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03.07.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 11:17:40.

Esta semana, o blog está em Honduras e cuida também da América Latina, e não apenas do Oriente Médio

No Oriente Médio, "terrorista" é o maior palavrão que pode ser utilizado para atacar alguém. Os dois lados em disputa sempre se acusam mutuamente de terroristas. Para Israel, o Hezbollah e o Hamas são terroristas e, para a maior parte dos árabes, as ações do Exército de Israel são terroristas. A Turquia considera o PKK terrorista, mas vê outros movimentos independentistas no Chipre como legítimos. A Síria apóia grupos palestinos, mas considera organizações islâmicas dentro do seu território como terroristas. O Irã diz que grupos opositores armados pelos americanos (nada a ver com os manifestantes atuais) são terroristas, e arma xiitas no Líbano. O que é terrorismo varia de acordo com quem a define. Até mesmo o Pentágono e o Departamento de Estado dos Estados Unidos possuem definições diferentes.

Na América Latina, todos se acusam de golpistas. O governo hondurenho de Roberto Micheletti acusa Mel Zelaya de ter orquestrado um golpe para se perpetuar no poder. Já os seguidores do presidente deposto dizem que o governo de fato é quem deu golpe ao prender e expulsar Zelaya de Tegucigalpa. Na Venezuela, Hugo Chávez diz que seus opositores são golpistas. E estes dizem que o golpista é o presidente. O mesmo ocorre no Equador, Bolívia, Nicarágua e outros países da região.

Aqui em Honduras, Zelaya realmente estava desrespeitando a Constituição e buscava uma saída para se manter no poder. Entrou em choque com a Corte Suprema, o Congresso (inclusive o seu partido) e a Corte Suprema. Por outro lado, a sua deposição ocorreu de forma equivocada e apressada. Não deram a Zelaya o direito de se defender. Apenas ordenaram que os militares fossem à sua residência de madrugada e o colocassem em um avião para Costa Rica.

Dependendo da definição, pode-se definir como golpe nos dois casos. Assim como terrorismo no Oriente Médio.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima.

 


02.07.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 11:52:54.


Esta semana, o blog está em Honduras e cuida também da América Latina, e não apenas do Oriente Médio. Abaixo, estão minhas reportagens publicadas na edição impressa do Estadão de hoje

Igreja Católica, ao lado de outros setores da sociedade hondurenha, prepara-se para mediar a crise. Na catedral diante da Praça de Tegucigalpa onde ocorreram as principais manifestações na capital de Honduras nesta semana, o cardeal-arcebispo Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga, principal autoridade católica de Honduras, afirmou ao Estado que está intermediando o diálogo entre o governo de facto de Roberto Micheletti e os aliados de Manuel Zelaya, o presidente deposto na madrugada de domingo e expulso do país por militares.

Os dois lados, segundo fontes na cidade, já iniciaram um diálogo para encontrar uma solução para o impasse, após o ultimato lançado ontem pela Organização dos Estados Americanos (OEA) para que Zelaya seja reinstalado no poder em 72 horas (mais informações na página 19) .

"Não posso opinar sobre o que ocorreu porque estou como negociador neste impasse. Os dois lados estão conversando para chegar a um acordo e eu preciso manter a neutralidade", disse o cardeal, que chegou a ser cotado para tornar-se papa depois da morte de João Paulo II, em 2005. O líder católico acrescentou que "há risco de conflito interno", uma vez que os dois lados estão armados. Indagado sobre se poderia responder a questões sobre a crise, o cardeal-arcebispo de Tegucigalpa afirmou que não, pois isso poria em xeque a posição de negociador.

Um dos mais respeitados deputados hondurenhos também confirmou ao Estado, sob a condição de anonimato, que o diálogo existe e ocorre tanto em Tegucigalpa quanto em Washington, apesar da retórica radical adotada por Micheletti. O parlamentar integra um bloco neutro no Congresso que se opõe às ações de Zelaya no poder, mas também considera equivocada a forma como o presidente foi removido do poder.

"Os dois lados querem esperar um pouco para encontrar uma solução. Com a pressão internacional, será difícil o cenário permanecer como está. Os aliados do governo de facto sabem disso. Já os que apoiam Zelaya têm consciência de que o retorno não será incondicional. Provavelmente, o ex-presidente terá de assumir uma série de compromissos formais", disse, referindo-se às tentativas de Zelaya de mudar a Constituição para que possa eleger-se outra vez. "O mais importante será o que os EUA decidirem. Aqui, não interessa nada o que Brasil, Venezuela, Europa, Argentina e Equador digam. Se os americanos pressionarem, todos cedem, pois dependemos dos EUA."

Zelaya viria ao país hoje, mas adiou a viagem para o sábado, quando expira o ultimato da OEA. Até lá, estimam analistas, as partes já deverão ter chegado a um acordo.

A comissão do governo de Micheletti que embarcou para os EUA buscará justamente participar dessas negociações e não apenas levar seus argumentos a Washington. A redução das declarações de Zelaya - que viajou ontem para o Panamá onde participou, como chefe de Estado hondurenho, das cerimônias de posse do presidente Ricardo Martinelli - também teria ocorrido por recomendação dos mediadores.

Os dois principais candidatos a presidente de Honduras, Porfírio Pepe Lobo, do Partido Nacional, e o ex-presidente Elvin Santos, do Partido Liberal (o mesmo de Zelaya), mantêm cautela e não se envolvem nos debates. Segundo analistas, os dois sabem que, neste momento, o melhor é não tomar partido e facilitar o diálogo nos bastidores. Santos deixou o cargo de vice para poder se candidatar à presidência, em eleições que ocorrem em novembro. Sua relação com Zelaya não era boa.

Uma das saídas possíveis seria a antecipação da eleição, já que os dois candidatos, "não estão contaminados" por nenhum dos dois lados na disputa. Já o organismo de direitos humanos de Honduras propôs ontem a realização de um plebiscito para decidir se Zelaya pode ou não permanecer no cargo.

Retaliação econômica

Honduras está completamente isolada. O governo de facto, sem reconhecimento internacional, sofre retaliações por ter removido do poder o presidente Manuel Zelaya. No campo econômico, essas medidas podem determinar o futuro deste que é um dos países mais pobres da América Latina.

