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20.06.09

por Adriana Carranca, Seção: Oriente Médio, Irã 19:02:51.

A crise que abala os alicerces do regime iraniano era prevista. A começar por um número: mais de 70% da população tem até 30 anos. Nascidos após a Revolução Islâmica, em 1979, esses jovens não se identificam com seus ideais. Eles não viram o nacionalista Mohammed Mossadegh, líder do governo mais democrático que o Irã já conheceu, ser deposto por um golpe apoiado pela CIA, em 1953, episódio emblemático, que levou a uma crescente insatisfação do povo iraniano e mais tarde deu espaço ao surgimento de um novo líder, aiatolá Khomeini, culminando com a sua vitória, em 1979.

O movimento atual segue a mesma lógica do passado. Com a vantagem da revolução tecnológica que permite ao povo organizar-se mais facilmente hoje, via Internet - o governo até tenta, mas é impossível bloquear todos os sites, blogs, chats e a comunicação por celular, e o farsi, idioma oficial do Irã, já é o segundo da blogosfera ao lado do francês.

O nacionalismo enraizado na cultura de um povo altamente politizado e mobilizado, heranças da antiga Pérsia, não devem ser desprezados. Não é a primeira vez que os iranianos vão às ruas e nem será a última. Quando estive em Teerã, em junho e julho de 2007, o governo anunciara um programa de racionamento da gasolina - embora seja o terceiro maior produtor mundial de petróleo, o Irã não tem tecnologia para o refino e importa quase a metade do combustível consumido internamente - gerando violentos protestos. Também presenciei mulheres em passeata por igualdade de direitos e estudantes que pediam liberdade de imprensa. Todos eles foram seguidos de violenta resposta da polícia.

Mas, os persas não são um povo de se dobrar facilmente.

Que o regime atual, como é, terá de se reinventar de alguma forma ou estará fadado ao fracasso é certo. Na história recente do Irã, no entanto, falta ainda um importante personagem para que o movimento reformista culmine com uma nova revolução e a queda da ditadura islâmica: um líder com a mesma força e carisma do então jovem religioso e idealista Ruhollah Khomeini. Resta saber se Mir Hossein Mousavi terá fôlego para tanto.

 


15.06.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 19:23:26.

Peço desculpas pela longa ausência, mas ainda não aprendi a fazer tantas coisas quantas gostaria ao mesmo tempo - e tudo sempre para agora. Nessa constante crise de culpa, já recorri a remédios para “aumentar a concentração”, ioga para o mesmo fim, terapia, vitaminas energéticas e só percebi que havia chegado ao fundo do poço quando me vi seguindo para o caixa com os braços carregados depois de passar pela prateleira de auto-ajuda de uma grande livraria. Nas minhas mãos, Guia para Mulheres Ocupadas, Como Administrar o Tempo, Aprenda a Usar o Tempo e Administração do Tempo - Como Organizar e Ganhar Produtividade na Vida e no Trabalho. O difícil é arrumar tempo para ler tudo! No lugar disso, decidi voltar ao blog. Estava com saudades!

***

E volto com um convite, resultado de uma das muitas coisas que estou fazendo ao mesmo tempo, agora!

Quem estiver em São Paulo, dê uma passadinha no CineSesc (Avenida Brigadeiro Luís Antonio, 2.075), onde acontece até o dia 30 de junho a exposição Outono em Cabul, com fotos minhas, feitas durante a viagem ao Afeganistão, pelo Estado, entre novembro e dezembro de 2008.

A curadoria é do amigo e super fotógrafo Juca Varella, o “soldado da fotografia”, que eu tenho a honra de ter como colega de trabalho. O tratamento de imagens é de Alexandre Godinho e a direção de arte de Fabio Sales, outros dois bons colegas de trabalho. Conto com vocês! Depois, contem o que acharam aqui no blog.

Eu vou, mas já volto!

 


19.03.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 13:49:05.

