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04.02.10

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 01:01:32.

Com a proximidade do aniversário da Revolução Islâmica no Irã, dia 11, o primeiro desde que estouraram os protestos contra supostas fraudes nas urnas nas eleições presidenciais, em junho, convidamos* a historiadora e escritora Marcia Camargos, autora de O vôo do Albatroz, sobre a travessia de um refugiado iraniano para o Brasil, e o cineasta Flavio Rassekh, de origem iraniana, para um bate-papo sobre direitos humanos no país. Hoje, na TV Estadão.

* Convidamos também para essa conversa um representante da Embaixada do Irã no Brasil, mas, conforme informou o assessor do órgão, não foi possível conciliar a agenda dos diplomatas, que ficam em Brasília, com uma viagem para São Paulo, onde está o estúdio da TV Estadão. Eles se colocaram à disposição para futuras entrevistas.

 


28.01.10

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 15:43:28.

O jornal britânico The Guardian lançou um termômetro de países com maior probabilidade de causar problemas em 2010, o “troublespotometer”, que traduzi livremente como problemômetro. Veja os cinco primeiros do ranking, segundo o Guardian:

1) Irã – O governo repressor visto como ilegítimo pelo próprio povo, depois das eleições de junho, faz do Irã um caldeirão político e social que voltou a fervilhar em dezembro e pode se tornar incontrolável. A economia vai mal, com o desemprego alto e investimentos baixos. O líder supremo aiatolá Ali Khamenei e o presidente Mahmoud Ahmadinejad são muçulmanos puristas para quem a ideia de acordos com inimigos internos e externos é alienígena. O país continua a desafiar o Conselho de Segurança da ONU e a Agência Internacional de Energia Atômica em defesa de seus ‘direitos nucleares’. O apoio do regime a grupos radicais no Líbano e Palestina, Iraque e Iêmen é visto por vizinhos árabes, como a Arábia Saudita, e seus aliados ocidentais como uma ameaça à segurança. Além disso, as declarações antissionista de Ahmadinejad convenceram Israel de que o Irã representa uma ameaça que talvez tenha de ser contida com o uso da força.

2) Paquistão-Afeganistão – O Afeganistão esteve no foco da atenção internacional em 2009, quando o Ocidente se deu conta de que os EUA e a Otan estão perdendo a guerra contra o Taleban. Mas, o Paquistão promete roubar a atenção este ano. O presidente Asif Ali Zardari vem sendo pressionado por oponentes. Sua fraqueza beleficia os militares e o notório serviço de inteligência paquistanês, que levaram o Taleban afegão para lá. Não seria problema, não fosse o fato de que os militares têm resistido mais e mais às tentativas dos Estados Unidos de expandir a ofensiva para o lado do Paquistão. E ainda tem toda a questão com a India e Casimira.

3) Israel-Palestina - As tentativas frustadas de Barack Obama de catapultar negociações com o governo de Binyamin Netanyahu e uma Palestina dividida aumentaram o risco de violência em 2010. Com o Fatah e o Hamas ainda sem se entender, Gaza em ruínas, Israel focado no Irã e não em restabelecer a paz, os estados árabes moderados desencorajados e Obama com tantos outros problemas a resolver, a possibilidade de que o vácuo deixado seja tomado por extremistas é claro.

4) Iêmen - O Iêmen é “o lugar” para Al-Qaeda regenerar e congregar jihadis vindos da fronteira do Paquistão e Afeganistão. A falta de governo torna o espaço ideal para servir de esconderijo e base de treinamento. E há conflitos internos entre sunitas e xiitas, o que coloca a Arábia Saudita e o Irã em lados opostos. A tentativa, ainda que mal sucedida, pela Al-Qaeda de explodir um avião americano no Natal, após ataques dos EUA e do governo do Iêmen em supostos campos de treinamento da Al-Qaeda no deserto, mostraram o potencial do país para causar problemas. Os militares americanos estarão mais atentos ao Iêmen. E a situação tende a piorar antes de melhorar.

5) Sudão - Negligenciado, abandonado no ostracismo, afundado em conflitos e empobrecido, o Sudão é frequentemente descrito como um barril de pólvora prestes a explodir. E 2010 pode ser o ano em que isso irá acontecer. As eleições nacionais são um pavio, as tensões éticas e tribais outro. Darfur segue sem solução. Disputas por petróleo e tensões nos países vizinhos, como Chad, adicionam mais combustível à fórmula explosiva.

Leia mais (em inglês).

 


26.01.10

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo 02:51:07.

Dois ou três posts atrás, publiquei foto e vídeo de um menino de 8 anos resgatado com vida no Haiti, após uma semana sob os escombros. Continuo achando a imagem emocionante. Mas, pensei muito sobre as considerações que fez o amigo e médico Eric Berseth. Funcionário do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, ele já viu de perto os mais terríveis desastres humanitários. Esteve no Afeganistão por três anos, ingressou em missões na África e América Central e em poucas semanas seguirá para o Iraque.

“O menino é uma graça. Mas, a mídia americana, tão paternalista e fazendo o tipo ‘salvadora do mundo’. Eu realmente não gosto quando a imprensa usa o desespero das pessoas para alcançar outros objetivos. É um olhar perverso sobre a tragédia humana. Não gosto de ver gente tirando vantagem disso para conseguir a sua história. É patético essa gente falando sobre o que fez, dando tapinhas nas costas um do outro, enquanto há centenas de outras pessoas ao seu lado fazendo exatamente o mesmo trabalho, porém, com mais modéstia. Quando você é parte de uma equipe de resgate, é seu trabalho tirar as pessoas de escombros... Da mesma forma, se você é médico, é seu dever salvar vidas. E nós não ficamos dando tapinhas nas costas um dos outro e nos prabenizando com a música do Starwars ao fundo. Um pouco 'Hollywood' demais para o meu gosto, mas obrigada pelo. Só não mande, por favor, o link da Janet Jackson, Robert William, Scarlett Johanson e Justin Timberlake cantando pelo Haiti...”, disse, irônico como sempre.

De início, achei que Erica estava apenas num dia ruim. Mas, ele pode ter razão. Depois de tanta propaganda, tantas reportagens de TV e seus repórteres-herois, de artistas atendendo telefones e outros cantando para levantar recursos para o Haiti, li há pouco no Financial Times sobre o apelo feito durante encontro de ministros de vários países, hoje, em Montreal, para que credores perdoem a dívida externa do Haiti.

E não perdoaram ainda? Não. O consórcio formado por Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e França disse apenas que aceleraria o cancelamento de U$ 215 milhões, ou pouco mais de 20% do U$ 1 bilhão devido, o que já estava acordado desde antes do terremoto. O Haiti tem ainda dívidas a pagar com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e outros países. Até Hugo Chávez, da Venezuela, que vem alardeando críticas contra a atuação americana no Haiti, não decidiu ainda se irá perdoar a dívida de U$295 milhões que o Haiti tem com o país.

 


25.01.10

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 02:33:34.

