filho, Baby Doc. Aliás, interessante notar como a história apaga algumas coisas. Aqui no Haiti, hoje em dia, ninguém mais fala nos Tontons Macoutes, que massacravam a população.
O Haiti também é o segundo país das Américas a ficar independente, depois dos Estados Unidos. E foi um movimento liderado pelos negros, ao contrário da América hispânica, líderes de origem européia, como San Martin e Simon Bolívar, comandaram o fim do colonialismo. Com o passar dos anos, uma elite mulata começou a controlar o país. Mas vou deixar a história do Haiti para um outro post.
15.01.10
Estamos agora os jornalistas brasileiros na sala de imprensa montada na base militar brasileira de Porto Príncipe. Estado, Folha, Globo, Bandeirantes dividem as instalações daqui, lutando pela internet para tentar passar as notícias para vocês. Todos retornamos da rua, cada um com uma história diferente. Nenhum de nós passou por uma experiência parecida como essa na vida. E aqui tem gente que cobriu guerra e outros terremotos.
Hoje, seguramente, vi as cenas mais inesquecíveis que já presenciei ou que qualquer pessoa tenha me relatado. Os corpos têm tão pouca valia que são queimados ou jogados em valas comuns. Eles nunca serão identificados. Vi vários carbonizados na área da cozinha do inferno, como era conhecida a parte decadente próxima ao porto, repleta de bares e restaurantes populares. E estes mortos eram pessoas como a gente, com história, com pais, com filhos, com amigos, com memórias. E esta região podia ser pobre, mas isso não significa não ter história nas suas farmácias e bares antigos. Tudo acabou. As mesas dos bares, a comida na calçada, os vendedores animados e a musicalidade do Haiti. Não existe perspectiva para imaginar a reconstrução de toda esta região. Pode demorar uma década. Eu vi Beirute, nos anos 1990, ainda destruída, e anos depois, reconstruída. Mas não dá para comparar a escala. Porto Príncipe é pior. Como escrevi ontem, é Gaza vezes dez.
Como esquecer de um bebê em uma cartolina, jogado como se não fosse nada. E nem há o que fazer. Não se pode tocar sem luvas, as moscas já consomem parte do corpo. A solução para os haitianos é o fogo mesmo. Aqueles esqueletos queimando, debaixo de sol, sob os escombros, com as pessoas desesperadas de fome eu como um extra-terrestre acompanhado das forças brasileiras e o repórter da Globo.
Aliás, os leitores costumam achar os jornalistas corajosos. Vocês não idéia do que são esses militares brasileiros. Heróis, de verdade. Minutos depois do terremoto, já se embrenhavam no escuro, em meio a escombros, em busca de sobreviventes. Não tinham máquina, mas trabalhavam com as mãos. Entram sob escombros, arriscando a própria vida. E seguem anônimos como muitas da vítimas. Mas eles não perdem a esperança de encontrar pessoas vivas. Mereciam medalhas, o verdadeiro Nobel da Paz. Soldados que não lutam em guerras, mas para salvar vidas.
Nós jornalistas, mesmo tomando banho e se enxugando com camiseta, repetindo roupa (viemos apenas com uma mochila, obviamente) e dividindo quarto com outros dez não temos do que reclamar. A base é o paraíso nesta cidade. E com arroz, feijão, carne e suco todos os dias.
14.01.10
Primeiro, desculpem pela ausência do blog. O acesso à internet no Haiti é precário. E, obviamente, este está longe de ser o maior problema do país. Estive em Gaza e no sul do Líbano durante e depois de guerras e na crise em Honduras. Posso assegurar que a situação aqui é infinitamente pior. Não quero comparar um conflito armado com desastre natural. Mas acho que esta é uma das formas para tentar explicar a situação em Porto Príncipe.
Não tem água, não tem comida, não tem gasolina. Quer dizer, tem, se a pessoa tiver dinheiro. Mas não tem casa, não tem hospital em número suficiente, não tem palácio do governo. Não tem hotel. As pessoas buscam ajuda da ONU e organizações humanitárias para conseguir sobreviver. O único meio de transporte é o taptap - uma espécie caminhonete misturada com lotação. Os haitianos dormem em campos de futebol ou em terrenos abandonados porque suas casas estão destruídas ou comprometidas por causa do terremoto. Além disso, ainda há corpos nas ruas e sobreviventes sob os escombros. Alguns gritam, mas não há máquinas para conseguir retirá-los. Quanto mais o tempo passa, mais pessoas morrem.