Todos os membros das principais organizações comerciais que Honduras faz parte - Sistema de Integração Centro-Americana (Sica) e Acordo de Livre Comércio entre a América Central e os EUA (Cafta) - condenaram o golpe e exigem o restabelecimento do governo anterior. O Banco Mundial anunciou o congelamento de um crédito de US$ 270 milhões para Honduras utilizar em 16 projetos de desenvolvimento. "Tudo dependerá de como será resolvida a crise", disse Robert Zoellick, presidente da entidade. O Banco Interamericano de Desenvolvimento também suspendeu o repasse de US$ 200 milhões para os hondurenhos.

Os três países limítrofes com Honduras - El Salvador, Guatemala e Nicarágua - fecharam as suas fronteiras por 48 horas. Honduras, dos cinco países da América Central, incluindo também a Costa Rica, mas não o Panamá, é o principal exportador e importador de produtos regionais. Seu porto de Cortéz, na costa do Caribe, é fundamental para a Guatemala e El Salvador. No Pacífico, também possui boas conexões com o comércio internacional. Toda a circulação de produtos do Panamá, Costa Rica e Nicarágua precisa cruzar Honduras por terra para chegar a El Salvador, Guatemala e México.

Com uma indústria incipiente em San Pedro Sula, no norte do país, Honduras depende ainda da exportação de café e bananas, o que ainda a torna extremamente dependente dos EUA, assim como em grande parte do século 20, quando a economia hondurenha era controlada pela United Fruit Company e o país era uma das "repúblicas bananeiras". As remessas de hondurenhos que residem em cidades americanas também tem enorme importância, representando um quarto do PIB.

Durante a administração de Zelaya, graças ao aumento internacional no preço das commodities e ao petróleo barato vendido pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, Honduras conseguiu crescer 6,3% em 2006. Por enquanto, apesar da crise política, a moeda local e a inflação estão sob controle.

Como grande parte dos empresários apoiaram a deposição de Zelaya, não se sabe como eles reagirão agora às pressões internacionais. No campo político, ainda existe o ultimato de 72 horas da Organização dos Estados Americanos (OEA), a resolução da Assembleia-Geral da ONU pedindo o retorno de Zelaya e a retirada de embaixadores de Tegucigalpa, incluindo os de países latino-americanos e europeus. O Brasil decidiu não enviar o seu embaixador de volta para Honduras.

Por enquanto, de todas as retaliações, a única positiva, na avaliação do governo de facto, seria a saída da Alba, de Hugo Chávez.

 


30.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 22:39:03.

DIRETO DE TEGUCIGALPA (HONDURAS)

A América Central teve golpes militares durante a Guerra Fria. Possuía governos e milícias apoiadas tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Soviética; guerras civis que deixaram dezenas de milhares de mortos na Guatemala e em El Salvador; e ditadores sanguinários governavam estes países, como Trujillo na República Dominicana.

Duas décadas mais tarde, a democracia impera em quase todos os países e um golpe como o de Honduras provoca repúdio e surpresa internacional. Poucos imaginavam que este episódio ainda pudesse ocorrer nesta região.

O Oriente Médio teve golpes militares durante a Guerra Fria. Possuía governos e milícias apoiadas tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Soviética; guerras deixaram dezenas de milhares de mortos no Líbano, Irã e Iraque; e ditadores sanguinários governavam estes países, como Saddam Hussein no Iraque.

Duas décadas mais tarde, os regimes autoritários ainda imperam em quase todos os países e eleições livres como as do Líbano provocam elogios e surpresa internacional. Poucos imaginavam que este episódio pudesse ocorrer nesta região.

Enfim, a América Latina avançou e hoje discute democracia. O Oriente Médio está bem mais atrasado e ainda engatinha na hora de debater democratização. O mundo árabe parece os latino-americanos nos anos 1970.

Obs. O blog ficou fora do ar ontem porque minha vinda para Tegucigalpa envolveu até pernoite em Atlanta e com conexão na internet apenas no celular, onde não tenho recursos para publicar os comentários. Peço desculpas

Obs2. No último post, passaram alguns comentários que ofenderam leitores. Terei que ser mais rigoroso a partir de agora. Apenas assuntos relacionados com este post serão publicados. Por exemplo, Israel e palestinos não são citados aqui. Logo, nenhum comentário envolvendo esta questão será publicado. Abaixo, as regras

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por Gustavo Chacra, Seção: Geral 16:06:40.

O blog volta hoje mais tarde. Estou em Honduras, cobrindo os recentes acontecimentos

 


27.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 10:10:42.

Na semana passada, em Jounieh, visitei mais uma vez a estátua de Nossa Senhora Harissa, padroeira do Líbano. E, para minha surpresa, a maior parte dos visitantes era muçulmana, de países como a Arábia Saudita e o Kuwait. Homens e mulheres oravam para Nossa Senhora e, inacreditável, uma senhora de burka (algo impensável no Líbano, o que me leva a crer que fosse saudita) acendeu uma vela para Harissa. Isso mesmo, uma muçulmana, de burka, beata da Harissa.

Dias depois, levei quatro amigas brasileiras para almoçar em Dahieh, o bairro controlado pelo Hezbollah em Beirute. Todas com roupas de verão do Brasil, como vestidos curtos, saias e camisetas. O restaurante escolhido por mim foi o Al Saha, pertencente a uma fundação de Mohammad Hussein Fadlallah, líder espiritual dos xiitas do Líbano. O dinheiro das refeições é direcionado para órfãos libaneses, independentemente da religião.

O curioso, neste restaurante, alvo de estudo da Universidade Americana de Beirute por desenvolver o conceito de “Islam and Fun”, é que se pode tirar fotos “fictícias” com figuras xiitas e também cristãs. Muitos freqüentadores, como notou a pesquisa da AUB, são cristãos. Eles vão ao berço dos xiitas libaneses e tiram fotos montadas com Fadlallah, assim como os muçulmanos acendem velas para Nossa Senhora. O ódio religioso existe, mas, muitas vezes, simplificamos demais e esquecemos deste outro lado.

Encontro dos Leitores

Na semana passada, ocorreu o terceiro encontro mensal dos leitores. No mês que vem, haverá outro. Todos estão convidados


da esquerda para direita, Bernadete, Tuaregue, Mariana, Fábio, Ali, Michelle, João, Yoko e Farhat (o Henrique esteve presente, mas não aparece nesta foto)

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25.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 20:48:53.