Em visita, ontem, à Fundação Casa (antiga Febem) de Vila Maria me lembrei da pergunta que a menina de 7 anos fez ao pai, meu amigo: "papai, por que nas escolas públicas só tem crianças negras e na minha escola só tem crianças brancas?". A mesma questão me veio à mente, ontem, quando vi as salas de aula da unidade.

E, como sei que surgirá a pergunta, respondo de antemão: não, não sou a favor de cotas para negros, mas, sim, de cotas sociais, por renda familiar. O projeto de lei, aprovado na Câmara dos Deputados, e discutido hoje no senado federal me agrada mais do que propostas anteriores. Prevê a divisão das vagas nas universidades públicas e instituições federais de ensino técnico de nível médio, meio a meio, entre alunos vindos de escolas particulares e públicas.

Dentro da cota de 50% para os alunos de escolas públicas, haveria uma parte destinada a negros, mas proporcional à sua presença na população do estado. A luta contra a desigualdade racial não perde, já que os negros, como se sabe, ainda estão majoritariamente nas classes sociais baixas e nos bancos das escolas públicas.

Foto: Paulo Liebert/AE

 


12.03.09

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Iraque 11:51:33.

Em represália à decisão da Corte iraquiana de mandar para a prisão por três anos o pobre jornalista que atirou um sapato, no ano passado, contra o então presidente americano George W. Bush, quem quiser fazer o mesmo é só clicar na figura abaixo. Mais de 82 milhões de sapatos virtuais já foram atirados contra Bush - os campeões de lançamento são os próprios americanos.

 


10.03.09

por Adriana Carranca, Seção: No Brasil 17:01:58.

A caminho de casa, percurso no qual já sofri dois assaltos, presenciei um terceiro, ontem, por volta de 20 horas. Vítima profissional que virei, saquei logo a intenção dos dois jovens quando saíram de trás de uma árvore - um permaneceu na esquina e o outro se aproximou do farol. O alvo, no volante de um Corsa, dois carros na minha frente, rendeu-se logo à ameaça do garoto em sua janela e entregou-lhe a bolsa, com a qual os dois saíram caminhando tranquilamente. Liguei para o 190.

- Emergência
- Eu acabei de presenciar um assalto, no último farol da Avenida Sumaré, sentido Avenida Henrique Schaumann. Eram dois jovens e saíram caminhando para o viaduto sob a Sumaré. Um estava provavelmente armado, pois a vítima abriu o vidro e entregou-lhe a bolsa muito rapida...
- Senhora! Senhora! Um minuto! A senhora presenciou um assalto?
- Isso! Isso!
- Qual o endereço?
- Último farol da Avenida Sumaré, quase chegando na Henrique Schaumann...
- Mas, qual número, senhora?

Número, que número?

- Da rua? Não dá para ver, pois agora o farol já abriu e há uma praça. Não dá para ver o número das casas ali. Mas é no último farol da Avenida Sumaré.
- A senhora não tem o número?
- É no último farol da Avenida Sumaré, quase chegando na Henrique Schaumann, no sentido de quem vem da zona norte. Não tem erro. É muito simples: o último farol da Avenida Sumaré para quem segue sentido Henrique Schaumann. Tenho certeza de que os policiais vão encontrar.

Digo, iriam, pois os garotos já deviam estar bem longe, ainda que a pé.

- Isso seria zona sul?

E vi a minha esperança de cidadã perder-se assim como a bolsa da pobre mulher, mas continuei:

- Acho que isso seria zona sul, pode-se dizer que sim...
- E o viaduto, qual o nome do viaduto?
- Não seeeeeeeei! É uma rua que sai do último farol da Avenida Sumarééé!
- Uhm... A senhora falou que eram jovens. Mas, jovens quanto?
- Não seeeeeeei! 17 ou 18 anos. Eram altos...
- Altos, mas que altura mais ou menos?

Meu Deus, como eu vou saber? Eu estava sentada no carro! Mas, fiz um esforço. Me lembrei da altura em que a cintura do garoto batia na janela do Corsa, pensei na minha própria altura e fiz um cálculo rápido.

- Acho que 1,70 ou talvez 1,80
- Que roupa um deles vestia?
- Os dois estavam de cal...
- Senhora! Senhora! Um-de-ca-da-vez.