Não quero transformar esse espaço em uma reprodução de matérias do jornal impresso. Mas, como o Irã é assunto recorrente no blog, coloco para discussão aqui o conteúdo da entrevista que fiz com a Nobel da Paz iraniana, Shirin Ebadi, publicada pelo Estado na edição desse domingo. Conheci Shirin pessoalmente em Teerã, em 2007. Com seus pouco mais de 1m50 de altura, ela abriu pessoalmente a porta do seu pequeno escritório para mim. Fez sinal para que eu entrasse e a passos rápidos atravessamos uma recepção lotada de mulheres até a sua sala. Eram iranianas a quem Shirin defende gratuitamente, com ajuda do U$ 1,3 milhão que recebeu pelo prêmio, em 2003. Para quem quiser saber um pouco mais sobre a sua história, recomendo ler o livro ainda sem tradução para o português Iran Awakening (O Despertar do Irã, na tradução livre). As entrevistas que fiz com Shirin, em 2007 e na semana passada, constarão do livro que preparo para esse ano sobre o país dos aiatolás. Conto com vocês para me ajudar nessa tarefa com críticas, comentários, sugestões e reflexões sobre esse tão distante e controverso Irã.

*

'Lula não deveria se unir a governos criminosos', diz Nobel da Paz iraniana

Adriana Carranca
Shirin Ebadi tem um recado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Diga a ele que não deveria fazer amizade com governos criminosos." O apelo é de uma Nobel da Paz e ela se refere à aproximação do Brasil com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, selada por sua visita oficial ao País, em novembro, que deve ser reforçada com a ida de Lula ao Irã, agendada para junho.

Desde as eleições presidenciais que levaram Ahmadinejad ao segundo mandato, provocando protestos por possíveis fraudes nas urnas, Shirin está refugiada com a família na Alemanha. Em Teerã, 40 manifestantes foram mortos em confronto com a polícia, segundo números oficiais - organizações civis falam em mais de 80. Cerca de 100 opositores foram julgados desde agosto, 5 deles condenados à morte. Na quarta-feira, o governo iraniano anunciou para o dia 7 o julgamento de sete líderes da fé bahai (leia abaixo).

"Será que ele (presidente Lula) não vê o que está acontecendo nas ruas de Teerã? Como pode fazer amizade com um governo que mata seus jovens e estudantes, sua gente?", diz. As amizades do presidente Lula preocupam Shirin por ele ocupar uma posição de destaque cada vez maior no cenário internacional. Em fevereiro, o Conselho de Segurança da ONU discutirá novas sanções contra o programa nuclear do Irã, e o Brasil, que desde o dia 1º ocupa vaga não-permanente no órgão, terá de se posicionar. No lugar do embargo econômico, "que só faz prejudicar os iranianos", Shirin defende o isolamento político do presidente Ahmadinejad.

Ela foi a primeira mulher muçulmana a receber um Nobel da Paz, também o primeiro concedido a um iraniano, em reconhecimento por seu trabalho na defesa dos direitos humanos em um regime que triunfou com sua ajuda e, mais tarde, quase lhe tirou a vida.

Shirin era, então, a primeira juíza e única representante feminina na corte do monarca xá Reza Pahlevi, visto pela população como corrupto, que esbanjava gastos em festas regadas a champanhe francês enquanto os iranianos empobreciam, além de impor costumes ocidentalizados demais para um povo com 2,5 mil anos de história. Foi contra tudo isso que Shirin se colocou, motivada pela ideia de democracia islâmica estampada na figura do carismático aiatolá Ruhollah Khomeini, que prometia resgatar o orgulho iraniano e princípios de igualdade e Justiça com a Revolução de 1979.

Estava enganada. Triunfado o regime, Shirin foi impedida de exercer o cargo de juíza e viu-se em um limbo supostamente imposto pela religião. Como advogada independente passou a defender os direitos de presos políticos e mulheres contra decisões da Justiça agora sob domínio dos aiatolás, assim como a política e a economia. Mais tarde, veria seu nome em uma lista de jurados de morte, como relata no livro, não publicado no Brasil, Iran Awakening (O Despertar do Irã, em tradução livre).

"O Nobel serviu para mim como um escudo de proteção. Mas, ainda tentam me calar, ameaçando meus parentes e colegas de trabalho". Em entrevista ao Estado, por telefone, Shirin relata a situação no Irã, seis meses após as eleições, e pede aos brasileiros que "ouçam a voz dos iranianos".

Leia a entrevista aqui!

 


por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo 02:02:35.

A situação é tão dramática que o economista Tyler Cowen, colunista do New York Times, chegou a sugerir, em uma entrevista que publiquei hoje sobre a recontrução do Haiti, evacuar o país caribenho e formar um consórcio de países ricos para receber os milhões de sobreviventes como imigrantes. Abaixo, trechos da reportagem.

*

COMO REERGUER UM PAÍS RESUMIDO A ESCOMBROS?
Adriana Carranca
Com a chegada dos reforços militares, da água, comida e médicos ao Haiti, a pergunta é: como avançar a partir de agora? Por onde começar a reconstruir uma nação resumida a pó e escombros? O futuro do país caribenho se configura como o maior desafio dos haitianos e um teste definitivo à capacidade da ONU e dos países ricos de reerguer Estados falidos.

Desde a 2ª Guerra, o conceito ainda novo de "state building" (reconstrução de um Estado pela comunidade internacional, em geral após conflitos armados) se deu em países como Timor Leste, Bósnia, Kosovo e, recentemente, Iraque e Afeganistão ? em nenhum deles, porém, foi bem-sucedida, embora ainda existisse vestígios do Estado nestes locais. Já o Haiti, como nação, organizada politicamente, com um Estado soberano e instituições autônomas, acabou. No lugar da antes instabilidade, não sobrou um mínimo de infraestrutura básica.

A situação é tão dramática que os analistas se dividem entre os que não querem falar em reconstrução "porque não se pode reconstruir aquilo que já não existia" ? como afirma o cientista político Eduardo Nunes, diretor para América Latina e Caribe da organização internacional Visão Mundial ? e os céticos, capitaneados pelo economista americano e colunista do jornal The New York Times Tyler Cowen, que assegura: "O Haiti acabou."

Ao Estado, Cowen sugeriu um consórcio de países para receber os 3,2 milhões de haitianos de Porto Príncipe como imigrantes. Mais ou menos na linha do que sugere a expressão "o último que ficar apaga a luz". Exceto pelo fato de que no Haiti não há luz - a rede de energia, antes precária, foi destruída - e o único aeroporto funcional opera emergencialmente sob comando das Forças Armadas americanas.

"O presidente sobreviveu, mas o Estado não existe mais", diz Tyler. Analistas menos radicais têm trabalhado com a perspectiva de êxodo de 400 mil haitianos de Porto Príncipe para regiões menos afetadas. O problema é que estas também não dispõem de infraestrutura. Teme-se que, no longo prazo, essas áreas se tornem campos de refugiados permanentes. Cinco anos após o furacão Katrina, milhares ainda não puderam voltar para casa em Nova Orleans. E isso nos EUA.

Leia mais...

 


por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo 00:02:47.

Jorge Silva/Reuters

As manchetes dos jornais internacionais voltaram a ser “business as usual”, como os americanos dizem quando as coisas seguem dentro da normalidade. O Afeganistão voltou à manchete do The New York Times. O Washington Post abriu sua edição com a disputa entre democratas e republicanos para a cadeira deixada por Ted Kennedy no Senado. O britânico Observer, o dominical do The Guardian, abre com a ilegalidade da guerra no Iraque.