Twitter, Facebook, New York Times, CNN. Todos os meio de comunicação deixaram o Irã de lado e, neste exato momento, cobrem apenas a morte do Michael Jackson. Jornalismo é assim. Uma pena. Tanto pelo falecimento como também pelo possível esquecimento do que ocorre no Irã. Os acontecimentos em Teerã, nos próximos dias, devem ficar em segundo plano. Neste período, os opositores correm o risco de perder o clímax nos protestos contra o governo.

Irônico, mas nunca imaginaria que a morte de Michael Jackson poderia influenciar, ainda que em escala pequena, a sobrevivência do regime islâmico do Irã. Uma estrela pop americana e o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamanei, dividem hoje as atenções do mundo.

 


24.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 08:09:20.

Ninguém cogitava, há duas semanas, a possibilidade de o líder supremo do Irã cair nem de o regime islâmico ter um ponto final. As eleições do dia 12 definiriam apenas se Mahmoud Ahmadinejad continuaria na presidência. Agora, nas ruas de Teerã, jovens pedem a queda do aiatolá Ali Khamenei, cujas palavras dificilmente seriam contestadas um mês atrás.

Sua decisão de referendar o resultado das urnas poucas horas depois do fim da votação, em uma eleição considerada fraudulenta pelos opositores, alterou a imagem deste líder supremo que é a base de todo o regime islâmico instituído no Irã há 30 anos, quando o aiatolá Khomeini liderou a Revolução Islâmica. Primeiro líder supremo, ele nunca teve o seu poder colocado em cheque ou sequer teve rivais.

Ali Khamenei vive um cenário diferente. Para começar, o atual líder supremo nunca teve os atributos para se tornar a principal autoridade religiosa do Irã e, consequentemente, líder máximo do regime. O sucessor de Khomeini, segundo explica o iraniano Hamid Dabashi, professor da Universidade Columbia, em Nova York, deveria ser o aiatolá Hussein Ali Montazeri, dono de todas as qualificações religiosas para exercer a autoridade máxima.

"Mas o aiatolá Montazeri caiu em desgraça ao denunciar o escândalo Irã-contras internamente no Irã. Isso irritou Khomeini, que desqualificou Montazeri como seu sucessor porque ele expôs publicamente que os iranianos, apesar da retórica anti-Israel e anti-EUA, compravam armas secretamente dos dois", escreveu Dabashi no seu livro Iran: A People Interrupted ("Irã: Um Povo Interrompido").

Sem nenhum expoente além de Montazeri, Khomeini apelou para um dos seus seguidores, o então presidente Ali Khamenei. Na época, o premiê era justamente Mir Hossein Mousavi, rival do atual líder supremo e um dos aliados de Khomeini. Akbar Hashemi Rafsanjani, outro dos principais seguidores de Khomeini, assumiu o posto de presidente.

Hoje, Rafsanjani é o presidente do Assembleia dos Especialistas, com o poder de remover Khamenei do cargo de líder supremo, o que balanceia de uma certa forma o poder no Irã.

Dada a força política de Rafsanjani e o apoio de Mousavi nas ruas de Teerã, analistas apostariam que, apesar das rivalidades, Khamenei cederia para os dois com o intuito de se manter no poder. Mas não foi isso que ocorreu. O líder supremo preferiu bater de frente com Mousavi e Rafsanjani ao respaldar a vitória de Ahmadinejad.

Segundo a agência de risco político Stratfor, "Khamenei, como um defensor do regime, teme Ahmadinejad. As manifestações pró-Mousavi não seriam nada se comparadas com o que poderiam fazer os simpatizantes de Ahmadinejad - tanto eleitores como as forças de segurança - caso o candidato deles não fosse considerado o vencedor. Khamenei não quis dar chance ao desastre e preferiu referendar o resultado".

Reportagem minha publicada na edição impressa do Estadão

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23.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 08:08:45.

As cenas das manifestações no Irã serão lembradas como a primeira vez que um conflito passou a ser coberto, majoritariamente, por pessoas comuns, que testemunharam ou participaram dos acontecimentos - e não apenas por jornalistas.

As imagens da morte da jovem Neda Salehi Agha Soltan, que repercutiram pelo mundo todo no YouTube e se espalharam ainda mais com links postados no Twitter e no Facebook, não existiriam se o assassinato tivesse ocorrido há alguns anos, quando celulares com câmeras e sites de relacionamento eram inacessíveis.

A preocupação é tanta com o surgimento de novas tecnologias que o Centro de Imprensa Estrangeira de Nova York convidou correspondentes internacionais para um workshop sobre como usar o Facebook, Twitter e LinkedIn em grandes coberturas, como a atual no Irã.

O New York Times já avançou neste sentido e, em sua reportagem sobre o Irã de ontem, trazia a assinatura de Nazila Fathi, correspondente do jornal em Teerã, e de Michael Slackman, chefe do escritório no Cairo. Como a jornalista no território iraniano enfrenta restrições para trabalhar, grande parte das informações foi conseguida por meio do correspondente no Egito justamente em sites.

O diário nova-iorquino usa ainda o blog The Lede, postado na capa do jornal, que acompanha em tempo real todos os acontecimentos no Irã por meio do Twitter, vídeos do YouTube e Facebook. A CNN pede que iranianos baixem vídeos no site para que sejam exibidos posteriormente no programa iReport. Na chamada, com o nome de Iran?s Voice ("Voz do Irã"), o canal pergunta: "Você esteve lá? Divida a sua história." A rede de TV Al-Jazira, do Catar, faz o mesmo.

O regime de Teerã tenta bloquear o acesso aos sites. Mas iranianos conseguem burlar a censura. Hoje, no Facebook, jovens iranianos na diáspora, como Mateen, pediam a amigos que enviassem para eles "atalhos virtuais" que ajudassem os iranianos a acessar a internet. Outra saída é buscar sites alternativos, como fazem na Turquia, onde o YouTube é bloqueado, ou os sírios, que não podem acessar o Facebook, apesar de quase todos os jovens de classe média de Damasco terem uma conta.

Em Teerã não é muito diferente de Damasco e as cenas lembram os iranianos em 1979, antes da revolução, que compravam fitas cassetes contrabandeadas com os discursos do aiatolá Khomeini, ainda no exílio, apesar do forte monitoramento da polícia secreta do xá.