Os dois vestiam a mesma roupa, meu Deus!

- Ok. Um estava de camiseta vermelha e bermudão...
- Que cor o bermudão, a senhora se lembra?

Já havia se passado tanto tempo... Nesse momento, me distraí com a voz, ao fundo, de outra atendente:“Senhora! Minha senhora! Mas, a pessoa que a ameaça está aí com a senhora nesse momento?”. E pensei que, se estivesse, a pobre senhora já estaria morta, coitada. Voltei resignada à questão da bermuda:

- Não lembro, talvez cinza. Mas, o outro tinha um bo...
- Vou mandar a viatura dar uma averiguada no local.
- Mas, o outro gar...
- Tu, tu, tu, tu...

E, então, entendi porque os jovens tinham saído a pé, com a bolsa roubada, caminhando tão tranquilamente pelo meio dos carros e na calçada.

*

TESTEMUNHA DE UM ASSALTO 2
Eu morava em Londres, num apartamento térreo sem venezianas ou grades, apenas um vidro separando sala e quarto da rua. Assistia TV quando ouvi um barulho e fui espiar o que era. Quatro ou cinco jovens arrombavam a porta do carro do vizinho, estacionado sob a minha janela. Me abaixei para não ser vista e disquei 999.

- Polícia ou ambulância? E qual o endereço?

A resposta foi passada, via sistema, para a viatura mais próxima.

- A viatura já está a caminho. Agora me diga o que aconteceu.

E antes mesmo que desligasse, tive de pedir desculpas à atendente porque o interfone tocava. Eram dois policiais.

- Termine de contar a eles o que viu. Não é preciso repetir o que me disse, pois as informações já foram passadas aos oficiais via sistema enquanto falávamos.

Eles confirmaram algumas informações, vistoriaram rapidamente o carro, certificaram-se com o vizinho de que nada havia sido furtado e, a meu pedido, vasculharem o quintal e a rua de trás e se despediram:

- Outras viaturas estão avisadas e vasculham a área. Obrigada por chamar a polícia. Sabemos que é difícil lembrar-se de tudo, mas com um detalhe aqui e outro ali, uma hora conseguimos identificá-los. E fique tranquila. Faremos ronda na região durante toda a madrugada. Se perceber qualquer coisa estranha, ligue novamente.

 


18.02.09

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 20:55:08.

O Estado publicou hoje um especial sobre o Afeganistão, resultado da viagem linda que eu fiz ao país em novembro e dezembro. Até domingo, publicarei aqui histórias e curiosidades sobre o país mais assustador e fascinante que eu já visitei. Confira o especial aqui!

 


26.12.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 20:02:39.

Aos caros leitores que me acompanharam durante todo este ano...

 


20.12.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 18:45:39.

Não bastasse a guerra, o Afeganistão enfreta a maior seca dos últimos 30 anos. O rio Cabul, que atravessa a capital homônima, não tem mais água. As crianças sobem e descem as ruas áridas com regadores e baldes abastecidos com água para as famílias em poços artesianos colocados por agências humanitárias como o Crescente Vermelho.

Somente 23% dos afegãos têm acesso à água tratada.

As crianças escavam a terra dura em busca de poços.

 


19.12.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 15:04:09.

O suíço Markus Cott é daquelas pessoas que a gente sente orgulho de conhecer. Está entre um grupo seleto de pessoas que trabalham com ajuda humanitária porque se preocupam, de coração, com o outro. Ele chegou muito perto de se tornar padre, mas logo percebeu que rezar pelo mundo era pouco para ele e que só “em campo” poderia fazer alguma diferença. Há pouco mais de um ano, Markus trabalha para uma organização humanitária no Irã, mas ele conhece bem o Afeganistão, onde viveu e trabalhou por quatro anos em pleno governo Taliban.