E o Haiti? O Haiti ainda ocupa espaço na primeira página desses jornais, embora não mais na manchete. Mas, a tendência é de que perca mais e mais espaço e, com isso, deixe de atrair tantas doações, pressão política e a presença de organizações de ajuda. Algumas delas devem deixar o país em breve, já que seu trabalho é garantir o atendimento primário em emergêncas e partir para uma próxima catástrofe.

É natural que isso ocorra. Mas, essa debandada no Haiti será dramática. Uma das maiores tragédias recentes, o tsunami que devastou a costa da Ásia, em 2004, matou 280 mil, mas nenhum dos países atingidos ruiu com as águas. A infraestrutura, as instituições, o sistema politico continuaram em pé. Em Porto Príncipe não há escolas, hospitais, comércios, comida, água, prisões, igrejas, cemitérios, cartórios, o Palácio do Governo e outros prédios públicos, as casas, as indústrias. Ainda que as pessoas tenham um canto para dormir, ao acordar elas não sabem o que fazer, não têm mais onde trabalhar ou para onde ir. Não sobrou nada sobre um já instável e pobre Haiti.

Com o Brasil à frente da Minustah, a missão da ONU no país caribenho, a imprensa nacional terá de acompanhar de perto o trabalho e os avanços – ou não – do Haiti. A crise humanitária pode estar apenas começando.

 


22.01.10

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo 02:40:34.

Não consigo parar de ver aquela cena. De novo e mais uma vez. No tempo certo e, depois, em câmera lenta para enxergar melhor. Quando já não havia mais esperança, surge do caos no Haiti a imagem de um menino de 8 anos resgatato com vida dos escombros de sua casa. Magro, ferido, desidratado, ele olha para a lente do fotógrafo americano Matthew McDermott, abre os braços esticados para o ar, que quase lhe faltou por completo, como se quisesse agarrar a própria vida. E sorri um sorrido impossível de descrever porque a imagem diz tudo. Inesquecível. Assista o vídeo, da CNN!

 


20.01.10

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo 02:32:12.

Foto: TSF em Porto Príncipe, Haiti

Pesquisando aqui e ali sobre o que as ONGs internacionais estão fazendo no Haiti, encontrei a Télécoms Sans Frontières (Telecomunicações Sem Fronteiras). Foi inspirada na organização humanitária Médicos Sem Fronteiras, mas, no lugar de assistência médica e remédios, leva ajuda em forma de telefones, computadores, aparelhos de comunicação via satélite, Internet.

No Haiti, a TSF instalou emergencialmente postos de telefonia, via satélite, para o uso de autoridades locais e das equipes de emergência, já que a falta de comunicação foi um dos maiores obstáculos para a organização da ajuda. Também passou a responder pelo suporte técnico à Minustah, a missão no Haiti, que reúne governos, inclusive do Brasil, e as agências da ONU. O próximo passo será abrir centros de telefonia para uso das ONGs locais.

Na sexta-feira, foram montadas outras duas estações telefônicas, estas abertas à população; uma no estádio Sylvio Cator e outra no bairro de Boyer. Segundo a organização, 95% das ligações de Porto Príncipe foram feitas aos Estados Unidos, onde está a maior colônia haitiana fora do país. A frase mais dita - a pais, mães, filhos, irmãos imigrantes em solo americano - foi: “Estou vivo!”.

 


19.01.10

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo 15:07:06.

EFE/Orlando Barría

Um terremoto da magnitude do que atingiu o Haiti, na semana passada, seria suficiente para causar uma tragédia, mas, talvez, não nas proporções com que se viu no país caribenho. A infraestrutura já precária, as contruções inseguras, a falta de capacidade para lidar com emergências, a vulnerabilidade política e social, a pobreza generalizada, tudo iddo contribuiu em muito para aumentar o número de mortos.

Médicos que trabalham no atendimento às vítimas já temem que doenças se espalhem entre a população que antes de qualquer desastre já era atingida por níveis epidêmicos de Aids, tubercoluose e malária. As pessoas desnutridas, feridas, desabrigadas e as más condições de saneamento e higiene atuais podem criar o ambiente adequado para "o maior desastre médico de todos os tempos", informou hoje Maggie Fox, editora de saúde e ciência da Reuters.

É incrível o que estamos vendo no Haiti em termos de mobilização de recursos financeiros e humanos. Pena que tenham surgido apenas agora. O Haiti há muito precisa de ajuda efetiva, assim como os tantos países miseráveis da África e Ásia.

EFE/Orlando Barría

E o temor é de que o Haiti se transforme realmente em um Afeganistão, onde a ajuda humanitária já chegou há sete anos. E ainda é insuficiente, ineficiente e assistencialista.

 


por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo 02:54:22.

Eduardo Munoz/Reuters

Acabo de conversar longamente com um grande amigo que mora na República Dominicana, na lado espanhol da mesma ilha onde está o Haiti, o lado francês. Ele se dizia emocionado com toda a mobilização em torno de Porto Príncipe para levar ajuda aos "hermanos". Parentes, amigos, vizinhos, colegas de trabalho atravessam a fronteira para oferecer ajuda. Seu pai sairia às 4h com um grupo de médicos para levar assistência a quem não consegue chegar até os já superlotados hospitais dominicanos. Ele mesmo já foi a Porto Príncipe três vezes, desde o terremoto.

Em uma dessas vezes, ficou surpreendido ao ver o filho do maior magnata dominicano entre os voluntários, em Jimani, na fronteira com o Haiti, onde foi montado um centro para organizar a ajuda e por onde entram os milhares de refugiados. "Há muita gente ordinária fazendo coisas extraordinárias. Você nem imagina. Chega a ser possível ver alguma benção por trás dessa tragédia toda", disse.

É verdade que organizar a ajuda é tão importante quanto a ajuda em si, e ela tem sido frustrada no caso do Haiti. Mas, nas grandes crises humanitárias é essa a maior dificuldade. E os burocratas fazem reuniões infindáveis enquanto o povo se vira como pode para que a ajuda chegue de qualquer forma, a despeito de quem está no comando. Um grupo de jesuítas dominicanos, contou esse amigo, atravessou a fronteira em um caminhão emprestado e lotado de água e comida. Sem precisar de segurança, organizaram cinco pontos de distribuição.


Mantimentos enviados por palestinos às vítimas do terremoto no Haiti. Hatem Moussa/AP

Faltam carros para levar os alimentos a quem não pode andar, aos feridos, órfãos... Faltam geradores de energia, porque ainda falta luz, faltam refrigeradores para manter conservada a comida e os remédios, falta teto e chão para descansar o corpo e o espírito. Falta tudo. Mas, há ajuda. E ela tem de chegar, seja como for. É só o que importa agora.

 


12.01.10

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 16:03:35.

O Bolsa Família foi alvo de minha tese de mestrado. E a conclusão a que cheguei, então, foi a de que, assim como o anterior Bolsa Escola, da forma como havia sido estruturado, trazia muito mais benefícios políticos e econômicos do que sociais. Políticos porque é um programa que não apenas rende votos como também melhora a imagem do governo mundo afora a ponto até de atrair investimentos externos com a melhoria nos índices de renda do País. Econômicos porque, de fato, reduz a pobreza momentaneamente e ajuda a girar pequenas economias locais onde o programa é implantado.