O melhor lugar da cidade, certamente, é a base militar do Brasil, onde estão hospedados todos os jornalistas brasileiros. Como naqueles filmes de apocalipse, sempre existe um lugar salvador, onde há comida e água. Cama, por enquanto, não. Aqui, dentro da base, também há cerca de 70 haitianos sendo tratados com ferimentos graves. Uma mulher deu a luz a um filho. E também os corpos dos 14 militares brasileiros mortos.
Na edição impressa, serão publicadas as minhas reportagens. Se conseguir uma boa conexão aqui na base amanhã, vou publicá-las. O mesmo vale para os comentários
Eu embarquei ontem de Nova York para Santo Domingo. Cerca de 15 jornalistas vieram no mesmo avião. Ao desembarcarmos na capital dominicana, procuramos por voos fretados para voar para o Haiti. Em grupo, fomos para o aeroporto doméstico. Quando chegamos, já era muito tarde para viajar ao Haiti. A torre de controle aqui está destruída e o piloto tem que pousar apenas com a visão, durante o dia.
Fomos para um hotel, dormimos pouco e de madrugada voltamos ao aeroporto. Embarquei em um avião com outros 18 jornalistas. Cheguei a Porto Príncipe, circulei pela cidade até vir para a base graças a uma carona de militares brasileiros.
13.01.10
11.01.10
O futuro de hoje se tornou mais avançado do que o futuro imaginado no passado recente, de menos de 30 anos atrás, em filmes como De Volta para o Futuro ou brinquedos do Epcot Center em Orlando. Não existem carros e skates voadores circulando pelas ruas ou ares de Nova York e São Paulo, mas a modernidade de hoje superou as previsões do passado. Mesmo George Jetson, do desenho animado de Hanna-Barbera situado em um longínquo 2062, não tinha um Blackberry, um Iphone ou o Nexus One, lançado nesta semana com o objetivo de ser o mais moderno celular já fabricado. Qualquer pessoa que o possuir, ou um de seus concorrentes, terá mais acesso a informações do que agentes da CIA (serviço secreto americano) ou o presidente dos Estados Ronald Reagan nos anos 1980. Mesmo Bill Gates, homem mais rico do mundo e um dos pioneiros da informatica, na virada do século, não portava um aparelho tão moderno como os celulares atuais.
Do Atari X-box
Quando Michael J. Fox saiu de 1985 para viajar aos dias atuais – na verdade, para 2015 –, em filme lançado há exatos vinte anos no Brasil, ele usava um relógio com calculadora, que era uma das sensações daqueles anos de Guerra Fria. Hoje passaria completamente despercebido. No Brasil, 25 anos atrás, pais da classe média compravam para seus filhos um Atari ou um Odissey, que podem parecer vídeo-games da idade da pedra para um adolescente com um X-box. No filme, os roteiristas previram este avanço em De Volta para o Futuro. Em uma cena em um bar do futuro que teria como tema os anos 1980, Marty McFly – o personagem de Fox – tenta exibir seus dotes em um fliperama, mas acaba se tornando motivo de gozação para dois meninos futuristas acostumados a games de realidade virtual, no qual não precisam usar as mãos. Porém, ao contrário do que imaginaram os roteiristas, vídeo-games como o Wii, um dos mais modernos dos dias de hoje, utilizam não apenas as mãos, mas o corpo inteiro. O conceito de modernidade mudou.
Das Fichas da Telesp ao Iphone
Em 1985, quando é ambientado o filme gravado no fim da mesma década, as pessoas ainda utilizavam os telefones fixos. Os pais atendiam as ligações dos namorados das filhas. Os filhos precisavam telefonar dos orelhões para pedir para os pais o buscarem no clube ou no shopping, com as extintas fichas da Telesp. Brasileiros expatriados se comunicavam com as família por cartas ou através do telefonema semanal com a voz ao fundo dizendo para desligar “logo porque ficará caro”. Vivendo neste ambiente, Robert Zemeckis e Steven Spielberg, responsáveis por De Volta para o Futuro, não imaginaram que os telefones se tornassem artigos individuais, com um celular para cada pessoa da família. Era uma época em que se usava a extensão, com o irmão podendo escutar a conversa da irmã. Em países como o Brasil, uma linha telefônica custava milhares (ou milhões?) de cruzeiros ou cruzados na bolsa do telefone.