Durante a minha passagem por Cabul, ele fez uma visita à cidade, para uma reunião. Nosso encontro foi breve e não tivemos a chance de conversar sobre a situação local. Por isso, na volta, mandei um e-mail para ele, curiosa sobre quais tinham sido as suas impressões ao retornar para o país. Foi esta a sua resposta:

"Para ser honesto, eu entrei em choque - conhecendo o Afeganistão de antes, embora aqueles também fossem tempos difíceis e muito longe de ideais para qualquer ser humano, eu me vi de volta a um país vivendo em constante estado de medo. A situação passou de ruim para pior. E eu me senti tão mal - sendo impedido de me movimentar, tendo de obedecer regras de segurança nunca tão restritas quanto agora.

Foram dias até que eu me recuperasse. Ao mesmo tempo, é verdade quando você diz que não podemos desistir de trabalhar por esse lugar e de tentar fazer alguma diferença nesse ambiente, onde as pessoas estão se adaptando a uma vida atrás de muros e grades, outra mudança que, como eu puder ver, muitos afegãos estão adotando.

É estranho e eu não tenho como expressar como fiquei infeliz com essa situação. Ao voltar para o Irã, tirei alguns dias de folga e viajei para as cidades lindas da Pérsia - Isfahan, Yazd, Kerman e Shiraz -, lugares que me fazem lembrar da beleza e história dessas terras e da bondade desse povo, o que me permitiu reconciliar com esse mundo novamente."
(Markus Cott)

 


18.12.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 18:25:53.

Jornalistas e agentes humanitários estão proibidos de circular pelo Afeganistão via estrada. Tratando-se de um estrangeiro, o seqüestro é quase tido como certo. Os Taliban têm ‘olheiros’ nas principais rodovias - e, as demais, sem asfalto, são impossíveis de trafegar por longas distâncias. Eles avisam sobre a presença de estrangeiros pelo rádio ao comando, que aprova ou não a ação.

Além de uma estratégia para criar um clima de insegurança e de falta de controle do governo no país (o que, a essa altura, não parece apenas propaganda, mas a pura realidade), eles descobriram a fonte lucrativa dos seqüestros. Nesse exato momento, dezenas de estrangeiros e afegãos estão sendo mantidos pelos Taliban. Fala-se em U$ 7 milhões pela cabeça de um jornalista americano desaparecido há um mês.

ÉTICA TALIBAN
Mas, sim, eles também têm a sua ética. Em setembro, o grupo seqüestrou quatro funcionários do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a organização humanitária mais antiga no país, em uma estrada próxima à província de Wardak, a uma hora de Cabul. Três dias depois, o comandante dos Talitan em Wardak, Hamijullah, declarou que o seqüestro foi um "engano" e, além de soltar as vítimas, pediu desculpas formais à organização.

Entre os seqüestrados, estava o chefe da segurança do CICV, um simpático macedônio que eu tive o prazer de conhecer em Cabul. Ele garante que foi bem tratado, com "água e comida" em uma casa nas montanhas, e não sentiu medo. Ele conhece bem os Taliban.

Protegido pelas leis humanitárias internacionais, o CICV mantém uma posição neutra em áreas de conflito. O objetivo da organização é garantir que sejam respeitados por todos os lados, não importa quem sejam, as regras humanitárias mesmo no meio de uma guerra. É o CICV quem negocia com o governo americano para que mantenha condições humanas e padrões mínimos de justiça na prisão militar de Bagram, onde milhares de afegãos ainda são mantidos sem julgamento. Por outro lado, é também o CICV quem negocia com o Taliban pela liberdade e vida de seqüestrados. Em agosto, foi a organização que facilitou a liberdade de sul-coreanos mantidos por mais de um mês pelos Taliban - dois foram mortos, mas 21 saíram com vida.

 


17.12.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 18:46:58.

Estou de volta. Teriam sido 48 horas diretas de viagem desde Cabul até pisar novamente em São Paulo, não fossem os vôos lotados para o verão no Brasil, que me prenderam por outros três dias em Londres e me obrigaram a acabar voando de Paris na última poltrona disponível no mês de dezembro - A48 - de um Boeing 777 com mais de 300 passageiros.