MUDANÇA REPENTINA

O avanço é tão rápido que, ainda neste ano, na guerra de Israel contra o Hamas, essas tecnologias não foram muito utilizadas por palestinos na Faixa de Gaza. No conflito, o governo israelense, alegando questões de segurança, não permitiu que jornalistas estrangeiros entrassem no território palestino. Os repórteres tiveram de buscar informações nas redes de TV árabes, como a Al-Jazira, mas não havia tantas imagens distribuídas em tempo real por links no Twitter ou no Facebook. Na Guerra do Golfo (1991), as opções eram ainda menores. Peter Arnett e Bernard Shaw, ambos da CNN, praticamente foram as únicas vozes para todo o Ocidente durante a ofensiva americana contra o regime de Saddam Hussein, que havia ocupado o Kuwait.

A mudança, no entanto, tem provocado debates em programas de TV e nas páginas de jornais dos Estados Unidos e mesmo do Oriente Médio. Tanto a CNN, no programa GPS, apresentado por Fareed Zakaria, como a Al-Jazira debateram os riscos de depender de pessoas que não são jornalistas profissionais para divulgar notícias e imagens.

A CNN montou uma equipe com integrantes que falam persa para verificar se os locais apresentados são mesmo reais. Técnicos verificam se não há adulterações. A Al-Jazira, mesmo antes do advento do Twitter e do YouTube, já fazia o mesmo para checar fitas como as de Osama Bin Laden.

A agência de risco político Stratfor, em análise publicada para seus clientes ontem, alerta para a ameaça de se dar muita importância para as informações postadas no Twitter, afirmando que elas atingem apenas usuários do recurso no país persa, com repercussão limitada ao exterior e entre os fluentes em inglês da elite iraniana. "As tropas do Exército e as outras classes não estão no Twitter", diz a análise, lembrando que mesmo em países do Ocidente o serviço começou a crescer agora. Para a empresa, o melhor seriam repórteres entrevistando as pessoas em persa.

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22.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 10:03:56.

Faz 30 anos que caiu o regime do Xá Reza Pahlevi e as semelhanças com o cenário atual são óbvias. Um regime repressor, jovens nas ruas, mortes, um líder. Na época, o equivalente das Guardas Revolucionárias era a sanguinária Savak.

No Ocidente, poucos acreditavam que fosse possível o xá ser derrubado, com todo o seu poderio militar e o apoio dos EUA. Mas os revolucionários, que englobavam não apenas islâmicos, mas também intelectuais, marxistas, democratas, comerciantes dos bazares e uma série de outras classes da complexa sociedade iraniana conseguiram expulsar o antigo governante de Teerã e iniciar um experimento sem paralelo na história recente.

Não se imaginava, naquele momento, que Ruthola Khomeini fosse instalar um regime islâmico. Mas, aos poucos, os radicais se fortaleceram e o Irã se converteu nesta mistura de teocracia com certas liberdades democráticas como o direito ao voto.

O fortalecimento do aiatolá Khomeini se deveu em grande parte à invasão iraquiana, sob o comando de Saddam Hussein. A população iraniana se uniu e o Irã travou o mais sangrento conflito no Oriente Médio depois do fim da Segunda Guerra. O número de mortos supera o total de vítimas da Guerra do Líbano, Guerra do Iraque, Guerra de 1948, Guerra de Suez, Guerra dos Seis Dias e Guerra do Yom Kippur.

Hoje, o levante iraniano envolve algumas das classes presentes em 1979. De novo, muitos jovens. A maioria clama por democracia. Destaque para a presença de mulheres. Relatos de jornalistas em Teerã e no Twitter indicam que, aos poucos, policiais iranianos e mesmo soldados leais ao regime começam a mudar de lado. Foi assim que o xá caiu. Não dá para saber até que ponto os casos são isolados ou até mesmo verídicos. Também dizem que os comerciantes dos bazares, uma força importante na história do Irã, estão com Mir Hussein Mousavi, o herói da vez. Sem falar no ex-presidente Rafsanjani.

Para derrubar o regime, seria preciso um estopim. Este já aconteceu, com a provável fraude eleitoral. Depois, vieram as manifestações. O poder econômico, aparentemente, está com os opositores. Se o Exército mudar de lado, cai Ahmadinejad e, muito provavelmente, o aiatolá Ali Khamanei. Mais uma vez, o Irã estaria na vanguarda da história.

Claro, ainda existe risco enorme de o regime se radicalizar, prender Rafsajani, Mousavi e centenas de jovens. Mas, de qualquer forma, Khamanei se tornou um homem comum, muito longe de representar o que Khomeini representou para o início do regime. O líder supremo está com a credibilidade de um Berlusconi na hora de dar uma opinião. E Ahmadinjead, com toda a sua pinta de honesto, de morar em uma casa pobre e com seu terno envelhecido, provou que não passa de um populista que usa um discurso anti-semita com o suposto intuito de defender os palestinos, apesar de apenas prejudicá-los, enquanto é conivente com a morte de jovens em seu próprio país. Tampouco permite que jornalistas estrangeiros possam cobrir os eventos em Teerã, apesar de ter criticado israelenses e egípcios por este mesmo motivo em Gaza. Nas ruas árabes, sua imagem aos poucos se assemelha à de um Hosni Mubarak.

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20.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 15:06:04.

Viajo daqui a pouco de Beirute para Nova York, com escala de algumas horas na Alemanha. Volto a publicar post e comentários domingo à noite. Provavelmente, o tema será Irã, onde muita coisa pode acontecer ao longo dos próximos dias. As pessoas estão nas ruas de Teerã e todo o Oriente Médio está em compasso de espera diante do cenário iraniano. O resultado certamente alterará toda a política para a região.

 


19.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 01:55:04.

DIRETO DE BEIRUTE

Em dez dias, tivemos uma série de eventos no Oriente Médio que deveriam ser históricos.

1. O discurso de Barack Obama
2. A eleição libanesa
3. A eleição iraniana
4. A retomada do diálogo direto EUA-Síria
5. O discurso de Netanyahu

O primeiro realmente marcou a maneira como os muçulmanos observam os Estados Unidos. Mas apenas no curto prazo. As críticas aqui no mundo árabe ao presidente americano começaram no domingo, quando ele elogiou o discurso de Benjamin Netanyahu, premiê de Israel

A eleição libanesa foi democrática, livre e, agora, ainda temos que aguardar como terminarão as negociações para a formação do governo

A retomada do diálogo EUA-Síria começou com o encontro entre Bashar al Assad e o enviado especial de Obama, George Mitchell. Ainda é cedo para dizer qual será o resultado e o foco da conversa foi o Iraque, não Líbano, Israel e palestinos.