A área social é a menos beneficiada. Embora seja um enorme alento para as famílias que recebem o benefício - e que realmente precisam desse apoio básico para sobreviver -, o programa, a longo prazo, pouco muda. Se retirado, as famílias voltam à estaca zero. Foi o que pude atestar em uma reportagem que fiz ainda em 2006. Por isso, é tão importante, antes de aumentar os beneficiados, como propõe agora o Ministro Patrus Ananias, é preciso reduzi-los, ou seja, emancipar aqueles que já vêm sendo beneficiados há anos e que, em tese, deveriam já estar preparados para seguir sozinhos. Não estão.

Embora seja preciso admitir avanços nos níveis de emprego e renda, a desigualdade segue assustadoramente alta, como mostra relatório do Ipea publicado hoje. Isso significa que os pobres até estão menos pobres, mas os ricos estão muito mais ricos, e o País continua distribuindo seus recursos - na forma de educação e saúde, principalmente - de forma desigual. E nem todos os Bolsas Famílias do mundo vão resolver isso, se os brasileiros continuarem partindo de bases tão distantes.

 


06.01.10

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 20:50:02.

Adoro fim de ano – exceto pelos shopping e estradas lotadas, dos quais fujo como o diabo da cruz. Fico mais em casa, mais quieta, mais sozinha. Mergulho de cabeça na onda de rever o que passou e fazer planos para o que vem. E 2009 foi, para mim, um ano muito especial porque tive a sorte de esbarrar em pessoas com quem aprendi muitíssimo.

Caco de Paula, meu editor na Veja SP, onde trabalhei, escreveu certa vez que assimilamos um pouco de cada pessoa que conhecemos, seja em uma conversa breve ou nas relações mais estáveis e duradouras. Somos, portanto, um conjunto mutante daqueles que vamos encontrando pelo caminho, desde a infância.

Se é assim, me sinto feliz por ter um pouco das pessoas que cito aqui.

EU SOU TAM TAM


Di Renzo, no início dos anos 90, na rádio Tam Tam


E hoje!

Foi uma grata surpresa reencontrar Renato Di Renzo, meu professor de artes no colégio, e a atriz e bailarina Claudia Alonso e descobrir que eles continuam, apesar das adversidades e quase nenhum apoio oficial, mantendo bravamente a Associação Projeto Tam Tam.


Café Teatro Rolidei, da Tam Tam

Por meio de Di Renzo e Claudia, cheguei a Hercílio e José Gonçalo, personagens da vida deles e de uma reportagem minha sobre o que aconteceu com os ex-internos da Casa de Saúde Anchieta, o primeiro manicômio do Brasil a sofrer intervenção pública, dando início à reforma psiquiátrica no País. Vinte anos depois, encontrei um Hercílio independente e trabalhador e um José Gonçalo cantor e compositor, com CD gravado e o nome artístico de Jacaré Gularstone.

Eles provam ser possível aos que têm distúrbios psiquiátricos levar uma vida independente se acompanhados, assim como os que sofrem de qualquer outro distúrbio – cardíacos, obesos, diabéticos, portadores de HIV, hemofílicos etc..

*

E AÍ, BELEZA?

Claudia e Di Renzo me proporcionaram um momento especial no ano, que foi o desfile com voluntários, jovens e adultos atendidos pelo projeto, no lançamento da campanha E Aí Beleza? Eu sou assim!. Muitas das roupas, lindíssimas, foram produzidas por eles, incluindo o vestido que encomendei para o Ano Novo, pintado especialmente por Rubio, um dos mais antigos integrantes das oficinas de artes do projeto. Lindo trabalho, o do Rubio!

A campanha E Aí, beleza? traz uma releitura dos antigos calendários de bolso, agora com a nudez de uma senhora de 94 anos de idade, um travesti, a dona Elisabet Custódio (foto), e outros.

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O RIO DE JANEIRO CONTINUA LIIINDO...

Jose Junior (à dir. na foto, ao lado de Daoud), fundador do AfroReggae, que usa a cultura para afastar crianças e jovens do narcotráfico, me proporcionou outro momento muito especial, que guardarei para sempre: um dia no Complexo do Alemão, conjunto de favelas que costuma figurar na imprensa em reportagens sobre violência, mas onde há também uma alegria contagiante, um colorido, a música sempre presente, crianças brincando e estudando e muita gente correndo atrás de uma vida melhor honestamente. Não faço aqui uma apologia à favela e muito menos ao tráfico, mas àqueles que sobrevivem a um duro dia a dia, apesar das dificuldades de viver em uma favela e na presença opressora do tráfico. E, é claro, àqueles que se empenham em virar esse jogo e sobreviventes como Chinaider Pinheiro, recrutado pela ONG na cadeia e hoje coordenador do projeto de empregabilidade para jovens.


No grupo em visita ao Complexo do Alemão estavam Daoud Hari, refugiado sudanês que escapou da morte em Darfur, história que ele conta no livro O Tradutor, publicado no Brasil pela editora Rocco; e a canadense Catherine Pappas, diretora para o Oriente Médio da ONG Alternatives, com projetos no Afeganistão, Paquistão, Palestina, Sudão e Iraque. Catherine levou com ela ao Alemão a filhinha que acabara de nascer. "Você não tem medo?", perguntei a Catherine, sobre a laje de uma casa no centro do Alemão. "Não. Me parece que nascem muitos bebês nessa favela". OLhando para o céu azul do Rio, pincelado por múltiplas cores, Daoud observou que "onde há pobreza e conflito, há também muitas pipas", referindo-se ao cenário de O Caçador de Pipas, no Afeganistão.

Essa experiência bacana rolou pelas mãos de outro grande profissional, Edson Natale, que se tornou um amigo querido! Natale é um artista, músico, produtor cultural, articulador de boas ideias e pessoas, profundo conhecedor da arte, nacional e internacional, na qual aposta como ferramenta de inclusão (e eu também!). Natale me deu a honra de subir no palco do auditório do Instituto Itaú Cultural, na Avenida Paulista, para mediar palestras de gente absolutamente maravilhosa que promove a paz por meio de ações culturais mundo afora, durante o evento Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Obrigada, Natale!!!

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LUZ SOBRE A REALIDADE

André Liohn, fotógrafo brasileiro viaja registrando as tragédias humanas que o mundo precisa encarar. Ele me deu a honra de escrever sobre o drama de refugiados somalis, a partir de seu relato pessoal, linda reportagem e fotos incríveis. Grande André!

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ELES AJUDAM A VIVER

E então conheci Dalva Yukie Matsumoto, médica de olhos pequenos, mas o sorrido largo, que enfrenta dia a dia, na Hospedaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Municipal e no Premier Hospital, aquilo que a maioria dos médicos mais teme: perder um paciente. Ela é médica paliativista e já organizou até o casamento às pressas de um paciente com câncer terminal. Tudo para realizar seu desejo.

Na mesma reportagem, pude falar sobre o centro público de cuidados paliativos que conheci na França, o La Maison, de médicos igualmente incríveis e dedicados como Jean-Michel Riou, que conseguiu até um avião para satisfazer o último desejo de um paciente terminal: voar sobre Côte d’Azur.

Já a conversa com Antonio Carlos Seguro, supervisor da UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor em outra reportagem, sobre a temida gripe suína, foi um alento para a minha credibilidade na medicina à serviço público, que eu julgava perdida.