Confesso que foi um choque acordar de novo no primeiro mundo, como dizem aqueles que gostam de rótulos. Ruas asfaltadas, prédios inteiros, água quentinha, energia suficiente para iluminar as luzes do Natal londrino. Mas o que mais me causou estranheza foi poder de novo andar nas ruas livremente.

Como sou muito mais teimosa do que medrosa, fiz isso muitas vezes pelas ruas de Cabul, inclusive do centro antigo e miserável, pelos mercados de rua e campos de refugiados, para o desespero do motorista e do tradutor que me acompanhavam e teimavam em me alertar sobre o perigo dos seqüestros de estrangeiros. “Pelo menos, não fale em inglês”, pedia o tradutor. Nós combinávamos antes as perguntas que ele teria de fazer a cada uma das pessoas nas ruas e, depois, íamos para um canto qualquer onde ele traduzia as respostas. Uma a uma.

SEQÜESTROS
Fala-se em 70 pessoas seqüestradas. Muitos estrangeiros. Muitos jornalistas. Como no Brasil, a imprensa mantém-se em silêncio para não prejudicar as negociações ou colocar em risco a vida das vítimas. E há ainda os assassinatos recentes, como de uma agente humanitária inglesa e dois funcionários da empresa DHL, entre outros. O clima de insegurança minou a liberdade de ir e vir tanto de estrangeiros como de afegãos, principalmente os que trabalham para organizações internacionais. Muita gente só vê Cabul da janela de um carro. Infelizmente.

Passarei os próximos dias revendo as histórias que apurei e dividindo no blog as lembranças desse lugar castigado por consecutivos conflitos, mas que ainda consegue cativar visitantes como eu.

 


04.12.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 04:07:26.

Nas ruas de Cabul, não há qualquer sinal visível da reconstrução prometida pelos americanos ao liderar a invasão do país, após os atentados de 11 de setembro.

A destruição dos prédios tem várias fases desse conflito de três décadas. Algumas áreas foram completamente destruídas durante a guerra civil e continuam assim intactas.

As ruas não têm asfalto, mesmo aquelas em que moram políticos e diplomatas. Só nas avenidas principais, ainda assim, esburacadas.

E a miséria está em toda parte. Nas mulheres de burca pedindo esmola.

Nas crianças trabalhando nas ruas.

Nas casas sem água ou energia elétrica.

Cabul, a capital, tem energia elétrica apenas por quatro horas a cada 48 horas. O restante funciona com imensos geradores, que os pobres, maioria da população, não têm condições de comprar. No último inverno, muita gente morreu de frio. Nos hospitais, há gente que morre porque os aparelhos simplesmente param de funcionar.

Sete anos desde a invasão e a maioria dos afegãos não vê mudança. Isso destrui a esperança trazida com a presença das forças internacionais, comemorada por muitos em 2001, e a confiança no governo de Hamid Karzai. A guerra acontece em paralelo, enquanto as pessoas estão preocupadas em sobreviver, o que alimenta a violência e o terrorismo. Em muitas províncias, sabe-se que os Taliban oferecem salário aos camponeses para lutar do seu lado.

 


02.12.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 12:18:51.

As burcas, que se tornaram símbolo da opressão feminina na era Taliban, continuam sendo usadas pela maioria das mulheres afegãs, mesmo na capital Cabul. São, na realidade, uma tradição adotada há mais de um século no Afeganistão, Paquitão, Índia e Bangladesh. Chegou a ser símbolo de status, quando só as mulheres da alta sociedade usavam. Depois, passou a ser visto como algo retrógrado. O que fizeram os Taliban foi torná-las obrigatórias por lei, contrariando a tradição. Ainda hoje, os senhores de guerra que comandam muitas das províncias obrigam as mulheres a usá-las, embora a lei não exista mais. Em Cabul, o motivo do uso varia entre obediência ao marido e simples opção. Vi muitas mulheres usando a burca sobre a cabeça, mas com a parte da frente jogada para trás, mostrando o rosto. Ninguém parece ligar. Outras, usam apenas o véu. Nas escolas, o uniforme é composto de cança e blusa pretas largas e um véu branco sobre os cabelos.