Por este motivo, na casa dos McFly no futuro, a filha atende o telefone e diz que é para o pai. Isto é, eles ainda dividem o aparelho da casa, sem a existência do celular. O interlocutor do de McFly aparece em um TV, de tela plana, com seu nome e dados familiares abaixo, similar ao Skype. Em outra ligação, seu chefe anuncia sua demissão por fax e vários papéis são espalhados pela casa em receptores distintos, como as extensões dos telefones. Não havia, nos anos 1980, a noção do e-mail, a não ser em meios científicos mais avançados. Celulares, como o Nexus One, com capacidade para tirar fotos de alta resolução e digitar e-mails através da voz, tampouco passavam pela cabeça das pessoas que imaginavam o futuro nos anos 1980.
Hotmail e Orkut são retrô
No futuro real, em que vivemos, os celulares estão espalhados por todas as classes sociais. Nos EUA, são raros os jovens com menos 30 anos que adquirem telefones fixos. Recentemente, a Newsweek questionou em reportagem sobre a necessidade de ter um aparelho em casa. Alguns dormitórios de universidades aboliram as linhas telefônicas fixas, já que ninguém as usava. Conforme escreveu o cronista Antonio Prata no caderno Metrópole do Estado, citando o seu pai e também escritor Mario Prata, “o telefone fixo foi uma invenção que não deu certo”. Os mais novos, que vivem com os pais, ainda possuem linha fixa da família em casa. Mas trocam com os amigos apenas os números de celulares. Os pais perderam o controle sobre quem conversa com os filhos. Todos enviam mensagens de texto ou até mesmo falam enquanto estão em seus quartos, durante a madrugada. Estudo do JP Morgan realizado com adolescentes demonstrou ainda que muitos sequer utilizam o telefone para se comunicar. O contato com os amigos pode ser feito diretamente através do Playstation-3. As mudanças são tão velozes nas comunicações que em poucos anos até novidades como o hotmail, Yahoo! e o Orkut se tornam retro diante do Gmail, Google e do Facebook.
Comparando o Woodstock , nos anos 1960, com o concerto Lollapalooza em Chicago, no ano passado, a colunista Gail Collins, do New York Times, que esteve em ambos, afirmou que a atual geração não conseguirá se desconectar completamente do mundo externo, como na década de 1960. “Para qualquer ponto que eu olhava, 50% das pessoas estavam lendo ou digitando textos”, escreveu sobre o evento em Chicago. Esta imagem não foi prevista por nenhum futurista das décadas de 1970 e 80.
Do papel repelente de poeira ao Kindle
No filme, também se fala em um papel repelente de poeira. Isto é, as pessoas não teriam mais que se preocupar com o acúmulo de pó nos seus livros. O problema é que a ciência não está preocupada em criar papéis que não acumulem pó. E sim em abandonar o papel totalmente. Pela primeira vez na história, a Amazon anunciou ter vendido mais livros virtuais do que impressos. Estudantes das principais universidades americanas, como a Columbia e a NYU, de Nova York, desfilam pelos campus em Manhattan com seus Kindles e Nooks, repletos de livros digitais que usarão nos seus cursos. A sala do Xerox perdeu importância nos campi de Princeton, Harvard e Stanford. Este texto será lido por muitos leitores em um meio que não é o papel.