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PERSONAGENS DE MUITAS HISTÓRIAS

É sempre um privilégio e uma grande responsabilidade ouvir aqueles que generosamente nos confiam suas histórias pessoais. Aprendi muito com elas e espero tê-las transmitido com fidelidade. Entre elas, as de:

Marinete Rodrigues Pereira, de 39 anos, que apesar dos movimentos trêmulos por causa de um câncer no cérebro fez questão de passar batom para a imagem que generosamente cedeu de si própria e ilustra a reportagem sobre cuidados paliativos publicada no Estadão.

Theresa Amayo, que me relatou a sua vida cinco anos após perder a filha, o neto e o genro em um tsunami na costa asiática, em dezembro de 2004. “É preciso seguir vivendo, pelos que ainda estão com a gente”, disse.

Maria, a espanhola que em uma cela da Casa de Detenção Feminina da capital confiou a mim a história de sua vida, da prostituição na Espanha e Holanda às 61 cápsulas de cocaína que ingeriu e que a levaram à prisão e quase à morte no Brasil, ajudando a expor a tragédia de centenas de estrangeiras pobres usadas como "mulas" pelo narcotráfico internacional.

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SUPERAÇÃO

Marcelo Senna

Foi um grande privilégio testemunhar o talento e perseverança do autodidata Marcelo Senna, o desenhista de São Paulo, a convicção cativante de Márcia de Alencar em defesa da penas e medidas alternativas, a força de vontade de Ivanildo Dantas, o menino pobre da periferia de São Paulo que virou chefe de cozinha do Restaurante Escola São Paulo – projeto, aliás, elogiável e que deveria ser expandido - e o processo de recuperação de Kresley, o menino que virou iogue dentro da Fundação Casa.


O chef de cozinha, Ivanildo Dantas.

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MULHER DE BOA ALMA


Foi de grande riqueza o bate-papo com a queniana Auma Obama, irmã do presidente Barack Obama e uma das ativistas da Rede Esporte Pela Mudança Social, que não apenas reconhece o poder do sobrenome que carrega, como admite sem pudor o uso dele para dar visibilidade à causa que defende na África.

*

OUTONO EM CABUL

Os afegãos, com suas histórias e hospitalidade, me permitiram publicar, em fevereiro, um especial sobre a situação humanitária no Afeganistão e realizar uma exposição de fotos com o mesmo tema, em junho, durante o mês da mostra Imagens do Oriente, no CineSesc.

Obrigada aos organizadores, Gilson Parker e Márcia, do CineSesc, Arlene Clemesha, criadora da mostra, e a superempenhada escritora Márcia Camargos, além dos editores Ary Schneider e Roberto Gazzi, que apostaram no projeto desde o início, e, especialmente, ao editor de fotografia Juca Varella, que generosamente doou todo o seu talento à mostra, da qual foi o curador. A exposição não teria saído sem ele!

A imagem de um grupo de costureiras em Cabul, editada por ele, foi uma das 50 selecionadas para integrar uma campanha da Organização das Nações Unidas, Humanizing Development (Humanizando o Desenvolvimento), que tem como objetivo dar rosto aos precursores de grandes avanços no desenvolvimento humano mundo afora, como aquelas batalhadoras mulheres afegãs.

Obrigada, geeente! Aplausos!

 


17.12.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 21:46:40.

Os leitores votaram e chegamos a 15 finalistas para a categoria Humanitário da Década. Obrigada a todos os que contribuiram com essa lista, da qual muito me orgulho. Traz gente de diversas áreas, condições econômicas diferentes e contribuições distintas, mas todas elas muito importantes, para o desenvolvimento das cidades e nações e o aprimoramento dos seres humanos.

Leia abaixo o perfil dos finalistas (aqui, em ordem alfabética). Agora é com vocês! Votem aqui.

Amartya Sen – Vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1998. Criou o Índice de Desenvolvimento Humano, que substituiu a renda per capita como um indicador de qualidade de vida por uma combinação de indicadores que inclui também expectativa de vida e educação. Fez considerações importantes sobre a análise da pobreza, levando em conta diferentes aspectos de cada sociedade, além de outras contribuições para o entendimento do desenvolvimento social, humano e econômico.

Antônio Augusto Cançado Trindade - Jurista brasileiro com larga contribuição na área de direito humanitário internacional e dos direitos humanos. Presidiu a Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), ao longo de dois mandatos (1999-2004), onde ficou conhecido por dar mais espaço aos cidadãos, relativizando o predomínio absoluto dos Estados. Ocupa desde 2008 uma das 15 vagas da Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda. Foi eleito com o maior número de votos nos 79 anos de história da instituição, onde defende uma mudança ética e moral à visão conservadora adotada desde a fundação, em 1920.

Bono Vox - Líder da banda de rock irlandesa U2. Usa a sua imagem e poder de influência para levantar fundos para causas sociais e divulgar campanhas, como a que liderou pelo perdão da dívida externa dos países pobres. Concorreu ao Prêmio Nobel da Paz em 2003 e em 2006.

Dagmar Garroux, a tia Dag - Educadora, fundou há 15 anos a organização Casa do Zezinho, no Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, que oferece cursos de informática, arte, música, inglês, capoeira, dança, teatro, reciclagem de papel e capacitação para crianças e adolescentes. Esse ano, o projeto foi levado para o Morro da Grota, uma das doze favelas do Complexo do Alemão, no Rio.

Dorothy Stang – Missionária americana assassinada no Pará, aos 73 anos, em fevereiro de 2005. Dorothy lutava pela melhoria da qualidade de vida e o direito de camponeses à terra na região de Anapu, apesar das constantes ameaças de fazendeiros e madeireiros.

Flordelis – Professora da rede pública e ativista social da favela do Jacarezinho, no Rio. Começou abrigando, em sua própria casa, crianças e adolescentes que ela convencia a deixar o tráfico de drogas. Em 1994, acolheu os 37 meninos de rua que escaparam de uma chacina na Central do Brasil. Sua vida é contada no filme “Flordelis – basta uma palavra para mudar”, de Marco Antonio Ferraz e Anderson Correa, lançado em outubro.

Pd.Jaime Crowe – Atua há mais de duas décadas na região pobre do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, com mais de 350 mil habitantes. À frente da Sociedade Santos Mártires, organização sem fins lucrativos, fundou o Fórum em Defesa da Vida, que reúne 250 movimentos sociais. Entre outras ações, organiza desde 1995 os Tribunais Populares, em que a Prefeitura é colocada no banco dos réus e julgada pela população local, com intermediação de representantes do Ministério Público, o que já rendeu ações civis públicas contra as secretarias municipais por negligência, pela falta de equipamentos públicos no bairro. O Fórum já conseguiu levar ao bairro o Hospital M’Boi Mirim, um Batalhão da Polícia Militar e bases comunitárias, o que fez reduzir os índices de violência.

Jeffrey Sachs – Economista americano, autor de O Fim da Pobreza. É diretor do Earth Institute, da Universidade Columbia, em Nova York, e consultor especial da ONU para políticas de combate à pobreza. Em 2006, foi considerado pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo.

José Junior e Evandro João da Silva (em memória) - José Junior fundou há 16 anos o Grupo Cultural AfroReggae, que promove ações socioculturais e tem 72 projetos em andamento, entre os quais 13 SubGrupos culturais de música, circo e teatro. Atua em áreas de risco, na mediação de conflitos e no resgate da cidadania de jovens envolvidos com o narcotráfico. Evandro era o coordenador da equipe técnica social do AfroReggae. Ele foi assassinado em um assalto, em 18 de outubro, aos 42 anos.