 


30.11.08

por Adriana Carranca, Seção: Afeganistão 17:57:41.

Os dias por aqui têm sido contados em explosões: 'Que dia foi tal coisa? Ah, tal coisa foi um dia depois daquele último atentado, não?'. E mesmo numa cidade como Cabul, apesar dos 4 milhões de habitantes, você sempre pode dizer que estava relativamente perto de um ataque suicida, principalmente, quando eles acontecem com essa freqüência.

Mas, Hassim, o motorista que me acompanha, não parava de falar nisso o dia inteiro. Exatamente às 14h40 de ontem nós passávamos pelo ponto onde, hoje, um homem-bomba detonou seus explosivos no mesmo horário, próximo à Embaixada da Alemanha, matando dois afegãos e ferindo três. A razão porque o motorista lembrou-se disso foi eu ter pedido a ele que parasse o carro para tirar a foto de uma escola, a Habib High School, cuja placa me veio rapidamente à mente, junto com um arrepio na espinha, quando ele me lembrou da cena.

Ele respondeu que não, porque estávamos atrasados: 'temos de estar na próxima entrevista em 20 minutos'. A entrevista seria às 15h, por isso, sabemos o exato horário em que passamos no local. Eu abri a janela e tirei uma foto da mesquita do meu lado da avenida, com o carro em andamento. Foi entre a mesquita e a escola que a explosão ocorreu hoje.

Quando o carro para no caótico trânsito de Cabul, o coração aperta, a garganta seca, os músculos se contraem. É uma sensação que cansa e quem vive aqui já está, literalmente, cansado dessa guerra. Não é sempre assim, mas hoje as ruas ficaram vazias mais cedo. A cidade entrou em alerta e as pessoas pareciam tristes.

 


29.11.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 04:37:33.

Muitos têm me perguntado como é o dia-a-dia em Cabul. Além da imensa beleza das montanhas que cercam essa cidade castigada por 30 anos e guerras, a coisa que mais me impressionou sobre Cabul é que consegue manter uma vida cotidiana com certa normalidade. Exceto pelas embaixadas e agências humanitárias, não se vê uma segurança tão ostensiva nos lugares públicos, mesmo os hotéis. Não se sente a opressão de um país em guerra.

Cabul dá uma – falsa – sensação de segurança. Os afegãos estão nas ruas e tudo funciona normalmente: shoppings, supermercados, padarias, farmácias, lojas de construção e decoração, butiques, restaurantes, fast-food, pizzarias. Descobri um delivery chamado Pizza Brasil, comandado por um casal de brasileiros que eu ainda não entrevistei, mas o farei.

Na primeira noite em Cabul, fui levada a um restaurante turco, com mesas cheias de gente alegre jogando conversa fora. Na segunda noite, fui apresentada a um restaurante afegão aberto após a era Taliban em um casarão antigo, com um belo jardim, onde há mesas e cadeiras ao ar livre e também tapetes e almofadas para sentar no chão. Dá uma sensação estranha lembrar que você está no meio de uma guerra mas, ao mesmo tempo, uma certa paz de espírito de saber que ainda pode existir vida num lugar mergulhado em conflitos.

Após 21h já não há mais ninguém nas ruas escuras de Cabul, apenas seguranças privados e policiais. Termino cedo o meu jantar surpreendida com a boa comida afegã e o agradável ambiente com música típica e à luz de velas, o que evita os constantes blecautes na capital. É o jeitinho afegão de lidar com a tragédia. A vida segue, como é possível.

 


28.11.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 11:19:45.

Eu estava num carro da Cruz Vermelha, a caminho de um dos hospitais mantidos pela organização, quando ouvi pelo rádio sobre o atentado suicida em pleno centro de Cabul, a 100 metros da Embaixada dos Estados Unidos, no feriado mais importante para os americanos, o ThanksGiven. Os Taliban, que mais tarde assumiram a responsabilidade pelo atentado, têm coordenado ataques como este para mostrar a sua força. É a ‘Taliban propaganda’, como definiu para mim o porta-voz da ISAF, a força de segurança internacional, Richard Blanchette.