Revista Manchete na Varig de Paris
O cientista descrito como “Doc” em De Volta para o Futuro carrega um exemplar do dia seguinte do USA Today. Em nenhum momento existe a preocupação em mostrar algum órgão de informação on-line, com atualização automática. Eles não previam este modelo de imprensa nos anos 1980. Não se falava em internet. O New York Times costumava chegar com alguns dias de atraso ao Brasil e, mesmo assim, somente a poucas bancas da avenida Paulista e por um preço mais de cinco vezes maior do que na Madison Avenue. Brasileiros no exterior visitavam as filiais da Varig na Champs Elisee, em Paris, e na Quinta Avenida, em Nova York, para conseguir um exemplar da Veja ou da Manchete de duas semanas antes. No intercâmbio, adolescentes brasileiros sofriam para saber como andavam o Palmeiras e o Corinthians no Campeonato Paulista. Agora, jornais como o Estado e a Folha podem ser lidos até mesmo na sua forma impressa, com direito a anúncios, na internet, de Roma a Damasco, antes mesmo de estarem na porta das casas em Higienópolis. O filho de McFly no futuro assiste a uma TV com seis canais ao mesmo tempo e começava a surgir a noção do cabo nos EUA. No Brasil, ainda era uma ficção. Hoje, jovens nascidos depois dos anos 1980 sequer chamam a TV Globo de canal 5 em São Paulo, porque o número da emissora pode variar de acordo com a operadora contratada.
Japão dominaria o mundo
O chefe de McFly é um japonês. Na verdade, era uma busca de mostrar que o Japão dominaria a economia mundial nos 30 anos seguintes. Nos anos 1980, os americanos estavam preocupados com a invasão japonesa e o crescimento da economia do país oriental. Hoje, depois de quase duas décadas com a economia estagnada, o Japão deixou de ser visto como uma ameaça. O que ninguém previa, em 1985, era a emergência da China, novo alvo de temor de alguns americanos.
Carros voadores também aparecem no filme. Aliás, mesmo antes dos carros, já se pensava em um futuro em que carruagens poderiam voar, conforme mostra o livro Yesterday’s Tomorrow, que relata uma série previsões feitas no passado sobre como seria o futuro em diferentes épocas. Pelo menos por enquanto, a previsão de carros voadores, como os de De Volta Para o Futuro, está descartada, apesar de empresas pequenas como a Moller produzirem veículos capazes de voar. Os obstáculos são econômicos e de segurança. A tendência da indústria automobilística é construir carros com menor consumo de combustível. Além disso, depois do 11 de Setembro, o problema da segurança se intensificou. Com milhões de carros voadores circulando pelo mundo, não seria muito difícil para um terrorista cometer um atentado lançando o veículo contra um estádio lotado. E seria quase impossível controlar as fronteiras ou parar um criminoso.
Estas previsões de como sobre como será o mundo em daqui a algumas décadas não são um fenômeno dos anos 1980. Julio Verne talvez tenha sido um dos que mais acertou sobre como seria o futuro, antecipando até mesmo os submarinos, em obras como “Vinte mil Léguas Submarinas” ou “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, ambos do século 19. H.G. Wells, em 1895, escreveu “A Máquina do Tempo”, onde descrevia como seria a civilização no ano 802.701. Edward Bellamy, em seu “Looking Backward”, publicado no fim do século 19, conta a história de um jovem que viaja de 1887 para o ano 2000, onde encontra uma sociedade igualitária.
Steve Jobs e Chanel
Um erro comum das previsões de futuros feitas no passado foi a existência de robôs com formas humanas em casa ou do uso de elevado número de botões. Nos anos 1980, quanto maior a quantidade de botões, mais moderna era considerada a máquina. Esta noção terminou com o lançamento do Ipod, da Apple, em que Steve Jobs conseguiu colocar em uma pequena caixa milhares de músicas que podem ser tocadas apenas com o uso de dois botões, optando por uma solução minimalista – algo próximo ao que Coco Chanel fez na moda no século 20. O Iphone levou o mesmo conceito para a telefonia. O Nexus One, da Google, planejava uma nova revolução, mas tem sido visto por analistas como apenas mais um celular inteligente, apesar de alguns novos avanços. De qualquer forma, será mais um aparelho que mesmo há cinco anos, em um passado recente, tirando nerds do Silicon Valley ou pesquisadores do MIT, poucos poderiam sonhar que fosse existir em 2010.
O jornalista Gustavo Chacra, 33, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de "O Estado de S. Paulo" em Nova York. Já fez reportagens de Beirute, Damasco, Tel Aviv, Jerusalém, Gaza, Nablus, Ramallah, Cairo e Amã quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Também já trabalhou como correspondente da Folha na Argentina
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