D. Luiz Flávio Cappio - Bispo da diocese da Barra (BA), fez greves de fome contra a transposição do Rio São Francisco, que irá levar suas águas para as bacias hidrográficas do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do agreste de Pernambuco. A última delas, em 2007, durou 24 dias. Ele não conseguiu evitar as obras, iniciadas esse ano, mas sua luta é considerada vitoriosa por ter obrigado o governo federal a incluir no projeto obras de revitalização do rio, a construção de cisternas e o tratamento de esgoto dos municípios ribeirinhos.

Muhammad Yunus - Economista nascido em Bangladesh, onde criou o Grameen Bank, considerado o maior banco de microcrédito do mundo, com 7,5 milhões de clientes, 28 mil empregados e mais de US$ 1 bilhão concedidos em empréstimos por ano. Apelidado de "banqueiro dos pobres", recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2006.

Noam Chomsky - Filósofo, pensador e professor de linguística americano, defensor da Justiça e liberdade e crítico feroz de toda forma de opressão e poder - do comunismo soviético ao liberalismo norte-americano. É autor de dezenas de livros, entre os quais Human Rights and Foreign Policy, lançado em 1978, O Lucro ou as Pessoas? - Neoliberalismo e Ordem Global, e 11 de Setembro.

Sergio Vieira de Mello – Representante da Organização das Nações Unidas (ONU) no Iraque, onde foi morto, aos 55 anos, em um atentado à bomba contra a sede da instituição, em Bagdá, em agosto de 2003. Desde 1969 na ONU, Vieira de Mello teve papel essencial nas negociações diplomáticas em conflitos como Líbano, Bósnia e Ruanda, e por cinco meses governou o Timor Leste, após a independência.

Sting - Roqueiro inglês, fundou a organização internacional Rainforest Foundation, em 1989, que atua pela proteção das florestas e dos povos nativos. No Brasil, o cantor tem histórico de militância em defesa dos índios da Amazônia.

Zilda Arns Neumann - Médica pediatra e sanitarista, de 75 anos, fundadora da Pastoral Da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa. Presente em todos os estados do Brasil e em mais 20 países, a Pastoral da Criança tem mais de 240 mil voluntários capacitados atuando em 40.853 mil comunidades em 4.016 municípios. Acompanha quase 95 mil gestantes e mais de 1, 6 milhão de crianças pobres menores de seis anos.

 


08.12.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 19:53:34.

Caro leitor, abrimos uma votação para que você indicar o nome de quem, na sua opinião, mas contibuiu para a melhoria da condição humana na última década. Vote aqui no Humanitário da Década!

Por definição, humanitário é aquele que se interessa pela melhoria da condição humana. Desses, quero crer, há milhares entre nós. Na prática, para ter tal título, não basta ter interesse, mas trabalhar por isso. O que implica, muitas vezes, em abrir mão dos próprios interesses e de questões individuais em favor de um objetivo comum, do coletivo, de algo que beneficie a todos. É aí que a lista se encolhe.

Vivemos a era do individualismo, do carro frequentemente ocupado somente pelo motorista, dos prédios com cinco garagens para guardar o automóvel blindado de cada integrante da família, que já não se reúne; de vizinhos desconhecidos, de filhos criados por babás, de vovós esticadas e ‘botocudas’ graças a promessas de juventude express (gente, eu tenho saudade do cabelo branco e das rugas de uma vida bem vivida das antigas vovós!).

Vivemos a desconfiança mútua, de tudo e de todos. São tempos de vidro fechado, de porta trancada, de muros altos, de cerca elétrica, de criança que não brinca mais na rua, de jardins e canteiros protegidos por grades para o bem dos motoristas e moradores que olham de longe o verde passar pela janela e acham lindo, da beleza artificial acima do bem viver.

Vejam vocês que dia desses eu estive em uma nutróloga, porque ando me alimentando muito mal, e ocorreu à doutora, esticadinha que só, me dar uma dica de método natural contra o envelhecimento: não sorrir, nem chorar, nem emburrar ou tampouco se emocionar, mantendo sempre o mesmo semblante. Socorro! Se rir dá rugas, eu quero morrer parecendo uma casca de maracujá!

Enfim, o leitor deve estar se perguntando o que é que tudo isso tem a ver com o humanitário da década. A resposta é: tem tudo. Porque ser humanitário começa em participar da vida coletiva em família, no condomínio, nas reunião da associação do bairro, nas gentilezas praticadas no caminho de casa para o trabalho, no olhar para o lado e enxergar o outro, na confiança e importância do seu voto, em gastar uns minutinhos para verificar, afinal, o que anda aprontando o seu vereador, em se interessar pela vizinhança, em contribuir com uma cidade, um estado, um país melhor e daí virá um mundo melhor.

Assim, os nomes votados aqui devem servir não para criar heróis, mas para que sejam uma inspiração para o meu e o seu dia a dia. Porque a melhoria da condição humana começa com a gente!

Abraços,
Adriana

 


12.11.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 15:59:38.

As palestras e discussões da 9ª edição do Colóquio sobre Direitos Humanos, organizado pela Conectas, que acontece até sábado, pode ser acompanhado, ao vivo, pela Internet. Os debates contam com a participação de 33 especialistas de vinte países. É só clicar.


 


10.11.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 18:38:33.

Auma Obama é uma mulher cativante. Tive a chance de conversar com ela, para uma entrevista publicada pelo Estado, durante evento esportivo em São Paulo e saí de lá convencida sobre o poder para a transformação social. Acadêmica, formada em letras na Alemanha, com PhD em linguística, fluente em inglês, alemão, swahili e luo, idioma da tribo onde nasceu, e ativista social, a irmã do presidente americano Barack Obama trabalha para incluir crianças e jovens dos países mais miseráveis da África, entre os quais a Ruanda e o Congo, usando atividades esportivas como ferramenta.

Vaidosa com seu cabelo rastafári, essa queniana que esconde a idade veio ao Brasil mostrar o trabalho que faz como consultora da ONG Care e diretora da Rede Esportes para Mudança Social.

Filha de Barack Hussein Obama Sr. com a primeira mulher, Auma conheceu o caçula quando ele lhe escreveu após a morte do pai, em 1982. Os dois se encontraram em Chicago e, mais tarde, ela o acompanhou à Kogelo, o vilarejo natal dos Obama, no Quênia, como conta Barack em seu livro Dreams from My Father (A Origem dos meus Sonhos, no Brasil). Auma participou intensamente da campanha do irmão e ouviu dele agradecimento especial no discurso da vitória. Auma mesmo evita falar no irmão.

Veja aqui a íntegra da entrevista:

O que você achou do Rio vencer Chicago para sediar as Olimpíadas 2016, apesar do lobby do presidente Barack Obama?
(Risos) É uma competição, então, só nos resta parabenizar o vencedor.

Alguns avaliam que o Rio e o Brasil não mereciam sediar a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas por causa da violência e corrupção...
Aos críticos eu diria que, uma vez escolhido o Rio para sediar a Copa e os Jogos, eles devem agora canalizar sua energia para garantir que os dois eventos tragam benefícios de longo prazo para o Brasil. Sobre corrupção... Veja, as regras já existem e estão aí, só não são cumpridas, por isso se chama corrupção. Então, condicionar os investimentos a mais leis e regras não vai prevenir a corrupção e acho que tira o foco daquilo que importa, que é o esporte. O que o governo brasileiro tem de fazer agora é concentrar os esforços para provar ao mundo que está preparado para sediar um evento desse porte e aproveitar os investimentos para trazer benefícios de longo prazo ao País.