Netanyahu expressou uma posição já conhecida no mundo árabe. O próprio premiê sabe que é impossível seus vizinhos aceitarem esta proposta.

Portando, sobra o Irã. Ninguém sabe como terminará. Pode ir do extremo de os protestos se intensificarem a ponto de derrubarem o regime, à realização de novas eleições, passando pela manutenção do status quo anterior ou o endurecimento do regime. É o único que pode marcar história. O resto, em breve, cairá no esquecimento. Pelo visto, até o discurso de Obama

Encontro dos leitores

Os leitores do blog organizarão o terceiro encontro mensal neste sábado. Eu, por estar no exterior, não poderei ir. Quem quiser participar, por favor, envie um comentário neste post com o nome completo e email para eu repassar para os organizadores para eles darem os detalhes do encontro

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17.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 08:12:17.

O Oriente Médio possui quatro países cujos nomes começam com “I” em português – Irã, Iraque, Israel e Iêmen. Destes, as atenções do mundo, neste ano, se voltaram para dois deles. Israel, primeiro com a guerra em Gaza, depois com as eleições e agora com as discussões sobre a criação de um Estado palestino. E o Irã, com seu programa nuclear que pode ou não levar à produção de uma bomba atômica e, agora, com os protestos de milhões de pessoas a favor e contra o resultado da eleição que manteve o polêmico presidente Mahmoud Ahmadinejad no poder.

O Iraque, fora dos EUA, deixou de ser prioridade na cobertura do Oriente Médio há algum tempo. E poucos – e eu me incluo na lista – gostam de falar que o Iêmen se tornou o novo bastião da rede terrorista Al Qaeda no mundo árabe, com militantes treinando livremente neste país onde o Estado está cada vez mais enfraquecido ou inexistente. Há ocidentais sequestrados e mortos, tráfico de armas e pirataria.

Ou se esquecem de que, o Iraque, apesar da melhora, ainda carrega o triste título de lugar onde morrem mais pessoas no Oriente Médio, sem falar nas dezenas de milhares de tropas americanas ainda presentes no país.

Às vezes, as surpresas para o mundo não ocorrem em países que estão no centro das atenções mundiais, mas em regiões marginais. O Afeganistão e o Taleban davam guarida à Al Qaeda bem antes do 11 de Setembro. Era raro ler ou ver algo sobre o assunto na época. Parecia algo distante. Todos sabem o resultado. Aliás, não tem nenhum twitter em Aden ou Sana. Tampouco correspondentes estrangeiros ou enviados de governos ocidentais. É esperar para ver.

Aliás, até pelo número de comentários aqui, será possível medir a diferença. Israel teve uns 120. Irã, mais de 70. Vamos ver o Iêmen

 


16.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 06:13:32.

DIRETO DE BEIRUTE

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmedinejad, sempre disse que Israel poderia acabar. O argumento dele era forte. Se a União Soviética não existe mais, se o Império Romano não existe mais e se a África do Sul do Apartheid não existe mais, por que Israel seria eterno?

Agora, talvez ele e o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamanei, devem estar se perguntando – se a União Soviética não existe mais, se o Império Romano não existe mais e se a África do Sul do Apartheid não existe mais, será que o regime islâmico iraniano é eterno?

Protestos, mortes, decisões antes inquestionáveis do líder supremo sendo revogadas, clérigos divididos. Tem muita coisa acontecendo em Teerã. Como afirmou Azar Nafisi, autora do livro "Lendo Lolita em Teerã", em reportagem publicada hoje no New York Times, "Khamanei sempre vinha e dizia - 'Calem-se, o que eu digo prevalece'. Todos responderiam 'OK, esta é a palavra do nosso líder'. Agora, o mito de que existe um líder com poder inquestionável acabou".

Robert Fisk, correspondente do jornal "The Independent" no Oriente Médio, comparou, na rede de TV Al Jazeera, as manifestações de ontem com as ocorridas durante a Revolução Islâmica, em 1979, que ele cobriu. Mas o repórter afirma que os atos são apenas contra Ahmadinejad e o resultado eleitoral, considerado uma fraude. Os manifestantes não buscam, segundo Fisk, derrubar o regime.

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14.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 14:55:16.

Netanyahu disse aceitar incondicionalmente a paz, mas, ironicamente, impôs pelo menos cinco condições para a criação de um Estado palestino

1. Precisa ser desmilitarizado
2. A questão dos refugiados deve ser negociada fora das fronteiras de Israel
3. Jerusalém deve ser a capital indivisível de Israel
4. Não será permitido pactos militares com o Hezbollah e o Irã
5. Israel precisa ser reconhecido como um Estado judaico

Seu plano está na mesa. O da Liga Árabe, com o apoio da Autoridade Palestina, é o seguinte

1. Retirada israelense para as fronteiras pré-1967
2. Divisão de Jerusalém
3. Desmantelamento dos assentamentos
4. Uma solução para os refugiados

A do Hamas

1. Aceita uma trégua com Israel por apenas dez anos se os israelenses retornarem para as fronteiras pré-1967
2. Exige o retorno de todos os refugiados

A de Ahmedinejad

1. Os nativos do que hoje é Israel, Cisjordânia e Gaza devem, em uma votação, decidir qual o futuro do território. Ele não considera judeus que imigraram para a região durante o movimento sionista como nativos

Agora, falta o Obama ajudar todos a encontrar uma solução

 


13.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 08:21:48.

DIRETO DE BEIRUTE

O novo mapa político do Oriente Médio está completo. A primeira mudança ocorreu no ano passado, quando Barack Obama venceu as eleições presidenciais nos Estados Unidos. O realismo na política externa americana, com uma certa dose de idealismo, substituiu o neo-conservadorismo idealista da administração anterior de George W. Bush, que em parte também já começava alterar as suas posições, com a emergência do secretário da Defesa Robert Gates, mantido pelos democratas, e a redução no poder do vice-presidente Dick Cheney.