Ligo para um amigo e peço para que me leve ao local do atentado. As autoridades locais são rápidas em ‘limpar’ a cena e, quando eu chego, os carros atingidos e as vítimas já tinham sido retirados. Pouco mais de uma hora depois e a vida já seguia normal para os afegãos. As pessoas estavam de volta aos pontos de ônibus, às compras, ao trabalho.

O carro explodiu em uma grande avenida e, dos dois lados, comerciantes limpavam o sangue na calçada e tentavam improvisar portas e janelas com pedaços de lençol e cobertores. Eu não podia acreditar no que via. Em um raio de 100 metros em torno do local onde o carro explodiu, e onde agora há uma pequena cratera, apartamentos residenciais e pontos de comércio tiveram portas arrancadas e vidros quebrados. As crianças ‘brincavam’ de achar pedaços dos carros e de corpos – não, eu não tive estômago para ver isso – sobre as árvores.

Abdul Wodood, de 36 anos, dono de uma mercearia em frente ao local do atentado, mostra as mãos machucadas por cacos de vidro e me conta que já é a segunda vez que ele está muito próximo de uma explosão. Pergunto se não tem medo e se alguma vez pensou em fechar seu pequeno negócio, que fica perto da embaixada americana. “Não, essa não é uma opção para mim. Eu dependo do meu negócio. E não importa onde você está nesse país, está correndo risco. Uma bomba pode explodir em qualquer lugar. O que eu posso fazer? É só mais um dia comum para os afegãos.” Ele assistiu ao atentado de sua janela. Mas não vou descrever aqui a cena que me contou, porque é simplesmente horrível.

Mohammed Kader, de 37 anos, estava em sua pequena barraca de sucos quando ouviu a explosão e, então, viu uma ‘montanha de fogo’ na sua frente e um carro ser lançado três metros adiante. Kader diz que correu para ajudar um homem que fora atingido pela explosão quando passava com sua bicicleta. Ao chegar mais perto, viu que o homem já estava morto.

Ele conta que o suicida dirigia um Corolla que colidiu com outros dois carros e daí houve a explosão – o que me faz pensar que o suicida realmente tinha como objetivo chegar mais perto da embaixada americana, mas se envolveu em um acidente de transito antes disso. Não é difícil imaginar a adrenalina de quem está perto de se explodir... E esses caras são apenas miseráveis convencidos de que encontrarão o paraíso, onde terão comida farta e sete esposas.

 


26.11.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 09:28:01.

O jornalista afegão que estava no mesmo vôo que eu para Cabul me liga gentilmente mais tarde para perguntar se já estou bem instalada e me sentindo ‘segura’. Ele me conta que, depois do aeroporto, passou em casa para deixar as malas, antes de ir para o escritório, e saber das novidades pela mãe, os três irmãos, duas irmãs, a mulher e a filha. As notícias não foram boas. Uma prima, jovem e cheia de vida, estava entre as vítimas de um ataque suicida em Kandahar. Aos 20 e poucos anos, ela perdeu as duas pernas. O marido também se machucou, mas não gravemente.

Duas outras meninas conhecidas da família, também de Kandahar, tiveram o rosto deformado por ácido jogado em seus rostos miúdos por militantes Taliban, para preveni-las de ir à escola. “Você sabe, Adriana, são essas coisas que me deixam triste sobre viver e trabalhar aqui. Sempre há notícias, mas elas nunca são boas. Assim é a vida no Afeganistão”.

Foto: Omar Sobhani/Reuters

 


por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 06:54:03.

Não sei quantas vezes na última semana ouvi a frase: “Be careful”, “Be extremely careful” (tenha cuidado; tenha muito cuidado) mesmo das pessoas mais acostumas com lugares em conflitos. O jornalista e amigo Matt Rosenberg, do Wall Street Journal, que acaba de voltar de Cabul, avisa: “A situação está muito, muito ruim. Não ande na rua sozinha, nem mesmo por um quarteirão”. Bem, ele também me sugere levar uma lanterna. Por quê? “Porque não é raro faltar luz no aeroporto e você não vai gostar de se ver sozinha no escuro naquele lugar.”