Como?
O Brasil é uma nação de amantes do esporte. Nos vemos o que acontece nos jogos de futebol, quando todos se juntam nos estádios e as desigualdades desaparecem. Quando se trata de esporte, o Brasil se torna uma só nação. E um evento internacional desse porte aumenta a auto-estima das pessoas, motiva crianças, jovens, adultos, comunidades inteiras. Agora, o que não podemos é criar uma grande expectativa e depois do evento tudo voltar ao normal. Se o governo for esperto, irá canalizar esses investimentos para reduzir as desigualdades. O esporte é isso: participação e inclusão. Entidades de base que trabalham diariamente com esportes e as crianças e jovens das comunidades carentes devem ser envolvidos na organização. Primeiro, porque eles vivem na pele a carência dos investimentos em esporte e sabem o valor que isso tem. Depois, podem encontrar soluções para que os milhões a serem investidos nos Jogos sejam destinados a infra-estrutura, que mais tarde poderá ser colocada à disposição das comunidades.

Por que trabalhar com esportes?
Porque nós precisamos atrair as crianças e garantir que eles continuem voltando e o esporte é uma excelente ferramenta para isso. O atrativo é a garantia de poder jogar e brincar, o que é um luxo para muitas crianças pobres, sem espaço nas comunidades. Com isso, conseguimos que passem os dias com a gente. A partir daí criamos um vínculo e eles próprios começam a se transformar. Passam a cuidar da própria saúde, por exemplo. Meninos de rua que atendemos largaram as drogas porque queriam melhorar sua performance no esporte. As famílias passam a vir aos jogos, então, é uma forma de engajar toda a comunidade e acabamos unindo esses eventos esportivos a palestras e campanhas sobre assuntos como HIV. Devagarinho vamos mudando a vida deles e não há nada com maior potencial de transformação economicamente tão eficaz quanto o esporte. Para música, você precisa de instrumentos. Para teaatro, de um espaço adequado e audiência. No esporte, principalmente o futebol, tudo o que você precisa é uma bola de plástico.

A parcela do orçamento público destinada aos esportes deve ser obrigatória, como são saúde e educação no Brasil?
Seria uma legislação difícil de seguir. Mas, acho que os governos devem acordar para o fato de que o esporte é uma ferramenta de educação e saúde.

Como é ser uma Obama hoje?
A minha vida mudou completamente. Vamos ser honestos, você não estaria aqui me entrevistando se eu não fosse uma Obama... Então, tento canalizar essa atenção toda e a visibilidade que passei a ter para o meu trabalho. Por outro lado, é uma responsabilidade muito grande porque onde quer que eu vá, as pessoas querem ouvir a minha opinião e eu acabo fazendo papel de porta-voz das organizações que represento. E isso é complicado, então, eu tento controlar o número de entrevistas.

Como foi para você ver Barack Obama chegar à presidência dos EUA?
Eu não gostaria de responder perguntas nessa linha. O que isso tem a ver com meu trabalho?

É o primeiro afro-descendente a assumir a presidência da nação mais poderosa do mundo. Isso tem a ver com direito de igualdade, oportunidade, desenvolvimento...
É, nesse sentido, eu concordo com você. O meu irmão é um exemplo de que, se você trabalhar duro e se preparar, pode ser o que quiser, até presidente dos EUA. Essa mensagem é muito poderosa, um estímulo grande para as crianças e jovens pobres do mundo inteiro.

Como é a sua relação com o presidente Obama?
Como a de quaisquer irmãos. Ele está lá, trabalhando, enquanto eu estou dando essa entrevista. Às vezes nos telefonamos. Outras nos visitamos. Somos irmãos.

Ele apoia o seu trabalho?
Claro. Muito. Assim como eu, Barack sabe que as crianças são o futuro de uma nação, coisa que muitos adultos se esquecem.

De onde vem essa inspiração dos Obama para mudar o mundo?
Meu pai era um homem de muitos princípios, que trabalhou para o governo no Quênia e viu muitas coisas erradas. Então, eu cresci acompanhando as frustrações dele, mas, ao mesmo, tempo vendo-o manter firmemente suas convicções e nos encourajando a fazer o mesmo. Era um homem de grande caráter, que tratava a todos de forma igual, fosse um governante ou morador de rua. Ele dizia: Não se deve avaliar um livro pela capa.

 


06.11.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 17:40:23.

Leia aqui a íntegra da entrevista publicada pelo Estado essa semana com Sandra Carvalho, diretora da organização Justiça Global, com sede no Rio, vencedora do Prêmio Anual da Human Rights First.

Como você viu a repercussão internacional da violência no Rio?
A segurança pública foi o tema central dos debates em Nova York, onde eu fui para receber o prêmio, no dia 22. O The New York Times deu destaque para o episódio da derrubada do helicóptero. No entendimento da Justiça Global, o que ocorreu no Rio não foi algo especial e, sim, a anormalidade de sempre que, dessa vez, ganhou relevância internacional pelo fato de que o Rio sediará as Olimpíadas em 2016. O que eu mais achei interessante, no entanto, foi que apesar de ter essa imagem da violência com relação ao Brasil, as pessoas ainda se espantam ao ouvir sobre as recorrentes violações de direitos humanos por parte do Estado. Os estrangeiros acham que o Brasil do governo Lula estaria muito melhor em termos de direitos econômicos, sociais e culturais.

E não está?
Não. Houve avanços na participação da sociedade civil. Mas, na prática a relação do Estado com a população pobre e moradores de favelas não mudou. O governo anunciou o PAC no Complexo do Alemão como uma grande coisa, mas meia dúzia de intervenções urbanas não vão mudar décadas de exclusão. É preciso criar outra relação entre o Estado e a população. Você sabe qual é a imagem que os moradores têm do PAC no Alemão? Eles dizem que o governo só está fazendo obras lá para facilitar a passagem do “caveirão” (blindados usados pelo Bope). Virou piada. A população não acredita mais no Estado.

Como você vê a política de segurança pública no Rio?
Não só no Rio, mas no Brasil, ainda se destaca o Estado repressor. É um tipo de política de segurança pública que já se mostrou ineficaz e sem impacto algum na redução da criminalidade. O governo do Rio tem trabalhado com as mega operações, com grande número de policiais e entre cinco a dez mortos, a cada uma delas. Isso cria uma grande hostilidade da população em relação à polícia, que, na visão deles, só sobe o morro para matar. A polícia do Rio é responsável por 20% dos homicídios na cidade, com três mortos por dia.

Mas, a culpa é da polícia?
Não adianta você responsabilizar o policial que dá o tiro porque ele segue uma política de segurança pública equivocada. Não houve nenhuma redução significativa nos índices de violência no Rio que justifiquem essa linha adotada pela Secretaria de Segurança Pública, o governo estadual e a Prefeitura para combater o crime.