Em fevereiro, depois de uma guerra, os israelenses foram às urnas e elegeram uma coalizão conservadora. Como premiê, o pragmático Benjamin Netanyahu. O Ministério da Defesa ficou com o enfraquecido Ehud Barak, tradicionalmente de esquerda mas perdido nos últimos anos. A chancelaria caiu nas mãos do ultra-nacionalista Avigdor Lieberman e outros cargos foram ocupados por partidos religiosos que, em alguns casos, rejeitam a criação de um Estado palestino. O Kadima, uma agremiação de ex-direitistas que incorporaram a defesa de uma paz com os palestinos, lidera a oposição.

Os libaneses votaram majoritariamente na coalizão formada pelas facções cristãs de Michel Aoun aliadas aos grupos xiitas Hezbollah e Amal. Mas a vitória, devido ao sistema de votos que dá mais peso a alguns distritos em detrimento de outros (aceito pelos perdedores), foi da coalizão 14 de Março, dos sunitas de Saad Hariri, drusos e outras facções cristãs, aliadas da Arábia Saudita, Egito e EUA.

Ontem foi a vez dos iranianos. Mahmoud Ahmadinejad, segundo números oficiais, se reelegeu com quase o dobro de votos do seu opositor, Mir Hussein Moussavi. Difícil dizer se houve fraude ou não, pois, diferentemente do Líbano, não há observadores internacionais. Mas o atual presidente será mantido no poder por pelo menos quatro anos.

A Síria, o Egito, a Arábia Saudita e a Jordânia não realizam eleições livres para escolher os seus chefes de Estado. Portanto, a não ser que aconteça uma revolução ou um deles morra, Bashar al Assad, Hosni Mubarak e os dois reis Abdullah serão os líderes de seus países.

Faltam os palestinos. O mandato de Mahmoud Abbas se encerrou em janeiro, mas as autoridades palestinas, sem o consetimento do Hamas, o prorrogaram por mais um ano. O Parlamento, majoritariamente controlado pelo Hamas, grupo islâmico palestino que aceita reconhecer Israel nas fronteiras pré-1967 por apenas dez anos. Com muitos membros em prisões israelenses, as eleições parlamentares estão marcadas para janeiro de 2010.

Até lá, teremos Obama, Netanyahu, Saad Hariri (Michel Sleiman, presidente), Ahmadinejad, Assad, Abdullah hashemita, Abdullah saudita, Mubarak e Abbas.

Há cinco anos, apenas como curiosidade, a escalação era Bush, Sharon, Rafik Hariri (Emile Lahoud, presidente), Khatami, Assad, Abdullah, rei Fahd, Mubarak e Arafat. Não chegaram à paz. Bush, Lahoud e Khatami terminaram o mandato, Sharon está em coma, Hariri foi assassinado, Arafat morreu e o restante está no poder ainda.

Há dez anos, Clinton, Barak, Salim al Hoss (Emile Lahoud, presidente), Khatami, Hafez al Assad, rei Abdullah (Hussein havia acabado de falecer), rei Fahd, Mubarak e Arafat. Clinton se tornou marido da secretária de Estado, Hafez morreu, assim como Fahd.

Khadafi e Saddam

O coronel (ele gosta de ser chamado assim) Muammar Khadafi já se tornou um veterano da escalação do Oriente Médio. Conseguiu se tornar uma caricatura de si próprio. As imagens do líder líbio na Itália dizem tudo sobre ele.

O Iraque permanece uma coisa à parte no Oriente Médio. Mas, apenas como lembrança, Saddam Hussein tampouco faz parte dos líderes da região. Caiu em 2003 e, depois, foi enforcado.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima.

 


11.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 11:48:04.

Existe uma teoria de que quanto mais radical estiver o lado inimigo, melhor para conquistar apoio internacional. Alguns palestinos, de uma certa forma, celebraram a vitória da coalizão direitista de Benjamin Netanyahu em Israel. Assim, podem dizer que os israelenses possuem um ultra-nacionalista anti-árabe e ex-leão de chácara na Moldávia como Avigdor Lieberman no posto de ministro das Relações Exteriores. Os obstáculos seriam maiores para criticar Tzipi Livni, mais moderada, mulher, educada e com posições sintonizadas com a administração de Barack Obama.

O mesmo se passou com alguns direitistas israelenses nesta última eleição libanesa. Caso a coalizão do Hezbollah com os cristãos (importante detalhar aqui que muitos omitem a aliança dos cristãos liberais com o grupo xiita para ressaltar o lado radical da organização) vencesse, diriam que o Líbano havia se tornado um Estado terrorista. Na véspera da eleição, um ministro israelense chegou a usar literalmente esta expressão. Assim, poderiam desviar a atenção da questão palestina para o Hezbollah. Com a vitória da 14 de Março, abertamente aliada dos Estados Unidos, não dá para classificar o Líbano desta forma. Não emplaca. Claro, o ministro da Defesa, Ehud Barak (aliás, de esquerda neste caso), tentou argumentar que as armas que os americanos dão para o Exército libanês são direcionadas para o Hezbollah. Mentira. Não existem provas sobre isso e visa apenas enfraquecer as já débeis Forças Armadas Libanesas diante do grupo xiita.

No Irã, não será muito diferente. Direitistas em Israel, nos Estados Unidos e – acreditem – mesmo ditaduras travestidas de monarquias e repúblicas no mundo árabe torcem pela vitória de Mahmoud Ahmedinejad. Os israelenses porque manteriam o argumento de que o Irã é perigoso, usando os discursos anti-semitas e as ameaças contra Israel do atual presidente iraniano. Os republicanos para atacar a política de aproximação de Obama com o mundo islâmico. E os regimes árabes para que os Estados Unidos não normalizem os laços com o Irã (persa), reduzindo a ajuda militar para estes Estados.

Uma vitória de Moussavi, um artista e moderado para padrões iranianos, dificultaria os planos de Israel para atacar o Irã, apesar de, na prática, o programa seguir, já que está nas mãos do aiatolá Khamanei, líder supremo do regime. Os republicanos observariam um claro sinal de que Obama consegue resultados com mais diplomacia e menos militarismo no Oriente Médio. Já os regimes árabes em Riad, Amã e Cairo podem perder a cadeira cativa de queridinhos dos EUA na região, que até 1979, era do Irã, do xá. Mas, neste terceiro caso, o processo será mais demorado, mesmo com Moussavi no poder.

 


10.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 02:18:02.