O fato é que nos últimos meses a violência se espalhou e deixou de ser unicamente relacionada com a guerra e os Taliban. Ninguém sabe ao certo os motivos de recentes assassinatos, em pleno centro de Cabul, de dois funcionários do DHL e de uma agente humanitária inglesa que trabalhava para uma ONG cristã. Uns falam em extremismo religioso, outros em caça a estrangeiros. Mas, pode ser simplesmente violência urbana.

Aqui também a miséria empurra jovens dos centros urbanos para a criminalidade e a nova moda são os seqüestros. E não só de estrangeiros, mas também de afegãos. Há uma série de seqüestros em andamento, sobre os quais a imprensa não fala. Assim como no Brasil, existe entre os meios de comunicação um acordo em não reportar sobre seqüestros em andamento, para preservar a vida das vítimas.

No último mês, as organizações humanitárias que têm expatriados no país acenderam o sinal vermelho de alerta. Os funcionários de organizações como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e a ONU estão proibidos de sair ruas a pé, não podem se movimentar de um lugar a outro mesmo dentro de um carro, se não acompanhados por um segurança, e estão impedidos de freqüentar qualquer lugar após as 19h. À noite, os carros são parados em inúmeros bloqueios militares ou pela polícia afegã. Às 21h, já não há mais ninguém nas ruas de Cabul.

Pickups particulares costumam rodar com homens armados, os carros da ONU têm radar anti-explosivos...

... as ruas onde vivem os expatriados têm o acesso bloqueado por cancelas e seguranças privados...

... as embaixadas e casas de oficiais têm cercas elétricas e um muro falso de concreto rodeando toda a residência.

"Se eles, pelo menos, tivessem usado todo esse concreto para reconstruir o país, estariam mais seguros e livres do terrorismo do que estão agora", diz Farhad Peikar, um jornalista afegão que trabalha para agência alemã DPA e a rede de TV americana CNN.

 


24.11.08

por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 17:54:00.

A minha primeira visão de Cabul foi um cemitério de velhos tanques de uma guerra que já dura há 30 anos - desde a invasão pelos russos, em 1979.

A segunda visão de Cabul foram os aviões militares dos novos invasores - hoje, 40 países estão no Afeganistão com uma tropa de 47 mil homens – e os helicópteros das agências humanitárias, com seus outros milhares de agentes trabalhando no país.

No desembarque, vejo a placa Khosh Amadi Kabul (bem-vindo a Cabul) e, animada por finalmente chegar até aqui, pergunto ao jornalista afegão que está no mesmo vôo se ele pode tirar uma foto. “Minha cara, isso é um aeroporto militar. Suas férias acabaram. Bem-vinda ao Afeganistão.”

 


por Adriana Carranca, Seção: Pelo Mundo, Afeganistão 12:51:21.

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Embarco num avião da Indian Airlines, a companhia aérea cujo nome sempre vem acompanhado de algum comentário como ‘segurança e confiabilidade duvidáveis’ nos guias de turismo.

Mal consigo acreditar que, finalmente, estou a caminho do Afeganistão. O dia está claro e, da janela, vejo a paisagem lá embaixo. Pergunto ao passageiro do lado: “Isso é o Afeganistão?”. Ele responde: “Não, espere para ver as montanhas. Ali será o Afeganistão.”

Quando elas aparecem, enchem totalmente o horizonte com seus picos brancos já cobertos pela neve. Lindo cenário. É fácil entender como os Taliban e a Al Qaeda sumiram nesse mar de montanhas. Onde quer que esteja Osama Bin Laden, impossível encontrá-lo aqui.

As montanhas cobrem 70% do Afeganistão. Outros 15% são inabitáveis. E os 15% restantes são o pequeno território onde vivem os afegãos e onde toda a tragédia dessa guerra realmente se faz sentir

 


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Adriana Carranca é jornalista e mestre em políticas sociais pela London School of Economics





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