O que você acha do Rio sediar os Jogos Olímpicos em 2016?
Acho temerário à luz do que vivemos nos Jogos Pan-Americanos. Houve uma onda de repressão muito grande contra moradores de favelas e camelôs para “limpar” as ruas, despejo de comunidades inteiras, a chacina no Morro do Alemão, que ocorreu nas semanas que antecederam o Pan. Agora, diante da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas, parte da população já está sendo ameaçada novamente, a discussão sobre a construção de muros altos para isolar as comunidades pobres foi retomada e a retirada de pessoas da rua já começou. Depois dos Jogos, tudo volta ao normal ou pior porque essas políticas não trazem soluções definitivas.

Como foi a sua conversa com a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, na semana passada, em Boston?
Coloquei todas essas questões para ela e sugerimos que a ajuda financeira da ONU, que irá incluir o Rio no programa Cidades Mais Seguras, tenha como contrapartida do Estado a garantia dos direitos dessas populações e de medidas efetivas, e não paliativas e enganosas, contra a violência.

Qual é a sua receita de combate à violência no Rio?
Primeiro, precisamos enfrentar uma reforma na polícia, com medidas como a unificação das polícias civil e militar. Qualquer medida adotada com esse formato de polícia militarizada e repressora será paliativa. Depois, temos de mudar o foco de atuação. Dizer que a polícia do Rio está combatendo o tráfico é uma mentira porque a droga vendida nas favelas não é feita nessas comunidades, nem as armas usadas pelos traficantes, e não existe qualquer investimento da Secretaria de Segurança em inteligência nas outras pontas do narcotráfico. O morro é só o fim da linha do comércio da droga e nem é onde circula o grosso do dinheiro. O Estado tampouco tem combatido atividades ligadas ao tráfico e que ajudam a financiá-lo, como o controle do transporte alternativo por grupos criminosos, inclusive as milícias. Em terceiro lugar, temos de acabar com a corrupção, que no Rio atinge índices alarmantes e é muito mais grave na polícia porque é revestida de violência. É preciso haver controle externo e independente das polícias. Veja, na gestão anterior, a cúpula da Segurança Pública do Rio foi parar na cadeia por envolvimento com atividades ilícitas. O então deputado Alvaro Lins chegou a ser cassado e preso por irregularidades cometidas quando era o chefe da polícia do Rio. O Ministério Público e a Justiça têm de ser mais cobrados porque são responsáveis pelo controle externo e pouco fazem.

 


03.11.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil, Pelo Mundo, Afeganistão 18:54:33.

Não eram exatamente estas fotos que eu gostaria de usar, mas não encontrei as originais. Estavam em um dos jornais que eu li nas últimas duas semanas, sob o título "O jogo dos Sete Erros", só não me lembro qual foi (eu estava em férias, afinal). O fato é que existem outras semelhanças entre o Afeganistão e o Rio, que não somente o uniforme paramentado dos oficiais.

Uma delas está na estratégia de combate das polícias do Rio e dos soldados da Otan no Afeganistão, responsável na visão de muitos especialistas pelo fracasso das forças de segurança tanto lá quanto aqui. O presidente Barack Obama já percebeu o erro e conferiu a nova estratégia militar no Afeganistão ao general Stanley McChrystal. O militar moderado confia mais no trabalho de inteligência e na interação com os afegãos para o sucesso da empreitada americana no país do que nas ofensivas que matam milhares de civis inocentes, minam a credibilidade dos militares e jogam muitos para o lado dos Taleban.

O Rio ainda não enxergou isso, infelizmente, e segue investindo em mega-operações de mesmo efeito: resultam em um número alto de mortes, minam a credibilidade da polícia nas comunidades e jogam muitos jovens para o lado dos traficantes.

Outra semelhança está na ausência de um governo central forte, sem credibilidade junto à maioria. Sandra Carvalho, diretora da Justiça Global, me contava durante um café, sexta-feira, sobre como moradores do Complexo do Alemão vêem as obras do PAC: "Eles acham que o governo federal só está lá para abrir caminho para o 'caveirão' (como é chamado o camburão blindado usado pelo Bope)", diz. Isso porque o Estado quase nunca se faz presente nas favelas, exceto na forma das tais megaoperações policiais e operações de despejo. Ou seja, para o povo, o Estado e a polícia são uma ameaça e não seus aliados.

Oficiais afundados em denúncias de corrupção e de envolvimento com o narcotráfico são outros aspectos de um Estado falido que aproxima realidades tão distintas quanto as do Afeganistão e do Rio.

 


21.10.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 23:36:19.

 


07.09.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 16:27:05.

Há muito tempo uma reportagem não me tocava tanto, a ponto de, ao terminar a leitura, eu querer sair correndo e fazer alguma coisa, qualquer coisa. Há muito tempo, eu não lia um texto do começo ao fim com olhos arregalados, não fechava as páginas do jornal com um arrepio na espinha. Foi assim ao ler Crônica de Uma Morte à Toa, do colega de casa Christian Carvalho Cruz.

Conta um dia na vida do jovem Adriano da Fonseca Pereira, de 20 anos. Seu último dia, aliás. O dia da sua morte, atropelado estupidamente ao atravessar uma rua de São Paulo às 4h20. Foi surpreendido pelo produtor de eventos Fabio Melgar, de 29 anos, ao volante de um BMW que atravessou o farol vermelho em alta velocidade, atingiu Adriano em cheio e se foi, sem prestar socorro. Fugiu, deixando o corpo do jovem para trás, inerte em uma poça de sangue.

Um taxista testemunhou a cena e seguiu o motorista. Fabio Melgar foi preso em flagrante. Pagou R$ 1.228,20 de fiança e saiu com rapidez maior do que o corpo de Adriano fora liberado do IML. Melgar responderá ao processo em liberdade.

O irmão do motorista, o advogado Douglas Pereira Melgar, disse ao repórter que “o fato só ganhou essa dimensão porque ele dirigia o BMW do sócio dele; se estivesse de Fusca não seria assim.” Que tipo de comentário é esse? A vida de um jovem inocente foi perdida, cara. Poupe-nos de sua sociologia barata, por favor!

Mas, para não ser injusta, vá lá, talvez Douglas Melgar tenha razão. Primeiro, de fato, um Fusca não poderia atingir a velocidade do BMW ("fácil, fácil a uns 150km/hr”, segundo o taxista e testemunha) e Adriano da Fonseca muito provavelmente ainda estaria vivo. Segundo, nesse país desigual, acredita-se que aquele com acesso a um carro de algumas centenas de milhares de reais tenha tido alcance à educação nas melhores escolas e à informação de qualidade, o suficiente para que tivesse se tornado um cidadão de bom caráter, portanto.

*

Como repórter, queria eu mesma ter escrito aquele texto. Não é inveja, Christian. É admiração mesmo. Como cidadã, fico agradecida porque acho que é isso mesmo o que cabe a uma reportagem. Indignar, mexer com o leitor a ponto de ele se sentir motivado a fazer algo. Tive essa sensação boa, na semana passada, ao escrever sobre a falta de leitos psiquiátricos em São Paulo. Dias depois, recebi uma linda carta de agradecimento da mãe de um jovem com transtornos mentais, personagem da reportagem, por ter tido uma vaga oferecida ao filho na clínica particular de uma psicóloga que, ao contrário dos Melgar, se comovera com a tragédia do outro. Melhor seria se o governador e o prefeito tivessem também se comovido e o acesso à saúde mental fosse estendido a todos os que precisam.

 


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Adriana Carranca é jornalista e mestre em políticas sociais pela London School of Economics





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