DIRETO DE BEIRUTE

O antigo Oriente Próximo era composto, até a Primeira Guerra, pela Pérsia e o Império Otomano. Dos países que emergiram do fim destes dois impérios, ocorrem eleições competitivas em cinco, além dos territórios palestinos – Turquia, Irã, Israel, Líbano e Iraque.

Tirando a Turquia e Israel, que viveram histórias diferentes, e os palestinos e iraquianos, que vivem sob ocupação, sobram apenas os libaneses e os iranianos. Em Beirute e Teerã, vemos partidos ou coalizões com ambições diferentes competindo para conquistar o poder.

Acompanhei o processo eleitoral aqui no Líbano. Houve acusação de compra de votos e uma ou outra briga sem grandes consequências. Nada muito diferente de democracias da América Latina. Mas, assim como o Brasil na época das Diretas Já, existe um movimento cívico, de as pessoas lutarem pelos seus ideais. De vestirem uma camisa, carregarem uma bandeira, irem para a rua porque queriam que a sua coalizão vencesse.

De um lado, as patricinhas libanesas cristãs, de óculos escuros, jeans e camisetas laranjas da Frente Patriótica de Michel Aoun, fazendo campanha para que votassem também no Hezbollah. Uma aliança difícil para alguém de fora entender. Do outro, os membros grupo cristão Forças Libanesas, com suas belas camisas com o cedro desenhado e crucifixos à mostra, unidos aos sunitas do bilionário Saad Hariri.

Os vencedores celebraram com fogos, os perdedores reconheceram a derrota. O Líbano deu uma aula para seus vizinhos árabes que ignoram a democracia.

Nesta sexta-feira, será a vez dos iranianos. Uma eleição menos livre que no Líbano, já que alguns candidatos foram barrados, mas não menos disputada. O presidente Mahmoud Ahmedinejad, com todos os seus defeitos – e são muitos – colocou a cara para bater em debates com opositores. Quando um Bashar al Assad ou um Hosni Mubarak faria isso? Nunca. Está certo, o presidente iraniano foi mal educado e ofendeu a mulher de Mir Hussein Mousavi, seu rival, além de fazer acusações graves a líderes iranianos que não estavam presentes para se defender. Mas enfrentou perguntas até mesmo sobre as suas posições sobre o Holocausto e acusações de má (ou péssima) gestão da economia.

Sem falar nas belas imagens nas ruas de Teerã, com seguidores dos candidatos diante de telões torcendo como se fosse a final do Campeonato Paulista entre Corinthians e Santos. Já pensaram em uma cena dessas na Amã do rei Abdullah, o queridinho do Ocidente? Ou na Riad do seu xará?

Os árabes, persas (iranianos não são árabes em sua maioria), muçulmanos e cristãos da região observam estas imagens nos canais a cabo. Certamente, eles clamarão por mais democracia. No Qatar, já há alguma abertura. Na Arábia Saudita, quase nenhuma. Dizer que a monarquia hashemita e a saudita são moderadas ofende os ouvidos de qualquer árabe ou iraniano educado. Todos na região sabem que não há um quesito sequer que a Arábia Saudita seja mais moderada do que o Irã. Note, estou falando do Irã, onde impera um regime islâmico. Já pensou como é na Arábia Saudita? Difícil imaginar. Um dia, gostaria de assistir a um filme saudita, como já vi iranianos ou vocês, mesmo no Brasil, podem assistir ao libanês Caramelo, em cartaz nos cinemas de São Paulo.

 


08.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 21:07:42.

DIRETO DE BEIRUTE

Eleições são marcadas pelo discurso da vitória. Quem se esquece de Barack Obama, em Chicago, falando para dezenas de milhares de pessoas depois de se tornar o primeiro negro eleito para a Casa Branca? Certamente, poucos se recordam hoje de John McCain ao lado de Sarah Palin naquela mesma noite. Os perdedores são esquecidos, pelo menos no dia da vitória.

Menos quando o perdedor for o xeque Hassan Nasrallah. O líder do Hezbollah parou o Líbano. Todos libaneses, dos que o amam aos que o odeiam, de Tyro a Trípoli, passando por Beirute, os montes e o vale do Beqaa, foram para a frente das TVs hoje para ver o que a figura mais carismática do país dos cedros tinha a dizer.

Afinal, todos sabem que o Hezbollah, mesmo derrotado, é mais poderoso do que o Líbano. Nasrallah perdeu, discursou e aceitou a derrota. Algo normal. Não afetará muito a sua vida. Continuará dando as ordens na Hezbollândia, composta pela região de Dahieh, em Beirute, o sul libanês e áreas do Beqa. Um território onde até os guardas de trânsito são desta organização, que conta ainda com escolas, creches, hospitais e uma rede de TV. Mais importante, o Hezbollah tem uma milícia armada que pode, quando quiser, iniciar uma guerra contra Israel. Ou, se preferirem e acharem que está na hora, dominar todo o Líbano em algumas horas e assumir o poder.

Mas os xiitas do Hezbollah pensam no longo prazo. Investem em educação, disciplina e armamentos. Não tem pressa. Enquanto isso, ganham tempo com eleições democráticas que, mesmo em uma derrota, dão maior legitimidade para esta organização que forçou Israel a se retirar do território em 2000 e conseguiu, mais do que qualquer outro Exército árabe, impor medo aos israelenses.

Conforme relata Amal Saad Ghorayeb, acadêmica e autora de um livro "Hizbollah, Politic and Religion", sobre a organização, o Hezbollah pretende estabelecer um Estado islâmico no Líbano semelhante ao Irã. Mas, ao mesmo tempo, o grupo xiita entende que a sociedade libanesa é sectária. Na visão deles, apesar de o Estado islâmico ser melhor, a democracia não é ruim. Por este motivo, desde 1992, o Hezbollah concordou em concorrer nas eleições libanesas. A data é importante, pois foi depois dos acordos de Taif, que encerraram a guerra civl. Antes, o grupo se recusava porque os cristãos maronitas possuíam muito poder.

Segundo Ghorayeb, o Hezbollah considera o Estado islâmico melhor do que a democracia por três motivos. "Primeiro, a opressão implícita no príncipio do governo da maioria; em segundo lugar, a tendência dos sistemas democráticos serem dominados pela vontade da maioria; por último, ineficácia e a injustiça de um sistema que diz representar a atual geração de eleitores, mas esquece os interesses das futuras gerações." Como o grupo possui uma visão pessimista do homem, o melhor é deixar para Deus legislar pela Sharia, diz Ghorayeb.

O objetivo inicial do grupo é resistir a Israel. São anti-sionistas convictos e, na visão maniqueísta de mundo da organização, Israel, os Estados Unidos e a ditaduras árabes são os opressores. Os xiitas e os palestinos são oprimidos. O Hezbollah não aceita e não aceitará a existência de Israel. Acreditam que, no longo prazo, conseguirão destruir o Estado judeu. Ele se espelha justamente no sionismo para provar que um ideal impossível pode acontecer com disciplina, educação e armas. Israel é o exemplo a ser seguido pelo Hebollah. Copiar o inimigo para derrotá-lo. Usar o dinheiro da diáspora com os diamantes dos xiitas libaneses da África. Como Nasrallah deixa claro, não interessa esta geração, mas as futuras. No Líbano, o Hezbollah pretende primeiro desconfessionalizar o país. Apenas quando dois terços da população apoiarem a idéia de um Estado islâmicos, este será estabelecido. Se isso não acontecer, segue o sectarismo.

Neste contexto, há duas saídas para lidar com o Hezbollah no Líbano. A primeira, defendida por Michel Aoun e facções cristãs, é reconhecer o poder desta organização e da importância dos xiitas, integrado-os à política libanesa e ao Exército, uma vez que eles representam grande parcela popluação. Os eleitores libaneses votaram contra, optando por uma segunda via, que aceita o Hezbollah como partido político, mas tendo que respeitar as ordens do fraco governo libanês com o seu impotente Exército. Difícil funcionar.

Já em relação a Israel, haveria duas alternativas. A primeira via seria uma ampla operação militar para tentar derrotar a organização. Foi tentada por Israel até 2000 e há três anos. Duplo fracasso. A segunda seria a criação de um Estado palestino. Mas este não atingiria o objetivo do Hezbollah que é eliminar Israel. Para Nasrallah, não interessa a atual geração. Ele pensa nas futuras. Na visão dele, um dia seu objetivo será alcançado. O Líbano será um Estado islâmico como o Irã e Israel não existirá.

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07.06.09

por Gustavo Chacra, Seção: Geral 20:27:58.

O presidente dos EUA, Barack Obama, derrotou Mahmoud Ahmedinejad no Líbano. Ou, pelo menos, este é o sinal que será interpretado em Washington em Teerã depois da vitória da coalizão governista 14 de Março, segundo resultados extra-oficiais divulgados pela imprensa libanesa aqui em Beirute.

Esta aliança é composta por sunitas e facções cristãs, contando com o apoio dos EUA e da Arábia Saudita e contra a influência síria e iraniana no território libanês. Não simpatizam com Israel, mas aceitam uma acomodação com o Estado vizinho. Tudo o que Obama poderia pedir neste momento em que busca a paz no Oriente Médio.

Os cristãos da Frente Patriótica e os xiitas do Hezbollah e da Amal, que integram a coalizão 8 de Março, saem derrotados na disputa parlamentar, apesar de vitoriosos entre os eleitores de suas religiões. Mas não terão o controle do Parlamento. Tudo o que Ahmedinejad não queria cinco dias antes de disputar a reeleição para presidente do Irã.

Dentro do Líbano, o cenário possui uma complexidade bem maior. A 14 de Março venceu, mas alguns de seus integrantes, como o próprio premiê Fuad Siniora e o líder druso Walid Jumblat, indicaram que não pretendem isolar a oposição e, segundo analistas, estariam dispostos a formar um governo de coalizão.

Como o ministério libanês, segundo a lei, precisa ser distribuído de forma sectária, provavelmente os ministros xiitas, depois de negociações que devem se estender pelas próximas semanas, serão do Hebollah e da Amal. Os dois da oposição e ambos próximos ao Irã.

No final, mesmo derrotado, o Hezbollah deve integrar o governo. Exatamente como agora e também como ocorreu depois das eleições de 2005. No fundo, nada muda no país dos Cedros. Aqui, a opção a um governo composto por todos os grupos sectários é a guerra civil. Por enquanto, esta alternativa possui poucos defensores.

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por Gustavo Chacra, Seção: Geral 09:07:19.

Como no post anterior, responderei a perguntas de leitores que tiverem dúvidas sobre o complexo processo eleitoral libanês. No Guia da Eleição Libanesa – Parte 1, tentei resumir o processo eleitoral. Continuo agora com o tema que mais chama a atenção nesta eleição – o Hezbollah

O Hezbollah não tem como possuir a maioria no Parlamento libanês. Das 128 cadeiras, por lei, os xiitas podem possuir apenas 27 (leia post anterior). Destas, o Hezbollah tem um acordo com a Amal (outra organização xiita) para cada um ficar com mais ou menos a metade. Segundo analistas, o Hezbollah deve ter apenas 11 – no máximo 14. Cerca de 10%. Dizer que o Hezbollah pode conquistar a maioria no Parlamento libanês é mentira.

Logo, no Líbano, não existe a possibilidade de acontecer o mesmo que nos territórios palestinos, quando o Hamas conquistou, literalmente, a maioria das cadeiras no Parlamento. O que pode ocorrer no Líbano é uma vitória da aliança da qual o Hezbollah faz parte. A maioria dos deputados desta coalizão será composta por cristãos da Frente Patriótica do ex-general Michel Aoun. Para completar, independentemente do resultado, o primeiro-ministro será sunita, como prevêem acordos no Líbano, que também obrigam o presidente ser cristão maronita e o presidente do Parlamento, xiita.

O problema, como alertam aqui em Beirute, será a leitura do resultado em Washington. Certamente, parte da imprensa americana e mesmo autoridades da Casa Branca poderão ler que o Hezbollah tomou o poder no Líbano. Mais do que isso, que o país passou para as mãos do Irã.

O ex-presidente Jimmy Carter, que está como observador da eleição, disse hoje pretende explicar para Barack Obama que o Hezbollah representará apenas 10% do Parlamento, mesmo em caso de vitória de seu bloco.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de "O Estado de S. Paulo" em Nova York. Já fez reportagens de Beirute, Damasco, Tel Aviv, Jerusalém, Gaza, Nablus, Ramallah, Cairo e Amã quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Também já trabalhou como repórter na Argentina





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